Mesmo após o apito do ombudsman da Folha, que mostrou a verdadeira campanha eleitoral contra Marta realizada no jornal na última semana, o editorialista Fernando de Barros decidiu aportar seu toque pessoal, na sua coluna de hoje.
Sendo um dos responsáveis do apedrejamento público da Marta e particularmente da campanha vil de exploração da vida privada feita contra nós pela Folha, o homem não se dá por aludido e sem pestanejar atribui a outros “a carga pesada de truculência sexista contra a candidata”.
Vou repetir, foi a Folha de São Paulo quem incentivou permanentemente uma campanha de exploração da vida privada da Marta, a começar pela ação conjunta realizada pela Folha e Claudio Humberto nas páginas do jornal onde trabalha Fernando de Barros. (ver A Folha e a nossa vida privada).
A carga de hoje
Fernando de Barros age como aqueles machistas que atribui à saia curta da mulher, ao jeito de se maquiar, ao horário em que estava na rua, às “razões” pela qual foi estuprada. Até recentemente juízes assim discursavam e julgavam, considerando que o criminoso encontrava circunstâncias atenuantes no comportamento da vítima.
Vejam só, para Fernando de Barros, (Marta) “Se diz vítima das invasões bárbaras da mídia em sua vida pessoal, mas, prefeita, não hesitou em fazer de seu casamento um circo espalhafatoso para consumo das revistas de celebridades.”
O editorialista diz que ela se diz vítima, mas a culpa é dela mesma.
Quem é você para emitir um julgamento sobre nosso casamento? Se ser casado e ter filhos não é algo que diga respeito a vida pública de ninguém, porque as páginas do seu jornal dedicam e dedicaram tanto espaço para nosso casamento, apresentado como um circo, ao nosso relacionamento, a separação da Marta etc.?
Na época de nosso casamento Fernando de Barros já tinha escrito algo semelhante, porque recusamos os insistentes pedidos da Folha para “cobrir” nossa festa, da qual a mídia foi excluída. O desejo da Folha em tratar de nossa vida privada era tão forte, que até tentou infiltrar um repórter disfarçado de motorista, que, descoberto, foi posto para fora.
O circo foi montado pelos Fernandos de Barros que permanentemente expõem a vida privada de alguns e reivindicam para eles este direito, com o pretexto da transparência supostamente devida pelas figuras públicas aos cidadãos. Os mesmos que nada disseram ou escreveram sobre a vida pessoal de Fernando Henrique Cardoso e de outros, nunca mostraram o mesmo “pudor” com a vida pessoal da Marta. Nós fomos vítimas da invasão permanente de nossa privacidade e o “estuprador” foi a Folha. O “pretexto” -a nossa “saia curta”-, foi a separação da Marta e nosso relacionamento. (Contardo Calligaris interpretou na época o significado psicoanalitico desse apedrejamento, falando dos comentários na cidade, mas era a Folha a que dava uma expressão mídiatica e política a eles) (2)
Dias antes do nosso casamento a Folha chegou a publicar um editorial, sob o título “O show da Marta” em que dizia “O próximo ato do show promete ser a festa de casamento com Luis Favre, tendo como padrinhos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho.” (Editorial Folha SP 15/9/2003).
Até hoje Fernando de Barros não engoliu nossa recusa em dar a Folha entrevistas sobre nosso casamento e fotos exclusivas da cerimônia, como eles queriam. Nossa recusa tinha uma motivação central: de todos os jornais e revistas do Brasil, a Folha foi a que mais explorou politicamente contra nós, nossa vida pessoal. Dezenas de artigos, notas, coberturas, destaques, encontraram na Folha o eco generoso para espalhar e explorar nossa vida privada. (teve até a publicação de uma carta no Painel de Leitor da Folha propondo que Marta fosse excomungada) (1)
Por isso, aceitamos a solicitação do Diário de São Paulo e da revista Caras para publicamente falar de nosso casamento, sem dar margem a sacanagem do jornalismo marrom e obter um mínimo de decência na abordagem inevitável que a mídia faria de nosso casamento. Com Caras tínhamos a certeza que a cobertura seria estilo Caras; com a Folha a certeza do tratamento estilo Claudio Humberto.
O comercial com o “significado” da Folha
A má fé de Fernando de Barros é escancarada quando diz, falando do comercial “Diferentemente do “relaxa e goza”, um deslize verbal desastroso, aqui se tratou de uma ação deliberada.”
A frase infeliz da Marta, amplamente difundida, usada e reprisada, foi dela própria e meia-hora após pronunciada, as desculpas da própria Marta deveriam ter posto um ponto final ao episódio. A mídia viu uma oportunidade de destruir a vida política de Marta e usou e abusou da propagação da frase, não das desculpas. (basta ver como foi o tratamento dado pela mesma mídia ao truculento ataque de Kassab a um munícipe, ao grito de “vagabundo”).
O comercial de João Santana visava, segundo ele diz na entrevista à Folha, a mexer com o fato que as pessoas não sabem quem é Gilberto Kassab. Antes do primeiro turno, comercial de Alckmin tentou fazer o mesmo dizendo que Kassab era “dissimulado” e tinha “duas caras” e depois se apresentando com sua esposa e filhos. Porque a Folha não viu nisto uma incursão inaceitável com insinuações sobre a vida pessoal de Kassab e da Marta e não fez a mesma campanha?
A mídia não atribuiu nenhum significado particular, nem qualquer insinuação na campanha de Alckmin. Já com o comercial da campanha do PT a mídia diz que procurava explorar a suposta homossexualidade do prefeito. Este significado, foi a mídia que incorporou ao comercial, propagando-o como tal.
Perante essa interpretação e tendo a mídia incorporado esse significado ao comercial, Marta, que não tinha visto o comercial e que seria a última pessoa neste país a explorar a orientação sexual de alguém, declarou que lamentava que esta tivesse sido a leitura do comercial e ele foi retirado.
O charuto da Folha
Sigmumd Freud, o pai da psicanálise, diz que “as vezes um charuto é só um charuto”. Para a Folha, parafraseando Freud, quando se trata do PT “um charuto nunca é um charuto”. Já com os que a Folha protege: “um charuto sempre é um charuto”. Esse duplo tratamento, essa dupla moral e esse duplo linguagem é o da Folha e seus escribas. Talvez por isso a projetem nos outros.
A Folha, que permanentemente incursionou ou deu eco a questionamentos sobre a vida sexual, afetiva, a separação, o divórcio e o casamento da Marta vem posar de vestal?
Nossa vida privada permanentemente exposta nas páginas da Folha forneceu os temas amplamente explorados pelos demo-tucanos na ação política (paródia de nosso casamento com dois travestis na porta da Câmara Municipal, afirmação que a lei que autorizava a contratar estrangeiros no serviço público municipal visava a assegurar um emprego para o conjugue da Marta, sabe… a lei 69; Documento do site da Direção Nacional do PSDB “Dona Marta e seus dois maridos”, insinuações caluniosas sobre minha participação no governo da minha esposa etc.).
Em todos estes episódios de explicita, aberta e ativa utilização da nossa vida pessoal com objetivo político, Fernando de Barros, os outros vestais da Folha nada enxergavam que os incomodasse.
A hipocrisia é tamanha que basta constatar: se a questão da orientação sexual do prefeito não interessa ninguém, como eu penso e a Folha pretende, porque a Folha faz questão de por na capa a afirmação de Kassab que tem muita mulher querendo casar com ele? Porque encaminhar dentre tantas perguntas justamente aquela que questiona kassab sobre se é ou não homossexual, e dar destaque no jornal para sua negação?
Luis Favre
(1) Casamento da prefeita
“O divórcio, após quase 40 anos de matrimônio, do senador Eduardo Suplicy e o casamento com Luis Favre poderão acarretar à prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, a excomunhão pela Igreja Católica. O comportamento da prefeita, que se define como católica, em relação a valores fundamentais para o catolicismo (como aborto e união de homossexuais) sempre bateu de frente com o magistério da igreja. O novo casamento constitui escândalo enquadrado por norma (cânon 1.364) do Código de Direito Canônico, que estabelece a excomunhão. Lembro que toda sanção tem, na igreja, a função de remédio e não visa afastar do amor de Deus o católico que errou. É uma tentativa de trazer seus filhos de volta à casa do Pai, onde se encontram a verdadeira felicidade e a vida sem fim.”
Francesco Scavolini, especialista em direito canônico e conselheiro do Comitê dos Italianos no Exterior em São Paulo (Itu, SP) (Painel do Leitor – Folha SP 22/8/2003)
(2) CONTARDO CALLIGARIS
Marta Suplicy e Luis Favre: por que tanta zombaria?
Desde o começo do namoro de Marta Suplicy e Luis Favre, em 2001, é fácil ouvir comentários zombadores. O casamento, no sábado passado, reavivou a produção.
Espírito partidário à parte, qual é a origem dessa reprovação, engraçada ou raivosa que seja?
1) Em 2001, Marta tinha mais de 50 anos, era ex-deputada federal, prefeita, casada com um senador da República. Por seu trabalho passado, ela representava também um certo ideal de sabedoria nas coisas do amor.
Ora, quem é mais velho, nos governa e parece mais sábio que a gente é automaticamente colocado, por nossa imaginação, na categoria dos “adultos”, inaugurada pelos pais que tivemos ou teríamos gostado de ter. E, banalmente, as crianças não gostam que os pais se separem. Por exemplo, temem ser abandonadas: se eles pensam em seus amores, como é que vão se ocupar direito da gente?
Tradução dessa preocupação infantil, desde 2001 vozes nos bares e nos jantares paulistanos perguntavam: enfim, Marta vai governar ou namorar?
2) A idéia de que governar e namorar sejam alternativas excludentes se apóia também na convicção de que o poder deve ter um preço. Quer governar? Tudo bem, mas esqueça amores e paixões, deixe para depois, sacrifique-se.
É uma convicção que nos consola. Pois confirma que há uma razão pela qual não somos prefeitos, presidentes, governadores ou mesmo vereadores; é porque preferimos cuidar da vida: namorar, por exemplo.
O governante infeliz apazigua nossa culpa cívica. E o governante que não pretende desprezar seus sentimentos está querendo demais.
Marta, porta-voz há tempos do direito à busca da felicidade privada, não tinha como namorar de fininho. Declarou que uma prefeita feliz governa melhor. Muitos teriam preferido ouvir que governar custa caro e implica a renúncia aos prazeres do amor.
3) Os compromissos, a distância geográfica, o momento inoportuno, tudo conjurava, na história de Marta e Luis Favre, para que fosse sensato desistir. Eles escolheram um caminho árduo.
As histórias de amor dificílimas, a gente adora no “Aguenta Coração”, do Faustão, em que elas valem como fragmentos de novela, ficções com as quais sonhar. Muito mais difícil é apreciá-las na realidade.
Em geral, em matéria de amor, somos ousados apenas nos devaneios literários. Consequência: a história real de Marta e Luis suscita nostalgias de paixões renunciadas, levanta a inveja de quem não sabe ou não soube ousar.
4) Em 2001, ouvi dizer: “Se ela não fosse prefeita, o cara nem a cumprimentaria”. Favre seria um caçador de dote político, interessado no cargo de “príncipe consorte”. No domingo passado, um taxista comentou: “Se Marta não se reelege, o homem cai fora”.
De fato, o futuro político de Marta não depende de sua reeleição. Mas o que importa aqui é a idéia de que Favre estaria gostando da prefeita, e não da Marta.
É uma velha história: imaginamos que deveríamos ser amados por alguma essência de nosso ser. E amar “de verdade” seria gostar do outro, mesmo que ele não tivesse a profissão, o lugar social e a história que o tornaram quem ele é.
Como Favre amaria uma Marta “essencial”, que não é prefeita, não foi deputada, não foi sexóloga e não fez uma escolha política na contramão de seus privilégios de nascença? Quem seria essa pessoa? Reciprocamente, como Marta amaria um Favre “essencial”, que não seria franco-argentino e ex-trotskista?
Não somos essências, mas pacotes complexos. Amamos e somos amados com as mãos cheias das tralhas que acumulamos em nossas vidas prévias.
5) O comentário segundo o qual Favre desejaria não Marta, mas a prefeita, também subentende que Marta não seria desejável. O que é curioso: afinal, talvez Favre seja um “gato”, mas Marta é uma mulher bonita.
Claro, vale o preconceito trivial sobre sexo depois dos 50, que não é muito diferente da expectativa de que a mãe (ainda mais a avó), não podendo ser virgem, seja casta.
Mas não é só isso. A idéia de que a prefeita não seria amável como mulher está a serviço de outro preconceito, segundo o qual a feminilidade não condiz com a autoridade de quem governa.
Acontece assim que, quando Marta escolhe uma roupa, uma maquiagem ou um corte de cabelo, chega o deboche: a prefeita é uma perua.
Perua seria a mulher que só pensa em agradar ao desejo masculino. A denominação satisfaz a boa consciência machista, pois parece inspirada por um feminismo militante: olhe só, debochamos da feminilidade “alienada” das mulheres que se enfeitam.
Nota: uma parte relevante do movimento feminista (as “pro-sex feminists”) reivindica os apetrechos tradicionais da feminilidade. É um jeito de afirmar que a mulher liberada não precisa ser passiva e recatada nem vergonhosa de seu desejo ou de sua vontade de ser desejada. Ou seja, nem sempre a cinta-liga é marca de domínio.
Em suma, se Marta escolhe uma roupa sexy de Nina Ricci para seu casamento, é peruagem? Ou é possível que uma mulher seja prefeita sem deixar de ser feminina?
Enfim, a Marta Suplicy e a Luis Favre, sem ironia, desejo um casamento feliz. (Folha Sp 25/8/2003)
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