Depois de bancos e seguradora, governo deve entrar em montadoras
Patrícia Campos Mello – O Estado SP
Em pouco mais de seis meses, o governo dos Estados Unidos se tornou sócio de duas empresas de hipoteca, a Fannie Mae e a Freddie Mac, uma seguradora, a AIG, vários bancos e em breve deve ter participação em duas montadoras, Chrysler e General Motors. O presidente Barack Obama afirma que o objetivo do maior país capitalista do mundo não é estatizar e administrar empresas privadas.
“Somos acionistas que querem sair. Não quero administrar montadoras ou bancos. Já tenho duas guerras para administrar. É o suficiente”, disse,durante entrevista na semana passada. “Assim que a situação se estabilizar e a economia estiver menos frágil, vamos sair e achar investidores privados.”
Mas economistas à esquerda e à direita acreditam que será bem complicado o governo se desembaraçar de suas participações acionárias. Segundo eles, o país deve manter seu título de “Estados Socialistas da América” por um bom tempo.
“É como na guerra do Iraque: eles entraram, mas não têm uma estratégia de saída”, compara William Shughart II, professor de Economia da Universidade do Mississippi e pesquisador do Independent Institute, entidade que apoia o livre mercado. “Suponho que o governo queira ter algum retorno sobre esse dinheiro que pôs nas empresas e, para isso, essas companhias precisam sair do vermelho, o que vai demorar muito tempo”, diz. “Se o governo sair muito rápido, o contribuinte vai arcar com enorme prejuízo.”
Dean Baker, codiretor do Center for Economic and Policy Research, entidade de esquerda, concorda. “O governo vai ter de manter essas participações nas empresas, no mínimo, até 2011, 2012.”
O pior é que, para o contribuinte, se trata de um péssimo negócio. “Se o governo fosse o administrador da minha carteira, já estava despedido. Imagine investir em GM, Chrysler, Bank of America e Citibank”, diz Sydney Finkelstein, professor de administração no Dartmouth College e autor do livro Pense de novo: porque bons líderes tomam decisões erradas.
O maior desafio a partir de agora é conciliar os interesses como acionista – o maior lucro possível para a companhia – e como governo – pode ser aumentar o emprego, o crédito e outros. “O governo pode se focar em resultados políticos em vez de lucro”, diz Baker. “Por exemplo, a Casa Branca pode decidir que a GM e a Chrysler devem se concentrar na produção de carros elétricos, mesmo que isso não dê lucro no curto prazo, porque ajudaria na redução da emissão de poluentes, um grande objetivo de Obama.”
Apesar de dizer que não quer administrar as empresas ou influenciar no dia a dia das operações, a Casa Branca já está imprimindo sua marca nas companhias. Para começar, defenestrou Rick Wagoner, ex-presidente da GM.
Estabeleceu limites de remuneração após os escândalos dos bônus na AIG e está fazendo o mesmo na Fannie Mae e Freddie Mac. O governo comprometeu US$ 400 bilhões com essas duas empresas – e quer ter certeza de que estão cumprindo sua função “social” de reativar o mercado imobiliário com financiamentos de juros mais baixos, ainda que essa não seja a melhor opção em termos de rentabilidade. As companhias já advertiram que isso vai afetar seus resultados.
Em última instância, o governo está recompensando quem mais errou. A Ford, por exemplo, será vítima de competição desleal da Chrysler e da GM. A Ford não recebeu injeção de recursos do governo porque não estava tão mal quanto as outras duas grandes de Detroit. Agora, o governo está subsidiando seus concorrentes. “É como se fosse um imposto implícito sobre a Ford”, diz Dan Ikenson, diretor associado do Cato, instituto libertário. Ikenson, como outros conservadores, está preocupado com a “guinada socialista do governo”.
Hoje em dia, diz Ikenson, somando-se os US$ 700 bilhões do plano de resgate aos bancos (o Tarp, de onde saiu boa parte das injeções de capital no sistema bancário), o pacote de estímulo de cerca de US$ 787 bilhões e o orçamento de US$ 3,5 trilhões, o governo está como investidor ou garantidor de cerca de US$ 5 trilhões – mais de um terço da economia americana, cujo PIB é de US$ 14 trilhões.
Na opinião de conservadores, o governo deveria ter deixado várias empresas e bancos quebrarem, como parte da chamada destruição criativa do livre mercado, em vez de manter companhias zumbis que vão atrasar a recuperação da economia. Para economistas de esquerda e para a Casa Branca, Obama não tinha opção. Era arriscado demais deixar empresas ou bancos quebrarem – e isso ficou claro após o contágio causado pela quebra do banco Lehman Brothers.
Além do mais, perder milhares de empregos na maior crise desde 1930 não seria politicamente sustentável. “O governo Obama está assumindo o controle das empresas porque a alternativa seria um desastre para a economia”, diz Baker.
O problema, para alguns, é a moda pegar. “A Casa Branca abriu a porteira e agora vem aí a boiada”, afirma Shughart. “O governo federal perdeu a credibilidade de dizer que não vai mais resgatar ninguém. Estão fazendo fila para pedir dinheiro, as empresas de autopeças são as próximas”, avalia.
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Joseph E. Stiglitz * – O Estado SP
A proposta de US$ 500 bilhões ou mais da administração Obama para lidar com bancos em dificuldade dos EUA foi descrita por alguns participantes do mercado financeiro como uma proposta que só tem ganhadores. Na verdade, há ganhadores e perdedores: os bancos ganham, os investidores ganham – e os contribuintes perdem.
O Departamento do Tesouro espera nos tirar dos apuros reproduzindo o sistema furado que o setor privado usou para fazer o mundo se esborrachar, com uma proposta marcada pela alavancagem exagerada do setor público, complexidade excessiva, incentivos fracos e falta de transparência.
Façamos um parêntese para recordar o que causou esses apuros. Os bancos se meteram, e meteram nossa economia, em encrencas ao se alavancar excessivamente – o que significa que eles usaram relativamente pouco capital próprio e captaram empréstimos substanciais para comprar ativos imobiliários de altíssimo risco. No processo, usaram instrumentos de alta complexidade como obrigações de dívida colateralizadas.
A perspectiva de alta compensação incentivou os administradores a serem míopes e assumirem riscos excessivos, em vez de fazerem empréstimos prudentes com o dinheiro. Os bancos cometeram todos esses erros sem ninguém saber, em parte porque muita coisa do que estavam fazendo era financiamento “fora do balanço”. Em tese, o plano da administração baseou-se em permitir que o mercado determine os preços dos “ativos tóxicos” dos bancos – incluindo empréstimos pendentes para a compra de casas e papéis lastreados nesses empréstimos. A realidade, porém, é que o mercado não vai precificar os próprios ativos tóxicos, mas opções desses ativos.
As duas coisas têm pouco em comum. O plano do governo significa, com efeito, garantir quase todos os prejuízos. Como os investidores privados são poupados da maioria das perdas, então eles principalmente “valorizam” seus ganhos potenciais. Isso é exatamente o mesmo que receber uma opção.
Considerem um ativo que tem uma chance de 50% de estar valendo ou zero ou US$ 200 no prazo de um ano. O “valor” médio do ativo é US$ 100. Ignorando juros, é por esse valor que o ativo seria vendido num mercado competitivo. É isso que o ativo “vale”. Pelo plano do secretário do Tesouro Timothy Geithner, o governo forneceria cerca de 92% do dinheiro para comprar o ativo, mas se posicionaria para receber somente 50% de qualquer ganho e absorveria quase todos os prejuízos. Que parceria!
Suponham que uma das parceiras público-privadas que o Tesouro prometeu criar esteja disposta a pagar US$ 150 pelo ativo. Isso é 50% acima de seu valor real e o banco fica mais que feliz de vender. Assim, o parceiro privado coloca US$ 12, e o governo fornece o resto – US$ 12 em “capital” mais US$ 126 na forma de um empréstimo garantido.
Se no prazo de um ano o valor real do ativo for zero, o parceiro privado perde os US$ 12 e o governo, US$ 138. Se o valor real for para US$ 200, o governo e o parceiro privado racham os US$ 74 que sobraram após saldar o empréstimo de US$ 126. Nesse cenário róseo, o parceiro privado mais que triplica o investimento de US$ 12. Mas o contribuinte, tendo arriscado US$ 138, ganhou meros US$ 37.
Mesmo num mercado imperfeito, não se deve confundir o valor de um ativo com o valor da opção na alta desse ativo. Mas os americanos provavelmente perderão ainda mais do que esses cálculos sugerem, por causa de um efeito chamado seleção adversa. Os bancos podem escolher os empréstimos e papéis que querem vender. Eles desejarão vender os piores ativos e, em especial, os ativos que acham que o mercado superestima (e por isso está disposto a pagar demais por eles). Mas o mercado provavelmente reconhecerá isso, o que empurrará para baixo os preços que está disposto a pagar. Somente se o governo assumir uma parte suficiente dos prejuízos esse efeito de “seleção adversa” será superado. Com o governo absorvendo as perdas, o mercado não se importa se os bancos o estão “enganando” com a venda de seus ativos mais abjetos porque o governo arca com o custo.
O principal problema não é a falta de liquidez. Se fosse, um programa bem mais simples funcionaria: fornecer os recursos sem garantias para empréstimos. A questão real é que os bancos transformaram empréstimos ruins numa bolha e ficaram enormemente alavancados. Eles perderam seu capital, e esse capital precisa ser reposto.
Pagar valor de mercado justo pelos ativos não funcionará. Só pagando a mais os bancos serão recapitalizados. Mas pagar a mais vai transferir os prejuízos para o governo. Em outras palavras, o plano de Geithner só funciona se e quando o contribuinte perder muito. Alguns americanos temem que o governo possa temporariamente “nacionalizar” os bancos, mas essa opção é preferível ao plano Geithner. Afinal, a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) já assumiu o controle de bancos em situação falimentar antes e o fez bem.
Ela chegou a nacionalizar grandes instituições como o Continental Illinois (assumido em 1984, de volta para mãos privadas alguns anos depois), e o Washington Mutual (desapropriado em setembro passado e imediatamente revendido). O que a administração Obama está fazendo é muito pior que nacionalização: é capitalismo artificial, a privatização de ganhos e a socialização de perdas. É uma “parceria” em que um parceiro rouba o outro. E essas parcerias – com o setor privado no controle – têm incentivos perversos, piores até que os que nos colocaram na encrenca.
Em sendo assim, qual é o apelo de uma proposta como essa? Talvez seja o tipo de dispositivo de Rube Goldberg que Wall Street adora – inteligente, complexo e não transparente, permitindo enormes transferências de riqueza para os mercados financeiros. Ele permitiu que a administração evitasse voltar ao Congresso para pedir o dinheiro necessário para arrumar nossos bancos e forneceu uma maneira de evitar a nacionalização.
Mas nós já estamos sofrendo com uma crise de confiança. Quando os altos custos do plano se tornarem visíveis, a confiança ficará ainda mais desgastada. E a tarefa de recriar um setor financeiro e ressuscitar a economia será ainda mais difícil.
*Joseph E. Stiglitz ganhou o Nobel de Economia em 2001
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ARTIGO
PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” - FOLHA SP
NA SEGUNDA-FEIRA, Lawrence Summers, o chefe do Conselho Econômico Nacional, respondeu às críticas ao plano do governo Obama para subsidiar a compra privada de ativos tóxicos. “Não conheço nenhum economista que não acredite que mercados de capitais funcionando melhor, nos quais os ativos possam ser negociados, não sejam uma boa ideia.”
Deixe de lado por um momento a questão de se um mercado em que os compradores têm de ser subornados para participar pode realmente ser descrito como “funcionando melhor”. Mesmo assim, Summers precisa sair mais. Alguns economistas reconsideraram sua opinião favorável sobre os mercados de capitais e a negociação de ativos à luz da crise atual.
Mas ficou cada vez mais claro nos últimos dias que autoridades graduadas do governo Obama ainda estão presas à mística do mercado. Elas ainda acreditam na magia do mercado financeiro e na proeza dos magos que a executam.
A mística do mercado nem sempre dirigiu a política financeira. A América saiu da Grande Depressão com um sistema bancário rigidamente regulamentado, que fez das finanças um negócio sóbrio e até aborrecido. Os bancos atraíam os depositantes fornecendo localizações convenientes de agências e talvez uma ou duas torradeiras de brinde; usavam o dinheiro assim captado para fazer empréstimos, e era isso.
E o sistema financeiro não era apenas aborrecido. Também era, pelos padrões de hoje, pequeno. Mesmo durante os “anos go-go”, o mercado altista da década de 1960, finanças e seguros juntos representavam menos de 4% do PIB. A relativa desimportância das finanças se refletia na lista de ações que formavam a Média Industrial Dow Jones, que até 1982 não continha uma única companhia financeira.
Tudo parece primitivo pelos padrões de hoje. Mas aquele sistema financeiro aborrecido e primitivo serviu a uma economia que duplicou os índices de padrão de vida no período de uma geração.
Depois de 1980, é claro, surgiu um sistema financeiro muito diferente. Na era Reagan, de mentalidade desregulamentadora, a banca à moda antiga foi cada vez mais substituída pela especulação em grande escala.
O novo sistema era muito maior que o antigo regime: à véspera da crise atual, finanças e seguros representavam 8% do PIB, mais que o dobro de sua participação nos anos 60. No início do ano passado, o Dow Jones incluía cinco companhias financeiras -entre elas gigantes como AIG, Citigroup e Bank of America.
E as finanças tornaram-se nada aborrecidas. Atraíram muitas de nossas mentes mais agudas e fizeram algumas pessoas imensamente ricas. Sob o novo mundo glamouroso das finanças estava o processo de securitização. Os empréstimos não ficavam mais com o credor. Em vez disso, eram vendidos para outros, que cortavam em fatias, picavam e faziam purê das dívidas individuais para sintetizar novos ativos. Hipotecas “subprime”, dívidas de cartão de crédito, empréstimos para carros -tudo entrava na processadora do sistema financeiro.
Do outro lado, supostamente, saíam doces investimentos AAA. E os magos financeiros foram generosamente recompensados pela condução desse processo.
Eram fraudes
Mas os magos eram fraudes, quer eles soubessem disso quer não, e sua magia veio a ser nada mais que uma coleção de truques baratos. Acima de tudo, a promessa chave da securitização -que tornaria o sistema financeiro mais robusto ao espalhar mais os riscos- veio a ser uma mentira. Os bancos usaram a securitização para aumentar seu risco, e não para reduzi-lo. Nesse processo tornaram a economia mais, e não menos, vulnerável aos distúrbios financeiros.
Mais cedo ou mais tarde as coisas tinham de dar errado, e acabaram dando. O Bear Stearns faliu; o Lehman faliu; mas principalmente a securitização faliu. O que nos traz de volta à abordagem do governo Obama para a crise financeira.
Grande parte da discussão sobre o plano de ativos tóxicos se concentrou nos detalhes e na aritmética, e com razão. Além disso, no entanto, o que é marcante é a visão manifestada tanto no conteúdo do plano financeiro como em declarações de autoridades do governo. Na essência, o governo parece acreditar que quando os investidores se acalmarem a securitização e os negócios financeiros poderão retomar de onde pararam um ou dois anos atrás.
Para ser justo, as autoridades estão pedindo mais regulamentação. Na verdade, na quinta-feira Tim Geithner, o secretário do Tesouro, explicou planos para aumentar a regulamentação que teriam sido considerados radicais pouco tempo atrás. Mas a visão subjacente permanece a de um sistema financeiro mais ou menos igual ao que havia dois anos atrás, embora um pouco mais controlado por novas regras. Como você pode adivinhar, eu não compartilho essa visão.
Não acho que isso seja apenas um pânico financeiro; eu acredito que representa o fracasso de todo um modelo de banca, de um setor financeiro que cresceu demais e causou mais dano que bem. Não acho que o governo Obama seja capaz de trazer a securitização de volta à vida, e não acredito que deva tentar isso.
PAUL KRUGMAN , economista, é colunista do jornal “The New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).
Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES
Tags: ações, AIG, ativos, Bancos, Citigroup, crédito, crise, depressão, dívidas, especulação, EUA, finanças, Geithner, hipotecas, investimentos, Krugman, Obama, PIB, Reagan, s, seguro, subprime, Tesouro
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*Suely Muniz e Jorge Mattoso – Correio Braziliense
A atual crise financeira internacional trouxe fortes impactos sobre a economia brasileira. No entanto, nosso país mostrou uma nova capacidade de resistir a choques externos, tanto que os impactos estão sendo menores que em outras crises e menos intensos do que nos países desenvolvidos.
Para isso, foram importantes o crescimento dos últimos anos, a ampliação dos investimentos e da capacidade instalada, a incorporação de brasileiros ao consumo e à cidadania, a adaptação da política comercial à nova realidade do mercado externo, a geração de superávits e a ampliação das reservas internacionais. O governo federal também agiu tempestivamente, enfrentando a escassez do crédito e a redução da capacidade produtiva, acentuadas pela crise internacional.
Mas também foram importantes as condições do sistema bancário. Os elevados depósitos compulsórios permitiram maior direcionamento do crédito, sobretudo para a agricultura e a habitação. Depois de anos em que a palavra de ordem foi a privatização, consolidou-se um competitivo setor bancário público, com cerca de 1/3 dos ativos totais, sendo que a Caixa é responsável por mais de 57% dos financiamentos habitacionais e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social concentra a quase totalidade dos financiamentos de longo prazo, permitindo, assim, uma intervenção positiva na atual crise.
Não menos importante, o governo federal não se omitiu frente ao grave problema social da moradia, e conseguiu tirar o setor habitacional do marasmo em que se encontrava desde os anos 1980. É verdade que esse esforço ocorreu em conjunto com o segmento empresarial, que tinha um diagnóstico das deficiências e propostas para superá-las.
Desde 2003 — por meio de processo que buscou amplo entendimento entre os vários atores — reergueu-se a construção habitacional, ampliou-se o crédito e melhoram-se as condições institucionais. Desenvolveu-se o Sistema Nacional de Habitação e criaram-se mecanismos e incentivos — como o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, criado por iniciativa popular — que permitem que o Estado, nas três esferas de governo, possa praticar uma política de subsídios transparente, sem a qual não haverá acesso à moradia pelas famílias de menor renda.
Em paralelo, fortaleceu-se o FGTS e aperfeiçoaram-se as regulamentações voltadas ao setor, tais como o patrimônio de afetação, a regra do valor incontroverso e as reduções de carga tributária, sem as quais também não se teria alcançado o desempenho dos últimos anos.
Tais esforços, conduzidos pelo governo federal, favoreceram o intenso crescimento do setor da construção civil sem que houvesse o abandono dos menos favorecidos, como desejavam os economistas conservadores que brandiam as propostas do Estado mínimo e do fim das políticas públicas.
Nunca é demais lembrar que foi a expansão das finanças — em mercados altamente desregulados — que reduziu as políticas públicas. Muitos países tentaram simplesmente transferir parte das responsabilidades do Estado ao mercado e esse procedimento, aliado à desregulamentação, responde, em grande medida, pela atual crise internacional.
Na origem da crise do subprime americano estava esse procedimento. Abandonada a população de mais baixa renda à própria sorte, essa foi atendida apenas pelo sistema financeiro, porém com taxas de juros mais elevadas, dado o risco embutido na operação. Beneficiando-se da ausência de transparência e de controles do mercado financeiro, suas hipotecas foram “empacotadas” e transferidas para bancos de investimentos e fundos que as passavam adiante sem constrangimento. Quando dos primeiros solavancos…
No Brasil, o pacote habitacional a ser anunciado proximamente — dadas as informações já veiculadas pela mídia — mostra que outra política é possível. As questões em discussão, relativas à construção de cerca de 1 milhão de imóveis até 2010, aos subsídios para os mutuários que ganham até três salários mínimos e à constituição de um Fundo Garantidor, indicam a consolidação de uma política habitacional que incorpora as camadas de menor renda, mas também de mecanismos de segurança e prevenção contra riscos exacerbados de inadimplência. Enfim, consolida-se no Brasil um verdadeiro antissubprime.
Ao incorporar um aumento do subsídio à habitação popular, baratear os seguros no financiamento à população de menor renda, criar um fundo garantidor e abrir uma linha especial de financiamento para a infraestrutura das áreas desses empreendimentos, o novo pacote habitacional pode tornar-se exemplar e indicar — não só para o Brasil — que é possível, mesmo em meio a uma grave crise internacional, deixar de lado a omissão do Estado e o vale-tudo de mercados desregulados.
*Suely Muniz
Doutora pela USP, economista, foi pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (1985-2008) e diretora financeira e presidente da Cohab-SP (2001-2004).
*Jorge Mattoso
Secretário de Finanças de São Bernardo do Campo (SP), foi professor doutor na Unicamp (1985-2008) e presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2006)
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Após anos de crescimento alto, puxado por abundância de crédito, desemprego explode no país
Adoção do euro limita ação do governo; empresários querem reforma trabalhista e economistas preveem retomada lenta e dolorosa
VICTOR MALLET DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP
Quando um dos maiores clubes de futebol de um país tão fanático pelo esporte quanto é a Espanha deixa de pagar seus jogadores, é um aviso de que algo pode estar drasticamente errado em uma das economias mais bem sucedidas na Europa.
David Villa é um dos jogadores do Valencia cujo último salário está atrasado por tempo indeterminado pelo clube, fortemente endividado. Villa é apenas mais um entre o número crescente de vítimas, ricas e pobres, de um mergulho na recessão que se encaminha para ser uma das piores da Europa.
As tensões estão começando a se manifestar na sociedade espanhola, normalmente tranquila e tolerante. Vendedores de rua e africanos residentes no país fizeram duas manifestações neste mês em Lavapiés, em Madri, protestando contra o alegado racismo e as investidas policiais; subsequentemente, veio à tona que a polícia da capital recebeu cotas semanais de imigrantes ilegais que deve prender. Em Andaluzia, no sul, milhares de imigrantes sem comida ou abrigo invadiram cidades procurando em vão trabalhos na colheita de azeitonas já tomados por espanhóis.
Guindastes estão parados em obras na costa espanhola e nas periferias. Muitas lojas pequenas no centro de Madri fecharam. Um dono de construtora arruinado é acusado de cinco assaltos a bancos.
“Não vamos ter uma recessão. Vamos ter uma depressão, como nos anos 1930″, diz o economista Lorenzo Bernaldo de Quirós, presidente da Freemarket International Consulting. Quirós é um dos analistas mais pessimistas, mas se justifica apontando previsões quase consensuais: o desemprego atingindo 19% até o final do ano (contra mais de 14%, ou 3,3 milhões de pessoas, hoje); um déficit orçamentário de ao menos 6,5% do PIB; contração econômica de 3% ou mais em 2009, e, possivelmente, uma deflação. “Somado à crise financeira, este é o quadro perfeito para definir uma depressão”, conclui.
Essa depressão pode atingir a economia espanhola -uma das dez maiores do planeta e a quarta da zona do euro- com tanta gravidade que pode fazê-la perder muitos dos ganhos conquistados na década passada desde a adoção do euro.
Até a chegada da crise global, a Espanha tinha desempenho elogiável. Seu retorno à democracia e à prosperidade após uma guerra civil e a ditadura Franco é, afinal, uma das grandes histórias de sucesso da Europa do pós-guerra. Nos dez anos terminados em 2006, o crescimento real chegou à média anual de 3,7%, contra 2,1% na zona do euro. O PIB per capital subiu para mais de 90% da média dos 15 principais países ocidentais da União Europeia.
Essa expansão ajudou a gerar mais de 5 milhões de empregos e a atrair mais imigrantes, como proporção relativa à população, que qualquer outro país da Europa. A construção civil, financiada pelo crédito fácil, foi o motor principal da economia durante uma década -e aí está a origem das dificuldades. Como nos EUA e no Reino Unido, a bolha imobiliária se rompeu, com grande força.
Estimados 1 milhão de casas e apartamentos recém-construídos estão desocupados. A construção residencial -que respondeu diretamente por 7,5% do PIB em 2006- está quase parando. O lobby que representa 14 grandes construtoras anunciou que não iniciou a construção de uma única casa nova em dezembro e só 135 em todo o quarto trimestre de 2008. “Durante 15 anos, o padrão de crescimento da economia espanhola foi baseada em mercados financeiros com alto grau de liquidez – e liquidez barata”, diz Rafael Doménech, economista-chefe para a Europa do banco espanhol BBVA. “Foi ótimo para a economia espanhola que as famílias e as empresas usassem essa liquidez para aumentar sua dívida.”
E foi o que elas fizeram. A dívida do setor privado dobrou em uma década, chegando a 120% do PIB. Com boa parte do crédito vindo de aposentados alemães e outros poupadores, através de títulos de crédito espanhóis avalizados por hipotecas, o déficit de conta corrente chegou a mais de 10% do PIB. Com o novo ambiente dos mercados financeiros, diz Doménech, “não podemos esperar usar o mesmo modelo de crescimento dos últimos dez anos”.
Teoricamente, a Espanha poderia substituir a atividade da construção com o aumento da produção em outros setores. O país é uma das economias mais abertas do mundo, e suas empresas nos setores de moda, energia renovável, infraestrutura e bancos têm sido investidores externos e exportadores ativos. Mas outras economias não estão em condições de assumir o lugar da construção. A indústria automotiva espanhola, responsável por um quinto das exportações do país e 6% de seu PIB, está lutando para fazer frente à queda na demanda doméstica e externa. O turismo, que movimenta 50 bilhões, caiu 3% no ano passado -a primeira queda anual desde 97.
O premiê socialista José Luis Rodríguez Zapatero seguiu o mesmo caminho que outros líderes na crise, anunciando uma enxurrada de planos de gastos governamentais, numa tentativa de combater o aumento do desemprego e evitar uma depressão prolongada. Miguel Sebastián, seu ministro da Indústria, vem flertando com o protecionismo -embora negue a acusação-, lançando uma campanha de “compre produtos espanhóis”.
Mas não há certeza alguma de que as medidas de gastos -algumas anunciadas apesar das objeções do ministro das Finanças e ex-responsável pela restrição fiscal, Pedro Solbes- terão os efeitos desejados. O que é certo é que a margem fiscal de manobra do governo, com o déficit orçamentário projetado já sendo mais que o dobro do teto de 3% do PIB permitido pela UE, é fortemente limitada. Embora a dívida pública acumulada ainda seja relativamente modesta, a deterioração das finanças públicas levou a agência de classificação Standard & Poor’s, no mês passado, a tirar da Espanha sua classificação AAA.
Em crises anteriores, a Espanha simplesmente desvalorizou a peseta para aumentar a competitividade das exportações e atrair investimentos -o caminho seguido agora pelo Reino Unido-, mas uma desvalorização unilateral deixou de ser uma opção possível para um membro da zona do euro.
Quase todos os executivos, economistas ortodoxos e políticos da oposição de direita concluem que a única maneira de a Espanha emergir da crise mais forte -ou sobreviver a ela dentro dos limites da zona do euro- é aumentar sua produtividade e competitividade, adotando reformas estruturais. O que querem dizer é que empregados possam ser contratados e demitidos mais facilmente, a um custo menor, e que os salários sejam definidos por empresas, não por setores.
Na semana passada, o presidente do Banco Central, Miguel Angel Fernández Ordóñez, irritou o governo ao descrever a reforma trabalhista como a medida “mais importante” contra o desemprego.
Enquanto isso, o fim da alta performance econômica deixa a dúvida: será que o país poderá retomá-la ao final da crise global? Para os economistas, a construção foi uma parte tão importante que a recuperação inevitavelmente será lenta. “A economia espanhola levará cerca de sete anos para crescer a 3% ao ano novamente”, diz Bernardo Quirós. “Os espanhóis perderão metade de sua riqueza. É horrível.”
Tradução de CLARA ALLAIN
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Gerenciando riscos
tony cenicola/The New York Times
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FLOYD NORRIS
ANÁLISE ECONÔMICA
Nas últimas décadas, enquanto a globalização se disseminava, o ritmo do crescimento econômico mundial aumentou. As economias abertas, como se vê, conseguem crescer mais depressa que as fechadas.
Mas hoje, quando a crise financeira se transforma em econômica, parece que os países com economias fechadas talvez estejam em melhores condições de suportar os tempos difíceis.
O economista de Harvard Kenneth S. Rogoff notou, no mais recente Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, que a Índia, que tem “restrições comparativamente estritas ao fluxo de capitais internacionais”, também parecia ser a mais otimista e mais preparada para o crescimento econômico em um ano em que poucos países estão.
“Graças aos céus por nossa forte estrutura regulatória do sistema financeiro”, disse um executivo indiano a Rogoff.
Em comparação, países que se abriram mais aos mercados de capital internacionais e que tentaram atrair empresas com regulamentos relativamente frouxos hoje estão sofrendo mais. A Islândia foi a economia-prodígio do mundo; hoje está falida.
Esta crise mostrou que o ponto fraco de um sistema financeiro globalizado é a falta de regulamentação consistente para evitar que banqueiros excessivamente confiantes assumam riscos irresponsáveis. Um ano e meio atrás, quando parecia ser apenas uma questão de hipotecas de baixa qualidade nos EUA, a maioria dos países pensou que pudesse passar ao largo. Mas todos no sistema globalizado estavam vulneráveis.
“Precisamos de um regulador global com dentes afiados, para impedir o problema do mínimo denominador comum”, disse Rogoff. Antes da crise, o capital fluía para onde fosse menos regulamentado, e alguns países competiam para ser esse lugar. Vale a pena lembrar que o governo de George W. Bush tentou usar a ameaça da concorrência estrangeira para abrandar a regulamentação antes da explosão do sistema financeiro.
Se isso não acontece, o mais racional para muitos países talvez seja isolar-se da economia globalizada. “Os países vão se sentir obrigados a impor mais controles de capital para não se expor a riscos”, disse Rogoff.
A metáfora que vem à mente é a de um grande navio: um de casco simples custa menos para construir e operar do que um navio semelhante com um casco duplo. Portanto, ganhará mais dinheiro em cada viagem, mas tem maior probabilidade de afundar se encontrar uma tempestade severa ou um grande iceberg.
Permitiu-se que o sistema financeiro escapasse ao controle exatamente na época em que poderia causar mais danos ao mundo. Antes da crise, as evidências pareciam demonstrar que os países em desenvolvimento poderiam se beneficiar da abertura financeira, supondo que outros fatores estivessem presentes. “A abertura total das contas de capital, na ausência de condições de apoio essenciais, pode viciar a realização de lucros, enquanto torna um país mais vulnerável a súbitas interrupções dos fluxos de capital”, escreveu há alguns anos Rogoff, que foi chefe de pesquisa do FMI.
Essas condições essenciais, o trabalho acrescentou, “incluem políticas macroeconômicas estáveis, assim como fortes instituições financeiras, regulamentação e governança”.
Quando Rogoff e seus colegas escreveram esse texto, tinham em mente a regulamentação no país que fazia a abertura, e não nos EUA e no Reino Unido, onde estava sediada a maioria dos principais bancos do mundo.
Mas são exatamente esses países que provaram a verdade da advertência. “Fomos incrivelmente irresponsáveis”, disse Rogoff sobre os reguladores americanos. “Todas as luzes vermelhas estavam piscando. Nossos líderes foram cegos para o que estava acontecendo.”
Rogoff é um economista sério demais para achar que a solução é fechar as economias. “A lição não é que se deve rumar para a autarquia financeira”, disse. Mas o mundo poderia estar em melhores condições hoje se mais países tivessem escolhido esse rumo e estivessem mais isolados da tempestade de crédito, que deixou empresas e países temerosos de que não conseguirão os financiamentos necessários.
Certamente, de tudo isso sairá uma nova arquitetura regulatória americana, e haverá mais esforços de colaboração internacional.
Economias fechadas estão mais protegidas da crise generalizada
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Entre os reguladores, uma palavra frequente hoje em dia é “contracíclico”, e haverá esforços para incorporá-la em qualquer novo sistema. Na essência, significa que os reguladores deveriam forçar os bancos a assumir menos riscos quando as coisas estão muito boas e a relaxar os padrões quando as coisas estiverem muito ruins e o mundo precisar desesperadamente de crédito.
Adotar medidas para impedir que mais países se isolem ajudaria a economia global e, em longo prazo, as instituições regulamentadas. Realizar isso será muito mais difícil e menos popular politicamente do que impor limites aos bônus dos executivos. Mas poderia causar um bem muito maior.
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Matthew Richardson Nouriel Roubini *, The Washington Post – O Estado SP
O sistema bancário dos Estados Unidos está à beira da insolvência e, se não quisermos ficar como o Japão nos anos 90 ou os Estados Unidos nos anos 30, o único meio de salvar os bancos é a estatização.
Como economistas defensores do livre mercado, professores de uma escola de administração no coração da capital financeira do mundo, sentimo-nos como se dizendo uma blasfêmia quando propomos que o governo assuma totalmente o controle do sistema bancário. Mas o sistema financeiro dos Estados Unidos chegou a um ponto tão crítico que não há muita escolha. E, embora o recente plano do secretário do Tesouro, Timothy Geithner, para salvar os bancos contenha muitos elementos corretos, basicamente ele chega tarde demais.
A enrascada dos empréstimos hipotecários subprime sozinha não nos forçaria a tomar essa atitude. A soma de US$ 1,2 trilhão envolvida foi apenas o início do problema. Os outros US$ 7 trilhões – que incluem empréstimos para imóveis comerciais, dívidas com cartão de crédito, empréstimos alavancados e títulos de alto rendimento – correm o risco de perder grande parte do seu valor. E ainda existem mais alguns trilhões de dólares em títulos corporativos com classificação AAA ou AA e empréstimos e hipotecas “jumbo”com pagamento garantido cujo valor também vai despencar, à medida que a recessão se aprofunda e mais empresas e famílias deixam de pagar seus empréstimos e hipotecas.
No ano passado, nossa previsão era de que os prejuízos a serem contabilizados pelas instituições financeiras dos Estados Unidos chegariam a US$ 1 trilhão, subindo possivelmente para US$ 2 trilhões. Fomos acusados de exagero. Mas a partir daí as baixas contábeis pelos bancos ultrapassaram a marca de US$ 1 trilhão.
Agora, instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e Goldman Sachs estão prevendo prejuízos de mais de US$ 2 trilhões.
Mas, se você acha que US$ 2 trilhões é uma soma muito grande, analise os nossos cálculos mais recentes no RGE Monitor, website financeiro que dirigimos: essas estimativas sugerem que o total de perdas sobre empréstimos feitos por bancos nos Estados Unidos, mais a queda do valor de mercado dos ativos mantidos por esses bancos chegará a US$ 3,6 trilhões. O setor bancário americano está exposto à metade desse valor: US$ 1,8 trilhão. Mesmo com os fundos recebidos do primeiro pacote de ajuda federal, no ano passado, o capital aplicado para respaldar os ativos dos bancos foi de apenas US$ 1,4 trilhão, deixando o sistema bancário americano com um rombo de US$ 400 bilhões.
Dois importantes elementos do plano de Geithner são: 1) “aplicar o teste de stress” aos bancos para separar as instituições viáveis daquelas próximas da bancarrota; 2) criar um fundo de investimento com dinheiro público e privado para compra de ativos podres. São medidas necessárias para se ter um setor financeiro próspero.
Mas, infelizmente, o plano não vai solucionar nossas dificuldades financeiras porque ele subentende que o sistema está solvente. Se executado de modo justo para os contribuintes (ou seja, fim dos “agrados” na forma de títulos abaixo do preço, ações preferenciais, garantias de empréstimo ou seguros sobre ativos), só vai confirmar o quão péssimas as coisas estão.
A estatização é a única opção que nos permitirá solucionar o problema dos ativos tóxicos de maneira disciplinada e permitirá também, finalmente, a retomada dos empréstimos. Naturalmente, a economia ainda continuará em má situação, mas a espiral da morte em que estamos será interrompida.
A estatização – ou “liquidação judicial”, se isso soar mais aceitável – não será fácil; entretanto, aqui vai uma série de princípios para o governo se pautar. Em primeiro lugar, e este é o ponto mais difícil, determinar quais são os bancos insolventes. O teste de stress de Geithner seria muito útil nesse caso.
O governo deveria começar com os grandes bancos que têm dívidas fora do país, e determinar quais são solventes e quais não são, para evitar o pânico. De outro modo, permitir a falência de um grande banco provocará uma corrida imediata àquela ação, e aos títulos da dívida de longo prazo de outros. Haverá muitas dificuldades, mas as autoridades reguladoras devem manter uma postura firme.
Em segundo lugar, estatizar imediatamente as instituições insolventes. Os investidores em ações serão eliminados, e os detentores de títulos da dívida de longo prazo terão créditos somente depois que os depositantes e outros credores de curto prazo forem reembolsados.
Em terceiro lugar, uma vez que uma instituição passe para o controle do Estado, separar seus ativos em bons e ruins. Os ativos ruins serão avaliados de acordo com os valores atuais (embora reduzidos). Novamente, como no plano de Geithner, o capital privado poderá adquirir uma fração desses ativos ruins. Quanto aos bons, voltariam a ser privados, quer mediante uma IPO (oferta pública inicial), quer por uma venda a um comprador estratégico.
Os ganhos auferidos pelos ativos bons e ruins iriam, em primeiro lugar, para os correntistas, e depois para os detentores de títulos da dívida, com a possível participação do governo para cobrir os custos administrativos. Se os correntistas forem reembolsados, o governo poderá de fato começar a ter lucros.
Em quarto lugar, fundir todos os ativos ruins restantes em um único empreendimento. Os ativos poderão aguardar o vencimento ou serem vendidos com os ganhos e os riscos decorrentes para os contribuintes.
O resultado final seria um sistema financeiro saudável com muitos bancos novos capitalizados com ativos bons. Os bancos insolventes, grandes demais para falir, seriam desmembrados em partes menores, com menos probabilidade de ameaçar o sistema financeiro como um todo.
Também seriam instituídas reformas em matéria de regulamentação, a fim de reduzir as chances de dispendiosas crises futuras.
A estatização dos bancos tem precedentes. Em 1992, o governo sueco assumiu o controle dos bancos insolventes, limpou-os e depois voltou a privatizá-los. Obviamente, o sistema bancário sueco era muito menor do que o americano. Além disso, algumas das atuais instituições americanas são muito maiores e mais complexas, o que dificulta a análise. E os mercados globais de capital permitem que jogar com o sistema seja mais fácil do que em 1992. Mas nós acreditamos que, se for aplicada de maneira correta, a solução sueca funcionará nos EUA.
A agência encarregada de reestruturar os bancos na Suécia não era uma entidade burocrática sem controle: ela delegou todos os detalhes da limpeza aos bancos privados e aos administradores contratados pelo governo. O processo foi surpreendentemente tranquilo.
Basicamente, hoje somos todos “suecos”. Usamos todas as nossas balas, mas o bicho-papão continua se aproximando. Vamos pegar nossa bazuca e acabar com ele.
*Matthew Richardson e Nouriel Roubini são professores da Escola de Administração Stern, na Universidade de Nova York. Ambos trabalharam no livro a ser lançado Restoring Financial Stability: How to Repair a Failed System (Restaurando a estabilidade financeira: como consertar um sistema falido)
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Emma Brockes, THE GUARDIAN* – O Estado SP
O escritório em Nova York da empresa de consultoria de Nouriel Roubini é tão austero como a situação atual: uma escrivaninha, um telefone, alguns blocos de anotações e 134 páginas impressas de uma lista da Wikipédia de todos os bancos do mundo.
Há três anos, Roubini foi repudiado, tachado de fatalista enganador, quando detectou uma enorme vulnerabilidade do sistema bancário dos Estados Unidos, prevendo o seu colapso. Agora, Roubini converteu-se num guru, atraindo o interesse de governos, diretores de bancos, mas e até de sites de fofocas de Nova York.
Foi o The New York Times que o apelidou asperamente de Dr.Doom (Dr. Catástrofe) ao fazer um perfil do economista no ano passado, identificando-o como um herói insólito da crise. Em 2006, Roubini fez um discurso no Fundo Monetário Internacional, quando, entre outras coisas, previu que a economia americana corria o risco de um colapso imobiliário e uma profunda recessão, com consequências tenebrosas para o resto do mundo.
Hoje, ele sorri timidamente e diz que outras pessoas também previram esse cenário, mas ninguém foi tão preciso como ele, nem tão grave, nem foi tão ridicularizado como ele pelo sóbrio mundo da economia. Na época, seu discurso foi recebido como uma idiossincrasia de alguém que gostava de fazer teatro. Mesmo hoje alguns dizem que ele só teve sorte. É o caso do economista Anirvan Banerjee, que, indagado pelo The New York Times sobre Roubini, respondeu que “até um relógio parado acerta a hora duas vezes por dia”.
Esse tipo de menção faz Roubini rapidamente esquecer a modéstia. Acusa de ingênuo o economista, que previu um crescimento quando a crise já se intensificava. “Dizer que foi apenas sorte da minha parte é um absurdo. Fiz previsões concretas que acabaram sendo certas. Exatamente.”
Ele cita um estudo elaborado em fevereiro do ano passado intitulado “Doze passos para o desastre financeiro”, onde “cada passo foi exatamente como a crise se desenvolveu nos últimos seis meses”. “Eu disse que as duas maiores corretoras do país (EUA) iriam à falência e não haveria nenhuma grande corretora independente nos próximos dois anos. Ora, bastaram sete meses para o Bear Stearns e o Lehman (Brothers) quebrarem. Não foi uma análise imprecisa da minha parte quando declarei que ocorreria uma crise financeira. Fui bem explícito. E acertei.” Ele encolhe os ombros e sorri ante o peso de estar certo em meio à estupidez generalizada.
As razões pelas quais Roubini foi o primeiro a prever a crise têm a ver, talvez, com seus antecedentes profissionais e pessoais, e com o que ele chama de abordagem “holística” na interpretação de dados econômicos. Roubini nasceu em Istambul, a família transferiu-se para o Irã quando ele ainda era bebê e depois para a Itália, onde cresceu.
Ele fala quatro línguas fluentemente (farsi, inglês, hebreu e italiano) e trabalhou em todo o mundo, incluindo dois anos como assessor político no Tesouro dos EUA. Segundo ele, o primeiro sinal de alerta foram as similaridades que observou entre regiões em desenvolvimento e o comportamento da economia dos EUA. Para sua surpresa, viu um padrão de movimento econômico nos EUA que, em 2005, parecia muito com a “economia de mercados emergentes”, com a mesma “exuberância irracional” que, na sua opinião, só poderia ser seguida de um enorme colapso.
“Você examina a história, os dados políticos, os modelos, e faz comparações”, diz. “Esta crise não é um evento totalmente extraordinário, uma consequência aleatória de uma distribuição aleatória. Foi um acúmulo de vulnerabilidades que aumentaram com o tempo”, diz. “Tivemos dezenas de sinais distintos de que tudo acabaria num ponto de não retorno. A ocorrência de uma crise era algo totalmente óbvio para mim.”
É tentador fazer perguntas a Roubini como se ele fosse um oráculo. Mas seu histórico recente faz com que seja irresistível. Para começar, ele acha que 2009 deve ser apagado completamente. Do ponto de vista financeiro, diz ele, está perdido. No “Jogo do Pior Cenário”, Roubini olha para o mundo avançado e considera que muitas economias estão sob o risco de seguir o caminho da Islândia e se tornarem insolventes. A maior parte é de pequenas nações da Europa Ocidental.
“Se uma grande instituição (financeira) na Suíça, na Holanda, na Bélgica ou na Irlanda enfrentar um problema, o país não tem recursos suficientes para resgatá-la”, avisa.
A Grã-Bretanha está em um estado tão ruim quanto os Estados Unidos do ponto de vista fiscal. Segundo ele, a necessidade de as decisões na zona do euro serem aprovadas por consenso faz com que resgates de instituições financeiras sejam mais difíceis de implementar.
Roubini diz que mais fundos hedge (os mais arriscados do mercado) vão quebrar, mas o efeito em cascata nem sequer começou a ser sentido. “As perdas agora estão concentradas nas hipotecas. Espere até que atinjam os imóveis comerciais, as companhias de cartão de crédito, os empréstimos automotivos, o crédito estudantil e os bônus corporativos. Há uma pilha de coisas. O sistema financeiro está insolvente. Está tecnicamente falido.”
*Emma Brockers é articulista
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Kelly Evans, The Wall Street Journal, de Boise, EUA – VALOR
Rick e Noreen Capp reduziram recentemente sua dívida no cartão de crédito, abriram uma conta de poupança e pararam de levar seus dois filhos a restaurantes.
Agora que Boise, capital do Estado americano de Idaho, sofre com as demissões e fechamento de lojas, os Capp esperam que essa nova mentalidade frugal os ajude a passar pela recessão. No entanto, esse mesmo espírito de parcimônia, adotado por famílias de todos os Estados Unidos, é também uma grande razão pela qual a recessão talvez não acabe logo. Os americanos, recém-saídos de uma fase de décadas de alto consumo, estão finalmente gastando menos – bem agora que a economia do país precisa tanto do seu dinheiro.
De modo geral, a frugalidade é boa para as pessoas e também para a economia. A poupança serve como um reservatório de capital que pode ser usado para financiar investimentos, ajudando assim a elevar o padrão de vida do país. Mas em uma recessão, o aumento da poupança – ou o outro lado da moeda, a redução dos gastos – pode exacerbar os problemas econômicos. É o que os economistas chamam de “paradoxo da frugalidade”.
O nível de endividamento das famílias americanas, que vem crescendo constantemente desde 1952, quando o Federal Reserve, o banco central americano, começou a acompanhar esse índice, caiu pela primeira vez no terceiro trimestre de 2008. Nesse mesmo trimestre o consumo das famílias também caiu no país, a primeira queda em 17 anos.
Isso resultou em um aumento no índice de poupança pessoal, que o governo calcula como a diferença entre rendas e despesas. Em 2009, o índice de poupança pessoal, que caiu abaixo de zero nos últimos anos, deve subir para uma faixa de 3% a 5%, segundo os economistas, o que seria uma das mais drásticas reviravoltas desde a Segunda Guerra Mundial. Em um relatório de fim de ano, a Goldman Sachs projetou que em 2009 o índice de poupança pode atingir a faixa de 6% a 10%.
Com o aumento da poupança, dizem os economistas, o consumo deve se contrair ainda mais. Eles esperam que o PIB tenha uma queda anualizada de pelo menos 5% no quarto trimestre de 2008, o maior em um quarto de século.
“A idéia de que os gastos da família americana vão rapidamente nos tirar desta recessão é uma fantasia. Não acontecerá”, diz Elizabeth Warren, uma professora de direito da Universidade Harvard que no mês passado foi escolhida para presidir o comitê de supervisão do Congresso encarregado de verificar a distribuição dos recursos do pacote de socorro financeiro do governo.
Em Boise, famílias como a Capp fazem parte do paradoxo. Nessa área metropolitana ao pé das Montanhas Rochosas residem meio milhão de pessoas e estão instaladas muitas indústrias eletrônicas, como a Micron Technology Inc., fabricante de chips de computador. A área conseguiu suportar bem as baixas econômicas do início dos anos 90 e de 2001, com um índice de desemprego bem inferior à média nacional. Agora, porém, os moradores estão guardando ciosamente o dinheiro que antes gastariam, contribuindo assim, em parte, para as lojas vazias, os restaurantes fechados e o maior desemprego.
Em 2003, Rick e Noreen Capp se mudaram para Boise vindos de Swisswater, Pensilvânia, quando Capp recebeu uma oferta para trabalhar como engenheiro de campo na Electroglas Inc., que produz equipamentos para a fabricação de semicondutores. O salário inicial era de US$ 65.000 por ano (uns US$ 4.900 mensais), e o custo de vida em Boise era menor que na Pensilvânia. Os Capp e seus dois filhos – Noah, agora com 13 anos, e Ellen, de 16 – ficaram animados com a perspectiva de esquiar nas Montanhas Rochosas, e não mais nas Montanhas Poconos, na Pensilvânia.
Os Capp venderam sua casa na Pensilvânia por US$ 164.000 e compraram outra um pouco maior, com 200 metros quadrados, em uma rua sem saída no bairro de Meridian, no subúrbio de Boise, por US$ 175.000. Financiaram a nova residência com uma hipoteca de 30 anos, a uma taxa de juro fixa de 5,8% ao ano.
Os filhos se adaptaram bem: Ellen canta no coral da Meridian High School enquanto Noah freqüenta uma escola pública e participa do clube de xadrez. Em 2006, Noreen, de 45 anos, formou-se em psicologia pela Universidade Estadual de Boise e começou a trabalhar meio período em uma clínica de saúde mental, ganhando cerca de US$ 10.000 por ano. Rick, de 44, também teve aulas na universidade.
Há quatro anos, os Capp conseguiram uma linha de crédito de US$ 25.000 dando a casa como garantia, e utilizaram esse dinheiro para comprar um grande sofá para a sala e um Toyota 4-Runner usado, para fazer companhia ao Toyota Corolla 1995 que já tinham. Ao longo dos anos, também acumularam cerca de US$ 11.000 em dívidas de cartão e US$ 40.000 em créditos estudantis.
Mas como a residência e as opções de ações de Rick estavam subindo de valor, a dívida familiar não parecia alarmante, explicam eles. Em 2006, quando o valor da casa chegou a quase US$ 300.000, a família fez viagens à Disneylândia, pagou US$ 900 por temporadas de esqui e matriculou Ellen em aulas de violino.
Tudo isso mudou bem rápido.
No fim de 2006, o mercado imobiliário de Boise começou a cair, seguido pelas bolsas e pela economia em geral. No fim de 2007, o patrão de Rick começou a despedir técnicos de campo, pois os clientes estavam adiando os pedidos de manutenção de equipamentos. “Foi uma coisa atrás da outra”, diz Noreen.
Assim, a família passou a reduzir os gastos. Por volta de maio, os Capp começaram a cortar o consumo e pagaram cerca de metade da dívida de US$ 11.000 de cartões de crédito. Meses depois, usaram US$ 1.000 do cheque de estímulo econômico enviado pelo governo para abrir uma poupança com uma atraente taxa de 5%.
“Nunca mais vamos ao centro da cidade”, diz Noreen. “Estamos tentando consumir menos gasolina, menos eletricidade, menos alimentos. É um corte geral em todas as frentes.” O impacto de decisões desse tipo é visível em toda a cidade. No Home Federal Bancorp, um banco com US$ 725 milhõe em ativos e 15 agências na área, a base de depósitos vem aumentando há vários meses, diz Steve Eyre, diretor de serviços bancários de varejo.
Ele acrescenta que o número de novas contas de poupança cresceu cerca de 15% em comparação com o ano passado.
Enquanto isso, muitos restaurantes do centro da cidade fecharam este ano. Também são tantas as lojas de varejo que já fecharam que uma das sobreviventes, a Dick’s Stereo, exibe um cartaz na vitrine anunciando “AINDA ESTAMOS AQUI”.
O índice de desemprego da área continua abaixo da média nacional de 6,7%, mas subiu rapidamente para 6% em novembro, comparado com apenas 2,7% em novembro de 2007. Já se espera que esse índice aumente para pelo menos 8% em 2010, segundo a Moody’s Economy.com – mais ou menos o mesmo índice previstopara o país como um todo.
Em outubro, Rick também ficou sem trabalho. Com uma rescisão de cerca de US$ 10.000, os Capp dizem que pagaram os US$ 6.000 restantes da dívida de cartão de crédito e têm vivido com o que resta do dinheiro. A frugalidade que a família já abraçara se tornou ainda mais necessária.
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Paul Krugman * – O Estado SP
A revelação de que Bernard Madoff – brilhante investidor (ao menos era o que todos pensavam), filantropo, um pilar da comunidade – é um impostor chocou o mundo, e com razão. A dimensão do seu esquema fraudulento de supostos US$ 50 bilhões é difícil de compreender.
Mas certamente eu não sou a única pessoa a fazer a pergunta óbvia: qual é a diferença entre a história de Madoff e a história da indústria de investimentos como um todo? A indústria de serviços financeiros abocanhou uma fatia cada vez maior da renda nacional durante a última geração, tornando as pessoas que comandam essa indústria incrivelmente ricas. Mas, a esta altura, parece que boa parte da indústria financeira estava destruindo valor, em vez de criá-lo. E não se trata apenas de dinheiro: a vasta riqueza obtida por aqueles que administravam o dinheiro dos outros teve como efeito a corrupção da nossa sociedade como um todo.
Vamos começar pela remuneração dos altos executivos. No ano passado, o salário médio dos empregados do setor de “valores mobiliários, contratos de venda de commodities e investimentos” era equivalente a mais de quatro vezes o salário médio no restante da economia. Ganhar US$ 1 milhão não era nada de especial, e mesmo rendas de US$ 20 milhões eram relativamente comuns. A renda dos americanos mais ricos aumentou vertiginosamente durante a última geração, enquanto o salário dos trabalhadores comuns estagnou; a remuneração exorbitante de Wall Street foi uma das principais causas dessa disparidade cada vez maior.
Mas é claro que essas superestrelas do mundo dos investimentos faziam por merecer todos aqueles milhões, certo? Não necessariamente. O sistema de remuneração de Wall Street recompensa grandiosamente a aparência do lucro, mesmo que esta se revele posteriormente mera ilusão.
Consideremos o exemplo hipotético de um administrador financeiro que alavanca o dinheiro do seu cliente por meio de enormes dívidas, e então investe o montante aumentado em ativos de grande retorno e imenso risco, como por exemplo valores mobiliários atrelados a hipotecas.
Durante algum tempo – digamos, enquanto a bolha da casa própria continuar inflando – ele (trata-se quase sempre de um homem) conseguirá grandes lucros e receberá imensos bônus. Então, quando a bolha estourar e seus investimentos forem transformados em lixo tóxico, seus investidores perderão muito dinheiro – mas ele manterá aqueles bônus.
Está bem, quem sabe meu exemplo não seja hipotético.
Então qual seria a diferença entre aquilo que Wall Street como um todo andou fazendo e o caso de Madoff? Bem, Madoff supostamente pulou algumas etapas, simplesmente roubando o dinheiro dos seus clientes em vez de cobrar taxas administrativas altíssimas enquanto expunha seus investidores a riscos que eles não eram capazes de compreender. E enquanto Madoff tinha aparentemente consciência da fraude que praticava, muitas pessoas em Wall Street acreditavam na própria balela. Ainda assim, o resultado final foi o mesmo (exceto pela prisão domiciliar): os administradores financeiros enriqueceram; os investidores viram seu dinheiro desaparecer.
Estamos falando de muito dinheiro. Nos últimos anos, o setor financeiro foi responsável por 8% do PIB americano, um aumento em relação aos quase 5% na geração anterior. Se esses 3% adicionais foram constituídos por dinheiro sem valor- o que provavelmente é verdade -, estamos falando de um rombo anual de US$ 400 bilhões em fraudes, abusos e desperdício.
Mas o custo da era das falcatruas americanas certamente vai muito além do desperdício direto de dólares e centavos.
No seu aspecto mais tosco, os lucros de origem maléfica de Wall Street corromperam e seguem corrompendo a política, demonstrando ter alcance bipartidário. Desde funcionários da administração Bush como Christopher Cox, presidente da comissão de valores mobiliários que fez questão de ignorar provas cada vez mais gritantes da existência de fraudes financeiras, até democratas que ainda não solucionaram as inconsistências fiscais que beneficiam os executivos dos fundos de hedge e das firmas de private equity, os políticos agiram quando falou o dinheiro.
Enquanto isso, quanto do nosso futuro foi danificado pela força magnética do rápido enriquecimento pessoal, a qual durante anos atraiu muitos dos nossos melhores e mais brilhantes para os bancos de investimento, em detrimento da ciência, do serviço público e de praticamente tudo o mais?
E, o que é ainda pior, a vasta riqueza obtida – aparentemente sem merecimento – na nossa inchada indústria financeira prejudicou nosso senso de realidade e degradou nossa capacidade de julgamento.
Pense na maneira com que quase todos os nomes importantes deixaram de reparar nos sinais de advertência da iminência de uma crise. Como isso foi possível? Como, por exemplo, pôde Alan Greenspan declarar, há poucos anos, que “o sistema financeiro como um todo tornou-se mais sólido” graças aos derivativos? A resposta, creio eu, é que existe uma tendência nata, por parte até mesmo da elite, de transformar em ídolos aqueles que ganham muito dinheiro, acreditando que eles saibam o que estão fazendo.
Afinal, é por isso que tanta gente confiou em Madoff.
Agora, conforme vasculhamos os destroços e tentamos compreender como as coisas puderam dar tão errado tão rapidamente, a resposta é na verdade bastante simples: estamos vendo as conseqüências de um mundo que embarcou no delírio de homens como Madoff.
*Paul Krugman é articulista
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Jon Hilsenrath, The Wall Street Journal
Autoridades monetárias ao redor do mundo lançaram ontem um saraivada de esforços para estimular a devastada economia global, que até agora tem desafiado todas a tentativas de contenção dos danos.
Os bancos centrais da Noruega, República Tcheca, Hong Kong, Arábia Saudita, Kuait e Omã cortaram a taxa de juros, um dia depois que o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, cortou as taxas de juros mais baixas e prometeu mais crédito não convencional para enfrentar o aprofundamento do declínio da economia americana.
Cortes adicionais da taxas de juros são cada vez mais prováveis de acontecer nas próximas semanas no Japão, Reino Unido e países da região do euro.
As decisões sobre a taxa de juros se somam ao estímulo fiscal de aproximadamente US$ 1 trilhão que está sendo articulado ao redor do globo para 2009.
Enquanto aumentam os esforços de socorro financeiro, os economistas tentam explicar por que nada tem funcionado até agora.
Economistas do J.P. Morgan estimam que a economia mundial vai encolher a uma taxa anualizada de 3,7% neste trimestre e outros 2,3% no primeiro trimestre de 2009, provavelmente o pior período de seis meses da economia mundial desde a Segunda Guerra.
Uma variedade de respostas à situação econômica atual está emergindo. Embora o Fed tenha cortado os juros agressivamente por mais de um ano, muitos outros países só adotaram estímulos poucas semanas atrás. Vai levar tempo para que esses esforços criem raízes. No entanto, políticas desastradas e meias-medidas, em alguns casos, só pioraram a situação. E a força da crise de crédito está se provando muito maior do que se imaginava.
Enquanto os EUA estão à frente de muitos outros países nos esforços para estimular o crescimento, muitos economistas dizem que os bancos americanos ainda não têm capital suficiente para amortecer as perdas, o que os faz relutar em emprestar.
Entre agosto de 2007, quando a crise de crédito começou, e setembro de 2008 o Fed reduziu a taxa de juros de 5,25% para 2%. Fora dos EUA, no entanto, as taxas de juros aumentaram no mesmo período, de acordo com o J.P. Morgan.
Isso mudou drasticamente em outubro. As taxas de juros fora dos EUA foram cortadas em 1,3 ponto percentual desde então. O J.P. Morgan também prevê que o estímulo fiscal de corte de juros e gastos públicos deve chegar a 1,5% do PIB mundial em 2009, ou cerca de US$ 1 trilhão, apesar de ter sido praticamente inexistente fora dos EUA em 2008.
“Na verdade, até outubro não havia nenhum estímulo vindo de fora dos EUA”, diz Bruce Kasman, um economista do J.P. Morgan.
O Banco Central Europeu ainda tem espaço para reduzir a taxa oficial de juros dos atuais 2,5% diante do esfriamento aguçado da inflação, disse ontem Axel Weber, membro do conselho de governadores da instituição.
Ao mesmo tempo, a ata da reunião do Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra no começo deste mês sugeriu que o banco central do Reino Unido tende a fazer mais cortes nos juros. A ata mostrou que as autoridades do banco enxergaram uma “probabilidade significativa” de a inflação ficar abaixo da meta de 2% e discutiram cortes agressivos nos juros. A lentidão da tomada de decisão é apenas parte do problema.
Os economistas também estão criticando cada vez mais as escolhas das autoridades monetárias nos últimos meses.
“Praticamente todas as iniciativas tomadas até agora para dar suporte à funcionalidade do mercado financeiro têm sido parciais, em vez de abrangentes”, disse ontem o diretor-gerente adjunto do Fundo Monetário Internacional, John Lipsky.
Na raiz do declínio, disse ele, está um poderoso processo conhecido com desalavancagem, no qual as empresas e as famílias reduzem sua dependência do crédito. Mesmo que centenas de bilhões de dólares dos cofres públicos já tenham sido gastos em todo o mundo para proteger os bancos de perdas e créditos de risco, Lipsky disse que as autoridades ao redor do mundo ainda não fizeram o suficiente para recapitalizar os bancos e eliminar os créditos podres do sistema financeiro.
“A desalavancagem do mercado financeiro ainda está em curso, sustentando nossa expectativa de uma desaceleração substancial e sustentada no crescimento do crédito até o próximo ano”, disse Lipsky.
Simon Johnson, que já foi economista-chefe do FMI, estima que as instituições financeiras de todo o mundo vão precisar dar baixa contábil de aproximadamente US$ 1,5 trilhão de dívidas de alto risco atreladas às hipotecas dos EUA, dívida de empresas e de pessoas físicas, mas não passaram nem por dois terços do processo. Elas também ainda não levantaram capital suficiente para amortecer as próprias perdas, disse ele.
John Taylor, economista da Universidade Stanford e ex-funcionário do Tesouro do governo George W. Bush, argumenta num documento publicado recentemente que autoridades dos EUA deram um tiro no pé em setembro ao semear confusão a respeito do uso que fariam dos recursos públicos de ajuda aos bancos.
O texto dele mostra que uma medida fundamental da aversão ao risco no sistema bancário – a taxa de juros Libor, ou taxa do interbancário de Londres – disparou no dia em que o presidente do Fed, Ben Bernanke, e o secretário do Tesouro, Henry Paulson, procuravam explicar o plano de resgate. A incerteza a respeito do plano dos EUA, em outras palavras, puxou para cima o custo dos empréstimos.
Isso pode ter sido ainda mais perturbador para o mercado do que a quebra do Lehman Brothers, uma semana antes, disse Taylor. “As medidas do governos e intervenções feitas prolongaram e agravaram a crise financeira”, escreveu ele.
Apesar dos erros, começam a surgir sinais de que as medidas do governo estão tendo um impacto maior. Nos EUA, a taxa de juros das hipotecas caiu ontem, logo depois do corte de juros adotado pelo Fed no dia anterior.
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*Rui Falcão
Ao receber, na primeira semana de dezembro, as delegações de trabalhadores que levaram a Brasília propostas referentes à proteção do emprego, ante a ameaça de desaceleração das atividades econômicas, autoridades do governo reiteraram o que têm afirmado todo dia, desde a eclosão da crise nos EUA: a prioridade do governo Lula é manter os investimentos no PAC, os programas sociais e o emprego.
Quem por preconceito, má fé ou ignorância tem lançado sobre o governo a pecha da incapacidade de gestão ou de morosidade na tomada de decisão, deve ter-se sentido desconfortável, senão atônito, ao verificar quão rápidas e certeiras foram as respostas com que a equipe ministerial reagiu aos primeiros sinais de perturbação na fluidez do crédito e ante a ameaça de desaceleração das atividades.
Depois de adotar medidas de emergência, dirigidas ao setor bancário, com o objetivo de assegurar a manutenção dos fluxos de crédito, tanto junto ao setor produtivo quanto junto aos consumidores, o governo cuidou de retemperar a confiança dos investidores, ao assegurar que não vai cortar investimentos públicos, ao contrário, num reconhecimento explícito do papel estratégico que atribui à demanda agregada na expansão do produto e do emprego.
São várias as demonstrações oficiais nessa direção, como a decisão de estender o prazo de recolhimento dos impostos, como forma de aliviar as empresas da escassez de capital de giro, as medidas de suporte à indústria automobilística, à construção civil e à agricultura, além das reiteradas declarações do presidente Lula de que “o Brasil vai reagir à crise mantendo as obras e incentivando o setor produtivo a continuar produzindo”.
Quanto ao emprego, o Ministério do Trabalho, em resposta à sugestão dos trabalhadores, estuda, entre outras medidas, a ampliação do número de parcelas do seguro-desemprego. Em 2006, o governo já havia atendido a solicitação semelhante, em socorro aos desempregados da indústria de calçados, de móveis e de tratores. Ainda com o objetivo de manter o nível de consumo, e dessa forma assegurar o emprego, o governo cogita de reduzir, temporariamente, as alíquotas do IR, enquanto os partidos sensíveis à causa trabalhista discutem no Congresso Nacional a redução da jornada de trabalho para 40 horas, como medida de estímulo à expansão do emprego. O governo se propõe ainda utilizar a manutenção do emprego como exigência de contrapartida às empresas que receberem socorro de bancos públicos ou que forem beneficiadas por desoneração de impostos.
Não se pode inferir, a partir daí, que o mercado de trabalho brasileiro não vá ser atingido pela recessão que varre o mundo. É certo, porém, como afirmou a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, na quarta-feira, 4 de dezembro, que o governo vai “utilizar todos os instrumentos possíveis para evitar que essa inflexão seja ainda maior”. Dilma lembrou também que “o ponto de convergência entre a lógica das empresas, a do governo e a do cidadão é o emprego”. No mesmo dia, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, afirmava que a manutenção do nível de emprego no próximo ano é uma das preocupações centrais do Palácio do Planalto. Segundo Bernardo, a equipe econômica monitora todos os setores empresariais, para verificar o que precisa ser feito para conter a queda na produção e, por conseqüência, impactos negativos sobre o emprego.
São sinais mais do que suficientes para se reconhecer que os tempos são outros, bem outros. Aos recalcitrantes remanescentes, que ainda insistem em ver na política econômica do governo Lula mera continuidade da do governo FHC, recomenda-se atentar para isso.
Uma breve evocação do passado recente poderá espanar a memória dessa gente e lembrar-lhe que, em matéria de resposta a crises, outra coisa não fez o governo FHC senão se omitir, ao infirmar a capacidade do Estado de intervir na economia mediante a utilização das políticas monetária, cambial e fiscal. O resultado – sabemos – foram anos de estagnação econômica e taxas de desemprego recordes.
Recorda-se que a política fiscal – que é um dos principais instrumentos de política econômica à disposição do governo para estimular a economia, mediante o aumento do gasto público e as inversões privadas -, foi praticamente anulada no governo FHC, já que a perseguição das metas de superávit primário, impostas pelos organismos multilaterais e acolhidas passivamente sem contestação, retirava-lhe a capacidade de realizar investimentos e ampliar os programas sociais.
Mas a justificativa para proceder dessa maneira era menos de ordem prática do que de ordem político-doutrinária – essa mesma ordem político-doutrinária que foi a pique, estrondosamente, na crise das hipotecas. Por mais estranho que possa parecer, avaliado da perspectiva dos remédios utilizados para debelar a crise atual, o objetivo central do governo FHC, de subordinar o Estado e a sociedade ao mercado, implicava tornar impotentes as políticas econômicas. E assim foi feito. Isso, sob a justificativa de que tais políticas eram tidas pelos mercados financeiros como uma fonte potencial de “ameaças” – “ameaças”, sabe-se hoje claramente, à liberdade de especular a curto prazo com capitais voláteis, que na verdade punham em risco, como o fizeram, a continuidade da atividade produtiva e do emprego.
A opção de anular a intervenção do Estado na promoção do desenvolvimento – ou seja, deixar de estimular o crescimento do produto e do emprego – visava, segundo se dizia, a restabelecer a credibilidade e a reputação do governo junto ao mercado. Enquanto recorria ao poder do Estado para alienar o patrimônio público, o governo FHC intentava ao mesmo tempo convencer a sociedade de que somente longe das interferências do Estado o mercado seria capaz de transformar recursos financeiros de curto prazo em investimento produtivo, em empregos e bem-estar social.
Sabemos o que disso resultou. O crescimento prometido não seguiu à estabilidade de preços, uma demonstração cabal de que a destituição do papel do Estado na orientação dos investimentos, ao contrário do que fora prometido, viria comprometer ainda mais a credibilidade e a reputação do governo junto ao mercado – e observe-se que à frente do governo estava FHC, e não Lula, cuja imagem, malgré lui, converteria em pesadelo as noites mal-dormidas do industrial Mário Amato.
Como resultado da mera obtenção da estabilidade, o investimento estrangeiro direto, tão cortejado pelo governo FHC, não apareceu. Os recursos financeiros que ingressaram no País nos anos 1990 foram utilizados unicamente na compra de empresas estatais e privadas nacionais, não tendo resultado, portanto, em aumento da capacidade produtiva, das exportações ou do emprego. Na sua totalidade, destinaram-se à alienação do setor de serviços, um setor que, além de nada exportar, gerou remessas de lucros para o exterior, num momento em que a escassez de divisas tornava dramática a situação do balanço de pagamentos – o que, por sua vez, levava ao aumento dos juros e da dívida pública, à contenção da demanda, ao abandono da atividade produtiva e do emprego.
Para os trabalhadores, a destituição do papel do Estado na promoção do crescimento redundou em taxas de desemprego recordes. Nos oito anos de governo FHC, o número de desempregados cresceu à média de mais de 600 mil por ano, sem que tenha sido adotada alguma política compensatória. Durante quase uma década, os trabalhadores foram abandonados à própria sorte.
É sobre esse pano de fundo sombrio que se destaca agora o restabelecimento das políticas anticíclicas, que se instalam no lugar antes reservado ao exercício da fantasia – uma economia de mercado conduzida por forças automáticas que levariam ao pleno emprego.
O que se colhe de positivo da crise atual, no plano estratégico, é o reconhecimento de que o pleno emprego somente poderá ser alcançado mediante a intervenção do Estado. É em especial a política fiscal – espantalho dos neoliberais, agora em debandada – que se constitui em poderosa alavanca para estimular a demanda agregada e assegurar a manutenção do emprego.
Mas convém lembrar que o governo Lula somente pôde restabelecer as diretrizes de política econômica de inspiração na justiça social porque contou com o apoio da participação popular. Na ausência da participação popular, o risco de retrocesso estará sempre presente, daí a necessidade de nos mantermos vigilantes.
Rui Falcão, 65 anos, advogado e jornalista, é deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores. Foi deputado federal, presidente do PT e secretário de governo na gestão Marta Suplicy. Artigo publicado no Blog de Noblat
Tags: agricultura, Bancos, Calçados, construção, consumo, crédito, Crescimento, crise, des, desenvolvimento, desoneração, Dilma, empresas, estabilidade, Estatais, EUA, exportações, FHC, hipotecas, impostos, Indústria, Investimento, Juros, Lula, PAC, planejamento, recessão, Rui Falcão, trabalhadores
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Carlos Alberto Sardenberg* – O Estado de São Paulo
Reparem no noticiário destes dias. Podemos resumi-lo em duas colunas. Na primeira, seguidas informações sobre o enfraquecimento da atividade econômica no mundo todo. Na segunda, ações dos bancos centrais e pacotes dos governos para reanimar a economia.
O impacto maior, no primeiro momento, é sempre das notícias sobre o agravamento da recessão, especialmente nos países desenvolvidos: demissões, férias coletivas, interrupção de produção, fechamento de fábricas e empresas que entram em concordata.
Na sexta-feira, por exemplo, saiu a notícia que deve ter sido a pior sobre a crise até aqui, no que se refere à economia real: em novembro a economia americana eliminou nada menos que 533 mil empregos, número muito acima da expectativa média (perda de 350 mil postos) e colado na previsão mais pessimista.
Todos se assustam com o tamanho e a rapidez com que a crise se espalha. Resulta daí a desconfiança de que esta crise será mais longa do que se esperava (ou se desejava). A expectativa mais favorável conta com o início da recuperação para o segundo semestre de 2009. A mais negativa diz que a recuperação só virá, e lentamente, a partir de 2010 – e isso se os governos tomarem as providências corretas a tempo. O que nos leva para a segunda coluna do noticiário: a reação à crise.
Tem sido notável o esforço de bancos centrais e autoridades econômicas e políticas. Só na semana passada, tivemos:
Redução “agressiva” de juros pelos Bancos Centrais da Inglaterra e da Europa;
Parlamento alemão aprova plano de US$ 30 bilhões para aumentar gastos públicos, conceder crédito e cortar impostos;
o Fed, banco central dos EUA, cria uma linha de US$ 600 bilhões para comprar títulos das agências hipotecárias públicas (com o objetivo de forçar a redução de juros de hipotecas) e outra de US$ 200 bilhões para comprar carteiras de crédito de instituições de cartão de crédito, de crédito ao consumidor e das que concedem empréstimos a estudantes que entram no ensino superior;
os governos dos EUA e da China abrem linha de crédito de US$ 20 bilhões para financiar o comércio externo de países emergentes.
Temos aí medidas já em andamento e planos. Estes costumam ser recebidos com reserva, pois podem não funcionar. Ainda que essa crise tenha exigido maior intervenção dos governos, isso não torna esses mesmos governos automaticamente eficientes.
Por outro lado, há amplo consenso sobre as políticas a adotar. Economistas de diversas orientações estão falando coisas muito parecidas: que é preciso um forte aumento do gasto público, mas em investimentos, não em custeio, redução de juros e compra, pelos bancos centrais e agências governamentais, de títulos de crédito do sistema financeiro. Além da capitalização de bancos.
Havendo esse consenso, fica mais fácil implantar tais programas, que têm grande apoio entre as lideranças políticas. Portanto, é uma questão de tempo: uma hora isso tudo tem de funcionar.
E continuam todos à espera do plano de Barack Obama. Líderes democratas dizem que vem coisa grande, um programa de gasto público entre US$ 500 bilhões e US$ 700 bilhões. É artilharia pesada. Os US$ 700 bilhões seriam equivalentes a 5% do PIB, o que faria do programa americano o mais forte entre todos já apresentados.
A crise é nossa – Aqui, as 1.300 demissões na Vale deram um sinal estridente para mostrar que a crise está, sim, entre nós.
Tinha de estar. São os caminhos da globalização. O mundo todo cresceu, o Brasil pegou a onda, exportou para todo lado.
Agora o mundo está ou em recessão (os ricos) ou em desaceleração (os emergentes). Sobra uma conta.
Mas desta vez a crise apanha o Brasil em condições bem mais seguras. Considerem este exemplo, a notícia que esteve na primeira página na semana passada: em novembro, a maior fuga de dólares do Brasil em dez anos.
Olhando para os números absolutos, a notícia faz sentido e assusta. Em novembro o mercado de câmbio registrou déficit de US$ 7,1 bilhões, a maior saída de dólares desde o déficit de US$ 8,5 bilhões de janeiro de 1999, quando mudou o regime de câmbio no Brasil, de controlado para livre, com uma maxidesvalorização. Aliás, também houve uma máxi agora. Lembrem-se: ainda em 1º de agosto (faz tão pouco, não é mesmo?) o dólar valia R$ 1,60.
Mas olhando o conjunto das contas externas se vê que a situação atual é muito mais tranqüila.
Comparem: em 1999, o comércio externo brasileiro total era de US$ 100 bilhões/ano, com US$ 50 bilhões de exportações e US$ 50 bilhões de importações. Neste ano, o comércio externo deve atingir US$ 379 bilhões, com superávit de US$ 23 bilhões. Ou seja, a capacidade do País de obter dólares bons com a venda de mercadorias é quatro vezes maior. As reservas do Banco Central em dezembro de 1998 eram de US$ 44 bilhões; hoje, algo como US$ 205 bilhões.
Resumo da ópera: uma saída de US$ 8 bilhões em 1999 era crise no balanço de pagamentos, hoje não chega nem perto disso.
Esta foi uma das grandes mudanças no Brasil: as contas externas passaram de “impagáveis” para superavitárias em dólares. Acrescentem o fim da inflação e o controle das contas públicas – a estabilidade macro – e se entenderá por que desta vez o Brasil não vai quebrar.
História repetida – O presidente Bush, ao comentar o desemprego de novembro, admitiu pela primeira vez que os EUA estão em recessão. E assim se igualou a seu pai, George H. Bush, que também deixou uma recessão para seu sucessor, Bill Clinton, democrata como Obama.
Temos, portanto, dois democratas assumindo recessões deixadas por republicanos. Aliás, Clinton assumiu em janeiro de 1993 em meio a desconfianças de que, inexperiente, pudesse dar conta da crise. E ele simplesmente entregou uma era de prosperidade e expansão.
Quem sabe Obama…?
*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista
Site: www.sardenberg.com.br
Tags: ações, Bancos, Bush, Câmbio, Clinton, crédito, crise, demissões, desemprego, dólar, emergentes, empresas, estabilidade, EUA, Europa, exportações, FED, globalização, hipotecas, importações, impostos, inflação, investimentos, Juros, Mercados, Obama, PIB, produção, recessão, Reservas
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William E. Leuchtenburg*, The New York Times – O Estado SP
Na noite da eleição de 8 de novembro de 1932, Herbert Hoover, na companhia de amigos em sua casa no campus da Universidade de Stanford, acompanhava as apurações que traziam um veredicto sobre uma presidência iniciada com tanta esperança em março de 1929.
A campanha havia sido brutal. Detroit tivera de mobilizar a polícia para proteger o presidente da fúria de trabalhadores desempregados do setor automotivo entoando “Enforquem Hoover!” “Tenho viajado com presidentes desde a época de Theodore Roosevelt e nunca vi um deles ser vaiado por homens que lotaram as ruas para hostilizá-lo”, disse um agente.
As apurações na noite da eleição superaram os piores temores de Hoover. O presidente levou a maior surra de todos os tempos na história do Partido Republicano e seu adversário, Franklin D. Roosevelt, tornou-se o primeiro democrata a entrar na Casa Branca com a maioria do voto popular desde Franklin Pierce, 80 anos antes.
Duas características tornaram essa derrota particularmente amarga. Uma foi que Hoover sabia que o resultado foi mais uma rejeição ao presidente do que uma expressão de aprovação do desafiante. A outra foi que, apesar de ser um pária, ele deveria servir por mais quatro meses – até 4 de março de 1933. A 20ª Emenda, mudando a posse para janeiro, só entraria em vigor em 1937. Ele estava fadado a ser o último presidente “lame-duck” (sem poder no fim de mandato) da velha ordem.
Hoover resolveu aproveitar esse período para salvar sua presidência. Mal os votos foram contados, Hoover convidou o governador Roosevelt para conversar com ele. A abertura deu toda a aparência de uma oferta excepcionalmente generosa para compartilhar o poder com o homem que o havia vencido. Mas, na verdade, era o primeiro passo de um esquema para desfazer os resultados da eleição. Hoover agiu, como escreveu posteriormente o historiador Frank Freidel, “como se sentisse que era seu dever salvar a nação, aliás o mundo, da loucura dos eleitores americanos”.
Em 22 de novembro, Hoover recebeu Roosevelt na Casa Branca. Durante toda a reunião, Hoover tratou seu sucessor como se ele fosse um garoto estúpido que precisasse exercitar verbos intransitivos. Ele tentou forçar o presidente eleito a endossar as políticas interna e externa de seu governo.
Ciente das intenções de Hoover, Roosevelt sorriu, fez que sim, mas não fez nenhum acordo. Um Hoover frustrado mais tarde prometeu: “Eu ainda não acabei com Roosevelt.” Hoover voltou ao ataque em fevereiro. Ele enviou ao presidente eleito uma carta intimidatória de dez páginas na qual errava a grafia do nome Roosevelt.
Por causa da fuga de ouro e da corrida aos bancos, Hoover escreveu que havia “uma firme degradação da confiança no futuro”. Suas políticas sábias, ele afirmou, haviam trazido uma recuperação no verão de 1932. Mas, desde então, disse ele, houve um acentuado declínio, pois o país ficara inseguro com a eleição de Roosevelt, temendo que o novo presidente embarcasse em experiências radicais. Hoover concluiu pedindo para Roosevelt restaurar a confiança declarando publicamente que não haveria “nenhuma interferência” na moeda e “o orçamento seria inquestionavelmente equilibrado, mesmo que fosse preciso aumentar a tributação”.
Três dias depois de escrever essa carta, Hoover disse a um senador arquiconservador que “se essas declarações forem feitas pelo presidente eleito, ele terá ratificado todo o principal programa do governo republicano, isto é, o abandono de 90% do chamado New Deal”.
Para outro senador, Hoover deixou claro que pedira a seu sucessor que renunciasse à ajuda aos donos de imóveis residenciais sobrecarregados pelas hipotecas, aos projetos de obras públicas e ao programa de desenvolvimento econômico do Tennessee, particularmente afetado pela depressão. Ele também queria que Roosevelt erguesse barreiras tarifárias e impusesse um imposto nacional sobre as vendas. Roosevelt, que considerara a carta “impertinente”, deixou passar alguns dias, mentindo que sua resposta havia sido extraviada.
Ele não se deixaria ser relacionado com um governo moribundo e impopular, e rejeitou fazer qualquer declaração. Ele não permitiria que Hoover lhe roubasse os louros da vitória. Em 4 de março, Roosevelt anunciou à nação um novo começo.
Barack Obama devia considerar a seqüência dos acontecimentos Hoover-Roosevelt em sua caminhada pelos campos minados do período entre agora e 20 de janeiro. Diferentemente de Roosevelt, que ficou quase invisível nos meses antes de sua posse, Obama tomou uma iniciativa na semana passada. Esse curso contribuirá para uma transição suave. Mas o presidente eleito também deveria seguir o exemplo de Roosevelt, evitando uma colaboração com um governo de saída e desacreditado, sob pena de ficar enredado em acordos políticos antes de ser investido no cargo.
*William E. Leuchtenburg é autor de uma biografia de Herbert Hoover a ser publicada
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Los ‘gurús’ de la economía no anticiparon la crisis por miedo a disentir y por interés – Muchos analistas también viven del negocio
DAVID FERNÁNDEZ – EL PAÍS
Imagínese que usted forma parte de una de las instituciones económicas más influyentes del mundo como es la London School of Economics. Imagínese también que ejerce de anfitrión junto con sus colegas durante una visita de la reina Isabel II a la sede del centro. En principio, uno de tantos actos protocolarios de guante blanco. Imagínese que la soberana de todo un Imperio se salta el protocolo para lanzar al aire una pregunta que seguro también se la hace el tendero de la esquina: “¿Por qué nadie ha sido capaz de anticipar la que se nos ha venido encima?”. Deje de imaginar. La situación es real, ocurrió el pasado noviembre y ejemplifica cómo la crisis económica ha puesto en evidencia los pronósticos económicos. Hasta tal punto han fallado las previsiones que uno de los pocos que anticipó el crash, Nouriel Roubini, ha traspasado la línea que separa al economista de la estrella del pop y ahora va impartiendo doctrina por medio mundo en conferencias avaladas con cheques de varios ceros.
Simples turbulencias, desaceleración, crisis, recesión, ¿depresión? Ésta es la secuencia que han seguido las previsiones de Gobiernos (incluido el español, que hasta bien entrado 2008 se negó a hablar de crisis), organismos internacionales, escuelas de negocios, reputados consultores y gurús de la gestión empresarial. Nadie tiene una bola de cristal para anticipar el futuro. Como decía Karl Popper, “predecir el nacimiento de la rueda es inventarla”. Además, una crisis económica como la actual, la peor para muchos desde 1929, presenta varias raíces inéditas que han aflorado al mismo tiempo, lo que complica cualquier análisis. Sin embargo, estas dificultades no deben servir de excusa para esconder que los modelos de estimación económica presentan algunos vicios que limitan sus probabilidades de éxito. Conflictos de intereses, falta de transparencia, miedo a ir contracorriente (”fuera del consenso hace mucho frío”, ironiza un experto) o la resistencia a dar voz a los críticos con el sistema económico durante el largo periodo de bonanza porque sus teorías no venden son algunos de estos vicios.
Hace un año este periódico pidió a 15 casas de Bolsa que dijeran en qué nivel se situaría el Ibex 35 en diciembre de 2008. El precio objetivo medio situaba el índice bursátil español en 17.300 puntos. El Ibex 35 está hoy por debajo de los 9.000 enteros. En defensa de los analistas hay que decir que en ese momento la crisis financiera aún no había mostrado su cara más violenta y que la economía real no se había contagiado. Lo que ya tiene menos explicación es que el pasado junio, cuando la metástasis de las hipotecas basura se había extendido por todo el sistema, la venta de optimismo seguía siendo la tónica dominante.
Credit Suisse, UBS, Citigroup, JPMorgan, Deutsche Bank, Goldman Sachs y Exane BNP Paribas son algunas de las firmas de Bolsa más importantes del mundo. En conjunto analizan las acciones de más de 10.000 compañías cotizadas. Pues bien, en junio sólo un 13% de sus consejos eran de vender acciones. El resto de recomendaciones a sus clientes eran de comprar o en el peor de los casos de mantener los títulos en cartera.
¿Por qué cuesta tanto escribir en un informe de Bolsa la palabra vender? “Por la propia estructura del mercado. Una entidad financiera suele tener conflictos entre el análisis y el negocio. Esta situación puede significar que la independencia de los analistas a la hora de emitir sus opiniones se vea limitada”, reconoce Rafael Sarandeses, secretario general del Instituto Español de Analistas Financieros. A pesar de entonar el mea culpa, Sarandeses matiza que esta crisis no se debe a los errores de los analistas sino “a los fallos de los supervisores financieros y a las malas prácticas de las agencias de calificación de riesgos”.
Sería injusto centrar todas las críticas en los analistas de Bolsa. Sus colegas macroeconómicos tampoco han estado muy finos. En enero de 2007 el consenso de mercado (bajo este concepto se engloban organismos supranacionales como el FMI, el Banco Mundial o la OCDE cuyos juicios deberían estar a salvo de las tentaciones que acechan a las instituciones privadas) preveía un crecimiento del PIB en EE UU y en la zona euro del 3% y del 2,1%, respectivamente. En noviembre de 2008 esas expectativas habían caído al 1,4% y al 1%. “Las crisis ocurren porque son inesperadas. Si todo el mundo las esperase no se materializarían. Además, en este caso nos hemos topado no con una crisis, sino con tres al mismo tiempo: la financiera, la hipotecaria y la económica”, se defiende José Luis Martínez, economista jefe de Citigroup en España. Entonces, ¿no cree que haya que ajustar en nada los modelos económicos? “Todos los economistas manejamos varios escenarios. Quizás esta crisis lo que nos enseñe es que debemos aprender a asignar una determinada probabilidad al escenario elegido. No es lo mismo que digamos que va a producirse determinado acontecimiento cuando el margen de acierto que manejamos es de sólo el 40% que cuando asignamos a nuestro pronóstico el 80% de probabilidades. Esta crisis va a forzar una mayor transparencia en las previsiones”.
Al calor de cada burbuja suelen surgir teorías que hablan de cambios revolucionarios que transformarán por completo el sistema económico. Estos planteamientos, sin embargo, suelen desinflarse casi a la misma velocidad que la burbuja que los amparó. A finales del siglo pasado se popularizó el concepto de Nueva Economía según el cual el desarrollo de Internet y otras tecnologías harían que pasásemos de una economía industrial a una economía del conocimiento y, como consecuencia de ello, se acabarían los ciclos económicos. Que le pregunten a las personas que hacen cola a cientos a las puertas del Inem si todavía existen los altibajos en economía… Con la burbuja financiera de los últimos años, diferentes think tanks han puesto de moda otra teoría no menos visionaria bautizada con el nombre de decoupling. La corriente de pensamiento que está detrás de este vocablo viene a decir que las reformas estructurales acometidas por los países emergentes les permitirán seguir con su senda de crecimiento con independencia de lo que ocurra en las economías desarrolladas. En los últimos dos meses se ha vuelto a comprobar que cuando las economías occidentales tosen, el resto, como mínimo, se resfría. China echa el freno a su espectacular crecimiento, los inversores castigan las divisas de México y Brasil, Rusia se ve forzada a cerrar en varias ocasiones sus mercados, Argentina desempolva medidas confiscatorias… En fin, todo un déjà vu.
“No creo en los gurús. Es una tendencia a abolir”, sentencia José de Rafael, director de la Asociación Española de Empresas de Consultoría. “No se puede opinar más que con altos conocimientos de la situación. Se han corrido muchos riesgos por la proliferación de los mal llamados gurús. Siempre están los arribistas que tiene más pico que los demás, y en un determinado momento sus teorías pueden llegar a convencer”. A pesar de la fuerte crítica a los analistas estrella, De Rafael opina que las previsiones económicas en esta crisis no han resultado tan erróneas. “La crisis se veía venir desde hace 14 meses. Lo que los expertos no han sabido anticipar ha sido su intensidad. Además, la raíz de la crisis no es financiera, sino de valores, y esto es imposible de predecir. La codicia y la corrupción han prevalecido sobre la ética empresarial”, añade este experto.
El escritor especializado en temas de management Peter Drucker solía decir que el término gurú se había convertido en una palabra bastante popular debido a que la etiqueta alternativa de charlatán era demasiado larga para usarla en un titular periodístico. En los últimos años las conferencias de los grandes expertos en gestión empresarial han desbordado todos los aforos. Cientos de discursos y power points para encontrar la receta del éxito, pero pocas voces que alarmasen sobre lo que se estaba gestando. “Que yo recuerde, de los economistas extranjeros sólo adelantaron la crisis Nouriel Roubini y Paul Krugman mientras que entre los españoles destacan Ignacio Garikano y Xabier Mena”, recuerda Alberto Saiz, director de HSM España, empresa especializada en contenidos de gestión empresarial y organizadora de Expomanagement. “Es más fácil subirse a la ola del pensamiento reinante que hacer un estudio profundo de la situación. En este sentido, yo también criticaría la actitud de los medios de comunicación por popularizar algunos mensajes”, añade. “La verdad absoluta no la tiene nadie. Nuestra misión es inspirar a los ejecutivos para que encuentren alternativas para desarrollar sus estrategias, no decirles lo que tienen que hacer”.
Tanto Saiz como el resto de expertos consultados para este reportaje reconocen que ante el tema de las previsiones, sean estas económicas o de otra índole, las personas se mueven con un marcado sentido gregario y que, al igual que hace dos años era un milagro que un libro de management o un economista crítico se abrieran paso, ahora se corre el peligro, por la ley del péndulo, de que sólo quede espacio para los agoreros. “Los seres humanos queremos oír aquello que se adecúa a nuestros patrones mentales. Si antes lo único que parecía vender eran las noticias buenas, ahora parece que triunfan las previsiones pesimistas”, señala el director de HSM. “Tanta incertidumbre obliga a converger en posiciones, se traduce en una cierta opinión consensuada. Aunque con puntuales discrepancias, todos buscamos saber la opinión del de al lado. Ahora puede que corramos el riesgo de irnos al otro extremo: caer en el pesimismo absoluto y no valorar las cosas buenas que se están haciendo”, añade José Luis Martínez.
Pero, cuidado, conviene no pasarse de frenada en la teoría del caos. La realidad es tozuda y el éxito efímero. Y si no que se lo pregunten a Ariun Murti, experto de materias primas en Goldman Sachs. En marzo de 2005 Murti predijo que el precio del petróleo daría el salto de 50 dólares a 105 en sólo cuatro años. Se desvió sólo unos meses. La situación del mercado le llevó a doblar su apuesta en mayo pasado, situando el barril de crudo en 200 dólares en sólo dos años. Coincidiendo con este segundo augurio de Murti, el petróleo inició un vertiginoso descenso que le ha devuelto de nuevo a la zona de los 50 dólares.
Otra consecuencia de la crisis actual es que se ha puesto en duda un dogma de fe económico de los últimos años: el poder casi religioso del libre mercado. Incluso en el santa sanctorum del capitalismo como es Wall Street han tenido que hincar la rodilla y rogar una inyección de dinero público para resolver sus pecados. El retorno a políticas de corte más intervencionista ha vuelto a poner de moda al economista británico John Maynard Keynes, partidario de la intervención del Gobierno para estimular la economía.
Pero incluso él también erraba a veces en sus previsiones. Un día tuvo que salir del paso de las críticas de un economista rival que le acusaba de inconsistencia en sus argumentos. “Cuando los hechos cambian, yo cambio mi opinión, ¿qué hace usted, caballero?”. Habría sido interesante oír la respuesta que hubiera dado Keynes a la pregunta de la reina Isabel II.
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Jon Hilsenrath e Deborah Solomon, The Wall Street Journal – VALOR
O governo dos Estados Unidos se comprometeu a injetar mais US$ 800 bilhões nos conturbados mercados de crédito, sendo que desta vez a maior parte do dinheiro virá diretamente do banco central, o Federal Reserve, que assim passa a ser um agente financeiro em quase todos os cantos da vida americana.
Nos próximos meses, o Fed vai comprar até US$ 600 bilhões em dívida emitida ou garantida por empresas de crédito imobiliário com fortes laços com o governo: Fannie Mae, Freddie Mac, Ginnie Mae e Federal Home Loan. As autoridades esperam que isso derrube os juros das hipotecas e ajude o setor imobiliário. Além disso, o Fed, com apoio do Tesouro, que é o Ministério da Fazenda nos EUA, vai oferecer até US$ 200 bilhões em financiamento para investidores para que possam comprar títulos de dívida atados a créditos estudantis, automobilísticos e de cartões e a empréstimos para pequenas empresas.
Essas ações também representam novos passos dados pelo governo de George W. Bush para resolver a crise financeira no fim de seu mandato, e chegam poucos dias depois de o secretário do Tesouro, Henry Paulson, ter sugerido que poderia adiar o comprometimento de mais verbas oriundas do programa de US$ 700 bilhões para alívio de ativos problemáticos, o Tarp, aprovado pelo Congresso em outubro. Os mercados pioraram nos últimos dias, em parte devido a incertezas quanto aos planos do governo.
Paulson disse que as medidas visavam a aumentar a disponibilidade de financiamento para o consumo e aquisição de casa própria. “Nada é mais importante para sair desta correção do mercado imobiliário do que a disponibilidade de financiamento hipotecário acessível”, disse ele. Paulson acrescentou que o mercado para papéis lastreados por dívida de consumidores “paralisou” no mês passado, tornando quase impossível para milhões de americanos encontrar juros palatáveis para financiar desde computadores até cursos universitários.
Esses mercados pioraram bastante nas últimas semanas. No fim da semana passada, por exemplo, a dívida emitida pela Fannie Mae tinha juros 1,8 ponto porcentual acima dos de títulos do Tesouro de igual prazo. Essa diferença era de apenas 0,7 ponto porcentual em setembro, logo depois de o governo ter assumido controle da gigante hipotecária e sua co-irmã, a Freddie Mac.
Conforme aumentava o custo para a Fannie e a Freddie se financiarem, os juros de hipotecas também subiam. Investidores festejaram o novo plano, e as taxas de crédito imobiliário caíram cerca de meio ponto porcentual ontem, após as notícias, algo que pode ajudar quem quer refinanciar sua casa ou comprar uma.
“Isso vai liberar consumo que de outra forma não ocorreria”, disse Susan Wachter, professora de mercado imobiliário da faculdade de administração Wharton, da Universidade da Pensilvânia. “Vai aumentar diretamente a demanda por casas e ajudar com o problema da queda constante dos preços de imóveis.”
O custo de crédito imobiliário tem subido nos EUA em parte porque investidores de outros países, especialmente bancos centrais, recuaram recentemente devido, em parte, a temores quanto ao mercado americano de casas e à ambigüidade do governo. A Fannie e a Freddie também tiveram limitada sua capacidade de comprar títulos lastreados por hipotecas.
Nos últimos meses, o Fed já disponibilizou suas linhas de crédito para corretoras e empresas não-financeiras. E até anunciou planos de começar a comprar alguns dos complexos títulos de dívida que estão no centro da crise financeira – instrumentos conhecidos como obrigações de dívida garantida (CDO, na sigla em inglês) – através de seu resgate da gigante seguradora American Internacional Group Inc.
Conforme o Fed expandia sua atividade de financiamento, seu balanço inflou de US$ 900 bilhões em agosto para mais de US$ 2 trilhões. Com os novos programas, deve ficar ainda maior. O Fed, ao contrário do Tesouro, não precisa tomar emprestado para financiar seus programas de resgate. Um banco central pode na prática criar dinheiro novo injetando recursos – também conhecidos como reservas – no sistema bancário, algo que o Fed está fazendo agora.
É algo parecido com o que o Japão fez nos anos 90 e também nesta década, quando o Banco do Japão injetou dinheiro nos bancos do país num processo conhecido como “afrouxamento monetário quantitativo”. O Fed está levando esse processo um passo à frente. Ele não está apenas injetando dinheiro, mas também decidindo para onde esse dinheiro deve ir por meio de seus próprios programas de financiamento.
“O Fed está indo mercado a mercado, dizendo: ‘Onde o crédito está entupido?’ e tentando lidar com isso de maneira direta”, disse Laurence Meyer, ex-diretor do Fed e hoje vice-presidente da consultoria econômica Macroeconomic Advisers.
Essa abordagem traz vários riscos. Os mercados podem se tornar dependentes do financiamento do Fed, o que pode retardar uma recuperação. Diretores do Fed estão preocupados com a maneira como poderiam sair dessas linhas de crédito, mas acham que isso é um problema que terão de enfrentar só depois que a crise passar, algo que ainda vêem como um futuro distante.
No âmago, a abordagem do Fed – somada ao volumoso estímulo fiscal planejado pelo futuro governo de Barack Obama – também é inflacionária. Mas dados os problemas em formação na economia americana no momento, como alta do desemprego e queda do consumo, as autoridades do Fed não vêem na inflação um risco iminente.
Há outros riscos – especialmente o de nada dar certo e mais dinheiro se tornar necessário. Além do mais, o Fed poderia ter perdas em todos os empréstimos que conceder, especialmente com a economia tão frágil. O banco central está tomando precauções. Por exemplo, o Tesouro aceitou assumir os primeiros US$ 20 bilhões em perdas da nova linha de crédito de US$ 200 bilhões para financiamento de carros, crédito imobiliário e outros empréstimos para consumo.
Pela estrutura dessa linha de crédito, o banco central vai emprestar dinheiro a investidores – por meio de bancos conhecidos como “dealers” – e os investidores, por sua vez, podem usar o dinheiro para comprar títulos de dívida de alto nível atrelados a crédito ao consumidor. Se a inadimplência de consumidores subir bastante e esses títulos ficarem em atraso, a conta vai cair no colo do Fed e do Tesouro.
O programa de crédito imobiliário é mais direto. A partir da próxima semana, o Fed vai começar a comprar US$ 100 bilhões em dívida emitida pela Fannie Mae, Freddie Mac e outras empresas patrocinadas pelo governo. Ele também planeja comprar US$ 500 bilhões em dívida lastreada por hipotecas que essas firmas avalizam.
O Fed espera aumentar a cotação da dívida com suas compras, o que reduziria o rendimento dela e, teoricamente, os juros de hipotecas.
Com o novo plano, o Tesouro na prática comprometeu US$ 330 bilhões dos US$ 700 bilhões do programa de resgate. Ele precisa de autorização do Congresso para ir além de US$ 350 bilhões.
(Colaboraram Serena Ng e James R. Hagerty)
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Jon Hilsenrath, The Wall Street Journal – VALOR
O Federal Reserve, o banco central americano, está num ponto de inflexão.
A economia americana se deteriora e o Fed já empurrou quase tudo o que dava sua principal alavanca: os juros de curto prazo. Sua meta para os fundos federais, a taxa de empréstimos interbancários de curtíssimo prazo, caiu de 5,25% ao ano pouco mais de um ano atrás para 1%. Ultimamente, a taxa real dos fundos federais fica com freqüência abaixo dessa meta. Mas a economia americana precisa de mais ajuda.
Por isso, diretores do Fed devem dar seu aval ao plano de estímulo fiscal que os assessores do presidente eleito Barack Obama estão elaborando. O próprio Fed não esgotou ainda sua munição. Diretores do banco central estão avaliando opções como novas linhas de crédito, mais cortes de juro e compras de dívida de longo prazo, como títulos do Tesouro ou das hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac para estimular os mercados e a economia.
Economistas há muito debatem como um banco central deve administrar uma economia em deterioração quando os juros de curto prazo já estão baixos. O Japão se debateu com o problema no começo desta década. Um dos principais autores sobre o sujeito é o presidente do Fed, Ben Bernanke. Ele descreveu estratégias em palestras e estudos em 2002 e 2004, quando o Fed estava considerando a possibilidade de um problema desses. “As conclusões daquela época ainda se aplicam hoje”, diz Brian Sack, da Macroeconomic Advisers LLC, um ex-economista do Fed que dividiu a autoria de um estudo sobre o tema com Bernanke.
Eis as medidas que os diretores do Fed podem avaliar em sua reunião de dois dias em dezembro:
Agir rápido: Alguns economistas argumentam que, com os juros já muito baixos, o Fed deveria conservar sua munição e evitar novos cortes a não ser que absolutamente necessário. Em comentários no Instituto Cato, na semana passada, o vice-presidente do Fed, Donald Kohn, sugeriu o oposto. Se os EUA parecem estar entrando num ambiente parecido com o do Japão, de baixas taxas de juros, crescimento estagnado e queda dos preços ao consumidor, a melhor estratégia é agir rápido para evitá-lo, disse Kohn. “Se virmos essa possibilidade, devemos ser muito agressivos com nossa política monetária, o mais agressivos que podemos.”
Kohn disse acreditar que as chances de uma deflação como a japonesa ainda são pequenas nos EUA. Mas o maior risco de que isso aconteça sugere que o Fed pode rapidamente baixar a taxa dos fundos federais para zero. A Macroeconomic Advisers prevê um corte de meio ponto porcentual em dezembro e outro em janeiro, o que levaria a taxa a zero pouco depois que Obama tomar posse.
Novas linhas: Embora haja limites para até onde os juros de curto prazo podem baixar, o Fed mostrou recentemente que há poucas restrições a quanto seu próprio balanço patrimonial pode crescer. Desde o fim de agosto, o valor dos ativos do Fed cresceu de pouco menos de US$ 900 bilhões para mais de US$ 2 trilhões.
O Fed essencialmente criou dinheiro e o usou para financiar uma série de novas linhas de crédito, entre os quais um programa para comprar “commercial papers” do setor privado, outro para empréstimos de emergência para a seguradora American International Group Inc. e outro que injeta dólares em instituições financeiras fora dos EUA por meio de outros bancos centrais.
Essa atividade é às vezes chamada de afrouxamento monetário quantitativo. Em vez de se concentrar no custo do dinheiro no sistema financeiro – que é a taxa de juro -, as autoridades se focam na quantidade de dinheiro no sistema. Hoje, o Fed e o Departamento do Tesouro estão avaliando um programa no qual juntariam empréstimos do Fed com recursos do programa de socorro de US$ 700 bilhões do Tesouro para adquirir títulos de instituições financeiras em dificuldades, uma idéia apoiada pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson.
Mexer no longo prazo: Além de estabelecer uma meta para a já baixa taxa de juro de curto prazo, o Fed poderia tentar baixar os juros de longo prazo, o que poderia derrubar os custos de vários tipos de financiamento, das hipotecas de 30 anos a empréstimos para a compra de carros e debêntures de empresas. “São as taxas de prazos mais longos que importam para a atividade econômica”, diz Vincent Reinhart, outro ex-diretor do Fed que trabalhou com Bernanke no tema.
O Fed pode conseguir isso com a compra de dívida de longo prazo, inclusive obrigações do Tesouro ou papéis emitidos pela Fannie Mae e pela Freddie Mac. Essas compras poderiam fazer a cotação dos títulos subir, reduzindo assim seus rendimentos.
Comunicar: O Fed poderia procurar influenciar as taxas de longo prazo ao se comprometer a manter os juros de curto prazo baixos por um período longo. Isso poderia forçar os investidores a esperar taxas mais baixas para os papéis de prazo mais longo também. O Fed tomou essa medida em 2003, quando se comprometeu a manter baixas as taxas dos fundos federais por “um período considerável”.
Foi uma medida polêmica – que possivelmente teve um papel na criação do período de especulação hipotecária que se seguiu. Com a economia tão fraca agora, contudo, o Fed pode precisar usar de novo a medida. Uma maneira de evitar uma repetição do último episódio seria impor condições a esse comprometimento, como uma promessa mais explícita de voltar a elevar as taxas assim que os mercados se estabilizarem.
Em tempos normais, quaisquer dessas medidas poderiam ser altamente inflacionárias, e assim virar um tiro pela culatra. Mas estes não são tempos normais.
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Mesmo os mais pessimistas dos analistas estrangeiros concordam com a frase acima, pronunciada por Michael Spence, prêmio Nobel de economia. Apesar da crise brava, o Brasil está na boa direção. Incluso os que torcem para isto não ser assim, o fazem em voz baixa. LF
Crise pode durar até uma década
Em evento no Brasil, dois Prêmios Nobel de Economia manifestam pessimismo sobre a recuperação mundial
Fernando Dantas e Daniele Carvalho, RIO – O Estado SP
Dois prêmios Nobel de Economia, Daniel McFaden e Michael Spence, manifestaram ontem pessimismo sobre a capacidade de recuperação da economia americana e global, indicando que as conseqüências da atual crise podem perdurar por uma década. Os economistas participaram do primeiro dia do congresso da sessão latino-americana da Sociedade Econométrica Internacional e da Associação Econômica Latino-americana e Caribenha, no Instituto de Matemática, no Rio. O encontro é organizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Para McFaden, os EUA podem, na pior das hipóteses, crescer regularmente abaixo da média histórica por até dez anos, com níveis altos de desemprego. Ele notou que não há sinais de que possam voltar a funcionar tão cedo os motores do crescimento, o investimento e o consumo.
Já Spence acha possível que EUA e Europa encarem de dois a três anos de recessão. Ele disse que o processo de desalavancagem (redução de dívidas) é demorado. Em relação ao mundo emergente, afirmou que a desaceleração são favas contadas, mas ainda há dúvidas se haverá recessão. Frisou que, para um país de rápido crescimento, como a Índia, cair de um ritmo de 9% para 4% dará a sensação de recessão.
McFaden demonstrou mais otimismo em relação aos países em desenvolvimento, especialmente os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Para ele, essas nações vão liderar a retomada da economia global. “Os países em desenvolvimento têm apresentado taxa de expansão maior que o resto do mundo e podem continuar apresentando crescimento mesmo durante a fase de recessão internacional”, disse.
Apesar do pessimismo, Spence e McFaden têm esperança de que as medidas de estímulo monetário e fiscal dos EUA e outros países ricos dêem certo e abreviem o período negro da economia global. Para McFaden, o governo americano deve intervir “maciça e decisivamente”, capitalizando instituições financeiras, facilitando o crédito e baixando impostos. Spence defendeu que o governo dos EUA conceda hipotecas subsidiadas diretamente para os mutuários em dificuldades. Eles poderiam trocar os contratos que não conseguem honrar pelas novas hipotecas com condições facilitadas.
Spence mostrou-se preocupado com o que chama de deflação global de ativos (queda de valor de ações, imóveis, títulos). Para ele, o processo, especialmente nos países emergentes, não guarda relação com os fundamentos da economia, mas é causado pela necessidade de repatriação de capital para países ricos recompor balanços em frangalhos de bancos e empresas.
Ele acha fundamental que os fluxos de capitais sejam revertidos, por medidas como o swap de dólares que o Federal Reserve (Fed) concedeu para quatro países emergentes, incluindo o Brasil; a linha especial de liquidez criada pelo FMI; e, a médio prazo, pela possibilidade de países com grandes reservas internacionais financiarem em dólares os emergentes com carência da moeda americana.
Em relação ao Brasil, ambos mostraram moderado otimismo. Para Spence, “o Brasil vem sendo muito bem administrado, tem reservas e uma economia forte”. Já McFaden disse que o País precisa ficar atento às conseqüências que a crise trará ao preço das commodities. Uma das alternativas seria promover investimentos na área de infra-estrutura e em aumento de produtividade.
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Jonathan Weisman , The Wall Street Journal – VALOR
Intervenção, nos moldes dos anos 70, irá favorecer alguns produtos e serviços, e afastará outros dos consumidores
O presidente eleito dos EUA, Barack Obama, promete intervir na economia – da indústria automobilística ao setor de energia e bancos – usando modelos que o governo americano não experimenta desde os anos 70. Alguns produtos, serviços e indústrias serão favorecidos, enquanto outros serão colocados fora do alcance dos consumidores.
Sob nova política financeira, os bancos que receberem ajuda do governo serão forçados a dar empréstimos e a interromper execuções judiciais de hipotecas. As fabricantes de automóveis serão estimuladas a mudar as linhas de produção para veículos mais avançados e econômicos. Bilhões de dólares do governo poderão promover a geração de energia solar, eólica e de biomassa, enquanto a indústria suja do carvão pode ser tributada a tal ponto que teria de fechar as portas.
Em um vídeo para um encontro sobre mudanças climáticas, Obama prometeu seguir políticas de energia que reduzam as emissões de carbono em 2020 aos mesmos níveis de 1990, além de um corte adicional de 80% até 2050. O chefe de gabinete do futuro governo, Rahm Emanuel, disse a um grupo de executivos que a crise econômica é “uma oportunidade para fazer coisas que não poderiam ter sido feitas antes”.
De automóveis a energia e bancos, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, promete intervir na economia usando modelos que o governo americano não experimenta desde os anos 70. Alguns produtos, serviços e setores serão favorecidos, enquanto outros serão empurrados para fora do alcance dos consumidores.
Sob sua política financeira, os bancos que buscarem assistência do governo serão forçados a dar empréstimos e desistir da execução judicial de hipotecas. As fabricantes de automóveis seriam estimuladas a mudar as linhas de produção para veículos mais avançados e econômicos. Bilhões de dólares do governo poderão promover a geração de energia solar, eólica e de biomassa, enquanto a indústria suja do carvão pode ser tributada a tal ponto que acabaria tendo de fechar as portas.
Obama, num vídeo para um encontro sobre mudança climática terça-feira, prometeu seguir políticas de energia que reduzam as emissões de carbono em 2020 aos mesmos níveis de 1990, além de um corte adicional de 80% até 2050. O chefe de Gabinete de Obama, Rahm Emanuel, disse a um grupo de executivos durante um encontro promovido pelo Wall Street Journal, na terça-feira, que a crise econômica enfrentada pelos Estados Unidos é “uma oportunidade para fazer coisas que não poderiam ter sido feitas antes”.
“Ninguém quer que uma crise séria não sirva para nada”, disse Emanuel.
Os assessores de Obama dizem que tempos difíceis exigem medidas extraordinárias.
“Estamos no meio de uma reorganização maciça na indústria automobilística e também em outras áreas – finanças, informática. Tudo isso converge para (…)a nova economia de energia verde em que estamos vivendo, ainda em estágio embrionário”, disse o ex-deputado David Bonior, assessor econômico da equipe de transição de Obama e proponente da política industrial nos anos 80. Perguntado se isso seria uma política industial, respondeu: “A resposta é sim”.
Críticos e defensores vêem a reemergência da política de intervenção econômica, que entrou em voga quando o Japão, a Coréia do Sul e a Alemanha a adotaram, trinta anos atrás, e ficou desacreditada depois que alguns dos praticantes mais importantes afundaram em paralisia econômica. Em meio à crise no coração do capitalismo de mercado, a intervenção do governo pode voltar às graças.
Obama não é, de jeito nenhum, um ativista à maneira japonesa, disse Douglas Holtz-Eakin, um conselheiro econômico de John McCain, candidato republicano à presidência que concorreu contra Obama. Mas, como um todo, políticas concebidas para resolver problemas distintos nos setores automotivo, de energia e de bancos estão se fundindo numa política mais ampla que selecionaria vencedores e perdedores, preservaria setores inteiros e formataria as escolhas do consumidor.
“Estamos rumando para uma política industrial de caráter de emergência para corrigir enormes falhas do mercado”, disse Jared Bernstein, um economista do Instituto de Política Econômica, de tendência liberal, que trabalhou com a equipe econômica do presidente eleito.
A ajuda de US$ 700 bilhões do governo Bush ao setor financeiro pode ser encarada como uma intervenção do Estado para preservar a predominância dos EUA no setor financeiro, disse Bernstein. E, nascido de uma administração republicana conservadora, a ajuda a Wall Street abriu as portas para outras intervenções econômicas.
A novidade vai ser a natureza confiante das próximas intervenções, depois de décadas de rejeição, disse Fred Block, sociólogo da Universidade da Califórnia em Davis que estuda parcerias público-privadas. Obama tem dito que a assistência futura ao setor bancário será vinculada à suspensão por 90 dias da execução judicial de hipotecas. Os assessores estão tentando ampliar as exigências para garantir que o dinheiro do contribuinte que for dado aos bancos seja usado no crédito e não para recapitalizar as instituições.
Obama prometeu uma linha de crédito às montadoras americanas, mas disse que quem receber o dinheiro vai ter que mudar as linhas de produção para carros que consumam menos combustível. Alguns assessores sugerem que um representante do governo seja indicado membro do conselho dessas empresas, para garantir que a transformação do produto de fato aconteça.
No domingo passado, em entrevista a um programa de TV da rede CBS, Obama enfatizou que vai cumprir sua agenda de energia, a despeito da queda do preço do petróleo. Terça-feira, ele disse num encontro de governadores que estava falando sério a respeito de limitar as emissões de gases do efeito estufa e então permitir às empresas negociar licenças para emitir poluentes como gás carbônico. Algumas políticas prevêem o uso de US$ 15 bilhões ao ano para fontes alternativas de energia e energia nuclear, e, ao mesmo tempo, o aumento substancial do preço do carvão ao obrigar as termelétricas a comprar o direito de queimar carvão.
Não se falou a respeito do impacto negativo que essa política pode ter sobre as indústrias fora das prioridades. Nos últimos dias da campanha presidential, adversários políticos de Obama exibiram um videotape em que ele deixava claro esse efeito colateral, e o fizeram circular em abundância nos Estados onde a mineração de carvão é mais forte. Nesse vídeo, o então candidato democrata diz que, sob suas políticas, “se alguém quiser construir um usina a carvão, vai poder – só que isso o levará à falência, porque vai ter de pagar uma quantia enorme por toda a emissão de gases do efeito estufa”.
Até alguns aliados de Obama estão desconfortáveis com o plano de resgate dos democratas para as montadoras. Os economistas do Partido Democrata dizem que colocar representantes do governo no conselho das montadoras pode dar a ilusão de autoridade sem que na verdade haja poder real de voto para afetar as decisões das empresas.
Alguns dos argumentos para o resgate do setor automotivo, como o de que os EUA precisam manter o setor automobilístico por uma questão de prestígio ou de segurança nacional, soa tanto a inimigos quanto a aliados como intervenção do governo para preservar o status quo.
“A razão de a economia dos EUA ter dado tão certo por tanto tempo não foi porque fizemos tudo tão bem. Foi porque deixamos que as pessoas falhassem”, disse Holtz-Eakin. “Isso é perigoso a um nível profundo.”
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Clifford Krauss * – O Estado SP
Depois que o mercado acionário começou a cair, amigos têm procurado Barbara Goldsmith para falar sobre sua depressão, perda de apetite e insônia. “As pessoas estão sofrendo”, disse Goldsmith, uma terapeuta semi-aposentada que aconselha colegas residentes no Gleneagles Country Club, um condomínio fechado daqui. “Houve uma morte. O dinheiro deles morreu.” Em comunidades como Gleneagles e nas casas de aposentados, estes são dias de medo e incerteza.
Em teoria, os aposentados não deveriam investir muito no mercado acionário; na realidade, muitos milhões o fazem. Com a economia em queda livre e as ações registrando perdas de 40% neste ano, legiões de pessoas das classes média e média alta estão subitamente preocupadas sobre se terão o suficiente para continuar vivendo.
Evidentemente, não estão se formando filas para o pão em lugares como Gleneagles. Os aposentados jogam golfe, tênis e cartas. Mas sustentar essa vida confortável por mais duas ou três décadas, como muitos aposentados esperam fazer, requer dinheiro. Pessoas com investimentos que valiam US$ 1 milhão ou US$ 2 milhões, alguns meses atrás, estão subitamente cancelando cruzeiros, recortando cupons de supermercados, comendo em casa e não em restaurantes e reduzindo contribuições para a formação universitária dos netos.
Como os aposentados de toda parte, os moradores daqui jogaram deliberadamente com o que viam com riscos competitivos. Eles todos ouviram o conselho padrão para retirarem seus ativos de ações para investimentos mais seguros quando se aproximavam da aposentadoria. Mas, com as taxas de juros muito baixas, os retornos sobre investimentos seguros como os títulos do governo eram magros, e muitos deles viam um risco em não manter algum dinheiro em ações. Para financiar uma longa aposentadoria, eles acharam que precisariam dos ganhos do mercado acionário.
Manter o dinheiro em ações os deixou expostos ao risco de um derretimento do mercado que ocorre uma vez na vida. Agora, esse dia está próximo. “Cada monitor de TV da sala de jogos e do vestiário está sintonizado na CNBC para ficarmos apreensivos o dia todo”, disse Jerry Rivkin, de 75 anos, dono de loja de eletrodomésticos aposentado. “Nós ficamos jogando por moedas e centavos enquanto nos assistimos perdendo dezenas de milhares.”
Para enfrentar a situação, algumas pessoas estão vendendo suas casas no Norte, para garantirem sua permanência aqui. Um punhado de condôminos em Gleneagles teve sua hipoteca executada. Durante anos, consultores de aposentadoria disseram que os idosos deviam investir pouco em ações, colocando a maioria de seus ativos em bônus, certificados de depósito e outros investimentos conservadores. Mas mesmo alguns dos especialistas reconhecem que essa estratégia nem sempre funciona para pessoas aposentadas com boa saúde que podem viver até os 90 anos ou mais.
“Com as expectativas de vida do jeito que estão, e a medicina melhorando a cada ano”, disse Joseph La Scala, um consultor financeiro sênior da GunnAllen Financial, “alguém que esteja entrando na aposentadoria agora precisa ser um investidor de longo prazo, e isso significa que precisa haver mais alocação de investimentos em ativos de crescimento como ações.”
Segundo estatísticas do governo, um terço dos aposentados quase não tem exposição em ações. Mas estes são principalmente pessoas pobres ou de baixa classe média cuja renda depende da Previdência Social. Outras estão blindadas por benefícios de pensões, embora estes estejam encolhendo nos últimos anos, especialmente para aposentados mais jovens.
Especialistas em aposentadoria dizem que uma maioria das pessoas das classes média e média alta tem portfólios bem mais carregados de ações e correm mais risco do que o normalmente recomendado. Segundo estudo da Universidade de Michigan patrocinado pelo National Institute of Ageing, dos 40% mais ricos da população com 75 anos ou mais, mais da metade tinha pelo menos um terço de suas poupanças em ações.
“As pessoas idosas de classe média fizeram planos baseados num conjunto de suposições de como o mundo funciona, e o mundo endoidou”, disse Alicia H. Munnell, diretora do Centro de Pesquisas sobre Aposentadoria do Boston College. Essas suposições já incluíram as noções de que contas bancárias e bônus corporativos eram seguros, e as ações de primeira linha eram os melhores investimentos de longo prazo.
“Se ligar para minha mãe”, disse Jason J. Fichtner, vice-comissário em exercício do departamento de Previdência Social, “sua meta era US$ 1 milhão em ações para se aposentar. Ela teve isso por um fim de semana, e agora seu valor caiu para US$ 600 mil.”
Em Gleneagles, as pessoas ainda jogam cartas, golfe e tomam aulas de pintura. Mas a apreensão da comunidade é palpável e crescente. “Eu me sinto horrível”, disse Harry Pure, 80 anos, diretor de atletismo aposentado da Universidade de Filadélfia, que perdeu 25% de suas poupanças. Num intervalo de sua aula de pintura, ele disse: “Era ótimo colocar a cabeça no travesseiro de noite e saber que estava seguro. Agora eu coloco a cabeça no travesseiro e as células cinzentas não conseguem dormir. Todos os diferentes cenários ficam ocupando minha mente agora: O que fazer?”.
“Isso ameaça nosso estilo de vida”, disse Sid Freedman, 74 anos, um antigo dono de uma empresa têxtil. Com mais de US$ 2 milhões em ativos, ele achava que ele e a esposa estavam preparados para uma aposentadoria longa e segura.
* Escreve para The New York Times, de Delray Beach, Flórida
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Crédito requer incentivo , diz Banco Mundial
Sergio Leo, VALOR
Grande número de países em desenvolvimento está entrando numa nova zona de turbulência provocada pela crise financeira mundial, e, para evitar conseqüências severas, a paralisação nos mercados de crédito tem de ser atacada rapidamente pelas principais economias do planeta, que se reúnem neste fim de semana em Washington, alertam analistas do Banco Mundial convocados para assessorar o grupo das maiores economias mundiais, o G-20. As condições de crédito tendem a piorar em 2009, e exigem resposta rápida, concordam técnicos do Fundo Monetário Internacional.
Deve ser revisto, para incluir hipóteses mais pessimistas, o cenário de arrocho no crédito traçado pelo relatório sobre estabilidade financeira global, divulgado pelo FMI em outubro. O relatório, já austero, previa que a oferta de crédito não teria nenhum crescimento, e que seriam necessários US$ 675 bilhões para financiamento nos próximos dois anos. A ação dos bancos centrais que injetaram dinheiro nos bancos privados é suficiente para suprir essas necessidades de crédito, avalia o Fundo; mas o problema é que o agravamento da crise deve provocar perdas muito maiores que as esperadas.
O risco do efeito bumerangue, com o reflexos, nos bancos dos países ricos, da crise sobre os emergentes, deve servir de alerta aos governos do G-20, acreditam os técnicos. Uma das principais preocupações dos economistas dos bancos multilaterais é a rapidez com que a crise se espalhou para a Europa e países em desenvolvimento, e se deterioraram as condições de financiamento nos países emergentes, especialmente para o setor privado.
O ajuste nos sistemas financeiros dos países desenvolvidos deve reduzir a disponibilidade de crédito pelos próximos anos, o que torna ainda mais desafiador o cenário para os países emergentes necessitados de financiamento. É grande o número desses países, até hoje beneficiados por fluxos de investimentos diretos que vinham sendo estimulados pelo crescimento nas economias centrais.
Na estimativa do FMI, as necessidades de financiamento nesses países praticamente dobrarão entre este ano e o ano que vem, o que exigirá uma emissão recorde de títulos da dívida. O setor privado deve aumentar suas necessidades de quase US$ 250 bilhões para pouco mais de US$ 470 bilhões; o setor público, de quase US$ 100 bilhões para cerca de US$ 200 bilhões. Isso em uma situação de aumento nos custos dos papéis, e na qual, desde setembro nenhuma empresa de país emergente encontrou condições de emitir títulos no mercado externo, sequer para rolar dívidas existentes.
O “efeito bumerangue” identificado pelo FMI tem duas vias: por um lado a deterioração dos preços dos ativos mantidos por bancos estrangeiros nos mercados emergentes pode levar a fortes perdas nesses bancos, com grande exposição a créditos na Ásia, América Latina e Leste Europeu; por outro, a piora na situação dos bancos europeus pode levá-los a aumentar taxas de risco e reduzir a oferta de crédito, dificultando ainda mais a situação dos países em dificuldades.
Esses são só alguns dos problemas que terão de ser tratados pelos governantes reunidos em Washington, sob um clima de desânimo pela falta de um importante convidado, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama. O encontro já foi apelidado de Bretton Woods II, em comparação com a conferência de Bretton Woods, que criou instituições como o Banco Mundial e o FMI, para lidar com os desafios econômicos após a Segunda Guerra Mundial.
As chamadas instituições de Bretton Woods, habitualmente mais inclinadas a políticas de contenção de demanda em situações de crise, agora defendem que a política fiscal tenha um papel central no esforço para reduzir os riscos de deflação e sustentar o consumo e os investimentos. Cortes nas taxas de juros como os que vêm sendo anunciados pelos países ricos são importantes, mas apenas paliativos para a severa contração de crédito, que deve aumentar em 2009. Isso é especialmente verdadeiro nos EUA, onde já não há mais espaço para novos cortes na taxas de juros, na avaliação dos técnicos.
Os economistas do Fundo concordam com a ênfase de Obama para a necessidade de medidas destinadas a deter a queda no preço dos imóveis e inadimplência nas hipotecas nos EUA. Discordam porem da idéia de criar descontos nos impostos para isso; o mais eficiente, acreditam, será apoio financeiro direto ao setor imobiliário, transferências para governos estaduais para programas nos setor e aumento de gastos com obras públicas.
Na Europa, onde a política monetária ainda é vista como apertada pelo FMI e as pressões inflacionárias decrescem com a queda nos preços de commodities, novos cortes nas taxas de juros podem ser recomendáveis, aliados a medidas coordenadas de expansão dos gastos públicos.
A recuperação dos mercados desenvolvidos é fundamental para lidar com fatores responsáveis pela contaminação da crise nos países emergentes. Além das necessidades de financiamento das dívidas, um grande número de países emergentes registra crescimento em seus déficits de contas correntes, o balanço das transações comerciais, de serviços e de transferências dessas nações com o exterior. Um dos sérios problemas é a queda nas remessas feitas por imigrantes aos países de origem, segundo nota o banco Mundial: em 28 países, essas remessas, que devem chegar a US$ 295 milhões neste ano, são maiores que as receitas de exportação da commodity mais relevantes; em 36 nações são maiores que a entrada de capitais privados ou do setor público. Devem cair rapidamente em 2009, de, em média, 2% do PIB para 1,7% do PIB dos países de destino do dinheiro.
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Justin Lahart e Kelly Evans, The Wall Street Journal – VALOR
Em meio ao tumulto financeiro mundial, economistas estão se debatendo para estimar por quanto tempo a economia ficará fraca. Medidas habituais, como o produto interno bruto e dados trabalhistas, dão idéia do que tem ocorrido, mas não dizem muito sobre o que ainda está para acontecer. Economistas estão usando outras medidas menos óbvias para ter indicações de quando a economia vai sair do buraco.
Nos Estados Unidos, os bancos estão reduzindo empréstimos, os consumidores gastando menos, as empresas cortando empregos por causa do naufrágio dos lucros e a crise no mercado imobiliário, que provocou a desaceleração, persiste. Aqui, uma visão das cinco áreas que os economistas estão observando e os indicadores que estão acompanhando.
Bancos
O plano do governo americano de injetar US$ 250 bilhões nas instituições financeiras, assim como a garantia que ele deu aos empréstimos interbancários, diminuíram parte do estresse que dilacerava os mercados de crédito no início deste trimestre.
Num sinal de que os bancos estão menos desconfiados de emprestar dinheiro uns aos outros, a Libor, a taxa do interbancário de Londres, referência para muitos empréstimos em dólar, caiu bastante nas duas últimas semanas. Contudo, ela ainda está mais alta do que o habitual em relação à taxa do Federal Reserve, o banco central americano.
As taxas interbancárias são uma condição importante para a recuperação dos mercados de crédito, mas elas não vão causar uma retomada automática dos empréstimos. “Não importa se um banco vai emprestar para outro banco”, diz o economista paul Kasriel, do Northern Trust. “Interessa se o banco vai emprestar” para o homem comum.
Os bancos estão cautelosos para conceder crédito, em parte porque foram atingidos fortemente pela queda do mercado imobiliário e pela bagunça do mercado financeiro, mas também porque é mais arriscado emprestar num período de desaceleração. Na pesquisa trimestral do Fed em julho com diretores de crédito, uma grande porcentagem dos bancos relatou que está aumentando as exigências para conceder empréstimos. Um primeiro sinal de que a economia está a caminho da recuperação, segundo Kasriel, será quando mais bancos as estiverem diminuindo e não aumentando.
Residências
O mercado imobiliário terá um papel importante na flexibilização dos empréstimos. Enquanto o preço dos imóveis residenciais continuar caindo, mais mutuários vão se ver devendo mais em suas hipotecas do que suas casas valem. Isso abre caminho para que haja mais inadimplência e que os credores continuem cautelosos. No segundo trimestre, o índice de preços de imóveis residenciais da S&P ficou 18% abaixo de seu ponto mais alto, em 2006.
Para saber quanto os imóveis ainda vão cair, diz o economista Jan Hatzius, da Goldman Sachs, a chave é a velocidade de absorção do excesso de oferta de imóveis.
No início de 2005, 1,8% dos imóveis residenciais americanos, excluídos os destinados a locação, estavam vazios e esperando ser vendidos. Ontem, o Censo informou que o índice de vacância no terceiro trimestre de 2008 foi de 2,8% – igual ao do segundo trimestre e quase o mesmo do primeiro, que foi de 2,9%. Com tantos imóveis no mercado, os proprietários têm baixado os preços para atrair compradores.
“Se você vir o excesso de oferta diminuir, é elementar que os preços vão acabar se estabilizando”, diz Hatzius.
Consumidores
A preocupação com a economia tem feito os consumidores fechar a carteira. O consumo move mais de dois terços da economia dos EUA e não diminuía trimestralmente desde o fim de 1991. Aquele espasmo de quase 20 anos de crescimento no consumo acabou no período entre julho e setembro, avaliam os economistas, arrastando com ele o crescimento econômico.
Um sinal de atitude positiva dos consumidores será a intenção que eles tenham de comprar coisas caras, como carros, móveis, eletrodomésticos e eletrônicos – categorias que foram atingidas duramente nos últimos meses porque aumentaram os requisitos para financiamento e o consumidor se afastou de grandes compras.
Empregos
Os americanos provavelmente não estarão a fim de tais compromissos até vislumbrarem melhora no mercado de trabalho. Os números sobre folhas de pagamento e índice de desemprego são indicadores que mostram mudanças no setor de empregos muito depois dos fatos.
Muitos economistas monitoram mais de perto o relatório semanal do Departamento de Trabalho sobre pedidos iniciais de auxílio-desemprego, que calcula o número de pessoas que se inscrevem para receber o benefício pela primeira vez. Por experiência, quando os pedidos ficam acima de 400.000, a economia está entrando em recessão. Isso começou a acontecer em julho. O número mais recente foi 478.000.
Bolsas
As empresas têm o papel principal no panorama de empregos: se elas estão preocupadas com prejuízos, é mais provável que cortem força de trabalho do que contratem. Apesar de todas as suas imperfeições, o mercado acionário é um dos melhores indicadores da saúde das empresas. Milhões de investidores se dedicam a calcular onde vão ter lucro e a opinião deles se reflete nas cotações da bolsa.
Mas, numa época em que a saúde das empresas depende altamente do clima econômico global, observar a Média Industrial Dow Jones pode não dar a melhor idéia. Em vez disso, o estrategista Richard Bernstein, da Merrill Lynch, segue o Índice Composto de Ações da Coréia, mais conhecido como Kospi. As empresas sul-coreanas são exportadoras por excelência, o que as deixa muito sensíveis ao crescimento mundial. O Kospi registrou seu ponto mais alto no ano passado. Ontem, ele estava 52% abaixo daquele nível.
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Assis Moreira, de Genebra – VALOR
Secretário-geral da OCDE, o mexicano José Ángel Gurría
acha que o tamanho e a duração da dramática crise financeira global
continuam incertos – foto AP

O secretário-geral da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), José Ángel Gurría, estima que o tamanho e a duração da dramática crise financeira global continuam incertos. Certeza mesmo ele tem de uma coisa: de que medidas governamentais são essenciais para evitar que a crise se prolongue. Ele vê as perspectivas econômicas especialmente sombrias no curto prazo. Economistas da OCDE projetam volta de crescimento global acima de 3% só em 2010.
Para o secretário-geral dessa espécie de clube dos países mais industrializados, se a crise persistir, a América Latina se tornará especialmente vulnerável, incluindo o Brasil, especialmente pelo lado das exportações.
Em entrevista ao Valor, Gurría faz um diagnóstico severo da crise financeira e recomenda aos atores do mercado voltarem a estudar finanças e gestão de riscos, e sugere criação de mecanismos para que ela não possa se repetir.
Ex-ministro de Finanças do México e secretário-geral da OCDE desde junho de 2006, Ángel Gurría lançará hoje o relatório Latin America Outlook 2009, numa cerimônia em El Salvador. O estudo enfatiza o papel de política fiscal também como uma ferramenta para o desenvolvimento da América Latina. Mostra que a desigualdade de rendimentos brutos não difere muito entre os países europeus da OCDE e os países da América Latina. Mas os impostos e transferências são eficientes na redução das desigualdades apenas nos países europeus da OCDE. Ou seja, o que é importante é o uso dos impostos.
Leia a seguir os principais trechos de sua entrevista:
Valor: Como a OCDE avalia essa crise? O sr. viu em certo momento o colapso da economia mundial?
Angel Gurría: Essa crise financeira que está varrendo os mercados mundiais é sem dúvida a pior desde a Grande Depressão. Ao mesmo tempo em que tem impacto direto sobre a economia real, estão sendo aprendidas duras lições. O tamanho e a duração da crise continuam incertos, mas o custo é imenso, em perdas com subprimes, desvalorização de ações, pacotes de socorro e outros. Vimos antes ciclos de prosperidade e de quedas, mas agora estamos vivendo circunstâncias excepcionais. Desta vez, o sistema financeiro, motor que irriga o funcionamento da economia, foi bloqueado. A crise colocou sérias dúvidas na cabeça das pessoas sobre a confiabilidade dos bancos e dos serviços financeiros, e sobre a própria credibilidade do sistema de mercado.
Valor: Para a OCDE, qual o impacto da crise na economia real?
Gurría: As perspectivas no curto prazo são sombrias, pretas, achamos que haverá uma acumulação de desacelerações econômicas. Nossas projeções apontam para uma estagnação na atividade até o final deste ano, com crescimento negativo em alguns casos. Nos EUA, o desemprego cresce rapidamente, as pessoas cortam o consumo. Na zona euro, também as projeções são de declínio, com queda forte nas autorizações para construção, e aperto do crédito afetando os investimentos. No Japão, o consumo fraco – aliado à falta de confiança – também é inquietante. As economias emergentes também deverão sofrer desaceleração econômica, ainda mais com a redução da demanda no comércio internacional.
Valor: O que os governos precisam fazer mais para restaurar uma certa confiança?
Gurría: Há uma ampla concordância de que os mercados precisam de monitoramento e regulação efetivas, e de governança corporativa mais forte. É verdade que pode ter havido ignorância sobre o montante das dívidas nos balanços e da exposição dos bancos, mas claramente a estrutura regulatória foi incapaz de tratar de questões como securitização baseada em hipotecas, derivativos, CDS (credit-default swaps). Agora, precisamos assegurar que os pacotes de socorro funcionem, que o crédito seja retomado e os sistemas de pagamentos sejam garantidos. Para isso, os mercados precisam recobrar um mínimo de normalidade, evitando-se excessiva volatilidade.
De maneira geral, uma cultura mais holística de gestão de riscos, questões de compensação e responsabilidade, gestão ética e responsável devem ser criados, baseados em melhores estruturas regulatórias e implementação mais forte de padrões que já existem, como os Princípios da OCDE de Governança Corporativa. Também é preciso melhorar a educação financeira e a consciência de risco entre os usuários do mercado financeiro. Outras medidas devem ser reforçadas, não apenas em relação aos bancos, mas no setor imobiliário, por exemplo, de forma que famílias de baixa renda não sejam expostos injustamente a riscos hipotecários.
Valor: Qual será o custo dessa crise para as populações?
Gurría: O que realmente conta é o bem-estar das pessoas, suas casas, empregos e negócios. O objetivo mais importante para nossas ações é evitar uma longa desaceleração econômica global, é restaurar as condições para o crescimento e assegurar que a crise não possa se repetir. Ainda não está clara em qual extensão a intervenção governamental afetará orçamentos deficitários e a demanda agregada, mas está claro que será necessária uma gestão fiscal séria, que mais gastos de um lado precisam ser compensados com economias em outro lugar para não se cair na armadilha de riscos descontrolados. Também continua incerto o grau pelo qual uma inflação menor permitirá uma política monetária mais acomodativa.
Medidas governamentais são essenciais para restaurar o crescimento econômico. Devemos examinar o que nos permitirá uma nova era de maior produtividade e crescimento. E, fazendo isso, é preciso tratar também de questões como concorrência, educação e reformas. Medidas sociais precisarão ser reforçadas para atacar a alta prevista de desemprego. E não devemos negligenciar outros desafios, como mudança climática.
Valor: Como a OCDE vê as perspectivas e desafios para o Brasil?
Gurría: O desempenho econömico recente do Brasil tem sido forte. O principal fator do crescimento nos últimos anos foi a demanda doméstica. Investimentos têm sido elevados, o que é bom para aumentar o potencial de crescimento de longo prazo. O desemprego tem sido baixo.
Mas a economia brasileira não está imune da situação global. Tem o aperto considerável nas condições de crédito externos, afetando liquidez nos mercados domésticos. O real desvalorizou fortemente desde meados de setembro devido a diminuição rápida do apetite por risco. Isso apesar do fato de os bancos brasileiros estarem em geral bem capitalizados e com pouca dependência de financiamento externo.
O efeito sobre o comércio é importante, mas é menor que o efeito do canal financeiro por dois motivos: o Brasil é uma economia bastante fechada, apesar da abertura dos últimos tempos, e de outro lado tem avançado com êxito na diversificação geográfica de suas exportações. Apesar disso, uma queda generalizada dos termos de intercâmbio prejudicaria vários setores.
A demanda por exportações brasileiras pode enfraquecer. A queda nos preços de commodities pode ajudar a aliviar pressões inflacionárias, mas podem também um impacto negativo no valor das exportações.
Valor: Até que ponto a OCDE vê a América Latina afetada?
Gurría: Como se pode ver na história econômica, quando os Estados Unidos espirram, a América Latina pega uma gripe. O crescimento na região é altamente correlacionado com os influxos de capital privado e, portanto, com as condições financeiras externas. Os títulos emitidos por países da região tendem a flutuar junto aos títulos de “alto rendimento” dos Estados Unidos, títulos de empresas americanas de maior risco que o governo e que algumas empresas gigantes. Quando essas firmas dos EUA sofrem falta de crédito, o mesmo acontece para a América Latina.
Tradicionalmente, as recessões nos EUA impactam fortemente a América Latina, mais quando os EUA desaceleram só um pouco, e sem entrar em recessão, a América Latina pode não sentir efeito negativo nenhum.
Hoje a crise é financeira, e os governos da região devem estar preocupados. Mas a região tem vários suportes recentes que puseram a maioria dos países, incluindo o Brasil, sobre um fundamento melhor para suportar a crise.
A forte reestruturação da dívida pública e da dívida externa faz possível que o governo e a indústria possam suportar a seca de crédito e a possível perda no preço das importações. Mas este suporte tem limite, e só será possível se a crise não se estender por muito tempo.
Há portanto fatores a favor: maior credibilidade dos bancos centrais para conter pressões inflacionárias, taxa de câmbio flexíveis, reservas estrangeiras (só como sinal de responsabilidade fiscal), diversificação do destino das exportações.
Mas a região é ainda vulnerável, em especial se a crise continuar por longo tempo, porque a dívida é ainda elevada na região, os preços relativos das importações/exportações poderiam se deteriorar, e nem todos os setores tem a liquidez do setor exportador. E a saúde do setor bancário continua sendo mais importante para o crédito doméstico que as subidas e quedas da bolsa.
Valor: O que os governos da América Latina deveriam evitar?
Gurría: Não devem cair na tentação do protecionismo. Num mundo mais globalizado, não tem lugar a volta das economias autárquicas. O jeito de se desenvolver e sabendo como navegar em águas tormentosas é não ficando em terra.
Valor: A OCDE lança hoje o Latin American Economic Outlook 2009. Quais as principais conclusões?
Gurría: Basicamente que a política fiscal é não apenas um instrumento macroeconômico, mas é também uma ferramenta para o desenvolvimento da América Latina. Uma boa política fiscal, bons gastos públicos e uma boa gestão da dívida podem melhorar o crescimento e ajudar a combater a pobreza e a desigualdade.
Um aspecto interessante é que a desigualdade de rendimentos brutos não difere muito entre os países europeus da OCDE e os países da América Latina. Mas os impostos e transferências são eficientes na redução das desigualdades apenas nos países europeus da OCDE. O que é importante é o uso dos impostos. Sobretudo as contribuições sociais são muito regressivas (na região). Existem também duas questões principais por resolver a respeito dos impostos: as receitas fiscais são baixas e a importância dos impostos indiretos nas receitas fiscais é elevada.
Valor: O sr espera para quando a entrada do Brasil na OCDE ?
Gurría: Os governos da OCDE decidiram em maio de 2007 reforçar a cooperação da entidade com o Brasil, China, Indonésia e África do Sul em vista de uma possível entrada. Isso é particularmente importante para a OCDE cumprir seu mandato de promover políticas convergentes e desenvolvimento econômico global. Ao mesmo tempo, não há uma data-alvo para a adesão do Brasil. Se e quando for aberta a discussão, será determinada com base na disposição, preparação e capacidade do Brasil e dos outros quatro países para adotar práticas, políticas e padrões da OCDE.
Quando esse momento chegar, o Brasil decidirá se estará interessado em lançar um processo de acessão. Há todos os sinais da importância que o Brasil dá ao desenvolvimento de seu engajamento com a OCDE.
Valor: O que é preciso para o país se tornar membro?
Gurría: O conselho (da organização) determina o procedimento a ser seguido e aciona os comitês especializados em áreas relevantes de política econômica para examinar as políticas e regulamentações do país para assegurar que este está pronto a assumir as responsabilidades como membro. O país candidato deve declarar sua posição em relação aos “instrumentos legais” da OCDE, que são as decisões, recomendações e declaracões adotadas. Ou seja, é preciso mostrar tanto a vontade como capacidade de adotar os principais princípios da organização e as obrigações legais e políticas que resultam disso.
Esses “instrumentos” são mais de 160 no total, agrupados por setores, e a posição do país em cada setor é examinado por um comitê. Os países podem fazer reservas sobre “instrumentos” ou parte deles, os quais são incapazes ou relutam aplicar. Essas reservas sao submetidas a um comitê que as discutem até que um consenso sobre sua aplicação seja obtido. Isso pode consumir um bom tempo.
A OCDE tem estado na vanguarda para desenvolvimento internacional de “regras do jogo” sobre movimento de capital, investimento externo e comércio em serviços. Nesse contexto, o Brasil assinou em 1997 a Declaracão e Decisões sobre Investimento Internacional e Empresas Multinacionais, um acordo politico entre os países para cooperação em questões de investimentos. Também se associou à Recomendação do Conselho Envolvendo Ações Efetivas contra Cartéis, Convenção de Combate ao Suborno.
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La crisis financiera ha acabado con los dogmas dominantes de los últimos 25 años
JOAQUÍN ESTEFANÍA – El País
Hay en economía un concepto más enérgico que el de recesión para explicar lo que está sucediendo: depresión. La depresión es más grave y duradera que la recesión, y se manifiesta en el frenazo en seco de la actividad, la debilidad de la demanda, la contracción del comercio internacional, el incremento del paro, la caída del poder adquisitivo, etcétera, todos ellos procesos muy dolorosos y contrarios al progreso. Pues bien, el profesor de Economía de la Universidad de Nueva York Nouriel Roubini, el gurú que se ha hecho famoso por haber anticipado la crisis financiera que se inició con el estallido de las hipotecas tóxicas, ya ha utilizado el concepto de depresión como síntoma de lo que ocurre en la economía a escala planetaria. Hace unos días escribía Roubini: “No podemos descartar un fracaso sistémico y una depresión global. (…) Se corre el riesgo de un desplome del mercado, una debacle financiera y una depresión mundial”. El economista plantea que más que una coyuntura en forma de V (caída y pronta recuperación) estamos en otra en forma de U (caída en la que la economía se mantiene un tiempo, para luego ascender), o quizá en forma de L (caída y letargo a largo plazo).
Un arranque ciertamente tenebroso sobre la coyuntura quizá pueda compensar el optimismo del titular de este que parece llevar implícito -y no es así, como se ha visto la semana pasada- la superación del desplome bursátil que, en otras ocasiones históricas, ha sido la antesala de una recesión o de una depresión. Crash y depresión se retroalimentan. Hay muchas similitudes -y bastantes diferencias- con la Gran Depresión de 1929. Es urgente desempolvar los viejos manuales de entonces y establecer las comparaciones. “Pensar el presente desde un punto de vista histórico” (Walter Benjamin).
En diciembre de 2006 caía el Ownit Mortgate Solutions, un pequeño banco hipotecario de California especializado en productos de alto riesgo. Es el antecedente más cercano del estallido de la burbuja inmobiliaria y de las hipotecas subprime, que devendría en la norma a partir de julio de 2007. Desde entonces hay muchas víctimas sin enterrar. Entre ellas, la economía real en forma de estrangulamiento del crédito (que es su sistema sanguíneo), desaparición de los bancos de inversión y nacionalización de otras entidades que formaban parte de la aristocracia financiera internacional, desprestigio de los organismos reguladores nacionales y de las agencias de calificación de riesgos, profundísima descapitalización bursátil de muchas empresas financieras y no financieras, parón de la actividad económica y de la inversión, contracción de la demanda, suspensiones de pagos, desempleo, etcétera. Y sobre todo, un escalofrío en muchos ciudadanos en forma de inseguridad: no sólo miedo al terrorismo y a otras formas de inquietud ciudadana, sino a la inseguridad económica y el temor al otro, al diferente, al que compite con el puesto de trabajo y carga de obligaciones al Estado de bienestar.
Otra víctima de la crisis es una forma de entender el mundo, un modo de pensar que se identifica ampliamente con la ideología neoliberal. La máxima acuñada por la revolución conservadora de Margaret Thatcher y Ronald Reagan, que ha durado un cuarto de siglo, de que el Estado es el problema y no la solución, ha saltado hecha trizas en cuanto se han acumulado las dificultades. La “destrucción creativa” de Schumpeter sólo se hizo realidad cuando las autoridades americanas dejaron hundirse al que era cuarto banco de negocios estadounidense, Lehman Brothers (y casi todos los analistas califican esta inacción como un grave error y el principio del pánico); las demás instituciones financieras con problemas han sobrevivido con una u otra fórmula de intervención pública, con paquetes de rescates a babor o a estribor, en forma de avales públicos, compras de activos o directamente de acciones. Lo explica resignado un economista español: “Hemos generado mucho riesgo moral para evitar el riesgo sistémico”. Ahora, la retórica del libre mercado se utiliza con más soltura, más selectivamente: se asume cuando sirve a intereses especiales y se descarta cuando no es así. Sin complejos, el presidente de la patronal española llegó a exigir “un paréntesis” a la economía de mercado.
Hace escasamente año y medio, todavía la economía mundial continuaba en la senda de crecimiento más larga y profunda de la historia contemporánea. La teoría de los ciclos económicos parecía extinguida y el planeta se instalaba en el denominado ciclo Kondratief, una onda larga de prosperidad debida -se decía- a la confluencia de las nuevas tecnologías de la información y la comunicación (TIC) con la flexibilidad empresarial y la innovación financiera. Los mantras más citados eran los de la desregulación y la autorregulación. Hasta tal punto que cuando se encienden las primeras luces rojas de las dificultades hay una generación de jóvenes ejecutivos, los que mandan en muchas empresas y en bastantes Gobiernos, que no tienen puntos de referencia para saber lo que es una crisis y qué tratamiento preventivo darle.
Es muy interesante seguir las mutaciones que ha sufrido la naturaleza de esta crisis en apenas 18 meses: primero se identificó con el estallido de la burbuja inmobiliaria y el abuso en la concesión de hipotecas de alto riesgo; a ello se le añadió un tsunami protagonizado por las materias primas alimentarias y los elevadísimos precios de la energía, de modo que entonces se habló de “tormenta perfecta” y se hizo una equivalencia con los primeros años setenta del anterior siglo, al aparecer la estanflación (alta inflación y crecimiento cero). Cuando se hicieron sentir los primeros efectos de la sequía crediticia en forma de reducción del crecimiento económico bajaron los precios de las materias primas; como consecuencia de ello, la inflación dejó de estar en primer plano, pero a las víctimas de la coyuntura se añadieron los países emergentes, principales productores de materias primas, y de los que se había dicho que en esta ocasión estarían exentos del efecto contagio. Conforme pasaban las semanas y dejaba de funcionar el mercado interbancario debido a la desconfianza que las entidades se tenían entre sí (¿cuál de ellas tenía en su interior la metástasis de los productos estructurados y colaterales sin valor alguno en el mercado?), la crisis hipotecaria devino en crisis financiera y los Gobiernos salieron al rescate en el entendido de que la desconfianza de los ciudadanos en las entidades de crédito es la antesala de una catástrofe en la economía real. Hubo un momento en que en algunas plazas y sucursales bancarias los clientes, después de hacer colas para sacar sus ahorros, intentaban transmutar sus depósitos en lingotes de oro, en la creencia de que este metal precioso era la inversión más segura.
Sólo cuando los ciudadanos, airados, comenzaron a preguntarse en alto por qué habían de rescatar a quienes habían sido víctimas de su codicia, es cuando se sofisticó un poco el discurso: la mayor inyección de dinero público utilizada en la historia para salvar a los bancos en dificultades era tan sólo una etapa intermedia para salvar a la economía real. Lo que es bueno para Wall Street es también bueno para la calle. Proteger a Wall Street es proteger a Main Street. Así lo ve el grupo de banqueros con chistera y puro que aparecen en la tira satírica del New Yorker. Uno de ellos grita indignado: “¡Maldita sea, para nosotros Wall Street es Main Street”.
Las ayudas oficiales a la banca (”Aportaremos todo lo que sea necesario”, ha declarado Berlusconi, el más desvergonzado de los políticos actuales) han servido hasta ahora para detener el pánico de los clientes y para que emerja un hilillo de liquidez en los mercados, que se ha concretado en una pequeña baja de los tipos de interés (Euríbor y Líbor). Pero sigue sin saberse si tanto dinero aportado por el Estado se trasladará del sistema financiero al conjunto de las empresas con inmediatez, para que la situación tienda a normalizarse, y a qué precio. Esto era así hasta anteayer. Pero resuelta al menos en parte la dificultad financiera más urgente, los mercados bursátiles han reaccionado extraordinariamente a la baja cuando en el frontispicio ha aparecido el problema de fondo: el colapso de la economía real. La mayor parte de los países de la Organización de Cooperación y Desarrollo Económico (OCDE) -los 30 países más ricos del mundo- han entrado en recesión o están a punto de hacerlo (dos trimestres seguidos de reducción de sus productos brutos), y sin visos de salida. Además, el contagio afecta a muchos países emergentes, que han tenido que gastar las reservas de divisas en defensa de sus monedas, mientras aumenta su riesgo país y ven bajar los precios de sus exportaciones. Se ha llegado a la madre de todas las crisis. Cada uno de los pronósticos que han ido elaborando las organizaciones multilaterales (OCDE, Fondo Monetario Internacional, etcétera) se han tirado a la papelera en el mismo momento en que se hacían públicas. La velocidad de la metástasis es tal que todas las explicaciones de la coyuntura se han quedado antiguas en tiempo real. Aun hace dos fines de semana, en su asamblea semestral, el FMI preveía un ligero crecimiento en 2009 para el conjunto de las economías avanzadas y del orden del 6% en las emergentes. Sin embargo, el pasado miércoles, el Foro Económico Mundial sentenciaba: “La crisis financiera afecta ya a la economía real en un nivel alto y el riesgo de una profunda y prolongada recesión crece”.
Con esta crisis multiforme y poliédrica ha desaparecido también una forma de hacer la política económica, que ha sido dominante en el último cuarto de siglo. Aquella que había formalizado el dogma de que los mercados son los que mejor saben qué hacer. Del mismo modo que hay ciclos en la coyuntura también hay ciclos ideológicos que conceden el énfasis a las distintas herramientas económicas. Y ha comenzado otro. En el año 1936, el que probablemente ha sido el economista más influyente del siglo XX (y lo vuelve a ser ahora), John Maynard Keynes, escribió en su obra magna Teoría general de la ocupación, el interés y el dinero: “Las ideas justas o falsas de los filósofos de la economía y de la política tienen más importancia de lo que en general se piensa. A decir verdad, ellas dirigen casi exclusivamente el mundo. Los hombres de acción que se creen plenamente eximidos de las influencias doctrinales son normalmente esclavos de algún economista del pasado”. Las ideas keynesianas, tan menospreciadas en el último cuarto de siglo, están siendo aplicadas ahora por quienes tratan de sacar a la economía de la camisa de fuerza de la revolución conservadora y de la desregulación permanente. No por casualidad, sino como un signo de los tiempos, la Academia Sueca ha concedido hace unos días el Nobel de Economía a quien es uno de los neokeynesianos más insignes: Paul Krugman.
El New Deal del presidente Franklin Delano Roosevelt, respuesta a la Gran Depresión de 1929, inauguró un ciclo progresista de intervención en la económía que duró casi medio siglo y que ha sido denominado la edad dorada del capitalismo: el mundo creció mucho y los países más avanzados construyeron su Estado de bienestar. El 31 de diciembre de 1933, 10 meses después del inicio del New Deal, Keynes escribe una carta abierta al presidente en The New York Times, en la que le aconseja actuaciones adicionales, entre las que sobresale “una atención predominante en el más alto grado al incremento de la capacidad de compra resultante de los gastos públicos, financiados mediante créditos”.
A finales de los años setenta y principios de los ochenta se inició la revolución conservadora, que tuvo sus principales ideólogos en Margaret Thatcher y Ronald Reagan, y su continuidad en los neocons que han gobernado en la Casa Blanca y en la Reserva Federal. Francis Fukuyama, el constructor del concepto del fin de la historia, ha matizado aquella forma de entender el mundo y recientemente ha hecho un balance de ese tiempo: la revolución conservadora perdió su rumbo porque se convirtió en una ideología irrebatible, y no en una respuesta pragmática a los excesos del Estado de bienestar. En ella había dos conceptos sacrosantos: que las reducciones de impuestos se autofinanciarían y que los mercados financieros podrían autorregularse. Pues bien, el balance es clarificador: Reagan y Bush dejan a EE UU con gigantescos déficit, la economía creció tanto con Clinton como con Reagan y con superávit público, y de las secuelas de la autorregulación del mercado financiero tenemos suficientes ejemplos catastróficos en los últimos meses.
La crisis traza una frontera, la del final (por ahora) de otra edad dorada: el crédito fácil, la liquidez extrema, los riesgos fuera del balance, los sueldos astronómicos de los grandes ejecutivos ligados a la creación de valor a corto plazo y no a la calidad de lo que se fabrica o con lo que se trabaja, los cambios legales para facilitar la especulación sin límites y las zonas de sombra (el capitalismo gris), una psicología mediante la cual los ahorradores se convirtieron en inversores y los inversores en activos apalancados, la autorregulación como pretexto para administrar sin límites, etcétera.
Cada ciclo ideológico en economía está provocado por una crisis. El New Deal llegó por la Gran Depresión; la revolución conservadora, como reacción a la estanflación; y el paradigma que parece instalarse a principios del siglo XXI, por la crisis iniciada con las hipotecas subprime llevada al paroxismo. Las matrices que lo componen son las de la intervención del Estado siempre que sea necesaria, la regulación financiera, quien contamina paga (en relación a los activos tóxicos) y la necesidad de dotar de gobernanza a la globalización realmente existente. Por ello se ha dado tanta significación a la construcción de un nuevo Bretton Woods, en analogía con la Conferencia Monetaria y Financiera de las Naciones Unidas, celebrada en New Hampshire del 1 al 22 de julio de 1944, al final de la II Guerra Mundial, y que ha constituido hasta ahora el intento más ambicioso por configurar un nuevo orden económico internacional. Entonces participaron 44 países. Hoy se trata, como se declara con ampulosidad, de “refundar el capitalismo”: cambiar todo para que nada cambie.
Se trata de evitar otra Gran Depresión e ir, por el contrario, a una Gran Transformación, como tituló su libro de referencia Karl Polanyi en 1943. En él demostraba, acudiendo a la historia y a los datos empíricos, que no existe nada parecido a una mano invisible que ordene a los mercados; éstos se regulan por la acción del Estado. Hay que actualizar la Gran Transformación a la era de la globalización en la que los Estados tan sólo son entes intermedios.
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Bairros operários e endereços glamourosos são arrastados pela inadimplência de hipotecas e até turismo é afetado
Lourival Sant’Anna – O Estado de São Paulo
Como na economia americana, os problemas na vida de Jesús Meléndez também começaram no setor imobiliário. Nos Estados Unidos há 30 anos, Meléndez era um caso muito raro: não tinha nenhuma dívida. “Meu pai me ensinou a só comprar alguma coisa quando tivesse o dinheiro”, explica o colombiano naturalizado americano, de 58 anos. Há seis anos, ele abandonou esse princípio, depois de ganhar US$ 20 mil na loteria.
Meléndez, que sempre morou de aluguel, deu entrada numa casa de dois quartos e dois banheiros no bairro operário de North Miami Beach. A casa valia US$ 130 mil. Ele financiou US$ 110 mil e começou a pagar parcelas mensais de US$ 880. Com seu táxi, e mais o trabalho de sua mulher numa confecção, dava para encaixar no orçamento doméstico.
Desde então, a cada ano, Meléndez passou a refinanciar sucessivamente sua casa, sacando dinheiro para reformá-la, mobiliá-la, comprar dois carros usados e, finalmente, cobrir as despesas crescentes de sua filha de 22 anos e dos filhos gêmeos de 16. No total, ele fez cinco empréstimos, sempre com base em reavaliações da casa, que somaram US$ 73 mil. “Todo mundo fazia isso”, justifica. Nesse processo, novos contratos foram assinados, o Banco Regions vendeu a dívida para a financeira Countrywide e os juros, que antes eram fixos, tornaram-se variáveis. As prestações saltaram para US$ 1.300.
Em abril deste ano, a confecção em que sua mulher trabalhava faliu e ela ficou desempregada. Meléndez recorreu à Countrywide, que lhe negou novo empréstimo, alegando que sua casa, que chegara a valer US$ 260 mil, tinha perdido mais de 30% do valor. Meléndez tentou renegociar a prestação, com base nessa queda de preço. Não aceitaram. Há cinco meses, ele não paga mais a hipoteca. A dívida está agora em US$ 196 mil.
A crise econômica reduziu drasticamente o turismo em Miami e seu táxi, que antes rendia US$ 800 líquidos por semana, agora rende a metade. “Com os problemas econômicos, começaram as brigas em casa”, conta ele. O casal se separou e sua mulher, que trabalha agora como faxineira, por falta de outro emprego, mudou-se com os filhos para um apartamento alugado por US$ 900. Meléndez vendeu dois dos três carros e deve US$ 6.800 de cartão de crédito. Sob orientação de uma advogada especialista na área, vai declarar falência.
Como Meléndez, 1,5 milhão de mutuários americanos não pagam suas prestações há pelo menos dois meses. Outros 5 milhões chegarão a essa situação conforme a crise se aprofundar, prevê o economista Mark Zandi, da Moody’’s Economy. E, até 2010, 19 milhões terão dívidas hipotecárias maiores que o valor de suas casas.
Em North Miami Beach, uma em cada três casas está vazia. Algumas foram invadidas por mendigos e viciados em drogas, agravando a desvalorização. A crise imobiliária é mais grave na Flórida e na Califórnia, onde os bancos e financeiras foram mais afoitos em reavaliar as casas e conceder refinanciamentos. Mas o cenário se repete em todo o país. A proporção de casas desocupadas é a mais alta desde 1956, quando o Census Bureau começou o levantamento.
Em Miami, endereços antes glamourosos, como Biscayne Boulevard, Collins Avenue e Lincoln Road têm também uma proporção de um a cada três pontos comerciais fechado. Dois hotéis faliram. Torres reluzentes de escritórios, hotéis e apartamentos recém-construídas por empreendedores famosos como Donald Trump esperam clientes, às moscas, mesmo depois de terem baixado seus preços em cerca de 30%. Na Brickell Avenue, no centro da cidade, apartamentos antes alugados por até US$ 4 mil agora tentam atrair inquilinos a US$ 1.200.
A crise repercute no restante da economia. A indústria automobilística, que emprega 200 mil pessoas nos Estados Unidos, sofre severa retração nas vendas. No último ano, as ações da General Motors caíram 80% e as da Ford, 75%, segundo The New York Times. As duas e mais a Chrysler estão sob risco de falência. O índice de desemprego no país subiu de 4,4%, no fim de 2007, para 6,1%, um patamar bastante elevado para o padrão americano. A expectativa é que siga subindo.
“Atravessei quatro recessões”, diz Paul Kanavos, de 51 anos, dono da construtora Flag Luxury, de Nova York, cujo pai atua no setor desde 1946. “Essa é a pior de todas. Nenhum banco nos EUA oferece financiamento hoje.” Kanavos tinha dois projetos em andamento – um balneário na ilha de Anguilla, no Caribe, que já está 70% construído, e um complexo de hotéis, cassino e lojas em Las Vegas, com o terreno comprado. Ambos somam US$ 700 milhões e são financiados pelo Credit Suisse. O banco se recusa a rolar os financiamentos, de três anos, que estão vencendo agora. “Estamos negociando.”
“Decidimos que, enquanto houver recessão, não entraremos em novos projetos imobiliários”, diz Lisa Rodriguez, do banco francês Société Générale em Nova York. “Acreditamos que vá durar dois anos.”
Em março, Donald Matheson, dono da incorporadora Almat Group, também de Nova York, apresentou aos investidores um projeto de prédios de apartamentos no Brooklin, no valor de US$ 14 milhões. O Banco Goldman Sachs manifestou interesse, desde que o empreendimento fosse ampliado, elevando o investimento para US$ 23 milhões. “Uma semana antes de fechar o negócio, o banco se retirou”, diz Matheson, que investiu mais de US$ 500 mil no projeto. “Não tenho como recuperar esse dinheiro.” Com seu sócio nigeriano Uche Alozie, Matheson está investindo US$ 35 milhões no projeto de um complexo hoteleiro em Lagos (Nigéria): “A África é muito mais palatável”, diz ele.
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