07/07/2009 - 08:59h A retomada econômica e os iates de luxo

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Gilles Lapouge * – O Estado SP

Não se sabe se a retomada econômica é para hoje ou amanhã. Alguns políticos acham que ela se aproxima, mas os melhores especialistas da Europa, reunidos em Aix, jogaram um balde de água gelada nos otimistas: em um ano, o desemprego aumentou 40% nos países ricos. De 2007 a 2010, esses países terão 26 milhões de desempregados a mais. Como esperar uma retomada diante disso?

Mas o economista Olivier Jay destaca três “boas notícias”: os Estados Unidos, a China e o Brasil. Na sua opinião, os EUA já estão saindo do precipício, mas parece que ele é o único que pensa assim. As duas outras boas notícias são mais fundamentadas: a China resiste. “E o Brasil é a grande surpresa”, diz. “Sua economia se sustenta graças à combinação de um rigor orçamentário e uma política social-democrata de apoio à renda”.

Dentro de um mês, vai se realizar em Cannes a 32ª feira de iates de luxo. É um dos eventos mais seletos das fortunas mundiais. Luxo, esbanjamento, insolência e frivolidade se comprimem no cais de Cannes.

Mas será que os bilionários vão se precipitar a Cannes, como ocorre sempre? Chegou-se a temer que ela seria anulada, pois o mercado de barcos de luxo despencou de 50% para 60% em 2009.

Mas, após muita hesitação, o Salão vai ser aberto na data prevista. Só que, pela primeira vez, os bilionários se fazem de rogados. Houve duas hecatombes no círculo dessa gente riquíssima. Os primeiros a serem atingidos pela crise foram os russos e ucranianos. Portanto, nada de russos este ano. Há alguns anos eles eram os principais interessados, e competiam pela compra do barco mais incrível.

No lugar deles, os organizadores estão de olho nos italianos e nos franceses. O que prova a que ponto chegou o pessimismo. Claro que na França e na Itália, como na Rússia, nos Estados Unidos e no Brasil, existem fortunas fabulosas. Mas este ano, os ricaços estão se escondendo. E compreende-se: há seis meses os luxuosos patrões franceses estão despedindo muitos dos seus empregados, fechando ou transferindo suas fábricas, pedindo ajuda do Estado. Seria chocante se, ao mesmo tempo, fossem vistos na esplanada de Cannes comprando iates de marajás.

Acredita-se, assim, que o Salão será menos frenético. Certamente lá poderão ser vistos belíssimos iates. Mas no geral a principal atração do evento é o desfile de bilionários em visita a esses fabulosos barcos. Ocorre que neste ano eles estão receosos. Mesmo se comprarem um barco, o farão às escondidas. Estão discretos, tímidos. É o cúmulo! A organização do Salão em Cannes já preveniu oficialmente: “este ano será impossível vê-los. Eles chegarão de helicóptero ao ponto mais próximo do pontão. Visitarão o barco que pretendem comprar e em seguida partirão”. Talvez até alguns desses compradores se disfarcem de mendigos, para não serem linchados.

É o mundo ao reverso: quando alguém adquire um barco de 200 milhões, é para deixar claro que pertence ao “jet set” planetário. Mas que prazer terá em desembolsar esse dinheiro, se não vai conseguir provocar inveja nos amigos?

A crise pelo menos teve esse efeito estranho, mas talvez saudável: criou um novo modelo de bilionário: o bilionário recatado.