15/11/2009 - 17:01h Mulheres marcadas


Obra esmiúça a história de campo de concentração nazista onde 117 mil prisioneiras foram mortas

EVA BLAY ESPECIAL PARA A FOLHA

Desvendar o Holocausto, negado pelos ignorantes, punir os nazistas assassinos foi um processo que só se aprofundou na Alemanha depois do julgamento de Eichmann [em 1961], disse Hannah Arendt. E quanto falta conhecer!
Sabia-se da presença de mulheres em todos os campos, mas não que houvesse um campo especialmente destinado a elas e a meninas forçadas ao trabalho escravo.
É o que nos revela Rochelle G. Saidel, em seu magnifico “As Judias do Campo de Concentração de Ravensbrück”. Ravensbrück era um campo só para mulheres. Rochelle Saidel, ao visitá-lo em 1980, constatou que se falava de todas as prisioneiras, especialmente das comunistas, e nada se dizia sobre as judias, mesmo as judias comunistas.
Por que essa omissão? Esclarecer esta questão se tornou seu objetivo. Durante 25 anos, coletou documentos, ouviu sobreviventes, judias ou não, pesquisou bibliotecas em vários países e voltou ao campo diversas vezes por ocasião das comemorações de sua libertação. Rochelle descobriu que, de cada 100 mulheres, pelo menos 20 eram judias. Os responsáveis pelo memorial do campo tentavam se desculpar pela omissão afirmando que faziam uma classificação pelas nacionalidades, e não religião. Paradoxo, pois as deportadas de cada uma das “nacionalidades” o eram em decorrência da condição judaica, mesmo as que tivessem aderido a outras religiões, e não devido à nacionalidade.
No campo havia comunistas, antinazistas, social-democratas, homossexuais, criminosas, prostitutas, ciganas, testemunhas de Jeová e judias. Construído por prisioneiros de campos de concentração próximos, Ravensbrück recebeu a primeira leva de mulheres em 18 de maio de 1939. A cada ano chegavam centenas de deportadas. Vieram de Polônia, Áustria, França, Bélgica, Holanda, Noruega, Iugoslávia e outros países ocupados. Um campo previsto para 3.000 mulheres chegou a ter 132 mil prisioneiras durante seus seis anos de existência.

Tifo e inanição
Mas a crueldade da morte por tifo, tuberculose, inanição ou monóxido de carbono dos escapamentos de caminhões não bastava e, em novembro de 1944, [o chefe da polícia nazista Heinrich] Himmler ordenou que se construíssem câmaras de gás em Ravensbrück.
Das 132 mil mulheres que passaram pelo campo, 117 mil foram mortas. A Cruz Vermelha resgatou 7.500 prisioneiras, enviando-as para a Suíça e a Suécia no último momento da dominação nazista. Quando o Exército russo libertou o campo, em abril de 1945, restavam 3.000 mulheres moribundas.
O livro descreve detalhadamente como as prisioneiras realizavam um trabalho escravo. Construíam estradas, formavam uma fileira como animais para carregar pedras do lago das circunvizinhanças e depois as esmagavam com um cilindro que exigia dez mulheres para ser movido; alinhavam as pedrinhas à mão pelos caminhos do campo. As mulheres trabalhavam também fora do campo: foram escravas da fábrica Siemens na produção de armamentos.
Fome, frio, total ausência de roupas adequadas ao rigoroso inverno, falta de sapatos se somavam a chibatadas e ataques de cães. Mulheres e meninas eram também enviadas para terríveis “experiências” médicas que ultrapassam o limite da razão.
Várias prisioneiras de Ravensbrück tiveram ligações temporárias ou permanentes com o Brasil e suas histórias são relatadas no livro. Elisabeth Saborovski Ewert, conhecida como Sabo, veio ao Brasil enviada pelo Comintern [a Internacional Comunista] para, junto com Prestes, atuar no Partido Comunista.
Presa, teve destino semelhante a Olga Benário Prestes; ambas foram enviadas num navio nazista, em 1936, para a Alemanha. Sabo passou no Brasil por prisões, tortura, foi estuprada diante do marido, acabou em Ravensbrück, onde teve de trabalhar terrivelmente, embora fosse tuberculosa, e seu corpo, apenas pele e ossos.
Quando desmaiou, carregando pedras, foi chutada e mordida pelos cães atiçados pelas guardas do campo. Apesar dos esforços das companheiras, não resistiu.

Vida no campo
A condição de gênero teve várias consequências distintas para homens e mulheres. O perigo dos estupros estava sempre presente. Mulheres grávidas eram mortas ou tinham seus bebês mortos, às vezes por elas mesmas para que não sofressem a vida torturante do campo.
Socializadas para o pudor, sofriam quando tinham de ficar nuas diante de homens e mesmo de mulheres do campo. Mas essa mesma socialização para o “cuidar” ajudou a preservar a dignidade e até a sobrevivência de algumas.
Mulheres preparadas para as tarefas domésticas enganavam a fome trocando receitas, fazendo pequenos presentes como um simples desenho, esculpindo uma escova de dentes, bordando um pequeno pano, lembrando um aniversário. Simples gestos ganhavam enorme significado.
Após o fim da guerra, Ravensbrück ficou sob a supervisão dos comunistas russos e depois da República Democrática Alemã. De início, o Memorial de Ravensbrück ressaltava o heroísmo das mulheres comunistas russas ou alemãs, ignorando inteiramente as judias -mesmo as que também eram comunistas. Só depois de 1995 se abriu um espaço para essas mulheres esquecidas, certamente obra da competente e persistente pesquisadora Rochelle Saidel.

EVA BLAY é professora titular de sociologia na Universidade de São Paulo e autora de “Assassinato de Mulheres e Direitos Humanos” (ed. 34).


AS JUDIAS DO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE RAVENSBRÜCK

Autor: Rochelle G. Saidel
Tradução: Antonio de Pádua Danesi
Editora: Edusp (tel. 0/xx/11/ 3091-4008)
Quanto: R$ 59 (344 págs.)

21/04/2009 - 18:54h Brasil condena discurso do presidente iraniano

http://www.centrodeartesdesines.com.pt/programacao/2007/200702/imagens/g_holocausto1.jpg
Os Campos de extermínio nazistas serviram para tentar aniquilar o povo judeu. Nunca poderá ser esquecido

Leia a íntegra da nota do Itamaraty

Conferência de Revisão de Durban sobre Racismo

O Brasil atribui grande importância à Conferência de Revisão de Durban sobre Discriminação Racial, que ocorre em Genebra entre 20 e 24 de abril. Para alcançar os objetivos da conferência, o engajamento de todos no diálogo internacional é crucial.

O governo brasileiro tomou conhecimento, com particular preocupação, do discurso do presidente iraniano que, entre outros aspectos, diminui a importância de acontecimentos trágicos e historicamente comprovados, como o Holocausto. O governo brasileiro considera que manifestações dessa natureza prejudicam o clima de diálogo e entendimento necessário ao tratamento internacional da questão da discriminação.

O governo brasileiro aproveitará a visita do presidente Ahmadinejad, prevista para o dia 6 de maio, para reiterar ao governo iraniano suas opiniões sobre esses temas.

Fonte Folha Online

28/01/2009 - 12:53h Dia Internacional em memória das vitimas do Holocausto

Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante solenidade do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto
São Paulo-SP, 27 de janeiro de 2009

 Foto Ricardo Stuckert / PR
Presidente Lula participa de cerimônia do Dia Internacional de Lembrança das Vítimas do Holocausto _(São Paulo, SP, 27/01/2009) _Foto: Ricardo Stuckert/PR

Meus amigos e minhas amigas,

Agradeço o convite para participar, pelo quarto ano consecutivo, do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Eu posso dizer que me sinto pessoalmente envolvido com a instituição desta data. Em agosto de 2004, recebi de uma comitiva do Congresso Judaico Mundial e de líderes comunitários brasileiros – certamente alguns deles estão aqui presentes – uma petição à ONU solicitando medidas mais concretas na luta contra o anti-semitismo. Assinei de imediato o documento, afinal, o Estado brasileiro foi co-patrocinador de diversas resoluções da ONU afirmando a importância de rememorar aquela tragédia. Mais tarde, eu soube que o Brasil foi o primeiro país a subscrever aquela petição. Soube também que ela serviu de base para consagrar 27 de janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
Hoje, como em todos os dias, devemos nos empenhar na luta da memória contra o esquecimento. É preciso manter viva a lembrança, para que nunca mais se repita o assassinato em massa, o genocídio como ideologia e a limpeza étnica como razão de Estado.
O regime nazista promoveu a mutilação espiritual, a humilhação moral, a ruína material e a eliminação física de milhões de homens, mulheres e crianças. Vitimou judeus, comunistas, homossexuais, negros, ciganos, testemunhas de Jeová e todos que considerou inferiores na raça, no credo e na cor. O holocausto marcou o auge da crueldade humana e configurou o maior episódio de violência e covardia de nossa história, um episódio que não deveria ter ocorrido e que não pode nunca mais voltar a ocorrer.
É certo que a intolerância e a xenofobia ainda não foram totalmente extintas. No entanto, em todo o mundo a sociedade vem dando importantes passos na superação dos preconceitos. Um grande exemplo acaba de se concretizar nos Estados Unidos. Lá, há poucas décadas, negros e brancos não tinham os mesmos direitos. E hoje, pela primeira vez, um negro é presidente dos Estados Unidos. O combate ao ódio e à discriminação já não é um grito isolado, mas integra o ideário das sociedades dos mais diferentes países.
Minhas amigas e meus amigos,
Ao participar deste evento, ano após ano, busco demonstrar o profundo respeito que eu e todo o governo nutrimos pelas comunidades que compõem a grande nação brasileira. Eu me orgulho de ser presidente de um país marcado pela diversidade, onde a tolerância garante o respeito mútuo a todos. Temos uma legislação clara e rigorosa no que se refere a todas as formas de intolerância. Somos uma das poucas democracias do mundo, talvez a única, em que a Constituição garante que para crime de racismo não deve existir nem fiança, nem prescrição.
O Brasil não aceita discriminação. Judeus e árabes, sejam religiosos ou não, convivem pacífica e harmoniosamente em nossas cidades, dividem espaços e compartilham a construção e o desenvolvimento do Brasil. Por isso, o conflito entre Israel e Palestina, no Oriente Médio, atinge os corações e as mentes de todos, e nos obriga a evitar que o ódio contamine o nosso país. Mais do que tudo, o Brasil pode se valer dessa convivência pacífica para colaborar para a construção da paz.
Minhas amigas e meus amigos,
A diplomacia brasileira tem uma larga tradição de atuar de forma conciliatória na solução de conflitos, e no que se refere aos povos israelense e palestino, nosso Estado vem ao longo de seis décadas ratificando as resoluções internacionais que têm por objetivo garantir a coexistência pacífica e segura de dois Estados soberanos. Esse tem sido o sentido de todas as nossas manifestações, pois só assim alcançaremos a paz naquela região. Eu tenho me esforçado pessoalmente para impedir que o ódio mútuo, acumulado ao longo de décadas, acabe sufocando ainda mais as alternativas de paz.
Como vocês sabem, recentemente determinei ao chanceler Celso Amorim que viajasse à região com o objetivo de apoiar os esforços para o cessar-fogo, o alívio da situação humanitária e o estabelecimento de uma paz reguladora. Na ocasião, a diplomacia brasileira reiterou às autoridades sírias, israelenses, palestinas, jordanianas e egípcias, a necessidade de se evitar mais mortes e sofrimento na população civil de ambos os lados.
Lembramos às partes envolvidas que há outros atores interessados em agir a favor de um entendimento, e a paz só tem a ganhar com a participação de países como o Brasil. Todos sabem que o Brasil não está interessado nos resultados políticos e nos dividendos econômicos que podem ser obtidos na região. Nosso interesse exclusivo é o de contribuir para a paz duradoura e definitiva na região.
O Brasil tem condições e credenciais para participar, junto com outros países, de iniciativas que conduzam a um consenso para superar a violência e a irracionalidade. Por isso mesmo, apoiamos a realização de uma conferência internacional em seguimento à reunião de Annapolis, ocorrida em novembro de 2007, como um passo importante para o restabelecimento da paz na região, com base no reconhecimento do direito de constituição do Estado palestino viável, e da existência de Israel em condições de segurança e de soberania. O Brasil não aceita a escalada da violência como solução para os conflitos.
Lamentamos profundamente a morte de civis, mulheres e crianças. Conclamamos o pronto estabelecimento das condições que permitam a plena retomada da assistência humanitária à população de Gaza e a tranquilidade para a população de Israel. Guardo uma profunda esperança na construção do diálogo e continuarei empenhado para que, o mais rápido possível, aquela região viva uma trégua consistente que seja prenúncio de uma paz duradoura.
Minhas amigas e meus amigos,
Que este Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto ajude a todos os homens e mulheres a se recordarem das iniquidades que tanto macularam a trajetória da Humanidade. Que ele fale à consciência coletiva sobre a necessidade de se reparar os danos sofridos no passado, de se interromper as injustiças do presente e de se evitar tragédias no futuro.
Espero, sobretudo, que este dia nos convide a olhar para as novas gerações, que não podem ser hostilizadas pelos erros cometidos por seus antepassados. Devemos garantir que as crianças e jovens se desenvolvam em um ambiente onde a desconfiança mútua seja substituída pelo preceito bíblico, quando diz: “Ama teu próximo como a ti mesmo”.
Shalom. Muito obrigado.

19/01/2009 - 14:20h No que tenha a ver com Gaza, deixem a II Guerra Mundial fora disso

http://images.ig.com.br/publicador/ultimosegundo/274/23/23/1315399.ataque_na_faixa_de_gaza_252_399.jpg
Exercito de Israel bombardeia Gaza

Fonte vi o mundo – blog de Azenha

  Robert Fisk, 17/1/2009, The Independent, UK

  http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fiskrsquos-world-when-it-comes-to-gaza-leave-the-second-world-war-out-of-it-1418270.html

Detesto exageros. Comecei a detestar há anos, nos anos 70s, quando o Provisional IRA (Provisional Irish Republican Army, grupo de ação armada ativo a partir de 1969, na Irlanda e na Inglaterra) declarou que a prisão de Long Kesh seria  “pior que Belsen[1]“. Não que houvesse algo de bom em Long Kesh – a prisão Maze, como depois foi rebatizada, polidamente. Simplesmente, não foi pior que Belsen. Agora, começou outra vez. Passando por Paris, essa semana, vi, numa manifestação pró-Palestina, cartazes em que se lia “Gaza é Guernica” e “Gaza-sur-Glane”.

Guernica, como se sabe, foi a cidade basca destruída pela Luftwaffe em 1937; Oradour-sur-Glane, a vila francesa cujos habitantes foram massacrados pela SS em 1944. A selvageria de Israel em Gaza também tem sido descrita como “genocídio” e – claro –, como um “holocausto”. A União Francesa das Organizações Islâmicas descreveu-a como “genocídio sem precedentes” –, o que vale uma medalha, quando até o Papa “ministro para paz e justiça entre os homens” comparou Gaza a um “grande campo de concentração”.

Antes de pôr-me a escrever o óbvio, gostaria, só, de que a União Francesa das Organizações Islâmicas chamasse o genocídio dos armênios de genocídio. Não chamam porque não têm coragem, de medo de ofender os turcos e, além disso, quero dizer… eh… o milhão e meio de armênios massacrados em 1915, eh… eram, quero dizer… cristãos.

Aliás, vejam só, o mesmo acontece com George Bush, porque também não pode ofender os generais turcos de cujas bases aéreas os EUA precisam muito para continuar em guerra no Iraque.  E nem Israel jamais chamou o genocídio dos armênios de genocídio, de medo de perder o único aliado muçulmano que ainda lhe resta no Oriente Médio. Não é estranho? Quando acontece um verdadeiro genocídio – o genocídio dos armênios – ninguém usa a palavra. Quando não há, imediatamente a palavra aparece em todas as bocas.

Sim, sim, sei o que tantos estão tentando fazer: construir uma conexão direta entre Israel e a Alemanha de Hitler. Muitas entrevistas por rádio, essa semana, ao mesmo tempo, já condenam tais comparações. Como sentem-se, sobreviventes do holocausto, ao ser chamados de nazistas? Ora. Como alguém tem coragem de comparar o exército de Israel à Wehrmacht? Fácil: porque a comparação é ato de anti-semitismo.

Já, várias vezes, estive sob fogo do exército de Israel. Nessa condição, não estou convencido de que o exército de Israel seja “exército nazista”. De fato, não entendo por que bombardear as estradas do norte da França em 1940 foi considerado crime de guerra… e bombardear as estradas do sul do Líbano não foi considerado crime de guerra.

O massacre de mais de 1.700 palestinenses nos campos de refugiados de Sabra e Chatila – perpetrado pela Falange Libanesa aliada de Israel, e assistido por soldados de Israel que nada fizeram – pode ser mais bem comparado à II Guerra Mundial. O número de mortos estimado por Israel – vergonhosos 460 – só perde por nove para o massacre nazista da cidade tcheca de Lidice, em 1942, quando quase 300 mulheres e crianças foram mandadas para Ravensbrück (esse, sim, verdadeiro campo de concentração). Lidice foi destruída por Reinhard Heydrich, para vingar a morte de agentes aliados.

Os palestinenses foram chacinados, em Sabra e Chatila, depois que Ariel Sharon disse ao mundo – de fato, mentiu ao mundo – que um palestinense havia assassinado o falangista libanês Bashir Gemayel.

E foi o valente Professor Yeshayahu Leibovitz, da Hebrew University (e editor da Encyclopaedia Hebraica) quem escreveu que o massacre de Sabra e Chatila “foi feito por nós. Os Falangistas são mercenários pagos por nós, exatamente como os ucranianos e os croatas e os eslovacos foram mercenários de Hitler, que os organizou em exército e como soldados, para trabalharem para ele.

Exatamente do mesmo modo, nós, os israelenses, organizamos os assassinos libaneses para assassinar palestinenses”. Lição que foi saudada por Yosef Burg, então ministro do Interior e Assuntos Religiosos, com uma pergunta inolvidável: “Cristãos matam muçulmanos… E a culpa é dos judeus?!”

Há muito tempo enfureço-me contra quaisquer comparações que envolvam a II Guerra Mundial – seja na vertente Arafat-é-Hitler, já encenada por Menachem Begin, seja na vertente “os pacifistas-estão-pacificando-os-anos-30″, encenada recentemente por George Bush & Lord Blair de Kut al-Amara[2].

Os manifestantes pró-Palestina bem poderiam pensar duas vezes antes de pôr-se a falar sobre genocídio, porque o Grande Mufti de Jerusalém apertou a mão de Hitler e disse – em Berlin, dia 2/11/1943, exatamente – “Os alemães sabem como livrar-se de judeus. Definitivamente, conseguiram resolver o problema judeu.” O Grande Mufti, para quem não saiba, era palestinense. Repousa hoje, num túmulo escuro, aqui, a poucos quilômetros do meu apartamento em Beirute.

Mas, de fato, a razão mais importante pela qual o paralelo “Gaza-Genocídio” é perigoso é porque é um falso paralelo.

O 1,5 milhão de refugiados de Gaza são tratados com brutalidade terrível, mas não estão sendo mandados para câmaras de gás ou empurrados para marchas da morte.

Que o exército de Israel é uma horda, é, não há dúvida – e achei engraçado que, semana passada, um dos correspondentes regulares da revista Newsweek o tenha descrito como “esplêndido exército” –, mas isso não implica dizer que todos os soldados israelenses sejam criminosos de guerra.

E tudo faz crer que, sim, cometeram-se crimes de guerra em Gaza. Bombardear escolas da ONU é ato criminoso, que fere todos os protocolos da Cruz Vermelha Internacional. Não há atenuante possível para o assassinato de tantas mulheres e crianças.

Devo acrescentar que fui tomado por sincera emoção de simpatia pelo ministro do Exterior sírio o qual, essa semana, perguntou por que já se organizara em Haia um tribunal internacional inteiro para investigar a morte de um único homem (o ex-primeiro ministro do Líbano, Rafiq Hariri)… mas ainda não se organizara nenhum tribunal em Haia para julgar a morte de mais de 1.000 palestinenses.

Contudo, devo acrescentar que bem pode acontecer de algum tribunal de Haia apontar o dedo para a Síria… e será minha vez de perguntar por que não se organiza nenhum tribunal em Haia para julgar os sírios responsáveis pelo massacre de Hama, em 1982, quando milhares de civis foram mortos a tiro, por soldados das forças especiais de Rifaat al-Assad. O retro-referido Rifaat, sou obrigado a acrescentar, vive hoje em perfeita segurança, dentro da União Européia.

E que tal outro tribunal internacional em Haia, para julgar os soldados da artilharia de Israel que massacraram 106 civis – mais da metade dos quais crianças – na base da ONU em Qana, em 1996?

O xis da questão é a legislação internacional. O xis da questão é a punibilidade. O xis da questão é a administração da justiça – justiça sempre inalteravelmente mal distribuída e que os cidadãos palestinenses jamais receberam – e trata-se de levar bandidos a julgamento. Todos os bandidos, sejam os criminosos de guerra árabes sejam os criminosos de guerra israelenses, o bando todo.

E que ninguém diga que é impossível. É possível – o que ficou bem demonstrado no tribunal ioguslavo. Vários assassinos não foram condenados? Foram. A II Guerra Mundial nada tem a ver com nada disso.

[1] Campo de concentração de prisioneiros dos nazistas, na Baixa Saxônia. Sobre Belsen, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Bergen-Belsen.

[2] Sobre Kut-al-Amara, ver http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=Kut+al-Amara&meta=

08/01/2009 - 15:17h O debate faz parte da luta pela paz entre palestinos e israelenses

Reproduzo a seguir duas cartas trocadas entre o presidente da Conib (entidade representativa da comunidade judaica brasileira) e do presidente da ONG ABC Sem Racismo, sobre a intervenção militar na Faixa de Gaza.

Tenho reproduzido aqui alguns artigos para alimentar a reflexão dos leitores sobre o conflito no Oriente-Médio. Minha opinião está registrada em Paz em Gaza: uma solução complexa

LF

 

 

 

Prezado Senhor Cláudio Lottenberg,
Presidente da CONIB

Não sou um ativista anti-judeu. Ao contrário: sou um admirador da luta do povo judeu e de sua milenar história. Mais do que isso: me considero um parceiro do povo judeu na luta contra o racismo e qualquer espécie de discrimnação.
Mas, por favor, me responda: como é possível que um povo que há menos de cem anos foi vítima de crimes contra a humanidade como o holocausto praticados pelo nazismo, possa estar, precisamente hoje, repetindo os mesmos crimes, com a mesma crueldade, contra um povo inteiro – o palestino?
As imagens falam mais forte do que mil palavras e de nada adianta a propaganda do seu Exército mostrar ao mundo que se trata apenas de uma guerra contra o Hamas, a quem o seu Governo e Bush acusam de terrorista. Os mortos, às centenas, senhor Lottenberg, são na sua maioria civis – homens, mulheres e crianças desarmadas.
Como explicar esse crime às gerações futuras, senhor Lottenberg? Como poderá o povo judeu continuar falando de holocausto, quando transformou a Palestina, há décadas, em verdadeiro campo de concentração, com todos os requintes a que a crueldade humana pode chegar? Porque o seu Exército e os seus Governos sistematicamente, sob proteção americana, descumprem Resoluções da ONU que asseguram o direito inalienável do povo palestino ao seu Estado, onde possa viver em paz e em segurança? Por que o seu Governo recusa-se ao cessar fogo proposto pela União Européia? É apenas para ganhar tempo para perpretar o massacre contra civis indefesos?
Estamos todos cansados, senhor Lottenberg, da sua propaganda. Quando jovem eu e muitos da minha geração ficamos alarmados com as imagens de Sabra e Chatila, o senhor se lembra? Também lá, homens, mulheres e crianças palestinas foram vítimas de um verdadeiro massacre, praticados sob o comando do seu Exército. Na época, senhor Lottenberg, o Hamas sequer existia.
Assim como não há propaganda capaz de apagar as imagens da resistência judaica no gueto de Varsóvia; assim como não há palavras para descrever os sofrimentos do seu povo, Senhor Lotenberg, nos campos de concentração sob o nazismo; tampouco há propaganda e ou palavras que possam apagar os crimes contra a humanidade que hoje são praticados à luz do dia e sob as câmeras de TV pelo seu Exército. Protegido, apoiado e amparado pelas vítimas de ontem!
Chega! Basta de mentira e de hipocrisia!
Cordialmente,
Dojival Vieira
Jornalista Responsável pela Afropress – www.afropress.com
Presidente da ONG ABC SEM RACISMO
Fones: 9647-7322

Resposta do presidente da CONIB

Prezado Senhor Dojival:

Agradeço que me escreva e fico feliz que o senhor seja um admirador, como assim se manifesta, do povo judeu e de sua historia milenar, colocando-se como um verdadeiro parceiro na luta contra o racismo.

Ao tomar a liberdade de me escrever também tomo à liberdade de lhe contestar a luz da sugestão de que o senhor aprofunde o seu conhecimento no sentido de admirar de forma consistente, baseado em fatos concretos, e não alimentado por informações isoladas e não verdadeiras como o senhor aqui coloca.

A historia relativa ao Estado de Israel tem dados sobre os quais eventualmente o senhor desconheça. Em 1948 este Estado foi criado com a participação decisiva do brasileiro Osvaldo Aranha e, desde então uma longa historia vem acontecendo. Acordos são realizados e desrespeitados, diálogos são interrompidos e acredite que nos desaponta muito que o caminho da paz ainda não tenha sido atingido.

Comparar a situação da Faixa de Gaza com o Holocausto reflete um desconhecimento absoluto acerca dos dois episódios. O Holocausto foi fruto de uma indiferença de uma sociedade que condenou um povo à morte, liderado por um grupo minoritário. Este povo não caminhava com morteiros, não lançava foguetes e não matou civis, como é o caso daquilo que ocorreu na faixa de Gaza. Estes civis que morreram no Holocausto não morreram por serem terroristas ou por quererem a exterminação de um povo. Morreram por serem judeus.

Em 2005, Israel se retirou da Faixa de Gaza e entregou conforme acordado a região a Autoridade Palestina. Esta foi aos poucos lateralizada pelo braço terrorista Hamas, que é assim denominado pela União Européia e pelos EUA que progressivamente iniciou estimulado pelo Iran, um processo de agressões sistemáticas aos israelenses, moradores da região vizinha a Faixa de Gaza. Foguetes e morteiros eram lançados diariamente, civis assassinados e Israel inutilmente avisava que tomaria medidas caso isto não fosse interrompido. O Hamas, braço terrorista, coloca claramente que com Israel não há dialogo e que Israel deve ser destruído, e que, portanto mesmo os acordos previamente realizados não têm valor. Optou, portanto, em manter os ataques aos civis e aí, efetivamente, não haveria alternativa que não aquela tomada legitimamente de defesa. Cabe a toda estrutura de Estado garantir a segurança de seus cidadãos e exigir que seus vizinhos tenham um comportamento adequado. Portanto deixo claro ao senhor que a comparação com o Holocausto é no mínimo um reflexo de falta de sensibilidade, de desrespeito e que suas informações sobre a Faixa de Gaza são incompletas e fruto de manchetes de jornal isoladas de um contexto maior.

Quero lhe dizer mais uma coisa. Sou brasileiro e, portanto peço ao senhor respeito, pois meu julgamento é acerca de um comportamento de uma situação internacional, mas o meu governo é o governo brasileiro assim como o seu. Portanto, faça suas observações, mas não me cobre como o senhor assim o faz, pois a minha contribuição junto a este país tem sido enorme bastando que o senhor levante parte das atividades que desenvolvi. Acho que este cuidado que o senhor não teve, reflete o perfil de uma pessoa que por sua posição deveria ser um pouco mais justa e informada na maneira de se dirigir a um cidadão.

Eu, pelo contrario. Tomei o cuidado de ver suas contribuições, saber sobre o seu passado e se respondo é porque uma pessoa como o senhor merece minha atenção e quem sabe um pouco de compartilhamento de meu conhecimento para quem sabe rever seus pontos de vista.

Aprendi em minha vida que certas atitudes têm importância compensatória, pois são momentâneas. Elas passam mais rapidamente e são pontuais. Existem outras que são estruturantes, por trazerem propostas que a médio e longo prazo mudam situações para sempre. Ao escrever-lhe, peço que não tome minha resposta como algo para o momento, mas sim que dentro do espírito de união e de entendimento, que marca a relação entre as nossas comunidades, o senhor se proponha a entender o contexto que fez com que Israel legitimamente defendesse seus cidadãos.

Cordialmente,

Claudio Lottenberg

08/01/2009 - 09:51h A Hitler o que é de Hitler

 

por Marcos Guterman* – Blog O Estado de São Paulo

Guerras, por definição, sinalizam rupturas. Enquanto a diplomacia oferece portas de saída, o conflito armado só se justifica pela decisão de destruir o inimigo e aquilo que ele representa. E a destruição não pode ser apenas militar ou material; ela tem de se dar também, e sobretudo, no campo moral. O conflito que simboliza melhor esse conceito é a Segunda Guerra Mundial, que passou à história como a luta contra o mal absoluto, resumido no nazismo. Hitler e sua ideologia insana tornaram-se paradigmas daquilo que deve ser combatido sem trégua e sem quartel, em nome da humanidade. Por isso, mesmo passadas seis décadas do fim do conflito, o nazismo continua sendo a referência mais implacável que alguém pode usar quando pretende desqualificar completamente seu inimigo no campo de batalha da opinião pública e da justificativa moral. O caso da presente guerra entre Israel e Hamas mostra justamente os exageros dessa retórica.

Em artigo publicado no Wall Street Journal, o líder da oposição israelense Benjamin Netanyahu comparou os ataques do Hamas no sul de Israel à blitz aérea promovida pela Alemanha de Hitler contra Londres. Já do lado palestino, Mustafa Barghouti escreveu um texto no jornal egípcio Al-Ahram, a respeito da ofensiva israelense, cujo título é “A Guernica dos palestinos”, em referência ao dramático bombardeio nazista contra essa cidade espanhola em 1937.

Trata-se de um óbvio exagero, de ambos os lados, e é um exagero calculado. Ao igualar os palestinos aos nazistas, Netanyahu simplifica grosseiramente o quadro com o objetivo de invocar, no imaginário israelense, o pesadelo da “solução final”. Não é possível, em qualquer sentido, dar pesos semelhantes às forças nazistas e ao limitado poder de fogo do Hamas, ainda que este, a exemplo de Hitler, tenha como objetivo eliminar os judeus. Netanyahu, além disso, se esquece de informar que os palestinos vivem em situação de desespero – que gera grandes ressentimentos – em parte como resultado das ações brutais e dos erros de Israel ao longo de mais de 40 anos de ocupação, com laivos de apartheid.

Barghouti, por sua vez, recorre à velha fórmula anti-semita de comparar os israelenses aos nazistas. É uma fórmula de duplo objetivo, ambos perversos. Primeiro, iguala a vítima ao seu maior algoz, um algoz que reduziu a população judaica na Europa de 9,5 milhões para 3,5 milhões de seres humanos em menos de dez anos. Ele poderia ter comparado os israelenses aos americanos, por exemplo, mas isso não teria o efeito desejado, qual seja, o de ligar os judeus ao mal absoluto. O segundo objetivo da fórmula é diminuir a importância e a singularidade do Holocausto, para então adaptar a impactante imagem do extermínio em massa perpetrado pelos nazistas a qualquer outra circunstância conveniente – por exemplo, a morte de palestinos por israelenses.

A retórica que Netanyahu e Barghouti aplicaram, em lugar de explicar o conflito, obscurece ainda mais o já complicado quadro das tensões no Oriente Médio. Argumentos desse tipo podem até fazer um grande sucesso entre gente oportunista e panfletária – um bom exemplo foi a grosseira nota em que o PT acusou os israelenses de “prática típica do Exército nazista” –, mas eles definitivamente não ajudam a entender a crise nem muito menos a construir pontes para sua superação. Para o bem do debate, deixemos a Hitler o que é de Hitler.

Marcos Guterman é historiador e jornalista de O Estado de S.Paulo

15/06/2008 - 10:40h Abc da pátria

+ Livros – FOLHA DE SÃO PAULO

L'image “http://content.answers.com/main/content/wp/en-commons/thumb/3/3f/250px-Isaac_Bashevis_Singer_mural_FLG_AZ_USA_6921.jpg” ne peut être affichée car elle contient des erreurs.
ENTRE O IÍDICHE E O INGLÊS, O NOBEL DE LITERATURA ISAAC SINGER REAVALIA SEU PASSADO NAS CRÔNICAS DE “NO TRIBUNAL DE MEU PAI”

CRISTOVÃO TEZZA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Um traço marcante da obra de Isaac Bashevis Singer (1904-1991), escritor judeu nascido na Polônia, e que em 1935 emigraria para os EUA, é o fato de escrever em iídiche -uma língua da família germânica grafada com caracteres hebraicos que, durante séculos, foi o idioma das comunidades judaicas ashkenazis da Europa Central.
Com o Holocausto, o iídiche praticamente desapareceu. Isaac Singer, entretanto, jamais abandonou a língua materna nos mais de 50 anos em que viveu nos EUA, o que cria a singularidade de um autor com “dois originais” -as traduções de Singer, Prêmio Nobel de Literatura de 1978, são feitas a partir do inglês, que por sua vez estabelece o texto “oficial” de sua literatura.
Esse detalhe ilustra um dos aspectos centrais da história do romance -sua linguagem é a confluência e tradução de muitas línguas que são a um tempo códigos e concepções específicas de mundo.

Consciência plurilíngue
E, do ponto de vista biográfico, a vida de Singer, com a infância mergulhada no tenso encontro de línguas, culturas e religiões, pode ser lida como ilustração cristalina do que o teórico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) chamava de “consciência plurilíngue do mundo”. Os textos de “No Tribunal de Meu Pai” são exemplares nesse sentido. Trata-se de um conjunto de crônicas autobiográficas em que a formação do autor é retomada em episódios apresentados mais ou menos em ordem cronológica e que se encerra nos seus 12 anos (quando conhece “uma garota morena com olhos escuros como carvão e um sorriso indescritível”).
O tribunal a que o título faz referência é a instituição judaica do “Bet Din”, o tribunal rabínico. Filho de um rabino de Varsóvia, o futuro escritor passou a infância impregnado de um senso de justiça religiosa em que se atravessam a pobreza, a onipresença da palavra escrita como fonte de referência da “verdade”, a disputa das várias correntes conflitantes que marcam o judaísmo, a consciência de quem está, do ponto de vista político, em lugar nenhum -e, sobretudo, o peso da idéia de lar se confundindo com a idéia de tribunal.
Se nas mãos de Kafka esse último ingrediente daria a síntese aterrorizante que conhecemos em obras como “O Processo” e “O Castelo”, em Isaac Singer -um escritor de raiz substancialmente popular, imerso na oralidade e no humor vivaz, comunitário, do mundo da aldeia- o resultado é outro.
A diferença central talvez seja esta: no mundo das memórias infantis de Isaac Singer, as coisas ainda não estão estratificadas na forma de Estado, não são regulamentos inalterados por mãos humanas.

Sinais escritos
O juiz é um homem de substância simples que tem de resolver questões miúdas do cotidiano, casos de divórcio ou dúvidas sobre a pureza de gansos abatidos. O senso de justiça é uma insegura escolha humana, a partir de alguns poucos sinais escritos, aos quais devemos dar um sentido.
O sentimento de mudança permanente, muito forte -mudança física e mental, política, social e econômica, ao deus-dará entre poloneses, russos, alemães, austríacos naquele sombrio limiar da Primeira Grande Guerra-, vai marcando cada passo da criança atenta, que pouco a pouco percebe o anacronismo da ortodoxia paterna e absorve a perspectiva transformadora de seu irmão mais velho, depois o poder da literatura, num tempo de utopias.
A força documental das crônicas, ao descreverem o mundo desaparecido, é temperada pela perspectiva literária -a história de Isaac Singer é a percepção de um escritor, não o documento frio de um historiador.
Em nenhum momento se perde a perspectiva da criança e a sensação de um mundo a descobrir e inventar; e, em cada crônica, está presente a afirmação absoluta do valor do indivíduo, princípio e fim de todas as dúvidas: “Como era vasto o mundo, e como abundavam nele todo tipo de pessoas e acontecimentos estranhos! (…) E onde estava Deus, de quem tanto se falava em nossa casa? Eu estava maravilhado, encantado, extasiado. Sentia que precisava solucionar esse enigma, sozinho, com meu próprio discernimento”.


CRISTOVÃO TEZZA é autor do romance “O Filho Eterno” (Record) e de “Entre a Prosa e a Poesia – Bakhtin e o Formalismo Russo” (Rocco).NO TRIBUNAL DE MEU PAI
Autor: Isaac Bashevis Singer
Tradução: Alexandre Hubner
Editora: Companhia das Letras (tel. 0/ xx/11/ 3707-3500)
Quanto: R$ 49 (360 págs.)

16/05/2008 - 12:52h Rancor por ‘60 anos de opressão’

http://www.legaic.org/IMG/arton57.jpg
Paz – Shalom – Salam

Gilles Lapouge* – O Estado de São Paulo

Israel celebra seu 60º aniversário de fundação. Festas iluminam o país. Personalidades estrangeiras, entre elas o presidente George W. Bush, participam das comemorações. E os palestinos? Para os israelenses, a data é gloriosa. Para os palestinos é de luto, é o “dia da catástrofe”, ou “nakba. Já vimos algum dia um povo celebrar a sua “catástrofe”? O rancor palestino é total.

Até mesmo o moderado e indulgente presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, declarou em Ramallah que não receberia nenhuma delegação. E o premiê palestino, Salam Fayad, também mostrou seu mau humor: “Como vocês podem celebrar esta data enquanto o povo palestino padece sob o jugo de suas colônias e suas ações”, perguntou aos israelenses.

Por toda a parte é o furor. E uma rajada de críticas: a nakba começou em 1948, com a destruição de 400 povoados e o exílio de 760 mil palestinos expulsos de suas terras, enquanto 160 mil ficaram em Israel e se consideram cidadãos de “segunda classe”. Os palestinos forçados ao exílio tornaram-se 5 milhões. Israel proíbe seu retorno a um território que considera seu. Os que permaneceram em Israel, dizem-se vítimas de um apartheid. Mesmo a Corte Suprema de Israel reconheceu que eles eram discriminados.

Quando olhamos para os dois territórios palestinos, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, o quadro é ainda mais terrível. O famoso muro, erguido em 2000, foi sentido pelos palestinos como uma camisa-de-força mortífera com o fim de privá-los de seus campos e poços, para sufocá-los lentamente, matá-los sem muito ruído. Para eles, o objetivo do muro é tornar impossível o retorno dos palestinos às terras das quais foram espoliados.

A isso tudo se juntam os tiroteios, os foguetes, às vezes as bombas. Na quarta-feira, quatro palestinos foram mortos em Gaza. Desde o início das negociações de paz projetadas por Bush em novembro, 467 palestinos foram mortos (bem entendido, a essas acusações os israelenses replicam que foram os palestinos que começaram. Mas hoje fazemos eco das palavras dos palestinos, e não dos israelenses).

Os palestinos são vítimas de uma perseguição similar àquela sofrida pelos judeus nos tempos infames de Hitler. Gaza é “um campo de concentração”. O bloqueio paralisa a região. A vida ali é desumana. Para os palestinos, trata-se de um holocausto cometido pelos antigos mártires judeus.

O estranho é que essas acusações também são feitas por judeus europeus. Em Londres, cem personalidades judaicas assinaram um texto, publicado no jornal The Guardian, em que afirmam: “Nós não celebraremos o aniversário de um Estado criado tendo como base o terrorismo, os massacres e a espoliação das terras de outras pessoas. Um Estado que procede à limpeza étnica e inflige uma monstruosa punição coletiva à população civil de Gaza. É tempo de reconhecer o preço pago por um outro povo pelo anti-semitismo europeu e o genocídio hitlerista.”

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

08/05/2008 - 12:56h Escritor diz que Israel é ‘anormal e sem limites’

Guila Flint

De Tel Aviv para a BBC Brasil

Comemorações dos 60 anos de Israel

Escritor diz que país, que celebra 60 anos, está em conflito permanente

O escritor israelense Sefi Rachlevsky defende em seu livro No Limit (Sem Limites) a idéia de que o Estado de Israel e sua sociedade têm um caráter “anormal”, em comparação com outros países.

“O que aconteceu aqui é uma verdadeira tragédia. A maioria dos imigrantes que vieram para cá, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, queria viver em um país tranqüilo, normal e secular”, disse Rachlevsky, em entrevista à BBC Brasil.

Mas, para o escritor, Israel, que completa 60 anos de existência nesta quinta-feira, está em conflito permanente com seus vizinhos e não é tranqüilo, normal ou secular. Rachlevsky diz que Israel é um país “sem limites”.

“Uma das questões básicas que demonstram a falta de limites é a interferência da religião nas questões do Estado, em muitos aspectos Israel é uma teocracia.”

“Imagine que Israel é o único país do mundo onde um judeu não pode se casar com uma pessoa não judia, aqui não temos casamento civil, só religioso”, afirma. “Não temos uma Constituição que possa traçar os limites entre o Estado e a religião.”

“Problemas de personalidade”

Rachlevsky usa instrumentos da psicologia para analisar o impacto da ausência de limites sobre a sociedade israelense.

“Uma criança criada sem limites terá problemas sérios no desenvolvimento de sua personalidade”, diz. “São os limites que possibilitam o desenvolvimento de uma personalidade saudável e a capacidade de raciocínio e até de memória.”

“Sem limites se cria uma situação cognitiva difusa e dificuldades de desenvolver um pensamento conceitual, uma diferenciação entre a vontade e a realidade, uma lógica organizadora.”

Para Rachlevsky a ausência de limites é a chave para entender Israel, tanto sob o aspecto do conflito com o mundo árabe como fenômenos internos observados na sociedade israelense.

Sefi Rachlevsky nasceu em 1966, um ano antes da Guerra de 1967, quando Israel ocupou os territórios palestinos da Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, as colinas do Golã da Síria e o deserto do Sinai, do Egito.

Embora não tenha lembranças diretas dos primeiros 19 anos de Israel, antes da ocupação de 67, o escritor expressa uma certa nostalgia por aquele período.

“Aquela foi a primavera de Israel”, lembra. “Naquela época a sociedade israelense estava começando a consolidar uma certa normalidade, mas a ocupação destruiu esse processo, desde então não temos mais limites.”

De acordo com a análise do escritor, a falta de limites cria a violência, que se volta tanto para fora como para dentro da própria sociedade israelense.

“Nos primeiros anos do Estado havia uma solidariedade interna, as pessoas podiam deixar as portas de suas casas abertas, se alguém caísse na rua muitos corriam para socorrê-lo.”

Jimmy Carter

Rachlevsky também menciona uma ausência de limites morais e de parâmetros de conduta. “Veja como o governo de Israel tratou o ex-presidente americano Jimmy Carter, em sua última visita (em abril).”

“Nenhum país do mundo trataria Carter com tanta grosseria. Olmert se recusou a encontrá-lo e até os serviços de segurança se negaram a colaborar com os agentes americanos que o acompanhavam.”

O governo israelense criticou o livro que Carter escreveu, no qual acusou Israel de conduzir um regime de apartheid em relação aos palestinos.

Outro tema que despertou a indignação de Israel foram os encontros de Carter com líderes do Hamas, e o resultado foi o boicote do ex-presidente americano durante sua visita ao país.

Mas para Rachlevsky “isso não se faz”. “Não é só uma Constituição que falta em Israel, faltam normas de conduta, uma noção do que se faz e do que não se faz.”

“Carter intermediou o acordo de paz entre Israel e o Egito (em 1979), o maior país árabe, e Israel deveria agradecer e tratá-lo com a gentileza que ele merece, embora não concorde com suas posições atuais.”

Rachlevsky considera a colonização israelense nos territórios ocupados um dos efeitos mais significativos do caráter “sem limites” de Israel.

“Como pode um Estado enviar seus cidadãos para morar fora de suas fronteiras e depois lutar contra o próprio Estado e minar o próprio conceito de Estado?”, pergunta.

O escritor manifesta preocupação com a própria capacidade de Israel de continuar existindo e afirma que a ausência de limites pode destruir Israel “tanto por fora como por dentro”.

“Se Israel quer sobreviver vai ter que começar tudo de novo, realizar uma mudança enorme, como começar do zero. Terá que estabelecer fronteiras físicas e políticas, princípios básicos de conduta para a sociedade e seus líderes, uma Constituição e construir um sistema de valores.”

29/04/2008 - 19:51h Brasileiros vão registrar em livro e documentário marcha para lembrar Holocausto

auschwitz2.jpg

Auschwitz

Luisa Guedes, O Globo Online

RIO – A partir desta terça-feira, cerca de 10 mil pessoas vão repetir uma manifestação realizada há 20 anos para lembrar o Holocausto, cruzando a Polônia e seguindo para Israel na chamada Marcha da Vida. Dessa vez, a reconstituição da trilha de muitos judeus – na morte ou na terra prometida – será registrada em livro pelo publicitário Márcio Pitliuk e o fotógrafo Márcio Scavone, dois dos 400 brasileiros que embarcaram para a viagem por antigos campos de concentração e locais sagrados para o povo judeu. Parte do trabalho que será publicado no fim do ano poderá ser acompanhada no GLOBO ONLINE durante os oito dias de marcha.

O percurso da “morte à vida” também será registrado em documentário dirigido por Jéssica Sanders, indicada ao Oscar e vencedora do Sundance Festival. Idealizador do projeto, orçado em R$ 3 milhões, e único judeu na equipe de 20 pessoas que embarcou para a Polônia, Márcio Pitliuk, que será responsável pelos textos do livro, conta que ficou impressionado com a reação da equipe durante a preparação para o trabalho.

” Auschwitz é uma fábrica da morte. É um pesadelo que não tem tamanho. Achei que não ia conseguir voltar lá, mas vou ter que encarar agora “

http://pagesperso-orange.fr/d-d.natanson/entree_auschwitz.jpg

- Quando eu levei (à Polônia) o pessoal da equipe que não é judeu e não tem tanta vivência com o Holocausto, vi o choque deles ao descobrir o tamanho da coisa. A gente fala em três milhões de pessoas, mas parece um número qualquer. Quando chega num campo como o de Treblinka, onde 800 mil pessoas foram mortas em 10 meses, a pessoa se dá conta de que 800 mil pessoas é uma cidade grande – contou Pitliuk, ainda em São Paulo, onde vive, antes de enfrentar de novo o terror dos campos de concentração. – Auschwitz é uma fábrica da morte. É um pesadelo que não tem tamanho. Achei que não ia conseguir voltar lá, mas vou ter que encarar agora – acrescentou.

A excursão ao passado começa em Cracóvia, onde será realizada uma cerimônia que relembra o fim do Holocausto. Em seguida, os participantes refazem a caminhada de três quilômetros entre o campo de concentração de Auschwitz e Birkenau, campo de extermínio. A marcha passará ainda pelos campos de Treblinka e de Majdanek e pelo Gueto de Varsóvia. Da Polônia, o grupo segue para Israel.

A manifestação foi criada em 1988 por Abraham Hirshson, um sobrevivente do Holocausto. Seu objetivo era, principalmente, fazer com que jovens estudantes pudessem conhecer os locais do “shoah”, como é chamado em hebraico o assassinato de milhões de judeus pelo regime nazista. A marcha, que acontece todos os anos desde a primeira edição, é aberta a todos. Agora, a organização fica a cargo da ONG internacional March of the Living .

Estima-se que 20% dos participantes não sejam judeus. Entre os brasileiros, 200 são estudantes de escolas judaicas que receberam subsídios para a viagem. Os outros 200 são adultos que arcaram com os custos por conta própria.

16/04/2008 - 17:04h Escribir para superar el dolor

Entrevista con la escritora estadounidense Helen Epstein, autora de Tras la historia de mi madre (El Ateneo)

epstein.JPG

Por Loreley Gaffoglio

De la redacción de LA NACION

Entronizado en la nómina de libros notables por The New York Times cuando se publicó en 1997, Tras la historia de mi madre , la saga biográfica de tres generaciones de mujeres judías checas antes y después del Holocausto, es un relato intimista inquietante que combina de manera rigurosa el género de las memorias con la crónica histórica sobre la evolución de la identidad de la mujer judía en Europa Central.

Recientemente editado por El Ateneo y presentado en el país por su autora, el libro de la periodista estadounidense Helen Epstein, nacida en Praga en 1947 y criada en Nueva York, cautiva por su originalidad y por la distancia narrativa desde la que se sitúa la autora para reconstruir su propia –y aciaga– historia familiar.

Tras una rigurosa investigación, en la que entrevistó a sobrevivientes del genocidio nazi, Epstein hilvana el derrotero de su madre Frances, rehén en el ghetto de Terezín primero y luego en Auschwitz, con el de su abuela, Pepi, a la que nunca conoció porque los nazis la fusilaron cuando la deportaron a Riga, en Latvia. Y se remonta aún más atrás en el tiempo para retratar también a su bisabuela, Thérèse, la responsable de introducir la costura como fructífero modo de subsistencia familiar.

Une así dos siglos de historia centrados en el rol de la mujer en los que se reviven la misoginia del Imperio austrohúngaro; la supervivencia femenina durante la Primera Guerra Mundial; el nacimiento de Checoslovaquia; la implosión de la II Guerra Mundial y el avance del comunismo hasta llegar a la Revolución de Terciopelo, cuando la mujer conquista la igualdad de derechos al hombre luego de la instauración de la República Checa. El resultado es un fresco histórico, sociológico y humano que también destaca la trascendencia de las labores textiles como forma de emancipación femenina.

Docente y ex periodista freelance para The New York Times, donde escribía extensos perfiles para la revista dominical, Epstein se especializa en libros de no ficción, “el género que eligen mayoritariamente los lectores estadounidenses” –sostiene– en un intento por asir lo inextricable y complejo de la realidad. Epstein tiene publicados otros tres libros, traducidos a varios idiomas pero no en español: Children of the Holocaust (1979), Music Talks (1988) y Joe Papp. An American Life (1996).

De paso por Buenos Aires, donde días atrás presentó en la AMIA Tras la historia de mi madre , la autora, residente en Boston, revela que su libro fue una personal forma de duelo y una manera de darle visibilidad a los antepasados familiares que la sinrazón de la historia y el orden cronológico le impidieron conocer.

–¿De qué manera la escritura del libro fue una forma solapada de duelo?

–Mi madre amenazaba todo el tiempo con suicidarse, pero murió repentinamente de un aneurisma, a los 69 años, en Nueva York, ciudad a la que emigró finalizada la Segunda Guerra. No tuve tiempo de prepararme para su muerte. Entonces reconstruir su historia, que ella nunca me contó completa porque no hablaba de su vida, adquirió la forma ritual del duelo que tienen las familias tradicionales judías.

–¿Fue un proceso lacerante?

–Fue liberador. Y, curiosamente, las continuas interrupciones de mis hijos mientras escribía fueron como recreos del trauma que me ayudaron a tolerar el dolor. Pienso que muchos de los procesos creativos nacen a partir de una herida y que la escritura puede ser un modo de curación tanto para el autor como para los lectores que se identifican con la historia. En este caso, creo que es más doloroso para el lector leerlo, de lo que para mí fue escribirlo.

–¿Por qué?

–Porque cuando uno lee está pasivamente experimentando esos sucesos. Y cuando uno escribe, el autor se concentra en la eficacia sobre cómo comunicar mejor la historia; está obligado a tomar distancia. Lo que quizás sea difícil para el lector entender es que la mayoría de las personas normales tiene parientes, pero mientras yo crecía todos en mi familia estaban muertos. Eran como dioses; personajes no reales. No hubo una abuela que me contara cómo era mi madre de chica. Y así uno no tiene a nadie para “contextualizar” a sus parientes. Además, mis padres casi nunca hablaban de sus padres porque era muy traumático. Mis abuelos eran como un lienzo en blanco. Tuve que “crear” a mi abuela Pepi y fue maravilloso: construír una persona allí donde antes no había nada. Ni recuerdos, ni confidencias, ni relatos orales de la infancia.

–¿Cuál fue el motivo que la llevó a destacar el rol de las mujeres de su familia?

-Busqué el ángulo más original posible ya que como escritora me interesa escribir cosas que nadie más ha escrito antes. Siempre busco lo “invisible”. Y en este caso, había muchas cosas que eran invisibles: las vivencias de las mujeres en Europa Central, por ejemplo. Además, a lo largo de la historia han sido siempre las mujeres las que se animaron a contar y retrasmitir los dramas de su época. Los hombres por lo general no quieren aparecer como víctimas; soslayan los trances dolorosos, y se los guardan. Las mujeres, en cambio, sí se animan a ahondar con muchos detalles en los episodios más tristes, sin miedos. No tuve dudas, entonces, de que el énfasis debía situarse en ellas.

–¿Se valió de licencias ficcionales para reconstruir la historia?

–No. Este es un libro de no ficción escrito en base a un larga investigación. A mi madre no la pude entrevistar porque cuando empecé a escribir el libro, ya estaba muerta. Los testimonios centrales fueron de gente de Praga, amigos de mi madre, que también conocieron a mis abuelos. Fue la mejor amiga de mi madre, la que me contó detalles de ella que yo desconocía. Por ejemplo, que de adolescentes bailaban tango en los salones. Otra persona importante fue Kitty, que permaneció en los campos de concentración junto a mi madre durante toda la guerra. Ambas fueron liberadas por los ingleses en Bergen-Belsen –el mismo campo donde murió Ana Frank–, enfermas de tifus y al borde de la muerte. Fue muy doloroso enterarme que en ése campo de concentración, por ejemplo, mi madre se abocaba a escribirles largas cartas a sus padres, cuyo paradero desconocía. En realidad, ya estaban muertos. Lo hacía en una libreta que un comandante le obligó a quemar en una estufa. Pero en el libro evité ahondar en la parte cruenta de la guerra: las vejaciones, el hambre, los ultrajes de los nazis, todo eso que se conoce bien, porque en los años ´60 mucha gente escribió sus memorias y yo leí muchas de ellas.

–¿Cómo fue la odisea de la reclusión?

-Mis abuelos y mi madre, entonces de 22 años, y su primer marido fueron deportados de Praga al ghetto de Terezín, un campo de tránsito a una hora de Praga. Al día siguiente de arribar, a sus padres los deportaron a Riga, en Latvia. Los bajaron del tren, los obligaron a alinearse y ahí nomás los exterminaron. Los tiraron a todos en una fosa común. Pero mi madre no sabía a dónde los habían enviado ni qué había sido de ellos. Mi madre permaneció junto a su marido en Terezín, lo cual fue bueno porque el centro estaba manejado por los checos, que eran bastante contemplativos con los judíos. Recibían correo de la gente en Praga y podían contrabandear toda clase de cosas. En 1943 los nazis intentaron matar a la mayor cantidad posible de personas, y enviaron a mi madre y a su prima Kitty a Auschwich. Pero lograron salir vivas de allí ya que los alemanes necesitaban trabajo esclavo. A mi madre, en realidad, la salvó una mentira. En un relato que ella escribió, contó que la pusieron frente al doctor Menguelle y que éste le preguntó si poseía alguna aptitud especial. Su padre había sido ingeniero eléctrico y ella había aprendido a arreglar artefactos de sólo observarlo. Cuando estuvo frente a Menguelle junto a otro montón de mujeres, pensó que todas las demás dirían que sabían coser. Y aunque ella era modista, para destacarse, dijo que era electricista. Se salvó arreglando radios y aparatos durante tres años. Lo más curioso era que improvisaba y que el miedo a morir la empujaba a hacer las cosas bien. Pero de toda esa historia terrible lo que más me llamó la atención fue que tanto hombres como mujeres aseguraron que la clave de la supervivencia radicaba en las relaciones humanas, la amistad, los vínculos que se establecían. En la fuerza que infundía el contacto con el otro.

15/04/2008 - 10:48h Il y a 65 ans, l’insurrection du ghetto de Varsovie

La passerelle entre le petit et le grand ghetto rue Chlodna.

 

 

Quand le 19 avril 1943, les 2 000 à 3 000 Waffen SS, auxiliaires ukrainiens, lettons et ” bleus ” de la police polonaise, commandés par le colonel von Sammern-Frankenberg entrent dans la rue Zamenhof pour liquider ce qui reste du ghetto de Varsovie, ils savent qu’il existe une résistance juive. Ils ne s’attendent peut-être pas à la combattre pendant plusieurs semaines. Les Allemands ont choisi, pour mettre un point final à la présence juive à Varsovie, la veille de la Pâque juive (Pesah), qui coïncide avec l’anniversaire d’Hitler. La violence du feu, les pluies de bouteilles incendiaires qui accueillent l’offensive empêchent les SS d’offrir au Führer les débris sanglants des juifs de Varsovie. L’attaque, lancée à 3 heures du matin, tourne à la confusion des assaillants. A 8 heures, le général SS Stroop relève von Sammern-Frankenberg de son commandement et prend en main la direction des opérations. Des combats éclatent rue Zamenhof, place Muranowska, rue Gesia. A 14 heures, les Allemands se retirent.Marek Edelman, l’un des dirigeants de l’insurrection, a confié en 1977 à la journaliste polonaise Hanna Krall l’effet que fit ce premier choc sur les combattants juifs : ” Nous pensions que c’était très important qu’ils n’aient embarqué personne ce jour-là. Nous prenions même ça pour une victoire. ” ” Embarquer personne ! “ Derrière ces deux mots gît tout le martyre des juifs de Varsovie depuis que, le 1 décembre 1940, un mur de brique long de 18 kilomètres les a isolés du reste du monde. Les Allemands ont entassé là près de 380 000 personnes (39 % de la population de la ville sur 8 % seulement de la superficie de la capitale). Le 16 novembre 1941, le ghetto est bouclé. Seuls les ouvriers travaillant dans les entreprises dites vitales pour l’économie du Reich obtiennent un laissez-passer pour le ” côté aryen “. Les autres perdent tout. La faim s’installe. Rien que dans la première année, on compte déjà près de 43 000 décès par malnutrition.

rue-nowolipie-1943.jpg

 Première forme de résistance : celle de ces ” contrebandiers “ de sept à treize ans poursuivis impitoyablement par la Yiddisch Ordunges Dienst (la police juive), qui se faufilent par les trous de la muraille pour passer à tout prix de la nourriture. A la tête de l’administration du ghetto, devenu une entité séparée du reste de la Pologne, les Allemands ont nommé un Judenrat (Conseil juif) de vingt-quatre membres, présidé par l’ingénieur Adam Czerniakow. Début 1942, la “ solution finale ” s’accélère. Les officiels juifs prennent la mesure de ce que recouvrent les expressions de “ réinstallation “, d’” évacuation “, d’” Est “… L’historien officieux du ghetto, Emmanuel Ringelblum, note dans son Journal, le 17 juin 1942 : “ J’ai eu une conversation l’autre jour avec un ami de Biala-Podlaska, directeur de l’organisation d’aide sociale. Il avait aidé au ” transfert ” (il serait plus exact de dire au “ transfert dans l’autre monde ”) de la population à Sobibor, près de Chelm, où les juifs sont asphyxiés par les gaz d’échappement. “Lorsque commence la grande Aktion (l’évacuation du ghetto), Adam Czerniakow met fin à ses jours, le 23 juillet, quelques heures avant que le premier contingent de juifs en partance pour le camp d’extermination de Treblinka soit rassemblé sur l’Umschlagplatz (la gare de rassemblement et de triage). (mais…)

14/04/2008 - 13:10h El día en el que los judíos se enfrentaron a los nazis

Polonia celebra el 65 aniversario del levantamiento del gueto judío de Varsovia

varsovia_gueto2.jpg

EFE – Varsovia

Los habitantes de Varsovia recuerdan mañana el 65 aniversario del levantamiento de los judíos del gueto contra los alemanes, un acto de desesperación para evitar la solución final nazi que suponía una muerte segura en los campos de concentración.

El presidente de Israel, Simón Peres, presidirá los actos conmemorativos junto con el jefe del Estado polaco, Lech Kaczynski, y una representación internacional que incluye al ministro francés de Asuntos Exteriores, Bernard Kouchner.

La presencia de Peres es especialmente importante en esta celebración, ya que el mandatario israelí regresa al país en el que nació en 1923, aunque a los diez años se trasladó con su familia a Tel Aviv.

El momento principal de estos actos tendrá lugar cuando Kaczynski y su esposa depositen un ramo de flores en el monumento dedicado a los héroes del gueto, mientras que la comunidad hebrea de Varsovia recitará el Kaddish, la oración judía para honrar a los muertos.

Marek Edelman, el último superviviente de los líderes del levantamiento, que aún vive en Varsovia, acompañará a los dirigentes en los homenajes de unos acontecimientos de los que él mismo fue testigo y actor principal.

La salvadora de 2.500 niños judíos

El programa también prevé un encuentro de Kaczynski y Peres con la heroína Irena Sendler, la anciana de 98 años que durante la II Guerra Mundial arriesgó su vida en cientos de ocasiones para salvar a 2.500 niños judíos, a los que sacaba a escondidas del gueto a pesar de la férrea vigilancia alemana.

Sendler fue propuesta para recibir el último premio Nobel de la Paz, que finalmente recayó en el norteamericano Al Gore, después de que su historia de heroísmo saliera a la luz tras permanecer durante años escondida entre los pliegues de la Historia dictada por el régimen comunista polaco.

La ciudad también ha preparado una serie de actos culturales para celebrar el 65 aniversario del levantamiento judío, incluyendo un concierto a cargo de la filarmónica israelí bajo la dirección de Zubin Mehta.

varsovia_gueto.jpg

De 3,5 millones de judíos a unos miles

Antes de la II Guerra Mundial, Polonia era uno de los países europeos con más población judía, estimada en alrededor de 3,5 millones, aunque tras el Holocausto llevado a cabo por los nazis la comunidad hebrea quedó reducida a apenas unos miles.

En 1940 las fuerzas alemanas de ocupación obligaron a los más de 400.000 habitantes judíos de Varsovia a concentrarse en una zona concreta del centro de la ciudad que pasó a llamarse gueto, y que fue aislada por un muro tras el cual apenas se disponía de alimentos, medicinas o ropa de abrigo.

Muchos murieron de hambre y enfermedad por las pésimas condiciones del gueto, mientras el resto aguardaba su traslado a los campos de concentración, donde también les esperaba una muerte segura en las cámaras de gas.

En el resto de la ciudad la situación no era mucho mejor, con continuos enfrentamientos entre la resistencia polaca y la guarnición nazi, en una guerrilla permanente que el director Roman Polanski describió en la premiada película El Pianista.

El levantamiento del Gueto de Varsovia se produjo el 19 de abril de 1943 y fue un acto de resistencia de los jóvenes judíos frente a la liquidación sistemática llevada a cabo por los alemanes, que planeaban reducirlo todo a cenizas.

Un enfrentamiento con 14.000 víctimas hebreas

En esta lucha perdieron la vida alrededor de 14.000 judíos, mientras otras decenas de miles fueron transportados por los nazis a los campos de concentración, donde fueron exterminados.

Los escasos supervivientes del gueto se unieron a la resistencia polaca para participar en otro sangriento levantamiento, que meses después pondría en jaque a los alemanes a costa del sacrificio de 200.000 ciudadanos y la destrucción del 90 por ciento de Varsovia.

Cuando los soviéticos decidieron entrar en la capital polaca se encontraron con un panorama desolador, que aprovecharon para tomar el control del país e imponer otra ocupación que sería mucho más prolongada y que se extendería hasta la caída del muro de Berlín, en 1989.

Partizanenlied -Chant des Partisans

Ne dis jamais que c’est ton denier chemin
Malgré les cieux de plomb qui cachent le bleu du jour
Car sonnera pour nous l’heure tant attendue
Nos pas feront retentir ce cri : nous sommes là

Le soleil illuminera notre présent
Les nuits noires disparaîtront avec l’ennemi
Et si le soleil devait tarder à l’horizon
Ce chant se transmettra comme un appel

Ce chant n’a pas été écrit avec un crayon mais avec du sang
Ce n’est pas le chant d’un oiseau en liberté :
Un peuple entouré de murs qui s’écroulent
l’a chanté, nagan* à la main

Du vert pays des palmiers jusqu’au pays des neiges blanches
Nous arrivons avec nos souffrances et nos douleurs
Et là où est tombé la plus petite goutte de sang
Jaillira notre héroïsme et notre courage

C’est pourquoi ne dis jamais que c’est ton dernier chemin
Malgré les cieux de plomb qui cachent le bleu du jour
Car sonnera pour nous l’heure tant attendue
Nos pas feront retentir ce cri : nous sommes là

*nagan, pistolet de l’armée rouge
Partizanenlied -PARTISAN’S SONG
Zog nit keynmol az du gayst dem letzten veg,
Ven himlen blayene farshteln bloye teg;
Vayl kumen vet noch undzer oysgebenkte shuh,
Es vet a poyk tun undzer trot – mir zaynen do!

Es vet di morgenzun bagilden undz dem haynt,
Un der nechten vet farshvinden mitn faynt;
Nor oyb farzamen vet di zun in dem ka-yor,
Vi a parol zol geyn dos leed fun door tzu door.

Geshriben iz dos leed mit blut und nit mit bly,
S’iz nit keyn leedl fun a foygel oyf der fry;
Dos hut a folk tzvishen falendi-ke vent,
Dos leed gezungen mit naganes in di hent.

Fun grinem palmenland biz land fun vaysen shney,
Mir kumen un mit undzer payn, mit undzer vey;
Un voo gefalen iz a shpritz fun undzer blut,
Shpritzen vet dort undzer gvure, undzer mut.

Zog nit keyn mol az du gayst dem letzten veg,
Ven himlen blayene farshteln bloye teg;
Kumen vet noch undzer oysgebenkte shuh,
Es vet a poyk tun undzer trot — mir zaynen do!
Music:Dmitri and Daniel Pokrass – Yiddish Words:Hirsh Glik

שיר הפרטיזנים

ביצוע: שמעון ישראלי
מילים: הירש גליק
לחן: לא ידוע
גירסה עברית: אברהם שלונסקי

אל נא תאמר הנה דרכי האחרונה
את אור היום הסתירו שמי העננה
זה יום נכספנו לו עוד יעל ויבוא
ומצעדינו עוד ירעים אנחנו פה

מארץ התמר עד ירכתי כפורים
אנחנו פה במכאובות ויסורים
ובאשר טיפת דמנו שם נגרה
הלאינוב עוד עוז רוחנו בגבורה

עמוד השחר על יומנו אור יהל
עם הצורר יחלוף תמולנו כמו צל
אך אם חלילה יאחר לבוא האור
כמו סיסמא יהא השיר מדור לדור

בכתב הדם והעופרת הוא נכתב
הוא לא שירת ציפור הדרור והמרחב
כי בין קירות נופלים שרוהו כל העם
יחדיו שרוהו ונגאנים בידם

05/04/2008 - 14:32h Emperador Karajan

El director más influyente en el imperio de la música clásica, que hoy cumpliría 100 años, aprendió de Goebbels el arte del enfrentamiento y ejerció un poder tiránico en Berlín, Viena, Salzburgo, y en las discográficas, según explica el crítico británico Norman Lebrecht, autor de El mito del maestro

karajan.jpg

NORMAN LEBRECHT – EL PAÍS

Me despierto por la mañana con Herbert von Karajan en la radio y tengo que frotarme los ojos y comprobar el calendario para asegurarme de que el generalísimo Franco no está vivo ni la Unión Soviética es una potencia mundial. Hubo una época, definida por las dictaduras, en la que Karajan suministró el telón de fondo musical. En el tercer cuarto del siglo XX, su sonido era ubicuo y su poder absoluto.

Como director musical y explotador comercial, gobernó los imperios de la Filarmónica de Berlín y el Festival de Salzburgo y ejerció un control similar sobre las casas discográficas de música clásica Deutsche Grammophon y EMI, con las que hizo casi novecientas grabaciones. Las cajas registradoras vibraban con el sonido de Karajan, de la misma forma que las ondas radiofónicas de todo el mundo.

Era un sonido inconfundible. Todo lo que dirigía Karajan parecía de una suavidad extrema, como unas camisetas de algodón tras pasar por suavizante. Ya fuera Bach o Bruckner, Rigoletto o las Rapsodias españolas, la música se caracterizaba por una línea perfecta de belleza artificial que no era tanto creación del compositor como resultado del empeño del director en ofrecer un producto reconocible.

Y no hay duda de que era inconfundible. En una ocasión entré en una tienda de libros de arte en Manhattan, de altos techos y paneles de madera, y tuve que pedir al dependiente que sustituyera el concierto de Chaikovski que salía de los altavoces por una grabación más auténtica. “¿Cómo sabía que era Karajan el que dirigía?”, exclamó. “Porque tiene una forma de dirigir obvia”, fue mi respuesta.

Un álbum de homenaje en Deutsche Grammophon realizado por su viuda, Eliette, pone de relieve lo mejor y lo peor del director. El primer disco empieza con una Pastoral de Beethoven doblemente pasteurizada, sintética en extremo, seguida de unos Debussy y Ravel homogeneizados y un Adagietto de Mahler en el que se ha anestesiado todo dolor, una parodia de Mahler. El segundo disco contiene extractos de oratorios y óperas, algunos de una emotividad trascendental -un resplandeciente ‘Erbarme mich’ de La Pasión según San Mateo, un emocionante ‘Dies Irae’ del Réquiem de Verdi y fragmentos de las Valquirias de Wagner. Cuanto más grandes eran las fuerzas, mejor era su interpretación.

Si Karajan tenía algún talento, era para la organización y la oportunidad. Creció en Salzburgo después de la Primera Guerra Mundial, cuando una diminuta ciudad de montaña se convirtió en la segunda ciudad de un Estado austriaco en declive, y allí aprendió los peligros de la falta de poder. Con la ascensión de Hitler, en 1933, se unió al Partido Nazi, no una sino dos veces, y fue recompensado con un puesto de director de música en Aquisgrán, el más joven del Reich. La prensa controlada por Goebbels empezó pronto a aclamarlo como “Das Wunder Karajan (el Milagro Karajan)”, en contraste con Wilhelm Furtwängler, que era poco de fiar políticamente. Karajan aprendió de Goebbels el arte siniestro de enfrentar a una potencia artística contra otra.

Después de la guerra, a Karajan le impidieron subirse al podio mientras duró la desnazificación, pero un ejecutivo de EMI, Walter Legge, le llevó a Londres a grabar con la Philharmonia Orchestra, compuesta por combatientes británicos recién desmovilizados. La relación, que duró 10 años, otorgó a Karajan una experiencia fundamental en la política de la controversia y una genuina afición a los conflictos. Tras la muerte de Furtwängler, en 1954, fue nombrado director vitalicio en Berlín, y la deshecha capital del Reich le sirvió de cabeza de puente para la expansión imperial. Si hubo una lección que Karajan aprendió de los nazis, fue la necesidad de dominar el mundo.

Ningún músico en la historia ha buscado el poder que alcanzó Karajan, el poder de dictar el repertorio y los músicos en las salas de conciertos y los salones del mundo. Reaccionario por naturaleza, excluyó la música contemporánea atonal y diversos estilos de interpretación. Christoph von Dohnanyi ha llegado a acusarle de destruir la tradición alemana de dirección musical al imponer sus gustos y su estilo propios de forma tan imperativa. Nikolaus Harnoncourt, que tocó el violonchelo en la orquesta de Karajan, vio prohibida su entrada en Salzburgo y Berlín cuando empezó a dirigir conjuntos de instrumentos de época. Cada vez que Karajan grababa un ciclo de Beethoven -y lo hizo en cinco ocasiones-, era una oportunidad menos de interpretación alternativa.

Su hegemonía fue autocrática y no dio resquicio a las contradicciones. Cuando los músicos de Berlín, en 1983, se negaron a aceptar a la clarinetista que había seleccionado, Sabine Meyer, él incrementó sus actividades con la orquesta rival, la Filarmónica de Viena. Trabajó con y contra dos compañías discográficas; a su muerte, en julio de 1989, estaba preparándose para abandonar Deutsche Grammophon y pasarse a sus amigos japoneses de Sony. No conocía la lealtad, excepto hacia sí mismo. Su amor a la música se limitaba a su forma de hacer música.

El pasado nazi de Karajan no es secundario, aunque no fue de los que cometieron holocaustos. No hay ninguna sospecha de que cometiera crímenes raciales, y su carrera en el Reich sufrió a partir de 1942 cuando se casó con una rica heredera de ascendencia parcialmente judía. Lo que adquirió de los nazis fue un sistema de valores que aplicó a la inocente e ineficaz industria de la música a partir de 1945 de forma despiadada e implacable. Demostró que la música era, sobre todo, cuestión de poder. Muchos se sintieron, y permanecen, impresionados. A algunos, como a mí, su actitud nos pareció antimusical. Yo la analicé en El mito del maestro (1991) y en The life and death of classical music (2007). Todavía me cuesta escucharle en la radio con ecuanimidad.

“Celebrar” ahora su vida, con ocasión de su centenario, representa un último esfuerzo a la desesperada, por parte de una industria discográfica moribunda, para sacar provecho de un león muerto desde hace mucho tiempo. Algunas conmemoraciones del festival están subvencionadas con subsidios ocultos de los reverentes y obscenamente ricos herederos del director, que tenía un patrimonio de más de trescientos millones de euros en el momento de morir.

El hecho de que Karajan fuera un hombre malo o bueno no viene al caso. Fue un director inteligente, con talento para hacer que una orquesta se adaptara a su sonido personal, una capacidad que explotó con fines inmorales. Impuso su ego en el mundo de la música clásica de tal forma que aplastó la independencia y la creatividad. Su legado es regresivo, y su centenario es el momento perfecto para dejar caer el telón de una vez sobre una vida poco meritoria que no produjo ninguna idea original ni defendió ningún valor humano que mereciera la pena. Karajan está muerto. La música está mucho mejor sin él.

© Norman Lebrecht. Marzo, 2008 http://www.normanlebrecht.com/ Traducción de María Luisa Rodríguez Tapia. El crítico británico Norman Lebrecht (London Evening Standard y BBC, Radio 3) es autor, entre otros libros, de El mito del maestro (Acento Editorial, 1997) y de The secret life and shameful death of the classical record industry (Hardcover).

09/02/2008 - 00:36h Censura ou respeito

05/02/2008 - 14:02h Les élèves britanniques iront visiter le camp d’Auschwitz

 

Pour que les élèves britanniques n'ignorent pas l'Histoire, deux voyages vont être organisés par le ministère du Royaume-Uni pour visiter le camp d'Auschwitz, en Pologne. | ANTONIO REAL/GAMMA
ANTONIO REAL/GAMMA
Pour que les élèves britanniques n’ignorent pas l’Histoire, deux voyages vont être organisés par le ministère du Royaume-Uni pour visiter le camp d’Auschwitz, en Pologne.

Pour que les jeunes générations n’ignorent rien du génocide des juifs perpétré par les nazis, le ministère de l’éducation du Royaume-Uni a annoncé, lundi 4 février, le financement d’un voyage pour deux lycéens de chaque établissement scolaire au mémorial d’Auschwitz-Birkenau, à Oswiecim (Pologne). Accompagnés de survivants des camps d’extermination, les élèves de “sixth form” – équivalent de première et terminale – se rendront pendant une journée dans ce lieu où furent exterminées un million de personnes. Pour les 6 000 à 8 000 lycéens sélectionnés chaque année, la visite comprendra l’obligation de participer à des conférences préparatoires, puis à des comptes rendus devant les autres élèves. Le ministre adjoint de l’éducation, Jim Knight, s’est engagé à prendre en charge les deux tiers du coût du voyage, soit environ 260 euros par personne, la différence restant à la charge des établissements scolaires. Le dispositif, qui fonctionnait à titre expérimental depuis 2006, sera financé au moins jusque 2011.

En France, l’association Le Mémorial de la Shoah emmène chaque année plusieurs milliers de lycéens de première et de terminale à Auschwitz, sélectionnés en fonction du projet pédagogique de leur établissement. Vingt-quatre classes prennent part à l’opération en Ile-de-France, et neuf académies de province y participent par roulement. LE MONDE

02/02/2008 - 10:41h Holocausto no carnaval

carnaval_holocausto1.jpg

A proibição do carro alegórico da Viradouro pela justiça do Rio provocou uma polêmica neste carnaval sobre liberdade artística e de expressão, em relação ao nazismo e o holocausto de 6 milhões de judeus. Reproduzo a seguir, do jornal O Globo, o eco deste debate publicado na sua edição de hoje.

Penso que a FIERJ agiu corretamente tentando persuadir a Viradouro a fazer mais explicita a condenação do holocausto, com eventualmente uma faixa com os dizeres “holocausto, nunca mais” e posteriormente de requerer a justiça, que acabou proibindo o dito carro alegórico.

Argüir da democracia, da liberdade de expressão, da arte e da censura, princípios pelos quais devemos ter o maior resguardo, não me parece adequado.

Nos países europeus, por exemplo, existe uma clara legislação que proibe a publicação ou o ensino de teses negacionistas. Os negacionistas pretendem que o holocausto nunca existiu e invocam o direito à livre expressão para propagar sua idéologia nazista. Em vários países europeus existem formações políticas neo-nazistas que reivindicam uma existencia legal com o argumento da liberade de organização partidária e a recusa da censura, contra a proibição da qual são objeto. No Brasil também certo tipo de literatura, a de conteúdo racista por exemplo, é objeto de proibição.

Tem países, como os Estados-Unidos, onde este tipo de censura é recusada, primando o principio da liberdade de expressão. Como se vê, não existe resposta evidente e simples.

Anos atrás a foto do filho do Principe Charles, fantasiado de oficial nazista em uma festa, provocou uma onda de indignação e motivou desculpas públicas na Inglaterra. Ninguém disse na época que Chaplin no filme O Ditador também estava fantasiado de nazista, para defender o gesto ultrajante do herdeiro do trono inglês ou que a liberdade estava sendo coibida.

Neste caso o que está em questão não é a intencionalidade dos autores do carro alegórico, mas o significado da banalização do holocausto. Em segundo lugar o contexto: desfile de carnaval, no meio da musica, a festa e a dança. Terceiro, a própria representação, uma pilha de cadáveres e um Hitler fantasiado dançando. Por acaso a imagem, no sambódromo, e na mídia internacional, seria acompanhada de um texto explicativo dizendo que se trata de uma denuncia do holocausto e não de uma apologia?

Por último, como mostram as cartas reproduzidas pelo O Globo, o debate não opõe “os judeus”, aos “outros”. Judeus ou não, as opiniões se dividem e é bom que seja assim. Muitos antisemitas procuram uma casquinha para falar da censura dos judeus, do nome judaico da juíza, da dominação judaica no mundo. Uma prova que a vigilância sobre o assunto é uma questão essencial, pois o antisemitismo não é uma questão só de história, mas de absoluta atualidade.

Luis Favre

(mais…)

01/02/2008 - 11:22h Justiça veta carro alegórico sobre Holocausto

carnaval_holocausto.jpg

O carro alegórico da Viradouro sobre o Holocausto

O GLOBO

Carnavalesco da Viradouro chora ao ver destruição de alegoria; escola modificará escultura e excluirá destaque de Hitler

Na madrugada de ontem, a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj) conseguiu liminar na Justiça impedindo a exibição do quinto carro alegórico da Viradouro, que fazia referência às vítimas do Holocausto e mostrava uma pilha de corpos esquálidos e nus, onde desfilaria um destaque fantasiado de Adolf Hitler. A escola, que tem como enredo “É de arrepiar” e usaria a alegoria “para lembrar que o extermínio pode ser a conseqüência do preconceito, da intolerância, do desrespeito à diversidade” — segundo a sinopse do carnavalesco Paulo Barros — destruiu o carro ontem mesmo.

— Saber que haveria um Hitler no desfile não foi a gota d’água, pois meu copo estava vazio. Foi uma verdadeira tempestade — disse o presidente da Fierj, Sérgio Niskier, que, embora tivesse pedido sua retirada do desfile, não iria tentar impedila de ir para a avenida. — Há dois meses, fomos procurados pelo carnavalesco e pelo presidente da escola, Marco Lira, querendo saber nossa opinião sobre um possível carro do Holocausto.

Nós dissemos que não gostávamos da idéia, mas não adiantou. Depois disto, apenas mandamos cartas com pedidos para que eles mudassem de idéia, mas acreditava na palavra do Paulo de que o assunto seria tratado com respeito. Só que colocar Hitler sambando sobre estes corpos é inadmissível.
(mais…)

31/01/2008 - 16:05h Justiça proíbe carro alegórico que faz alusão ao Holocausto no Rio

HOLOCAUSTO DEVE SER ENSINADO EM ESCOLAS EDUCATIVAS, JAMAIS NAS DE SAMBA

carnaval_holocausto2.jpg

O carro alegórico da Viradouro sobre o Holocausto

da Folha Online

A Justiça do Rio concedeu proibiu nesta quinta-feira a escola de samba Viradouro, do Rio, de desfilar com um carro alegórico que faz alusão ao Holocausto. O carro apresenta vários corpos empilhados em alusão aos campos de concentração de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O pedido de proibição foi feito pela Fierj (Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro) durante o plantão judiciário (das 18h às 11h) e acatado pela juíza Juliana Kalichsztein. Em sua decisão, a juíza impõe multa de R$ 200 mil para a escola se o carro desfilar.

Segundo o advogado Ricardo Brajterman, da Fierj, a federação já havia tentado, em conversas anteriores, dissuadir a Viradouro a desistir da idéia ou colocar uma mensagem de advertência, do tipo “Holocausto nunca mais” no carro. “Mas a escola silenciou”, disse Brajterman.

“Por volta das 23h ficamos sabendo que o carro traria um destaque vestido de Hitler. Imagine Hitler sambando à frente dos judeus e poloneses e outras vítmas do Holocausto mortas”, disse o advogado. “O Carnaval não é uma gesta sensual. Não é o espaço certo para a discussão desse tema”.

A decisão da juíza prevê multa de mais R$ 50 mil se algum membro da escola entrar na avenida vestido de Hitler.

O desfile da Viradouro, “É de arrepiar”, estava previsto para levar á avenida oito carros, segundo a sinopse dos desfiles divulgada pela Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio). Além do Holocausto, os carros trariam temas supostamente ligados ao arrepio, como o frio, o nascimento e o Kama Sutra –tema de um carro que viria antes do carro sobre a matança de judeus–, e baratas, que viria depois.

A reportagem entrou em contato com a Viradouro em cinco número de telefone diferentes, mas os recados não foram respondidos até a tarde de hoje.

31/01/2008 - 13:17h FIERJ IMPEDE AFRONTA AOS JUDEUS NO CARNAVAL

A Presidência da FIERJ tomou a decisão, como já informado anteriormente, de agir com rigor no sentido de coibir a exibição do carro sobre o Holocausto, onde haveria a presença de um figurante fantasiado de Hitler. Diante desta situação absurda, o Departamento Jurídico dirigido pelo Dr. Jackhson Grossman, através do escritório do Dr. Sergio Bermudes, e sob a direção do advogado Ricardo Brajterman e auxiliado pelo advogado Renato Beneduzzi, conseguiram a liminar que proíbe a exibição de fantasias de Hitler e de corpos representando vitimas do Holocausto. Mais uma vez, a FIERJ age em defesa de nossa comunidade, não permitindo que haja a banalização do Holocausto, e o desrespeito à memória de todas as vitimas desta barbárie, aqui incluindo os heróis brasileiros mortos nos campos da Itália.

Abaixo a liminar para conhecimento público.

Ver também neste blog

Dança macabra

Hitler e as lições de ontem, há 75 anos

O pianista, de Roman Polanski

DIA MUNDIAL DE LEMBRANÇA DAS VITIMAS DO HOLOCAUSTO

31/01/2008 - 08:50h Hitler e as lições de ontem, há 75 anos

holocausto.jpghitler2.jpg

 Mauro Santayana – JB

No dia 30 de janeiro de 1933, há 75 anos, depois de constitucionalmente aprovado pelo Parlamento alemão (o Reichstag), Adolf Hitler foi nomeado primeiro-ministro pelo presidente Hindenburg. Seu partido, ainda que poderoso, não possuía maioria no Reichstag. O sistema parlamentarista de Weimar ajudou: um ano antes, Hitler fora derrotado na disputa pela Presidência da República. Os ricos conservadores e a velha nobreza o queriam. Ele era o homem ideal para estabelecer a ordem no país, que cambaleava sob a Constituição de Weimar e se confrontava com a crise econômica interna – agravada com a Depressão mundial iniciada em 1929. A esquerda, dividida entre os socialistas e os comunistas, não conseguia unir-se.

O melhor estudo sobre o nazismo continua sendo o de Joachim Fest: Hitler, Eine Studie über die Angst (Um estudo sobre o medo). É um erro reduzir o ditador aos seus problemas pessoais, à frustração juvenil e sonhos fantasiosos. Eles teriam sido inócuos, se à Depressão mundial não se somassem a ascensão dos movimentos operários na Europa, que incomodava a burguesia, o sentimento de humilhação de grande parte dos alemães com a derrota de 1918 e as pesadas reparações de guerra.

A primeira advertência daquele período é a de que o medo é o pior inimigo dos homens, porque corrói a razão, e os poucos que a conservam são contidos ou massacrados. O pavor cria falsos inimigos e salvadores perversos. Os tiranos, como Hitler, são, ao mesmo tempo, agentes e pacientes de igual angústia.

A segunda lição do nazismo é a de que qualquer um pode transformar-se em déspota, se combinar a capacidade pessoal de sedução com a indomável vontade de mando. A desqualificação de Hitler pelos seus inimigos é descuido que nos pode desarmar diante dos perigos de sempre. Hitler acreditava na Alemanha, mas acreditava em si mesmo. Foi assim que empolgou grande parte dos intelectuais alemães, começando por Martin Heidegger. A lucidez do autor de O ser e o tempo foi infectada pelos bacilos do nazismo. Integrando o partido logo depois da tomada do poder em 1933 – inscrição 312589, conforme fontes oficiais – Heidegger foi intransigente defensor da Neuordnung até o fim. Depois ele se justificaria, dizendo ter agido por oportunismo, a fim de manter a Universidade de Freiburg fora do controle direto dos nazistas. Mas os textos de seus pronunciamentos são firmes e claros. Ao tomar posse como reitor de Freiburg, em maio de 1933, o filósofo adere à teoria veterinária da História, quando afirma que o nazismo deve impor-se aos sentimentos humanistas dos cristãos, para a defesa da raça e do Estado. Em outro pronunciamento, invoca “o poder de preservar, da forma mais profunda, as forças do povo, que se enraízam na terra e no sangue”. Para ele, os estudos universitários deveriam constituir um risco, não “refúgio para a covardia”.

Os comunistas alemães se iludiam ao imaginar que a Aufklärung alemã não admitiria regime semelhante ao da Itália. E se enganam hoje os que acreditam que só na Alemanha poderia ter havido o totalitarismo quase perfeito. Onde haja tanto medo como na Alemanha (e no mundo) daqueles anos, combinado com o desemprego, a corrupção das elites e o nacionalismo exacerbado, a tirania totalitária é sempre uma eventualidade. A única forma de impedi-la é a aceitação da fragilidade dos homens.

Não há tempo e sociedade sem crises. As instituições políticas, desde a sua origem, são infiltradas de larápios e incapazes. Por outro lado, há a difusa e primitiva aversão aos diferentes, que constrói o racismo e a xenofobia – hoje de volta à Europa. Só a pluralidade de idéias e a liberdade política, com a aceitação do outro, criando as leis, podem tornar suportável o convívio dos homens.

Há muitas formas de totalitarismo, todas sangrentas. A brutalidade pode revelar-se em campos de extermínio, como os do nazismo, ou em prisões como as de Abu Ghraib e Guantánamo. Ela se mostra no massacre de povos desarmados, como o promovido por Suharto na Indonésia, e de algumas etnias africanas, e pelos bombardeios norte-americanos no Iraque, mas nenhum regime dos tempos modernos foi tão brutal quanto o de Hitler. Na repressão contra os conspiradores de julho de 1944, chefiados por von Schauffenberg, os nazistas criaram a figura da cumplicidade de sangue: além dos diretamente envolvidos no atentado frustrado contra o Führer, todos os seus parentes foram friamente assassinados – até mesmo uma criança de três anos. Isso com o apoio da hierarquia católica alemã e sob os olhos distraídos do papa Pio XII.

A humanidade não pode esquecer o tempo sombrio que começou em janeiro de 1933. Já há alguns anos, as circunstâncias perversas daquela época estão de volta e aguardam sua oportunidade – e seus tiranos.

31/01/2008 - 08:29h Dança macabra


HOLOCAUSTO DEVE SER ENSINADO EM ESCOLAS EDUCATIVAS, JAMAIS NAS DE SAMBA

carnaval_holocausto3.jpg


O carro alegórico da Viradouro sobre o Holocausto

ANCELMO GOIS

O GLOBO

Brincando com fogo I

Tomara que não seja verdade. Mas, ontem à noite, chegou à Federação Israelita do Rio uma cópia da ficha técnica do desfile da Viradouro, onde consta que o carro número 5 da escola, o tal polêmico do Holocausto, traria um folião vestido de… Hitler.
A conferir.

Brincando com… II

O tal carro, criado pelo carnavalesco Paulo Barros, ganhou as páginas de jornais lá fora.
Ontem, foi assunto no “Yediot Aharonot”, de Israel, e no “Corriere Della Sera”, da Itália.

Brincando com… III

Aliás, a Estácio de Sá, escola do grupo de acesso, avisou à Federação Israelita que retirou de seu desfile fantasias com o desenho de uma suástica. O símbolo do nazismo está banido do carnaval da escola.

29/01/2008 - 13:35h DIA MUNDIAL DE LEMBRANÇA DAS VITIMAS DO HOLOCAUSTO


Lembrar sempre, não esquecer jamais

Vídeo da solenidade nacional no Rio de Janeiro, organizada pela ONU e FIERJ. A data da ONU é dia 27 de janeiro, a data do evento é dia 25 de janeiro

ASSISTA AO EMOCIONANTE DEPOIMENTO DO BRIGADEIRO RUY MOREIRA LIMA Piloto da FEB na II Guerra Mundial

27/01/2008 - 16:32h Holocausto: “Unidos para evitar a conspiração do esquecimento”

Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia alusiva ao Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Palácio do Itamaraty – Rio de Janeiro (RJ), 25 de janeiro de 2008

 

Foto de Monumento al Holocausto

 

Monumento as vítimas do Holocausto, Berlim

Meus amigos, minhas amigas,

Eu acho que se nós tivéssemos encerrado este ato na fala do brigadeiro Ruy Moreira Lima, já estaria de bom tamanho o ato, porque é a testemunha viva do que aconteceu lá. Eu ainda não tinha nascido. Portanto, Deus o preserve por mais algumas décadas para contar essas histórias em outros dias 25 de janeiro.

Minhas amigas, meus amigos, jornalistas aqui presentes. Agradeço o honroso convite da comunidade judaica do Rio de Janeiro para participar deste ato. Meu reconhecimento à Conib por estabelecer este encontro como uma referência para a comunidade judaica brasileira. Dessa forma, agradeço as lideranças e os rabinos que se deslocaram de seus estados para prestigiar o evento. Finalmente, minha homenagem à ONU por instituir, com total apoio do Brasil, o dia 27 de janeiro, como a data para relembrar em todo mundo, a tragédia e as vítimas do Holocausto.

Senhoras e senhores,

Participo desta cerimônia pelo terceiro ano consecutivo. Faço-o por ter a dimensão do que significa rememorar o terror e as iniqüidades cometidas pelo aparato do estado nazista contra o povo judeu. Aparato voltado também contra socialistas, social-democratas, comunistas, homossexuais, negros, testemunhas de Jeová, ciganos e portadores de doenças físicas. Lembranças tristes e trágicas como a do Holocausto, não devem e não podem ser apagadas, como não podem ser esquecidas todas as formas de intolerância, especialmente aquelas alçadas à condição de política de Estado.

Temos a responsabilidade e o dever de transmitir para todas as gerações que o anti-semitismo, o racismo, o preconceito e a intolerância atentam contra a dignidade humana e todos os valores mais profundos e sagrados da nossa civilização.

Precisamos nos manter vigilantes pois, infelizmente, alguns seres humanos foram capazes, são capazes, e ainda hoje ousam cometer todas as formas de violência contra esses valores. Sabemos que, frente à violência, os limites do ser humano são testados: de um lado, o da insanidade, da perversidade e da crueldade; do outro, a solidariedade, o altruísmo, a entrega e a compaixão. Penso que só seremos capazes de rejeitar, combater e aplacar todo tipo de intolerância, se formos sábios o suficiente para semear nos corações e mentes a repulsa ao ódio, à violência e à desumanidade. Reiterar com vigor os valores democráticos, o respeito inarredável à vida, à dignidade, à diversidade e aos direitos humanos.

Minhas amigas e meus amigos,

Com a memória da dor, aprendemos que é necessário lembrar e eternizar os heróicos exemplos de resistência à barbárie. É preciso lembrar e extrair lições dos momentos em que a justiça se impôs à estupidez, pela ação destemida de pessoas de bem, resgatar os ideais dos que resistiram (inaudível) daquele tempo. É preciso recordar. Aqui e em todo o mundo, homens e mulheres têm que estar unidos para impossibilitar a conspiração do esquecimento. É importante fazer a sociedade se lembrar sempre que o esquecimento está cheio de uma memória sufocada.

Hoje é dia de reverenciar todas as pessoas de coragem, que arriscaram suas vidas. E, por estarmos no Itamaraty, homenageio, na figura do embaixador brasileiro na França ocupada, Luís Martins de Sousa Dantas, os diplomatas e servidores de representações brasileiras que ousaram desafiar o III Reich, e salvaram centenas de judeus. Mais do que reverenciar os heróis, é preciso incorporar à nossa atuação cotidiana as lições que eles nos legaram. Só assim será possível impedir que se repitam os horrores da 2ª Guerra Mundial.

Com felicidade, podemos registrar que o Brasil é, hoje, uma das poucas democracias do mundo em que não há prescrição e nem fiança para crimes de racismo. Essa conceituação revela o objetivo do Estado, em respeito aos valores do povo brasileiro, de não aceitar e, ao mesmo tempo, combater qualquer espécie de discriminação.

O meu governo se empenha em fazer avançar a garantia dos direitos humanos. Para isso, tem se comprometido com ações práticas, no plano interno e no externo. Aproveitando que em 2008 o mundo comemora os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Brasil levou às Nações Unidas a proposta, aprovada no final do ano passado, de construir consensos em torno de metas mundiais referentes ao tema dos direitos humanos, repetindo o êxito da iniciativa em torno das Metas do Milênio. Por minha determinação, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos, comandada pelo meu companheiro, ministro Paulo Vannuchi, aqui presente, realizará em 2008 um grande mutirão de debates por todo o País, visando atualizar nosso Programa Nacional dos Direitos Humanos. Um dos propósitos do governo no campo dos direitos humanos é, precisamente, atrair para esse grande mutirão nacional a reflexão de toda a sociedade, contando com o envolvimento de três importantes setores da vida brasileira: a universidade, o Poder Judiciário e a mídia. As propostas que serão pactuadas terão, e espero que tenham, grande repercussão e efetividade, contando também, é claro, com as organizações da sociedade civil, entre elas, as da comunidade judaica.

Somos um país de índole pacífica e tolerante, e o caminho na luta contra todas as violências passa por reconhecer o problema e atacá-lo pela raiz. Reconhecer que a educação, com o seu papel emancipatório, pode criar o ambiente ideal para que a paz floresça num longo prazo, mudando a história, avançando na direção de um mundo mais justo, humano e solidário.

Para concluir, quero reafirmar que exemplos como este são profundamente educativos. Eles nos chamam a atenção para os grandes erros do passado, nos apontam alternativas possíveis e nos indicam que um futuro diferente é possível, desde que sejamos capazes de sonhá-lo e construí-lo juntos. Sei que enquanto faço o meu discurso, minhas palavras vão sendo registradas pela imprensa e certamente repercutirão, de alguma forma, na sociedade. Se fosse possível, o presidente da República bateria na porta de cada lar brasileiro, de cada escola, para fazer um apelo: que todos sejamos tolerantes, que deixemos a violência de lado. É possível construir um país mais pacífico, com cada um contribuindo com pequenos gestos no dia-a-dia e acreditando na utopia da paz.

Muito obrigado.

26/01/2008 - 09:30h Holocausto: “anti-semitismo atenta contra a dignidade humana”, disse o Presidente Lula


Entrada principal do campo nazista de extermínio de Auschwitz

Presidente anuncia atualização do Programa de Direitos Humanos

Lula participou no Rio de evento em homenagem a vítimas do Holocausto

DA SUCURSAL DO RIO – FOLHA DE SÃO PAULO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou ontem que o país terá neste ano um mutirão para atualizar o Programa Nacional de Direitos Humanos. A declaração foi feita durante evento do Dia Internacional de Lembrança das Vítimas do Holocausto, no Rio.
“Um dos propósitos do governo no campo de direitos humanos é atrair a reflexão de toda a sociedade, contando com o envolvimento de três importantes setores: a universidade, o Poder Judiciário e a mídia”, disse. O mutirão será coordenado pelo ministro Paulo Vanuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, e tem como objetivo atualizar propostas e planejar ações.
O evento foi organizado pela Federação Israelita do Rio de Janeiro. A data foi criada pela ONU em 2005 para marcar o dia de libertação do campo de extermínio de Auschwitz, no sul da Polônia, e marca o fim do terror nazista, em 27 de janeiro de 1945. Essa é a terceira vez que Lula participa da cerimônia, que contou com a presença de artistas e representantes da comunidade judaica.
Lula fez um apelo para que o país se torne mais pacífico. “Se eu pudesse, sairia por aí batendo na porta de cada residência, nas escolas, para fazer um apelo. Pedir para que as pessoas sejam mais tolerantes, que deixem a violência de lado. Pequenos gestos podem ajudar com que a gente continue acreditando na utopia da paz”, disse o petista, no evento.
O presidente destacou que as lembranças do Holocausto não devem ser esquecidas. “Temos a responsabilidade, o dever de transmitir para todas as gerações que o anti-semitismo, o racismo, o preconceito e a intolerância atentam contra a dignidade humana”, afirmou.