20/11/2009 - 14:27h Abbas quer que Lula dê recado a Teerã


Líder palestino pedirá ao Brasil que interceda junto ao presidente do Irã por fim de apoio ao grupo radical islâmico Hamas

À Folha presidente da ANP diz que país pode agir mais pela paz no Oriente Médio; em Salvador, ele se reúne com o colega brasileiro hoje


Ricardo Stucker/PR

Presidente Lula come acarajé em jantar em Salvador com o líder da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas (esq.), e um tradutor


SAMY ADGHIRNI – FOLHA SP

ENVIADO ESPECIAL A SALVADOR

O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, quer que Luiz Inácio Lula da Silva use suas boas relações com o iraniano Mahmoud Ahmadinejad para pedir que Teerã pare de apoiar o grupo radical Hamas, seu maior rival interno.
A declaração de Abbas foi feita ontem em entrevista exclusiva à Folha na véspera de seu encontro oficial com Lula (os dois líderes tiveram um jantar privado ontem) e quatro dias antes da visita de Ahmadinejad ao Brasil. Em conversa com a reportagem, o presidente da ANP acusou Israel de alimentar as divisões entre palestinos e disse que o atual governo israelense é o primeiro da história a não querer a paz.
Abbas, que viaja em avião cedido pelo governo do Marrocos, defendeu que o projeto de proclamação da independência palestina seja levado à ONU.

FOLHA – O que o sr. dirá ao presidente Lula?
MAHMOUD ABBAS -
Há muito tempo que temos relações com Lula. Acreditamos que o Brasil deveria ter um papel no processo de paz e pediremos que ele tome a oportunidade de assumir esse papel. Sei que é respeitado por israelenses e árabes, palestinos em particular. Não estamos falando de coisas específicas, mas de aspectos gerais.
O Brasil, como país importante, e o presidente Lula, como líder respeitado, podem ter um papel importante. Há muitas maneiras de atuar pela paz.

FOLHA – O sr. quer o apoio do Brasil a uma declaração unilateral de independência palestina?
ABBAS -
Não dizemos que proclamaremos independência unilateralmente. O que planejamos é que a Liga Árabe leve a questão de um Estado palestino ao Conselho de Segurança [da ONU]. Trabalharemos com os países árabes para chegar a um projeto concreto. Mas não agora, nem unilateralmente.

FOLHA – É coincidência o sr. vir ao Brasil poucos dias após a visita do presidente de Israel, Shimon Peres?
ABBAS -
Sim. Perguntamos ao governo brasileiro qual data seria mais conveniente para nossa visita e foi essa que eles ofereceram. Não planejamos nada.

FOLHA – O Brasil gostaria que o sr. recuasse da decisão de não tentar a reeleição. Existe essa chance?
ABBAS -
Não serei candidato. A decisão que tomei é definitiva. Temos instituições, governo, autoridade, gabinete, aparato policial e estabilidade. Não acho que minha decisão levará ao fim da Autoridade Palestina [como sugerido por analistas].

FOLHA – O sr. crê que o Irã apoia o Hamas? Gostaria que o Brasil intercedesse sobre a questão junto ao presidente Ahmadinejad?
ABBAS -
Sim. O Irã apoia o Hamas com dinheiro. As decisões do Hamas estão nas mãos de Teerã. Espero que ele [Lula] possa lhe dizer [a Ahmadinejad] algumas coisas a respeito de tudo o que acontece no Oriente Médio. Acho que o presidente o fará.

FOLHA – As divisões entre palestinos servem aos interesses de Israel?
ABBAS -
Isso é claro. As divisões entre palestinos são um pretexto que serve para reforçar o argumento de Israel de que não se sabe quem são os interlocutores do nosso lado. Não acho que os israelenses o tenham provocado [o racha], mas eles o estimulam e o mantêm para benefício próprio.

FOLHA – O que mudou após a posse do atual governo israelense?
ABBAS -
Este governo não acredita na paz. Os anteriores, especialmente o de Ehud Olmert, conversavam com a gente sobre todos os temas da negociação. Estivemos muito perto de alcançar uma solução final, mas isso não foi possível devido a problemas internos em Israel [acusações de corrupção contra o governo]. Olmert caiu, e sua sucessora [a então chanceler Tzipi Livni] não conseguiu formar um governo, e perderam as eleições. Hoje há no poder uma coalizão que não crê na paz.

FOLHA – Israel alega que são os palestinos que travam o diálogo ao exigir o congelamento das assentamentos na Cisjordânia sem considerar seu crescimento natural.
ABBAS -
Israel deveria cumprir com o que está determinado no Mapa do Caminho, que diz claramente: Israel deve cessar a expansão de todo tipo de assentamento, incluindo a expansão natural. É obrigação dos israelenses. Aliás, nós cumprimos com todas as nossas obrigações, os americanos e israelenses reconhecem isso. Israel não cumpriu nenhuma das suas.

FOLHA – Quando o sr. voltará a se encontrar com o atual premiê israelense, Binyamin Netanyahu?
ABBAS -
Quando ele aceitar dois princípios: o fim dos assentamentos e a retirada israelense até as fronteiras de 1967. Voltaremos a conversar no mesmo dia em que ele concordar com isso. Antes disso não há razão alguma para vê-lo. Estive com ele nos EUA, não passou de uma formalidade.

FOLHA – Como o sr. vê a política de Barack Obama no Oriente Médio?
ABBAS -
No início ele chegou a dizer que Israel deveria pôr fim à expansão dos assentamentos, mas infelizmente mudou de ideia. Mesmo assim, ainda cremos que ele acredita na paz e tem boas intenções para resolver os problemas na região.

FOLHA – Cresce o coro dos que advogam pela solução de um Estado para dois povos. O que sr. acha?
ABBAS -
Acreditamos na solução de dois Estados. Também não acreditamos na solução das fronteiras provisórias. Nosso Estado deveria ser criado dentro dos limites anteriores à guerra de 1967, com Jerusalém sendo a capital. São essas as fronteiras do Estado palestino. É a única maneira de podermos conviver com os israelenses em paz e segurança.

15/02/2009 - 19:35h Sobre os prémios World Press Photo 2008


Yannis Kolesidis/Reuters, Grécia, 2º prémio People in the News

O crítico do Público Eduardo Cintra Torres é um espectador atento à criação fotográfica contemporânea e ao fotojornalismo em particular.
Eis o texto que escreveu para o Arte Photographica sobre os prémios World Press Photo 2008 ontem divulgados:

Não há luz ao fundo da porta do fundo das nossas casas

O Iraque e o Afeganistão desapareceram dos prémios World Press Photo relativos a 2008. Não há entre as fotografias premiadas nada da guerra no Iraque (mas ainda há guerra no Iraque? Esta semana, em Badgad, o movimento do anti-american radical cleric Al-Sadr, como lhe chama a imprensa americana, patrocinou uma boa exposição de pintura contemporânea iraquiana). Do Afeganistão, nada também. E do Médio Oriente, onde ocorreram duros combates entre Israel e o Hamas, chega apenas uma fotografia, anterior ao conflito. É uma imagem de perturbadora beleza: quatro manifestantes palestinos procuram abrigar-se debaixo de uma oliveira isolada enquanto pelo chão se espalha uma nuvem de gás lacrimogéneo; a mancha branca do gás é bela, igual aos farrapos de nuvens verdadeiras no céu azul com que parece misturar-se, o nevoeiro lacrimoéneo quer esconder o mal que alberga; e a oliveira, tão bonita, símbolo de paz, no meio da pequena clareira onde o gás ainda não chegou, parece o antídoto contra o gás venenoso, mas, na sua velhice, enrosca-se em si mesma, dando um movimento adicional à imagem que nos diz como a paz é torta e difícil naquele lugar. A fotografia não ganhou o primeiro prémio, nem as fotografias do conflito mais ilustrado deste ano, o da guerra na Geórgia, que aos tanques e militares preferiram gente que chora mortos: o fotojornalismo, como a pintura desde pelo menos a Segunda Guerra Mundial, não quer saber de vitórias militares, apenas vê derrotas humanas.

É o caso das guerras tribais no Quénia, que motivaram imagens premiadas, fotografias extraordinárias que mostram que não há ali diferença entre vencidos e vencedores, os que matam e os que morrem são intermutáveis, é terrivelmente difícil sentir pena, apenas se sente horror pelo grau zero a que chega o valor da vida: aquela criança que à porta de casa agita as mãos quando chega o assassino de cacete na mão tem o horror da morte espelhado no gesto.

Há ainda outras guerras destacadas pelos prémios deste ano. São as guerras da natureza contra o homem, a que chamamos catástrofes naturais: um terramoto na China premiou um instantâneo com o primeiro lugar nessa categoria e originou um outro segundo prémio para uma fotografia que parece caótica por nos transmitir o caos da destruição em Beichuan; um ciclone em Myanmar arrancou o terceiro prémio de reportagem; um vulcão no Chile transmitiu toda a beleza da explosão ao primeiro prémio na categoria Natureza. Há também as guerras nas favelas, as guerras de gangues, o terrorismo em Bombaim. E sobra sangue: sangue no desporto (no judo, no boxe), sangue nos chãos de zonas de conflito e sangue que escorre debaixo da manga dum manifestante em Atenas, numa fotografia de impressionante composição: em primeiro plano, à direita, a manga dum blaser, o sangue que escorre pela mão, a mão que segura um dossiê, mão de professor. À sua frente, os escudos da polícia de choque: o sangue é o índice da violência e da irredutibilidade das posições.

Todavia, dentre todas as imagens, o júri escolheu para fotografia do ano a imagem de um polícia dentro de uma casa desocupada. Ele está armado, aponta a arma para uma divisão da casa que não podemos ver. O chão da divisão em que nos encontramos com ele está caótico: caixotes espalhados, lixo, papéis, mobílias velhas. Na parede ao fundo, um aplique torto; na casa de banho pela porta aberta em frente, a mesma desarrumação. Só a legenda nos pode explicar esta imagem marcada por uma violência que já passou (a desarrumação) e por uma violência que poderá chegar (o polícia que se precavê de arma apontada). Esta guerra é outra, diz a legenda: “Economia dos EUA em Crise: depois dum despejo, o detective Robert Kole tem de garantir que os moradores saíram da sua casa. Cleveland, Ohio, 26 de Março”.

Esta guerra chegou ao interior dos Estados Unidos. É mesmo uma guerra, vê-se os indícios dela. E é um drama, vê-se pela composição: a parede do fundo é como um pano de teatro paralelo aos espectadores (nós que vemos a fotografia), há portas como no teatro, há um movimento subtil do polícia, como os dos actores no palco. Há suspense: que poderá acontecer na outra divisão da casa? Estará alguém lá? Imaginamos que a família saiu, de rastos pela miséria que sobre ela se abateu, e vingando-se, deixando o lixo para quem vier a seguir: mas será que a família desesperada se esconde ainda no quarto ao lado?

A composição como de um palco de teatro favorece a organização harmónica, fornecendo a compreensão estética que compensa o caos dos elementos soltos. E essa harmonia é reforçada por um elemento paradoxal: o polícia, que parece estar do lado direito da imagem, por já ter ultrapassado a porta do fundo, está afinal exactamente no centro geométrico da imagem: o colt que traz à cintura marca o ponto em que as diagonais se intersectam.

Lemos as imagens da esquerda para a direita, e aqui essa narrativa só nos promete incerteza e a hipótese de conflito e de medo. Como nos quadros, a luz vem da esquerda, do passado, dos tempos alegres em que a família viveu nesta casa; a escuridão está à frente do polícia e por isso à nossa frente, do lado direito, é o negro para lá da porta, o Adamastor da crise. É para lá que o polícia aponta a arma: para o futuro, para a crise, para uma guerra em potência dentro das nossas casas — aquele vazio negro é o túnel sem luz ao fundo que nos ameaça a todos. Esta fotografia é um ícone da crise que chegou, da crise que está, da guerra das famílias contra a crise, o Adamastor, o monstro negro. É o ícone do fim da era Bush e das suas guerras pelo mundo fora, é o ícone do início da era Obama, da guerra interior com que se vêem a braços milhares de milhões de famílias, empresas, polícias e policiados da América e de cada país do mundo.

Eduardo Cintra Torres

10/02/2009 - 14:24h É hora de romper o círculo vicioso

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Amos Oz, International Herald Tribune* – O Estado SP

Ehud Olmert, premiê israelense, declarou que Israel dará uma resposta “desproporcional” a qualquer novo ataque do Hamas contra seus civis. Acho que uma resposta desproporcional é uma resposta imoral. Uma punição desproporcional é uma punição imoral.

Essa desproporcionalidade fortaleceria os candidatos extremistas nas eleições israelenses e atenderia aos objetivos dos fanáticos na Faixa de Gaza e no mundo árabe.

Operações militares desproporcionais nada mais são do que vingança. E vingança nada mais é do que a satisfação de instintos primitivos básicos.

Vejo o Hamas como um bando de criminosos que, há muito tempo, direciona sua ação contra civis israelenses. Nos últimos anos, nada menos do que 10.000 foguetes foram lançados pelo grupo contra cidades e povoados dentro de Israel.

O Hamas também é um bando de criminosos porque usa civis palestinos como escudos humanos e porque, cinicamente, esconde-se atrás de mulheres e crianças.

Mas matar mais civis palestinos não vai levar a nada, já que os radicais islâmicos não se importam absolutamente com essas mortes.

Como o líder do grupo na Síria, Khaled Meshal, disse recentemente, “a atual geração de palestinos pode ser sacrificada”.

A única resposta eficaz é um ataque bem calculado, proporcional, contra os criminosos do Hamas, que tente ao máximo poupar a vida de palestinos inocentes. O Egito está intermediando um cessar-fogo e Israel tem de dar uma chance a essa mediação.

Não devemos nos esquecer que o maior revés para o Hamas seria um eventual acordo de paz entre o governo de Israel e a Autoridade Palestina do presidente Mahmud Abbas. Um acerto desse tipo entre palestinos e israelenses é possível – e talvez até mesmo iminente.

* Amos Oz é escritor israelense

08/02/2009 - 09:35h Israel: eleição é o epílogo da guerra em Gaza

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Gilles Lapouge* – O Estado SP

Na terça-feira teremos eleições em Israel. Será o epílogo da guerra contra Gaza e o Hamas, que matou um grande número de civis palestinos. Não devemos esquecer que o conflito foi arquitetado pelos trabalhistas (Ehud Barak é ministro da Defesa) e pelo Kadima (Tzipi Livni é chanceler) para tentar derrotar o Likud de Benjamin Netanyahu e seus aliados da direita religiosa e secular.

A operação contra Gaza alcançou o objetivo? Os trabalhistas e centristas conseguirão derrotar Netanyahu? No início, acreditou-se que sim, pois a operação foi um sucesso. Agora, porém, os israelenses se perguntam se o triunfo militar não foi um fracasso político.

O Hamas continua de pé. Os túneis por onde recebiam foguetes e armas foram destruídos, mas já estão sendo reconstruídos. No plano internacional, a violência foi desaprovada. Até Yagil Levy, um israelense especialista militar, se disse chocado com o número de palestinos mortos.

A proporção, que durante a Intifada foi de seis palestinos para cada israelense, desta vez foi de 60 para um. Levy acredita que alguns militares do alto escalão devem ser levados a tribunais internacionais. Aqueles que lançaram o bombardeio (trabalhistas e Kadima) não melhoraram sua posição. Netanyahu está tão certo da vitória que, no início, nem se preocupou em fazer campanha. Há alguns dias, contudo, resolveu sair de sua “torre de marfim” e participou do debate eleitoral.

Por que? Porque sua liderança diminuiu, mas apenas ligeiramente. O Kadima, partido fundado por Ariel Sharon, uma figura carismática, cresceu. Além disso, surgiu em cena um personagem inesperado: Avigdor Lieberman. De origem russa, ele lidera o partido ultranacionalista Israel Beiteinu.

Orador eloquente, ele aproveitou-se do mal-estar em Israel para ampliar seu eleitorado. Segundo pesquisas, seu partido está na frente dos trabalhistas. Portanto, ele será fundamental na formação do próximo governo. Likud e Kadima estão de olho nele. Netanyahu já lhe prometeu um cargo importante. Além disso, temendo ver mais um a sua direita, endureceu seu discurso e afirmou que o Likud manterá Jerusalém unida sob a soberania de Israel.

Livni não ficou para trás. Sabe que há uma rivalidade entre os dois líderes da direita – Netanyahu e Lieberman – e tenta atrair o Israel Beiteinu. Ela não está desesperada para chegar lá, mas alguns observadores acham que ela está se iludindo.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

01/02/2009 - 12:28h ”Solução de dois Estados só depende de Israel”

http://www.chinadaily.com.cn/world/2007-05/21/xin_18050421084960260554.jpghttp://arrastao.org/ficheiros/800px-israel_and_palestine_peace.png

Jimmy Carter: ex-presidente americano; segundo Carter, medida não foi adotada até agora porque israelenses rejeitam se retirar da Cisjordânia

 

Reza Aslan, Global Viewpoint – O Estado SP

 


O ex-presidente dos EUA Jimmy Carter debate as perspectivas para uma solução de dois Estados para a crise palestino-israelense, bem como a política externa americana diante do Irã.

Segundo os argumentos do seu novo livro, “Podemos chegar à paz na Terra Santa: Um plano que vai funcionar”, a imensa maioria dos israelenses e palestinos já aceita os parâmetros de uma solução de dois Estados. Então por que a solução de dois Estados ainda parece tão longe de se tornar realidade?

Até o momento isso se deveu ao fato de os israelenses não estarem dispostos a dar um passo fundamental, que é a retirada da Cisjordânia. Isso é central para a solução do conflito, e Israel não apenas continuou a aumentar o número de assentamentos no território como também construiu uma muralha na área palestina da Cisjordânia. Se os israelenses aceitarem a solução, terão de se retirar da Cisjordânia e eles ainda não demonstraram disposição em fazê-lo.

Parece que durante cerca de 40 anos o status quo beneficiou Israel. Mas agora parece que ocorreu uma virada, em termos demográficos. Não falta muito tempo para que haja mais árabes do que judeus entre o Mediterrâneo e o Rio Jordão. Esta não é a verdadeira ameaça à existência de Israel?

Exato. Logo haverá uma maioria árabe naquele território de um único Estado, o que significa que Israel terá apenas três opções completamente inaceitáveis. Uma delas é o que se pode chamar de limpeza étnica, coisa que ninguém deseja, e isto significa obrigar os palestinos a deixar o território. A segunda opção seria ter um país dentro do qual houvesse duas classes de cidadãos: uma delas seria composta pelos judeus, que teriam direito ao voto; a outra seria formada pelos árabes sem direito ao voto. E isso seria equivalente ao apartheid sul-africano.

A terceira e última opção é deixar que os árabes detenham a maioria dos votos, e com alguma divisão entre os judeus, e os árabes votando em bloco, eles controlariam todo o governo e não haveria mais um Estado judaico. Estas são as opções, excluída a solução de dois Estados.

Parece que a opinião pública e a mídia americanas estão mais dispostas a criticar Israel após a guerra em Gaza.

As pesquisas mostram que isso é verdade. Acho que veremos grandes mudanças, e a demonstração mais concreta é a eleição de Barack Obama. Desde sua primeira semana na presidência, ficou claro que a paz no Oriente Médio será uma de suas prioridades. E o enviado especial escolhido por ele, George Mitchell, é muito mais qualificado do que muitos de seus predecessores.

A maioria dos israelenses está disposta a abrir mão da Cisjordânia em troca da paz, e os palestinos desejam a mesma coisa. A poderosa voz do presidente dos EUA terá um imenso impacto sobre a opinião pública, não somente no seu país, mas também nos territórios palestinos e em Israel.

Qual seria a principal lição que o presidente deveria aprender a partir da sua experiência nas tentativas de encerrar o conflito no Oriente Médio?

Os EUA precisam desempenhar um papel forte desde os primeiros momentos de seu governo, sendo enfáticos nos esforços para conduzir as negociações até a sua conclusão. É necessário agir logo, demonstrar comprometimento profundo e ser persistente.

Este processo começa com o reconhecimento do papel desempenhado pelo Hamas nas negociações?

Ainda é cedo para isto. O Hamas se comprometeu a aceitar qualquer acordo negociado com Israel, desde que seja submetido ao povo palestino em um plebiscito, ou se for eleito um governo de unidade e os representantes do governo aprovarem o acordo. Este é um importante passo a ser dado quando chegar o momento nas negociações com o Hamas.

Talvez agora tenhamos a oportunidade de reconsiderar os últimos 30 anos de política externa americana em relação ao Irã. Que conselho daria a Obama a respeito do melhor modo de tentar uma aproximação com o Irã?

Ele já prometeu, antes e depois de ser eleito presidente, que abrirá todas as formas de comunicação com o Irã. Se você descartar o presidente Mahmud Ahmadinejad e se aproximar de membros mais responsáveis do governo do Irã, penso que, quando Obama enviar alguém para explorar as possibilidades de negociação, acho que essa pessoa será bem recebida. Meu conselho para Obama é simplesmente fazer o que prometeu que faria: abrir um canal de comunicações com o Irã.

O senhor é otimista com relação à situação no Irã e no Oriente Médio daqui a oito anos?

Sim, comparando com as circunstâncias atuais, de onde partimos. O melhor meio de restringir os movimentos potenciais do Irã para aumentar sua capacidade nuclear é conseguir a paz entre israelenses e palestinos, acabar com a guerra oficial entre Israel e Síria, Israel e Líbano. Acho que isso eliminaria, e muito, a ameaça da qual os iranianos sentem que precisam se defender. E de uma maneira mais geral, debilitaria a influência de Teerã e seu prestígio, que cresceu por causa da guerra do Iraque. Assim, o fim da guerra no Iraque e a paz no Oriente Médio seriam duas coisas que colocariam o Irã de volta a uma posição em que sua influência negativa em prol do terrorismo diminuiria, e o país sentiria menos necessidade de ter armas nucleares para se defender.

19/01/2009 - 14:20h No que tenha a ver com Gaza, deixem a II Guerra Mundial fora disso

http://images.ig.com.br/publicador/ultimosegundo/274/23/23/1315399.ataque_na_faixa_de_gaza_252_399.jpg
Exercito de Israel bombardeia Gaza

Fonte vi o mundo – blog de Azenha

  Robert Fisk, 17/1/2009, The Independent, UK

  http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fiskrsquos-world-when-it-comes-to-gaza-leave-the-second-world-war-out-of-it-1418270.html

Detesto exageros. Comecei a detestar há anos, nos anos 70s, quando o Provisional IRA (Provisional Irish Republican Army, grupo de ação armada ativo a partir de 1969, na Irlanda e na Inglaterra) declarou que a prisão de Long Kesh seria  “pior que Belsen[1]“. Não que houvesse algo de bom em Long Kesh – a prisão Maze, como depois foi rebatizada, polidamente. Simplesmente, não foi pior que Belsen. Agora, começou outra vez. Passando por Paris, essa semana, vi, numa manifestação pró-Palestina, cartazes em que se lia “Gaza é Guernica” e “Gaza-sur-Glane”.

Guernica, como se sabe, foi a cidade basca destruída pela Luftwaffe em 1937; Oradour-sur-Glane, a vila francesa cujos habitantes foram massacrados pela SS em 1944. A selvageria de Israel em Gaza também tem sido descrita como “genocídio” e – claro –, como um “holocausto”. A União Francesa das Organizações Islâmicas descreveu-a como “genocídio sem precedentes” –, o que vale uma medalha, quando até o Papa “ministro para paz e justiça entre os homens” comparou Gaza a um “grande campo de concentração”.

Antes de pôr-me a escrever o óbvio, gostaria, só, de que a União Francesa das Organizações Islâmicas chamasse o genocídio dos armênios de genocídio. Não chamam porque não têm coragem, de medo de ofender os turcos e, além disso, quero dizer… eh… o milhão e meio de armênios massacrados em 1915, eh… eram, quero dizer… cristãos.

Aliás, vejam só, o mesmo acontece com George Bush, porque também não pode ofender os generais turcos de cujas bases aéreas os EUA precisam muito para continuar em guerra no Iraque.  E nem Israel jamais chamou o genocídio dos armênios de genocídio, de medo de perder o único aliado muçulmano que ainda lhe resta no Oriente Médio. Não é estranho? Quando acontece um verdadeiro genocídio – o genocídio dos armênios – ninguém usa a palavra. Quando não há, imediatamente a palavra aparece em todas as bocas.

Sim, sim, sei o que tantos estão tentando fazer: construir uma conexão direta entre Israel e a Alemanha de Hitler. Muitas entrevistas por rádio, essa semana, ao mesmo tempo, já condenam tais comparações. Como sentem-se, sobreviventes do holocausto, ao ser chamados de nazistas? Ora. Como alguém tem coragem de comparar o exército de Israel à Wehrmacht? Fácil: porque a comparação é ato de anti-semitismo.

Já, várias vezes, estive sob fogo do exército de Israel. Nessa condição, não estou convencido de que o exército de Israel seja “exército nazista”. De fato, não entendo por que bombardear as estradas do norte da França em 1940 foi considerado crime de guerra… e bombardear as estradas do sul do Líbano não foi considerado crime de guerra.

O massacre de mais de 1.700 palestinenses nos campos de refugiados de Sabra e Chatila – perpetrado pela Falange Libanesa aliada de Israel, e assistido por soldados de Israel que nada fizeram – pode ser mais bem comparado à II Guerra Mundial. O número de mortos estimado por Israel – vergonhosos 460 – só perde por nove para o massacre nazista da cidade tcheca de Lidice, em 1942, quando quase 300 mulheres e crianças foram mandadas para Ravensbrück (esse, sim, verdadeiro campo de concentração). Lidice foi destruída por Reinhard Heydrich, para vingar a morte de agentes aliados.

Os palestinenses foram chacinados, em Sabra e Chatila, depois que Ariel Sharon disse ao mundo – de fato, mentiu ao mundo – que um palestinense havia assassinado o falangista libanês Bashir Gemayel.

E foi o valente Professor Yeshayahu Leibovitz, da Hebrew University (e editor da Encyclopaedia Hebraica) quem escreveu que o massacre de Sabra e Chatila “foi feito por nós. Os Falangistas são mercenários pagos por nós, exatamente como os ucranianos e os croatas e os eslovacos foram mercenários de Hitler, que os organizou em exército e como soldados, para trabalharem para ele.

Exatamente do mesmo modo, nós, os israelenses, organizamos os assassinos libaneses para assassinar palestinenses”. Lição que foi saudada por Yosef Burg, então ministro do Interior e Assuntos Religiosos, com uma pergunta inolvidável: “Cristãos matam muçulmanos… E a culpa é dos judeus?!”

Há muito tempo enfureço-me contra quaisquer comparações que envolvam a II Guerra Mundial – seja na vertente Arafat-é-Hitler, já encenada por Menachem Begin, seja na vertente “os pacifistas-estão-pacificando-os-anos-30″, encenada recentemente por George Bush & Lord Blair de Kut al-Amara[2].

Os manifestantes pró-Palestina bem poderiam pensar duas vezes antes de pôr-se a falar sobre genocídio, porque o Grande Mufti de Jerusalém apertou a mão de Hitler e disse – em Berlin, dia 2/11/1943, exatamente – “Os alemães sabem como livrar-se de judeus. Definitivamente, conseguiram resolver o problema judeu.” O Grande Mufti, para quem não saiba, era palestinense. Repousa hoje, num túmulo escuro, aqui, a poucos quilômetros do meu apartamento em Beirute.

Mas, de fato, a razão mais importante pela qual o paralelo “Gaza-Genocídio” é perigoso é porque é um falso paralelo.

O 1,5 milhão de refugiados de Gaza são tratados com brutalidade terrível, mas não estão sendo mandados para câmaras de gás ou empurrados para marchas da morte.

Que o exército de Israel é uma horda, é, não há dúvida – e achei engraçado que, semana passada, um dos correspondentes regulares da revista Newsweek o tenha descrito como “esplêndido exército” –, mas isso não implica dizer que todos os soldados israelenses sejam criminosos de guerra.

E tudo faz crer que, sim, cometeram-se crimes de guerra em Gaza. Bombardear escolas da ONU é ato criminoso, que fere todos os protocolos da Cruz Vermelha Internacional. Não há atenuante possível para o assassinato de tantas mulheres e crianças.

Devo acrescentar que fui tomado por sincera emoção de simpatia pelo ministro do Exterior sírio o qual, essa semana, perguntou por que já se organizara em Haia um tribunal internacional inteiro para investigar a morte de um único homem (o ex-primeiro ministro do Líbano, Rafiq Hariri)… mas ainda não se organizara nenhum tribunal em Haia para julgar a morte de mais de 1.000 palestinenses.

Contudo, devo acrescentar que bem pode acontecer de algum tribunal de Haia apontar o dedo para a Síria… e será minha vez de perguntar por que não se organiza nenhum tribunal em Haia para julgar os sírios responsáveis pelo massacre de Hama, em 1982, quando milhares de civis foram mortos a tiro, por soldados das forças especiais de Rifaat al-Assad. O retro-referido Rifaat, sou obrigado a acrescentar, vive hoje em perfeita segurança, dentro da União Européia.

E que tal outro tribunal internacional em Haia, para julgar os soldados da artilharia de Israel que massacraram 106 civis – mais da metade dos quais crianças – na base da ONU em Qana, em 1996?

O xis da questão é a legislação internacional. O xis da questão é a punibilidade. O xis da questão é a administração da justiça – justiça sempre inalteravelmente mal distribuída e que os cidadãos palestinenses jamais receberam – e trata-se de levar bandidos a julgamento. Todos os bandidos, sejam os criminosos de guerra árabes sejam os criminosos de guerra israelenses, o bando todo.

E que ninguém diga que é impossível. É possível – o que ficou bem demonstrado no tribunal ioguslavo. Vários assassinos não foram condenados? Foram. A II Guerra Mundial nada tem a ver com nada disso.

[1] Campo de concentração de prisioneiros dos nazistas, na Baixa Saxônia. Sobre Belsen, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Bergen-Belsen.

[2] Sobre Kut-al-Amara, ver http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=Kut+al-Amara&meta=

19/01/2009 - 09:48h Nova voz em torno de Gaza

http://www.ccun.org/images/2008/March/gaza%20holocaust%20Feb-March%202008/2129%20martyrs%20in%20gaza%20holocaust.jpg

Fábio Wanderley Reis – VALOR

Menos mal que, no quadro de extrema feiúra do conflito armado entre Israel e Hamas, tenhamos também ações como a do grupo “Other Voice”, em que cidadãos sem conexões político-partidárias de Sderot e outras comunidades israelenses em torno de Gaza, justamente o alvo mais freqüente dos foguetes, se articulam com palestinos de Gaza para clamar pelo fim da violência que atinge a todos e por soluções criativas nesse sentido por parte das lideranças regionais e mundiais. É evidente o caráter extraordinário de iniciativas como essa, que têm de vencer as disposições etnocêntricas “naturais” que o longuíssimo conflito no Oriente Médio agudiza de forma singular. Todos vemos o apego rígido a posições simpáticas ou hostis à ação de Israel nas colunas da imprensa e nos blogs da internet, embora tenhamos também esforços louváveis de avaliação isenta. De todo modo, mesmo no plano modesto de minhas relações pessoais, confesso-me surpreendido pela naturalidade com que as afinidades e simpatias de amigos intelectualmente sofisticados (e distantes, por exemplo, de reles confusões como a que torna o radicalismo islâmico merecedor do apoio de gente “de esquerda”) levam à prevalência da identificação pronta com um dos lados e dificultam a sensibilidade às eventuais razões do outro lado.

Mencionei, na semana passada, o infantilismo moral que tende a caracterizar as relações entre grupos étnicos e nacionais distintos. É conhecido o trabalho de Jean Piaget sobre temas correlatos, em que desenvolvimento intelectual e desenvolvimento moral não são senão duas faces da mesma moeda. Pois o desenvolvimento intelectual se caracteriza pela crescente capacidade de superar o egocentrismo próprio da infância e das fases iniciais do processo, de “descentrar-se” e adotar o ponto de vista dos outros – o que é condição para que se viabilizem as “operações” da razão sobre um objeto passível de ser manipulado, num mundo que deixa de ser a mera extensão ilusória do eu infantil justamente pelo reconhecimento da “objetividade” trazida pelos múltiplos pontos de vista.

Naturalmente, podemos ter “egocentrismo” em escalas mais amplas: o etnocentrismo, na designação genérica usual, ou o “sociocentrismo”, na linguagem do próprio Piaget. Como lembrei aqui há tempos, citando Pizzorno e Leopardi, o egoísmo, ou o “amor próprio”, pode dilatar grandemente o seu objeto, vindo a referir-se a “minha” família, “minha” tribo, “minha” cidade, “meu” país – e o esforço intelectual de reflexão “descentrada” exige a difícil transposição dessas diversas barreiras de identificação sociocêntrica que tendem a apresentar-se como pontos de referência, para o indivíduo, do comportamento virtuoso, patriótico e altruísta.

Do ponto de vista político, a grande dificuldade é que, se o ideal democrático remete, em última análise, à autonomia e à capacidade de descentração do cidadão em relação à coletividade, a organização coletiva não pode abrir mão de conter ou limitar a autonomia individual, ou o simples egoísmo da afirmação exacerbada da autonomia, e de cobrar identificação e lealdade. No nível dos estados nacionais, foi possível expandir os vínculos primordiais de vizinhança (eventualmente parentesco) rumo a um sentimento mais abrangente de comunidade que serve de base ao sentimento pessoal de identidade e promove o patriotismo. Mesmo nesse nível, porém, o problema, na perspectiva da democracia, é que a promoção dessas disposições propícias tende a valer-se justamente da contraposição a outras coletividades do mesmo tipo e periga resultar na pressão indevida ao conformismo e na demanda de lealdade que toma a forma incondicional e quem sabe autoritária. E o desafio é o de equilibrar o componente generoso das virtudes patrióticas com a virtude cívica por excelência da tolerância pluralista.

Mas no plano internacional a tarefa é muito mais difícil. Pois ela envolve construir pluralismo e tolerância justamente nesse contexto não só carente, por definição, de um substrato comunitário, mas constituído por comunidades diversas que com freqüência ao menos em parte se definem pela hostilidade recíproca e em que o sentido da identidade pessoal, para muita gente, tende a nutrir-se dessa hostilidade.

Na história recente, contudo, dispomos pelo menos do grande exemplo positivo da União Européia, erguida penosamente, mas com êxito inegável, sobre a herança de conflitos que se repetiram por longo tempo e em que se construíam e reforçavam identidades antagônicas. Depois, não obstante o que possa parecer respaldar a idéia de um “choque de civilizações” à maneira de Huntington, temos também um mundo que se torna gradualmente multipolar e talvez venha a abrir espaço para influências que ajudem a encaminhar as coisas no rumo de algum tipo de federalismo de grande alcance, em que as tradicionais identidades étnico-nacionais deixem de estar tão pesadamente em jogo. Sem falar, especificamente quanto ao Oriente Médio, do que apontava há alguns dias Barry Rubin aqui mesmo no Valor (”Os Verdadeiros Inimigos do Hamas”): a coexistência problemática do etnocentrismo radical islâmico com variados nacionalismos árabes.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

E-mail: fabiowr@uai.com.br

17/01/2009 - 10:19h “Insanidade” pede reforma na ONU, diz Lula

Foto: AFP

FABIANO MAISONNAVE – FOLHA SP

ENVIADO ESPECIAL A EL DILÚVIO (VENEZUELA)

Em visita à Venezuela, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva qualificou o conflito israelo-palestino de “insanidade” e defendeu a reforma da ONU como um dos passos para resolver a violência na região.
“O Brasil é um exemplo de convivência pacífica entre árabes e judeus. Nós temos aproximadamente 10 milhões de árabes no Brasil e temos algumas centenas de milhares de judeus, que não têm nenhuma culpa da insanidade daqueles que tomam decisões de atirar em gente inocente”, disse, durante discurso ao lado do presidente Hugo Chávez.
Ao defender a reforma do Conselho de Segurança -o Brasil postula um assento permanente-, Lula disse que a ONU está “enfraquecida e debilitada” por não ter tido força para impedir a Guerra do Iraque nem a ofensiva em Gaza.
Lula mencionou a recente visita do chanceler Celso Amorim ao Oriente Médio e disse ser necessário “mudar os interlocutores”. “Não pode ser apenas os EUA ou um outro país. E a primeira coisa que temos que fazer é que sejam resolvidos os conflitos internos. A Autoridade Nacional Palestina não pode negociar a paz se o Hamas não concorda com a paz.”
Depois que Chávez se queixou de que o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, repete a retórica de George W. Bush ao vinculá-lo às Farc colombianas, Lula disse esperar que ocorra logo um encontro entre o venezuelano e Obama. “Espero que Obama não veja aqui a região dos anos 60, mas uma região que aprendeu a viver em democracia”, disse.

16/01/2009 - 23:10h Petistas divulgam carta sobre nota do partido em relação ao Oriente Médio

 estrela_pt.jpghttp://www1.whdh.com/images/news_articles/389x205/061014_israel_palestine.jpg

16 de janeiro de 2009

Ao companheiro Ricardo Berzoini,
Presidente Nacional do PT,

Nós aqui subscritos, na qualidade de militantes do PT profundamente consternados com a tragédia que vem se desenrolando no Oriente Médio e com o número crescente de vítimas, inclusive de crianças, gostaríamos de manifestar publicamente desacordo com o teor da nota do Partido sobre o conflito, divulgada a 4 de janeiro corrente.

Em nossa visão, a nota posiciona equivocadamente o PT em relação a um conflito de notável complexidade, devido, em síntese, aos seguintes pontos:
i. ignora a posição histórica do Partido, que sempre se pautou pela defesa da coexistência pacífica dos povos;
ii. banaliza e distorce o fenômeno histórico do nazismo;
iii. não registra a necessária condenação ao terrorismo;
iv. não afirma o reconhecimento do direito de existência de Israel negado pelo Hamas;
v. não se coaduna com a posição equilibrada assumida pelo governo brasileiro sobre a questão; e
vi. queima, ao invés de construir, pontes para o entendimento.

Estamos convictos de que o Brasil, conforme propõe o Governo Lula e com base na convivência exemplar das duas comunidades em sua sociedade, pode contribuir para o engajamento das partes na busca de uma paz duradoura, baseada na coexistência pacífica de um Estado Palestino viável e próspero e de um Estado de Israel definitivamente seguro.

Nosso partido pode desempenhar um papel importante no aprofundamento do debate e na defesa, junto às partes e à sociedade brasileira, do caminho do cessar-fogo imediato e do desbloqueio da entrada de ajuda humanitária.

Assinam*:

Alberto Kleiman
Alexandre Padilha
Alfredo Schechtman
Aloizio Mercadante
Ana Copat Mindrisz
Carlos Minc Baumfeld
Clara Ant
Denise Rosa Lobato
Diogo de Sant’Ana
Edna Cassimiro
Esther Bemerguy de Albuquerque
Fernando Haddad
Fernando Kleiman
Itajaí Oliveira de Albuquerque
Ivo Bucaresky
Ivone de Santana
Jaques Wagner
José Genoino
Luciano Pereira da Silva
Marcelo Behar
Marcelo Zero
Marcos Damasceno
Maria Luíza Falcão
Marta Suplicy
Mauricio Mindrisz
Nadia Somekh
Paul Israel Singer
Paulo Moura
Paulo Vannuchi
Pedro Vieira Abramovay
Rômulo Paes de Sousa
Sergio Gusmão Suchodolski
Suzanne Serruya
Tarso Genro
Thiago Melamed de Menezes
Vitor Sarno
……………………………………….

*até o momento

16/01/2009 - 14:04h Perspectiva de paz torna a guerra ainda mais desumana

http://www.jornalmudardevida.net/wp-content/uploads/2008/02/gaza2_72dpi.jpg

Gilles Lapouge* – O Estado SP

O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, reconheceu: aviões israelenses bombardearam o complexo da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA) em Gaza. O Hospital Al-Quds também foi atingido. Qual a razão desses ataques? Respostai: havia 700 palestinos refugiados no complexo. Era preciso atingi-los. É a lógica. Ataca-se onde os inimigos se encontram.

Alguns objetam, porém, que é igualmente lógico que civis, nas circunstâncias com alguns combatentes entre eles, presos em sua cidade, e correndo como um bando de ratos perseguidos por um caçador, procuram escapar da morte forçando as portas dos lugares pretensamente protegidos pelo direito. O direito? Por duas vezes, nos últimos dias, verificou-se que é uma péssima ideia esconder-se em lugares neutros. É a melhor maneira de atrair o raio. Cerca de 40 mortos numa escola da ONU, na semana passada, deram prova disso.

Mas a verdadeira razão desse ato deve ser procurada em outro lugar. As negociações entre Israel e o Hamas, com intermediação do Egito, haviam progredido de tal forma que, na manhã de ontem, a expectativa era de que as armas parassem de troar em um ou dois dias. Foi, portanto, na véspera desse evento que Israel empreendeu ataques de uma violência sem precedente, incluindo a destruição no complexo da ONU de assistência a uma população que morre de fome quando escapa da morte que vem do céu .

A ideia aponta, portanto, para um quadro duplo. De um lado, a paz é vislumbrada. De outro, a guerra se torna mais desumana. Ora, essas duas faces, longe de se contradizerem, se completam. “No último minuto”, disse um diplomata da região, “tenta-se obter progressos no terreno antes de a paz se impor. É a estratégia clássica de Israel”. Será o caso admitir que se multiplique o número de mortos para aumentar a chance de viver? Estranha dialética! E se, em vez de preparar a paz, esses excessos dessem uma nova chance à guerra?

Não se trata de fazer um julgamento, favorável ou indignado, sobre a guerra lançada por Israel. As provocações do Hamas, seus bombardeios cínicos das cidades israelenses, eram ignóbeis. No entanto, são muitos os que se escandalizaram com a maneira como essa guerra foi conduzida. A Federação Internacional dos Direitos Humanos pediu ao Conselho de Segurança da ONU que investigue “crimes na Faixa de Gaza que devem ser qualificados como de guerra, se não forem crimes contra a humanidade”. As bombas de fósforo Dime (Dense Inert Metal Explosive) são aceitas pelo direito internacional, é verdade, mas são abjetas. A agência Associated Press cita testemunhas que viram os efeitos dessas bombas: “Viu-se a fumaça branca vinda do céu descolar a pele do rosto e dos membros.” Eis a questão: para restaurar a paz, seria realmente necessário primeiro bombardear as instalações da ONU, um hospital, e atingir civis com bombas capazes de descolar a pele dos rostos e dos membros?


*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

13/01/2009 - 17:35h Atos antissemitas aumentam na França

http://www.jafi.org.il/agenda/3-22e.jpg

CÍNTIA CARDOSO COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

A tensão do conflito entre Israel e o Hamas em Gaza parece ter sido exportada para a França. Em uma semana, vários atos antissemitas foram registrados no país, e, por precaução, sinagogas e outros centros judaicos tiveram a segurança reforçada.
Domingo, dois coquetéis molotov foram lançados contra a sinagoga Ohr Menahem, em Saint-Denis, periferia de Paris. Os explosivos provocaram um pequeno incêndio na lanchonete vizinha.
O presidente Nicolas Sarkozy disse ontem que esse tipo de violência é “inaceitável” e expressou “solidariedade às vitimas diretas e indiretas desses comportamentos indignos do nosso país e do século 21″.
Ontem, dezenas de pichações antissemitas apareceram no muro de um centro social perto de uma mesquita. As inscrições traziam palavras como: “É preciso matar os judeus” e frases de apoio à causa palestina. Na madrugada de ontem, em Schiltigheim, na Alsácia, coquetéis Molotov foram lançados contra um templo judaico. Na semana passada, uma sinagoga em Toulouse, sul do país, fora atacada e quatro jovens foram detidos por agressão a uma adolescente judia.
Apesar da escalada, o sociólogo Michel Wieviorka contemporiza os conflitos entre as comunidades judaica e muçulmana na França. Em primeiro lugar, avalia Wieviorka, um movimento antissemita é difuso. Há quem se identifique com o problema dos palestinos, quem se diga defensor do islã e ainda grupos vagamente antissionistas -conjunto heterogêneo com pouca chance de se unir e radicalizar as manifestações.
No campo judeu, destaca o sociólogo, alguns se sentem constrangidos em relação à proporção dos ataques. Mesmo entre aqueles que sustentam que Israel tem direito de se defender, não há consenso em relação à ofensiva de Israel.
De acordo com sondagem publicada ontem pelo jornal “Le Parisien”, para 18%, o governo israelense é o principal responsável pelo conflito, para 23% é o Hamas e, para 28%, os dois lados são culpados.

Apelos a paz
Em comunicado, Dalil Boubakeur, do Instituto Árabe da Grande Mesquita de Paris, pede que a “comunidade muçulmana mantenha a calma diante da grande comoção gerada pela situação em Gaza” e evite “todos os tipos de provocação”. Ele condenou “o ato de violência cometido contra a sinagoga da cidade de Saint-Denis”.
O prefeito de Saint-Denis, Didier Paillard, organizou um ato pacifista diante da sinagoga atacada. Na quinta, Paillard havia coordenado uma manifestação a favor dos palestinos. Algumas associações judaicas o acusaram de ter inflamado os ânimos da cidade, onde parte da população é de origem muçulmana e magrebina.
Em Israel, a chanceler Tzipi Livni afirmou que seu governo tem pedido aos líderes mundiais que condenem qualquer forma de violência contra judeus. “Recebemos com grande preocupação relatos de agressões física, moral, verbal e outras manifestações de antissemitismo pelo mundo.”

12/01/2009 - 15:32h Um blog no meio da zona de conflito

SAMEH A. HABEEB 23 anos, blogueiro e jornalista palestino de Gaza


DIVULGAÇÃO
PERIGO – Por causa do blog, Sameh (acima) recebeu ameaças de morte

Blogando, jovem torna-se olhos dos principais veículos do mundo sobre o lado palestino do bombardeio à Gaza

 

Filipe Serrano – O Estado SP – Caderno Link

 

A voz do jovem palestino e blogueiro Sameh Akram Habeeb, de 23 anos, soava cansada no telefone ao falar com o Link pela segunda vez na última semana enquanto o 13º dia da ofensiva de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza chegava ao fim, na noite de quinta-feira. “Está tudo bem por aqui… Só que os bombardeios ainda não acabaram (suspiro). Você já escreveu meu nome no jornal?”, ele pergunta, curioso, mas sem entusiasmo.

É que, desde o início do cerco a Gaza, há duas semanas, Sameh teve poucas horas de descanso. Ele se dispôs a reportar voluntariamente, pela internet, a situação na Cidade de Gaza, onde vive com seus pais, irmãos e irmãs.

Sua casa está sem eletricidade e, a cada dia, ele percorre quatro quilômetros até um local onde pode recarregar a bateria de seu notebook. Nas horas seguintes, telefona para hospitais, ouve as notícias pelo rádio do seu celular e tira fotografias do caos que tomou a região. Em casa, na região leste da cidade, se conecta à internet usando uma precária conexão discada.

Ela é lenta, mas, desde que a banda larga deixou de funcionar, tem sido a única opção para atualizar seu blog Gaza Strip, the Untold Story (http://gazatoday.blogspot.com) e o álbum virtual de fotografias que mantém no site http://picasaweb.google.com/sameh.habeeb.

No blog, que em português quer dizer Faixa de Gaza, a História Não Contada, Sameh descreve as dificuldades pelas quais os palestinos habitantes de Gaza têm passado nos últimos dias. Falta de água potável, energia, comida, gasolina, gás e assistência média são alguns dos problemas citados na página. Ele também enumera os acontecimentos do dia com uma sobriedade de manchete jornalística: “A casa da família Bawadi, em Jabalia, foi destruída”, dizia uma das atualizações de quinta-feira.

A sobriedade não é à toa. Sameh é formado em Língua Inglesa em 2008, mas também faz trabalhos como jornalista independente. Por isso, a cobertura em seu blog tem um tom objetivo, mesmo que ele, pessoalmente, tenha opiniões contrárias às ações de Israel.

Blogueiros palestinos como Sameh têm feito um papel importante durante a ofensiva israelense porque nenhum jornalista estrangeiro teve permissão de Israel para entrar na Faixa de Gaza até sexta-feira. Israel informou à organização Repórteres Sem-Fronteira que um cinegrafista da BBC entrou acompanhado do Exército. Com informações de pessoas como Sameh, a mídia internacional conseguiu dizer o que ocorria dentro da Faixa de Gaza.

Sameh é um caso especial porque, além de ter experiência como jornalista, deixa todos os seus contatos no blog. “Estou disponível 24 horas para atender jornalistas. Você pode me ligar a qualquer hora em minha casa”, avisa ele no blog.

Sua primeira entrevista para um jornalista estrangeiro foi em março, depois de um ataque na Faixa de Gaza. O palestino foi encontrado por causa do blog, que já publicava desde o início de 2008. Nas últimas duas semanas, porém, ele foi procurado diversas vezes para contar sua experiência como um palestino vivendo em meio aos ataques. “Muitas emissoras me procuraram, como CNN, ABC, CBS, Skynews, e jornais grandes, como USA Today, New York Times, Libération e Le Figaro”, diz.

“Meu telefone toca como o de um escritório cheio. Tenho um celular que fica ocupado toda hora também. Imagino que recebi umas 200 ligações nas últimas duas semanas. Não foram só jornalistas, mas algumas pessoas ligaram para dar apoio, dizer boa sorte e essas coisas”, afirma.

O blogueiro não esconde seu orgulho pessoal de ter recebido tantas ligações do mundo todo. “Tenho uma boa experiência já. Sou um bom fotógrafo, um fotógrafo fantástico. Você viu minhas imagens no site Skynews? Fotos fantásticas”, gaba-se.

A vontade de ajudar e de contar a situação de Gaza trouxe consequências perigosas. Na quinta-feira, Sameh recebeu três ligações anônimas ameaçando-o de morte se não parasse de escrever no blog. Ele diz não ter medo e que apenas não quer que sua família seja machucada. “Vou continuar escrevendo mais e mais. Não vou parar. Sinto que preciso mandar notícias sobre esta guerra”.

Após a declaração, Sameh conta que adora o Brasil e quer visitar o País quando tiver férias. Fica curioso para saber se é o custo de vida aqui é alto e ainda diz que em Gaza há muitos fãs de Ronaldo, o jogador. “Sabia que ele já esteve em Ramallah (cidade palestina próxima a Jerusalém)?”

A conversa é interrompida e ele diz “Look, breaking news (olhe, últimas notícias): um jornalista de Gaza foi morto em sua casa. Era um cinegrafista. Acho que foi atingido por um foguete. Nossa, agora estou com medo.”

12/01/2009 - 15:00h O equívoco do alvo mais fácil

Sergio Leo – VALOR

sergio_leo2.jpgRaras das vozes contrárias à política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apontam o alvo verdadeiro. É difícil ver críticas diretas ao próprio presidente da República, um governante com 80% de popularidade, reconhecido entre as principais personalidades internacionais. Em geral, os mísseis contra a política externa miram o Itamaraty, mas ganham a fúria de uma jihad quando o alvo é o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia.

Ao contrário do que se diz, porém, a atuação de Garcia não é uma das invenções do governo Lula nunca antes acontecidas neste país. Como descreve o embaixador Sergio Danese em seu elogiado “Diplomacia Presidencial” (Topbooks, 1999), a “tradição” de recrutar no Itamaraty assessores presidenciais para política externa só começou com a escolha de Rubens Ricupero por Tancredo Neves, em 1985. O posto foi criado por Getúlio Vargas, que nomeou um acadêmico. O maior predecessor de Garcia é uma lenda, o poeta e empresário Augusto Frederico Schmidt.

A autonomia de Schmidt em relação ao Itamaraty era de fazer o desembaraçado Garcia parecer ajudante de ordens do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Schmidt, operando por JK, desprezava as cadeias de comando da diplomacia. Ele concebeu – e fez os embaixadores de então engolirem – a famosa Operação Pan-Americana (OPA), marca da política externa de JK. A OPA, criada num período de trapalhadas dos EUA na região, deu origem ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, e seria assumida pela diplomacia, pragmaticamente.

Um assessor palaciano tem mais autonomia para agir que diplomatas, presos aos rituais do cargo. É figura essencial na diplomacia presidencial. Garcia, velho conhecido de boa parte dos governantes sul-americanos, é visto no continente como extensão oficiosa da voz de Lula, e , não raramente, seguindo diretrizes traçadas com Amorim, leva aos governos da região mensagens do Planalto que não conviriam à linguagem diplomática. Evidentemente, existem atritos nas relações entre Garcia e o Itamaraty. Mas, no caso dele, os desentendimentos se dão mais pelo desconforto com a franqueza e o tom nas manifestações públicas do acadêmico e militante do que por divergências significativas de visão política.

O estilo agressivo de algumas declarações públicas do assessor é típico de acadêmicos e empresários pouco acostumados às metamorfoses semânticas que as frases de efeito das autoridades costumam sofrer quando chegam às manchetes de jornal. O que ele fala não pode ser considerado posição de Estado. Mas a essência do que diz Garcia é fiel ao pensamento de Lula. É Lula, não Garcia, quem sustenta a tese favorável a uma relação “generosa” com vizinhos belicosos, como o equatoriano Rafael Correa ou o boliviano Evo Morales. Quem ataca Garcia, em geral, gostaria de tocar no presidente. Não o faz por cálculo político ou pessoal.

Na semana passada, em entrevista ao Valor, Garcia manifestou, pouco diplomaticamente, uma opinião disseminada em partidos da esquerda, em círculos da diplomacia e mesmo entre pessoas de parca ligação com o governo brasileiro: assim como é inquestionavelmente terrorista o disparo de mísseis contra Israel pelo grupo islâmico Hamas, a invasão do Exército israelense, condenada internacionalmente, com a morte de centenas de mulheres e crianças, viola princípios básicos do direito internacional. “Isso é terrorismo de Estado, me desculpe”, classificou o assessor.

Garcia usou termos fortes para uma autoridade, mas até o embaixador de Israel no Brasil reconheceu não ver a declaração como posição oficial do governo. Garcia, aliás, fez questão de também declarar o apoio à integridade territorial de Israel, contra os atos terroristas do Hamas. Garcia lembrou, ainda, o interesse de Lula em, apesar de tudo, visitar o país neste ano, para entendimentos comerciais e políticos. Mas os sagrados direitos de Israel não podem servir de pretexto ao governo israelense para uma matança que não discrimina terroristas e cidadãos, acredita. Não está sozinho ao dar esse recado. Lula, sem endossar a acusação de terrorismo de Estado, comparou a reação de Israel aos mísseis do Hamas a jogar bombas contra palitos de fósforo.

Não há dúvidas sobre o inferno a que o Hamas condena a comunidade judaica sujeita aos ataques freqüentes de mísseis e à rotina dos alarmes antiaéreos. Mas incomparavelmente dura, também, é a vida dos palestinos amontoados em precárias condições na faixa de Gaza, forçados a racionamento cruel de comida, água e energia, obrigados a cavar túneis clandestinos para contrabandear bens de primeira necessidade do Egito (túneis usados também para tráfico de armas, agora bombardeados por Israel).

Usar o purgatório das cidades israelenses como justificativa para o massacre em Gaza é dar razão aos que defendem os mísseis do Hamas como resposta à situação insuportável dos palestinos. A violência na região não é defensável. Como argumenta, aliás, Garcia. Encontrar nas declarações dele um insulto à comunidade judaica é, mais que exagero, manipulação política. Nada nova, aliás, em se tratando de ataques ao assessor de Lula.

Talvez o mais freqüente uso político das ações de Garcia seja o infeliz incidente, em julho de 2007, quando ele, acreditando-se na privacidade do gabinete, reagiu, com o cenho fechado e um gesto obsceno, a uma notícia do “Jornal Nacional” que desmoralizava tentativas de responsabilizar exclusivamente o governo pelo acidente do avião da TAM, naquele ano. O que amigos do assessor definem como desabafo é lembrado como uma “comemoração” sempre que se quer desmoralizar o assessor. Parece maldição do cargo: Ricupero, o mais conhecido antecessor de Garcia, perdeu o Ministério da Fazenda com a divulgação, na TV, de uma brincadeira mal pensada pronunciada quando acreditava estar na intimidade.

O ataque pessoal e virulento a Garcia, por opções de política externa do governo ou do partido, é manifestação de uma doença infantil do debate político brasileiro. São mais maduros os democratas que se opõem às políticas de Lula sem falsos pretextos ou bode expiatório, e apontam baterias para seu verdadeiro alvo. O presidente da República.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail sergio.leo@valor.com.br

12/01/2009 - 14:30h O fim moral da política israelense

Mario Vargas Llosa – O Estado de São Paulo

http://img.terra.com.br/i/2007/05/09/507439-3634-cp.jpgHaverá alguma possibilidade de a invasão militar de Israel na Faixa de Gaza “destroçar a infraestrutura terrorista” do Hamas – objetivo oficial da operação – e pôr fim ao disparo de foguetes artesanais dos integristas palestinos de Gaza contra as cidades israelenses da fronteira? Acho que nenhuma. Ao contrário, essa operação militar, que até este exato momento deixou milhares de feridos e já matou quase 900 palestinos, entre eles um grande número de crianças e de civis, terá o efeito de um massacre de parte da comunidade palestina, da qual o Hamas sairá fortalecido, e o setor moderado, ou seja, a Autoridade Nacional Palestina (ANP), liderada por Mahmud Abbas, será diminuída.

Para que o argumento usado por Ehud Olmert e seus ministros como justificativa do ataque tivesse uma aparência de realidade, Israel deveria voltar a ocupar Gaza com uma enorme força militar permanente ou perpetrar um genocídio que nem mesmo os mais fanáticos de seus falcões se atreveriam a assumir, e nem, esperamos, o resto do mundo toleraria, embora a opinião pública internacional tenha demonstrado – mais uma vez – uma total indiferença pelo destino dos palestinos.

A verdade dos fatos é que, por mais feroz que tenha sido o castigo infligido pelo Exército de Israel a Gaza, e precisamente em razão do sentimento de impotência e ódio pelo ocorrido com o 1,5 milhão de palestinos que vivem esfomeados e quase asfixiados nessa ratoeira, é provável que, uma vez que o Exército se retire da Faixa e a “paz” seja restabelecida, as ações terroristas se renovem com mais brio e um desejo de vingança alimentado pelos sofrimentos destes dias.

Os defensores dos bombardeios e da invasão respondem a seus críticos com a pergunta: “Até quando um país pode suportar que suas cidades sejam vítimas de foguetes terroristas disparados em suas fronteiras, durante dias, meses, por uma organização como o Hamas, que não reconhece a existência de Israel nem esconde seu propósito de acabar com o país?”A pergunta é muito pertinente e ninguém que não seja fanático ou terrorista pode justificar o assédio criminoso constante do Hamas contra as populações civis de Israel.

Ora, ao se procurar as causas do conflito, na minha opinião é desonesto ficar somente nos foguetes artesanais do Hamas, e não retroceder um pouco mais no tempo para entender (o que não significa justificar, evidentemente) o que acontece nesse explosivo pedaço do mundo.

A vitória eleitoral que levou o Hamas ao poder na Faixa de Gaza não foi um ato de adesão maciça dos palestinos ao fanatismo integrista nem aos atos terroristas. Foi o repúdio perfeitamente legítimo dos cidadãos da ineficiência e, principalmente, da descarada corrupção dos dirigentes da ANP. E, ainda, um típico ato de autodestruição ao qual os seres humanos, indivíduos ou coletividades estão propensos quando chegam a situações-limite, na impossibilidade de se defender e no desespero total.

Desde cedo, a retirada de Israel de Gaza e o abandono dos 21 assentamentos de colonos que havia na região, no verão de 2005, despertou grandes esperanças. O gesto impulsionaria o processo de paz, conduzindo à criação de um Estado Palestino que coexistiria com Israel e garantiria sua segurança no futuro.

Não só isso deixou de acontecer, como o Hamas se fortaleceu com o poder. Suas disputas com o Fatah, com tiroteios e assassinatos, e a política de Israel de impedir a comunicação a Gaza e de mantê-la em uma espécie de quarentena implacável – proibindo que exportasse e importasse, fechando-lhe o uso do ar e do mar, permitindo que seus habitantes só saíssem desse gueto de maneira muito limitada e depois de trâmites opressivos e humilhantes – contribuíram para o “grande fracasso econômico” que hoje em dia os falcões de Israel exibem como prova da incompetência dos palestinos para governar a si mesmos.

Eu me pergunto se algum país do mundo poderia progredir e modernizar-se nas condições atrozes de existência do povo de Gaza.

Ninguém me contou isso, não sou vítima de nenhum preconceito contra Israel, um país que sempre defendi, principalmente quando era alvo de uma campanha internacional orquestrada por Moscou, que apoiava toda a esquerda latino-americana. Eu vi com meus próprios olhos. E senti asco e revolta pela miséria atroz, indescritível, na qual estão morrendo aos poucos, sem trabalho, sem futuro, sem espaço para viver, nas covas estreitas e imundas dos campos de refugiados ou nessas cidades densamente povoadas e cobertas de lixo, por onde passeiam ratazanas diante dos olhos e a paciência dos transeuntes, essas famílias palestinas condenadas simplesmente a vegetar, a esperar que a morte venha pôr fim a existência sem esperança, de absoluta desumanidade, que é a sua.

São esses pobres infelizes, crianças, velhos e jovens, privados de tudo o que torna a vida humana, condenados a uma agonia tão injusta e tão larval quanto a dos judeus nos guetos da Europa nazista, que agora estão sendo massacrados pelos caças e tanques de Israel, sem que isso sirva para aproximar-se um milímetro da paz tão ansiada. Ao contrário, os cadáveres e os rios de sangue dos últimos dias só servirão para afastá-la e levantar novos obstáculos e semear mais ressentimentos e raiva no caminho da negociação.

Tudo isso é sabido, e muito melhor do que eu ou qualquer observador possa saber, pelos dirigentes de Israel, que podem ter perdido os sentimentos e a moral, mas não a inteligência. A classe dirigente israelense tem um nível muito elevado, é bem mais culta e preparada que a média do Ocidente.

Sendo assim, para que lançar uma operação militar que não acabará com o terrorismo dos fanáticos do Hamas e, em vez disso, servirá para desprestigiar um Estado, que com ações punitivas como essa perdeu a superioridade moral que tinha sobre seus inimigos no passado, por exemplo quando Yitzhak Rabin firmou os Acordos de Oslo de 1993?

Acredito que a resposta é a seguinte: desde o fracasso das negociações de Camp David e de Taba de 2000-2001, nas quais o governo israelense liderado por Ehud Barak esteve disposto a fazer importantes concessões que Arafat cometeu a insensatez de recusar, a sociedade israelense, profundamente decepcionada, viveu um processo de “direitização” radical e, em sua grande maioria, chegou à conclusão de que não há acordo razoável possível com os palestinos.

Portanto, somente uma política de força, de repressão e castigo sistemáticos os submeterá, fazendo-os aceitar, no fim, uma paz imposta segundo as condições de Israel.

Isso explica a popularidade que teve Ariel Sharon e o aumento do apoio ao movimento dos colonos, que continuam implantando assentamentos onde bem lhes agrada na Cisjordânia, e à construção do Muro que isola, divide e encolhe a Cisjordânia palestina.

E explica também que, desde o início das chuvas de bombas sobre Gaza, tenha disparado a popularidade dos trabalhistas de Ehud Barak, o atual ministro da Defesa, e da líder do Kadima, a chanceler Tzipi Livni, os quais, graças à operação militar contra Gaza, reduziram a vantagem de que desfrutava, às vésperas das próximas eleições, o conservador Benjamin Netanyahu. Não devemos esquecer que, segundo as pesquisas, mais de dois terços dos israelenses aprovam a ação militar contra Gaza.

“Nossos corações endureceram e nossos olhos se turvaram”, afirma o jornalista israelense Gideon Levy, em um artigo publicado no jornal Haaretz, na edição do dia 4, comentando a incursão do Exército de seu país contra o Hamas em Gaza. Como tudo que ele escreve, seu texto transpira decência, lucidez e coragem.

É um lamento por esse progressivo desaparecimento da moral da vida política de seu país, fenômeno que, segundo Albert Camus, antecede sempre os cataclismos históricos, e uma crítica a intelectuais progressistas como Amos Oz e David Grossman, que antes costumavam protestar energicamente contra acontecimentos como os bombardeios de Gaza e agora, timidamente, refletindo a involução generalizada da vida política israelense, só se animam a reclamar a paz.

Obrigado por demonstrar-nos que ainda existem homens justos em Israel, amigo Gideon Levy.

10/01/2009 - 14:10h A opinião pacifista de Israel manifesta


CESSAR-FOGO JÁ!

Os Amigos Brasileiros do PAZ AGORA – PAZ AGORA|BR manifestam seu apoio à interrupção imediata da ação militar em Gaza, e o restabelecimento de condições humanitárias básicas para a população da Faixa.

A continuação da ofensiva militar israelense é contrária aos melhores interesses do seu próprio povo. Só acrescenta mais ódio, mais perdas civis e mais terror.

Ao mesmo tempo em que defendemos com firmeza que o Estado de Israel deve proteger seus cidadãos, também reafirmamos que a segurança permanente do país só será conseguida através da paz com seus vizinhos, que será obtida por meio de negociações.

Apoiamos todos os esforços diplomáticos que possam levar a um cessar-fogo, especialmente a mediação oferecida pelo governo brasileiro. As gestões do Itamaraty unirão nossas comunidades árabe e judaica – que aqui sempre conviveram em perfeita harmonia -  na busca de uma solução justa e pacífica no conflito do Oriente Médio.

Um imediato cessar-fogo é vital para minorar o sofrimento de milhões de seres humanos – israelenses e palestinos – que merecem vidas normais, sem foguetes, sem violência e sem ocupação.

É HORA DE PARAR

PAZ AGORA !

 

  

 

HOJE - Grande Manifestação do PAZ AGORA

sábado - 10|01 - 19h30 

em frente ao Ministério da Defesa em Tel Aviv

 

Continuamos convencidos, apesar das ações dos grupos terroristas que pregam a destruição do Estado de Israel, de que a única forma de resolver o conflito na região é através de ações políticas e pela concretização da solução de dois Estados.

 

As últimas guerras mostraram claramente que é impossível vencer grupos terroristas apenas com o uso me meios militares

 

Mesmo que a guerra contra o Hamas seja justificada, é impossível ignorar a terrível mortandade, destruição e sofrimento que ela vem causando ao povo de Gaza.

 

Chamamos a população de Israel às ruas para pressionar o governo por um cessar-fogo

imediato.

 

“É HORA de PARAR e PENSAR !”

10/01/2009 - 14:05h O ponto de vista do governo de Israel

http://iarnoticias.com/images/varios/5_libano_soldados_israel.jpg

 

Publicado no Jornal do Brasil em 09 de janeiro de 2009.

O conflito do Hamas em cores
Giora Becher, Embaixador de Israel no Brasil
O mundo livre ficou chocado quando terroristas explodiram trens e um ônibus em Londres e Madri, e transformaram os dois prédios mais altos do mundo em uma pilha de detritos, em Nova York. Todos concordaram que deveria existir uma cooperação internacional conjunta dirigida a ataques terroristas perpetrados por fanáticos islâmicos. A operação de Israel na Faixa de Gaza faz parte da luta mundial contra o terror. Os israelenses têm o mesmo direito básico dos cidadãos de São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília de viverem em segurança em suas cidades e lares, sem estarem expostos aos perigos de foguetes que possam “cair sobre eles” a qualquer momento.

Onde quer que os israelenses estejam, têm meros 15 segundos para correr com suas familias até o abrigo mais próximo e salvar suas vidas. Por oito longos anos, a cidade de Sderot, localizada a apenas 4 km de Gaza, tem vivido assim. Um quarto da população da cidade já saiu. Vocês estariam dispostos a viver sob estas condições, dia e noite, por oito anos, alvos de projéteis lançados pelo Hamas? O povo palestino não é nosso inimigo. Eles são nossos vizinhos. Queremos realmente “construir pontes” de diálogo e esperança de um futuro melhor com os palestinos.

O Hamas é nosso inimigo. Esta é uma organização terrorista islâmica violenta, membro do eixo radical Teerã-Hezbolá. Com sua linha dura de aderência a uma doutrina religiosa extremista, eles não querem fazer nenhum compromisso e não respeitam nenhum acordo. Seu objetivo declarado é o de eliminar o Estado de Israel e assassinar todos os seus cidadãos. O Hamas já explodiu ônibus lotados de passageiros em Tel Aviv, Haifa e Jerusalém. O Hamas enviou terroristas suicidas para assassinar centenas de israelenses em muitos locais. Como vocês agiriam se uma organização terrorista brutal fosse enviada para matar civis e crianças em seus restaurantes e ônibus? Além do mais, o Hamas não é apenas inimigo de Israel, mas inimigo de todos os árabes moderados.

Pouco tempo atrás, quando o Hamas tomou Gaza à força, seus homens não se importaram quando jogaram seus opositores políticos, que apoiavam a Autoridade Palestina, do alto de prédios. Muitos foram mortos pelo fogo do Hamas, enquanto o poder era tirado das mãos do presidente Abbas. Os palestinos moderados conhecem a amarga verdade sobre o Hamas. Eu gostaria que vocês soubessem a verdade também. O Hamas é uma encarnação do pior pesadelo da região. Ele não representa o desejo nacional palestino de independência, porque se opõe à “solução de dois Estados”, isto é, um Estado israelense e um palestino vivendo lado a lado em paz e segurança. Ao invés disto, defende a idéia de um Estado islâmico fanático que seria estabelecido sobre as ruínas do Estado judaico. O objetivo do Hamas não é estabelecer um Estado palestino e nunca foi. Pelo contrário, seu objetivo é a destruição do Estado de Israel, pura e simplesmente. Se uma organização terrorista quisesse a destruição de seu país como condição de parar com a agressão violenta, vocês balançariam a cabeça e diriam: “amém”?

No verão de 2005, Israel retirou-se de Gaza completamente. Aos palestinos foi dada uma histórica oportunidade de mudar seu destino e fazer com que Gaza se tornasse um milagre econômico, nacional e cultural. Com uma ajuda internacional maciça, eles poderiam ter transformado Gaza em um paraíso. Mas o Hamas tomou o controle e transformou Gaza em um antro de terrorismo e opressão. Ele violou todos os acordos de cessar-fogo com Israel, contrabandeou foguetes fabricados no Irã através de túneis na fronteira e ignorou as necessidades humanitárias básicas da população civil palestina. Qual é a fórmula certa para responder ao fogo direcionado contra suas casas com o intuito de te matar? Seria certo responder com 8 mil foguetes direcionados às casas dos atacantes? Qual é a aritmética moral correta? O Hamas dispara contra nossos civis a partir de seus esconderijos entre sua própria população civil. Eles se encolhem entre crianças, em mesquitas e hospitais, esperando que Israel responda para que possam posar de vítimas na imprensa mundial. Israel sabe lidar com isto bem melhor do que qualquer exército no mundo, que já se encontrou em circunstâncias bem menos difíceis.

Há aqueles entre a mídia mundial que caem facilmente nas armadilhas de falsas fotos. Peço que não sejam convencidos. Apesar da luta contínua, Israel se esforça para transferir ajuda humanitária para Gaza. Quase todos os dias, aproximadamente 80 caminhões descarregam toneladas de alimentos e medicamentos nas passagens da fronteira para serem transportadas até Gaza. A Força Aérea de Israel investe esforços tremendos para evitar atingir civis. Em suas reuniões, 80% do tempo são dedicados a discutir maneiras de atingir alvos terroristas conhecidos sem atingir civis inocentes, como jogar folhetos do ar dizendo aos residentes quais áreas estão para ser bombardeadas. Vocês conhecem qualquer outra Força Aérea no mundo que toma tais medidas em tempo de guerra? Nosso pessoal telefona para casas em Gaza, avisando aos civis inocentes o que está para acontecer com um prédio que aloja um quartel general do Hamas ou armazena foguetes. Apesar de todos os nossos esforços, nem sempre obtemos sucesso.

As casualidades civis são profundamente sentidas. Erros ocorrem até em tempos de paz, quanto mais na guerra. Nossa guerra contra o Hamas tem o objetivo de proteger as vidas de nossos cidadãos que moram no Sul de Israel, mas é bem mais do que isso. Pode proteger o processo político e a chance de paz entre Israel e os palestinos, chance esta constantemente “torpedeada” pelo Hamas. Tem também o intuito de evitar que esta região caia em um abismo de fanatismo e hegemonia iraniana. É parte da luta legítima contra o terrorismo e extremismo assassino. Se vocês se colocarem por um momento em nossos lugares e entenderem as dificuldades passadas pelos israelenses, vocês poderão ter um retrato colorido da situação real.

09/01/2009 - 15:59h Obama quer dialogar com Hamas, diz jornal

Segundo ‘The Guardian’, que cita membros da equipe de transição do presidente eleito, ele pretende contatar o grupo palestino quando assumir

 

The Guardian, Washington – O Estado SP

 


O jornal britânico The Guardian publicou ontem em seu site que o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, pretende mudar a política do atual governo americano de isolar o Hamas. De acordo com três membros da equipe de transição ouvidos pelo jornal, Obama estabelecerá um diálogo com o grupo palestino, que hoje faz parte da lista de organizações consideradas terroristas pelos EUA.

Os contatos com o Hamas, que seriam feitos por agências de inteligência, começariam aos poucos. No início, não seriam de alto nível e poderiam ser feitos até mesmo de maneira clandestina. Segundo os membros da equipe de Obama, há cada vez mais consenso em Washington de que a estratégia de isolar o Hamas é contraproducente.

Uma das alternativas que estão sendo analisadas é o estabelecimento de contatos entre o Hamas e agências de inteligência dos EUA por meio de encontros secretos, um processo muito parecido com o que foi usado pelos americanos para negociar com a OLP, nos anos 70.

MUDANÇA

Richard Haass, que seria o escolhido de Obama como enviado dos EUA ao Oriente Médio, apoia esse tipo de contato preliminar com o Hamas.

Em artigo publicado esta semana no site da revista Foreign Affairs – escrito antes do conflito em Gaza -, Haass, que é presidente do Council on Foreign Relations, escreveu que se houver um cessar-fogo entre Israel e o Hamas e uma reconciliação entre o grupo islâmico e a Autoridade Palestina, os EUA deveriam negociar com as duas facções palestinas. “Se isso ocorrer, Obama deve autorizar contatos preliminares entre funcionários dos EUA e o Hamas em Gaza.”

Para Steve Clemons, diretor do programa de Estratégia Americana da New America Foundation, existem várias maneiras de dialogar com o Hamas sem passar a impressão de estar legitimando o grupo. “Enviados secretos, diálogos multilaterais, negociações feitas por meio de diplomatas europeus, enfim, os dias de isolamento total do Hamas ditados por Bush acabarão”, disse.

Um analista de política externa bastante próximo da equipe de transição confirmou a intenção de diálogo com o Hamas, mas advertiu que, provavelmente, o andamento das negociações não vazará para a imprensa.

A disposição de negociar com o Hamas marcaria um rompimento radical na forma como o governo George W. Bush encara o extremismo islâmico. No mês passado, o general Anthony Zinni, que foi enviado do atual presidente ao Oriente Médio, já havia pedido publicamente para que Obama mudasse a estratégia dos EUA para a região e dialogasse com o Hamas.

Até agora, Obama não deu pessoalmente nenhuma pista de como será sua política externa para a região. Sempre que questionado por jornalistas, o presidente eleito responde que agirá apenas após a posse para não passar por cima da autoridade do atual presidente americano.

09/01/2009 - 14:55h Uma guerra desnecessária em Gaza

Jimmy Carter*, The Washington Post – O Estado SP

http://www.smh.com.au/ffximage/2008/05/27/Jimmy_Carter_narrowweb__300x459,0.jpgDepois de visitar Sderot, em abril, e observar os danos psicológicos causados pelos foguetes que caíram naquela área, minha mulher, Rosalynn, e eu concluímos que esses ataques com foguetes lançados de Gaza eram imperdoáveis, um ato de terrorismo. Embora as vítimas sejam raras (três mortes em sete anos), a cidade estava traumatizada pelas explosões. Cerca de 300 moradores mudaram para outras comunidades e as ruas, playgrounds e shopping centers estavam vazios. O prefeito Eli Moyal reuniu um grupo de cidadãos em seu gabinete para conversar conosco e eles se queixaram que o governo de Israel não conseguia pôr um fim a esses ataques, seja pela diplomacia ou por uma ação militar.

Sabendo que logo mais veríamos os líderes do Hamas em Gaza e também em Damasco, prometemos avaliar as perspectivas de um cessar-fogo. Ficamos sabendo pelo chefe do serviço de inteligência egípcio, Omar Suleiman, encarregado das negociações entre israelenses e o Hamas, que existia uma divergência fundamental entre os dois lados. O Hamas queria um cessar-fogo amplo, que abrangesse Cisjordânia e Gaza, e os israelenses recusavam-se a discutir qualquer outra coisa além de Gaza.

Soubemos que 1,5 milhão de habitantes de Gaza estavam passando fome quando o relator da ONU declarou que a desnutrição na região estava no mesmo nível dos países pobres do sul do Saara.

Os líderes palestinos de Gaza foram evasivos quanto a esses problemas, afirmando que os foguetes eram o único meio de reagir a seu confinamento e de chamar a atenção para a dramática situação humanitária dos palestinos. Mas em Damasco, os líderes do alto escalão do Hamas aceitaram analisar um cessar-fogo apenas em Gaza, desde que Israel não atacasse a região e permitisse que a ajuda humanitária chegasse até os palestinos.

Depois de extensas discussões com os companheiros de Gaza, os líderes do Hamas em Damasco também mostraram-se dispostos a aceitar um acordo de paz negociado entre israelenses e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, líder da Organização para Libertação da Palestina (OLP), contanto que fosse aprovado pela maioria dos palestinos em referendo ou por um governo de unidade eleito pela população.

Como estávamos ali como observadores e não como negociadores, transmitimos a informação aos egípcios, que prosseguiram com a proposta de cessar-fogo. Depois de um mês, egípcios e o Hamas informaram que as ações militares dos dois lados seriam interrompidas em julho por um prazo de seis meses e a ajuda humanitária seria retomada, voltando ao nível de antes da saída de Israel da região em 2005 (700 caminhões por dia).

Não conseguimos confirmar esses acertos em Jerusalém porque Israel não quis admitir qualquer negociação com o Hamas. Mas os disparos de foguetes foram interrompidos e os suprimentos de alimentos, água, remédios e combustível para Gaza foram reforçados embora o aumento tenha sido só de 20%.

Essa frágil trégua foi parcialmente violada em novembro, quando Israel lançou seus ataques para destruir um túnel que vinha sendo escavado pelo Hamas entre a fronteira de Gaza e o Egito.

Em outra visita à Síria, em dezembro, tentei conseguir que a trégua de seis meses, que estava expirando, fosse ampliada. Mas estava claro que a questão mais importante era a abertura das fronteiras para Gaza. Representantes do Centro Carter reuniram-se com autoridades israelenses em Jerusalém e indagaram se isso era possível em troca de uma interrupção dos ataques com foguetes.

O governo israelense disse informalmente que 15% dos carregamentos normais de ajuda humanitária seriam retomados se o Hamas interrompesse os ataques por 48 horas, o que não foi aceito pelos palestinos. Então, as hostilidades irromperam.

Depois de 12 dias de “combates”, as forças israelenses informaram que mais de mil alvos tinham sido bombardeados. Israel rejeitou as pressões internacionais por um cessar-fogo, com apoio de Washington. Dezessete mesquitas, a Escola Internacional Americana, residências particulares e boa parte da infraestrutura desse pequeno território foram destruídas, bem como os sistemas de fornecimento de água e de eletricidade.

A esperança é que, quando as hostilidades cessarem, Israel, o Hamas e os EUA aceitem um novo cessar-fogo, com a interrupção dos lançamentos de foguetes e a permissão para a entrada da ajuda humanitária aos palestinos . O próximo passo possível deve ser uma paz ampla e permanente.

*Jimmy Carter foi presidente dos EUA de 1977 a 1981. Fundou, em 1982, o Centro Carter, ONG que busca colaborar para a paz no mundo

08/01/2009 - 15:17h O debate faz parte da luta pela paz entre palestinos e israelenses

Reproduzo a seguir duas cartas trocadas entre o presidente da Conib (entidade representativa da comunidade judaica brasileira) e do presidente da ONG ABC Sem Racismo, sobre a intervenção militar na Faixa de Gaza.

Tenho reproduzido aqui alguns artigos para alimentar a reflexão dos leitores sobre o conflito no Oriente-Médio. Minha opinião está registrada em Paz em Gaza: uma solução complexa

LF

 

 

 

Prezado Senhor Cláudio Lottenberg,
Presidente da CONIB

Não sou um ativista anti-judeu. Ao contrário: sou um admirador da luta do povo judeu e de sua milenar história. Mais do que isso: me considero um parceiro do povo judeu na luta contra o racismo e qualquer espécie de discrimnação.
Mas, por favor, me responda: como é possível que um povo que há menos de cem anos foi vítima de crimes contra a humanidade como o holocausto praticados pelo nazismo, possa estar, precisamente hoje, repetindo os mesmos crimes, com a mesma crueldade, contra um povo inteiro – o palestino?
As imagens falam mais forte do que mil palavras e de nada adianta a propaganda do seu Exército mostrar ao mundo que se trata apenas de uma guerra contra o Hamas, a quem o seu Governo e Bush acusam de terrorista. Os mortos, às centenas, senhor Lottenberg, são na sua maioria civis – homens, mulheres e crianças desarmadas.
Como explicar esse crime às gerações futuras, senhor Lottenberg? Como poderá o povo judeu continuar falando de holocausto, quando transformou a Palestina, há décadas, em verdadeiro campo de concentração, com todos os requintes a que a crueldade humana pode chegar? Porque o seu Exército e os seus Governos sistematicamente, sob proteção americana, descumprem Resoluções da ONU que asseguram o direito inalienável do povo palestino ao seu Estado, onde possa viver em paz e em segurança? Por que o seu Governo recusa-se ao cessar fogo proposto pela União Européia? É apenas para ganhar tempo para perpretar o massacre contra civis indefesos?
Estamos todos cansados, senhor Lottenberg, da sua propaganda. Quando jovem eu e muitos da minha geração ficamos alarmados com as imagens de Sabra e Chatila, o senhor se lembra? Também lá, homens, mulheres e crianças palestinas foram vítimas de um verdadeiro massacre, praticados sob o comando do seu Exército. Na época, senhor Lottenberg, o Hamas sequer existia.
Assim como não há propaganda capaz de apagar as imagens da resistência judaica no gueto de Varsóvia; assim como não há palavras para descrever os sofrimentos do seu povo, Senhor Lotenberg, nos campos de concentração sob o nazismo; tampouco há propaganda e ou palavras que possam apagar os crimes contra a humanidade que hoje são praticados à luz do dia e sob as câmeras de TV pelo seu Exército. Protegido, apoiado e amparado pelas vítimas de ontem!
Chega! Basta de mentira e de hipocrisia!
Cordialmente,
Dojival Vieira
Jornalista Responsável pela Afropress – www.afropress.com
Presidente da ONG ABC SEM RACISMO
Fones: 9647-7322

Resposta do presidente da CONIB

Prezado Senhor Dojival:

Agradeço que me escreva e fico feliz que o senhor seja um admirador, como assim se manifesta, do povo judeu e de sua historia milenar, colocando-se como um verdadeiro parceiro na luta contra o racismo.

Ao tomar a liberdade de me escrever também tomo à liberdade de lhe contestar a luz da sugestão de que o senhor aprofunde o seu conhecimento no sentido de admirar de forma consistente, baseado em fatos concretos, e não alimentado por informações isoladas e não verdadeiras como o senhor aqui coloca.

A historia relativa ao Estado de Israel tem dados sobre os quais eventualmente o senhor desconheça. Em 1948 este Estado foi criado com a participação decisiva do brasileiro Osvaldo Aranha e, desde então uma longa historia vem acontecendo. Acordos são realizados e desrespeitados, diálogos são interrompidos e acredite que nos desaponta muito que o caminho da paz ainda não tenha sido atingido.

Comparar a situação da Faixa de Gaza com o Holocausto reflete um desconhecimento absoluto acerca dos dois episódios. O Holocausto foi fruto de uma indiferença de uma sociedade que condenou um povo à morte, liderado por um grupo minoritário. Este povo não caminhava com morteiros, não lançava foguetes e não matou civis, como é o caso daquilo que ocorreu na faixa de Gaza. Estes civis que morreram no Holocausto não morreram por serem terroristas ou por quererem a exterminação de um povo. Morreram por serem judeus.

Em 2005, Israel se retirou da Faixa de Gaza e entregou conforme acordado a região a Autoridade Palestina. Esta foi aos poucos lateralizada pelo braço terrorista Hamas, que é assim denominado pela União Européia e pelos EUA que progressivamente iniciou estimulado pelo Iran, um processo de agressões sistemáticas aos israelenses, moradores da região vizinha a Faixa de Gaza. Foguetes e morteiros eram lançados diariamente, civis assassinados e Israel inutilmente avisava que tomaria medidas caso isto não fosse interrompido. O Hamas, braço terrorista, coloca claramente que com Israel não há dialogo e que Israel deve ser destruído, e que, portanto mesmo os acordos previamente realizados não têm valor. Optou, portanto, em manter os ataques aos civis e aí, efetivamente, não haveria alternativa que não aquela tomada legitimamente de defesa. Cabe a toda estrutura de Estado garantir a segurança de seus cidadãos e exigir que seus vizinhos tenham um comportamento adequado. Portanto deixo claro ao senhor que a comparação com o Holocausto é no mínimo um reflexo de falta de sensibilidade, de desrespeito e que suas informações sobre a Faixa de Gaza são incompletas e fruto de manchetes de jornal isoladas de um contexto maior.

Quero lhe dizer mais uma coisa. Sou brasileiro e, portanto peço ao senhor respeito, pois meu julgamento é acerca de um comportamento de uma situação internacional, mas o meu governo é o governo brasileiro assim como o seu. Portanto, faça suas observações, mas não me cobre como o senhor assim o faz, pois a minha contribuição junto a este país tem sido enorme bastando que o senhor levante parte das atividades que desenvolvi. Acho que este cuidado que o senhor não teve, reflete o perfil de uma pessoa que por sua posição deveria ser um pouco mais justa e informada na maneira de se dirigir a um cidadão.

Eu, pelo contrario. Tomei o cuidado de ver suas contribuições, saber sobre o seu passado e se respondo é porque uma pessoa como o senhor merece minha atenção e quem sabe um pouco de compartilhamento de meu conhecimento para quem sabe rever seus pontos de vista.

Aprendi em minha vida que certas atitudes têm importância compensatória, pois são momentâneas. Elas passam mais rapidamente e são pontuais. Existem outras que são estruturantes, por trazerem propostas que a médio e longo prazo mudam situações para sempre. Ao escrever-lhe, peço que não tome minha resposta como algo para o momento, mas sim que dentro do espírito de união e de entendimento, que marca a relação entre as nossas comunidades, o senhor se proponha a entender o contexto que fez com que Israel legitimamente defendesse seus cidadãos.

Cordialmente,

Claudio Lottenberg

08/01/2009 - 10:07h A prova do angu

Verissimo – O Globo

verissimo.jpgVidentes antigos procuravam presságios nas vísceras dos pássaros. Os que tentam antever como será o governo Barack Obama estudam a sua escolha de secretários como se fossem tripas, pois seu gabinete tem algo de angu à baiana. Há conservadores, centristas e menos progressistas do que se esperava e sua inspiração principal parece ser o governo Clinton – ou seja, mais um passado testado do que o novo prometido. É difícil deduzir o que vem aí dessa mistura. Uma previsão é que Barack proporá outro New Deal como o do Roosevelt para enfrentar a crise econômica – o que também não deixará de ser um apelo ao passado -, mas nada de dramaticamente muito diferente em outras áreas, como a da política externa. Pelo menos baseada na aparência do angu.

Na questão Israel/palestinos, as opiniões do Barack não divergem da posição da quase totalidade dos políticos americanos, de ajuda incondicional a Israel. Hillary Clinton, sua secretária de Estado, era senadora por Nova York com forte apoio do voto judaico. A única esperança de que a política americana em relação ao Oriente Médio passe a ser mais equilibrada vem de uma declaração que o Barack fez durante a campanha, segundo a qual ser a favor de Israel não significa ser necessariamente a favor do Likud, o partido de extrema direita tão intransigente nas suas pregações e ações quanto os radicais do outro lado. O implícito reconhecimento que a política expansionista e do revide desproporcional é de uma corrente política não favorece a segurança de Israel e, portanto, não merece apoio incondicional, é um vislumbre de mudança. Se o Barack não estava apenas fazendo uma frase.

A mistura de conveniência política com ódios irracionais é o que tem de mais repugnante na crise crônica do Oriente Médio. Toda essa gente morrendo para que o Hamas pareça mais duro do que as outras facções palestinas contra Israel e o governo israelense pareça duro o suficiente para derrotar o ainda mais duro Bibi Netanyahu nas eleições de fevereiro. As ambições sectárias de lado a lado medidas em crianças mortas. Se você pode entender a reação de Israel diante do terror palestino, e para isso basta se imaginar vivendo entre vizinhos que simplesmente negam a sua existência, também não pode deixar de lamentar que a retribuição de Israel seja o terror no mesmo nível. Nenhuma corrente ou facção tem o direito de fazer isso com a reputação de um povo com o passado e o acervo moral do povo judeu. No Oriente Médio se tem o triste espetáculo de uma nação sacrificando sua história para garantir sua geografia.

O que o governo Barack Obama fará a respeito de tudo isso? Bom, isso será a prova do angu.

08/01/2009 - 09:51h A Hitler o que é de Hitler

 

por Marcos Guterman* – Blog O Estado de São Paulo

Guerras, por definição, sinalizam rupturas. Enquanto a diplomacia oferece portas de saída, o conflito armado só se justifica pela decisão de destruir o inimigo e aquilo que ele representa. E a destruição não pode ser apenas militar ou material; ela tem de se dar também, e sobretudo, no campo moral. O conflito que simboliza melhor esse conceito é a Segunda Guerra Mundial, que passou à história como a luta contra o mal absoluto, resumido no nazismo. Hitler e sua ideologia insana tornaram-se paradigmas daquilo que deve ser combatido sem trégua e sem quartel, em nome da humanidade. Por isso, mesmo passadas seis décadas do fim do conflito, o nazismo continua sendo a referência mais implacável que alguém pode usar quando pretende desqualificar completamente seu inimigo no campo de batalha da opinião pública e da justificativa moral. O caso da presente guerra entre Israel e Hamas mostra justamente os exageros dessa retórica.

Em artigo publicado no Wall Street Journal, o líder da oposição israelense Benjamin Netanyahu comparou os ataques do Hamas no sul de Israel à blitz aérea promovida pela Alemanha de Hitler contra Londres. Já do lado palestino, Mustafa Barghouti escreveu um texto no jornal egípcio Al-Ahram, a respeito da ofensiva israelense, cujo título é “A Guernica dos palestinos”, em referência ao dramático bombardeio nazista contra essa cidade espanhola em 1937.

Trata-se de um óbvio exagero, de ambos os lados, e é um exagero calculado. Ao igualar os palestinos aos nazistas, Netanyahu simplifica grosseiramente o quadro com o objetivo de invocar, no imaginário israelense, o pesadelo da “solução final”. Não é possível, em qualquer sentido, dar pesos semelhantes às forças nazistas e ao limitado poder de fogo do Hamas, ainda que este, a exemplo de Hitler, tenha como objetivo eliminar os judeus. Netanyahu, além disso, se esquece de informar que os palestinos vivem em situação de desespero – que gera grandes ressentimentos – em parte como resultado das ações brutais e dos erros de Israel ao longo de mais de 40 anos de ocupação, com laivos de apartheid.

Barghouti, por sua vez, recorre à velha fórmula anti-semita de comparar os israelenses aos nazistas. É uma fórmula de duplo objetivo, ambos perversos. Primeiro, iguala a vítima ao seu maior algoz, um algoz que reduziu a população judaica na Europa de 9,5 milhões para 3,5 milhões de seres humanos em menos de dez anos. Ele poderia ter comparado os israelenses aos americanos, por exemplo, mas isso não teria o efeito desejado, qual seja, o de ligar os judeus ao mal absoluto. O segundo objetivo da fórmula é diminuir a importância e a singularidade do Holocausto, para então adaptar a impactante imagem do extermínio em massa perpetrado pelos nazistas a qualquer outra circunstância conveniente – por exemplo, a morte de palestinos por israelenses.

A retórica que Netanyahu e Barghouti aplicaram, em lugar de explicar o conflito, obscurece ainda mais o já complicado quadro das tensões no Oriente Médio. Argumentos desse tipo podem até fazer um grande sucesso entre gente oportunista e panfletária – um bom exemplo foi a grosseira nota em que o PT acusou os israelenses de “prática típica do Exército nazista” –, mas eles definitivamente não ajudam a entender a crise nem muito menos a construir pontes para sua superação. Para o bem do debate, deixemos a Hitler o que é de Hitler.

Marcos Guterman é historiador e jornalista de O Estado de S.Paulo

08/01/2009 - 09:37h Do Gueto de Varsóvia ao Gueto de Gaza

Maria Inês Nassif – VALOR

Conflito na Faixa de GazaO Gueto de Varsóvia foi o maior enclave judaico estabelecido pelos alemães na Polônia, durante a ocupação nazista. Chegou a atingir a marca de 380 mil habitantes, ou 30% da população de Varsóvia, e ocupava 2,4% de seu território, separado da cidade por muros. A partir da construção do muro, em novembro de 1940, e pelo ano e meio seguinte, os judeus poloneses das cidades e vilas menores eram levados para lá – depósito dos judeus que iriam para o campo de extermínio de Treblinka e que podiam ter a sorte de escapar das câmaras de gás se morressem antes de tifo ou fome, ou simplesmente fossem atingidos nas ruas, como animais, caça dos soldados nazistas. Lá dentro, três grupos, no entanto, resistiram com pistolas, bombas caseiras e coquetéis molotov – um deles até com umas armas um pouco melhores, fornecidas pela resistência polonesa que as contrabandeava para dentro dos muros – dizem que até por túneis. Depois de seis meses de resistência, os judeus poloneses do gueto foram transferidos maciçamente para Treblinka ou simplesmente assassinados em Varsóvia.

Ao longo da história, vários guetos confinaram judeus. Existiram guetos judaicos na Alemanha e na Península Ibérica no Século XIII; o Gueto de Veneza é do Século XIV. Dependendo da circunstância histórica, eram mais ricos, ou mais pobres, mas todos eles traziam o sentido metafórico do isolamento, da exclusão, do preconceito.

A primeira vez que ouvi a expressão “Gueto de Gaza” foi na minha casa. É uma expressão forte – e invertida. Nesse caso, a população judaica está fora do gueto, não dentro. Quem me chamou atenção para essa terrível inversão foi o meu companheiro, descendente de judeus poloneses. De nossa vida em comum, ostentamos, com orgulho, filhos brasileiros de descendência 50% árabe, 50% judaica, e sempre cultivamos a convicção de que seríamos – com outros tantos casais que fizeram a mesma “mistura” – os precursores de um mundo moderno, de paz, laico, em que a religião fosse apenas uma decisão de foro íntimo que não agredisse vizinhos ou causasse guerras. Tenho acompanhado a angústia de meu companheiro nos últimos dias, no seu frenético procurar por imagens apertando botões da televisão a cabo, doendo por dentro pelas mortes de crianças palestinas, mulheres palestinas, centenas de anônimos palestinos, e tentando entender o que aconteceu com o inconsciente coletivo judaico daquele Israel do qual se sentiu parte quando, aos 18 anos, foi trabalhar num kibutz. É o Estado militarizado, explica: uma cultura entranhada da morte, uma dessensibilização para com a vida do outro, uma radicalização. Como deve ser difícil aos próprios israelenses que não concordam com a guerra entender isso: como a vida do outro pode ter se tornado acessória, como a humanidade pode ter se desumanizado. Lembro Primo Levi, nos seus pequenos e pesados livros em que tentou entender, de sua saída de um campo de concentração até a sua morte, a desumanização imposta pela guerra. “E isso é um homem?”, é o título de seu melhor livro, em que descreve um cru percurso de volta ao lar, depois da guerra, quando a sobrevivência tornou cada um daqueles que erravam pelas estradas animais. Isso não é um homem, diria, se aquela pesada literatura necessitasse de uma resposta.

Li no site da “Carta Maior” artigo de Shulamit Aloni, que foi ministra do governo Itzhak Rabin, publicado originalmente no “Israel News”, que é um chute no estômago. Escreve ela, em “Sangue em nossas mãos”: ” O Hamas exigiu a libertação de prisioneiros, e nós argumentamos que muitos deles têm sangue em suas mãos; nós somos muito mais capazes do que eles, mesmo que essa capacidade chegue a matar e leve a assassinatos. Nas primeiras 24 horas da operação matamos mais de 300 pessoas, inclusive duas meninas inocentes, para não mencionar as vítimas que matamos entre essa operação e outras anteriores. Por que nosso tão bem organizado exército, com sua excelente capacidade de inteligência, recusou a libertação de prisioneiros palestinos, quando poderíamos mandá-los de volta para casa e mais tarde assassiná-los no calor da batalha? Afinal de contas, já estamos sendo usados para assassinatos por ar, mar, em abrigos ou em bairros populosos. Assassinato – isto é, matar e assassinar. Além do mais, as pessoas que jogam nossas bombas não ficam manchadas com sangue. Nosso sistema é simples: não há necessidade de evidência para um julgamento. Uma vez que decidamos que alguém é alvo, jogamos uma bomba e ele se foi. Recentemente, o exército adquiriu permissão para matar civis que estejam próximos de alguém escolhido com alvo; isso foi publicado na imprensa há umas duas semanas, próximo à foto de uma sorridente comandante do exército”.

Li também na “Carta Maior” um artigo do secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestina, Mustapha Barghouthi, em que a noção de gueto está lá também, cravado na pele: “Quem é mais anti-semita, aqueles que viciaram Israel ano após ano durante sessenta anos, até desfigurá-lo ao ponto de fazê-lo o país mais perigoso do mundo para os judeus, ou aqueles que os advertem de que o Muro marca um gueto de dois lados? É anti-semita reler Hannah Arendt hoje, em que nós, os palestinos, somos a escória da terra; é anti-semita voltar a iluminar essas páginas sobre o poder e a violência?”

A distância da guerra nos dá uma chance de não nos desumanizarmos. Mas a indiferença também desumaniza.

(…)

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras
E-mail maria.inesnassif@valor.com.br

07/01/2009 - 23:13h Israel acepta los principios del plan de alto el fuego de Egipto

Tel Aviv asegura que aún hay que discutir los términos del acuerdo. -El presidente francés asegura que la Autoridad Palestina también respalda la propuesta

 

 EL PAÍS

 

 

Los esfuerzos diplomáticos para detener la ofensiva del ejército israelí en Gaza, intensificados en las últimas horas, han arrancado una respuesta de Israel, que ha aceptado los principios del plan para un alto el fuego presentado ayer por el presidente egipcio, Hosni Mubarak, y el francés, Nicolas Sarkozy, según han confirmado fuentes israelíes. “Hay un acuerdo sobre los principios pero todavía hay que trasladarlos a la práctica”, aseguran las mismas fuentes.
Después de que esta madrugada, en la ONU, la secretaria de Estado de EE UU, Condoleezza Rice, y el presidente palestino, Mahmud Abbas, dieran su respaldo al plan, ahora mismo la única salida a la situación, los esfuerzos diplomáticos se han intensificado para que sea aceptado y puesto en marcha. Varios países y organismos lo apoyan, entre otros EE UU, la UE, la ONU, Siria o Líbano.

Tras la respuesta de Israel, sólo falta la de Hamás, que ha manifestado a través de un portavoz que el plan egipcio “está aún en discusión” y exige el fin del bloqueo israelí para suscribir el acuerdo.

Tel Aviv había manifestado hoy sus reticencias acerca del plan, tras el anuncio precipitado de Sarkozy sobre la aceptación israelí del acuerdo. Mark Regev, portavoz de del primer ministro israelí, había declarado que “una paz duradera debe basarse sobre la total ausencia de fuego hostil desde Gaza contra Israel y un embargo de armas efectivo sobre Hamás que cuente con apoyo internacional”.

No obstante, Israel no ha descartado todavía ampliar la ofensiva, dar luz verde a una “tercera fase”, que incluiría la entrada masiva de soldados en las poblaciones de Gaza para acabar con Hamás. Para ello se ha reunido esta mañana el gabinete de seguridad del primer ministro, que reúne a los líderes políticos y militares. Finalmente, la decisión de ampliar la ofensiva ha sido aplazada sin fecha. El sábado, la ofensiva entró en una segunda fase con la entrada de militares israelíes en las afueras de Gaza. La primera, que comenzó el 27 de diciembre, consistía en bombardeos.

Una posibilidad

El plan de Mubarak parece ahora el único asidero para salir de la situación. Al menos así lo ve Javier Solana. Entrevistado por la Cadena SER, el jefe de la diplomacia europea, que se encuentra en El Cairo, donde anoche se entrevistó con el presidente egipcio y con el francés, Nicolas Sarkozy, cree que “hay una posibilidad” de lograr un alto el fuego, dado que la propuesta egipcia ha sido “muy bien acogida” por los palestinos, la ONU, Siria, Líbano y Turquía, e incluso aventura que el primer ministro israelí, Ehud Olmert, podría viajar hoy a Egipto para debatirla con Mubarak. Cree que este plan podría acabar, “al menos en este momento de gravedad total, con la tremenda maldición de que todas las iniciativas de paz en Oriente Medio están llamadas a frustrarse”. Solana viajará hoy a Turquía e Israel para tratar de lograr el fin de la violencia.

Por el momento, lo único que ha hecho Olmert es anunciar la apertura de un corredor humanitario y un parón diario de tres horas a las acciones militares para permitir la entrada de ayuda humanitaria. La reunión se produce tras uno de los peores días de la operación Plomo Fundido, ayer, cuando más de 50 palestinos murieron al caer bombas israelíes sobre dos escuelas de la ONU. La ONU ha negado hoy que hubiese combatientes en esas escuelas, como aseguraba Israel.

Durante la noche, el ejército israelí ha seguido con su ofensiva sobre Gaza, matando a 11 palestinos, según fuentes médicas, 22 según la agencia palestina Maan. La operación, en respuesta a los cohetes que Hamás lanza contra Israel -hoy han caído 8, sin causar víctimas-, ha entrado en su duodécimo día. Un total de 642 palestinos han muerto en la ofensiva.

¿Qué propone Egipto?

El Cairo propone un cese de las hostilidades seguido del inicio de reuniones para llegar a acuerdos de largo recorrido incluido el fin del bloqueo sobre Gaza. El presidente egipcio Hosni Mubarak ha presentado su propuesta en una breve comparecencia después de mantener una reunión con Sarkozy, que también mantiene un papel activo en la búsqueda de una solución a la crisis, en el balneario de Sharm el-Sheikh.Con todo, el plan no hace mención a muchos de los elementos que fuentes diplomáticas aseguran que estaban bajo discusión, como el despliegue de una fuerza internacional que impida a Hamás rearmarse, tal y como exige Israel para garantizar que no habrá nuevos ataques con cohetes contra su territorio.Mubarak no ha explicado qué papel exacto jugará el movimiento islamista que gobierna Gaza en las charlas que propone. La propuesta, tal y como ha sido enunciada por Mubarak, contiene los siguientes puntos:1) Israel y las facciones palestinas deben de acordar de inmediato un alto el fuego por un tiempo limitado, que permita abrir con seguridad un corredor humanitario para que llegue la ayuda a Gaza y que de tiempo a Egipto para continuar con sus esfuerzos de lograr un alto el fuego duradero.

2) Egipto convocaría a israelíes y palestinos a un encuentro urgente en el que se pudiera llegar a acuerdos que garanticen que la actual escalada de violencia no vuelva a repetirse. Además, dichos acuerdos deberían desembocar en la protección de las fronteras, la reapertura de los pasos fronterizos y la suspensión del bloqueo.

3) Las autoridades de El Cairo invitan también a la Autoridad Palestina y al resto de facciones palestinas a que se unan a los esfuerzos de Egipto en la búsqueda de un acuerdo que logre la reconciliación nacional.

07/01/2009 - 23:02h “Peu de gens en dehors de Gaza mesurent l’horreur de la situation”

John Ging, chef des opérations de l'UNRWA à Gaza, visite une école dirigée par l'Onu où ont trouvé refuge des familles palestiniennes, le 7 janvier.
AFP/Thair al-Hasny – John Ging, chef des opé,rations de l’UNRWA à Gaza, visite une école dirigée par l’ONU où ont trouvé refuge des familles palestiniennes, le 7 janvier.

LE MONDE

John Ging est responsable des opérations de l’UNRWA (agence de l’ONU chargée des réfugiés palestiniens) à Gaza depuis trois ans. Pour les victimes du bombardement mardi d’une école gérée par l’ONU, comme pour l’ensemble des victimes civiles de ce conflit, il espère qu’une enquête indépendante permettra d’établir les responsabilités.

Pouvez-vous décrire la situation à Gaza ?

La situation est atroce. Les habitants viennent de vivre douze jours de bombardements incessants. Personne n’est en sécurité, nulle part. Plus de 600 personnes sont mortes et 3 000 ont été blessées, et ça continue. Sans compter que la population manque de tous les produits de première nécessité, comme la nourriture ou l’eau. Les hôpitaux sont débordés, les médicaments manquent. La situation est vraiment désespérée. Mais les gens font preuve d’une grande dignité dans une situation des plus indignes.

Israël a commencé mercredi à ouvrir des corridors humanitaires trois heures par jour. Cela a-t-il amélioré la situation ?

Les points de passage étaient ouverts aujourd’hui comme ils l’étaient hier et avant-hier. Ce qui a changé, c’est qu’ils ont interrompu leurs opérations militaires pendant trois heures, pour permettre aux gens de sortir de leurs maisons chercher de l’eau et de la nourriture.

Cela ne vous a donc pas permis de répondre aux besoins les plus urgents de la population?

Notre travail ici n’a pas cessé pendant les bombardements. Mais que voulez-vous faire en si peu de temps ? Nous avons donc trois heures pour faire ce qui nous prend normalement douze heures par jour, six jours par semaine, et que nous n’avons pu faire depuis douze jours. Les camions qui acheminent les biens de première nécessité doivent être chargés, conduits, déchargés… Pour faire venir ces camions à Gaza aujourd’hui nous avons commencé à 7 heures du matin, et l’opération vient seulement de finir ce soir, douze heures plus tard. C’est une opération logistique très importante. Il ne faut pas se laisser distraire par ce joli mot de “corridor”, ces belles images de convois, ce n’est pas ainsi que cela se passe. Les soldats israéliens arrêtent leurs opérations pendant trois heures, c’est tout, rien de plus.

Un communiqué de votre agence rapporte les propos de médecins selon lesquels 50 % des blessés depuis le début du conflit sont des civils. Confirmez-vous ce chiffre ?

Je ne peux pas confirmer les chiffres avancés. Il faudra mener une enquête indépendante pour établir les faits, puis nous aurons les bilans exacts. Mais il est évident que beaucoup de civils sont tués à l’heure qu’il est. Il faudra que les responsabilités soient établies, parce que si la guerre n’est pas régulée par la loi, comme le détermine la convention de Genève, c’est la loi du fusil, et ça c’est la manière dont les extrémistes et les terroristes mènent leurs opérations. Nous devons donc nous assurer que même en temps de guerre la loi est respectée. La loi dit que les civils doivent être protégés. S’ils meurent, c’est qu’il y a un problème. Il faudra déterminer qui en porte la responsabilité.

Vous avez demandé l’ouverture d’une enquête internationale après le bombardement d’une école gérée par l’ONU. Que s’est-il passé exactement ?

Il y avait 350 familles de réfugiés à l’intérieur, et des tirs tout autour de l’école. Quarante personnes ont trouvé la mort, cinquante-cinq ont été blessées, presque exclusivement des civils. Il faut déterminer ce qui s’est passé. Israël affirme que des militants tiraient depuis l’école. Mais nous, aux Nations unies, sommes convaincus que ce n’est pas le cas car ces écoles sont sous notre contrôle. Notre personnel est chargé de vérifier qu’aucun combattant ne s’y abrite et qu’il n’y a aucun tir depuis l’école. Je fais confiance à notre personnel, mais si ceux qui nous accusent ont des preuves de ce qu’ils avancent, qu’ils les montrent et nous agirons en conséquence.

Israël va dépêcher jeudi un émissaire au Caire pour discuter d’une trêve des combats. Un cessez-le-feu vous paraît-il possible dans les jours qui viennent ?

Nous devons garder espoir qu’il interviendra le plus tôt possible. Le problème, c’est que peu de gens en dehors de Gaza mesurent l’horreur de la situation ici. Vu de l’extérieur, il peut sembler raisonnable d’attendre deux ou trois jours de plus, mais ici, des gens meurent pour rien toutes les heures. Puisque nous savons que tout cela aura une conclusion politique, et non militaire, pourquoi ne pas cesser les violences immédiatement ?

Propos recueillis par Soren Seelow

07/01/2009 - 22:57h “En Israël, le soutien massif à l’opération a commencé à s’éroder”

Michel Warschawski, président du mouvement pacifiste israélien Centre d’information alternative

LE MONDE

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A la veille du début de la phase terrestre de l’opération “Plomb durci”, le 3 janvier, 95 % des juifs israéliens soutenaient l’offensive dans la bande de Gaza, dont 80 % “sans réserve”, selon un sondage paru dans le quotidien Maariv. Le militant pacifiste anticolonial Michel Warschawski, président du mouvement israélien Centre d’information alternative, analyse l’évolution de l’opinion publique et fait le point sur l’état du “camp de la paix” en Israël.

L’offensive militaire semble trouver un soutien très large dans la population israélienne. Le mouvement pacifiste est-il audible ?

Samedi 3 janvier, à Tel-Aviv, nous étions entre 6 000 et 8 000 à manifester pour la cessation des combats. C’était le point d’orgue de notre mobilisation jusqu’à présent. C’est beaucoup plus que ce que nous avons mobilisé pendant la deuxième guerre du Liban en 2006, mais encore très loin de la mobilisation de la première guerre du Liban [en 1982]. La population arabe (20 % de la population israélienne) est mobilisée en permanence. La grande manifestation de samedi à Sakhnine en Galilée a rassemblé au moins 50 000 personnes, ce qui est énorme. Il y a des tensions croissantes entre les deux communautés. Le racisme ambiant inter-israélien, qui se développe depuis quelques temps déjà, s’est particulièrement durci ces dix derniers jours.

Si cette guerre avait été menée par le président du Likoud, Benyamin Nétanyahou, il y aurait eu rapidement des dizaines de milliers de personnes dans la rue. Mais lorsque les travaillistes sont au pouvoir, le “camp de la paix”, au sens large, n’existe pas.

Comment évolue l’opinion israélienne depuis le début de la phase terrestre des opérations ?

Le soutien massif, quasi consensuel, de l’opinion israélienne à l’opération a commencé à s’éroder avec le début de l’offensive terrestre, car les gens sont conscients qu’elle peut coûter des vies. On en est aujourd’hui à sept morts côté israélien, et l’opinion est en train de bouger sensiblement. On assiste à un revirement graduel de l’opinion publique, qui commence à attendre qu’un cessez-le-feu soit imposé à Israël.

Dans les éditoriaux de la presse quotidienne, le ton a changé. Certains journalistes reconnus, qui estimaient que cette guerre était justifiée, inévitable même, expliquent aujourd’hui qu’il faut utiliser le rapport de force sur le terrain pour obtenir un accord politique avec le Hamas. Cette offensive qui visait à neutraliser le Hamas a donc eu pour effet de lui accorder une reconnaissance de fait… Une partie de la classe politique, qui n’est pas insensible à cette opinion publique, suggère désormais de mettre fin aux affrontements. Le gouvernement israélien sait qu’un cessez-le-feu est inévitable à court terme, mais il demande encore un peu de temps pour finir le “travail”.

Quel est, selon vous, l’objectif de l’armée israélienne ?

Echaudé par l’exemple libanais en 2006, le gouvernement et l’armée se sont bien gardés de fixer un objectif clair. On n’a jamais entendu parler dans les déclarations officielles de l’éradication du Hamas comme cela avait été le cas pour le Hezbollah, parce qu’ils savent que c’est impossible. Ils parlent d’”affaiblissement”, de “marquer au fer rouge” les mentalités, c’est-à-dire de terroriser la population au point qu’elle accepte que des mesures soient prises pour mettre fin aux tirs de roquettes.

De manière générale, dans quel état se trouve aujourd’hui le “camp de la paix” en Israël ?

Je reprendrais une métaphore d’un grand journaliste israélien : le mouvement de la paix en Israël est une bicyclette avec une grande roue et une petite roue. La grande roue, représentée par “La Paix maintenant” et le mouvement travailliste, était capable de mobiliser à ses bons moment des centaines de milliers de personnes. La petite roue, représentée par les forces plus radicales, mobilise entre 5 000 et 10 000 selon les périodes. Ce mécanisme a été extrêmement efficace dans les années 80. Lors de la première guerre du Liban puis de l’Intifada, la petite roue se mettait très rapidement en branle et entraînait avec elle la grande.

Aujourd’hui, la petite roue, quoique plus faible qu’avant, est encore active et visible, mais le problème c’est qu’il n’y a plus de grande roue. Le mouvement de la paix a cessé d’exister. C’est la tragédie de la société israélienne.

Pourquoi cette foi en la paix a-t-elle disparu ?

A son retour de Camp David, en août 2000, Ehoud Barak a tenu un discours totalement mystificateur sur l’absence de partenaire côté palestinien. Dans la deuxième partie de son discours, il disait avoir démasqué le vrai plan d’Arafat, qui visait selon lui à nous “jeter à la mer”. Ce discours a détruit en quelques semaines le mouvement de la paix. Il ne s’en est jamais remis.

En 2001, l’opinion publique israélienne modérée commençait à se remettre des effets de ce discours quand est arrivé le 11 septembre 2001, qui a globalisé le slogan “il n’y a pas de partenaire”. On était désormais face à une menace existentielle représentée par l’islam militant dont les Palestiniens constituaient la ligne de front. C’est ce qui explique l’état de siège à Gaza puis l’offensive militaire. C’est la conjonction de ces deux facteurs qui explique pourquoi il n’y a plus de mouvement de la paix capable d’avoir un impact. Nous avons aujourd’hui un discours, mais aucune prise sur la politique gouvernementale.

Propos recueillis par Soren Seelow