29/08/2012 - 17:00h Neto de Trotsky relembra assassinato de avô no México há 75 anos

Volkov, 86, descreve momento em que chegou à casa onde vivia com líder bolchevique no México e encontrou-o à beira da morte.

29 de agosto de 2012

BBC Brasil – Agência Estado

Há 75 anos, o intelectual e revolucionário bolchevique León Trotsky, expulso do Partido Comunista Soviético e forçado ao exílio, foi começar vida nova no México. Perseguido pelos assassinos de Josef Stálin, no entanto, Trotsky foi morto na Cidade do México.

Em depoimento ao programa Witness, do Serviço Mundial da BBC, o neto do revolucionário, Esteban Volkov, que estava com o avô quando ele morreu, relembrou as emoções sentidas naquele dia.

Para alguns, León Trotsky foi o verdadeiro herói da Revolução Bolchevique de 1917, que derrubou o czarismo russo e culminou com a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Para outros, Trotsky foi um dos homens mais perigosos de sua era.

Mas para Volker, o revolucionário soviético foi uma figura paterna, que deu ao neto momentos raros de estabilidade e alegria em um período de tumulto na vida familiar em meio a um ciclo de perseguições políticas.

“Eu estava constantemente trocando de figuras paternas e maternas”, contou Volker, hoje com 86 anos. Com o “velho” – a forma carinhosa como se refere ao avô – “eu finalmente encontrei algo estável, ainda que não tenha durado muito”.

Falando da casa na Cidade do México onde viveu por mais de um ano com Trotsky e sua segunda esposa, Natália, até o assassinato, Volkov lembrou da empolgação que sentiu ao chegar à América.

Ele tinha apenas 13 anos e havia passado a maior parte de sua infância se mudando de um país para o outro com a mãe, Zinalda – filha de Trotsky – procurando refúgio contra a perseguição de Stálin, com quem Trotsky disputou o poder após a morte de Vladimir Lênin.

“O México foi uma mudança absoluta, era cheio de cores, sol. Tão diferente da Europa”, disse. “Comecei a ir para a escola sozinho, a pé. Ninguém na escola sabia quem era a minha família.”

Vida em Família

A vida na casa grande e bem protegida por guardas no bairro arborizado de Coayacan era “cheia de diversão”.

Trotsky passava o dia escrevendo, sendo entrevistado por jornalistas ou discutindo política com militantes estrangeiros e guarda-costas que viviam com a família.

Durante as refeições, o jovem escutava atentamente as piadas e discussões acaloradas à mesa. Aos outros, no entanto, o avô dava ordens expressas de que não falassem de política na frente do menino.

“Sua famíla inteira havia sido assassinada, ou morrido por causa da política, e eu acho que ele queria que seu neto sobrevivesse.”

O pai de Volkov, genro de Trotsky, havia sido enviado a um gulag – nome dado aos campos de prisioneiros soviéticos -na década de 1930. Sua mãe, Zinalda, havia cometido suicídio quando eles viviam no exílio em Paris.

Volkov contou que todas as manhãs o avô se levantava cedo para cuidar de suas plantas e animais antes de se fechar no escritório.

“Eu o ajudava a alimentar os coelhos e galinhas, e a regar o milho.” Os dois conversavam em francês, porque o menino havia perdido a habilidade de falar russo, sua língua materna.

Eles também faziam, regularmente, passeios para fora da cidade, com a família e os amigos reunidos em vários carros. Uma vez no campo, o “velho” passava horas procurando cactos ou conversando com os camponeses mexicanos sobre suas vidas.

Para Volkov, esses foram dias de relativa normalidade e de uma vida familiar que ele não tinha conhecido anteriormente. Mas tudo isso viria a terminar repentinamente.

Às 4h da manhã do dia 24 de maio de 1940, o jovem acordou de sobressalto: atiradores enviados por Stálin haviam invadido a casa.

Volkov saltou da cama e se escondeu em um canto do quarto. Com balas ricocheteando pelo cômodo, Volkov foi ferido no pé. Os guardas de Trotsky reagiram e conseguiram espantar os atiradores, que fugiram.

Trotsky e Natália escaparam ilesos. “Se eu fiquei assustado? No começo sim, mas assim que ouvimos a voz do meu avô, cheio de vida, bem, é difícil de descrever nossa felicidade por havermos escapado dos homens de Stálin.”

Segunda Tentativa

Depois desse incidente, Trotsky raramente saía de casa e a segurança ficou ainda mais rigorosa, com mais guardas e mais armas. As viagens para o campo foram abandonadas.

“Logo me acostumei a viver naquelas condições”, diz o neto.

Mas a pergunta na cabeça de cada um era: De onde viria o próximo atentado à vida de Trotsky?

Os acontecimentos do dia 20 de agosto de 1940 ficaram gravados na memória de Esteban Volkov.

Foi nesse dia que Ramón Mercader, um agente stalinista de origem espanhola que havia se infiltrado na casa de Trotsky, feriu fatalmente o líder bolchevique ao atingir sua cabeça com um utensílio de quebrar gelo.

Falando lentamente, tomando cuidado para não omitir nenhum detalhe, Volker contou que ao retornar para casa, a pé, depois da aula, notou que a porta da casa estava aberta. Um carro da polícia estava estacionado do lado de fora.

Cheio de temor, correu para dentro. Os guardas estavam consternados.

Antes de ser afastado do local, viu o avô de relance, deitado no chão do escritório, sangrando muito. Natália estava ao seu lado.

“Não deixe o menino ver isso”, Trotsky teria dito a ela. Ele morreu no dia seguinte, no hospital.

O menino ficou tão perturbado que se recusou a ir ao enterro do avô. “A atmosfera na casa ficou muito, muito solitária depois daquilo”, ele disse.

Após a morte de Trotsky, Volkov continuou vivendo no México com Natália. Ele foi para a universidade, formou-se químico, casou-se e criou quatro filhas – algo que trouxe muito conforto para Natália, de luto pela perda do marido assassinado.

Ela morreu em janeiro de 1962. Volkov, hoje também viúvo, transformou a antiga casa da família em um museu.

Honrar a memória do avô, ele explicou, é o seu “dever”.

26/07/2012 - 17:00h Mitos e fatos de Eva ‘Evita’ Duarte de Perón (e um pouco de epígrafes e ego-cartografia)

Ariel Palacios – Os Hermanos – O Estado SP

Capa desta semana da revista satírica “Barcelona”, retratando Evita como a “Mulher Maravilha”. Na tiara, o escudo peronista.

Hoje completam-se 60 anos da “passagem à imortalidade de Eva Perón” (essa é a expressão usada, inclusive oficialmente, pelos peronistas para referir-se à morte de Evita). A denominada “Porta-estandarte dos humildes” morreu no dia 26 de julho de 1952, às 20:25 horas. Seis décadas depois de sua morte ela é usada como símbolo político pela direita e a esquerda. Veremos aqui uma série de mitos e fatos sobre a primeira-dama mais famosa da História da Argentina.

NASCIMENTO

- Evita dizia, quando estava viva, que havia nascido no dia 7 de maio de 1919

- Mas, a partir dos anos 70, historiadores peronistas descobriram que ela havia nascido, na realidade, no dia 7 de maio de 1922.

MORTE

Evita morreu oficialmente às 20:25 horas do dia 26 de julho de 1952 no Palácio Unzúe, a residência presidencial, localizada no bairro da Recoleta, onde hoje está a Biblioteca Nacional. Durante muitos anos os argentinos acreditaram que ela havia morrido com 30 anos. Mas, na realidade, morreu com 33.

TÚMULO

Evita está enterrada desde 1976 no cemitério da Recoleta, no mausoléu da família. Na realidade, o mausoléu pertencia a um cunhado seu, o major Arrieta. Ali, além de Evita e sua mãe, estão Arrieta e outros cinco parentes. Além desses caixões, duas urnas funerárias com as cinzas de duas empregadas da família.

NOMES

Eva Maria Ibarguren: nome de nascimento de Evita, com o nome de solteira de sua mãe.

Maria Eva Duarte: nome da certidão da nascimento falsa que ela forjou em 1945, poucos dias antes de casar com Perón (os historiadores peronistas confirmam), onde aparece o nome do pai, que nunca a reconheceu.

Maria Eva Duarte de Perón: o nome que passou a usar depois do casamento com Juan Domingo Perón.

APELIDOS oficiais usado pelo governo de Perón na época

- “Mãe dos pobres”.

- “Protetora dos trabalhadores”

- “Porta-estandarte dos humildes”

- “Mãe espiritual da pátria”

APELIDOS não-oficiais

“Evita” – Nome com o qual era chamada carinhosamente

“La Señora” – A senhora. Forma como era chamada pelos integrantes do governo

“Esa Mujer” – Essa mulher. Forma despectiva como era chamada por seus críticos

“La Yegua” – A égua. Forma despectiva como era chamada por seus críticos

“La Perona” – Forma como era chamada por seus críticos. No entanto, na Espanha essa expressão tinha um tom positivo sobre Evita.

MITOS

Ao longo da vida de Evita Perón – e especialmente após sua morte – surgiram uma série de lendas sobre a “Porta-estandarte dos humildes”. Além dos próprios militantes, os principais mitos foram divulgados por intermédio do musical de Andrew Lloyd Weber e Tim Rice, sucesso na Broadway a partir de 1976 que transformou-se em filme de Hollywood. Entre as principais falhas e lendas estão…

1 – Classe social: A lenda mostra Evita como uma menina de uma família que vivia na miséria. Ao contrário, a mãe de Eva tinha um pensionato na cidade de Junín e eram integrantes de uma austera classe média.

2 – Partida para a cidade grande, na cara e na coragem: Aos 15 anos Evita partiu dali rumo à cidade grande, Buenos Aires. Mas, ao contrário do filme, não foi nem com o cantor Agustín Magaldi e sequer transformou-se em sua amante. Magaldi, que era solteiro, nunca havia visto Evita. A jovem foi à capital com sua mãe e foi morar com seu irmão mais velho, Juan.

3 – Expulsa do velório: Evita era filha extramatrimonial de Juan Duarte. Mas, quando morreu em 1926, não foi expulsa do velório do pai por sua viúva oficial, Estela Grisolía, já que a mulher havia morrido em 1922. Segundo o historiador Pablo Vázquez, chefe do Arquivo do Museu Evita, as duas famílias – a oficial e a paralela – “se davam bastante bem. Não houve expulsão alguma do velório”.

4 – Líder revolucionária: Outra falha do musical e do filme é mostrar Evita como a pessoa que liderou os trabalhadores para liberar seu namorado – e posterior marido – Juan Domigo Perón. Ao contrário, Evita saiu de Buenos Aires e foi pra casa da mãe, em Junín. Só depois da liberação de Perón é que ela voltou à capital. Ela não tinha protagonismo político na época. Só com a posse de Perón como presidente no ano seguinte, ela começou a ter uma acelerada atividade política, transformando-se no no braço-direito do marido.

5 – Che Guevara, pé de valsa: Outro erro é o de colocar Ernesto “Che” Guevara como narrador da História. Che Guevara, na época em que Evita chegou ao poder tinha 18 anos e estava iniciando seus estudos de Medicina. E o Che – que jamais encontrou-se com Eva ou com Perón – considerava Evita e seu marido uns “representantes do fascismo”. E, evidentemente, nunca ocorreu a cena de Evita dançando com o Che Guevara. Ele, que a partir de 1956 foi um dos protagonistas da guerra de guerrilhas na Sierra Maestra contra o regime de Batista, admitia que dançava péssimo.

6 – As pichações “Viva o câncer”: A lenda diz que os inimigos de Evita picharam os muros de Buenos Aires – e da própria residência presidencial – com os dizeres “Viva o câncer” quando ela agonizava com um devastador câncer de útero. No entanto, isso nunca teria passado de uma única parede no bairro da Recoleta com a frase supracitada. “Só temos o registro da existência de uma. Seria quase impossível fazer uma pichação do gênero nas redondezas da residência presidencial, com toda a segurança da época”, explica Vázquez.

Eva Perón visita o ditador espanhol Francisco Franco em Madri. O respaldo dado pelo casal Perón ao “generalíssimo” permitiu a sobrevivência de seu regime autoritário. Quando Perón teve que fugir para o exílio, depois de passar pelo Paraguai de Alfredo Stroessner, o Panamá e a Venezuela, foi à Madri, onde ficou até 1973. Um dos braços-direitos de Perón, John  William Cooke, propôs a Perón em 1960 que fosse à Havana, Cuba, onde Fidel Castro havia tomado o poder, derrubando Batista. No entanto, entre Fidel e Franco, Perón optou por Franco, com quem tinha mais afinidade.

POSIÇÕES POLÍTICAS, MEDIDAS, ATITUDES

- Evita sempre detestou a esquerda e o marxismo. Ela perseguiu os militantes do partido Comunista e expulsou os sindicalistas comunistas

- Evita respaldou ativamente o regime do ditador espanhol Francisco Franco. O respaldo foi político e também em alimentos, que permitiram que o generalíssimo conseguisse driblar o bloqueio feito pelos aliados. Assim, sua ditadura que prolongou-se por mais tempo.

- Evita usava vestidos da Casa Dior, que importava – em avião – direto de Paris. Segundo Dior, “a única rainha que vesti em minha vida foi Evita”.

- Evita promoveu o voto feminino

- Evita opunha-se ao divórcio

- Evita dizia que as feministas eram “feias e ressentidas”

- Evita colaborou ativamente com Perón, especialmente em sua viagem à Europa, na entrada de milhares de criminosos de guerra nazistas. Nesta vinda dos nazistas participou o Vaticano, na época comandado pelo papa Pio XII, com quem Evita se reuniu em Roma.

El Descamisado: o funéreo e anabolizado mega-mausoléu onde seria colocado o corpo de Evita. O plano de Perón começou a ser executado…mas suas obras foram paralisadas quando ele foi derrubado por um golpe.

CORPO

- Morre, passa por um tratamento de embalsamamento inicial e é levada ao Ministério do Trabalho, atual Assembléia Legislativa de Buenos Aires.

- Depois, é levada o Congresso Nacional, onde é velada por 14 dias. Dois milhões de pessoas dão seu últimos adeus.

- Na seqüência é levada à sede da central sindical CGT, onde continua com o tratamento de embalsamamento realizado pelo doutor Pedro Ara.

- Em 1955 Perón é derrubado. Os militares seqüestram o corpo.

- Até 1957 peregrina por vários lugares do exército e a casa de oficiais.

- Em 1957 é levado pelo governo de Aramburu, em conjunto com o Vaticano para Milão, onde é enterrado no Cemitério Maior com o nome de Maria Maggi de Magistiris.

- Em 1971, depois de um acordo entre o ditador argentino Alejandro Lanusse e Perón, que estava no exílio, o corpo é exumado: dia 1 de setembro. No dia 3 de setembro o caixão vai a Madri. Ali, fica na casa de Perón no bairro de Puerta de Hierro.

- O corpo é levado a Buenos Aires no dia 17 de novembro de 1974. Evita é colocada em uma sala na residência presidencial de Olivos ao lado do corpo de Perón.

- Quando o general Videla derruba Isabelita Perón (a última esposa de Perón, que havia assumido a presidência depois da morte do marido e presidente), os dois corpos são separados. Evita é enviada ao cemitério da Recoleta, onde um cunhado seu, o Major Arrieta, tinha um mausoléu. Nesse lugar estão enterrados Arrieta, a mãe de Evita, a própria Evita, e outros cinco parentes, além de duas urnas com cinzas de duas empregadas da família.

O DESCAMISADO - Quarenta e cinco metros mais alto que a Estátua da Liberdade, três vezes maior que o Cristo Redentor. Assim teria sido “El Descamisado”, um anabolizado funéreo monumento que contaria com um total de 137 metros de altura, divididos entre 70 metros da colossal base e 67 metros da estátua que representaria um operário peronista.

Seria uma espécie de “Colosso de Rodes” que em vez de estar à beira do mar Egeu, seria instalado à beira do Rio da Prata. Seu objetivo, que variou ao longo de anos de projetos e idas e vindas, foi o de ser o lugar de descanso do sarcófago de Evita, feito com 400 quilos de prata.

Seria um misto de pirâmide de Quéops com altura quase equivalente à Catedral de Notre Dame. Tudo isso com um look característico das esculturas fascistas na moda na Europa dos anos 30 e 40.

No entanto, todos os verbos relativos ao “Descamisado” ficaram no condicional. Este monumento começou a ser construído mas nunca passou de suas bases de concreto no bairro da Recoleta, em Buenos Aires.

“Voltarei e serei milhões”. Espártaco, de Howard Fast (e Evita Perón, supostamente). Aqui, Kirk Douglas interpreta o ex-escravo de Roma, na hora em que é crucificado, no fim do filme.

FRASES

“Gracias por existir” (Obrigado por existir): A suposta frase teria sido pronunciada em 1944 durante o encontro de Eva e Perón no Luna Park em um festival para arrecadar fundos para as vítimas do terremoto de San Juan. Mas, na realidade, foi inventada pelo escritor Tomás Eloy Martinez, que a colocou na boca de Evita no romance “Santa Evita”. A cena: Evita, uma atriz de rádio e cinema, foi apresentada a Perón e disse como forma de impactá-lo a frase “Obrigado por existir”. “Nos últimos três anos, essa frase piegas foi aceita como verdade. Mas Eu a inventei”, me explicou Martinez em 1999. “Mas quando expliquei isso, alguns sindicatos não acreditaram que era falsa. Protestaram, me perguntando como ousava macular a memória de Eva Perón…”, disse rindo.

“Volveré y será millones” (Voltarei e serei milhões) foi a apócrifa frase de Eva Duarte de Perón – chamada de “Evita” pelo povo – supostamente pronunciada poucos minutos antes de sua morte, ocorrida na noite do dia 26 de julho de 1952. A lenda sustenta que Evita, que estava morrendo por um devastador câncer de útero, indicava com essa frase que voltaria da morte como milhões de trabalhadores “descamisados” para tomar o poder total. Mas, na realidade, é uma frase posteriormente atribuída a ela. A oração é parte de um poema do peronista Castiñeira de Dios e também era uma das frases pronunciadas pelo personagem de Espártaco quando é crucificado. O livro é de Howard Fast, de 1951, um anos antes de Evita morrer.

Best-seller na primeira metade dos anos 5o, tornou-se leitura obrigatória para estar por dentro das máximas de Eva Perón

LIVROS

“La Razón de mi Vida”: livro que é uma espécie de apologia ao governo de Perón. Publicado postumamente em setembro de 1951. A 1ª tiragem foi de 300 mil exemplares.

“Mi Mensaje”: este livro parecia que era apócrifo. Suas irmãs diziam que era falso. Mas, recentemente – depois de um processo de dez anos – a Justiça considerou que era mesmo de autoria de Evita. É uma segunda parte de “La razón de mi vida”

Um exemplo de ego-cartografia. Neste mapa, de 1953, La Plata aparece como “Eva Perón”. Mas, em 1955 os ‘evaperonenses’ voltaram a ser chamados de ‘platenses’

TOPOGRAFIA

Onde morou:

- Los Toldos, quando era bebê

- Junín, quando era criança e adolescente

-Buenos Aires,fim da adolescência e vida adulta

Onde trabalhou, como primeira-dama (sem posto oficial no governo):

- 1946-48 Palácio de Correios, 4ª andar, e em um escritório no Ministério da Economia

- Em 1948, no prédio da Assembléia Legislativa. Ali ela tinha os escritórios da Fundação Eva Perón

- Mas, o edifício oficial da Fundação, na avenida Paseo Colón, onde atualmente está uma das duas faculdades de engenharia da UBA, ainda não havia sido totalmente concluído quando ela morreu.

Ciudad Evita, na zona oeste da Grande Buenos Aires, ao lado do caminho entre Ezeiza e a capital argentina. O bairro foi construído com o perfil da Mãe dos Pobres.

A ego-cartografia

- Ciudad Evita é um distrito do município de Ezeiza, na Grande Buenos Aires. Vista de cima, a área (criada originalmente como um bairro-modelo operário) é uma reprodução proposital do perfil de Eva Perón, incluindo seu tradicional coque. “Nos encontramos no nariz?” pode ser uma pergunta ali no bairro. “Não, antes tenho que passar pelo coque para ver minha tia”, poderia ser a resposta.

- Deputados da província de La Pampa, nas últimas semanas de vida de Evita em 1952, decidiram homenageá-la com a modificação do nome para “província Eva Perón”.

- Na época de sua morte, a capital da província de Buenos Aires, La Plata, transformou-se em “Ciudad Eva Perón”. A cidade, após a queda de Perón, em 1955, voltou a ser La Plata.

La Pampa, no centro do país, passou a ser Provincia Eva Perón em 1955. Depois, voltou a ter seu nome histórico de La Pampa.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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20/07/2012 - 02:46h Evita, sempre um mito duplo

Hulton Archive/Getty Images / Hulton Archive/Getty Images
Evita discursa para mulheres em 1951: “É evidente [sua] influência nas dirigentes que atualmente desempenham funções em nosso país, entre elas a presidente”, diz diretora de museu


Por Marina Mota | Para o Valor, de Buenos Aires

Uma jovem Evita, interpretada pela atriz Julieta Díaz, afirma que “a morte prematura eterniza os romances”, surpreendendo um Juan Domingo Perón, no início da carreira política, vivido por Osmar Núñez. A cena do filme “Juan y Eva”, que estreou na Argentina no ano passado, mostra o início do relacionamento que acabaria por marcar a vida e a história política do país.

Às vésperas do 60º aniversário de sua morte, com apenas 33 anos, em 26 de julho de 1952, a frase não podia ser mais atual. Evita permanece viva como ícone nacional e recebe homenagens por toda parte na capital argentina. No marco de sua morte, será realizada uma missa no cemitério da Recoleta. O túmulo de Evita é um dos locais mais visitados pelos turistas.

Evita tornou-se o que nunca foi em vida: uma unanimidade. “Há seis décadas, ela era a divisora da sociedade em dois setores. Hoje é um fenômeno político e social compreendido, valorizado e reinterpretado por quase todos”, afirma o analista político e diretor do Centro de Estudos Nova Maioria, Rosendo Fraga.

No Museu Evita, há uma sala dedicada aos dois mitos criados em torno da sua figura no passado: o mito negro – fruto da rejeição da classe alta a uma filha ilegítima que começou a vida como atriz de cinema – e o branco – de uma mulher benevolente vista como santa pelos humildes. O acervo também reúne fotos, discursos, objetos pessoais e até livros e cartilhas escolares com frases como “Evita é nossa mãezinha”, num prédio que foi sede de um abrigo mantido pela Fundação Eva Perón para mães e crianças carentes. É o museu mais visitado por estrangeiros na Argentina e, a partir de agora, pode ser conferido também pela internet por meio de um tour virtual.

Tanto o kirchnerismo quanto a oposição estimulam o culto. Neste ano, foram inaugurados mais dois espaços dedicados à memória de Evita. O Salão Eva Perón, na Casa Rosada, e o Vestidor de Evita, na Câmara de Vereadores de Buenos Aires, controlada pelos opositores. O local foi recuperado nos moldes em que era usado – com quarto de vestir, guarda-roupa e três banheiros -, quando ali funcionava a sede da fundação que ela presidia.

Ao fazer pronunciamentos na Casa Rosada, a presidente Cristina Kirchner usa como cenário maquetes de dois murais em homenagem a Evita, inaugurados no edifício do Ministério do Desenvolvimento Social, na avenida 9 de Julho, umas das principais artérias de Buenos Aires. Do lado sul do prédio, virado para a região mais pobre da cidade, o rosto de Evita aparece sorridente e sereno. Do lado norte, em direção à área nobre, a imagem é de uma Evita combativa. Dependendo do tom do discurso de Cristina, aparece uma outra imagem ao fundo, substituindo o quadro de Evita com Perón usado no primeiro mandato.

Nos pronunciamentos na Casa Rosada, a presidente Cristina Kirchner usa como cenário maquetes de dois murais em homenagem a Evita

“Cristina é muito mais ‘evitista’ que peronista. Ela destaca o caráter mais radical e popular de Evita em oposição ao conservadorismo de Perón”, disse o pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet) e diretor do Centro de Investigações Políticas (Cipol), Marcos Novaro. Perón era um coronel que tinha apoio da Igreja Católica ao chegar ao poder e se aliou a caciques do interior. “Cristina se afasta de Perón, enquanto seus adversários dentro do oficialismo o reivindicam, mas todos coincidem com a figura de Evita”, afirma Rosendo Fraga.

“É evidente a influência de Evita nas dirigentes mulheres que atualmente desempenham funções em nosso país, entre elas a presidente”, afirma a diretora do Museu Evita, Natalia Nierenberger.

A historiadora e diretora do Conicet, Dora Barrancos, prefere descartar as constantes comparações entre Evita e Cristina. “Uma não tem nada a ver com a outra. Evita não existiria sem Perón. Cristina pode viver sem Nestor ou sem outra figura masculina”, diz. Mas acredita que “a hostilidade de alguns setores da sociedade contra Cristina é um ‘revival’ da hostilidade contra Evita”.

A influência de Evita é marcante também na vida cultural argentina. Atualmente, está em cartaz a peça “Inevitables, Pasión y Muerte de Eva Perón”. Só no segundo semestre do ano passado, seis obras teatrais eram inspiradas na biografia dela. No cinema, além do já citado “Juan y Eva”, esteve nas telas em 2011 a animação “Eva da Argentina”. Entre os mais recentes lançamentos editorias, pelo menos três versam sobre Eva Perón: “Eva y Cristina”, de Araceli Bellotta; “Evita”, de Felipe Pigna; e “La Carne de Evita”, de Daniel Guebel, que mistura ficção com fatos históricos. Na biblioteca do Museu Evita, estão catalogados cem livros sobre ela, além de cerca de mil que tratam do peronismo e a citam.

Para Guebel, o peronismo, do qual Evita faz parte, é o grande relato argentino, por isso continua servindo de inspiração. “Aqui as coisas se convertem em mitos. E os mitos duram mais do que deveriam”, observa. E acrescenta: “Evita foi uma má atriz que encontrou na cena pública espaço para encenação. Seu papel foi de lutadora, benfeitora e de alguém que deu o sangue por amor ao povo. Ela encarnava o sonho das domésticas”.

“Evita morreu muito jovem, numa atitude de hostilidade à oligarquia. Por isso, e pela sua biografia, os setores populares se veem mais espelhadas nela que em Perón”, diz Dora Barrancos.

O rosto de Evita está nos suvenires vendidos aos turistas, em cartazes de movimentos sociais, nas manifestações públicas. No último congresso da principal central dos trabalhadores argentinos, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), no dia 12, um grande “banner” com o rosto de Evita enfeitava o palco onde os dirigentes discursaram. E altares de Evita fazem parte da decoração de bares e restaurantes temáticos peronistas em Buenos Aires.

Evita conheceu Perón em 1944, durante um show que reuniu diversos artistas para arrecadar fundos para a cidade de San Juan, destruída por um terremoto. Até sua morte por câncer no útero, em 1952, se converteu na primeira-dama mais popular do país, mantendo uma fundação de ajuda social com o próprio nome. Foi protagonista na conquista do voto feminino na Argentina e chegou a ser lançada como candidata a vice-presidente na chapa à reeleição do marido, em 1951. Mas renunciou, pouco depois.

O funeral de Evita durou duas semanas e levou milhões de pessoas às ruas. O seu cadáver embalsamado foi sequestrado após um golpe militar no país, enterrado na Itália e só 24 anos depois colocado no túmulo da família paterna na Recoleta. A cidade de La Plata – capital da província de Buenos Aires – chamava-se Eva Perón, quando ali nasceu Cristina Kirchner, em 1953.

03/04/2012 - 17:00h Brasil e Argentina, coluna vertebral sul-americana

Em 1985, os presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín se encontraram na fronteira dos dois países para selar o pacto que criaria o Mercosul


Por Diego Viana | VALOR

De São Paulo.

Apesar de períodos de desconfiança mútua e disputas na política como no futebol, a relação bilateral entre Argentina e Brasil entra no século XXI como uma parceria fundamental para ambos. A história da parceria fundada sobre o antagonismo é o tema de “Argentina, Brasil: de Rivales a Aliados”, de Mario Rapoport e Eduardo Madrid, lançado no país vizinho pela editora Capital Intelectual.

Contando quase metade da população do subcontinente, Brasil e Argentina passaram por regimes autoritários, populistas e democráticos e realizaram uma industrialização liderada pelo Estado, mas entremeada por períodos livre-cambistas. Enfrentaram crises de dívida externa e de hiperinflação e mudaram o nome de suas moedas mais de uma vez.

Desde os anos 1990, os dois países formam a “coluna vertebral” da economia sul-americana, segundo o economista Mario Rapoport, que falou ao Valor por telefone de sua casa em Buenos Aires. Apesar das dificuldades, diz o professor da Universidade de Buenos Aires, o Mercosul é uma realidade incontornável e a proposta da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) será o caminho de inserção do continente na economia mundial.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: O livro indica que mesmo quando as relações entre Brasil e Argentina eram marcadas pela rivalidade, a aproximação bilateral já ia de vento em popa.

Mario Rapoport: É preciso frisar que há uma forte complementaridade econômica entre os dois países. Essa complementaridade explica por que o Mercosul conseguiu ser construído e encontrasse um certo êxito. Argentina e Brasil formam a coluna vertebral da economia sul-americana. São os maiores territórios, as maiores populações e as maiores economias, chegando da Terra do Fogo à Amazônia. A união dos dois países é estrategicamente imprescindível.

Valor: Historicamente, como se deu essa união?

Rapoport: As iniciativas de aproximação são antigas. Em 1961, houve o encontro de Uruguaiana, dos presidentes Arturo Frondizi e Jânio Quadros. Esse foi o germe do Mercosul, bem antes do encontro de Sarney e Alfonsín, em 1985. O que interrompeu a iniciativa foi o golpe de 1962, que destituiu Frondizi. Mas esse foi o primeiro de uma série de acordos, um processo de aproximação talvez difícil de perceber no plano da retórica, mas que foi inexorável. O Mercosul foi o cúmulo desse processo.

Valor: Até então, a julgar pelo livro, o desenvolvimento econômico era um motivo de desconfiança, em vez de colaboração, sobretudo depois da instalação da usina siderúrgica de Volta Redonda, em 1946.

Rapoport: A aproximação do Brasil com os EUA na guerra foi difícil de entender para os argentinos, porque as lideranças brasileiras eram mais próximas dos alemães. Sobretudo a cúpula militar, amplamente pró-Alemanha. Mas a posição geográfica do Brasil levou os americanos a cortejar o governo brasileiro, e Getúlio Vargas interveio na guerra ao lado dos aliados. A usina era necessidade da nova burguesia brasileira, que buscava consolidar o crescimento industrial. Os EUA queriam que isso se fizesse por uma empresa americana. Vargas conseguiu que fosse uma empresa brasileira, embora financiada por capitais americanos.

Valor: Se o tempo era de rivalidade, a instalação dessa indústria no vizinho deve ter acendido um alerta nas elites políticas argentinas.

Rapoport: Apesar da rivalidade, a aproximação se tornou mais forte a partir desse período. Aí começava o desenvolvimentismo. Perón tentou instalar uma siderúrgica na Argentina e finalmente isso se conseguiu no governo de Frondizi. As ideias do desenvolvimentismo levaram a um certo paralelismo do processo nos dois países.

Valor: O livro se refere de maneira esperançosa à criação da Unasul. Diante de instituições transcontinentais, como o G20 e os Brics, o que a Unasul terá a contribuir?

Rapoport: Para a América do Sul, é um desenvolvimento que se volta para dentro e conta com um mercado de 400 milhões de pessoas. Esse mercado passa a ser plenamente integrado: não serão só 200 milhões de brasileiros ou 45 milhões de argentinos. A Unasul poderá ser uma enorme plataforma de lançamento para a inserção do continente na economia mundial.

Valor: A evolução do Mercosul, com quatro países, é lenta e conflituosa. Com todo o continente, os conflitos não seriam mais intensos?

Rapoport: As controvérsias no Mercosul têm mais repercussão do que os avanços, mas eles existem e são fortes. As controvérsias são pontuais. Os setores econômicos querem avançar seus interesses e se manifestam. É normal. Mas isso não significa que a integração não esteja avançando. Está e a evolução do comércio bilateral Brasil-Argentina demonstra isso: passou de US$ 3 bilhões em 1991 para US$ 30 bilhões em 2008. O desafio, agora, é fazer com que essa integração se institucionalize, ou seja, pensar mecanismos para que as convergências aconteçam com fluidez.

Valor: O Banco do Sul, proposto pela Unasul, é um exemplo?

Rapoport: É possível, mas ainda falta muito para que ele se torne algo efetivo. Há um vão enorme entre a afirmação da existência e a existência de fato. Não podemos nos esquecer da época em que vivemos. O sistema financeiro no mundo está travado, o que dificulta iniciativas como essa. Há alguns anos, se falava até em fazer moeda única. Já não se fala mais assim. Com a crise do euro, ficou a impressão de que a moeda única é um estorvo.

Valor: A América do Sul passa por um momento de governos na centro-esquerda, inspirados por Lula. O governo mais à direita, o chileno, é o que menos se entusiasma pela iniciativa. O vínculo de natureza conjuntural da Unasul não a enfraquece a longo prazo?

Rapoport: A Unasul é uma realidade quase inevitável, como resultado de uma integração econômica, social e cultural que não tem como não crescer. O isolamento regional é impensável nos próximos anos.

Valor: Argentina e Brasil sendo a coluna cervical da economia do continente, o que cada um tem a ganhar do outro?

Rapoport: Convém muito à Argentina uma aliança com um país que tem mais envergadura e integra o grupo principal dos países emergentes. É a sexta maior potência mundial, tem outra posição no mundo. E o Brasil necessita de um país que o interprete no mundo hispânico. Esse país é necessariamente a Argentina. Uruguai e Paraguai são muito pequenos, o Chile sempre manteve posições muito diferentes do Brasil. Colômbia, Venezuela, nenhum desses países tem a envergadura necessária. A Argentina, sim. Essa parceria é importante para o futuro da região.


Argentina, Brasil: de Rivales a Aliados
Mario Rapoport e Eduardo Madrid. Capital Intelectual, 356 págs, 95 pesos argentinos

17/12/2011 - 16:13h La última brigadista

JESÚS RODRÍGUEZ – EL PAÍS

11/12/2011

Hace 75 años, más de 35.000 hombres y un puñado de mujeres de 54 países llegaron a España para luchar contra Franco. Estaban convencidos de que si frenaban el fascismo podían evitar una guerra mundial. Esta es una historia de valor y solidaridad a través de la memoria de Lise London, la última mujer voluntaria con vida.

El Ejército del Ebro / rumba la rumba la rumba la / el Ejército del Ebro / rumba la rumba la rumba la / una noche el río pasó / ¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela! / Y a las tropas invasoras / rumba la rumba la rumba la / y a las tropas invasoras / rumba la rumba la rumba la / buena paliza les dio / ¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!”.

Cuando el compacto grupo de ancianos franceses con acento español y ancianos españoles con acento francés se arranca a entonar con rabia el vibrante himno de batalla de nuestra Guerra Civil, se hace un silencio doloroso y toca tragarse las lágrimas. Son los testigos de una historia que se acaba. Una gesta de ideales y lucha por la libertad que pronto, cuando sus últimos protagonistas desaparezcan, quedará enterrada en los manuales de historia. Hoy están aquí. Quizá por última vez. Tienen el pelo blanco y las manos nudosas como una vid; ondean sobre sus cabezas pálidas banderas tricolores; un centenar de veteranos de la guerra se han reunido esta tarde de noviembre en un rincón sin turistas de París en homenaje a los miles de camaradas que llegaron a este lugar hace justo 75 años, procedentes de 54 países, para alistarse en las Brigadas Internacionales y luchar durante más de dos años contra Franco en los frentes de Madrid, el Jarama, Guadalajara, Brunete, Teruel y el Ebro. Fueron más de 35.000. Casi un tercio reposa en España en tumbas sin nombre. Muchos iniciaron malheridos la retirada a finales de 1938 y murieron en campos de concentración franceses y alemanes. Los que sobrevivieron formaron una estrecha comunidad de sangre que nunca nadie ha conseguido romper.

Eran jóvenes y no eran soldados; nunca habían sostenido un arma; habían militado en el pacifismo y la solidaridad entre los pueblos. Eran unos soñadores. Metalúrgicos, estibadores, estudiantes, campesinos e intelectuales; aventureros, revolucionarios; activistas negros americanos y judíos perseguidos por los nazis. Por encima de su origen, combatir en la Península al Caudillo suponía para todos plantar cara a Hitler. Creían que la Guerra Civil era el primer asalto de una contienda mundial que se podría frenar si Franco y sus compañeros de viaje eran derrotados en España. Para los brigadistas, no se trataba de una simple guerra fratricida aislada en un país frontera con África. Era el aperitivo de la catástrofe. El tiempo les daría la razón.

Aquella guerra concluiría el 1 de abril de 1939 con el triunfo de Franco y los ejércitos del Eje y el éxodo de medio millón de derrotados; cuatro meses más tarde, Hitler, según el plan previsto, invadía Polonia; doce meses más tarde, Francia, y dos años más tarde, en mayo de 1941, la Unión Soviética. Cincuenta millones de personas perecerían en la II Guerra Mundial. La perspectiva que proporciona el tiempo confirma que los brigadistas fueron unos visionarios. Antes de que existieran el derecho humanitario y la declaración de derechos humanos, apostaron por la solidaridad internacional con un Gobierno legítimo cuya democracia estaba siendo pisoteada. Se adelantaron. Una idea que sintetizaría Artur London, brigadista hasta las últimas horas de la República y uno de los protagonistas de este reportaje, con una frase: “Se levantaron antes del alba”.

Muchos eran parias de la tierra. Tenían poco que perder porque no tenían nada. Dieron un paso al frente aquel otoño de 1936. Rompieron con todo. Se convirtieron en proscritos en sus países de origen. Era un instante crucial en el que la democracia se resquebrajaba; no solo Alemania e Italia habían caído bajo el yugo del fascismo. En Polonia, Hungría, Rumanía, Grecia, Lituania, Bulgaria, Checoslovaquia, Austria y Portugal se estaban incubando regímenes dictatoriales. La extrema derecha había mostrado sus colmillos en Francia. En sectores del Partido Republicano estadounidense y el establishment británico se aplaudía a Hitler. En ese instante, la mitad de España se había rebelado contra el golpe de Estado del 18 de julio. La guerra había comenzado. La República carecía de ejército y lo improvisaba a diario; mientras, Franco, al mando de unas fuerzas fogueadas en África, había alcanzado en semanas los arrabales de Madrid. Hitler humillaba a las democracias y enviaba sus bombarderos contra los españoles saltándose los acuerdos internacionales. Para apaciguarlo, Francia y Reino Unido habían abandonado a la República. La Península ardía. El mundo asistía mudo a la tragedia. Dentro de ese macabro decorado, miles de hombres habían reaccionado y enfilado París como primera escala hacia España. ¿Por qué estaban dispuestos a jugarse la vida en un país del que no conocían ni la lengua? Artur London daría la clave: “En Madrid, el checo iba a luchar por Praga; el francés, por París; el austriaco, por Viena; el alemán, por liberar su país de Hitler, y el italiano, por expulsar a Mussolini de su país”.

El número 8 de la calle de Mathurin-Moreau era en 1936 un descampado salpicado de barracones que albergaban sindicatos de izquierda y comités obreros. A ese París proletario comenzaron a llegar en octubre los voluntarios. Los partidos comunistas de todo el mundo (de los que había surgido la idea de crear las Brigadas a través de la Internacional, la organización que hacía de correa de transmisión entre las consignas de Stalin y sus cuadros) habían prestado su infraestructura como banderín de enganche. En esta calle comenzaría el largo viaje hasta el frente. Más allá, vencer o morir.

Aquí se levanta desde los años setenta la sede del Partido Comunista Francés, un bello edificio de hormigón y cristal proyectado por el arquitecto brasileño Oscar Niemeyer como regalo a sus camaradas franceses. Todo aquí remite al combate contra el fascismo. La plaza en la que desemboca el cuartel general comunista lleva el nombre de uno de los más legendarios veteranos de las Brigadas Internacionales: el coronel Fabien, líder desde 1941 de la Resistencia francesa contra Hitler y el primer partisano que acabó durante la ocupación con la vida de un oficial hitleriano. En este ambiente de familia nos encontramos con una de sus viejas camaradas de guerrilla, Cécile Le Bihan, viuda de otro mítico brigadista: el coronel Rol-Tanguy, el partisano al que se rindió el ejército alemán que ocupaba París en 1944. Cécile tiene 93 años; es una anciana erguida, digna y lúcida, con una boina calada hasta las sienes y la Legión de Honor en la solapa. Durante cuatro años se jugó la vida y la de su familia en la Resistencia contra la ocupación nazi. Pasaba documentos en el cochecito de su hijo (hoy ese bebé es un sexagenario que sonríe a su lado) y participó en sabotajes. Su compañero, Rol-Tanguy, es un héroe nacional en Francia. “Nunca olvidó España”, relata Cécile; “afirmaba que la experiencia más grande y enriquecedora de su vida fue la Guerra Civil. Era un sindicalista, un hombre de acción. Me decía: ‘Tengo dos patrias, Francia y España; nunca me he podido sacar a los españoles del corazón’. España era para Henri como esa bala que recibió en la espalda en el frente del Ebro, se le quedó alojada en el omoplato y no le pudieron extraer: era parte de él”.

-¿Por qué se enroló en las Brigadas?

-Quería aprender a luchar contra el fascismo y enseñar a otros. Se empeñó en ir a Madrid. Era un tipo duro, un metalúrgico. No era un idealista, era un militar. Sabía que el siguiente capítulo de aquella tragedia era París. Y no se conformaba. Quería estar en primera línea; volvió de España herido. Nos casamos en abril del 39. Un año más tarde, Hitler invadía Francia y volvió a combatir.

Aquellos jóvenes brigadistas que comenzaron a concentrarse a mediados de octubre de 1936 en París eran tipos jóvenes, grandes, ruidosos, románticos, vitales; sin gran formación (aunque hubiera entre ellos un grupo de escritores como Malraux, Hemingway, Orwell o Koestler), pero muy politizados; gente del pueblo, directos, juerguistas; cariñosos con los españoles que los recibían como salvadores. Se sintieron como en casa. Tras escuchar las grabaciones con decenas de testimonios de brigadistas, leer sus memorias y charlar con los supervivientes y sus familias, se advierte un hecho sorprendente: nunca renegaron de su aventura española; los veteranos recordaban los años de la Guerra Civil como los más enriquecedores, intensos y altruistas de su vida. No había amargura en sus palabras. Ninguno se quejaba del pobre armamento e instrucción que recibieron; las penosas condiciones de vida en el frente; la crueldad de las batallas. No hay ninguna crítica a la discutible conducción política y militar de la guerra por parte de la República. Ni siquiera a su retirada de España como moneda de cambio. Para ellos, la única tragedia fue abandonar a los republicanos a su suerte. Me lo confirma la hija de uno de ellos que prefiere no dar su nombre: “Mi padre me contaba que cuando la República decide a finales de 1938 que los brigadistas se vayan para intentar un agónico acuerdo de paz, estos no querían que los españoles les dieran las gracias; las daban ellos por haber tenido la oportunidad de compartir el ideal de la República. Los brigadistas eran muy queridos en España. Llegaron aclamados por el pueblo, y cientos de miles de personas les despidieron entre flores de la misma forma el 15 de noviembre de 1938 en la Diagonal de Barcelona. Algo bueno debieron de hacer. Consideraban a los españoles sus hermanos. Por eso, los tres centenares que vivían en 1996 aceptaron como un honor la decisión del Gobierno de Felipe González de concederles la nacionalidad española”.

De los más de 35.000 voluntarios extranjeros que lucharon en nuestra Guerra Civil no quedan más de veinte. Los más jóvenes han superado los 90 años. Para Marina Garde, responsable de ALBA (Abraham Lincoln Brigade Archives), la organización que reúne a los brigadistas estadounidenses vivos (solo cinco de los 2.800 que vinieron a España), “están muriendo los últimos y es trágico; era gente carismática, entregada, incansable, que movía a mucha gente con su testimonio; ahora nos toca defender esa memoria. Es un legado muy fuerte que tenemos que salvar del olvido. Hay que crear una tradición en torno a su memoria. Que su ejemplo sirva para que nunca nos quedemos cruzados de brazos ante los dictadores”.

El pasado invierno murió el último brigadista italiano; queda un superviviente en México, dos en Argentina, tres en Reino Unido, cinco en Estados Unidos, uno en Rusia, dos en Austria, un estonio, un israelita y cinco franceses. Estos últimos no han podido estar hoy en París en el acto de homenaje. El tiempo no perdona. Sin embargo, César Covo, Théo Francos, los hermanos Vincent y Joseph Almudever y Lise London están en el corazón de todos.

Sobre todo Lise, la legendaria compañera de Artur London; la última brigadista. Tiene 95 años. Nació como Elisa Ricol de padres españoles en un pueblo minero francés. Los Ricol representaban el prototipo del proletariado de comienzos del siglo XX: pobres, analfabetos, desertores del campesinado y emigrantes. El viejo Ricol era un picador que arrastraba la silicosis y militaba en sindicatos comunistas. Lise nació en 1916. De niña vendía helados por las calles. A los 15 años ingresó en las Juventudes Comunistas. Era una mujer guapa, morena, resuelta, chispeante, con unos bellos ojos negros, un rostro de camafeo y una estricta elegancia socialista en blanco y negro que recuerda a Dolores Ibárruri. Firme, vehemente, doctrinaria, adicta al debate, se iba a convertir desde joven en una profesional de la revolución, una activista incansable, una militante dispuesta a todo. “¡Soy aragonesa!”, aún repite con orgullo. El partido, la lucha, eran lo primero. Santiago Carrillo, amigo de los London y durante veinte años secretario general del Partido Comunista de España, intenta explicar esa absoluta obediencia de los militantes de la época respecto de la organización: “Ser comunista era algo más que ser de un partido; suponía tener fe. Había en nosotros mucho de romanticismo. El comunismo tenía un componente religioso, con sus santos, sus mártires y su Meca, que era Moscú. No nos planteábamos más. Queríamos extender la revolución. Cuando perdimos esa fe, todo se desmoronó. Lise tardó en perderla. Tuvo incluso problemas políticos con su marido”. Artur London, en su autobiografía La confesión, describía así a su mujer y camarada: “Ha conservado su frescura de chiquilla: hay que verla entusiasmarse, apasionarse, tomar partido y luchar para lograr que compartan sus convicciones los que la rodean. Pone el corazón en todo lo que hace. Dispuesta a no importa cuál sea el sacrificio por sus amigos, es, por el contrario, intransigente cuando se trata del deber de los comunistas. Su confianza hacia el partido y la URSS es total. Para ella, el gran principio de la vida militante se enuncia muy simplemente: el que comienza a dudar del partido deja de ser comunista”.

En 1934, con solo 18 años, Lise marcha a Moscú invitada por la Internacional para convertirse en dirigente comunista. Lo relata Roberto Lample, de 62 años, francés, de padre anarquista español, alma de ACER (Asociación de Antiguos Combatientes en la España Republicana) y fiel compañero de fatigas de Lise: “Moscú fue su escuela política; ella quería escapar a su destino de mujer proletaria. Se dio cuenta de que si estudiaba, si viajaba, su vida podría cambiar. La ambición de Lise era aprender. El partido le dio la oportunidad de ir a Moscú. Y ella lo aprovechó. Era una luchadora; estaba convencida de que el poder no se podía delegar; no había que esperar que otros te solucionaran los problemas, había que actuar; quería decidir su futuro. Y eso tiene plena vigencia con el movimiento de los indignados”.

Era una fuerza de la naturaleza; una mujer valiente, magnética, decidida; una revolucionaria que conoció a Stalin, Tito, Pasionaria y Ho Chi Minh. En Moscú se enamoró de Artur London, un joven comunista de 19 años, alto, guapo, elegante y tuberculoso; un intelectual checo de origen judío que contraponía al ímpetu descarnado de Lise un carácter calmado y reflexivo. Lise abandonó a su primer marido (el comunista Auguste Delaune, que sería ejecutado en los cuarenta por los nazis) y unieron su destino. Tendrían tres hijos y compartirían 50 años de lucha, desde la URSS a la Guerra Civil; la clandestinidad, la Resistencia en Francia, la persecución de la Gestapo, los campos de exterminio nazis y las purgas estalinistas de los cincuenta. Una vida intensa que llevó al cine en 1970 Costa-Gavras. Sus camaradas Yves Montand y Simone Signoret dieron vida en la pantalla al matrimonio; del guion se encargaría Jorge Semprún, compañero de Artur London en Mauthausen.

Lise está hospitalizada en una hermosa clínica construida tras la II Guerra Mundial para acoger a los supervivientes de los campos de concentración, en Fleury-Merogis, a una hora de París. Michel London, su hijo menor, un matemático de 62 años, se ofrece a llevarnos, aunque advierte que su madre está muy débil. Al volante de su cascado Fiat 500 va recordando pasajes de la vida de su familia, desde sus abuelos maternos españoles, los Ricol, que se hicieron cargo de los hijos del matrimonio London durante su deportación a los campos nazis y acogieron en su hogar a exiliados republicanos, hasta la familia de su padre, judíos checos, de los que murieron 28 miembros en los campos de exterminio. Michel London habla sin odio. “Mi madre rara vez mencionaba los campos nazis; había visto demasiado sufrimiento. En 2005 fuimos toda la familia a Mauthausen, donde habían estado internados mi padre, mi tío y mi cuñado, y también 8.000 republicanos españoles y centenares de brigadistas; mi padre ya había muerto; estábamos sus tres hijos, sus nietos y mi madre. Ella había estado en Ravensbrück y Buchenwald, sabía de qué iba aquello; se emocionó, pero con serenidad; no soltó una lágrima. Enseñó a los nietos los barracones, los hornos, los pijamas de rayas… con naturalidad, sin dramas. Ha sido siempre muy fuerte”.

Tras alistarse en las Brigadas Internacionales en las improvisadas oficinas de la calle de Mathurin-Moreau, los voluntarios marchaban a la estación de Austerlitz, donde cogían un tren con destino a Perpiñán, y de allí, el salto a España. Lise London tomó el 28 de octubre el último que atravesó la frontera. El jefe de las Brigadas, el héroe de la revolución bolchevique André Marty, le había ofrecido ser su traductora y asistente. Lise no vaciló. “Reunirme por fin en España con los combatientes de la libertad… ¿Había algo más emocionante?”. El viejo Ricol profirió al despedir a su hija: “Lise se va a la tierra de sus padres a cumplir con su deber”. Viajaban en el convoy 2.500 hombres y un par de mujeres. Tras ellos, la frontera quedaría cerrada por los franceses para evitar la llegada a España de más voluntarios extranjeros. Los que quisieran alcanzar el frente deberían cruzar ilegalmente los Pirineos con la ayuda de partisanos, como harían Artur y miles de voluntarios más.

Tras un par de jornadas de viaje, Lise y el resto de aquellos primeras voluntarios llegaban vía Barcelona hasta Albacete, la ciudad que la República había dispuesto como cuartel general de las Brigadas. Estaba embarazada de tres meses. Artur continuaba trabajando para la Internacional en Moscú e intentaba salir de la URSS para reunirse con ella en España y combatir a Franco. No sabían absolutamente nada el uno del otro.

En octubre de 1936, Albacete era un poblachón manchego parado en el tiempo. Para convertirse en centro de operaciones de las Brigadas tenía a su favor ser un enclave políticamente seguro, lejano del frente y a mitad de camino de Madrid y Valencia. La ciudad ha cambiado en estos 75 años, pero en el centro se conservan los escenarios que contemplaron por primera vez los brigadistas al desfilar aclamados por la multitud: el parque de Abelardo Sánchez, la calle Ancha, el Banco de España, la plaza del Altozano, la plaza de toros o el Gran Hotel, donde se emplazaría el Estado Mayor de las Brigadas y trabajaría Lise. En las siguientes semanas, los brigadistas serían divididos por lenguas y enviados al campamento de instrucción de Pozo Rubio, a media hora de la capital, en un bosque expropiado a un terrateniente donde se construyeron toscos barracones de madera. En la zona no se conserva ni un solo recuerdo de los brigadistas; tampoco en las localidades limítrofes (que visitamos junto a Fernando Robetta, del Centro de Estudios y Documentación de las Brigadas Internacionales), donde estuvieron alojados en casas de familias de esos pueblos. Robetta describe a los brigadistas: “Era gente dispuesta a todo. Con corazón, una disciplina brutal, ilusión, ideales, valor; eran revolucionarios seguros de su papel, repletos de un entusiasmo que transmitían a los mismos españoles. Se convirtieron en un símbolo a imitar por los milicianos”.

Cuando se pregunta a los vecinos de Madrigueras, Tarazona, Mahora o Casas Ibáñez sobre aquellos brigadistas del 36, no hay grandes testimonios, pero tampoco nadie conserva un mal recuerdo. Son como parientes en sepia que un día marcharon lejos y de los que nunca nadie volvió a saber. Uno de aquellos brigadistas dejó su nombre grabado en la puerta de una casa de Madrigueras; sus propietarios no lo borraron; guardan la inscripción con cariño: “Berti Neville, London. February 37. Communist Party of Great Britain”. “Posiblemente murió en la batalla del Jarama, en febrero de 1937, como la mayoría de los brigadistas británicos”, nos explica el historiador Justin Byrne, que nos acompaña en el viaje.

Lise London está dormida. Es una anciana guapa; tiene el pelo fino como la seda y la tez tersa. Cuando despierta y sonríe, uno se encuentra en esos ojos negros castigados por el tiempo con la brigadista del 36. Cuando le pregunto si aún se considera comunista, contesta tajante en francés: “Soy comunista, pero no por política; ya rompí el carné. Lo soy por no traicionar el recuerdo de aquellos camaradas que compartieron nuestros sueños y murieron por la libertad”.

-¿Cómo recuerda las Brigadas?

-Fue el mejor momento de mi vida. Siempre han estado en mi recuerdo. Todo me lleva a las Brigadas, a los viejos amigos; sueño con ellos. España fue un ideal, nuestro ideal más querido, y sigue siendo válido.

A las dos semanas de llegar a Albacete, la primera brigada de voluntarios internacionales, la XI, fue enviada con urgencia a Madrid. Estaba formada por 2.000 eslavos, balcánicos, escandinavos, polacos, húngaros, checoslovacos, alemanes y austriacos; apenas tenían formación militar, armas ni uniformes; su único distintivo eran las boinas; detrás iría la XII, integrada por alemanes, italianos y franco-belgas. Las tropas marroquíes de Franco ya habían alcanzado la Ciudad Universitaria. Estaban a un tiro de obús de la Puerta del Sol. La noche del 6 de noviembre, el Gobierno de la República había huido a Valencia y creado una fantasmal Junta de Defensa formada por jóvenes y desconocidos militantes de izquierdas a las órdenes del general Miaja y el coronel Rojo. Santiago Carrillo, un comunista de 21 años, era responsable de Orden Público. “Franco sabía que si Madrid caía, caía la República; y atacó”, recuerda Carrillo. “Madrid era el centro de gravedad de la contienda; si resistíamos, podíamos ganar la guerra; si se perdía, se hundiría la resistencia. Permanecer en Madrid en noviembre del 36 era estar listo para el sacrificio. El que se quedaba estaba dispuesto a luchar. Cuando todo se daba por perdido, el 8 de noviembre de 1936 llegaron los brigadistas. Subieron en formación por la calle de Atocha y la Gran Vía en dirección a la Casa de Campo. Eran unos miles, pero a la gente de Madrid les parecieron millones. Desfilaban por Madrid cantando La Internacional en todos los idiomas y con el puño en alto; y con ese gesto elevaron la moral de los madrileños. No estábamos solos. Ese día se creó la leyenda de ¡No pasarán! Fueron directos a morir a la Casa de Campo. Los brigadistas tuvieron un papel militar no exento de importancia; pero quizá más romántico y político que militar, porque la guerra la hicimos los españoles. En cualquier caso, en 1936 Franco no entró en Madrid”.

Carrillo y Lise London se conocieron durante aquellos días en el frente de Madrid durante un viaje de inspección de André Marty a sus brigadistas. Era el bautismo de fuego de la joven revolucionaria. Se iba a enfrentar sin pestañear a los tableteos de las ametralladoras y los bombardeos sobre la población civil; sería testigo de los miles de mujeres y niños refugiados en las estaciones de metro y sentiría las balas silbando sobre su cabeza en la Ciudad Universitaria; cuando se despidió de Carrillo, este le regaló un Quijote que aún conserva. Su amistad ha resistido 75 años.

Los brigadistas habían frustrado la ofensiva franquista. En pocos días se habían convertido en fuerzas de choque disciplinadas y admiradas por los republicanos. Un modelo a seguir. Combatirían en todos los frentes hasta su retirada a finales del 38. Tras su estancia en el frente de Madrid, Lise, embarazada de cinco meses, perdería su hijo. En 1937 se reencontraría en Valencia con Artur, que, enfermo de tuberculosis y fumador compulsivo, se encargaría de misiones de inteligencia y propaganda en las Brigadas. Aquel terrible invierno de finales del 37, bajo los bombardeos alemanes, con apenas qué comer, la pareja concebiría en Albacete a su hija Françoise: “Temíamos el momento de meternos entre las sábanas húmedas y heladas; cuando le explicaba a Françoise, ya grandecita, que nos la habíamos traído de Albacete, le dije bromeando: ‘Hacía tanto frío en la cama que papá y yo teníamos que abrazarnos muy fuerte para calentarnos. Y así fue como te dimos la vida”, relataría Lise en sus memorias Roja primavera.

La guerra estaba perdida. En octubre de 1938, los brigadistas eran desmovilizados, cruzaban la frontera y eran internados en campos de concentración franceses. A finales del verano del 38, Lise, en el tramo final de su embarazo, había sido evacuada. La seguiría Artur en marzo de 1939 con las tropas de Franco pisándole ya los talones. Tras la derrota se iniciaba un nuevo episodio de la tragedia de los brigadistas. Aquellos soñadores que habían luchado por la libertad en España no podían regresar a Alemania, Austria, Checoslovaquia ni Italia, gobernadas por Hitler y Mussolini. Tampoco a Rumanía, Bulgaria, Yugoslavia, Hungría ni las repúblicas bálticas. Serían represaliados en Brasil, Argentina, Suiza, Canadá y Bélgica por haber combatido junto a un ejército extranjero. Estaban incluso bajo sospecha en Francia, Irlanda y Reino Unido. Se habían convertido en un mito incómodo; héroes de una revolución perdida; miembros de un club de malditos sin fronteras; había que extirparlos del planeta. Fieles al juramento que hicieron a su llegada a Albacete: “Estoy aquí porque soy voluntario, y daré si hace falta hasta la última gota de mi sangre para salvar la libertad en España y la libertad del mundo”, pasarían a la clandestinidad y servirían en la resistencia contra los nazis en toda Europa. Tras la II Guerra Mundial todavía serían purgados en la URSS y sus satélites acusados de espionaje y cosmopolitismo (como le ocurriría a Artur London, preso y torturado entre 1951 y 1956) y, al tiempo, víctimas de la caza de brujas en Estados Unidos por “actividades antiamericanas”.

La clandestinidad, los nombres y papeles falsos, los pisos francos, el rescate de comunistas, la propaganda antifascista, los sabotajes y la lucha armada fueron el destino del matrimonio London y otros muchos republicanos y veteranos de las Brigadas tras la ocupación de Francia por Hitler en junio de 1940. El 1 de agosto de 1942, Lise recibió órdenes de provocar un levantamiento popular contra los nazis en unos almacenes de la parisiense calle de Daguerre. La noche anterior, Artur y ella no durmieron. Hicieron el amor hasta el alba. “¿Presentíamos que no íbamos a vernos durante mucho tiempo, tal vez nunca más?”. La acción subversiva de Lise fue un éxito; llamó al pueblo de París a la “lucha armada”. Hubo un tiroteo y varios policías muertos. Once días más tarde, Lise y Artur eran detenidos. Lise era bien conocida por la Gestapo; tenía todo en contra; sin embargo, la policía no pudo dilucidar quién era Artur. Tenían sospechas, pero no constaba en el fichero; no sabían que era un agente comunista ni un exbrigadista; era un clandestino perfecto y solo fue condenado a diez años de trabajos forzados. Acusada de asesinato, asociación de malhechores y actividades comunistas, el destino de Lise era la guillotina. Sin embargo, algo se les había escapado a los nazis: estaba de nuevo embarazada. Desde el día en que fue concebido, la noche anterior a su acto terrorista de la calle de Daguerre, su hijo estaba destinado a salvarle la vida. Le condenaron a cadena perpetua. Lise lo resume así: “¿Acaso no es un milagro? A cambio de darle la vida, mi hijo salvará la mía”. Artur y Lise serían deportados a Mauthausen y Buchenwald hasta el final de la II Guerra Mundial, en mayo de 1945. Habían formado parte de la Operación Noche y Niebla, iniciada por los nazis para hacer desaparecer a los sujetos indeseables. Ni la maquinaria nazi pudo con ellos.

A comienzos de este mes, Lise ha vuelto a su hogar. Un piso de clase media con un aire soviético, tapizado de libros, en cuyo portal una placa con la Legión de Honor recuerda que allí vivió Artur London, “que estuvo en todos los combates por la libertad y los derechos humanos”. Murió en 1986. Lise no ha logrado olvidarle. Pero cuando le pregunto si toda aquella lucha, si todo ese sufrimiento valió la pena, se incorpora, se echa la mano al corazón, me mira a los ojos y le brotan sus ancestros aragoneses: “¡Por supuesto! Combatimos por la libertad. ¡Valió la pena!”.

17/12/2011 - 16:10h A última brigadista

Ao juntar-se à frente internacional que combateu Francisco Franco, a francesa Lise London, hoje com 95 anos, estava grávida de 3 meses

17 de dezembro de 2011

Jesús Rodríguez, do El País

Resistente. Dos mais de 35 mil voluntários estrangeiros que lutaram na Guerra Civil Espanhola restam apenas uns 20, entre eles a lendária Lise


Quando o compacto grupo de idosos franceses com sotaque espanhol e idosos espanhóis com sotaque francês passou a cantar efusivamente o hino de batalha da nossa Guerra Civil, as pessoas procuraram conter as lágrimas. São as testemunhas de uma história que termina. Uma façanha de ideais e luta pela liberdade que, quando seus últimos protagonistas desaparecerem, ficará enterrada nos livros de história.

Hoje estão aqui. Talvez pela última vez. Têm os cabelos brancos e as mãos rugosas como uma videira. Sobre suas cabeças balançam bandeiras tricolores. Uma centena de veteranos da guerra se reuniu em novembro num local sem turistas de Paris para homenagear os milhares de camaradas que chegaram a esse lugar há 75 anos, vindos de 54 países, para se alistar nas Brigadas Internacionais e lutar durante mais de dois anos contra Francisco Franco nas frentes de Madri, Jarama, Guadalajara, Brunete, Teruel e Ebro. Foram mais de 35 mil. Quase um terço repousa na Espanha em tumbas sem nome. Muitos morreram em campos de concentração franceses e alemães. Os que sobreviveram formaram uma estreita comunidade de sangue que ninguém conseguiu romper.

No inverno passado morreu o último brigadista italiano. Há um sobrevivente no México, dois na Argentina, três na Grã-Bretanha, cinco nos EUA, um na Rússia, dois na Áustria, um estoniano, um israelense e cinco franceses. Estes últimos – César Covo, Théo Francos, os irmãos Vincent e Joseph Almudever e Lise London – poderiam estar em Paris no ato de homenagem. Principalmente Lise, a lendária companheira de Artur London, a última brigadista.

Tem 95 anos. Seu nome era Elisa Ricol, filha de pais espanhóis nascida num vilarejo na França. A família Ricol era o protótipo do proletariado do início do século 20: pessoas pobres, analfabetas, que migraram do campo para a cidade. O velho Ricol era um mineiro que tinha silicose e militava nos sindicatos comunistas. Lise nasceu em 1916. Menina, vendia sorvete nas ruas. Aos 15 anos ingressou na Juventude Comunista. Tinha belos olhos negros, rosto de camafeu, uma elegância socialista em branco e preto que lembrava a de Dolores Ibárruri. Adepta do debate, ela se converteria desde jovem numa profissional da revolução. “Sou aragonesa”, ela ainda reafirma com orgulho. O partido, a luta, estavam em primeiro lugar.

Em 1934, com apenas 18 anos, foi a Moscou convidada pela Internacional para se converter em dirigente comunista. É o que relata Roberto Lample, de 62 anos, francês, de pai anarquista espanhol, a alma do Acer (Associação dos Antigos Combatentes da Espanha Republicana) e companheiro de luta de Lise. “Moscou foi sua escola política. Ela queria escapar de seu destino de mulher proletária. E percebeu que se estudasse, viajasse, sua vida poderia mudar. Lise estava convencida de que não se deve esperar que os outros solucionem seus problemas, é preciso atuar. E isso está em plena vigência no movimento dos indignados.”

Conheceu Stalin, Tito, La Passionaria e Ho Chi Minh. Em Moscou se apaixonou por Artur London, jovem comunista de 19 anos, alto, belo e tuberculoso: um intelectual checo de origem judia que contrabalançava o ímpeto despojado de Lise com seu caráter reflexivo. Lise abandonou o primeiro marido (o comunista Auguste Delaune, que seria executado nos anos 40 pelos nazistas) e uniu seu destino ao de London. Tiveram três filhos e compartilharam 50 anos de luta, desde a União Soviética à Guerra Civil. Uma vida intensa que Costa-Gavras levou para o cinema nos anos 70, com Yves Montand e Simone Signoret, cujo roteiro foi assinado por Jorge Semprún, companheiro de Artur London em Mauthausen.

Barracões, fornos, pijamas listrados. Lise hoje está numa clínica construída depois da 2ª Guerra para acolher os sobreviventes dos campos de concentração, em Fleury-Merogis, a uma hora de Paris. Michel London, seu caçula, um matemático de 62 anos, se oferece para nos levar até ela, advertindo que a mãe está muito debilitada. Ao volante do seu Fiat 500 ele recorda passagens da vida da família, desde os avós maternos espanhóis, os Ricols, que se encarregaram dos filhos do casal London durante sua deportação para os campos nazistas e acolheram em sua casa exilados republicanos, até a família do seu pai, que perdeu 28 membros num campo de concentração.

Michel fala sem ódio: “Minha mãe mal mencionava os campos nazistas. Em 2005 fomos a Mauthausen, onde ficaram detidos meu pai, meu tio e meu cunhado, e também 8 mil republicanos espanhóis e centenas de brigadistas. Estávamos seus três filhos e seus netos. Ela se emocionou, mas com serenidade. Mostrou os barracões, os fornos, os pijamas listrados. Sempre foi muito forte”.

Depois de se alistar nas Brigadas Internacionais nos improvisados escritórios da Rua Mathurin-Moreau, os voluntários iam para a estação de Austerlitz, onde pegavam um trem com destino a Perpignan e dali para a Espanha. Lise London, no dia 28 de outubro, tomou o último trem que atravessou a fronteira. O chefe das brigadas, o herói da revolução bolchevique André Marty, convidou-a para ser sua tradutora. Ela não vacilou. “Havia algo mais emocionante?” Viajavam nesse trem 2.500 homens e algumas mulheres. Depois deles, a fronteira seria fechada pelos franceses para evitar a chegada à Espanha de mais voluntários estrangeiros. Os que quisessem chegar ao front deveriam cruzar ilegalmente os Pirineus com a ajuda de guerrilheiros, como faria Artur.

Depois de alguns dias de viagem, Lise chegou por Barcelona a Albacete, cidade que a república instituiu como quartel-general das brigadas. Estava grávida de três meses. Artur trabalhava para a Internacional e tentou sair da União Soviética para se reunir com ela na Espanha e combater Franco.

Em outubro de 1936, Albacete era um povoado da região da Mancha parado no tempo. Para se tornar o centro de operações das brigadas é porque se tratava de um enclave politicamente seguro, distante do front e no meio do caminho entre Madri e Valência. Os brigadistas foram divididos por línguas e enviados ao acampamento de instrução de Pozo Rubio, a meia hora da capital, num bosque expropriado de um proprietário onde se construíram toscos barracões de madeira.

Duas semanas depois de chegar, a primeira brigada de voluntários internacionais, a XI, foi enviada com urgência a Madri. Era formada por 2 mil eslavos, balcânicos, escandinavos, poloneses, húngaros, checoslovacos, alemães e austríacos. Não tinham quase formação militar, armas nem uniformes. Seu único emblema eram as boinas. Em seguida seguiria a Brigada XII, integrada por alemães, italianos e belgas de língua francesa. As tropas marroquinas de Franco já tinham chegado à Cidade Universitária. Estavam a um tiro de canhão da Puerta del Sol.

Na noite de 6 de novembro, o governo da república tinha fugido para Valência e criado uma Junta de Defesa fantasma formada por militantes das esquerdas jovens e desconhecidos, sob as ordens do general Miaja e do coronel Rojo. Santiago Carrillo, um comunista de 21 anos, era responsável pela ordem pública. “Madri era o centro de gravidade da luta. Se resistíssemos poderíamos ganhar a guerra; se perdêssemos, a resistência afundaria. Quando tudo parecia perdido, em 8 de novembro, chegaram os brigadistas. Eram cerca de mil, mas para o povo de Madri pareciam milhões. Desfilavam pela cidade cantando a Internacional em todos os idiomas, com o punho para o alto; e com esse gesto elevaram o moral dos madrilenhos.

Não estávamos sós. Nesse dia foi adotado o lema No pasarán! Os brigadistas tiveram um papel mais romântico e político do que militar, porque a guerra fomos nós, espanhóis, que a fizemos. De qualquer maneira, em 1936 Franco não entrou em Madri”, lembra Carrillo.

Os brigadistas se converteram em forças de choque admiradas pelos republicanos. Combateriam em todas as frentes até sua retirada em fins de 1938. Depois de sua permanência no front de Madri, Lise, grávida de cinco meses, perderia o filho. Em 1937 ela se reencontraria em Valência com Artur, que, afetado pela tuberculose, iria se encarregar de missões de inteligência e propaganda nas Brigadas. Naquele terrível inverno no fim de 37, sob os bombardeios alemães, com quase nada para comer, o casal teria, em Albacete, sua filha Françoise.

A guerra estava perdida. Em outubro de 1938, os brigadistas cruzavam a fronteira e eram confinados em campos de concentração franceses. No final do verão de 38, Lise, já no fim da segunda gravidez, tinha sido retirada. E logo foi seguida por Artur, em março de 1939, com as tropas de Franco no seu encalço. Depois da derrota teve início um novo episódio da tragédia dos brigadistas: não podiam regressar à Alemanha, Áustria, Checoslováquia nem Itália, governadas por Hitler e Mussolini. Tampouco ir para a Romênia, Bulgária, Iugoslávia, Hungria ou as repúblicas bálticas. Seriam alvo de represálias no Brasil, Argentina, Suíça, Canadá e Bélgica, por terem combatido num exército estrangeiro.

Ficaram sob suspeita na França, na Irlanda e na Grã-Bretanha. E se converteram num mito incômodo, heróis de uma revolução perdida, membros de um clube de malditos sem fronteiras. Passaram para a clandestinidade e serviram na resistência contra os nazistas em toda a Europa. Depois da 2ª Guerra ainda foram expurgados na União Soviética e seus satélites, acusados de espionagem e cosmopolitismo (como ocorreu com Artur London, preso e torturado entre 1951 e 1956) e vítimas da caça às bruxas nos Estados Unidos por “atividades antiamericanas”.

A clandestinidade e a luta armada foram o destino do casal London e de muitos outros republicanos e veteranos das brigadas depois da ocupação da França por Hitler em junho de 1940. Em 1º de agosto de 1942, Lise recebeu ordens de provocar uma revolta popular contra os nazistas em uma das lojas da Rua Daguerre, em Paris. Na noite anterior, Artur e ela não dormiram. Fizeram amor até o amanhecer. “Pressentíamos que não iríamos nos ver por muito tempo, talvez nunca mais.”

A ação subversiva de Lise foi um sucesso: convocou o povo de Paris à luta armada. Houve um tiroteio e vários policiais foram mortos. Onze dias depois, Lise e Artur foram detidos. Lise era bem conhecida da Gestapo, contudo a polícia não conseguiu saber quem era Artur. Seu nome não constava dos arquivos, não sabiam se era um agente comunista ou um ex-brigadista. Era um clandestino perfeito e foi condenado a dez anos de trabalhos forçados. Acusada de assassinato, associação de malfeitores e atividades comunistas, o destino de Lise era a guilhotina.

Mas algo escapara dos nazistas: ela estava de novo grávida. Do dia em que foi concebido, na noite anterior ao seu ato terrorista na Rua Daguerre, seu filho estava destinado a salvar a vida dela. Foi condenada à prisão perpétua. Lise resumiu o fato assim: “Por acaso não é um milagre? Em troca de lhe dar a vida, meu filho salvou a minha”. Artur e Lise seriam deportados para Mauthausen e Buchewald e lá ficariam até o final da 2a. Guerra, em maio de 1945. Haviam participado da Operação Noite e Névoa, iniciada pelos nazistas para fazer desaparecer os tipos indesejáveis. Nem mesmo a máquina nazista os venceu.

No começo deste mês Lise voltou a seu lar. Um apartamento de classe média com aspecto soviético, repleto de livros, onde, na entrada, uma placa com a Legião de Honra lembra que ali viveu Artur London, “que esteve em todos os combates pela liberdade e os direitos humanos”. Ele morreu em 1986. Quando pergunto se toda aquela luta valeu a pena, ela se ergue, coloca a mão no coração, olha nos meus olhos e afloram suas raízes aragonesas: “Mas é claro! Combatemos pela liberdade! Valeu a pena!” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

05/12/2011 - 17:35h A intimidade de Shakespeare


Livro mostra como o bardo inglês se inspirava no cotidiano para escrever suas peças clássicas

05 de dezembro de 2011

UBIRATAN BRASIL – O Estado de S.Paulo

A notável obra de William Shakespeare (1564-1616) tornou-se imortal graças à ação de dois amigos, John Heminges e Henry Condell, que, sete anos após a morte do dramaturgo, cuidadosamente reuniram em livro a maior parte de sua escrita. Salvaram-se, assim, obras-primas como Hamlet, Macbeth e Rei Lear. O que eles não pensaram na época foi guardar registros do cotidiano do bardo inglês, ou seja, documentos sobre os caminhos que relacionam a vida que ele desfrutou com a literatura criada por ele.

Foi esse o ponto de partida para o pesquisador americano Stephen Greenblatt escrever Como Shakespeare se Tornou Shakespeare, que a Companhia das Letras lança nesta semana. Considerado pai da corrente teórica do novo historicismo, Greenblatt traça relações originais, como o catolicismo da família do bardo e o fantasma de Hamlet, para tentar preencher lacunas sobre a biografia shakespeariana. Sobre isso, o acadêmico conversou com o Estado por telefone, desde Boston.

Qual é a maior virtude de Shakespeare que permitiu sua obra perpetuar ao longo dos séculos?

Uma boa questão. Não tenho uma única resposta para definir um artista tão sublime. Para começar, ele avançou a fronteira linguística, pois não é apenas em inglês que sua obra se sobressai. Pode-se dizer que ele criou grandes histórias, o que também seria uma explicação. Ou ainda que sua escrita não se prendeu ao subjugo dos reinados que se formavam, pois Shakespeare foi como Homero, um artista que privilegiou o homem e não o poder. Mas, sua vida ainda está envolvida em muito mistério, o que dificulta uma resposta precisa. O certo é que Shakespeare teve a capacidade para, ao entrar na alma de seus personagens, descrever com argúcia as pessoas que o rodeavam – na verdade, ele enfrentou um desafio que continua atual, ou seja, o de atingir tanto o espectador com gosto refinado como aquele pouco interessado em arte e deixar ambos maravilhados.

Além disso, Shakespeare era também um grande poeta, não?

Em sua época, ele era famoso por sua poesia. Há muitas referências sobre seu trabalho nesse tempo, estudos que reforçam justamente tal qualidade. Ele teve uma vida maravilhosa como poeta, e isso se refletia obviamente em suas peças: Shakespeare era muito sensível aos valores poéticos do texto e, a cada nova montagem, ele pensava cuidadosamente o que era preciso mudar, fazendo inúmeras alterações.

O que mais o surpreendeu na pesquisa sobre Shakespeare?

O desafio em meu livro é tentar mostrar como Shakespeare, a partir da análise de sua obra, parecia ser um homem criativo e generoso, alguém consciente do mundo que o cercava e das delicadas relações envolvendo mulheres, homossexuais, judeus, mas que, por outro lado, na vida real, era alguém prudente, cauteloso, que se aposentou cedo, ou seja, com preocupações típicas de um representante da atual classe média.

É possível dizer, a partir de suas peças, que Shakespeare tinha uma natureza bissexual?

Bem, é difícil ler sua obra sem suspeitar de estar diante de um homem que não apresentava um limite definido entre o que hoje definimos como homo e heterossexual. Afinal, Shakespeare escreveu uma das mais notáveis poesias amorosas do idioma inglês para um jovem. Também em algumas de suas peças há a descrição do amor de um homem pelo outro (geralmente, por alguma razão, o personagem é chamado de Antônio – confira, por exemplo, em Noite de Reis e O Mercador de Veneza). Procurei tratar com cuidado desse assunto. Não sou Joyce, Anthony Burgess ou qualquer outro romancista que poderia maquiar algum fato e torná-lo ficção. Apenas relato histórias. Por outro lado, como na época não havia a divisão ontológica entre homossexuais e heterossexuais, acredito que ele não se preocupava com essa distinção. Afinal, apesar de a sodomia ser considerada, na época, uma ofensa criminal punível até com a morte, não há registros de condenações desse tipo.

Sua curiosidade sobre Shakespeare já está saciada ou pretende escrever mais sobre ele?

Sim, continuo com minha pesquisa. Agora mesmo, trabalho em um livro sobre a qualidade de Shakespeare em contar uma história e de como seus personagens acreditavam desfrutar de uma vida digna de ser relatada e como isso nos parece familiar. Meu interesse atual está na relação entre literatura e história, o processo pelo qual certas obras de arte são notáveis por parecerem escritas diretamente para nós mesmo que seus autores já não estejam mais vivos há muito tempo.

03/12/2011 - 17:00h O ovo da serpente no caos

Trilogia ‘Os Sonâmbulos’ absorve os relatos da decadência expressos, por exemplo, em Nietzsche

Entrada do campo de concentração de Auschwitz, em que se lê 'O trabalho liberta' - Flávia Guerra/AE
Flávia Guerra/AE – Entrada do campo de concentração de Auschwitz, em que se lê ‘O trabalho liberta’

03 de dezembro de 2011

Kathrin Rosenfield – O Estado SP

É empreitada de fôlego e uma dádiva para o público o lançamento de Os Sonâmbulos, de Hermann Broch (1931), com a fluida e ágil tradução de Marcelo Backes, que enfrentou com sucesso os desafios estilísticos dos três volumes. A trilogia deveria despertar o interesse do público da era da globalização. Um século após o período no qual Broch ambienta seu romance, ainda é oportuno refletir sobre o ovo de serpente que envenenou a pacata cultura alemã. Cada volume oferece um glossário e posfácio esclarecendo como Broch absorveu e transformou a seu modo os relatos da decadência de Nietzsche, Oswald Spengler e Karl Kraus, de Kafka e Musil. Como em Manhattan Transfer, de John Dos Passos (1925), os destinos de um aristocrata e de um proletário, de um industrial e de um crápula bom burguês se cruzam e se entrelaçam no ritmo dos acasos que se precipitam para o caos do último volume, ambientado no fim da 1.ª Guerra Mundial: eis o desajeitado despertar da velha Europa para a complexidade da vida moderna que iria desafiar e derrotar as gerações seguintes. Seria exagerado dizer que ainda sentimos a crise de valores que assolava, como um pesadelo, as existências dos personagens da trilogia de Broch no período crucial entre 1888 e 1918?

A 1.ª Guerra não solucionou, apenas acirrou e relançou as antigas crises de identidade religiosas, étnicas e nacionais da Europa. Isso preparou o terreno para o uso mefistofélico dos antigos valores culturais, das hierarquias sociais e dos símbolos religiosos. Broch analisou como a banalização de costumes, rituais e símbolos preparou o terreno para as armadilhas ideológicas, engodos e simulacros do entre guerras. Retratou a face fraudulenta e cotidiana do fim do humanismo, a deriva sonâmbula da razão e do esclarecimento instrumentalizados por forças irracionais. No primeiro volume, Pasenow ou o Romantismo /1888, prevalece ainda o tom melancólico e a ambiguidade onírica do romantismo exposto à prosa do mundo. Pasenow, descendente da aristocracia rural prussiana, procura manter a postura e salvar seus ideais de pureza ética, estética e erótica. Seu refúgio é a farda militar, cuja correção e decência o salvam temporariamente dos fantasmas labirínticos, atraído pelas sombras da amante sensual e da esposa virginal, oscilando entre o rígido mundo paterno e o de Bertrand, o industrial esteta e homossexual. Este último é o emblema temido do mundo moderno e liberal, que ameaça os ideais envelhecidos. Mas ele é também o objeto do desejo reprimido de Pasenow e de sua noiva.

A mesma errância repete-se, em estilo pequeno-burguês, no segundo volume, Esch ou a Anarquia 1903, ambientado no centro industrial do Reno. Agora, uma artista de circo faz o papel de Dulcineia, mas o sonho de pureza não impede Esch de satisfazer suas fantasias sexuais com Erna e sua nostalgia de decência e estabilidade com uma sóbria viúva. Impulsos repentinos irrompem, dilapidando novamente a breve estabilidade financeira do contador demitido, que dissipa as posses da esposa com a mesma aleatoriedade com que dá vazão aos seus pendores eróticos e religiosos. Inconsciente de si e do mundo, ele passa do conservadorismo à luta sindical, da compenetração religiosa ao voyeurismo (quando promove lutas de boxe feminino). A cultura resume-se para ele num bibelô da estátua de Schiller e ele sonha em alinhá-la com a Torre Eiffel e a Estátua de Liberdade – em forma de souvenires, já que sua perspectiva diminuta o impede de captar as dimensões da tecnologia moderna e da convivência emancipada nas metrópoles democráticas. Esch seria um personagem burlesco, não houvesse no fundo de sua flexibilidade a rigidez pétrea que o levam, por exemplo, a denunciar a homossexualidade de Bertrand, que será empurrado para o suicídio.

Huguenau ou a Objetividade 1918 é bem mais que a história do oportunista inescrupuloso, desertor, assassino, fraudador e chantagista, crápula bem-sucedido que se instala no conforto do bom burguês respeitado e próspero de sua cidade na Alsácia. É um retrato da cultura europeia transformada em “pilha de imagens rotas”, terra devastada pela 1.ª Guerra Mundial. A ruína é tangível na cacofonia de estilos (da carta comercial à elevação mística e de volta aos lugares comuns do Exército de Salvação). O cinismo indiferente e tranquilo é a flor que brota dos escombros éticos, estéticos e humanos da cultura humanística. Sua dureza tem uma única falha: as saudades de um Führer, que Broch imagina como um “portador da salvação que perambula na roupa mais modesta e talvez seja o passante que exatamente agora atravessa a rua”. Uma antecipação do nazismo e do mal radical dos Gulags e campos de concentração. Os meses que Broch ficou preso após o Anschluss vão fortalecer a ideia da inevitável “traição” da vida pela cultura. Ela toma forma no livro A Morte de Virgílio, espécie de elegia do poeta (Virgílio-Broch), cujo último desejo é destruir a própria obra: sinal do dilema da assimilação que se manifesta também na aura internacional – mais berlinense que vienense de Broch. Quem não soubesse que Broch é um judeu vienense convertido ao catolicismo talvez não o associasse a Hofmannsthal, Schnitzler e Musil.

Kathrin Holzermayr Lerrer Rosenfield, doutora em Ciência da Literatura pela Universidade de Salzburgo, é professora associada da UFRGS e autora de Antigone. Sophocles’ Art, Hölderlin’s Insights (Davies Group, EUA) e A Linguagem Liberada (Perspectiva), entre outros livros

OS SONÂMBULOS – VOL. 3
HUGUENAU OU A OBJETIVIDADE
Autor: Hermann Broch
Tradução: Marcelo Backes
Editora: Benvirá
(500 págs., R$ 39,90)

03/12/2011 - 15:19h Foto mostra Dilma Rousseff durante interrrogatório em 1970


Aos 22 anos, futura presidente estava sendo questionada sobre a participação na luta armada

Estadão.com.br

Foto inédita mostra a presidente Dilma Rousseff durante um interrrogatório em novembro de 1970, na sede da Auditoria Militar, no Rio de Janeiro. Na época, Dilma tinha 22 anos de idade.

As pessoas que escondem o rosto, ao fundo, são os oficiais que questionavam a então guerrilheira sobre sua participação na luta armada que ocorria no País.

Fotografia faz parte do livro A vida quer coragem, que será lançado neste mês pelo pelo jornalista Ricardo Amaral.

26/11/2011 - 17:26h PENSAMIENTO POLÍTICO DE DON JOSÉ DE SAN MARTÍN Y SIMÓN BOLÍVAR

Flor E. Vera Silva – Blog Los Libertadores

Según las consideraciones de Manfred Kossok, el periodo de la independencia pasó por dos momentos bastante bien definidos. Por un lado, la etapa temprana donde se formaron las Juntas de Gobierno en Hispanoamérica y se promovieron proyectos regionales. La etapa tardía, por otro lado, en la que se basaron las autonomías regionales en busca de un proyecto de carácter continental. Aquí es donde encajan las campañas de San Martín y Bolívar. Por lo tanto para consolidar la independencia era necesario pasar por un proceso de maduración.
El tiempo de San Martín y bolivar aportó la organización militar de la que carecía nuestra generación precursora, la conducción de lo bélico y lo político en manos que tenían profunda experiencia, carisma, certidumbre y, por último, la verdad cierta y objetiva de la unidad de la emancipación del mundo hispanoamericano.

En tanto que Bolívar luchaba para libertar la franja norte de los países sudamericanos, San Martín luchaba de la misma manera en el sur. En efecto, las fuerzas de estos dos grandes generales eran las garras de unas gigantes tenazas, los dos apuntaban, hacia el último fuerte del poderío español, Perú. Como Bolívar, San Martín era un genio militar, pero de una especie totalmente distinta. Donde Bolívar era táctico brillante, San Martín era un estratega magnífico y proyectaba cuidadosamente.

El pensamiento político de San Martín se basa en la instauración de una Monarquía Constitucional similar a la de la corona inglesa, ya que esta era la fórmula adecuada para evitar la entronización de la anarquía en la América española; asimismo considera que el instaurar monarquías autónomas en los antiguos reinos indiano-hispánicos sería un antídoto contra su posible disgregación causada por el incremento de los sentimientos localista. Así es que todos sus esfuerzos se encaminaron a prepararle el terreno. Conservó la nobleza, nacionalizándola, tanto para que sirviera de ornato al trono, como para no chocar con la fuerza social que representaba. Los títulos de Castilla pasaron a denominarse títulos del Perú. A su lado constituyó la Orden del Sol, para crear una aristocracia del talento, del valor y las virtudes cívicas. Además, el legado político de San Martín implica, para todos aquellos movilizados por los valores de la libertad, del respeto a la voluntad popular, la democracia y el respeto a los preceptos constitucionales, rescatar el espíritu eminentemente libre desde donde se asienta la grandeza de sus convicciones de independencia. Por otro lado el pensamiento y el proyecto político de Simón Bolívar no pueden comprenderse sino en sintonía con las doctrinas que dieron nacimiento a los EE.UU. de Norteamérica y a la LaRevolucionFrancesa. Siempre creía en la democracia, su meta final fue esa, las continuas luchas para la creación de sociedades democráticas en la antigua América española. Simón Bolívar predica con ejemplo la subordinación de la institución armada, majestad suprema del poder civil de entonces, sin embargo a pesar del mandato civil, siempre obedeció a la visión enana de ambiciones envilecidas, por ello nunca perdió dignidad. Tenía la fuerza, el prestigio, la autoridad moral y la suficiente razón para hacerlo, sin embargo nunca lo hizo. Tomó siempre el camino de la obediencia institucional y lo demuestra cuando entrega el mando a Sucre. En conclusión podemos esbozar que este pensamiento tiene una gran divergencia al pensamiento de San Martín ya que tiene ideas de integración tanto en el plano económico, social y político; en el ámbito político, buscaba la integración y defensa continental de Hispanoamérica frente a la Santa Alianza, EE.UU. y Brasil, además buscaba un gobierno fuerte para mantener la estabilidad política de esta región y es por ello que opta por el sistema de gobierno republicano. La República es un sistema de gobierno en que el poder reside en el pueblo, personificado por un jefe supremo llamado presidente. Como es de conocimiento, en el Perú se instauró un sistema republicano que a la vez trajo muchos conflictos internos con el objetivo de llegar al poder.
Podemos rescatar que las concepciones políticas sanmartinianas no lograron arraigar entre los americanos; su patria, Argentina, vivió aciagos días de pugnas fratricidas; el Perú, tras el colapso del Protectorado sanmartiniano, cayó bajo la influencia de varios caudillos rivales y sufrió un largo período de caótica inestabilidad. En tanto que las concepciones políticas bolivarianas aun muertas, cada día son más fuertes en la vida del continente sudamericano. Bolívar soñó en la unificación de todos los países en los que luchó, porque veníamos de raíces similares, pero la ambición y la traición evitaron esta unificación, que ahora busca manifestarse mediante diversas organizaciones latinoamericanas.

Flor E. Vera Silva

22/11/2011 - 17:00h Um embaixador com vontade de trabalhar

Rubens Barbosa: integração sul-americana depende de que vizinhos vejam o Brasil em boas relações com os EUA


Por Cristiano Romero | VALOR

De Brasília

“O Brasil é como o Texas. Somos grandes, pensamos que somos maiores do que na realidade somos e estamos sempre em choque com os Estados Unidos.” A frase, de autoria do embaixador Rubens Barbosa, foi publicada em jornais americanos no início de 2004, quando o então diplomata se despedia de Washington, posto mais importante de sua longa carreira no Itamaraty (42 anos).

O gracejo está no livro “O Dissenso de Washington: Notas de um observador privilegiado sobre as relações Brasil-Estados Unidos”, que o embaixador acaba de lançar. Dividido em oito capítulos, o livro retrata o momento histórico em que os americanos começaram a perceber a emergência do Brasil como uma potência regional e um ator global cada vez mais relevante.

Barbosa estava lá. Depois de servir durante cinco anos como embaixador em Londres, pediu ao então presidente Fernando Henrique Cardoso e ao chanceler Luiz Felipe Lampreia para comandar a representação na capital americana, cargo que exerceu, a partir de meados de 1999, durante 1.782 dias, como fez questão de assinalar no livro.

Nesse período, possivelmente o mais rico da história das relações Brasil-EUA, Barbosa serviu a dois governos (FHC e Lula) e assistiu, de perto, à sucessão de fatos históricos, entre os quais, os ataques terroristas de 11 de setembro, que definiram o início do século XXI. “Workaholic”, jamais aceitou o papel clássico do embaixador encastelado em palácios e residências luxuosos, à espera de instruções de Brasília. Na maioria das vezes, fez o papel inverso, ao atuar como idealizador de ações que visaram aumentar o conhecimento do Brasil em Washington e intensificar as relações com a superpotência.

Sem alimentar ilusões, Barbosa constatou que, no hemisfério ocidental, apenas o Brasil é capaz de criar um espaço diplomático próprio e de assegurar algum grau de autonomia como potência regional. “(…) contudo, entendi que essa singularização do Brasil se limitava ao contexto das Américas”, diz no livro.

Barbosa aprendeu rapidamente também que o próprio sucesso da integração sul-americana depende da percepção, pelos países vizinhos, de que o Brasil tem uma boa relação com os EUA. “A ideia do governo Lula de oferecer o Brasil como opção aos EUA não faria sentido, sendo previsível que a maioria de nossos vizinhos não aceitaria essa alternativa.”

O embaixador descobriu que as principais potências emergentes – China, Índia e Rússia, que formam com o Brasil o BRIC – cultivam relação prioritária com os americanos, especialmente após o 11 de setembro. “Esses países souberam ajustar-se, construindo novos espaços de cooperação com os EUA, como o combate ao terrorismo, mesmo com algum ônus político interno, e conseguiram garantir vantagens do ponto de vista de seus próprios interesses.”

Barbosa relata o entusiasmo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em ter uma relação privilegiada e pragmática com os americanos. Ao longo do tempo, no entanto, as intenções ficaram restritas à retórica. O que se viu foi a escalada do antiamericanismo, especialmente após a invasão do Iraque, pelos EUA, em março de 2003.

O embaixador, que trabalhou nos bastidores para que o presidente George W. Bush recebesse Lula antes de sua posse, diz que o encontro foi tão cordial que o presidente americano chegou a chamar o brasileiro de “republicano bushista”, por defender o envolvimento da sociedade na solução dos problemas do país. “I like this guy [Eu gosto desse cara]“, teria comentado Bush.

Lula, por sua vez, considerou Bush simpático e disse a assessores que não faria um governo “ideológico”. Contudo, a crescente influência do PT no Itamaraty, sustenta Barbosa, minou os esforços de aproximação dos dois presidentes.

O embaixador conta história que ouviu da então representante dos EUA no Brasil, Donna Hrinak, diplomata que também trabalhou arduamente para pavimentar boas relações entre Bush e Lula. Numa conversa, em 2003, com a subsecretária política do Itamaraty, Vera Pedrosa, sobre problemas bilaterais, entre eles, a redação do documento final da Conferência de Cúpula das Américas em Monterrey, e a demora na concessão de vistos para cidadãos americanos, Donna teria mencionado que um impasse nas negociações não seria bom para as relações entre os dois países. “Nós realmente não nos importamos com a relação Brasil-EUA”, teria dito Vera.

Anos depois, consultada por Barbosa, a subsecretária desmentiu a declaração e atribuiu a “negatividade” percebida por Donna, relata o embaixador, a “um salto interpretativo e reflexo de sua possível decepção com o resultado da gestão efetuada por ela”. “Interpretações à parte, o que Donna Hrinak me confidenciou em janeiro de 2004 foi que de fato a preocupação do Departamento de Estado com o Brasil aumentara”, conta Barbosa.

As desconfianças eram mútuas. Barbosa relata que, na véspera da visita de FHC a Washington, em março de 2001, os telefones da embaixada começaram a funcionar mal. Ele decidiu, então, encomendar uma varredura, que constatou a existência de grampo. Foi descoberta uma linha telefônica direta entre a embaixada e o Departamento de Defesa, um fato grave que ficou por isso mesmo.

A parte mais rica do livro de Barbosa são justamente as memórias do seu período à frente da embaixada – de junho de 1999 a março de 2004. Ele faz, também, uma análise da política externa brasileira em relação aos EUA no período que vai de abril de 2004 a maio de 2011. É leitura obrigatória para quem deseja entender a complexidade das relações entre Brasil e EUA.


“O Dissenso de Washington”

Rubens Barbosa. Agir. 365 págs., R$ 47,90

29/10/2011 - 11:25h Inserção da América Latina

29 de outubro de 2011

Silviano Santiago – O Estado SP

Em célebre quadro dos anos 1940, o artista plástico uruguaio Joaquín Torres García (1874-1949) desconstruiu o sentido da organização do mundo por hemisférios e a hierarquia ideológica nele representada. O Norte como origem e centro da História e o Sul como colonização tardia do Ocidente. Progresso em cima e atraso embaixo, em termos corriqueiros. No quadro, Torres García inverte a imagem da América do Sul que costumeiramente encontramos nos livros e que, desde a infância, está impressa na mente das crianças alfabetizadas. A escolha da imagem e a estratégia de inversão (de ponta-cabeça) servem para atestar o gesto precoce, atrevido e utópico de inserção da América Latina no mundo civilizado. Atesta, ainda, a favor da preeminência da Geografia sobre a História, do espaço sobre o tempo e declara a ambiguidade do papel desempenhado pelas cartas geográficas na compreensão das nações colonizadoras se vistas da perspectiva pós-moderna.

Ao analisar em Orientalismo – O Oriente como Invenção do Ocidente a biografia e a atuação política de Lorde Curzon (1859-1925), líder intelectual do colonialismo inglês, Edward Said anota ter sido ele o principal responsável pela grande transformação por que passa a geografia no mundo moderno. De algo “enfadonho e pedante”, escreve Said, a geografia se transformou na “mais cosmopolita de todas as ciências”. Sem dúvida, um dos bons exemplos do valor ideológico da geografia e da cartografia se encontra no processo de caracterização do aventureiro Marlow no romance O Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad. Na adaptação do romance por Francis Coppola, os mapas em papel são desenhados em luz pelo radar. Ao trazer a ação para a atualidade do Vietnã, o filme Apocalipse Now dramatiza a varredura do terreno por mapas eletrônicos que guiam os pilotos dos helicópteros e dos aviões de caça. O mundo como alvo. Das palavras do romance de Conrad se serviu T.S. Eliot no poema Os Homens Ocos.

Proposta por Torres García, a inversão na representação clássica do mapa mundial descondiciona e desestabiliza o saber visual etnocêntrico do mundo. Diante da imagem precoce e atrevida do uruguaio, o espectador é levado a desconsiderar as antigas coordenadas históricas, sociais e econômicas, a fim de substituí-las pela experiência pós-colonial do Sul. Ao relegar o próprio da formação da América Latina e priorizar objetivamente o próprio da sua inserção tardia, a inversão proposta pelo quadro rodopia em torno dum traço que se alonga da esquerda para a direita no quadro. Representa a imutável linha do Equador.

Ensaístas e artistas brasileiros sempre se lembram da frase do teólogo e historiador holandês Caspar Barlaeus (1584- 1648), desentranhada por Euclides da Cunha em À Margem da História, “ultra aequinotialem non peccavi” (não existe pecado abaixo do Equador). A frase foi retomada por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Percebeu que nela se embutia a precaução contra o caráter perigosamente depravado do Sul: “Como se a linha que divide os hemisférios separasse também a virtude do vício”. Por sua vez, seu filho Chico Buarque retoma a frase de Barlaeus a fim de inverter – à maneira de Torres García – o significado dos valores morais por ela expressos. Escute-se a canção Não Existe Pecado ao Sul do Equador, de preferência dita pela voz e o corpo de Ney Matogrosso.

No seu livro Universalismo Construtivo (1941), Torres García explica a solução encontrada para o famoso desenho: “Pomos o mapa de cabeça pra baixo e então temos a ideia justa da nossa posição, e não como quer o resto do mundo”. A agulha imantada da bússola funciona também de maneira matreira. O sol a brilhar ao Sul obscurece o Norte magnético. Desse tipo de representação, não está isento o nacionalismo, pois o Uruguai, no novo mapa, vem marcado com o evidente sinal de +.

O mais desembestado dos intelectuais a pôr por terra as pretensões nacionalistas ou neouniversalistas da América Latina será contraditória, ou paradoxalmente, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. Diante das paisagens não europeias entrevistas, ele salienta menos o exotismo (da vegetação, dos costumes, das vestimentas, etc.) e salienta mais o que lhe parece e julga como fora de moda. Em Tristes Tropiques, anota: “Os trópicos são menos exóticos do que obsoletos (démodés)”. Historicamente, as jovens nações crescem ultrapassadas porque são cópia tardia e servil do modelo metropolitano. A substituição do exótico pelo fora de moda alimenta o retorno imprevisto ao etnocentrismo, de que o etnógrafo quer, ou deveria liberar-se. Essa espécie particular e ambígua de etnocentrismo se nutre com a noção fundamental de pureza original.

Em outra passagem do livro, o viajante cosmopolita comenta: “ter visitado a minha primeira universidade inglesa no campus de edifícios neogóticos de Daca, no Bengala oriental, incita-me agora a considerar a Universidade de Oxford como uma Índia que tivesse conseguido controlar a lama, o mofo e as exuberâncias da vegetação”. Depois da colonização britânica, ter visitado em Daca a universidade cópia de Oxford leva-o a considerar a qualidade do que é europeu: o controle da lama, do mofo e das exuberâncias da vegetação.

Já Paulo Eduardo Arantes é mais feliz na análise do pensamento francês que funda a Universidade de São Paulo: “afinal um pastiche programado em início de carreira é bem melhor do que uma vida inteira de pastiches inconscientes”. Robert Schwarz acrescenta que Paulo “procura enxergar nas constelações um pouco esdrúxulas e por assim dizer defeituosas do esforço filosófico local, historicamente inevitáveis, a revelação de aspectos reais da filosofia europeia, que nas suas condições de origem não ficavam patentes”.

mailto:lviano.santiago@estadao.com.br

04/06/2011 - 17:00h A instituição da paranoia


Novo estudo mostra como a Inquisição usou o terror para manter o controle social

Marcos Guterman – O Estado de S.Paulo

A Inquisição foi o triunfo da organização burocrática para o estabelecimento de uma atmosfera de terror que tinha como objetivo manter a sociedade sob controle político e ideológico feroz, em quatro continentes. Estabeleceu a culpa como algo inescapável, e quem ousasse resistir a isso enlouquecia em sessões de tortura ou ardia nas fogueiras “purificadoras”. Sobretudo, estabeleceu que o real não existia mais, senão como elaboração das autoridades eclesiásticas. Na visão do historiador britânico Toby Green, autor de Inquisição – O Reino do Terror (Objetiva), que acaba de sair no Brasil, os inquisidores seriam, nesse sentido, a “primeira semente” dos regimes de extrema direita que assombrariam o século 20. “A instituição da Inquisição implicava uma ideia nova de Estado e poder político”, disse Green em entrevista ao Sabático.

O livro de Green mostra que a função da autoridade, nesse contexto, é a de determinar a racionalidade dessa ficção construída pelo terror. Nada pode contrariar o ditado pela autoridade, por motivos óbvios: a contestação fere a tão desejada lógica. A autoridade se legitima por “conhecer” o subterrâneo, as mensagens subjacentes, o sistema invisível – e, portanto, é a única capaz de legislar. O desejo da autoridade deve ser interpretado como a verdade.

O interrogatório da Inquisição fazia o interrogado admitir a culpa sobre algo que ele muitas vezes nem imaginava o que fosse. O contexto do processo era inteiramente mantido em segredo, para que ao réu não restasse alternativa senão admitir como fato não a realidade, mas o que a autoridade inquisitorial afirmava ser a realidade. Tudo era elaborado para que houvesse a confissão “espontânea” – e a responsabilidade pela tortura era do torturado, porque resistiu à confissão.

O terror da perspectiva do suplício era um dos pilares do sistema. O outro era a onipresença da Inquisição, graças ao estímulo à delação, justamente o fator que gerava energia para o trabalho dos inquisidores – o ônus da prova cabia sempre ao acusado, e o réu era obrigado a apresentar testemunhas de sua inocência, enquanto o delator podia manter-se anônimo. Denunciar supostos hereges não era um direito, mas uma obrigação religiosa, que constava em “editais da fé”. Era, portanto, um sistema que se autoalimentava e que criou toda uma mise-en-scène, os “autos de fé”, para impressionar a arraia-miúda e legitimar sua ação. Não restava ao réu nenhuma alternativa senão admitir sua “culpa”, e então o circuito se fechava, conferindo a lógica perfeita ao discurso inquisitorial.

O interesse de Green, diante dessas constatações, é mostrar o aspecto que ele chama de “psicológico” da perseguição inquisitorial. É esse o trunfo que o britânico diz ter em sua abordagem, porque, segundo ele, a historiografia tradicional sobre o tema se centra na instituição da Inquisição e na tortura, enquanto o lado emocional “fica relegado pelos historiadores aos romancistas”.

De fato, a historiografia da Inquisição, grosso modo, está preocupada com as relações de poder e com o modelo legal aplicado aos réus dos processos. A reconstrução da mentalidade da época induziu Green a sugerir que “a Inquisição havia construído uma sociedade cada vez mais neurótica”, por causa da “repressão de instintos”. Questionado sobre se essa visão freudiana – isto é, um modelo teórico com a enorme carga de modernidade racional do início do século 20, fruto do “desencantamento do mundo” – não seria anacrônica para esquadrinhar um momento da história em que a religião era o centro do poder, Green rebate em duas frentes. Primeiro, argumenta que os óculos de Freud são “recursos legítimos para enxergar não somente o que aconteceu, mas por que aconteceu”, na medida em que identifica a reação da mente à repressão; segundo, ele contesta que a religião fosse central na Inquisição.

“A Inquisição tinha mais a ver com o poder do Estado, secular, do que com as leis de religião, que muitas vezes não tinham muita relação com as próprias normas da Inquisição”, explicou Green na entrevista. Em sua visão, o poder da Inquisição crescia ou declinava segundo o poder de ação dos monarcas – quanto mais os reis precisavam de controle e de riqueza, mais a violência inquisitorial se expandia. Esse perfil ficou claro principalmente com a Inquisição espanhola, instalada em 1478 e que só foi desmontada em 1834.

Nesse longo período, criou-se um sistema de invenção de inimigos para mascarar o declínio acelerado dos impérios ibéricos – a historiadora Anita Novinsky, principal estudiosa da Inquisição no Brasil, considera o próprio estabelecimento dos tribunais eclesiásticos como o sintoma central dessa decadência, cuja culminância foi a limpeza étnica, fatal para o desenvolvimento intelectual e econômico português e espanhol. Na opinião de Green, que incorpora o modelo teórico de Novinsky, a Inquisição “revela as origens do racismo moderno, ao escolher o caminho da limpeza do sangue, que é uma temática de suma importância para compreender a história do Estado moderno”.

De fato, há historiadores consagrados, como Raul Hillberg, que sustentam existir uma relação ideológica entre os éditos católicos a respeito do tratamento dos judeus ao longo da Era Moderna e as diversas leis nazistas a propósito da “pureza do sangue ariano”. É difícil não se dobrar às evidências que mostram que, tanto em um caso como em outro, “pureza de sangue” queria dizer exatamente a mesma coisa: sangue sem traços judaicos. Também não é possível escapar da sugestão segundo a qual a ubiquidade do terror era o esteio da coesão social desejada no nazismo quanto na Inquisição. Os menores detalhes do cotidiano eram objeto de paranoia, porque poderiam ser interpretados como traição ao projeto de “aperfeiçoamento” social e religioso, a partir de leis propositalmente confusas e arbitrárias. Somente as “autoridades” eram capazes de fornecer a lógica necessária para dar diretrizes racionais em meio a esse caos. Aos demais, restava aceder e renunciar à capacidade de refletir sobre o mundo.

Mesmo correndo o risco do anacronismo, Green diz que vale a pena explorar essas semelhanças. Ele admite que Torquemada – o mais emblemático inquisidor ibérico – e Hitler não podem ser comparados, mas “um pode ser a semente do outro”. E o historiador não se contenta com os nazistas. Ele sugere que os ditadores Francisco Franco, na Espanha, e Antonio Salazar, em Portugal, refletiam, de certa maneira, as mesmas profundas divisões sociais que a Inquisição passou séculos tratando de controlar.

O domínio de Salazar e Franco, na visão de Green, respeita a mesma lógica dos inquisidores – era preciso alimentar um inimigo interno para justificar o arbítrio, em nome de uma visão distorcida do mundo. Green não escreve, mas está claro que é uma referência aos atropelos jurídicos da “guerra ao terror” empreendida pelos americanos, movidos por um governo que dividiu o mundo em “conosco” e “contra nós”. “É um processo que toda sociedade expansionista tem experimentado”, disse Green. “O que a Inquisição mostra, e também a “guerra ao terror”, é que a busca de inimigos externos sempre pode acabar numa caçada aos inimigos internos. Por essa razão é algo tão perigoso.”

10/04/2011 - 17:00h O último triângulo rosa

Homossexual, Rudolf Brazda, de 98 anos, conta em livro o tempo em que viveu no campo de concentração nazista de Buchenwald

Andrei Netto – O Estado de S.Paulo

ENVIADO ESPECIAL / MULHOUSE, FRANÇA

O silêncio se estendeu por um instante e o olhar se perdeu em um ponto futuro quando Rudolf Brazda foi questionado sobre sua sobrevivência ao nazismo. Então, como parece fazer quando falar lhe exige esforço extra, moveu a cabeça para trás em um movimento terno, repousando-a no ombro de seu amigo Jean-Luc Schwab. “Nós tentávamos sobreviver como podíamos e nos adaptar, sem deixar que aquela experiência nos destruísse”, explicou, após um momento de introspecção. “De alguma forma aquela perseguição combinava com o nazismo.”

Brazda, a quem a reportagem do Estado entrevistou na sexta-feira, em Mulhouse, na França, é tido como o último “triângulo rosa”. A designação foi criada em alusão ao símbolo afixado nas roupas de 10 mil homossexuais deportados para campos de concentração durante a 2ª Guerra. Aos 98 anos, seu vigor físico se esvai, mas a força do espírito segue intacta para testemunhar a perseguição que sofreu na Alemanha nazista, com outros 100 mil gays fichados pela SS e pela Gestapo por crime de luxúria nos anos mais sombrios da história da Europa.

Um desses testemunhos foi imortalizado por Jean-Luc Schwab, autor de Triângulo Rosa – Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista, lançado no Brasil essa semana pela Mescla Editorial. Baseado em dezenas de horas de depoimentos, em entrevistas com personagens que passaram por sua vida e documentos oficiais sobre o nazismo dos arquivos alemães e checos, o livro mescla apuração jornalística à pesquisa histórica para reconstituir a vida de último gay sobrevivente. E transforma-se num raro documento sobre a vertente menos estudada dos crimes do nazismo: a obsessiva perseguição sexual exercida contra estrangeiros e alemães por Adolf Hitler.

Não que as leis que estabeleciam penas de prisão para homossexuais tenham sido criadas pelo führer e seus cúmplices. A exemplo do sentimento de superioridade da raça ariana, a recriminação da homossexualidade era latente na moral alemã – e não apenas nela – no final do século 19, época da unificação do país. A rejeição à diferença era expressa, entre outros, no célebre artigo 175 do código penal do 2º Reich, que estabelecia “a luxúria contra o que é natural, realizada entre pessoas do sexo masculino ou entre homem e animal”, como crime passível de prisão e de perda dos direitos civis.

Porém, até a República de Weimar, no entre guerras, o discurso contra a homossexualidade em boa parte dos Estados da federação alemã não passava de retórica destinada a constranger e humilhar publicamente os que expunham suas preferências. É a partir de 1933, com a ascensão do nacional-socialismo ao poder, que a perseguição se amplifica. Hitler muda o discurso – antes ambíguo, alternando entre o preconceito e o convívio amistoso – e faz do combate aos gays parte da ideologia do sistema. “Os judeus eram para Hitler a ameaça à pureza da raça ariana. Os homossexuais, a suposta ameaça à perpetuação da raça”, explica Schwab.

Memorial aos gays mortos. Sintonizado com o pensamento de sua época, Brazda considerava heterossexuais como “os normais”, e a homossexualidade como uma espécie de deficiência, um defeito que não necessariamente deveria ser escondido. Ser gay, para ele, era um complexo exercício de contradições entre algum grau de vergonha diante do olhar da sociedade e a necessidade de assumir sua diferença sem complexos. “O homossexualismo faz parte da vida porque faz parte da natureza. É a natureza que nos marca”, entende ele, hoje. “Ou não se aceita, ou se aceita. Eu me aceitei. É dessa forma que fui feliz.”

O testemunho de Brazda sobre os campos de concentração só se tornou público em 2008, quando o governo alemão inaugurou em Berlim um memorial aos gays mortos durante o nazismo, o Homosexuellen-Denkmal. Até então, imaginava-se que não havia mais homossexuais vivos que tivessem sido vítimas do nacional-socialismo. Seu nome não constava da lista de homenageados, cujo expoente era Pierre Seel, tido até então como a última testemunha. Aos 95 anos, Brazda cedeu aos apelos de uma sobrinha para se revelar como sobrevivente dos campos. “Sempre pensei que minha experiência não interessasse a ninguém, em especial após a guerra, quando todos tinham tantos problemas a resolver”, justifica.

Pois interessava. Desde então, um segundo livro vem sendo preparado na Europa tendo como centro de interesse seu período no campo de Buchenwald, no leste da Alemanha. Hoje convencido da importância de seu testemunho, Brazda, mesmo enfraquecido pela idade avançada, não se furta mais a falar sobre sua vida.

Nascido em 23 de junho de 1913 no vilarejo alemão de Brossen, Brazda era o oitavo filho de um casal originário do vizinho Império Austro-Húngaro. Mesmo que sua língua e cultura fossem germânicas, do ponto de vista legal era checo – a confusão de origens gerou nele desapego às nacionalidades, a ponto de ficar 15 anos apátrida após a 2ª Guerra. Filho de mineiros, deixou a escola aos 14 anos para trabalhar, sonhando tornar-se comerciário. Acabou aprendiz de telhador. Ao final da adolescência, entendia-se “às maravilhas” com as mulheres, mas percebeu logo que não era por elas que se sentia fisicamente atraído.

Descobriu então a homossexualidade, da qual tinha imagem negativa por associá-la à miséria e à prostituição em sua região, a Saxônia. Carismático e bom dançarino, tornou-se o par preferido das moças da cidade, de quem era fiel conselheiro. Órfão de pai desde os 8 anos e xodó de uma família de operários comunistas, Brazda encontrou em casa um ambiente de tolerância em relação a sua orientação sexual. Aos 20, cercado de amigas e amigos, expunha sua sexualidade sem constrangimentos. “Eu tinha sete irmãos e irmãs, era o caçula e todos gostavam muito de mim. Além disso, sempre recebia apenas meninos em casa. Acredito que eles em algum momento entenderam a minha homossexualidade e a aceitaram bem.”

A aceitação era tal que sua família chegou a organizar um “almoço de núpcias” quando decidira “oficializar” sua relação com Werner, seu primeiro amor. Com ele, passou a viver em uma pensão dividindo o mesmo quarto, sem oposição da proprietária da hospedaria, fiel testemunha de Jeová – outro sinal da liberalidade da cultura local. “Werner e eu tínhamos uma vida de casal, com um lar. Vivíamos abertamente”, assegura.

A radicalização teve início em 1933, com a ascensão de Hitler ao poder. Até então, Berlim era centro da vida homossexual na Europa. Brazda costumava divertir-se chamando em público seus amigos por nomes ou apelidos femininos. Werner era “Uschi”, Albert, “gorda Berta”. Levava corações de chocolate ao namorado em seu ambiente de trabalho e frequentava bares gays, como o Café New York, em Leipzig, sem ser perturbado. A repressão demoraria a chegar ao interior, até contaminá-lo de vez por uma peste: a denúncia. “Quando aconteceu, a mudança entre a liberdade e a repressão acabou não sendo muito surpreendente”, conta. “Os alemães estavam obcecados pela ideia da pureza da raça ariana. E eu sempre achei uma ideia absolutamente estúpida e inaceitável.”

Em 1936, o cenário de tolerância havia se invertido. Ao mesmo tempo, a guerra se preparava. Brazda havia sido dispensado do serviço militar checo, por não falar a língua. Já Werner não teria a mesma chance, sendo convocado para a Luftwaffe, a Força Aérea alemã. Ambos jamais voltariam a se reencontrar. “Eu era feliz com Werner, com quem vivia como marido e mulher. Mas, nessa época, a separação era o caminho natural”, recorda. “Claro que foi difícil, mas encarávamos a vida como ela vinha. E o regime não aceitava relações como a nossa.”

“Crime” e confissão. A caça às bruxas o atingiria diretamente um ano mais tarde. Em uma manhã de abril de 1937, Brazda foi acordado por uma revista policial em seu quarto. Três horas depois, assinaria um depoimento pleno de contradições sobre sua vida sexual. No dia seguinte, enfrentaria a Justiça sem advogado ou testemunhas a seu favor. Encurralado pela multiplicação de provas contra si, reconheceria seu “crime” pouco mais tarde. “Sim, pratiquei masturbação mútua com Werner, e isso aconteceu desde 1934/1935. Percebi rapidamente que, assim como eu, ele amava homens”, reconheceu, em documento assinado por ele e localizado por Schwab na Alemanha. “Eu o amava verdadeiramente e fui fiel a ele, não procurando contato sexual com outros homens.” O apelo emocional não seria levado em conta e a confissão lhe renderia uma condenação por crime de luxúria em um processo aberto e encerrado em menos de 40 dias.

Os seis meses que se seguiriam seriam seus primeiros de prisão. A partir de então, Brazda e os amigos, todos, viveriam sufocados pelo aparato do Estado totalitário, que prendia, expulsava, suspendia direitos civis, humilhava e torturava, física e psicologicamente. Nem o exílio na então Checoslováquia evitaria a perseguição, já que, sem resistência ocidental, a Alemanha de Hitler ocuparia os sudetos checos e, então, todo o país.

Uma nova prisão em 1941, por reincidência, selaria seu destino. Se os novos 14 meses na prisão de Karlsbad lhe permitiram viver com alguma dignidade e ainda fascinar os companheiros de cárcere – “eu era conhecido e tinha sorte porque era jovem e bonito, todos os outros prisioneiros corriam atrás de mim” -, a sequência seria mais dramática. Ela começaria em 8 de agosto de 1942, quando foi transferido para Buchenwald com 50 outros presos, 4 deles por serem gays.

Assim, Brazda descobriu o horror em um campo de concentração, e nele as sevícias, a fome, a miséria e as experiências científicas em cobaias humanas – entre as quais a “inversão de polaridade sexual”, realizada pelo médico dinamarquês Carl Vaernet (1893-1965 – ministrava injeções de hormônios e de diferentes substâncias na tentativa de mudar o comportamento dos homossexuais). “Eu sabia da existência dos campos e sabia que os judeus eram enviados para Auschwitz Birkenau a fim de serem exterminados. Mas não acreditava que os homossexuais também pudessem ser mandados para o extermínio”, diz, agora consciente do valor histórico de seu testemunho. “Eu sabia que o homossexualismo era reprimido pelos nazistas. Mas jamais imaginei que eu mesmo fosse vítima de um crime contra a humanidade.”

06/02/2011 - 17:58h Guia para refletir sobre uma era

Traduzido pela primeira vez no Brasil, projeto final de György Lukács reexamina o pensamento de Marx

Fausto Penteado – O Estado de S.Paulo

A amplitude de pensamento e a clarividência dos grandes gênios faz com que eles já “nasçam póstumos”. Desta forma, raramente são reconhecidos e, sobretudo, compreendidos em vida. Quando não raro, suas ideias são apropriadas e incorporadas aos discursos tirânicos dos mais variados matizes, servindo a formas de governo despóticas e repressivas (sobretudo, quanto à liberdade de expressão), ainda que, por ironia, em geral elas se autodenominem “populares”.

Mas, afinal, o que Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Wilhelm Reich teriam em comum, além da nacionalidade próxima? É sabido que todos esses grandes homens tiveram a originalidade de seu pensamento expropriada, adulterada, para servir a objetivos totalmente contrários àqueles que eles pregavam originariamente.

Reich, o “pai da revolução sexual”, jamais pregou a libertinagem tresloucada. Apenas lutou para a libertação do ser humano de sua doença afetiva, onde o ápice da cura resultaria numa sexualidade plena e saudável. Nietzsche, por sua vez, foi completamente adulterado (com a insidiosa colaboração de sua irmã), servindo assim de garoto-propaganda do nazi-fascismo. Ele que sempre pregou a liberdade de pensamento e sempre rendeu homenagens à vida. E, por fim, Karl Marx, este laborioso filósofo, que embora tenha lutado para eliminar a “escravidão” dos trabalhadores de sua época, tem servido de bandeira tremulante quando nas mãos de forças despóticas, que jamais chegaram perto da segunda etapa da revolução comunista (onde o estado desapareceria e os cidadãos viveriam harmonicamente).

É nesse contexto político-filosófico que se insere o filósofo György Lukács, nascido na Hungria (1885-1971). Doutor pela Universidade de Budapeste, sua obra Prolegômenos Para Uma Ontologia do Ser Social foi publicada recentemente pela Boitempo Editorial. Uma obra que é uma espécie de livro testamento, em que o autor exibe sua profunda erudição ao procurar corrigir pontos obscuros no pensamento de Kant, Hegel e outros que servem de base para a compreensão do marxismo.

Comumente se tem associado a derrocada do Leste Europeu a um declínio do marxismo. Mas talvez o tempo venha nos mostrar justamente o contrário. Afinal, Marx e o marxismo são coisas distintas, é o que a história, em parte, nos revelou, e também agora o livro de Lukács (que deseja dissociar Marx da ideia de um determinismo econômico absoluto). Enfim, não é preciso temer Marx. É preciso, primeiro, compreendê-lo de fato e, sobretudo, historicamente. Ele, que viu crianças sendo exploradas com seus delicados dedinhos trançados em teares, jamais deixou de buscar uma forma de neutralizar a exploração capitalista. Mas o mesmo pode estar se repetindo em algum remoto rincão do planeta, quase dois séculos após seu testemunho, e isso graças à distorção do seu pensamento ou quiçá devido a uma fatídica impossibilidade do ser humano em renunciar ao poder e devolvê-lo à sociedade.

Seja como for, um antigo ditado afirma que a força bruta a tudo conquista, porém sua duração é breve. Isso pode nos fazer pensar se a via de transformação não violenta seria mesmo tão utópica assim ou, então, se o que está no fundo de tudo é uma espécie enraizada de letargia humana, que independente dos sistemas sempre termina por repetir os mesmos padrões de existência.

Quando Lukács aborda a questão do ser, em clara oposição aos “herdeiros espirituais dos métodos stalinistas”, ele estabelece um eixo referencial de suma importância, que diferencia a reflexão profunda em marcante oposição “aos planos grosseiramente manipuladores” e às “disposições táticas”.

De fato, estamos diante de uma obra de grande densidade conceitual que aborda o desenvolvimento de um dos temas mais complexos da filosofia – a questão do ser. Uma querela que já remonta à Grécia Antiga, na eterna oposição entre Demócrito, que defendia a trajetória linear dos átomos, implicando um determinismo absoluto, Epicuro que introduziu o clinâmen, inserindo um elemento de caos no determinismo anterior, e Heráclito que acreditava no devir, ou seja, que o ser é um processo, estando sempre em vias de se fazer.

O que adensa ainda mais a questão, é que em sua obra, Lukács traz a complexidade dessa abordagem para a esfera do humano, introduzindo a questão do ser social. Ora, se a temática grega ainda se mantém atual, Lukács adiciona ainda mais elementos à discussão, expandindo o estudo a diversos campos do conhecimento, exigindo grande fôlego ao leitor, que se depara com sua diferenciação qualitativa dos “três importantes tipos de ser (natureza inorgânica, natureza orgânica e a sociedade)”. Em poucas palavras: o ser social é ontológico, é real, está inscrito no homem tanto quanto a sua natureza biológica – eis a tese exposta por Lukács.

Enfim, mais importante que o objeto do estudo, é o movimento do olhar, que se direciona agora ao próprio ser: “O homem é, no sentido mais literal, não um animal social, mas um animal que pode isolar-se apenas em sociedade”.


PROLEGÔMENOS PARA UMA ONTOLOGIA DO SER SOCIAL
Autor: György Lukács
Tradução: Rodnei Nascimento e Lya Luft
Editora: Boitempo
(416 págs., R$ 58)

31/01/2011 - 17:00h Barriga de tanquinho

Matthew Shirts – O Estado de S.Paulo

Ganhei no fim do ano passado a biografia de Adolf Hitler escrita por Ian Kershaw e publicada pela Companhia das Letras. Chegou com um bilhete simpático da minha amiga Maria Emília, que trabalha na editora. Disse que era um livro grande para um leitor voraz. E, de fato, são mais de mil páginas. Capa dura. Um quilo, imagino.

A biografia ficou ali na mesinha da entrada da minha casa, na capa o rosto sádico do ditador com o braço envolto em um cachorro, os dois a me olharem. Sabia que estava ferrado. Não teria como escapar do livro. Mil páginas de crueldade, húbris, ódio, tortura, genocídio e a civilização enlouquecida.

Digeri histórias da 2.ª Guerra durante minha infância toda nos Estados Unidos junto com aqueles cereais carnavalescos feitos para aparecerem em destaque na recém-lançada televisão em cores. Montava pequenos modelos em plástico de Spitfires e Zeros – aviões estrelas das batalhas aéreas – com uma cola de cheiro forte e bom. Assistia a documentários dedicados à guerra na escola desde pequeno. Conhecia batalhas. Não teria como resistir à leitura.

Comecei o livrão de Hitler na fazenda do meu cunhado, onde passei uma semana no início do ano. Estou na página 631. Todo dia leio um pouco. A qualidade da reconstrução histórica impressiona. Kershaw chega a descrever os gestos feitos pelo Führer ao tomar conhecimento de notícias chaves da guerra. Mas não levo a obra no ônibus para não assustar os outros passageiros. (Você se sentaria ao lado de alguém perdido em um livro de sete centímetros de grossura com a cara de Hitler na capa?) Ainda bem que sei como acaba. Caso contrário, estaria mais assustado até com a ruindade dos nazistas. A narrativa é irresistível. É o mal em estado puro.

Por sorte, tenho um personal especialista na 2.ª Guerra na figura do meu amigo professor Antônio Pedro Tota. Voltei a praticar o pedestrianismo com ele na Avenida Sumaré, acompanhado do filósofo e designer gráfico Marcão Sismotto. É um trio de fácil reconhecimento para quem passa de automóvel. Três senhores de uma certa idade, com as marcas das décadas de 60 e 70 nos corpos e nos estilos de vestuário esportivo. Embora, verdade seja dita, apesar de seus 60 e tantos anos, o professor esteja em forma. De tanto fazer o pedestrianismo, como diz o Marcão, está com a “barriga de tanquinho”.

Nesse trio, o professor faz o papel do pessimista. Reclama que a civilização está em declínio, que ninguém mais ouve Thelonious Monk (jazzista americano), a internet é um engodo e há automóveis demais, sem nem falar da televisão. Isso quando está de bom humor.

Tenho discutido com ele a biografia de Hitler na Avenida Sumaré. O professor sabe tudo sobre a 2.ª Guerra. Escreveu livros sobre o assunto. Consegue explicar a conexão feita nas mentes doentias dos nazistas entre o antissemitismo e o anticomunismo, para dar apenas um exemplo.

Semana passada, montei uma armadilha intelectual para o professor Tota. Ponderei que diante da minha leitura ficava evidente como a civilização se aprimorou de 70 anos para cá. Apesar dos problemas atuais, a miséria, o aquecimento global, o declínio no gosto musical, não é possível imaginar a repetição da barbárie do Hitler nos dias de hoje. O mundo é outro. Melhorou. Aquela violência profunda, fundada no mito de raça, não é mais possível, não na escala nazista.

Passávamos, juro, debaixo da estação Sumaré de metrô, aquela decorada com fotos de desaparecidos políticos do tempo da ditadura. O professor andou uns 20 metros em silêncio. Pensava. Depois respondeu: “Melhorou, sim, pelo menos para alguns”.

A caminhada prosseguiu. Mudamos de assunto. Marcão explicou para o professor o que é uma barriga de tanquinho.

22/01/2011 - 17:00h Correspondência da derradeira viagem

Stefan and Lotte Zweig’s Letters (New York, Argentina and Brazil 1940-1942) ajuda a reconstituir a vida do casal aqui

Paulo Sérgio Pinheiro – O Estado de S.Paulo

Nos trópicos ainda era a época das grandes conferências de escritores europeus consagrados, como Stefan Zweig, um dos mais populares autores do começo do século 20 mundo afora, com traduções em 30 línguas. Suas biografias Maria Stuart e Maria Antonieta, seus romances Carta de Uma Desconhecida, Amok, Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher foram best-sellers também em português. Em 1936, a caminho de uma reunião do Pen Club em Buenos Aires, faz escala no Brasil e fica maravilhado com a acolhida. O ministro das Relações Exteriores o recebe no cais do porto, encontra o presidente Getúlio Vargas e faz conferências para salas repletas. Em 1940, retorna ao Brasil para fazer conferências. Em agosto de 1941, decide aqui se exilar, com a segunda mulher Elizabeth Altman (Lotte), sua antiga secretária, 27 anos mais moça do que ele, com quem se casara em 1939.

Uma seleção de cartas inéditas do casal Zweig publicadas e apresentadas com grande rigor por Darién J. Davis e Oliver Marshall, Stefan and Lotte Zweig”s Letters (New York, Argentina and Brazil 1940-1942), da editora Continuum (210 págs., US$ 24), ajuda a reconstituir a vida do casal no Brasil. E a deslindar o enigma do suicídio dos Zweigs na bucólica Petrópolis, em fevereiro de 1942. Nas cartas a seus familiares, entre o sentimento de perda e descoberta, pessimismo e otimismo, revelações inéditas da vida doméstica do casal na casa em Petrópolis. Pela primeira vez irrompe a presença de Lotte, a qual sempre era relegada nas biografias de Zweig um papel silencioso e submisso.

Talvez pesassem na escolha do Brasil para o exílio do escritor aqueles dias “inesquecíveis ” passados aqui, que comparados com a destruição na Europa pareciam um “paraíso”, como no título da insuperável biografia de Alberto Dines. Para o casal nada mudara. Numa carta de Lotte, de 1941: “Nada mudou (aqui no Brasil) enquanto estivemos fora, nós temos o mesmo quarto no mesmo hotel, o mesmo grande terraço com uma esplêndida vista sobre a baía[DE GUANABARA] onde Stefan passa a maior parte do tempo trabalhando”. Na verdade, muito havia mudado, o Brasil estava agora sob o Estado Novo. Não deixa de ser surpreendente que Zweig viva num fascismo tropical e não faça nas cartas nenhum elo entre o Estado Novo e o nazismo. O que também pode ser explicado por temer a censura da correspondência pelo Dops.

Entre a primeira e segunda visita, Zweig tinha publicado Brasil: País do Futuro, exaltação entusiasmada às qualidades humanas do modelo brasileiro em contraste com a Europa que se desmoronava. O livro foi recebido com supremo desfavor tanto à esquerda, acusando Zweig de ter escrito uma obra encomendada, quanto no establishment do Estado Novo, incomodados com as menções às favelas, à pobreza e à situação da população negra no País. No entanto, Zweig jamais recebera qualquer financiamento nem a obra era de encomenda.

Quando voltou ao Brasil em 1941, Zweig estava deprimido e ressentido com sua impotência diante da guerra e do antissemitismo na Europa que o leva ao exílio em Petrópolis. Ali, as chuvas de verão pioravam a asma de Lotte, a falta de acesso a bibliotecas e o isolamento que se impuseram contribuíam para agravar a depressão. Numa carta de janeiro de 1942, Zweig confessa estar profundamente deprimido. O exílio era um agonia. Em fevereiro de 1942, dois dias antes dos suicídios, Lotte demonstrava em uma carta ansiedade e desespero e, referindo-se a seus problemas de saúde, tentava convencer sua irmã que o suicídio era a única solução: “Por fim a isso espero que v. acredite que é a melhor coisa para Stefan, vendo como ele sofre todos esses anos com todos aquele que sofrem com a dominação nazista, e para mim, sempre doente com asma”. Não deixa de ser prosaico colocar no mesmo pé as barbaridades do nazismo e a asma.

Stefan Zweig se suicida com a mesma minúcia com que escrevia e vivia. Na carta que deixou para Friderike, sua primeira mulher, explica que “quando você receber esta carta eu estarei muito melhor do que antes… depois de algum tempo minha depressão se tornou muito aguda. Eu sofria tanto que eu não poderia me concentrar mais… Eu estava muito cansado… e a pobre Lotte não estava bem comigo, especialmente porque sua saúde não estava bem “. Deixa uma Declaração Para o prefeito de Petrópolis, em que exprimia sua gratidão pela acolhida; cartas endereçadas a amigos (uma para Afonso Arinos de Mello Franco) e até para a biblioteca municipal de Petrópolis, além de um grande envelope “Disposições a respeito de meu cachorro “, Bluchy. Parecem providências para uma longa viagem. Dessa vez com um porto fatal.

PAULO SÉRGIO PINHEIRO É PROFESSOR ADJUNTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA BROWN UNIVERSITY, EUA

15/01/2011 - 17:00h Partido de um só homem

Seis volumes de Prejudices atestam independência do pensamento de H.L. Mencken e a qualidade de sua escrita, aplicada a campos diferentes, da política e do ofício jornalístico à crítica literária

LEONARD MCCOMBE/TIME LIFE PICTURES/GETTY
LEONARD MCCOMBE/TIME LIFE PICTURES/GETTY

O “Sábio de Baltimore”. Coletânea reúne ensaios escritos entre 1919 e 192
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LÚCIA GUIMARÃES – O Estado de S.Paulo

Com o perdão de um sábio do Rio de Janeiro, nem toda a unanimidade é burra. É difícil encontrar alguém decepcionado com a canonização de Henry Louis Mencken (1880-1956) pela Library of America. A coleção, destinada a imortalizar as letras americanas e garantir que obras fora de catálogo se mantenham em circulação, acaba de dar de presente à legião de admiradores do irascível Mencken uma bela caixa com dois tijolos que contêm os seis volumes da série Prejudices (Preconceitos). Os artigos e ensaios, escritos entre 1919 e 1927, reúnem a prosa hilariante e indignada do mais influente jornalista americano do século 20.

Caros leitores de menos de 25 anos: “influente jornalista” hoje pode soar como um oxímoro mas, acreditem, no tempo de Mencken, a pena era mais poderosa do que a espada digital de uma ex-governadora do Alasca. E por falar em personagens que Mencken teria destroçado com seu grande texto e coragem pessoal, na semana que passou, quando os americanos, mais uma vez, enfrentam o luto provocado por um massacre, sua cruzada incansável contra o obscurantismo é um contraponto bem-vindo. A seguir, numa entrevista exclusiva ao Estado, Marion Elizabeth Rodgers, responsável pela nova edição de Prejudices, autora de Mencken: The American Iconoclast, explica por que precisamos de doses regulares do Sábio de Baltimore.

Por que Prejudices é um bom começo para a estreia de Mencken na Library of America?

Prejudices foi uma das mais celebradas séries da obra dele. Foi com ela que ele se estabeleceu como uma das mais poderosas vozes no meio literário e social dos EUA, nos anos 20. Desde 1933, os seis volumes nunca foram lançados de uma só vez. O leitor contemporâneo ouve falar de Mencken, mas pode não compreender por que ele é tão citado. Além da beleza da caixa, nós editamos uma seção de Cronologia e outra de Anotações que ajudam a explicar as referências.

Qual seria uma boa iniciação a Prejudices?

O espectro de tópicos que ele cobre já justifica a leitura. Para seu estilo de prosa, recomendo os perfis de Theodore Roosevelt, Abraham Lincoln e Rodolfo Valentino. Para um olhar pessoal, vale a leitura do ensaio sentimental sobre sua casa, Vivendo em Baltimore. Mencken é bastante lembrado pelo que escreveu durante o caso Scopes, em 1925 (um professor de escola secundária foi condenado por ensinar a Teoria da Evolução no Tennessee, mas o veredito foi derrubado). Em The Hills of Zion, ele descreve como os membros de um grupo religioso entram em transe e a cena me lembra o que você poderia ver num terreiro de macumba no Brasil. Para um gosto de sua crítica à cultura americana, há os ensaios sobre Hollywood e o famoso Sobre Ser Americano. Na crítica literária, recomendo As Letras Nacionais e O Saara de Bozart, em que ele estimula escritores negros e sulistas a escrever sobre si mesmos. Foi uma inspiração para a renascença literária do Harlem e do Sul americano.

Hoje há polarização na mídia e os argumentos tendem a ser neutralizados pelo excesso de postura ideológica. Há esta procura por um jornalismo que apenas confirme nossa visão do mundo. Mencken poderia ter sido tão influente neste contexto?

Mencken não cabe em campo nenhum. Os conservadores o reivindicavam como um deles, especialmente porque ele apoiava a pena de morte, era crítico de impostos, da intrusão do governo e do sistema de previdência social. Ao mesmo tempo, o próprio Mencken se considerava um “democrata por toda a vida”. Ele defendia a liberdade de expressão, os direitos civis, dos imigrantes e das minorias, até dos socialistas. Também combateu o poder de corporações. Ele lutou por causas queridas para campos diferentes. Mas ele não queria a prisão do rótulo e dizia: “Eu não pertenço a partido algum. Sou meu próprio partido”. Sempre me perguntam se ele teria lugar na mídia atual. Será que teria seu programa no rádio ou na TV? O que faria com a internet? Mas essas comparações não nos levam longe. Sua astúcia não apenas fazia o leitor rir, fazia pensar e desafiar o senso comum. A iconoclastia de Mencken é necessária. Ele sabia que a opinião poderia ser manipulada. Ele acreditava que poucos americanos diziam o que pensavam. A tentativa de procurar escrever sobre o que é seguro e ser bem recebido: ele combatia isso como mau jornalismo.

Quais são, a seu ver, os ensaios desta coleção que falam mais ao nosso tempo?

Eu acho que boa parte do que ele escreveu resiste à passagem do tempo. Seus conselhos em The Fringes of Love Letters, especialmente quando trata de estilo e crítica, deveriam ser lidos por todos os autores aspirantes. Se hoje os jornalistas estão em crise existencial, não era diferente no tempo de Mencken. Leiam Jornalismo na América. A cada nova eleição americana eu me lembro de Sobre Ser Americano, em que ele diz: “O principal negócio da nação é fabricar heróis, principalmente falsos”. E, para sua visão sobre psicologia, há Sobre Controvérsia: “Que eu saiba, nenhuma controvérsia jamais terminou no território onde começou”.

Sua visão do escritor mudou de alguma forma desde que, após escrever sua biografia, começou a editar sua obra?

Sempre há quem diga que Mencken nunca será tão amado como Mark Twain – e acredito que seja verdade. Concordo com Charles Fecher, editor dos diários de Mencken, para quem “nenhum outro, antes ou depois, teve algo como o enorme poder e a influência de Mencken. Ele praticamente mudou o curso da literatura americana, trouxe um período literário à sua conclusão, inaugurou outro e, no processo, ajudou importantes figuras a se tornarem proeminentes. F. Scott Fitzgerald e Sinclair Lewis são dois autores que tiveram em Mencken um defensor. Ele foi um dos primeiros críticos americanos a chamar atenção para Twain, Bernard Shaw, Ibsen e a reconhecer o talento de James Joyce. E não podemos esquecer que as revistas que ele editava – The Smart Set e The American Mercury – introduziram a escrita de negros e imigrantes no país. Em suas colunas, Mencken lutava por causas impopulares, como o fim da segregação. Nas revistas, ele transformou o jornalismo americano ao examinar raça, linguagem, narrativa folclórica, medicina e música. Acho que parte do prestígio desfrutado por ele no exterior se deve ao fato de que, além de sua sabedoria e bom senso, sua visão de mundo era internacional. Ainda que fosse um verdadeiro americano de seu tempo, ele olhava para o país “de fora”.



28/12/2010 - 17:58h Foi uma época de transformações, uma “revolução”

História: O grande salto à frente da economia americana, com seus barões e mudanças sociais amplas.

Biblioteca do Congresso/EUA
John D. Rockefeller e seu filho, numa rua de Nova York: aposta extremamente bem-sucedida no futuro do petróleo


John Gapper | Do Financial Times e VALOR

“American Colossus – The Triumph of Capitalism, 1865 – 1900″

H. W. Brands. Doubleday. 624 págs., US$ 23,10

Lee Chew, filho de um pequeno agricultor chinês, estava satisfeito em permanecer em sua propriedade perto de Cantão nos anos de 1860, até que “um homem de nossa tribo” chegou em casa triunfante, vindo dos Estados Unidos, onde havia enriquecido.

“Ele ergueu uma grande muralha de pedra, conduziu alguns riachos por entre elas e construiu um palácio e uma casa de verão, além de cerca de 20 outras estruturas, com pontes maravilhosas sobre os riachos e passeios e estradas. Árvores e flores, pássaros cantando, aves aquáticas e animais curiosos circulavam dentro das muralhas… A riqueza daquele homem inundava minha mente com a ideia de que eu também gostaria de ir para o país dos bruxos e pegar uma parte da riqueza deles.”

O capitalismo e o surgimento da industrialização proporcionaram uma riqueza enorme a esses bruxos – os Morgan, os Rockefeller, os Vanderbilt. Em 1883, George Vanderbilt realizou uma grande festa em sua nova mansão na Quinta Avenida com a rua 52, que deslumbrou a sociedade novaiorquina e deflagrou “uma orgia de consumo conspícuo”. A cunhada de Vanderbilt usou um vestido de cetim branco com diamantes, e uma tiara de diamantes, chamando a si mesma de “A Lâmpada Elétrica”.

Hoje, quando os Estados Unidos duvidam de si mesmos, abalados pela ameaça de declínio político e econômico, a era da hegemonia americana parece terrivelmente distante – embora até tão recentemente como a década de 1990, a globalização parecesse estar refazendo o mundo nos moldes dos Estados Unidos. Então, é comovente e impressionante ler este relato dinâmico e panorâmico da ascensão do capitalismo americano e a transformação de um continente.

Histórias da vida dos primeiros JP Morgan, John D. Rockefeller e Cornelius Vanderbilt já foram escritas por autores como Ron Chernow. Mas H. W. Brands as entrelaça em um relato mais amplo das espantosas mudanças sociais que se espalharam pelo país naquelas décadas – afetando a vida de todos, dos escravos do sul aos imigrantes do Lower East Side.

É possível ver uma sociedade durante uma revolução capitalista, com contrastes fascinantes de riqueza e pobreza, e uma transformação das cidades e dos meios de transporte tão rápida que parece estar acontecendo diante de nossos olhos. Pegue um trem-bala de Nanjing até Xangai e então vá até o centro da cidade para ver os arranha-céus do distrito financeiro de Pudong, num cenário que lembra o filme “Blade Runner”.

A sensação devia ser a mesma para aqueles que tomavam a Union Pacific Railroad; ou iam até Chicago depois que o incêndio de 1871 abriu caminho para os primeiros espigões; ou viam as colheitas nas grandes fazendas do Minnesota Red River; ou cruzavam a ponte de Brooklyn pela primeira vez. “A Babilônia tinha seus jardins suspensos, o Egito tem suas pirâmides, Atenas a Acrópole, Roma o Coliseu, e Brooklyn tem sua ponte”, dizia uma faixa estendida no dia da inauguração.

Este é um livro longo e denso, cheio de casos interessantes e estatísticas que cobrem todas as facetas da política e da sociedade. Mesmo assim, sua maior força está nos relatos daqueles que viram as mudanças, de Jacob Riis, o “muckracker” (denunciador de escândalos) dos cortiços dos imigrantes, a Black Elk (Alce Negro), o filho de um pajé Oglala Sioux e primo em segundo grau de Crazy Horse (Cavalo Louco), que testemunhou o massacre de Wounded Knee.

“Era um dia bonito de inverno quando tudo aconteceu”, ele lembra. “O sol brilhava. Mas depois que os soldados se afastavam do serviço sujo que fizeram, uma neve pesada começou a cair. O vento veio durante a noite. Houve uma grande nevasca e ficou muito frio. A neve mergulhava fundo na ravina irregular, e havia uma cova comprida cheia de homens, mulheres, crianças e bebês assassinados, que nunca haviam feito mal a ninguém e apenas tentavam fugir.”

Brands, um professor de história da Universidade do Texas que escreveu biografias vencedoras do prêmio Pulitzer, como a de Benjamin Franklin e a de Franklin Delano Roosevelt, não foge desse sofrimento. Ele narra as tensões entre o capitalismo e a democracia, criadas por divergências extremas de sorte e o poder de lobby das grandes empresas – tensões que continuam fortes ainda hoje.

Foi um terremoto financeiro, que reclamou vítimas como jovens mulheres chinesas embarcadas para San Francisco e jogadas na prostituição, e também proporcionou aos magnatas sua Era Dourada. A maioria dos “peões” chineses que emigraram para os Estados Unidos trabalhava nas ferrovias, em vez de ganhar as fortunas que Lee Chew ambicionava. Suas tentativas de conseguir salários maiores eram reprimidas com violência.

Mesmo assim, Brands conclui que “a revolução capitalista foi de muitas maneiras a melhor coisa que aconteceu às pessoas comuns da América”. A população cresceu de 40 milhões em 1876 para 76 milhões em 1900, com um terço desse aumento vindo da imigração. A mortalidade infantil caiu um terço e a expectativa de vida cresceu um sétimo. A produção industrial triplicou e a renda per capita média dobrou, enquanto a proporção da força de trabalho no campo caía pela metade.

Acima de tudo, a revolução proporcionou oportunidade para que empreendedores ficassem ricos rapidamente. Brands relata como John D. Rockefeller, que havia pago US$ 300 para escapar do alistamento militar, foi inspirado pela corrida do petróleo na Pensilvânia, embora o “ouro negro” fosse usado, de início, principalmente como substituto do óleo de baleia nas lâmpadas.

Rockefeller percebeu o maior potencial e mais tarde Henry Ford mostrou que ele estava certo. (Em seus anos de filantropia, Rockefeller disse a Ford que o veria no Céu, ao que Ford respondeu: “Isso, se você entrar”.) Era melhor arriscar como empreendedor do que viver de salário, observou Andrew Carnegie. Sua regra: “Um homem precisa ocupar necessariamente uma área estreita que está sob o comando de outros”.

E havia JP Morgan. “Pouco depois de fechar o negócio [do consórcio US Steel] com Carnegie e Rockefeller, Morgan navegou até a França para suas férias anuais e expedição de caça a obras de arte. Comprou uma tela de Raffaello, a “Colonna Madonna”, e algumas obras menores em Paris, antes de ir para Aix-les-Bains. Lá, no começo de maio, recebeu um telegrama de Nova York que informava que cavaleiros desconhecidos haviam assaltado a Northern Pacific Railroad.” Quem não gostaria de ser um capitalista americano?

06/12/2010 - 17:37h João de todo o Rio

Mais atual do que nunca, o jornalista e escritor que encantou e chocou o Brasil do início do século XX ganha nova versão de sua biografia e filme

Antônio Carlos Miguel – O GLOBO

Há casos em que o biógrafo pode virar uma espécie de parteiro do renascimento de seu personagem. Foi o que aconteceu com o jornalista e pesquisador João Carlos Rodrigues, que, na quarta-feira, lança na livraria DaConde “João do Rio: vida, paixão e obra” (Civilização Brasileira), nova versão do revelador livro “João do Rio: uma biografia”, que publicou em 1996 pela Topbooks. Na época, Rodrigues já tinha feito bastante pela recuperação da obra do jornalista, escritor, tradutor e dramaturgo
então quase esquecido, mas que, entre integrantes da sociedade carioca letrada do início do século XX, flanava com status de popstar.

— No fim dos anos 70, o jornal “Lampião”, de Aguinaldo Silva e João Silvério Trevisan, queria fazer uma editora e propus uma antologia de João do Rio, autor que eu era um dos poucos de minha geração a conhecer, e sabia sensacional — explica Rodrigues, de 61 anos, que, não tendo visto o projeto do “Lampião” avançar, resolveu aproveitar o centenário de nascimento de seu personagem, em 1981, e sondar outras opções. — Botei tudo num envelope e mandei pelo correio para três editoras importantes. Menos de uma semana depois, Ivan Cavalcanti Proença, então na José Olympio, me ligou. Fui lá, assinei o contrato, e o livro saiu com o título “Histórias da gente alegre”. Fácil assim. No entanto, despertou a ira de Josué Montello, mas recebi uma boa crítica de Silviano Santiago, e segui pesquisando.

No início dos anos 90, Rodrigues frequentou por dois anos, quase que diariamente, a Biblioteca Nacional atrás de textos inéditos de João do Rio para um novo trabalho. A coleta foi tão frutífera que rendeu um Catálogo Bibliográfico, editado pelo Arquivo da Cidade, hoje raríssimo. — Localizei cerca de 2.500 artigos e reportagens de jornal sobre variados assuntos, da crônica da cidade à política internacional. Poucos sabem, mas ele cobriu a Conferência de Versalhes, que definiu os rumos do mundo após a Primeira Guerra Mundial — relata Rodrigues, que também descobriu textos nos quais ele foi ghost writer, como as memórias do marinheiro João Cândido, ou o delicioso “Memórias de um rato de hotel”, ditado por um preso na cadeia. — Com tanta novidade, vi que havia material para uma biografia mais completa do que a existente, de Raimundo Magalhães Junior.

Com esse material nas mãos, Rodrigues concorreu à Bolsa Vitae, em 1993, e ganhou: — O livro foi editado em 1996 e despertou ódios e amores muito exacerbados, o que me espantou, pois se trata de um autor do tempo da Velha República! Uma famosa revista dedicou quatro páginas a falar mal de mim e dele. Um resenhista sugeriu que eu queimasse a edição.

Ou seja, foi a consagração. E assim virou uma espécie de clássico de referência, pois fala do autor, da obra e da época. Desde então, a redescoberta vem crescendo: o próprio Rodrigues preparou três reedições de textos de João do Rio, enquanto não param de surgir estudos acadêmicos — na Unicamp, na PUCRJ, na UFRJ, na Casa de Rui Barbosa.

No momento, o ator Marcus Alvisi tem lotado o Espaço Sesc, em Copacabana, com o monólogo “Dentro da noite”, que idealizou e montou pela primeira vez em 2002, a partir de dois contos de João do Rio. Agora com direção do cantor Ney Matogrosso, outro apaixonado pelo autor, a temporada vai até 19 de dezembro. Há também um filme em andamento, “Muitos homens num homem só”, coprodução da Conspiração com Flávio Tambellini, que será dirigido por Mini Kerti. — O roteiro é livremente inspirado em “Memórias de um rato de hotel”, mas tem personagens famosos e de outros livros dele, como o Barão Belford e Eva — diz a cineasta. — Além disso, eu e o roteirista Leandro Assis inserimos o Felix Pacheco, que sai no encalço do personagem principal, Dr. Antônio. O Dr. Antônio, aliás, é um personagem verídico, inclusive com fotos em jornal ilustrando o artigo do João do Rio sobre ele. Lemos vários livros dele para trazer o clima da época para o roteiro, que se passa no início do século passado, durante as renovações de Pereira Passos e as vacinas de Oswaldo Cruz.

Pioneiro nesse movimento, Rodrigues comemora e quer mais: — João do Rio é tão complexo que dá para todos. Mulato, gordo, homossexual — um dândi, que escandalizava a sociedade da época com seu vestuário extravagante e suas falas e posturas afetadas —, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto veio de família pobre e, ainda adolescente, mostrou seus dotes literários. Talento que o levaria à Academia Brasileira de Letras, em 1910, aos 29 anos, na sua terceira tentativa,
sendo o primeiro a tomar posse usando o “fardão dos imortais”. Reconhecido em Portugal, que visitou pela primeira vez em 1908, quando também conheceu a França, cicerone e amigo de Isadora Duncan na passagem da bailarina pelo Rio, ele estava em todas. Mas, da mesma forma como rapidamente ascendeu socialmente, João do Rio (um de seus muitos pseudônimos, o mais famoso, criado em 1903) foi logo esquecido após sua morte precoce, vítima de um ataque cardíaco, em junho de 1921, a menos de dois meses de seus 40 anos. Além dos livros fora de catálogo, era apenas o nome da Rua Paulo Barreto, em Botafogo.

No mundo do início do século XX, homossexualidade, mais do que tabu, era crime. Daí, como Rodrigues comenta, João do Rio não assumir a sua orientação sexual: — Ele se aborrecia quando alguém tocava no assunto. Mas, por outro lado, provocava. Raspou a cara quando todo homem que se prezava, fora os padres, usava barba ou
bigode. Vestia um fraque todo branco, outro todo verde, e os homens respeitáveis só vestiam preto, marrom ou cinza. Falava de forma muito afetada, e Gilberto Amado conta que juntavam curiosos na porta dos jornais onde trabalhava apenas para vê-lo falar, cheio de caras e bocas. Isso provocou uma reação homofóbica dos jacobinos, como era conhecida a extrema direita da época. João do Rio foi espancado num restaurante do Largo da Carioca por oficiais da Marinha. Enquanto Humberto de Campos e Antonio Torres encabeçaram uma das campanhas mais sórdidas já feitas contra um jornalista por seus colegas de profissão. Típico bullying.

Apesar desses incidentes, Rodrigues não acredita que a homossexualidade tenha contribuído para o esquecimento de João do Rio. Em contrapartida, influiu decisivamente
nesse redescobrimento dos últimos anos. Detalhe pessoal que o aproximaria do escritor inglês Oscar Wilde, num paralelo que também é possível ao analisar sua obra literária. — A comparação é pertinente porque realmente há mais do que simples coincidências. O estilo camp, a ironia, as frases de efeito, os adornos de estilo que quase escondem a preocupação social e as simpatias libertárias. E ele traduziu Wilde, “Intenções”, “O retrato de Dorian Gray” e “Salomé” — lista Rodrigues.

— Susan Sontag afirmou serem o camp e o art nouveau formas de expressão da sensibilidade homossexual. Certíssima. Mas o paralelo com Wilde pode também ser redutor porque João do Rio foi bem mais que um pastiche da cultura estrangeira. É o cronista carioca por excelência, ao lado de Machado de Assis, Lima Barreto, Noel Rosa, Nelson Rodrigues. Boa parte da mitologia da cidade foi criada por ele. Se não tivesse existido, teria de ser inventado.

João do Rio era tão enfronhado na vida carioca que, ainda segundo Rodrigues, teria antecipado a ideia da “cidade partida” cunhada por Zuenir Ventura nos anos 90. Daí a permanência de sua obra, um século depois: — Bem, vivemos na “lesma lerda”, e a mesma maravilha. Injustiça social num belo cenário natural. Seres humanos interessantes e imprevisíveis na sua mistura de raças e cores e religiões. Bela cultura popular, interessante cultura decadente das elites. Em 1908, ele já acenava com o conceito de “uma cidade dentro da outra cidade”, falando de uma favela no morro de Santo Antonio.

Em seus textos, João do Rio também, de alguma forma, antecipa o novo jornalismo: — Na verdade, o jornalismo moderno nasceu em Paris e Londres no fim do século XIX e daí influenciou o mundo inteiro. Surgiram as manchetes, as fotografias, as charges, o lead, o subtexto, e principalmente a crônica e a reportagem. João do Rio foi um mestre nas duas. Visitou in loco centros de candomblé, subiu morros e favelas, frequentou casas de tias baianas na Saúde, fez crônica social entre grã-finos, entrou em todos os ambientes, escrevendo quase sempre na primeira pessoa. Ou seja, João de todo o Rio. ■

20/11/2010 - 18:03h Uma parceria a favor do país

Durante três anos, Hazel Rowley fez pesquisas sobre Franklin e Eleanor Roosevelt; o livro que resultou desse trabalho revela uma relação nada convencional – e alimentada pelo amor à política

Lúcia Guimarães – O Estado de S.Paulo

Aeleição de Barack Obama, em pleno choque com o crash de Wall Street, em 2008, seguido pela recessão, inspirou incontáveis comparações com Franklin Delano Roosevelt e trouxe apelos para um New Deal no século 21, uma correção de curso do capitalismo. A revista Time chegou a estampar uma capa com o rosto de Obama inserido numa foto famosa de FDR, como é carinhosamente conhecido o único presidente americano a se eleger por quatro mandatos consecutivos.

A eleição intermediária de outubro e a retomada do controle republicano na Câmara dos Deputados paralisa, no futuro próximo, a agenda progressista de Barack Obama.

O intenso escrutínio da mídia americana pós-digital sobre o ocupante da Casa Branca implica uma rotina bem coreografada para a primeira-dama. O Q.I. da articulada advogada Michelle Obama, portadora de um doutorado de Princeton, não encolheu, é claro – mas seus movimentos estão mais restritos.

E o que dizer então de um casamento vitoriano que levou a Washington, em 1933, um par de primos distantes com o mais conhecido sobrenome da privilegiada elite estadual nova-iorquina?

Em seu recém-lançado Franklin and Eleanor: An Extraordinary Marriage (Franklin e Eleanor: Um Casamento Extraordinário), a biógrafa Hazel Rowley – autora de Tête-à-Tête (Editora Objetiva; o novo livro ainda não tem previsão de publicação no Brasil), sobre o relacionamento de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre – não tenta descobrir novos esqueletos no armário do casal Roosevelt.

Os casos de FDR, os supostos romances bissexuais de Eleanor foram fartamente divulgados, não sem uma certa escassez de fatos. O interesse de Rowley, ao passar três anos debruçada sobre a pesquisa, foi articular a enorme influência da união dos dois na vida do país. Franklin e Eleanor Roosevelt tiveram o casamento mais igualitário e livre da história do executivo americano, diz a biógrafa, atraída pelo tema do relacionamento não convencional. Ela diz que se interessa por histórias de amor generoso e acredita que o casamento dos Roosevelts foi definido por ternura e generosidade.

“Eu admiro parceiros que se fazem estender seus limites como indivíduos. Franklin permitiu que Eleanor se tornasse a grande mulher que conhecemos. E ela permitiu que ele se tornasse um grande líder. Nenhuma das ligações do presidente fora do casamento teria levado Roosevelt longe. Eram mulheres que o idolatravam. A Eleanor, não. Ela deixava claro que esperava muito dele na vida pública.”

A revista New Yorker traz, na última edição, um longo artigo sobre a sensaborona culinária da Casa Branca na era Roosevelt, especialmente no austero período pós-Grande Depressão, quando a necessidade de alimentar a família com uma dieta barata colocou a Casa Branca no papel de dar o exemplo frugal. O artigo de Laura Shapiro na publicação afirma que “Eleanor nunca quis se mudar para a Casa Branca. Ela deve ter sido a única democrata liberal que ficou triste quando Roosevelt ganhou a eleição.”

Hazel Rowley, inglesa educada na Austrália e residente de Manhattan, não esconde a impaciência. “Trata-se de um dos mitos mais bobos propagados sobre os Roosevelts. Por que os americanos continuam com essa atitude de condescendência que não tem base na história?”, indaga.

Eleanor, garante Rowley, conhecia bem a ambição política de Franklin desde o noivado secreto, em 1904, para evitar a desaprovação da poderosa mãe do futuro presidente. “Quando ele se elegeu senador e depois governador de Nova York, ela fez tudo o que estava a seu alcance para cooperar com a caminhada para a presidência. Era sua missão em tempo integral.” Mas a prolífica Eleanor não divulgou outra versão em suas memórias? “É claro”, responde Rowley. “Tinha que negar, não havia outra escolha. A oposição chamava Franklin de maricas, dizia que Eleanor usava as calças na Casa Branca, as caricaturas na imprensa eram de uma crueldade incrível. Não precisamos ser ingênuos e acreditar na versão para aplacar o público.”

A outra fonte de irritação para Rowley é o prurido que coloca o casal, conhecido por seus integrantes levarem vidas independentes, se atirando na cama com terceiros. Franklin Roosevelt contraiu poliomielite no verão de 1921. A noção de que ele colecionava amantes, além de não convencer a autora, enfrenta desafios físicos concretos para um homem orgulhoso, com passado atlético, confinado a uma cadeira de rodas. “Eu diria que ambos tiveram companheiros íntimos e leais”, afirma Rowley.

O grande teste do casal aconteceu em 1918, quando Eleanor descobriu cartas de amor de Lucy Mercer para seu marido e ofereceu a ele “a liberdade”. Lucy, no entanto, representava o oposto. A mãe de Franklin ameaçou deserdá-lo se ele deixasse a mulher e os cinco filhos. Sua ambição política seria enterrada pelo escândalo. Franklin estava apaixonado, contudo, garante Hazel, ele sentia enorme afeto pela mulher. A mesma Lucy, já viúva, reapareceu 37 anos depois e estava ao lado de Franklin, quando ele morreu de hemorragia cerebral, em Warm Springs, em abril de 1945 (a primeira-dama morreria em 1962).

Eleanor, que tinha sido chamada de patinho feio por uma parente, na adolescência, processou parte da rejeição mergulhando no nascente movimento sufragista e na ebulição dos anos 20. A prima alta e tímida do atraente e paquerador Franklin encontrou sua vocação.

O outro impulso que colocou Eleanor no centro da vida política foi a pólio. Ao ser diagnosticado no verão de 1921 na casa de verão Campobello, no Canadá, Franklin ficou deprimido e se isolava durante meses numa casa com piscina em Warm Springs, na Geórgia, acompanhado de Missy LeHand, a devotada secretária e principal candidata a verdadeira amante sexual depois da pólio.

Eleanor ficou em Nova York com os filhos e manteve acesa a chama da carreira do marido. Não queria ouvir falar do fim da ambição política. Em 1928, a Convenção Democrata de Houston se aproximava e Franklin Roosevelt convocou o filho Elliott para Warm Springs, onde passou semanas exercitando uma rotina de “caminhar” apoiado no rapaz – que incluía fazer graça e rir para distrair a atenção dos mais próximos. Da residência em Hyde Park, Eleanor escreveu: “Já contei para todos que você vai para Houston sem muletas. Então, fique firme!”

Rowley não cansa de se perguntar como um homem que escondia a paralisia do público, com a cumplicidade da imprensa, liderou os americanos ao longo da Grande Depressão e de uma guerra mundial, enquanto assinou legislação social que hoje é considerada um direito intocável como a previdência do sistema de Social Security. A resposta não pode passar ao largo de Eleanor. Foi com apoio da primeira-dama que Roosevelt se aproximou de Francis Perkins, a primeira mulher nomeada para o gabinete de um presidente e responsável pela comissão que criou o Social Security.

A GI Bill, que deu educação superior aos veteranos de volta da Segunda Guerra, foi assinada depois de uma luta ferrenha com o Congresso e, nos bastidores, a eloquente defesa de Eleanor, devastada pela visita aos hospitais de feridos no conflito.

“Não era segredo que Eleanor estava à esquerda de Franklin.” A autora lembra que, nas décadas de 30 e 40, havia uma esquerda mais forte e prestigiada nos Estados Unidos, não a caricatura que faz os políticos mais liberais hoje esconjurarem qualquer aparência de excessiva preocupação com políticas sociais. Roosevelt, diz Rowley, usava astuciosamente a força da esquerda como contrapeso para sua agenda progressista.

Pergunto a Hazel Rowley por que, décadas depois, o carinho do público pela memória dos Roosevelts desafia a divisão ideológica que aflige o país. Ela lembra que Roosevelt enfrentava poderosa oposição de uma certa imprensa. Era acusado de socialista e xingado de ditador pelos redatores a serviço do magnata William Randolph Hearst. “Mas, além de transmitir uma genuína empatia”, diz Rowley, “Franklin e Eleanor deixavam claro que não estavam no poder por autointeresse. O compromisso de ambos com o serviço público era evidente.”

O exercício de investigar o que separava Franklin e Eleanor Roosevelt parece fútil à autora, diante do fascínio do que manteve o casamento de quatro décadas. Uma união nada convencional, marcada por personagens coadjuvantes – mas alimentada por uma enorme paixão pela política.

16/11/2010 - 18:02h Vainfas e o fim de uma esperança


Historiador lança Jerusalém Colonial, que fala da participação dos judeus nas expedições holandesas no Brasil

Editora Record/Divulgação
Editora Record/Divulgação
Ronaldo Vainfas. Autor da proposta ambiciosa de reunir num mesmo volume um ensaio histórico e outro antropológico


Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S.Paulo

O historiador Ronaldo Vainfas, que há anos estuda a história da Inquisição, acaba de lançar, na 6.ª Fliporto (Festa Literária Internacional de Pernambuco), o livro Jerusalém Colonial (Civilização Brasileira), proposta ambiciosa de reunir num mesmo volume um ensaio histórico e outro antropológico sobre a participação dos judeus nas expedições holandesas no Brasil, principalmente após 1635, um ano depois que os holandeses conquistaram a Paraíba e enfrentaram a resistência pernambucana.

Vainfas analisa desde a chegada das primeiras levas de migrantes ao fim de uma esperança, a de que seria possível construir uma nova Jerusalém colonial. De fato, Pernambuco testemunhou a construção da primeira sinagoga das Américas, mas os judeus que aqui estavam foram perseguidos pela Inquisição com a insurreição que terminou por expulsar os holandeses do Brasil ou partiram em busca de novos territórios.

Ele conta histórias de reconversão e fala de cristãos-novos que voltaram ao judaísmo, mostrando que mesmo entre judeus prevaleceu um sentimento discriminatório que prejudicou a comunidade dos ashkenazim de origem alemã e polonesa. Os tudescos ou polacos, como os sefardim (judeus ibéricos) chamavam os judeus do centro-Leste Europeu, seus subalternos, eram mantidos a uma certa distância. Segundo o historiador, eles faziam de tudo para se distinguir dos recém-chegados dessa etnia, que acabavam como seus empregados. Ele discutiu o tema ontem, na mesa As Novas Jerusaléns e Sefarad, ao lado do arquiteto José Luis Mota Menezes e do antropólogo Angel Espina Barrio.

A ambivalência identitária é o que mais interessa ao historiador, que falou ao Estado sobre como as autoridades sefardistas se preocupavam com o comércio ilegal praticado pelos ashkenazim (inclusive de escravos). “Os judeus ocupavam lugares-chave no comércio, o que criava tensões, pois os protestantes de Pernambuco eram mais hostis a eles que os holandeses.” Os sefardim, que tinha vocação de poliglotas e vinham de uma cultura universitária (cristã), sentiam-se, segundo Vainfas “desterritorializados”, a despeito da proteção do governo de Nassau, que ficava do lado dos judeus ibéricos em todos os litígios, até mesmo porque eram eles seus intérpretes junto aos senhores de engenho. Os ashkenazim mal conseguiam se comunicar.

As dificuldades que o historiador enfrenta para pesquisar o assunto é grande. Vainfas diz que os documentos da comunidade judaica que se estabeleceu em Pernambuco “só registram preocupações institucionais e as relações políticas com os holandeses”. Ou seja, para eles, o Brasil era apenas uma terra de negócios, de oportunidades, e não a terra prometida. Num país em que imperava a mestiçagem não podia mesmo ser diferente.

Discriminação. Com o primeiro decreto do chefe da insurreição pernambucana declarando nulas as dívidas com os holandeses e judeus, os últimos voltaram em massa para a Europa e o Caribe ou ainda para os EUA, onde fundaram Nova York. Dos 5 mil judeus que chegaram em 1644, apenas 600 ficaram dez anos depois, e logo se reconverteram ao catolicismo, segundo Vainfas. “O impacto familiar foi grande, pois muitas vezes o marido queria ir à sinagoga e a mulher, cristã, não admitia.” Ou seja, como se não fosse suficiente a intolerância religiosa dos calvinistas e dos católicos no período holandês, os judeus ainda foram discriminados dentro da própria casa.

28/08/2010 - 16:55h Congelados pelo fogo


Enfim, a verdade sobre a tragédia de Pompeia

Roberta Jansen – O Globo

A morte dos moradores de Pompeia e Herculano na grande erupção do Vesúvio, no ano de 79, que soterrou as duas cidades, foi ainda mais violenta do que se imaginava. Um novo estudo, do Observatório de Nápoles, desvenda um mistério de quase dois milênios e revela que a maioria morreu calcinada por uma onda de calor tão intensa que matou os infelizes moradores em menos de um minuto. Nem quem estava em casa escapou da morte instantânea.

— Os resultados da minha pesquisa interdisciplinar indicam que, exceto pelas fatalidades causadas pelo colapso de alguns tetos na primeira fase da erupção, a mortalidade em Pompeia foi resultante da exposição a temperaturas superiores a 300 graus Celsius durante o quarto fluxo piroclástico (nuvem eruptiva), que, segundo simulações computacionais, durou apenas cerca de um minuto — contou o vulcanólogo Giuseppe Mastrolorenzo, autor do novo estudo, publicado semana passada na “Public Library of Science”.

O único testemunho escrito sobre o que aconteceu entre os dias 24 e 25 de agosto de 79 — há 1.931 anos — é do historiador Plínio, o Jovem, que relata ter visto seu tio, Plínio, o Velho, sucumbir a uma nuvem de cinza e fumaça. Para historiadores, a interpretação mais aceita era que os habitantes tinham morrido sufocados por cinzas e gases.

— Durante muito tempo, tudo o que tivemos de documentação sobre a erupção foram essas duas cartas de Plínio, o Jovem, enviadas ao historiador Tácito — conta o professor de história antiga da Universidade Federal Fluminense (UFF) Manuel Rolph Cabeceiras.

E são essas explicações que aparecem na maior parte dos guias turístico e livros sobre um dos mais famosos sítios arqueológicos do mundo. Segundo Mastrolorenzo, tudo o que vem sendo contado aos turistas “é falso”.

— Os indícios mais evidentes que contrastam com a ideia de morte por asfixia é a ocorrência generalizada (no sítio) de pessoas (congeladas) em momentos cotidianos, em ações suspensas, o que não é consistente com uma longa agonia — explica o vulcanólogo. — Com base nesta primeira evidência, um estudo multidisciplinar, reunindo vulcanólogos, antropólogos e arqueólogos, permitiu-nos verificar a suspeita de um total erro de interpretação na letalidade de Pompeia.

A maior ameaça de um vulcão

O fluxo piroclástico é um dos mais terríveis resultados de uma erupção vulcânica, diz a vulcanóloga Rosaly Lopes, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. É muito diferente do fluxo de lava, mais comum, que nada mais é do que rocha derretida. O fluxo piroclástico é uma explosão da lava, em razão dos muitos gases ali presentes.

Quando a lava explode, cinzas e partículas muito pequenas vão se acumulando como uma nuvem sobre a boca do vulcão.

— Conforme ela vai acumulando partículas, fica muito pesada e desce, como se fosse um rio, rente ao chão — explica Rosely. — Mas, como é composta basicamente de gases em temperaturas muito altas, cinzas e partículas de lava, ela é capaz de se mover a velocidades que alcançam centenas de quilômetros por hora. E é tão leve e acumula tanta energia que pode superar obstáculos físicos, como elevações de terreno e construções. Nada escapa a um fluxo piroclástico.

É muito diferente da lava, segundo a especialista, que se move a velocidades menores, e, por ser muito mais pesada, vem pelas partes mais baixas do terreno. Não só é possível ver que a lava está vindo, como se proteger em locais mais altos. Sem falar nas temperaturas dos fluxos que, facilmente, ultrapassam os 300 graus Celsius.

— Fluxos piroclásticos são a pior coisa que um vulcão pode produzir para matar pessoas — resume Rosely.

— É muito, muito perigoso.

O novo estudo indica que foi um fluxo desses, que durou menos de um minuto, que matou a maioria dos moradores de Pompeia e Herculano.

Aproximadamente 1.400 corpos foram achados nas duas cidades. Um terço deles teria morrido vítima do desabamento dos tetos ocorridos com os tremores que precederam a erupção. Os demais, no entanto, foram mortos instantaneamente, flagrados em ações cotidianas, cozinhando, sentados, ajoelhados, nos legando um retrato muito raro de uma antiga cidade romana.

Tivessem morrido asfixiados, estariam em posição muito mais contorcida, diz Mastrolorenzo. Muitos têm as mãos em posição defensiva o que, segundo o pesquisador, é típico de vítimas de incêndios e teria sido interpretado erroneamente.

— A grande importância de Pompeia e Herculano foi ter nos mostrado o cotidiano da vida romana, cidades conservadas no auge de sua existência — afirma o historiador Manuel Rolph Cabeceiras. — Elas não tiveram Idade Média nem Idade Moderna, não sofreram transformações, são retratos congelados da vida romana no primeiro século da era cristã.

Mastrolorenzo diz que seu estudo deve servir de alerta para as atuais autoridades de Nápoles. O fluxo piroclástico que, segundo ele, devastou Pompeia e Herculano em apenas alguns segundos alcançou a distância de 20 quilômetros do Vesúvio. Nápoles, com mais de 3 milhões de habitantes, está a dez quilômetros do vulcão.

— Pessoas que vivem a até 20 quilômetros de distância do vulcão estão expostas a um risco muito elevado — afirma. — Todos os resultados científicos indicam que uma erupção similar à de 79 pode ocorrer novamente. E o atual plano de emergência é inadequado.

22/08/2010 - 11:47h Pinochet: o horror revisitado

Em livro, chileno Heraldo Muñoz, diplomata e ex-assessor de Allende, reabre feridas da ditadura

João Paulo Charleaux – O Estado de S.Paulo

Poucos ditadores foram tão minuciosamente escrutinados pela literatura latino-americana quanto o chileno Augusto Pinochet (1915-2006). O general que comandou durante 17 anos um dos regimes mais brutais do mundo – responsável por mais de 3 mil mortes e desaparecimentos, além de 28 mil casos de tortura – teve seu duro rosto marcial e seus medonhos óculos escuros transformados na própria personificação do terror dos regimes militares.

Uma figura assim, tão caricata de suas próprias brutalidades, dificilmente teria uma nova faceta a revelar. Mas o chileno Heraldo Muñoz, membro ativo do governo socialista de Salvador Allende durante o golpe de 11 de setembro de 1973, conseguiu transformar o que já seria um excelente relato emocional numa análise acurada do contexto político que selou o destino não apenas do Chile, mas de vários países do mundo que serviram de tabuleiro para o tenso jogo de interesses entre EUA e URSS nos anos 60 e 70.

Muñoz – que foi embaixador do Chile nas Nações Unidas até o início do ano, quando assumiu o cargo de diretor do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD) – conta no livro A Sombra do Ditador – Memórias Políticas do Chile sob Pinochet (Zahar, 394 páginas, R$ 59) sua aventura como militante combativo (e combatente) nos anos de chumbo. Mas, mais do que isso, revela documentos pouco conhecidos sobre o envolvimento dos EUA no golpe e sobre o tenso bastidor do governo Allende, que tornou insustentavelmente aguda a divisão política do país a ponto de sofrer o que seria o primeiro golpe contra um líder marxista eleito democraticamente. A seguir, os principais trechos da entrevista que Muñoz concedeu ao Estado, de Nova York, por e-mail:

O sr. descreve um Pinochet astuto e oportunista, mas não muito inteligente. Não é demais supor que um homem assim tenha sido capaz de ficar no poder por 17 anos, resistindo não apenas às pressões dos democratas, mas passando para trás seus rivais militares também?

Pinochet se manteve no poder por uma combinação de fatores. Primeiro, ele tinha uma capacidade política inata e uma certa sagacidade, embora carecesse de bagagem cultural ou inteligência. Além disso, ele foi hábil em concentrar na polícia secreta da ditadura, a Dina, não apenas seu poder de repressão contra a dissidência, mas também contra qualquer sinal de desafio à sua autoridade proveniente de seus colaboradores mais próximos, fossem eles civis ou militares. Por outro lado, é importante lembrar que uma grande parte dos chilenos queriam, principalmente no início da ditadura, o restabelecimento da ordem e o fim da polarização política que caracterizou o último ano do governo Allende. Além disso, a Guerra Fria também ajudou, pois os EUA viram em Pinochet um aliado contra o comunismo.

Como o sr. compara as ditaduras do Chile e do Brasil?

O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a ditadura Pinochet, o que não é surpreendente se você considerar que alguns dos idealizadores do golpe no Chile reuniam-se regularmente na embaixada brasileira em Santiago. A ditadura brasileira também assessorou o regime Pinochet em técnicas de tortura e deu enorme apoio financeiro de emergência. No Brasil, entretanto, a ditadura foi mais institucional, menos personalista. Além disso, foi uma ditadura que teve a capacidade de fazer sua própria transição. E apesar de ter sido mais curta que a ditadura chilena, foi igualmente dura em termos de perdas humanas e torturas.

Seu livro torna clara a participação dos EUA no golpe no Chile, transcrevendo diálogos entre Pinochet e Henry Kissinger, secretário de Estado do então presidente americano Richard Nixon. A política americana para a América do Sul mudou quanto de 1973 para cá?

A ex-presidente do Chile Michelle Bachelet uma vez me contou uma piada que era assim: Sabe por que não há golpe de Estado nos EUA? É porque lá não existe uma embaixada americana. Mas as coisas têm mudado. Primeiro, pelas prioridades que os EUA têm hoje em outras partes do mundo, especialmente depois do 11 de setembro de 2001. Depois, porque o presidente Barack Obama quer inaugurar uma nova página de relações com a região, embora os frutos sejam escassos.

O que há em comum entre a direita que venceu as eleições do Chile em janeiro e a que governou o país nos 17 anos de ditadura Pinochet?

A direita chilena não fez ainda sua mea-culpa por ter dado apoio ativo à ditadura de Pinochet. Há setores importantes da direita que rechaçam as violações de direitos humanos, é verdade. E o próprio presidente Sebastian Piñera (que assumiu em março rompendo uma hegemonia democrática da esquerda que durou de 1990 a 2010) votou contra a continuidade do regime Pinochet no plebiscito de 1988. Na verdade, a direita sabe que, para ganhar eleições, precisa hoje afastar-se da herança de Pinochet. Mas ainda há uns poucos dentro do governo que relutam em fazer isso, mesmo pagando um alto custo político.

O sr. conta que, um dia antes do golpe de 1973, Allende se preparava para propor a realização de um plebiscito sobre sua permanência no poder. A prática tem sido muito repetida nos últimos anos por presidentes sul-americanos de esquerda. É possível estabelecer alguma comparação entre estas duas formas de fomentar uma suposta democracia participativa direta?

Mas aquela foi uma consulta diferente. O que Allende buscava era uma saída política para a crise. Ele não planejava mudar a Constituição ou outras normas vigentes no país. O plebiscito de 1973 teria evitado um banho de sangue que a ditadura provocou. Provavelmente, Allende teria sido derrotado, ainda que ele tivesse esperanças de convencer o povo chileno usando seus melhores argumentos.

A SOMBRA DO DITADOR
De Heraldo Muñoz. Editora Zahar (tradução Renato Aguiar, 396 págs., R$ 59).

15/08/2010 - 17:19h A vida privada sob Stálin

HISTÓRIA


Perversão e culpa


RESUMO Um ensaio monumental de Orlando Figes e um romance de Robert Littel retratam a vida privada de cidadãos comuns e intelectuais durante o regime de Stálin na União Soviética (1924-53). Delação, culpa e repressão engendraram um peculiar e romanesco sistema social e político marcado pela paranoia e pelo terror generalizados.

Stalin_vida_cotidiana

BERNARDO CARVALHO
ilustrações MARCELO COMPARINI

O INGLÊS ORLANDO FIGES, um dos maiores especialistas na história da Rússia e da União Soviética, foi pego, há pouco mais de três meses, com as calças na mão. Um internauta-resenhista, usando o codinome “historiador”, havia postado comentários devastadores contra os livros de dois outros estudiosos do mundo russo e soviético no site da Amazon. Como se não bastasse, o mesmo resenhista era só elogios hiperbólicos a “Sussurros”, de Figes, um imenso painel sobre a vida privada na União Soviética de Stálin.
Alguns internautas -e as vítimas dos comentários- começaram a desconfiar de que o “historiador” e o autor de “Sussurros”, professor no Birkbeck College, na Universidade de Londres, fossem a mesma pessoa. A suspeita chegou ao “Times Literary Supplement”. O mínimo que se pode dizer é que, a partir daí, o próprio Figes não deixou de contribuir, com suas ações desastradas, para amplificar o vexame.
Num primeiro momento, por meio de seu advogado, o egrégio historiador (agora sem aspas) exigiu a retratação dos que o acusavam, ameaçando processá-los. Num segundo momento, sabe-se lá por quê, responsabilizou a própria mulher, a advogada Stephanie Palmer, por ter tomado, sem o seu conhecimento, a iniciativa de postar os comentários infames no site da Amazon.

CULPA DE STÁLIN Dias depois, para surpresa ainda maior, Figes pôs a culpa em Stálin: assumiu afinal a autoria dos “posts” espúrios, mas sob a desculpa de que o exaustivo trabalho de pesquisa exigido para a execução do monumental “Sussurros” o teria deixado num estado de “depressão profunda”, capaz de levá-lo a cometer “erros tolos”. E saiu de licença, por motivo de saúde.
“Sussurros – A Vida Privada sob Stálin” [trad. Marcelo Schild e Ricardo Quintana, Record, 826 págs., R$ 84,90], de Orlando Figes, acompanha uma dezena de famílias soviéticas ao longo do século 20, relata a vida privada de pessoas comuns e suas “estratégias de sobrevivência, os silêncios, as mentiras, as amizades e traições, as concessões e acomodações”, diante dos crimes mais pavorosos que um Estado totalitário, com o auxílio indispensável do que há de pior entre os homens, pode cometer contra seus cidadãos: torturas, sequestros, prisões, condenações e execuções baseadas em falsas denúncias, falsos depoimentos e julgamentos de araque.
Elif Batuman, autora do engraçadíssimo “The Possessed” (”Os Demônios – Aventuras com Livros Russos e as Pessoas que os Leem”, publicado em fevereiro, nos EUA, pela Farrar, Strauss and Giroux), certamente daria outro diagnóstico para a depressão de Figes, mostrando, com conhecimento de causa, o que já era óbvio: que a loucura do historiador tem menos a ver com Stálin do que com a própria academia.
Batuman, que também é detratora das sagradas oficinas de criação literária nos EUA (acredita ser mais fácil aprender a escrever romances lendo Cervantes, Dostoiévski e Foucault), ensina literatura russa na Universidade Stanford, na Califórnia, e está acostumada a lidar com acadêmicos e seus congressos, como se pode depreender do humor absolutamente judaico dessa acadêmica de origem turca.
Ainda estudante, ela ajudou a organizar um congresso em torno de Isaac Bábel (banido e executado durante o terror stalinista), tendo a chance, por assim dizer, de privar da companhia não exatamente fácil da descendência do escritor. Também conseguiu emplacar um texto num colóquio de tolstoianos, em Iásnaia Poliana, a antiga propriedade rural do autor de “Guerra e Paz”. Mas, como sua mala desaparecera nos labirintos da malha aérea da Aeroflot, a companhia russa, Batuman acabou passando os quatro dias do congresso com a roupa que tinha reservado para dormir no avião (chinelos, calças de moleton e um camisão de flanela), o que levou os colegas a confundi-la com os fanáticos seguidores da seita criada por Tolstói no século 19.
O pequeno embuste de Figes não revela nada além da vaidade (um tanto descontrolada, é certo) do acadêmico. E se tem alguma relação com o mundo stalinista, como pretende o próprio autor, é apenas por refletir, numa escala insignificante, a prática das difamações e das acusações anônimas -moeda corrente na internet de hoje, embora sem as consequências do mesmo gênero de ações nos regimes totalitários.

PARANOIA Entre 1928, quando Stálin obtém poder total, e 1953, ano de sua morte, em média uma pessoa para cada 1,5 família foi vítima da repressão do Estado (cerca de 25 milhões de pessoas, estima Figes). A população não distinguia entre presos políticos e criminosos comuns. Pegos de surpresa, familiares costumavam atribuir a prisão de um parente a algum equívoco ou mal-entendido. A paranoia chegou a ponto de ninguém mais ser considerado inocente. Mulheres passaram a desconfiar de maridos e vice-versa. Pais presos exortavam os filhos a renunciá-los, se quisessem vencer na vida – ou simplesmente sobreviver.
É realmente uma ótima ideia estudar a vida privada de um mundo onde a própria ideia de privacidade se tornara uma aberração. Num apartamento comunal de Leningrado (nome da atual São Petersurgo entre 1924 e 1991), nos anos 30, por exemplo, podia haver apenas um banheiro para 48 moradores, que tinham de sussurrar quando queriam falar de seus assuntos privados.
Também sussurravam os delatores. No auge do terror (entre 1937 e 1938), havia informantes por toda parte, em fábricas, escolas, escritórios, apartamentos e locais públicos. Segundo cálculos de ex-oficiais ligados à polícia, havia em Moscou (uma cidade de 3,4 milhões de habitantes em 1933, quando o crescimento da população passou a ser controlado por um sistema de passaportes e expulsões) pelo menos um informante para cada seis ou sete famílias.
Não há nenhuma inverdade na opinião enlevada que Figes tem da própria obra. E ele não teria do que se envergonhar se não fosse por ter-se valido de um codinome para atacar seus pares e publicar o autoelogio. “Sussurros” é um livro fenomenal. A equipe do historiador consultou dezenas de arquivos e entrevistou centenas de pessoas ao longo de sete anos (a totalidade dos depoimentos pode ser acessada em orlandofiges.com).

STALINISTA BOM O que a anedota infeliz da internet e a vaidade do historiador talvez permitam compreender sob outra ótica é sua empatia por Konstantin Simonov (1915-79), um dos favoritos do regime, que Figes teve a perspicácia de transformar não só em fio condutor mas em herói trágico do seu livro: “Se fosse possível ser um ’stalinista bom’, ele poderia se enquadrar na categoria. [...] Compreender seus pensamentos e ações talvez seja compreender esse período”, escreve na introdução.
A complexidade desse personagem vaidoso e ambíguo, capaz de sobreviver aos piores anos do terror e da paranoia, mantendo as regalias reservadas aos mais altos escalões e vivendo com um glamour equivalente ao de Hollywood quando até os homens da mais alta confiança de Stálin terminavam caindo em desgraça, traídos por seus próprios amigos e colaboradores, faz de “Sussurros” um valioso documento histórico que se lê como um grande romance.
“O Simonov ficou famoso com um poema de guerra, muito sentimental, ‘Espere por mim’. Como poeta, é bastante fraco”, sentencia Boris Schnaiderman, que reconhece, contudo, a importância literária de outros escritores stalinistas, como Mikhail Chólokov. “Espere por mim” foi escrito em 1941, quando Simonov era correspondente na frente de batalha, para a atriz Valentina Serova, que o escritor cortejava à época e com quem acabou se casando sob os auspícios do Kremlin.
Especialista em literatura russa, tradutor de Púchkin e Dostoiévski (e contemporâneo de Simonov), Schnaiderman nasceu na Ucrânia em 1917 e deixou a União Soviética em 1925. Suas visitas à Rússia desde 1967 renderam, entre outros, “Os Escombros e o Mito” (Companhia das Letras), sobre a glasnost e a perestroika – literalmente, “transparência” e “reestruturação econômica”, as duas palavras que simbolizam as políticas de abertura administrativa e de informação implantadas por Mikhail Gorbatchov e que culminariam no fim da União Soviética, em 1991. Uma reunião das entrevistas de Schnaiderman deve sair ainda neste ano na coleção Encontros, da editora Azougue.

SOBREVIVÊNCIA O mea-culpa feito por Simonov no final da vida confirma a opinião de Schnaiderman: a literatura foi, para Simonov, menos uma questão literária do que de sobrevivência. O escritor fez o que foi preciso fazer. Escreveu poemas à glória de Stálin (grandes poetas, como Boris Pasternak, também escreveram). Sob intensa pressão, recusou-se a ser informante (o que talvez o tenha salvado, no final das contas), mas nunca deixou de servir ao Estado com a aparente convicção de um homem moral e íntegro na sua ingenuidade e na sua cegueira.
Secretário da União dos Escritores, Simonov não poupou ataques aos “inimigos do povo”, fossem eles formalistas, cosmopolitas, liberais ou simplesmente judeus, dependendo do momento e a despeito de suas duas primeiras mulheres -a segunda, mãe de seu filho- serem judias. Apoiou a invasão da Hungria, em 1956, e impediu a publicação do “Doutor Jivago”, de Pasternak, na revista “Nóvi Mir” (o romance acabou saindo no Ocidente e garantindo o Nobel de literatura ao autor, em 1958, que foi obrigado a recusá-lo sob pressão do Estado soviético).
Entretanto, nos anos que precederam sua morte, Simonov tornou-se um ardoroso defensor dos escritores censurados e perseguidos por Stálin. Passou a colecionar arte da vanguarda soviética e teve um papel na divulgação dos poemas de Óssip Mandelstam, chegando a ajudar financeiramente a viúva do escritor, Nadedja. Teve papel decisivo no processo que levou à publicação da obra-prima proscrita de Mikhail Bulgákov, “O Mestre e Margarida” (trad. Zoia Prestes, Alfaguara). Quando morreu, a imprensa internacional noticiou o desaparecimento do “favorito de Stálin”. O escritor russo e Nobel de literatura de 1970 Alexander Soljenitsin o chamava de “homem de várias faces”.
Simonov aprendeu a calcular desde cedo. Filho de uma princesa, descendente de um clã de grandes proprietários de terra, e de um general czarista desaparecido em 1917, passou a vida tentando esconder as origens aristocráticas. Depois do sumiço do pai, a mãe foi despejada do apartamento onde moravam em Petrogrado (nome de São Petersburgo entre 1914 e 1924) e obrigada a ir viver no interior, onde entendeu que mais valia casar-se de novo, ainda que o pretendente fosse de classe inferior, a manter-se princesa abandonada em plena revolução.
Criado pelo padrasto, militar humilde que sonhava com uma educação superior para o enteado, Simonov preferiu cursar uma escola técnica e trabalhar numa fábrica. Tinha entendido que sua sobrevivência dependia de uma metamorfose. E, ao longo de toda a sua formação, comportou-se como um aplicado aspirante a operário, um “CDF” (como foi apelidado pelos colegas) proletário. Participava de todo tipo de agremiações e associações, com a disciplina de um pequeno burocrata, a ponto de não se poder mais distinguir entre a estratégia e a personalidade. A prisão do padrasto, em 1930, em vez de levar o adolescente a questionar o regime, apenas o fez trabalhar com mais afinco para sustentar a mãe e corresponder ao modelo do operariado soviético.

ANKETA “Havia a famosa ‘anketa’”, diz Schnaiderman. A palavra, derivada do francês “enquête”, designava uma espécie de currículo e atestado de bons antecedentes. “Para tudo precisava de ‘anketa’. Estava tudo ali, suas atividades, seus antecedentes. Você tinha que ter origem adequada. O Bulgákov, por exemplo, tinha servido no Exército Branco, como médico, contra os bolcheviques, na guerra civil. Por mais que Stálin admirasse sua peça ‘Os Dias dos Turbins’, ele estava marcado pela origem”, diz Schnaiderman.
Mikhail Bulgákov foi, por sinal, um dos poucos a se recusar a participar, em 1933, do passeio de propaganda pelo canal do mar Branco a que se submeteram 120 escritores. Organizado numa das célebres reuniões no palacete de Máximo Górki, em Moscou, onde, dois anos mais tarde, também seria elaborada a doutrina do realismo socialista anunciada no 1º Congresso da União dos Escritores, o passeio tinha por finalidade exaltar o gulag, o sistema dos campos de trabalhos forçados. Construído com mão de obra de prisioneiros, o canal foi um dos projetos mais desastrosos e assassinos do primeiro plano Quinquenal (1928-33), que também espalhou a fome por toda a União Soviética.
Simonov, à época com 18 anos, trabalhava como mecânico nos estúdios de cinema onde Pudovkin filmava “O Desertor” e ficou tão encantado com a oportunidade edificante daquela farsa que passou a escrever seus próprios poemas sobre o canal, terminando por visitá-lo, com financiamento da editora estatal, para escrever mais poemas. Nascia um poeta stalinista. A consagração, porém, só veio mesmo durante a Segunda Guerra (1939-45), que para muita gente teve o efeito purificador de legitimação do regime na luta contra o nazismo, quando o poema “Espere por mim” transformou Konstantin e Valentina na face romântica e glamourosa do terror.

EPIGRAMA É claro que nem todos os escritores reagiam da mesma forma. A fome no campo (que testemunhou em uma viagem à Crimeia) foi o que levou Óssip Mandelstam, um dos maiores poetas russos do século 20, a escrever sua sentença de morte: um epigrama contra Stálin. O escritor foi denunciado depois de ler o poema para um círculo restrito de amigos. Preso pela primeira vez em 1934, morreu num campo de trabalhos forçados, no extremo leste da Rússia, quatro anos depois. A morte do poeta é o tema do romance “De Mandelstam para Stálin” [trad. Mauro Gama, Record, 378 págs., R$ 52,90], escrito pelo americano Robert Littel, autor de best-sellers de espionagem e pai de Jonathan Littel, vencedor do prêmio francês de literatura Goncourt, em 2006, com “As Benevolentes” (trad. André Telles, Alfaguara).
“De Mandelstam para Stálin” faz a dramatização desse quadro tão romanesco que foi o terror soviético, tentando reencenar pela ficção o que ninguém viu e o que nenhum historiador jamais poderá desencavar de nenhum arquivo. Littel imagina o triângulo amoroso entre o poeta, a mulher Nadedja e uma jovem atriz; a reunião na casa de Górki, com a presença de Stálin, em que são lançados os preceitos do realismo socialista; as catacumbas da sede da polícia política no centro de Moscou e o calvário de Mandelstam entre a primeira prisão, os interrogatórios, a tortura, o exílio, o campo de trabalhos forçados e a morte.
Littel conhece bem o mundo soviético. O romance tem altos e baixos (é infeliz, por exemplo, a referência aos traumas de infância de Stálin como esboço de uma possível explicação psicológica para a personalidade do monstro), mas faz o leitor compreender, talvez com mais agudeza do que permite supor o heroísmo ambivalente de Simonov, a perversão psicológica perpetrada pelo terror e pela paranoia stalinista sobre a personalidade dos indivíduos.

DOUTRINAÇÃO A figura do delator parece natural num universo onde a crença no regime, incutida em todos por meio de uma doutrinação obstinada, acaba por lhes fazer ver um Estado onipotente e onisciente, impedindo que enxerguem qualquer coisa além dele. O Estado stalinista só sobrevive porque as pessoas não cometem os crimes de que são acusadas. Todos se submetem por antecipação, porque é impossível não se submeter alguma hora. Todos são delatores e culpados em potencial. Nessa falta de perspectiva, também parece natural o suicídio de quem se adianta ao terror (como Mandelstam) para se livrar dele.
O projeto de Orlando Figes era pôr o homem comum no centro dessa história. No romance de Robert Littel, o homem comum está representado por um levantador de pesos que cai em desgraça por conta de um adesivo da torre Eiffel colado a uma mala que ele adquire. Os caminhos do levantador de peso e do poeta vão se cruzar no gulag.
O homem comum também estará representado pela bela imagem dos prisioneiros que jogam pelas frestas dos vagões que os levam para os campos, depois de terem sido arrancados de suas famílias, torturados e submetidos em segredo a encenações judiciais, as cartas que, a depender da solidariedade dos que por acaso as encontrarem e decidirem pô-las no correio, serão o seu único testemunho e testamento.