20/03/2008 - 08:24h Um novo mundo

O GLOBO
Um composto orgânico foi detectado pela primeira vez na atmosfera de um planeta fora do Sistema Solar — um passo significativo para a descoberta de sinais de vida num mundo distante, segundo cientistas. Usando dados gerados pelo Telescópio Espacial Hubble, astrônomos conseguiram detectar a presença de metano na atmosfera do planeta HD 189733b, que tem aproximadamente o tamanho de Júpiter e está a 63 anos-luz (um ano-luz tem 9,5 trilhões de quilômetros) da Terra, na constelação de Vulpecula.
O estudo, publicado na última edição da “Nature”, confirma ainda a existência de moléculas de água na atmosfera do planeta. Sob determinadas condições, a junção de água e compostos orgânicos produz vida.
Moléculas orgânicas contêm carbono e hidrogênio e são encontradas em criaturas vivas.
O metano, por exemplo, está presente no gás natural e também nos gases expelidos pelo gado. Mas os cientistas rapidamente explicaram que esse distante planeta — com temperaturas médias de mil graus Celsius, capaz de derreter prata — não poderia abrigar nenhuma forma de vida.
— No caso específico desse planeta que observamos, o metano não poderia ter sido produzido biologicamente — afirmou Giovanna Tinetti, da University College, de Londres, uma das pesquisadoras que participaram do estudo.
— É bastante improvável que vacas sobrevivam por lá — brincou a cientista.
Em entrevista ao GLOBO publicada esta semana, um dos maiores especialistas em astrobiologia do mundo, o alemão Wolfgang Kundt, chamava atenção para o fato de que o surgimento de vida dependia da presença de 40 elementos químicos na superfície, além de um ambiente de temperatura e pressão estáveis.
O planeta extra-solar é um “Júpiter quente”, similar ao gigante gasoso do nosso Sistema Solar, mas que alcança temperaturas extremamente elevadas devido a sua órbita, muito próxima de sua estrela.
O importante, no entanto, apontam os cientistas, é a perspectiva de usar o mesmo tipo de tecnologia de observação em outros planetas com características menos hostis ao surgimento e evolução de formas de vida, acrescentou a especialista.
O HD 189733b é um dos mais de 270 planetas já descobertos fora do Sistema Solar. A maioria deles, entretanto, são muito gasosos e quentes para abrigar vida. Mas pelo menos um deles, chamado Gliese 581c, é suficientemente rochoso, mais parecido com a Terra e potencialmente capaz, ao menos, de abrigar a possibilidade de vida.
A idéia agora é justamente poder explorar mais a fundo tais possibilidades.
Nova forma de achar vida ET
O metano já foi detectado em vários planetas do Sistema Solar, como observaram os cientistas.
— Sob determinadas condições, o metano pode contribuir para a formação de aminoácidos, blocos de compostos orgânicos essenciais para a vida — afirmou outro integrante do grupo de pesquisa, Mark Swain, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa.
Por isso, segundo Swain, a detecção da molécula é um primeiro passo necessário para confirmar a existência de organismos vivos em outros mundos.
— Trata-se de um passo crucial para conseguirmos caracterizar moléculas orgânicas em planetas onde a vida poderia existir — afirmou. — Essas medições são importantes para o nosso objetivo máximo de determinar as condições, como temperatura, pressão, ventos, nuvens e composição química, nas quais a vida poderia surgir. A técnica usada agora é realmente a chave para esses estudos por ser a melhor forma de detectar moléculas.