22/10/2008 - 08:57h Governos europeus mudam foco de ajuda para estimular a economia

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VALOR - David Gauthier-Villars, Leila Abboud, Sara Schaefer Muñoz e Mike Esterl, The Wall Street Journal, de Paris, Londres e Frankfurt

Cada vez mais receosos de que uma queda brusca no crédito bancário possa prejudicar ainda mais suas economias, governos europeus estão apresentando novas propostas para diminuir as conseqüências de uma provável recessão.

Ontem, o governo italiano informou que está elaborando um pacote de medidas para estimular a economia. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, propôs a criação de fundos soberanos para evitar que grandes empresas do continente sejam adquiridas por não-europeus a preço de pechincha e chegou a esboçar proposta de um “governo econômico” para a zona do euro.

As sugestões de Sarkozy foram feitas depois que o governo da França anunciou que vai injetar 10,5 bilhões de euros (US$ 14 bilhões) nos seis maiores bancos do país. A medida, tomada com a intenção de promover a retomada dos empréstimos bancários, demonstra a clara mudança do foco do governo, passando das instituições financeiras doentes para a economia real. O temor é que, se os bancos emprestarem menos, empresas e pessoas não vão gastar dinheiro, reduzindo a atividade econômica num período em que a maior parte das grandes economias européias parece estar rumando para a recessão.

Em outra medida para facilitar o crédito, bancos centrais europeus inundaram os mercados, ontem, com dinheiro por meio de leilões de fundos ilimitados, ajudando a baixar as taxas de juros. Leilões feitos pelo Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra e o Banco Nacional da Suíça ajudaram a baixar a Libor, a taxa de Londres que serve de parâmetro para empréstimos entre bancos.

Há sinais de que está cada vez mais difícil para as empresas obter financiamento. A empresa francesa de serviços públicos Veolia Environnement SA, por exemplo, havia garantido o financiamento de investidores externos para um projeto de infra-estrutura de abastecimento de água em Abu Dhabi de 400 milhões de euros. Ela foi depois informada que teria de pagar juros mais altos sobre o empréstimo. A empresa desistiu e, em vez daquele grupo, pegou financiamento do seu cliente, o emir de Abu Dhabi.

Na França, onde os bancos ficaram relativamente incólumes à crise, o financiamento para mutuários da casa própria caiu 26% no terceiro trimestre, segundo pesquisa do instituto de pesquisa Observatoire Crédit Logement e da agência CSA. A inadimplência está cada vez maior. Na Espanha, a venda de carros está em queda porque há mais requisitos para se conseguir financiamento.

Ao mesmo tempo, os bancos estão procurando ajuda direta. Ontem, no fim do dia, o Bayerische Landesbank informou que vai pedir uma injeção de capital de 5,4 bilhões de euros do fundo de resgate de 500 bilhões de euros do governo alemão, tornando-se o primeiro banco do país a levantar a mão para pedir socorro desde que o pacote de resgate foi aprovado pelo Legislativo federal, na sexta-feira.

Na Islândia, representantes do governo estão “atando pontas soltas” num pacote de resgate liderado pelo Fundo Monetário Internacional, segundo uma porta-voz informou ontem, na esperança de salvar uma economia estilhaçada pelo colapso do seu sistema bancário.

O plano francês para bancos foi uma surpresa. Na semana passada, quando governos da União Européia concordaram com um cardápio de medidas para restaurar confiança no setor financeiro, a maioria dos bancos franceses afirmou ter fundos suficientes. Mas o governo argumentou que quer que os bancos concedam mais empréstimos, a fim de que mais dinheiro flua para as empresas e famílias. A França está fazendo sua injeção de capital na condição de que os bancos se comprometam a aumentar, em 2009, o volume de crédito em 3% a 4% do total atual, de 1,85 trilhão de euros.

Autoridades francesas disseram que as injeções de capital não são um pacote de resgate. O presidente do Banco da França, Christian Noyer, disse que, em vez disso, o governo “está fornecendo o capital de que os bancos precisam para expandir sua atividade de crédito”.

Diferentemente do Reino Unido, onde o governo nacionalizou vários bancos agonizantes, o governo francês não vai receber ações das instituições financeiras que aceitarem sua ajuda. “De forma nenhuma este é um plano de resgate”, disse Baudouin Prot, diretor-presidente do BNP Paribas SA, que pretende aceitar a oferta do governo. “Assim que os mercados melhorem, devemos pagar a dívida.”

No Reino Unido já surgem diferenças entre bancos que concordaram em ceder uma fatia ao governo e outros que não. O Royal Bank of Scotland Group PLC, o Lloyds TSB Group PLC e o HBOS PLC devem receber 37 bilhões de libras esterlinas (US$ 63,5 bilhões) como parte do pacote de resgate anunciado na semana passada, enquanto o HSBC Holdings PLC e o Barclays PLC informaram que vão levantar capital por conta própria.

O plano britânico colocará membros aprovados pelo governo no conselho dos bancos e os proibirá de distribuir dividendos aos acionistas até que o governo resgate suas ações, o que analistas dizem que pode levar até cinco anos. Isso deixou alguns investidores receosos: as ações do RBS, Lloyds e HBOS caíram logo depois da notícia do plano de capitalização britânico, enquanto ações do Barclays e do HSBC subiram.

Ao longo do mês, a França anunciou uma série de medidas para apoiar sua economia. Ela também fez uma série de apelos por um plano pan-europeu de recuperação - sem muito sucesso. Ontem, Sarkozy disse a legisladores europeus, em Estrasburgo, que os 15 países que usam o euro deveriam criar um “governo econômico” para coordenar melhor suas políticas.

17/09/2008 - 20:16h Crise se agrava e bancos nos EUA correm para fechar acordos

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JACK REERINK - REUTERS - AGENCIA ESTADO

NOVA YORK - Uma onda de desesperadas negociações entre instituições financeiras invadiu Wall Street nesta quarta-feira, dia em que as ações atingiram mínimas em três anos em meio a novos sinais sobre a fragilidade do setor.

O Morgan Stanley estava discutindo uma fusão com a potência bancária Wachovia, segundo noticiou o New York Times. O presidente-executivo John Mack recebeu um telefonema do Wachovia nesta quarta-feira, mas também está em busca de outras opções, segundo o jornal.

“Neste mercado, qualquer coisa é possível. Parece que o mercado quer que o modelo de banco de investimento desapareça”, disse Danielle Schembri, analista de corretoras do BNP Paribas em Nova York.

O Washington Mutual, maior banco de poupança do país, colocou-se à venda, segundo fontes, confirmando uma notícia do New York Times. Potenciais interessados incluem Citigroup, JPMorgan, Wells Fargo e HSBC, de acordo com as fontes.

Mais tarde o chairman do Wells Fargo disse que não iria revelar no que “nós estamos ou não interessados”.

Já a concessora de hipotecas britânica HBOS chegou a um acordo em ações com o Lloyds TSB para criar uma gigante hipotecária de 28 bilhões de libras (50 bilhões de dólares).

A onda de acordos em potencial segue o resgate surpresa, no valor de 85 bilhões de dólares, da seguradora AIG pelo Federal Reserve na véspera, um movimento que não conseguiu acalmar os mercados.

“Parem a insanidade”, pediu um relatório do UBS quando as ações financeiras estavam em queda livre.

O resgate da AIG segue o colapso do Lehman Brothers Holdings e a venda da Merrill Lynch para o Bank of America Corp, além de movimentos de bancos centrais em todo o mundo para inundar o sistema financeiro com recursos.

“O medo agora é sobre quem será o próximo”, afirmou John O’Brien, vice-presidente sênior do MKM Partners. “Quase parece que as pessoas pegam um livro e dizem qual será o próximo alvo. E isso espalha um temor contínuo.”

As ações do Morgan Stanley caíram 43 por cento e as do Goldman recuaram 27 por cento, mesmo após ambos divulgarem resultados trimestrais acima do esperado na terça-feira.

Isso levantou comentários de que os dois principais bancos de investimentos dos Estados Unidos que ainda restam podem ter que se juntar a um banco comercial para sobreviver à turbulência.

“Acho que o Goldman Sachs e o Morgan Stanley se tornarão parceiros de dança. Eles não querem ser… a vítima desta semana”, disse William Larkin, gestor de renda fixa do Cabot Money Management.

O custo de proteção da dívida do Morgan Stanley e do Goldman saltou, refletindo os temores dos investidores de que seus títulos não sejam mais seguros que aquelas considerados como “junk”. O porta-voz do Goldman Lucas van Praag disse que a queda dos papéis da empresa é “resultado de um temor completamente irracional e não é baseado em fundamentos”. O Morgan Stanley culpou os investidores de curto prazo.

Enquanto isso, a Casa Branca disse estar “preocupada sobre mais empresas”.

E em um sinal de uma ação regulatória com pouco efeito aparente, a SEC, o órgão regulador do mercado de capitais dos EUA, restringiu as vendas a descoberto.

“Parece que a SEC está um dia atrasada… O Morgan Stanley claramente está na mira dos vendedores a descoberto”, disse Andrew Brenner, vice-presidente sênior do MF Global.

As autoridades norte-americanas já gastaram 900 bilhões de dólares para aliviar os problemas dos setores financeiro e imobiliário. Grande parte desse dinheiro pode ser recuperado, se os ativos não caírem ainda mais.

Neste ano, o governo já socorreu as agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac e o Fed estruturou a venda do falido banco de investimento Bear Stearns ao JPMorgan Chase .

(Colaboraram Svea Herbst-Bayliss, Jon Stempel, Jennifer Ablan, Joseph Giannone, Jeffrey Hodgson e Kevin Plumberg)

12/05/2008 - 16:14h Voyeurismo na sala de psicoterapia

A nova série Em Terapia (In Treatment), na HBO, derruba um dos últimos segredos que escapavam à curiosidade da sociedade atual

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Márlio Vilela Nunes - O Estado de São Paulo

A série Em Terapia (in Treatment, no título original em inglês), estréia hoje, às 20h30, no canal HBO, trazendo o ator Gabriel Byrne no papel do angustiado psicoterapeuta Paul Weston. A cada dia, de hoje a quinta, poderemos acompanhar uma sessão de terapia conduzida por ele. Seus pacientes, nesta primeira fase da série, são, respectivamente, uma mulher apaixonada por ele, um ex-combatente que voltou traumatizado do Iraque, uma ginasta acidentada e um casal em crise. Na sexta, veremos o terapeuta ocupando a posição inversa em sua própria terapia: é o dia em que ele discutirá seus problemas com sua analista, vivida pela atriz Diane Wiest. A série tem 43 episódios que serão exibidos ao longo de nove semanas, de hoje até metade de julho.

Em um formato ousado para os padrões de uma série televisiva, toda a ação de Em Terapia se passa dentro do consultório: a atenção é mantida apenas pelos diálogos precisos entre pacientes e terapeuta. Ao apresentar personagens com perfis psicológicos bem definidos, a série mostra-se fidedigna ao que imaginamos encontrar em um ambiente de psicoterapia na vida real. Byrne se esforça na gesticulação, nos silêncios e no controle emocional que associamos a um profissional dessa área. Os dramas, as dúvidas e as culpas dos pacientes são bem próximos aos vivenciados no dia-a-dia dos consultórios, mesmo que não tenhamos como desencadeante uma experiência traumática na Guerra do Iraque. O tratamento oferecido pelo psiquiatra da série, que se limita basicamente em associar um problema atual com um trauma inconsciente, é o padrão psicanalítico incorporado pela imensa maioria dos profissionais. Esta correspondência imaginária pode ser sinal de competência e de uma rigorosa pesquisa na construção da série, mas é, também, a sua principal limitação.

O que se passava no interior de um consultório de psicoterapia era um dos últimos segredos que ainda escapavam ao voyeurismo da sociedade atual. No mundo big brother, buscamos desesperadamente saber o que existe por trás das aparências da vida social, enxergar a verdade que cada um esconde em sua vida particular. Só que, a cada edição do Big Brother, descobrimos que as pessoas ‘reais’ que participam do programa não são muito diferentes dos personagens das novelas. Seus romances, suas intrigas e traições são os mesmos. Atrás da aparência, só encontramos uma outra aparência.

Ainda que seja uma ficção, Em Terapia nos oferece um duplo voyeurismo. Em primeiro lugar, temos a oportunidade de vislumbrar o que ocorre dentro de uma sessão de psicoterapia e, depois, o que se esconde no inconsciente dos personagens. Mas o que encontramos, assim como em todas as edições do Big Brother, é o que já imaginávamos. Não existe surpresa ou engano. A série confirma nossa convicção e entretém (e talvez nem pudesse ser diferente), mas não traz um novo olhar sobre os outros ou sobre nós. Portanto, ela não nos modifica, não nos trata, apesar de percebermos as semelhanças entre as dificuldades e angústias que vivemos e as relatadas pelos personagens. O que não compreendemos, ao assistir ao programa, é a razão pela qual o tratamento ocorre. Provavelmente um paciente real não alteraria seu comportamento se fosse submetido ao tratamento oferecido por Weston. Na prática clínica, sabemos que localizar um sentido inconsciente para um problema não é suficiente para modificar uma pessoa. Em uma análise, o que trata, o que permite a mudança está além da cena (consciente ou inconsciente), além do que o olhar televisivo pode mostrar. É algo que se descobre apenas pela experiência pessoal em ser analisado.

Em Terapia é mais um ótimo programa de televisão. Mas seu voyeurismo nada nos esclarece sobre o enigma que é uma análise.

Márlio Vilela Nunes é psiquiatra e autor do blog Psicanálise Presente (www.psicanalisepresente.blogspot.com)