08/02/2009 - 11:24h Darwin 200 anos depois

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Herton Escobar – O Estado SP

“No futuro distante, vejo campos abertos para pesquisas muito mais importantes. A psicologia será baseada num novo fundamento, baseado na necessária aquisição de cada poder e capacidade mental via gradação. Luz será lançada sobre a origem do homem e sua história.”

Charles Darwin, em A Origem das Espécies, 1859

Na semana em que Charles Darwin completaria 200 anos, a atual crise financeira-econômica mundial oferece um cenário ideal para estudar o legado do grande naturalista. Assim como o asteroide que caiu sobre a Terra há 65 milhões de anos alterou radicalmente o clima do planeta, levando os dinossauros à extinção e permitindo a ascensão dos mamíferos (até então pequenos animais noturnos que viviam à sombra dos grandes répteis), o colapso de Wall Street detonou uma sequência de eventos que alteram profundamente o ambiente econômico mundial.

Empresas, bancos e modelos de negócios que não conseguirem se adaptar às novas condições correm o risco de desaparecer da face da Terra, tal qual os dinossauros. Alguns gigantes do setor financeiro já foram extintos. Novos negócios sustentáveis, antes sufocados pelo ambiente especulativo e de consumo desenfreado, agora têm uma chance para florescer, tal qual os pequenos mamíferos do cretáceo.

Esse é o princípio da evolução por seleção natural, descoberto por Darwin em meados do século 19, após sua viagem de volta ao mundo a bordo do H.M.S. Beagle e publicado em 1859, no livro A Origem das Espécies – para muitos, a obra mais importante da história da ciência. Darwin enxergou algo fundamental e revolucionário sobre o funcionamento da natureza: um mecanismo pelo qual espécies podem evoluir, diferenciar-se e originar novas espécies por meio de forças exclusivamente biológicas, sem necessidade de intervenção divina ou atos sobrenaturais. Um mecanismo tão poderoso que, como Darwin bem previu, abriu caminho para novos – e polêmicos – campos de estudo a respeito da existência humana.

Que o homem evoluiu de um ancestral comum com os primatas já é uma certeza científica universal, confirmada por um batalhão de informações genéticas produzidas desde a descoberta do DNA. Mas será que a espécie humana ainda está evoluindo? E até que ponto a seleção natural poderia explicar não apenas a evolução de características físicas do ser humano, como a postura ereta e o cérebro grande, mas também de características comportamentais, como o altruísmo, o egoísmo, o racismo ou uma propensão à infidelidade conjugal? Essas são algumas das perguntas darwinianas com as quais cientistas e filósofos de um “futuro distante” se digladiam no presente.

BASE CIENTÍFICA

O primeiro passo de Darwin para chegar a sua teoria foi perceber que todos os indivíduos – inclusive os membros de uma mesma espécie – são anatomicamente e fisiologicamente diferentes entre si. Alguns nascem com pernas um pouco mais longas, com a visão um pouco mais aguçada, com antenas mais sensíveis ou com a capacidade de digerir alimentos melhor do que seus pais e irmãos.

Se alguma dessas características calha de ser vantajosa no ambiente em que aquele organismo vive – por exemplo, a capacidade de viver mais tempo sem água em um ecossistema árido ou uma coloração de asa que se camufla melhor com a cor da casca de uma árvore -, esse indivíduo terá melhores chances de sobreviver e, consequentemente, de deixar descendentes com características genéticas iguais às dele para compor as geração futuras (chamada seleção positiva). Já os indivíduos menos adaptados sofrem o efeito contrário: em média, vivem menos e deixam menos descendentes (seleção negativa).

Deixe a seleção natural agir por tempo suficiente e as variedades menos aptas tenderão a desaparecer da população, substituídas pelos descendentes das variedades mais bem adaptadas. É o que Darwin chamou de “luta pela sobrevivência”, mas que ficou conhecido pelo apelativo (e enganoso) título de “a lei do mais forte”. Novas espécies surgem quando uma variedade se separa da população original e segue um caminho evolutivo diferente, tal como as linhagens do homem e do chimpanzé divergiram de um ancestral comum.

Quando as condições ambientais mudam, as espécies precisam mudar também. Características que eram benéficas ou irrelevantes podem se tornar deletérias e vice-versa. É um processo contínuo, porém lento e gradual, que pode levar de algumas dezenas a muitos milhões de anos, e por isso é tão difícil de ser observado diretamente. Em um evento extremo, como a queda de um asteroide ou a explosão de uma crise financeira global, porém, a seleção atua de maneira óbvia e implacável. No lugar de um bando de répteis gigantes, pode-se acabar com um bando de mamíferos pequenos e peludos.

UNIVERSALIDADE

Por mais polêmica que ainda seja do ponto de vista religioso, a teoria da evolução por seleção natural é hoje um pilar central das ciências biológicas, tão indispensável para explicar o desenvolvimento de uma joaninha quanto a resistência de bactérias a antibióticos ou a resposta de uma floresta ao efeitos do aquecimento global. Como disse o geneticista ucraniano Theodosius Dobzhansky, em 1973: “Nada na biologia faz sentido, a não ser sob a luz da evolução.”

“O que está implícito nessa frase é que a biologia só se consolidou como ciência após a teoria da evolução”, diz o biólogo Diogo Meyer, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Antes havia apenas o estudo dos seres vivos; não havia uma teoria que integrasse tudo numa ciência comum. Hoje sabemos que os processos que moldam o genoma de uma bactéria e de um elefante são parte da mesma família.”

A analogia sobre a crise financeira serve para mostrar que as teorias de Darwin – agrupadas no que se convencionou chamar de “darwinismo” – foram mais longe ainda: extrapolaram os limites da biologia e colonizaram outras áreas da ciência, influenciando várias esferas do pensamento humano.

Mais até do que uma analogia, a evolução por seleção natural é um elemento crucial da teoria econômica moderna, segundo o economista José Eli da Veiga. “A ideia é que qualquer sistema evolutivo obedece às leis do darwinismo. E a economia é certamente um sistema evolutivo”, afirma Veiga, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP. “Um economista que não entende Darwin é um economista totalmente ultrapassado.”

Visto por uma ótica puramente evolucionista, vale a pena perguntar: ao financiar a salvação de empresas que, de outra forma, iriam à falência, estariam os governos indo contra a seleção natural? Vale a pena salvar os dinossauros?

“Darwin fez uma teoria biológica, mas construiu uma linha de raciocínio tão abstrata que acabou transcendendo a biologia”, diz o pesquisador Charbel El-Hani, coordenador do Grupo de Pesquisa em História, Filosofia e Ensino de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

SOCIOBIOLOGIA

No que se aplica à evolução de plantas, besouros, peixes e sabiás, a teoria de Darwin já é ponto pacífico na ciência. É quando se tenta aplicar a seleção natural aos seres humanos que a coisa fica complicada. Darwin desenhou uma árvore da vida na qual o homem é um galho tal como outro qualquer – uma espécie dotada de inteligência superior, porém gerada pelos mesmos mecanismos de diferenciação e seleção que produziram as plantas, besouros, peixes e sabiás. “Devo inferir por analogia que, provavelmente, todos os seres orgânicos que já viveram nesta Terra descenderam de uma única forma primordial, na qual a vida foi soprada pela primeira vez”, escreveu Darwin, no capítulo final de A Origem das Espécies.

Ele poderia ter deixado o ser humano fora dessa história, mas não deixou. As semelhanças entre os homens e os primatas já eram óbvias demais para serem ignoradas, mesmo no século 19, antes da genômica. A mera sugestão de que o Homo sapiens era uma forma evoluída de macaco e não um ser especial criado por Deus foi suficiente para detonar uma batalha entre ciência e religião que persiste até os dias de hoje. Darwin até tentou ficar de fora dessa briga no início, deixando o tema de fora de A Origem das Espécies (”Luz será lançada sobre a origem do homem e sua história” é a única referência que ele faz à espécie humana no texto). Mais tarde, porém, publicaria um livro específico sobre o assunto, chamado A Origem do Homem e a Seleção Sexual, de 1871.

A versão mais moderna desse debate se dá no campo da “sociobiologia”, uma ciência controversa que busca integrar conceitos biológicos ao estudo do comportamento humano. Umas de suas disciplinas, como previu Darwin, é a chamada “psicologia evolutiva”.

O raciocínio básico da sociobiologia é o de que, se o comportamento dos animais resulta de processos evolutivos, e os seres humanos são animais que evoluíram como todos os outros, então seu comportamento social deve ser, também, influenciado por processos biológicos – e não apenas culturais.

O tema é extremamente polêmico entre biólogos, antropólogos e sociólogos. “Não há nada no ser humano que não seja explicado por leis biológicas”, diz o biólogo Mário de Pinna, vice-diretor do Museu de Zoologia da USP. “A cultura tem origem biológica e, sendo assim, está sujeita também às leis da evolução.” Para ele, o ser humano continua a ser moldado pela seleção natural, tanto culturalmente quanto biologicamente. “Evolução nada mais é do que uma mudança na frequência de genes ou suas combinações ao longo do tempo numa população”, afirma Pinna. “Se você morre sem deixar filhos, geneticamente, é como se você nunca tivesse existido. Isso é seleção.”

O geneticista Sérgio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), discorda. “A evolução humana, do ponto de vista biológico, acabou”, diz. “Temos uma cultura que vai diretamente contra a seleção natural. Temos a medicina: pessoas que deveriam morrer não morrem.” Hoje, segundo Pena, a única seleção relevante é a cultural. “Evoluímos tanto que um dos produtos da nossa própria evolução é uma nova maneira de evoluir”, diz. “Tomamos as rédeas do nosso próprio destino como espécie.”

O dilema, segundo a antropóloga Gláucia Silva, da Universidade Federal Fluminense (UFF), surge de uma separação equivocada entre homem e natureza, enraizada nas culturas ocidentais. “Os seres humanos são radicalmente distintos de todos os outros animais, mas não deixam de ser animais”, afirma ela. A sociobiologia, segundo Gláucia, tem o mérito de tentar reconstruir essa unidade – porém, sem oferecer respostas satisfatórias, reduzindo tudo a uma questão genética. “Os sociobiólogos não sabem nada de antropologia social. Eles têm respostas tão simples que dá vontade de rir.”

Gláucia defende a tese de que a espécie humana continua a evoluir biologicamente – “Basta estar vivo para ser passivo de seleção”, diz ela -, mas que o comportamento social humano não tem nenhuma relação com isso. Nem mesmo o comportamento sexual. “Os seres humanos não têm instinto sexual”, diz a antropóloga. “A regulação da nossa atividade sexual é 100% cultural.”

As discordâncias mostram que a obra de Darwin está longe de virar história e que muitas das questões levantadas por ele continuam tão importantes no século 21 quanto eram no século 19. “É realmente notável que um naturalista daquela época pudesse fazer perguntas que permanecem relevantes tanto tempo depois”, diz o ecólogo Thomas Lewinsohn, da Universidade Estadual de Campinas.

Ele discorda de outros cientistas que prefeririam abandonar o título “teoria” e apresentar a evolução por seleção natural como um “fato” consumado. “Chamar uma teoria de fato é como transformá-la num fóssil”, diz. “A palavra de Darwin não é uma palavra sagrada, que não pode ser questionada. É uma teoria viva, em constante desenvolvimento, que pode e deve ser sempre reexaminada.”

08/02/2009 - 10:10h Homossexualidade é pecado para 58%, aponta pesquisa

Estudo mostra que 28% dos brasileiros admitem ter preconceito contra homossexuais

Para Gustavo Venturi, um dos coordenadores da pesquisa, religiões e a cultura machista no Brasil favorecem a discriminação

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MÁRCIO PINHO – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Uma pesquisa sobre sexualidade e homofobia -aversão a homossexuais- mostrou que 58% dos brasileiros consideram a homossexualidade um pecado contra as leis de Deus e que 29% a apontam como uma doença a ser tratada.
O estudo foi conduzido pela Fundação Perseu Abramo e pela fundação alemã Rosa Luxemburgo Stiftung, que entrevistaram 2.014 adultos nas cinco regiões do país, escancarando o preconceito direto ou velado contra os homossexuais.
Machismo, falta de leis e discriminação na mídia são apontados como favorecedores dos números, recebidos com apreensão pela comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais).
Segundo os organizadores, o “primeiro estudo a mapear de forma tão ampla” a homofobia deixou claro a facilidade de o brasileiro confessá-la. Isso porque 28% disseram “admitir” ter preconceito contra LGBT, enquanto outra pesquisa também da Fundação Perseu Abramo, de 2003, mostrou que o preconceito assumido contra negros -problema histórico no país- era de 4%.
“Há a contribuição das religiões na nossa população de maioria católica e evangélica. Muitas igrejas continuam fechadas para comportamentos que fogem da “heteronormatividade”. Além disso, a cultura machista no Brasil facilita que o preconceito seja admitido com mais facilidade. Diferentemente da questão racial, não houve até agora uma legislação criminalizando a homofobia”, afirma Gustavo Venturi, um dos coordenadores do estudo e professor de sociologia da USP.
Um projeto que pretende mudar esse quadro -transformando a homofobia em crime- tramita no Senado, após ter sido aprovado na Câmara.

Preconceito
A pesquisa mostra manifestações de preconceito em diferentes situações. A maioria não gostaria de ter um filho gay, mas procuraria aceitar. Houve um número razoável (23%) de defensores da tese de que mulher “vira” lésbica porque não conheceu homem de verdade. Os maiores níveis de aversão foram no Norte e no Nordeste.
Para Venturi, o grande problema é que, mais do que nas relações pessoais, a discriminação tem participação institucional. Nas empresas, por exemplo. Contudo, reconhece que, nesse quesito, aparece um dos itens em que o brasileiro se mostra mais aberto à diversidade -70% dizem que não se importariam de ter colega de trabalho gay ou lésbica.
Mas isso é pouco na visão de Cezar Xavier, coordenador de comunicação da APOGLBT -associação que coordena a Parada Gay em São Paulo. Para ele, a pesquisa mostrou que a luta contra o preconceito é um desafio maior do que se intuía.
“Vivemos um estado homofóbico. A televisão tem personagens fixos para fazer chacota da homossexualidade. Para o movimento homossexual isso é algo perverso. Afeta desde a criança na escola até o adulto”, afirma. Ele lamenta existir preconceito entre os próprios homossexuais, em relação a si mesmos ou entre grupos.
Para Xavier, existe também uma matriz religiosa forte por detrás da homofobia, que reforça uma visão já existente de que a homossexualidade é uma opção. Ele afirma que essa matriz influi inclusive na falta de leis.
“Temos um lobby religioso no Congresso que dificulta a aprovação da lei do crime de homofobia. Ela é essencial. Vivemos num país de grande violência contra homossexuais.”

Religião
Além da ideia de pecado, o estudo revelou que 84% dos brasileiros concordam completamente com a ideia de homem e mulher foram criados por Deus para cumprirem a função de ter filhos, o que é considerado um preconceito velado.
Frei Antonio Moser, professor de teologia moral, diz que a Igreja Católica tem suas convicções de relação entre homem e mulher criados por Deus, mas busca acolher os homossexuais. “A homossexualidade não existe. O que existem são pessoas. Não podemos padronizar, colocar todos em uma mesma bacia de heterossexuais ou homossexuais. Nossa grande preocupação é a acolhida, a orientação. Nós [a Igreja] respeitamos e pedimos que a pessoa busque sua identidade. Mas também não nos peçam a bênção para imitar o casamento.”

49% se disseram contra união entre mesmo sexo

DA REPORTAGEM LOCAL

Tema controverso, a legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo teve 49% dos entrevistados pela Fundação Perseu Abramo com opinião contrária (40% “totalmente contra” e 9% “em parte contra”) e 32% favoráveis (25% “totalmente a favor” e 17% “em parte favor”) (veja quadro).
A prevalência da opinião contrária já tinha sido verificada pelo Datafolha, em pesquisa divulgada em abril de 2008: 45% das pessoas disseram ser contra a união civil. Foi o primeiro levantamento do tipo feito pelo órgão. Os dados mostraram que 39% eram favoráveis e 14% se disseram indiferentes.
A opinião foi mais dividida entre as mulheres: 42% foram a favor da união e 41% contra. Já os homens tiveram posição mais claramente contrária: 49% ante 36%.

24/11/2008 - 19:09h Con las travestis también somos derechos y humanos

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Ahí está, blanca y radiante, con la opulenta cola envuelta en tules y las infaltables lágrimas ornándole los ojos. Florencia de la V se “casó” -en realidad, no hubo papeles de por medio- y una revista de actualidad le dedicó la tapa y una veintena de páginas al acontecimiento y la siguiente tapa con una cobertura de similar tamaño a la luna de miel de la travesti y su pareja en México.

Todo, en el marco de una exclusiva que tiene su sustento: se trata quizá de la máxima estrella de la revista porteña, lo cual habla con callada elocuencia de la sexualidad criolla.

El dossier del casamiento tuvo el despliegue de rigor, con la correspondiente colección de famosos ataviados para resaltar, el lanzamiento del ramo de la novia, el vals, la torta y hasta el toque tan argentinamente familiero de las adolescentes hijas del novio repartiendo sonrisas por doquier.

También la nota sobre la luna de miel cumple con los requisitos del caso: fotos con todo el glamour que se puede lograr con un partenaire algo rollizo y tatuado sin reparar en superficie en la pileta, en la playa, de compras, en la suite del hotel, con el infaltable anochecer atrás y besos, abrazos, cariños prodigados a troche y moche.

Y en el artículo Florencia habla casi de todo: de la relación de diez años con Pablo, de su obsesión por el trabajo, de su búsqueda de felicidad, del romanticismo y, por cierto, de la noche de bodas, de su hechizo y su magia.

Pero, entre tanto palabrerío, hay algo de lo que no se habla. De que con su marido tienen algo más en común: el mismo sexo. Porque ella declara, orgullosa, que le están haciendo la primera nota como “la mujer del señor Goycochea.” Pero no es una mujer: es una travesti.

Esa es la palabra que muy llamativamente se obvia en la cobertura. Lo que instala con la potencia de la verdad una ficción o una ilusión en la cual demasiados, al parecer, pugnan por creer: la condición femenina de Florencia de la V.

La historia, tan real, también parece inspirada en la literatura: Flor es la versión sexualmente ambigüa de Cenicienta. Es la travesti que, merced a su talento y esfuerzo, llegó a convertirse en estrella, tanto que esa circunstancia permite borrar hasta su propia marca de identidad sexual.

Y esto sucede en el marco de una sociedad particularmente despiadada con las travestis. Pocos grupos sociales son tan sistemáticamente marginados, perseguidos y castigados como el de los transexuales. Ni documentos ni derechos reales tienen estos hombres que no lo son ni mujeres tampoco, siempre merced al exquisito trato policial y a la discrecionalidad del funcionario de turno.

Pero al mismo tiempo son usados con frenesí. Son miles y miles los machos porteños que van a experimentar su homo o bisexualidad desfilando por los jardines de Palermo, el gueto en el que la hipócrita moral imperante ha confinado a las travestis locales.

Por eso, el rutilante estrellato de Florencia de la V. se parece tanto a una coartada social: resulta que somos tan progres que podemos instaurar a una travesti como sex simbol. Somos como el nazi que jura tener un amigo judío.

La realidad es otra: esta es una sociedad que condena a las travestis a la prostitución porque les niega cualquier otro trabajo.

Y el éxito de Florencia de la V. no alcanza para legitimar tanta crueldad y tanto desprecio.

(Publicado por Marcelo A. Moreno el domingo 16 de noviembre del 2008 en la columna Disparador de Clarín)

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17/10/2008 - 13:32h Uma carta exemplar

Luis, por motivos profissionais eu não posso fazer declarações de voto, mas estou muito enojado com essa história toda.

Sei que virou unanimidade que o momento crucial desta campanha para prefeitura de São Paulo foi o comercial do PT perguntando se o candidato do DEM era casado e se tinha filhos. A reação ao comercial gerou no inconsciente paulistano a percepção de que a campanha da Marta era homofóbica e preconceituosa. Na avaliação de dez entre dez çabios com espaço nos jornais, Marta “mostrou desespero”, “apelou para baixaria” e “jogou fora a sua biografia” para tentar “ganhar de qualquer jeito”.

Não vou entrar nessa discussão agora, mas quero chamar atenção para outro momento da campanha muito menos comentado. No dia 15 de setembro, Marta participou de encontro com pastores da Igreja Batista, representantes de 540 templos e uma comunidade de 70 mil paulistanos. Segundo o relato de O Globo, a reunião foi um constrangimento só. No auditório do colégio Batista, o grupo pediu o apoio da candidata contra o projeto de lei 122 que criminaliza a homofobia. Segundo os religiosos, a proposta, em tramitação no Congresso Nacional, os impediria de pregar contra a homossexualidade.

Marta foi categórica: “Se for para xingar homossexual, dizer que é doente, desacatar, sou contra. Com toda a minha formação de psicanalista e na área de sexualidade, não posso ser a favor. Se eu respondi, está respondido, se querem mais detalhes, tenho de ler o projeto” disse.
Perguntada sobre o mesmo assunto pela terceira vez, Marta lembrou que não é mais parlamentar: “Não sou eu que vou votar (a lei), mas minha opinião pessoal vocês têm de ter: não sou a favor disso, gente. Não sou! Tenho de deixar isso claro”.

“Nós temos de ter coerência com o que a gente é, com o que a gente vive e com a vida da gente. De mim, vocês nunca vão encontrar evasivas”, disse Marta.

Para piorar o clima, informou o jornal carioca, um dos pastores perguntou sobre “investimento em espiritualidade” nas escolas. Marta defendeu a escola laica: “O mesmo respeito que temos em relação à religião, temos de ter em relação à raça, à sexualidade, em relação às diferenças. As pessoas não são iguais. Não nascemos iguais”.

Questionada pelos repórteres se havia perdido votos ao ser tão incisiva, Marta respondeu: “As pessoas podem ver, pelo menos, que lidam com uma candidata que tem princípios, que fala o que pensa”.

Respondendo a mesma pergunta, o diretor-executivo da Convenção Batista do Estado de São Paulo, Valdo Romão, fez uma análise perfeita: “Quem já tem suas reservas quanto a ela, reafirmou essas reservas. E quem tem suas simpatias, reforçou-as”.

Pois bem: não vou aqui cobrar artigos dos çabios da imprensa sobre o episódio do Colégio Batista, mas relendo o ocorrido alguém intelectualmente honesto é capaz de acusar Marta de ser “homofóbica”, de ser “preconceituosa”, de “jogar a sua biografia em troca de votos”?

Marta Suplicy é uma defensora histórica dos direitos dos homossexuais. Ao que me recorde, foi a primeira prefeita do país a apoiar e participar da Passeata do Orgulho Gay. Provavelmente perdeu muitos votos com isso. Nunca se importou.

Mas a questão é: sinceramente, que outro político brasileiro teria a coragem de enfrentar uma platéia de eleitores em potencial e dizer exatamente o que eles NÃO querem ouvir? Que outros políticos pautam a sua carreira por princípios (certos ou não) e se mantêm neles sob custa de votos? Que outros políticos não fazem o eterno jogo de montar um discurso para cada platéia, caminhando no gelo fino da hipocrisia e do populismo? Que outro político não submete o seu discurso à vontade dos marqueteiros e dos çabios da imprensa? Quantos? Ciro Gomes e José Serra, por certo. Talvez outros três, no máximo.

É por isso que os últimos dias da campanha paulistana me dão tanto nojo. Ok, se a imprensa acha que Gilberto Kassab será um prefeito melhor, ótimo. Está jogo: façam a sua declaração de voto e todos ficamos sabendo quem é quem. Mas gastar uma semana de cobertura da principal campanha eleitoral do país discutindo os preconceitos de Marta é uma das coisas mais absurdas que já vi. Quantos políticos brasileiros sofreram tanto preconceito quanto Marta? Vou facilitar a lista e colocar três nomes: em campanhas passadas Lula era “comunista e aborteiro”; Erundina, uma “nordestina incapaz”; Gabeira, um “maconheiro veado”. Marta, bem, para não repetir tudo que já foi escrito vamos ficar com uma única declaração de Paulo Maluf no segundo turno de 2000: “A vida particular de Dona Marta não cabe numa lista telefônica”. Então, é a Dona Marta a preconceituosa?

A questão básica é nesta semana toda de discussão do PT o leitor paulista no foi privado do seu direito mais essencial: o de ser informado. Peço perdão aos marqueteiros do PT e aos çabios da imprensa, mas a questão para os próximos quatros anos de São Paulo não é a vida privada de Gilberto Kassab. Isso é bobagem. O importante é saber o futuro do Bilhete Único, a expansão dos CEUS, os investimentos para atenuar o caos na saúde, as idéias para diminuir o inferno diário dos congestionamentos. É para isso que estamos elegendo um prefeito. Um prefeito que tenha coragem de dizer que vai fazer, que tenha caráter de defender as suas idéias mesmo desagradando uma parcela de eleitorado.

São Paulo merece mais.