25/09/2012 - 18:27h Brasil atingiu em 2011 a menor desigualdade social da história

A Década Inclusiva (2001-2011): Desigualdade, Pobreza e Políticas de Renda

IPEA

Desigualdade – De acordo com a PNAD, a desigualdade de renda no Brasil vem caindo continuamente desde 2001. Entre 2001 e 2011, a renda per capita dos 10% mais ricos aumentou 16,6% em termos acumulados, enquanto a renda dos mais pobres cresceu notáveis 91,2% no período. Ou seja, a do décimo mais pobre cresceu 550% mais rápido que a dos 10% mais ricos. Os ganhos de renda obtidos aumentam paulatinamente, na medida em que caminhamos do topo para a base da distribuição de renda.

Segundo a Unesco, dois terços dos países do mundo vivenciaram aumento de desigualdade no período recente. A exceção são os países da América Latina, o continente com maior desigualdade, onde a mesma apresenta tendência de queda generalizada no período. Nos demais BRICS, a desigualdade, embora mais baixa, subiu entre 2000 e 2007. O crescimento da renda dos 20% mais ricos no Brasil foi inferior ao de todos os BRICS, enquanto o crescimento de renda dos 20% mais pobres supera o de todos os demais, com exceção da China.

Desigualdade Horizontal – A mediana de renda no Brasil cresceu 63,61%, quase duas vezes mais rápido que os 32,2% da média de renda na década passada, o que é uma medida da magnitude da redução de desigualdade observada.

Se a média esconde tanto quanto revela, a desigualdade de renda pessoal mensurada pelas medidas tradicionais acaba fornecendo uma visão impessoal, se abstraindo da face humana que é possível de ser enxergada pelas pesquisas domiciliares. Mais diretamente, como foi o crescimento da renda per capita mediana entre pessoas de diferentes segmentos da sociedade brasileira como grupos de educação, idade, raça, região, etc?

No caso das pessoas que vivem em famílias chefiadas por analfabetos, a renda sobe 88,6%, vis-à-vis um decréscimo de 11,1% daquelas cujas pessoas de referência possuem 12 ou mais anos de estudo completos.

A renda do Nordeste sobe 72,8%, contra 45,8% do Sudeste. Similarmente, a renda cresceu mais nas áreas rurais pobres, 85,5%, contra 40,5% nas metrópoles e 57,5% nas demais cidades.

O conceito de renda domiciliar per capita elimina, por construção, toda a desigualdade existente entre diferentes membros de uma mesma família. Apesar deste efeito suavizador por características individuais, no âmbito domiciliar per capita algumas delas apresentam mudanças significativas. Senão, vejamos.

A renda daqueles que se identificam como pretos e pardos sobe 66,3% e 85,5%, respectivamente, contra 47,6% dos brancos. A renda das crianças de 0 a 4 anos sobe 61%, contra 47,6% daqueles de 55 a 59 anos.

Incidentalmente, estes eram no começo da década passada os extremos da renda por faixa etária. Ações como o Bolsa Família e o Brasil Sem Miséria ajudam a entender este resultado.
Os setores de atividade mais dinâmicos ainda em termos de renda mediana per capita de todas as fontes acima da média incluem aqueles que abrigam a parcela mais pobre do país, como o de empregados agrícolas, de serviços domésticos e não remunerados, cujas rendas sobem na década, 86%, 62,4% e 60,3%, respectivamente.

De maneira geral, a renda de grupos tradicionalmente excluídos que tinham ficado para trás foi a que mais prosperou no período. Em particular, negros, analfabetos, crianças, nordestinos, moradores do campo – foi onde a renda cresceu mais no século XXI.

Gini – A fim de melhor sintetizar o conjunto das mudanças distributivas observadas, focamos inicialmente a análise do índice de Gini, que é uma medida menos intuitiva, porém mais abrangente da evolução da desigualdade.

O Brasil atingiu em 2011, pela PNAD, seu menor nível de desigualdade de renda desde os registros nacionais iniciados em 1960. Na verdade, a desigualdade no Brasil permanece entre as 15 maiores do mundo, e levaria pelo menos 20 anos no atual ritmo de crescimento para atingir níveis dos Estados Unidos, que não são uma sociedade igualitária. Porém, isso significa que existem consideráveis reservas de crescimento pró-pobre, que só começaram a ser exploradas na década passada.

Causas da Equidade – A inédita redução da desigualdade observada na década passada pode ser decomposta pelas diversas fontes de renda captadas pela PNAD e retrabalhadas da seguinte forma: Trabalho (58%), Previdência (19%), Bolsa Família (13%), Benefício de Prestação Continuada (BPC1 4%) e Outras

Rendas (6%) como aluguéis e juros. Ou seja, a maior parte da queda da desigualdade se deveu ao efeito da expansão trabalhista observada, o que confere sustentabilidade ao processo redistributivo assumido. Sem as políticas redistributivas patrocinadas pelo Estado brasileiro, a desigualdade teria caído 36% menos na década.

As fontes de renda especificadas acima, conforme seu papel relativo na redução da desigualdade observado, na década, podem ser avaliadas também pelo seu impacto na renda média, para que tenhamos condições de avaliar o montante de recursos envolvidos em cada uma delas: Trabalho (76%), Previdência (21%), Bolsa Família (2%), Benefício de Prestação Continuada (BPC 2%) e Outras Rendas (-3%).
Notem que uma vez que as transferências públicas, como BPC, Bolsa Família e Previdência correspondem a recursos saídos dos cofres federais, pode-se avaliar a efetividade relativa em termos do impacto de cada real aplicado na queda de desigualdade obtida, ou alternativamente o seu inverso. Numa ótica de políticas públicas, a combinação das duas óticas supracitadas, quais sejam a importância relativa de cada fonte de renda na renda e na desigualdade, nos possibilita gerar uma medida útil para análise da relação custo fiscal/benefício social medido em termos de ganhos de equidade observados. Estas razões assumem diferentes valores para diferentes fontes de renda, como Previdência (1,15), Benefício de Prestação Continuada (0,504) e Bolsa Família (0,25). Ou seja, cada ponto percentual de redução de desigualdade na década custou 129,4% mais pelas vias dos aumentos da previdência social do que do BPC. Se todos os recursos adicionais pudessem ser canalizados para o BPC, ao invés de previdência, sob o mesmo impacto distributivo, a desigualdade teria caído 129% mais do que pela alocação escolhida.

Similarmente, a relação custo fiscal/benefício distributivo do Bolsa Família, que é pouco menos da metade da observada no BPC no período 2001 a 2010, implicaria efeitos dobrados se fosse o canal utilizado e a performance relativa mantida. Ou seja, por transitividade os impactos do Bolsa Família produziriam impactos 362,7% maiores que no caso da previdência social se a mesma relação técnica ao longo da década pudesse ser mantida.

Mais interessante ainda é comparar os resultados para as rendas com e sem as transferências do PBF de medidas com diferentes sensibilidades à , como aquela proposta por Atkinson (1970). Quanto maior o grau de aversão à desigualdade, maior o impacto do PBF. Se a aversão for baixa, os resultados são quase idênticos com e sem o PBF: no período 2001-2011 a presença do PBF só diminui a perda de bemestar em mais 0,2 ponto percentual. Se a aversão for média, a diferença já é expressiva: o PBF causa uma melhora adicional de 1,3 ponto percentual. Se a aversão for alta, então quase toda a diminuição da perda pode ser atribuída ao PBF: a melhora de 9,4 p.p. cairia para apenas 1,9 p.p. se o PBF não existisse.

Pobreza – Como consequência da manutenção do crescimento com redução da desigualdade, a pobreza mantém um contínua trajetória decrescente, que vem desde o fim da recessão de 2003 independentemente da linha de pobreza e da medida usada. Olhando para a década como um todo, se usarmos a medida utilizada no programa Bolsa Família mantida em termos reais ou as linhas internacionais de pobreza e de extrema pobreza das metas do milênio da ONU, todas caíram mais de 55% entre 2001 e 2011. Desta forma, o Brasil cumpriu o compromisso de um quarto de século em um decênio. Ou seja, se fez mais que o previsto para 25 anos em menos de 10 anos.

Causas Imediatas da Redução da Pobreza – A redução de pobreza experimentada de 57,5% na década permitiu ao Brasil fazer mais do que a queda à metade pactuada com as metas do milênio da ONU, e em menos tempo. Esta queda de pouco mais de metade, cerca de 52%, foi provocada por mudanças na desigualdade de renda, sendo o restante explicado pelo efeito crescimento puro. Sem essa redução da desigualdade, a renda média precisaria ter aumentado quase 89%, em vez dos 32% observados entre 2001 e 2011, para que a pobreza tivesse a mesma queda.

Elegibilidade ao PBF – Os números relativos confirmam que a progressiva expansão do PBF e o próprio crescimento econômico foram capazes de reduzir substancialmente os erros de exclusão. Enquanto o percentual de famílias beneficiárias subiu de 12% para 18% das famílias brasileiras, o de famílias elegíveis não beneficiárias caiu de 7% para 3%. Já as famílias não elegíveis têm oscilado em torno de 80% do total. De qualquer modo, diminuir ainda mais esses erros de exclusão parece ser fundamental para o sucesso no combate à pobreza e à desigualdade.
Década de 2010 – Completamos a evolução das séries até agosto de 2012 por meio da Pesquisa Mensal do Emprego (PME/).

Média de Renda – Entre maio de 2002, próximo ao início das novas séries da PME, até maio de 2008, antes da crise , a renda per capita real PME cresceu 2,7% ao ano. Daí, até maio de 2009 avança 0,5% no ano (função da crise internacional de 2008). De maio de 2009 em diante, o crescimento da renda média acelera e depois desacelera. Quando consideramos os 12 meses compreendidos entre maio de 2011 e maio de 2012, o crescimento é de 6,5%. Por fim, os resultados que já estão disponíveis até agosto deste ano, mostram crescimento de 4,6% em oito meses, quando comparado ao mesmo período do ano anterior.

Desigualdade – As quedas da desigualdade medidas pelo índice de Gini seguem em linhas gerais os movimentos da renda média, caindo à taxa de 1,5% ao ano de maio de 2002 a maio de 2008, pré-crise,
3 Se usarmos linhas mais baixas e medidas de pobreza mais sensíveis aos mais pobres, o papel da desigualdade no período seria ainda maior.

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1 O programa BPC volta-se para idosos acima de 65 anos e pessoas com deficiência, ambos de baixa renda, em que o critério é de renda familiar per capita inferior a ¼ de salário mínimo. O valor transferido corresponde a um salário mínimo que pode ser acumulado entre beneficiários de uma mesma família, ao contrário do Bolsa Família. Desta forma, o BPC é outro canal de impacto da política de reajuste do salário mínimo.

19/07/2012 - 01:13h Emprego com carteira sobe mais na construção

Número de trabalhadores formais no setor quase dobrou entre 2003 e 2011, segundo dados do IBGE

Ana Carolina Negri/Valor / Ana Carolina Negri/Valor
Antonio Ramalho: “O pedreiro aceitava trabalhar informalmente, mas agora houve uma conscientização”


Por Carlos Giffoni | VALOR

De São Paulo

A construção civil viveu um boom de formalização ímpar no mercado de trabalho brasileiro nos últimos nove anos. O número de trabalhadores com carteira assinada cresceu 95,2% entre 2003 e 2011. No mesmo período, na média dos demais setores, a população ocupada com carteira cresceu muito menos – 48,2%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A falta de mão de obra no setor fez com que empresas tomassem iniciativas para reter seus trabalhadores e, a mão de obra, ciente da sua valorização, passou a exigir maiores benefícios.

Em 2003, 4,8% dos trabalhadores com carteira assinada atuavam na construção civil, de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego (PME). No ano passado, esses trabalhadores representavam 6,3% do mercado de trabalho formal das seis regiões metropolitanas contempladas pela pesquisa. Apesar de o setor ainda ocupar um pequeno espaço no estoque de vagas, esse aumento de 1,5 ponto percentual representou 337 mil funcionários com carteira assinada a mais na construção civil (alta de 95,2%). Na indústria, o número de trabalhadores formais cresceu 28,5% entre maio de 2003 e maio de 2012 e, no comércio, 47%. No mesmo período, a população ocupada cresceu apenas 21,3%, chegando a 23 milhões em maio.

A redução do nível de atividade das incorporadoras imobiliárias ainda não teve reflexo no emprego, que cresce com ajuda das obras relacionadas ao setor público. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a geração líquida de vagas na construção civil aumentou 30,4% de janeiro até maio deste ano, na comparação com igual período de 2011 – o saldo é de 192,9 mil trabalhadores formais incorporados ao setor nos primeiros cinco meses de 2012. Nesse período, o emprego na construção civil cresceu mais que em outros setores da economia e ganhou participação no mercado de trabalho formal, representando 22% das 877,9 mil vagas criadas até maio no país. Em igual intervalo de 2011, a participação do setor foi de 12,6%.

“Quando têm boas perspectivas de crescimento, as empresas contratam mais com carteira assinada. A construção civil foi o setor que mais sentiu o estrangulamento de pessoal no passado recente, independentemente das incertezas quanto à atividade durante as crises internacionais”, diz Alexandre Loloian, economista da Fundação Seade.

Para Silvano Aragão, diretor de recursos humanos da construtora mineira Caparaó, a crise de 2008 trouxe efeitos positivos para o mercado de trabalho da construção civil no Brasil ao redirecionar o foco de investimentos no país. “Desde a crise, a construção civil passou a ser mais demandada. Muitos investimentos foram destinados à infraestrutura e construção com a queda da rentabilidade das ações”, explica.

Aragão diz que o aumento da demanda por obras expandiu a procura por trabalhadores e, consequentemente, os esforços das empresas para retê-los – implicando o aumento da formalização. “Antes, bastava colocar um anúncio em porta de obra que ‘chovia’ candidato. Muitas empreiteiras empregavam sem registro em carteira. Com o boom desse mercado, os trabalhadores viram a força que tinham e começaram a fazer exigências. O medo do desemprego desapareceu.” Ele explica que nesse momento as empresas começaram a expandir os benefícios como plano de saúde e auxílio alimentação, que incentivam o trabalhador a permanecer na empresa.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil em São Paulo (Sintracon-SP), Antonio Ramalho, acredita que a mão de obra ficou mais consciente. “O pedreiro aceitava trabalhar informalmente, porque achava que recebia mais sem carteira assinada, mas houve uma conscientização.”

No passado, não era raro que o trabalhador negociasse um salário “maior”, sem carteira assinada. Isso desonerava o empregador de impostos e benefícios obrigatórios. No entanto, para o presidente do Sintracon-SP, o salário absoluto maior é uma vantagem aparente. “O trabalhador informal perde as férias, o 13º salário, o fundo de garantia. É sempre ruim.”

De acordo com o IBGE, 1,8 milhão de pessoas trabalham na construção civil nas seis regiões metropolitanas englobadas pela PME. Foram criadas cerca de 325 mil vagas no setor desde 2003 – preenchidas em sua totalidade pelos novos 337 mil formalizados.

Apesar de a formalização ter avançado fortemente na construção civil nos últimos anos, o trabalhador com carteira assinada no setor privado ainda representa menos da metade da população ocupada no setor (40,1%, em maio), enquanto os sem carteira representam 16,6%. Um grupo representativo na construção civil é o de trabalhadores por conta própria que são 37,6% do total.

Entre 2003 e 2011, houve uma migração de trabalhadores sem carteira assinada (queda de 22 mil) para trabalhadores por conta própria no setor (aumento de 29 mil), segundo especialistas consultados. “Quando você libera o financiamento do FGTS para aquisição de material de construção, muitas pessoas viram nisso uma oportunidade de trabalhar por conta própria, já que a construção civil continua crescendo muito em todo o país”, diz Ramalho.

Loloian, da Seade, observa que as empresas também viram vantagem em se formalizar. “Houve um forte aumento no número de assalariados formais por conta da formalização obrigatória para as empresas que buscavam financiamento, com a série de aberturas de capital na bolsa nos últimos três anos”, diz.

O resultado da formalização na construção civil é visível não somente na disputa por mão de obra mas também na remuneração do setor. O salário de admissão no setor já é maior que na indústria de transformação. Segundo Aragão, da Caparaó, um pedreiro recebe cerca de R$ 1,2 mil por mês em Belo Horizonte. Somando as horas extras, sua remuneração mensal chega a R$ 2 mil. “A qualidade de vida dessas pessoas melhorou muito. Existe muito universitário que se forma na faculdade e começa ganhando menos no mercado de trabalho”, diz. No entanto, a PME já aponta que o rendimento médio real dos trabalhadores na construção civil tem recuado (3,2% na comparação entre os meses de maio de 2012 e do ano passado).

22/06/2012 - 09:14h Desemprego surpreende e cai a 5,8%


Caged, porém, apura menor saldo de vagas criadas para maio em 3 anos, 139.679 postos; diferença de metodologia explicaria divergência

22 de junho de 2012

DANIELA AMORIM / RIO – O Estado de S.Paulo

Duas pesquisas que medem o nível do emprego no País apresentaram resultados aparentemente contrastantes em maio. Enquanto os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego mostraram o menor saldo de vagas criadas para o mês desde 2009 – apenas 139.679 postos – a Pesquisa Mensal de Emprego, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, registrou número recorde de ocupados, com 22,984 milhões de pessoas.

As diferenças metodológicas entre as duas pesquisas podem explicar a diferença. O dados do Caged são fornecidos pelos empregadores em todo o País e reúnem apenas postos com carteira assinada. A PME é baseada nas informações dos próprios empregados e apenas em seis regiões metropolitanas do País, mas abrange todo o tipo de trabalho, inclusive o informal.

“Os dados da indústria e da agropecuária no Caged estão muito fracos, mas normalmente ficam fora das regiões metropolitanas. E a PME ainda capta mais os serviços, porque se concentram nas regiões metropolitanas. Há uma resistência ainda no emprego no setor de serviços”, explicou Rafael Bacciotti, economista da Tendências Consultoria Integrada.

A despeito do ritmo fraco da atividade econômica no País, a taxa de desemprego medida pelo IBGE recuou de 6% em abril para 5,8% em maio, o menor patamar para o mês desde 2002. O resultado intrigou economistas, que não esperavam fôlego na retomada das contratações num momento em que a economia patina, e ainda procuram explicações.

Produtividade. “Pode ser que a produtividade esteja caindo, que tenha que colocar mais gente para produzir a mesma coisa, ou que tenha mais gente trabalhando no setor de serviços”, avaliou Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central.

O aumento na renda real do trabalhador, impulsionado pelo reajuste do salário mínimo em janeiro, estimula a demanda por serviços, justamente o setor que aponta um saldo maior de vagas na PME. A renda média do trabalhador teve um aumento real de 4,9%, na comparação com maio de 2011. No mesmo período, houve aumento nas contratações nas atividades de educação, saúde e administração pública (217 mil novas vagas); outros serviços, que incluem hotel e recreação (140 mil vagas), e serviços prestados a empresas (176 mil vagas).

“Esse setor da economia está muito aquecido ainda. É só ver os dados da Pesquisa Mensal do Comércio, com alguns setores crescendo 6%, 7%, 8% em relação ao ano passado. É um negócio que se retroalimenta: aumento do pessoal ocupado e aumento da renda, consequentemente a expansão da massa salarial estimula a demanda por serviços e bens de comércio, e esses setores seguem aquecidos”, avaliou Rafael Bistafa, economista da Rosenberg & Associados.

Segundo dados do PIB divulgados pelo IBGE, o setor de Serviços cresceu 1,6% no primeiro trimestre de 2012, em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto o Consumo das Famílias avançou 2,5%. No mesmo período, a indústria ficou estagnada (0,1%).

Os dados se refletem no emprego industrial, caracterizado pela formalização da mão -de obra. A pesquisa do IBGE mostrou um corte de 51 mil postos de trabalho na indústria em maio, em relação ao mesmo mês de 2011. Entretanto, a troca do emprego na indústria por vagas no comércio e nos serviços pode ter reflexos no mercado de trabalho no futuro.

“Como o setor industrial é o que gera empregos com maiores salários, eventualmente essa destituição de empregos na indústria vai pesar no salário, que vai pesar na demanda dos outros setores da economia, e haverá uma reversão na taxa de desemprego”, alertou José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio e economista-chefe da Opus Investimentos.

08/06/2012 - 07:38h Trabalhador muda mais de emprego

Por Carlos Giffoni | VALOR

De São Paulo

O aquecimento do mercado de trabalho e a falta de mão de obra em alguns setores estão levando os trabalhadores a trocar mais de emprego. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o índice de pessoas que fica menos de um ano no emprego vem aumentando desde 2006. Por outro lado, cai o índice de profissionais que estão há mais de cinco anos no mesmo trabalho. Esse movimento é visível na taxa de rotatividade calculada pelo ministério, que aumentou cerca de 30% desde 2006.

Em 2011, 19,8 milhões de trabalhadores foram desligados (demitidos ou a pedido) e outros 21,8 milhões foram admitidos, indicando que 55% do total de vagas existentes no mercado de trabalho no final de 2010 “trocou” de ocupante ao longo do ano seguinte. Esse índice, conhecido como taxa de rotatividade, era de 42% em 2006.

Em abril de 2012, último dado disponível, 16,7% dos trabalhadores estavam no máximo há um ano no atual emprego (considerando a população ocupada em empregos formais). A fatia de profissionais nessa condição vem aumentando. Em 2006, eles eram 13,3% do total.

Fabio Romão, da LCA Consultores, acredita que a formalização do mercado de trabalho contribui para que esse resultado se acentue. “O aumento do emprego formal incorporou muitos trabalhadores nas estatísticas do MTE. E eles [os trabalhadores que foram formalizados ] normalmente estão há pouco tempo no emprego. Na maior parte, são pessoas de nível de instrução e qualificação mais baixos, o que, no passado, dificultava que elas tivessem a carteira assinada.”

Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de ocupação sem carteira de trabalho assinada no setor privado passou de 14,6% para 10,5% entre os meses de abril de 2006 e deste ano, enquanto os com carteira assinada, que representavam 41,7% dos ocupados, hoje são 48,9%, na mesma comparação.

O economista da LCA explica que a escassez de mão de obra em alguns segmentos do mercado de trabalho força o empregador a ocupar essas vagas formais com profissionais que, muitas vezes, não estão preparados para o cargo. “O empresário não tem escolha. Esse grupo de pessoas, que entra no mercado de trabalho formal, é o principal responsável pelo aumento da rotatividade”, diz Romão.

Para Romão, o setor de serviço doméstico no Brasil ilustra bem esse movimento. “O empregado doméstico claramente migrou para outros serviços. Existe a questão de status, mas, principalmente, esse profissional está buscando ter a carteira assinada, o que é raro nessa ocupação.” Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2009, do IBGE, apenas 26,8% dos trabalhadores domésticos eram formalizados.

Na outra ponta, cai o índice de trabalhadores que estão há mais de 60 meses no emprego. Em abril de 2006, eles eram 41,9% dos ocupados formais, segundo o MTE. Em abril deste ano, 36,4%. “É cada vez mais raro uma pessoa fazer carreira dentro da empresa. O funcionário sobe alguns postos e consegue migrar”, diz Luiz Scorzafave, professor da Faculdade de Economia da USP em Ribeirão Preto. Ele explica que um mercado de trabalho aquecido como o brasileiro permite que as pessoas estejam sempre atentas a novas oportunidades. “Baixo desemprego e pressão salarial aumentam a rotatividade.”

Entre abril de 2006 e igual mês em 2012, a taxa de rotatividade no mercado de trabalho no Brasil cresceu 29,5%. De acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em abril deste ano, 4,13% do total de 38,3 milhões de vagas formais passaram por um “rodízio” de profissionais nesse período – um trabalhador saiu e outro o substituiu. Em abril de 2006, essa “troca” envolveu 3,2% das vagas.

Correr esse risco depende do cenário macroeconômico, na avaliação de Scorzafave. “A alta rotatividade tende a se acomodar de acordo com a economia do país. Quando o desemprego começa a crescer, as pessoas param de trocar de emprego”, diz.

A alta rotatividade de um trabalhador pode dificultar a sua ascensão no emprego. Isso ajuda a explicar como é na mão de obra menos qualificada – e que recebe menores salários – onde se concentra a maior parte desse rodízio. Está aumentando a fatia de trabalhadores que ganha até dois salários mínimos entre aqueles que ficam até 12 meses. Em abril deste ano, 86,5% dos trabalhadores que estavam há menos de um ano no trabalho se concentravam nessa faixa salarial.

Romão não descarta que a diferença entre gerações contribui para o aumento da taxa de rotatividade. “Quem entra no mercado de trabalho hoje não viveu um histórico de inflação alta e incertezas quanto ao futuro, isso acaba deixando a pessoa com mais disposição a arriscar”, explica.

O custo do trabalho tem aumentado não somente via salários, devido à escassez de mão de obra, mas também devido à alta rotatividade, para Romão. Ele explica que o empregador precisa gastar mais com treinamento e, em alguns casos, contrata pessoas menos aptas àquela atividade do que as que ocupavam os mesmos cargos anteriormente. “O custo do trabalho aumenta sem que haja ganho de produtividade”, explica.

Apesar de o emprego formal no Brasil mostrar uma evolução na taxa de rotatividade e de haver perda de participação daqueles que estão há mais tempo no mesmo emprego, a PME mostra um movimento diferente nas seis regiões metropolitanas analisadas pelo IBGE. Desde 2002, quando a série foi iniciada, verificou-se um aumento de 14,1% no tempo médio de permanência do trabalhador no mesmo emprego. Em abril deste ano, ele estava em 358,9 semanas (cerca de sete anos), resultado próximo ao recorde apurado em fevereiro deste ano, de 359,1 semanas.

Adriana Beringuy, técnica da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, acredita que a menor abrangência geográfica da pesquisa e a incorporação do trabalho informal na pesquisa explicam essa diferença entre os dados. “Os trabalhadores sem carteira assinada ou que não têm vínculo empregatício em regime de CLT, como quem trabalha por conta própria, somam 7 milhões entre os 22 milhões que compõem a população ocupada na PME. O aumento do tempo médio de permanência no emprego desses grupos, que não são considerados pelo Ministério do Trabalho, têm peso grande no resultado da pesquisa”, explica.

29/04/2012 - 12:32h Melhor, mas ainda carente

29 de abril de 2012

Editorial O Estado de S.Paulo

Redução recorde da taxa de mortalidade infantil – importante indicador da saúde e da qualidade de vida da população -, aumento do nível de instrução dos brasileiros, crescimento real dos rendimentos e redução da diferença de renda entre homens e mulheres, entre outras mudanças nas condições sociais e econômicas do Brasil constatadas pelo censo de 2010 do IBGE, mostram um país cada vez melhor. É preciso ressaltar, no entanto, que, apesar da melhora e do avanço da posição do Brasil na economia mundial, o quadro social continua acabrunhador, quando comparado com o de países ricos ou emergentes.

A notável evolução da taxa de mortalidade infantil no País entre 2000 e 2010 merece ser, ao mesmo tempo, comemorada e interpretada como uma advertência. Ela diminuiu de 29,7 mortes de crianças até 1 ano de idade por mil nascidos vivos em 2000 para 15,6 em 2010, uma redução de 47,5% – a mais acentuada em uma década desde que esses dados passaram a ser compilados pelo IBGE.

Os técnicos do IBGE atribuem a queda da mortalidade infantil a uma combinação de fatores, como a redução da taxa de fecundidade (número de filhos por mulher), as políticas de prevenção na área de saúde, a melhoria das condições de saneamento básico, o aumento da renda e a maior escolaridade das mães.

Se lembrarmos que, em 1960, a taxa de mortalidade infantil era de 131 óbitos por mil nascidos vivos, tem-se uma ideia de quanto o País evoluiu em 50 anos. Mas a taxa de 2010 mostra que o Brasil continua longe dos padrões dos países desenvolvidos, com 5 mortes por mil nascidos vivos – ou menos (Islândia, Cingapura e Japão têm taxas de cerca de 3 óbitos por mil) -, e pior do que a de países sul-americanos, como Argentina (13,4 por mil), Uruguai (13,1) e Chile (7,2).

Uma das mudanças demográficas mais notáveis constatadas pelo censo de 2010 foi na taxa de fecundidade, que passou de 2,38 filhos por mulher em 2000 para 1,90 em 2010, uma queda de 20,1% ao longo da década. A taxa de 2010 está abaixo do considerado nível de reposição, isto é, que mantém a população estável ao longo do tempo, de 2,1 filhos por mulher.

Quanto ao nível de instrução, o censo constatou que o porcentual de pessoas com mais de 10 anos sem instrução ou com o curso fundamental incompleto caiu de 65,1% para 50,2%. Apesar do avanço, ainda existe um imenso número de brasileiros com instrução insuficiente para desempenhar trabalhos com algum grau de complexidade, como os que são exigidos cada vez mais pelo mercado, à medida que o País se desenvolve.

Embora tenha se reduzido de modo acentuado o porcentual de pessoas com idade de 7 a 14 anos que não frequentavam escola (de 5,5% em 200o para 3,1% em 2010), continua alto o porcentual de pessoas com idade de 15 a 17 anos (16,7% do total em 2010). Isso mostra a existência de dificuldades para que muitos jovens consigam continuar estudando depois de completar 14 anos.

Quanto ao rendimento dos brasileiros, o censo mostra um avanço generalizado, com aumento da renda real média de 5,5% entre 2000 e 2010. A renda das mulheres cresceu bem mais (13,5%) do que a dos homens (4,1%), o que reduziu a diferença de ganhos por gênero. Mas ela continua alta: em 2010, o rendimento médio das mulheres correspondeu a 73,85% do ganho dos homens, contra 67,7% em 2000.

Um dado revelador das condições de vida dos trabalhadores nas cidades é o tempo médio gasto por eles entre a residência e o local de trabalho. Dos 86,3 milhões de brasileiros que se deslocam diariamente para trabalhar, 11,4% levavam mais de uma hora no percurso da casa ao trabalho. No Estado de São Paulo, de 14,6 milhões de trabalhadores que se deslocam para o trabalho, 44,6% gastavam mais de meia hora no trajeto. Se se considerassem os locais mais densamente povoados, como a Grande São Paulo e a capital, certamente a porcentagem seria bem maior, o que mostra a urgência da melhoria do sistema viário e de transportes para oferecer melhores condições de vida a seus moradores.

07/03/2012 - 18:09h Pobreza no Brasil caiu 7,9% em 2011

07 de março de 2012

MARIANA DURÃO – Agência Estado

O Brasil atingiu em 2012 o menor nível de desigualdade desde 1960, apesar da crise na Europa. De acordo com a pesquisa “De volta ao País do Futuro” do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (CPS/FGV), o índice de Gini – que varia de 0 a 1, sendo menos desigual mais próximo de zero -, caiu 2,1% de janeiro de 2011 a janeiro de 2012, chegando a 0,5190.

A projeção da FGV é que a desigualdade continue se reduzindo ano País, levando o índice a 0,51407 em 2014. “A má notícia é que ainda somos muito desiguais e estamos entre os 12 países mais desiguais do mundo. Mas a queda é espetacular e deve continuar”, afirmou Marcelo Neri, coordenador da pesquisa.

A FGV mostra que a renda familiar per capita média do brasileiro cresceu 2,7% nos 12 meses encerrados em janeiro. É o mesmo crescimento registrado de 2002 a 2008, período considerado uma era de ouro mundial, e superior ao 0% de 2009, em função da crise financeira daquele ano.

A pobreza no País também caiu entre janeiro do ano passado e janeiro deste ano: -7,9%, ritmo três vezes mais rápido do que da meta do milênio da ONU. Isso depois de uma redução de 11,7% na pobreza de maio de 2010 a maio de 2011, quando o Brasil crescia mais.

Segundo Neri, a redução da desigualdade foi fundamental para este resultado na pobreza. Ele cita que na última década a renda dos 50% mais pobres do Brasil cresceu 68%, enquanto a dos 10% mais ricos cresceu apenas 10%.

Outra conclusão da pesquisa é que a população nas classes AB será 29% maior em dois anos, enquanto a da classe C crescerá 11,9%. “Agora falaremos da nova classe AB, como falamos da nova classe média”, disse Marcelo Neri, coordenador do estudo.

A projeção do CPS/FGV é que 60,1% da população brasileira estará na classe C em 2014, ante 55% em 2011. De 2003 a 2011, mais 40 milhões de pessoas chegaram à nova classe média e a expectativa é que serão mais 12 milhões até 2014, somando cerca de 118 milhões de pessoas. A metodologia da FGV, que leva em conta a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE, classifica como classe C aqueles com renda familiar de R$ 1.734 a R$ 7.475. O dado foi atualizado a preços de julho de 2011. A classe AB chegará a 29,1 milhões, contra 13,3 milhões de brasileiros em 2003.

Já a população da classe DE – com renda de zero a R$ 1.734 – seguirá se reduzindo, em consequência da queda da desigualdade e ascensão para outros segmentos econômicos. A FGV calcula que ela sairá dos atuais 63,6 milhões de brasileiros para 48,9 milhões em 2014. No ano de 2003, a base da pirâmide social brasileira tinha 96,2 milhões de pessoas.

“A crise não afetou esse movimento que teve Lula como pai e FHC como avô, pela estabilização. E a educação foi o fator mais importante (para essa migração)”, disse Neri. Para o pesquisador, o governo Lula teve sorte por ter enfrentado períodos de crise mundial quando a economia estava superaquecida. As crises, avalia, frearam a economia e a inflação antes do Banco Central agir. Apesar da redução da desigualdade e da pobreza, Neri é taxativo ao afirmar que ela não será erradicada em 2014, como promete o governo federal. “A pobreza não termina, apesar da meta nobre”, disse Neri.

01/02/2012 - 09:05h Indústria volta a crescer e retomada atinge 60% do setor

Por Arícia Martins | VALOR

De São Paulo

Depois de um resultado pífio em 2011, a indústria voltou a crescer no último mês do ano. Apoiada nos setores de bens duráveis e de capital, a produção industrial subiu 0,9% entre novembro e dezembro, feitos os ajustes sazonais, mas a melhor notícia no resultado foi o grande número de setores com resultado positivo – dos 27 ramos analisados pela Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 16 aumentaram sua produção no período (60% do total). O resultado foi visto por economistas como sinal de que, daqui para frente, o setor deve entrar numa trajetória de retomada lenta e gradual, após o ano perdido para a produção: a expansão foi de apenas 0,3% em 2011 na comparação com 2010.

Os principais entraves à indústria no ano passado, afirmam analistas ouvidos pelo Valor, foram o aperto do crédito, que reprimiu a demanda e provocou acúmulo de estoques, o câmbio valorizado, que favoreceu o consumo de importados, e a crise externa, que piorou na passagem do primeiro para o segundo semestre e afetou a confiança de consumidores e empresários. “O real valorizado durante a maior parte do ano favoreceu a presença de produtos importados de têxtil e calçados no mercado doméstico”, avaliou André Luiz Macedo, economista do IBGE.

Como o governo tomou medidas de incentivo à economia no fim do ano passado e o Banco Central está cortando os juros desde agosto, o consumo doméstico deve ser a base da recuperação da indústria em 2012, já que a

demanda externa e o câmbio não devem ajudar as exportações, dizem os economistas. Para alguns, a disseminação do crescimento no fim de 2011 reforça o quadro de otimismo para o começo deste ano.

Para Fernanda Consorte, do banco Santander, o dado de dezembro é o início de uma trajetória de ascensão da indústria, que está diminuindo seus estoques e deve apresentar taxas positivas ao longo do ano. “Não vai ser todo mês que a indústria vai crescer 0,9%, mas vai sempre registrar crescimento em relação ao mês anterior”, projeta ela.

Fernanda aponta que o avanço do setor de bens de capital no último mês do ano, cuja produção cresceu 3,7% frente a novembro, descontados os fatores sazonais, é um indício de que a confiança dos empresários está aumentando, o que resulta em produção maior mais à frente. O resultado foi influenciado pela aceleração na produção de caminhões em dezembro porque em janeiro entrou em vigor uma nova legislação de emissão de poluentes, mas também cresceu o indicador de bens de capital para uso industrial.

A categoria de uso que mais se destacou na passagem de novembro para dezembro foi a de bens duráveis, que cresceu 7% na série dessazonalizada. A redução do IPI para parte da linha branca aumentou a produção nesse segmento (6% sem ajuste sazonal), mas o setor de veículos automotores foi a principal influência positiva para o resultado geral, avaliam os economistas ouvidos. A indústria automobilística, que tem peso de 7% no indicador geral, registrou expansão de 5,2% no período, de acordo com o IBGE, nesse caso descontados os efeitos sazonais.

Segundo Thovan Tucakov, da LCA Consultores, ainda é cedo para concluir que a reversão parcial das medidas macroprudenciais já está soltando as amarras sobre o crédito e impulsionando a demanda, avaliação feita por Fernanda, do Santander. “A indústria responde rápido a isso”, afirma a economista, para quem a produção deve aumentar 2% este ano.

Se até agora os efeitos dos estímulos sobre a produção ainda não foram claros, pondera o analista da LCA, eles devem aparecer com mais força no segundo trimestre de 2012, quando a indústria já tiver concluído seu processo de ajuste de estoques e estiver pronta para atender o mercado doméstico, aumentando a atividade nas fábricas. Por outro lado, a demanda externa enfraquecida e o câmbio valorizado continuarão presentes em 2012, dificultando uma retomada mais forte da produção.

A LCA espera um câmbio médio em torno de R$ 1,70 em 2012, diante de R$ 1,67 registrado em 2011. “Não será do lado do câmbio que teremos alívio. Em um cenário de crise, os recursos continuarão sendo direcionados para países emergentes, que terão crescimento melhor do que economias maduras. Além disso, mesmo com o ciclo de redução de juros, o diferencial do Brasil em relação a outros países seguirá grande”, explica Tucakov, que prevê crescimento de 2,5% da produção este ano.

A MB Associados trabalha com um cenário um pouco mais pessimista para a indústria em 2012, sem esperar maiores efeitos da política econômica, comenta Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria. Para ele, uma retomada modesta do setor deve ocorrer somente no segundo semestre. “Esse 0,9% me parece mais um respiro de fim de ano. Há uma perspectiva complicada para o primeiro semestre, quando ainda continuaremos vendo números bastante fracos.”

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) viu com certo otimismo o resultado de dezembro, mas não aposta em um desempenho brilhante do setor em 2012, ano que será marcado pela volatilidade do câmbio e por nova onda de importações, segundo Rogério César de Souza, economista-chefe da entidade. “É um aumento de importados que não é para completar a produção nacional. É para tomar o lugar, mesmo.” (Colaborou Diogo Martins, do Rio)

20/07/2011 - 09:22h Desemprego recua para 6,2% e é o menor desde o início da série

Com massa salarial no nível recorde em junho, resultado reforça previsão de alta de 0,25 ponto na taxa Selic
20 de julho de 2011

Daniela Amorim / RIO – O Estado de S.Paulo

A taxa de desemprego no País teve leve recuo de maio para junho, de 6,4% para 6,2%, o menor nível para o mês desde 2002, quando teve início a Pesquisa Mensal de Emprego, apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado ficou no teto das expectativas do mercado, mas analistas ainda veem o emprego aquecido, o que reforça a previsão de alta de 0,25 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, na reunião de hoje do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.

A massa salarial paga aos trabalhadores brasileiros se manteve em nível recorde em junho, em R$ 35,6 bilhões, e o rendimento médio real subiu 0,5% ante maio, para R$ 1.578,50. Para o economista Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria Integrada, as variações expressivas tanto na renda quanto na massa salarial mantêm a incerteza sobre o cenário prospectivo de inflação.

“Apesar dos sinais de moderação, os dados referentes à ocupação formal, tanto da PME quanto do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) de junho, ainda reforçam a necessidade de cautela na condução da política monetária”, analisou Bacciotti, que prevê um aumento de 0,25 ponto porcentual na Selic em julho, agosto e outubro, para uma taxa de 13% ao ano.

Na avaliação do economista-chefe da Concórdia Corretora, Flávio Combat, a taxa de desemprego na mínima histórica e o aumento do poder de compra dos trabalhadores pesam sobre a decisão do Copom. “O Banco Central já demonstrou preocupação com o comportamento do mercado de trabalho e deve recorrer novamente a esse argumento para justificar a continuidade do aperto monetário”, disse Combat, que espera alta de 0,25 ponto porcentual na taxa de juros hoje e outro de 0,25 ponto na reunião de agosto.

A renda forte não evitou a queda de vagas nos grupos comércio e outros serviços – categoria que engloba alimentação, hospedagem, recreação e turismo, entre outros. O comércio perdeu 73 mil vagas no conjunto das seis regiões metropolitanas que compõem a pesquisa, enquanto o setor “outros serviços” teve redução de 46 mil vagas. “O resultado do comércio está ligado diretamente ao aumento do poder de compra, que eleva a ocupação. Mas não é isso que estamos vendo aqui. Temos de esperar mais um ou dois meses para entender o que aconteceu”, disse Cimar Azeredo, gerente da coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, reconhecendo que fatores externos podem estar restringindo o consumo.

Enquanto o emprego no comércio teve retração, a indústria criou 29 mil vagas em junho. O resultado foi puxado pela região metropolitana de São Paulo, onde o emprego industrial subiu 2,1% em relação a maio, com 41 mil novas vagas. A região também foi responsável pelo recuo nas vagas do comércio. O comércio paulista demitiu 67 mil empregados em junho e o setor “outros serviços” dispensou 11 mil pessoas.

País cria 1,4 milhão de vagas em 6 meses

Com isso, meta do governo de criar 3 milhões de vagas no ano fica mais difícil, já que o segundo semestre costuma ter resultado inferior

20 de julho de 2011

Célia Froufe / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

A meta do governo Dilma Rousseff de criar 3 milhões de empregos formais em 2011 está cada vez mais distante de ser cumprida. Na primeira metade do ano, tradicionalmente mais vigorosa para o mercado de trabalho, foram gerados 1,415 milhão de empregos com carteira assinada, segundo informou ontem o Ministério do Trabalho e Emprego.

O volume não chega à metade do objetivo pretendido e é inferior ao resultado de janeiro a junho de 2010, quando o saldo de vagas com carteira assinada foi de 1,634 milhão. Além disso, o segundo semestre tem o impacto negativo de dezembro, quando as demissões superam as contratações. Mesmo assim, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, se mantém irredutível. “Sou uma voz isolada, mas o segundo semestre será melhor”, prevê.

Lupi justifica seu otimismo com a expectativa de que o setor público contribuirá para o saldo na segunda metade do ano. Ele também espera a maturação de investimentos e disse acreditar que o Nordeste vai deslanchar na criação de vagas com carteira.

Conforme os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério atualizados ontem, o mercado segue absorvendo mão de obra, mas já não mostra o mesmo vigor de meses atrás. Em junho, as contratações superaram as demissões em 215,4 mil.

Além de ser um volume inferior ao de junho do ano passado (257 mil postos líquidos), é o segundo mês consecutivo em que é vista uma desaceleração do mercado – em abril, foram abertas 299 mil vagas e, em maio, 266 mil.

Para o economista do Banco Santander Cristiano Souza, o mercado segue aquecido, mas dificilmente o governo atingirá a meta de 3 milhões de empregos com carteira assinada. Principalmente se forem levados em conta a escassez de mão de obra e o papel do Banco Central (BC) de tentar equilibrar a economia, com ferramentas como a elevação dos juros.

“Sou cético de que chegará a 3 milhões de vagas, mas, mesmo que seja um pouco menos do que os 2,5 milhões de empregos criados no ano passado, são dois anos de crescimento”, analisa Souza. Para ele, o trabalho do BC dará respostas no terceiro trimestre e se consolidará de outubro a dezembro. “No fim do ano haverá desaceleração da atividade. Não dá para imaginar que não vai acontecer.”

Serviços. No acumulado até junho, o setor de serviços foi o que mais contratou com carteira, abrindo 564 mil vagas líquidas, um recorde para o setor. A indústria (262 mil postos) e o setor agrícola (235 mil) vieram atrás, seguidos da construção civil (186 mil) e comércio (121 mil).

A Região Sudeste ainda é o melhor lugar para se conseguir um emprego formal. De janeiro a junho, foram contratados 864 mil profissionais, já descontadas as demissões, com destaque para São Paulo, que teve um saldo líquido de 522 mil novas vagas.

O governo detectou ainda que o salário médio de admissão subiu 3,04% além da inflação do primeiro semestre de 2010 para a primeira metade deste ano, passando a R$ 900,70.

01/07/2011 - 09:38h Massa salarial ainda cresce 8% ao ano

Conjuntura: Crescimento é maior em serviços e na construção civil

Massa salarial sobe mais em setor que puxa a inflação

Sergio Lamucci | VALOR

De São Paulo

Os setores que têm influenciado mais a inflação também estão entre aqueles com maior aumento da massa salarial nos últimos 12 meses. A combinação de mais emprego e rendimento aumentou a massa de salários dos últimos 12 meses em 7,9% reais nas seis principais regiões metropolitanas, mas nos chamados outros serviços (que englobam atividades como alojamento e alimentação, transportes e serviços pessoais) a alta foi de 11,9%, e ficou em 10% na construção civil. No setor que inclui administração pública, educação, saúde e serviços sociais, entre outros, o crescimento também ficou acima da média e chegou a 8,5%.

O próprio aquecimento do mercado de trabalho ajuda a entender o que se passa com serviços. Com emprego e renda em alta, a demanda por essas atividades se mantém firme. Na construção, o momento ainda favorável do mercado imobiliário e, em menor medida, da infraestrutura explicam o bom resultado. O levantamento foi feito pela Tendências Consultoria a pedido do Valor, com base nos dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE.

Os números do IBGE mostram, contudo, que o melhor momento da combinação salários e emprego ficou para trás em setores importantes. É o caso da própria construção, que encerrou 2010 com alta real de 17,1% da massa salarial e agora cresce a um ritmo de 10%. O rendimento real no segmento aumentou 8,1% nos 12 meses até maio, depois de crescer 10,9% em 2010. A desaceleração é forte especialmente no nível de emprego, que viu sua taxa de expansão cair de 5,8% em 2010 para 1,8% nos 12 meses até maio.

No período mais recente, a desaceleração da massa salarial fica ainda mais clara. Em maio, o valor que chegou ao bolso dos trabalhadores nas seis principais regiões metropolitanas foi de R$ 35,1 bilhões, R$ 500 milhões abaixo do recorde atingido em outubro de 2010, já corrigido pela inflação.

O economista Sérgio Mendonça, do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), diz que é natural alguma acomodação da alta do emprego na construção depois do forte crescimento dos últimos anos. “Em São Paulo, por exemplo, muitos empreendimentos imobiliários foram concluídos recentemente”, diz ele, observando que o investimento do governo federal está mais contido em 2011. “No entanto, como continua a haver escassez relativa de mão de obra no setor, o rendimento ainda cresce a uma taxa expressiva”, diz. Em São Paulo, os trabalhadores da categoria conseguiram em maio um reajuste real de 3,4%.

Já os chamados outros serviços mostram um desempenho bastante robusto. Nos 12 meses até maio, a alta da massa salarial de 11,9% se deve a um crescimento real de 5,6% da renda e a um aumento de 6% da ocupação. “O bom desempenho do mercado de trabalho explica esse movimento”, diz o economista Rafael Bacciotti, da Tendências.

Mendonça, do Dieese, lembra que o momento é amplamente favorável para serviços como bares e restaurantes. “Os preços de alimentação fora do domicílio crescem com força. Isso ajuda a abrir espaço para contratações e reajustes de salários.”

O economista Fabio Ramos, da Quest Investimentos, nota que há mudança estrutural no país nos últimos anos, com maior formalização do emprego e melhora da renda. Isso se traduz em demanda mais forte por diversos tipos de serviços, o que dá mais conforto para as empresas que atuam nesses segmentos ampliar seus quadros e reajustar salários.

O setor que inclui administração pública, educação, saúde, defesa, seguridade social e serviços sociais viu o rendimento real crescer 4,6% nos 12 meses até maio, enquanto a ocupação subiu 3,7%. Para Mendonça, o crescimento expressivo da renda pode ter alguma influência dos salários no setor público, mas é provável que uma parte mais expressiva venha dos ganhos de setores como educação e saúde, também beneficiados pela força do mercado de trabalho.

A fase de grandes aumentos salariais do governo federal, que se concentraram em 2008 e 2009, ficou para trás, observa ele. Segundo Mendonça, eventuais reajustes promovidos por governos estaduais podem ter algum peso, mas o impacto maior pode vir de serviços privados, como educação.

Um caso curioso ocorre com os serviços domésticos, como destaca Ramos, da Quest. A renda cresce 6,5% acima da inflação nos 12 meses até maio, mas o nível de emprego recua 4,9% no período. Com isso, a massa salarial do setor sobe apenas 1,3%. Com a economia aquecida, um número considerável de empregados domésticos busca emprego em outras áreas, o que ajuda a empurrar para cima o rendimento.

Na indústria, a massa salarial tem ganhado fôlego. Depois de fechar 2010 com alta de 4,9%, o setor viu o número subir para 7,7% nos 12 meses até maio. A ocupação na indústria, contudo, já dá sinais de desaceleração. Cresce 3,4% nos 12 meses até maio – nessa base de comparação, chegou a crescer quase 4% em fevereiro.

O nível de emprego como um todo, aliás, tem crescido com menos força. A ocupação fechou o ano passado com aumento de 3,5%, mas já arrefeceu para 3% nos 12 meses até maio. Para os analistas, isso é natural depois de um ano excepcional para o mercado de trabalho como foi 2010, num cenário em que há um ciclo de alta de juros, uma política fiscal mais austera e medidas para conter a expansão do crédito.

O rendimento médio de todos os setores ainda acelera no acumulado em 12 meses, de 3,8% em dezembro de 2010 para 4,9% em maio, mas também tende a perder terreno num quadro de desaceleração econômica, avalia Ramos. Em resumo, a massa ainda ajudará a estimular o consumo, mas não será um incentivo tão poderoso como no ano passado.

30/04/2011 - 10:54h 60 mil brasileiros dizem viver em uma união gay

Felipe Werneck, Wilson Tosta e Rejane Lima – O Estado de S.Paulo

Sessenta mil brasileiros declararam viver com cônjuge do mesmo sexo no Censo 2010. Foi a primeira vez que o IBGE levantou em todo o País o número de casais gays.

O número de 60.002 casais representa 0,16% do total de cônjuges do País. A Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais realizou, durante coleta de dados do Censo, uma campanha para que os homossexuais declarassem sua condição.

Em 2007, o instituto incluíra a pergunta em uma contagem parcial realizada em municípios com até 170 mil habitantes. No Censo 2010, a maior concentração absoluta de casais formados por pessoas do mesmo sexo foi verificada na Região Sudeste (32.202).

O presidente do IBGE, Eduardo Nunes, citou o aumento do número de pessoas que se declararam pretas nos últimos levantamentos para explicar o que poderá ocorrer em relação aos casais do mesmo sexo nas próximas pesquisas.

“A declaração da proporção de população preta aumentou bastante, não porque aumentou a fecundidade nesse grupo, mas porque o sentimento de pertencimento cresceu, e a consciência é maior. Quanto maior é a consciência, maior é a resposta afirmativa”, declarou Nunes.

“É certo que nos próximos censos esse número tenderá a aumentar, o que não significará dizer que haverá mais casais do mesmo sexo se unindo.” Para o presidente do IBGE, o autorreconhecimento é maior à medida em que legislação brasileira se adapta às novas situações, com mudanças no Imposto de Renda, na Previdência Social e em seguros saúde prevendo direitos para casais do mesmo sexo. “Ao se perceber que esse direito é uma conquista de fato, também do ponto de vista social teremos mais informação.”

União. Moradores do Guarujá, na Baixada Santista, o administrador financeiro Ronaldo Costa, de 34 anos, e o funcionário público Luiz Eduardo dos Santos, de 39 anos, estão entre o crescente número de casais homossexuais que residem como cônjuges.

“Eu acho que o número é bem maior, porque nós não fomos contados no Censo, e nem outros dois casais de amigos nossos de São Paulo”, diz Costa. Ele conheceu seu parceiro há nove anos e em 8 de julho de 2006 assinou a “declaração de união homoafetiva”, documento que comprova a existência de união entre duas pessoas do mesmo sexo e garante direitos ao casal, como o reconhecimento de planos de saúde e na declaração como dependente no Imposto de Renda.

30/04/2011 - 10:33h Maioria das famílias vive com menos de 1 salário per capita

Apesar de melhoria na última década, uma em cada sete residências vivia com até 1/4 de salário mínimo per capita

Wilson Tosta e Felipe Werneck – O Estado de S.Paulo

No País retratado em 2010 pelo IBGE, a maioria da população (60,7%) vivia em domicílios com renda familiar per capita de menos de um salário mínimo (no valor de R$ 510 na época), apesar de em dez anos ter diminuído o número de famílias nos extratos mais baixos de rendimento.

No ano passado, praticamente uma em cada sete residências tinha renda domiciliar per capita de até 1/4 de salário mínimo; uma em cada três, de meio a um; e mais de uma em duas tinha rendimento por pessoa de até um salário mínimo -em todos esses grupos sociais, porém, esses números significaram melhoria em relação à década anterior.

O instituto constatou que, após a faixa de um a dois salários, os resultados dos dois últimos censos se aproximaram, até convergir nos grupos depois de três a cinco salários – a antiga classe média, que ficou onde estava.

O aumento do salário mínimo na década – reajuste de 237,7% para uma inflação (pelo IPCA) de 89% – e os programas sociais são apontados como causas da melhoria de renda dos mais pobres ocorrida no período.

Desigualdade. Segundo o presidente do IBGE, Eduardo Nunes, os dados apontam para uma redução da desigualdade de renda. “O contingente brasileiro que em 2000 ganhava renda inferior a meio salário mínimo hoje é muito menor”, disse Nunes. Ele citou programas de transferência de renda e o aumento real do salário mínimo entre as principais causas da mudança.

Nunes explica que as faixas consideradas prioritárias pelo Bolsa-Família são próximas àquela que o IBGE usa como critério para a distribuição de renda: 1/4 do salário mínimo. Ele também destacou a expansão da economia na última década, com a criação de mais de 10 milhões de postos de trabalho.

Falhas. O avanço na renda dos mais pobres não foi acompanhado no mesmo ritmo – ou pelo menos em padrão semelhante – por outros indicadores sociais.

O País reduziu a sua proporção de analfabetos com 15 anos ou mais na década de 91-2000 (de 20,1% para 13,6%) do que entre os anos 2001 e 2010 (13,6% para 9,6%). A redução nessa velocidade é encarada com naturalidade por especialistas, que ressaltam o aumento da dificuldade em combater o analfabetismo, na medida em que o estoque de analfabetos diminui, concentrando-se em centros menos urbanizados e mais pobres.

A Região Nordeste é aquela com maior taxa de analfabetismo: 19,1% em 2010, contra 28,2% em 2000 e impressionantes 37,6% em 1991. Entre os nordestinos, em 2010, 47,1% dos analfabetos tinham 60 anos ou mais.

Também avançou em ritmo modesto o porcentual de domicílios particulares ligados a rede de esgoto ou fossa séptica – de 62,2% para 67,1%, apenas 4,9 pontos porcentuais em dez anos. Isso significa que, no ano passado, 32,9% das residências lançava seus dejetos sanitários diretamente e sem tratamento na rua ou no meio ambiente.

Trabalho infantil. O Censo 2010 mostra ainda que no ano passado havia 132 mil domicílios no País sustentados pelo trabalho feito por crianças de 10 a 14 anos. “Proporcionalmente aos 57 milhões de domicílios, esse número (132 mil) não é muito expressivo. Entretanto, ele reflete outra realidade que o IBGE revela sistematicamente: a presença de trabalho infantil na sociedade”, diz Nunes.

22/03/2011 - 10:41h O espelho da desigualdade

Marcelo Neri – VALOR

Em diversos artigos que escrevi neste espaço ao longo dos últimos 11 anos, me referi aos anos 2000 como a década da queda da desigualdade de renda. Acompanhar a desigualdade brasileira até 2001 era um tanto monótono, era como se ela fosse uma constante da natureza. Depois disso, a desigualdade medida pelo índice de Gini, por exemplo, cai entre cada Pesquisa Nacional de Amostras a Domicílio (PNAD). Agora, finda a década no sentido gregoriano da palavra, o que podemos dizer da desigualdade nesse período?

Seguimos aqui o conceito de renda domiciliar per capita medido pela PNAD, que referencia a maior parte das discussões brasileiras acerca do trinômio bem estar-social, pobreza e desigualdade. Se ordenarmos a população por renda per capita e dividi-la em dez pedaços iguais, entre a primeira e a última PNAD da década passada, a renda dos 10% mais pobres subiu 69,08% real per capita acumulado no período. Esse ganho vai caindo paulatinamente à medida que nos aproximamos do topo da distribuição, atingindo 12,58% entre os 10% mais ricos.

A fim de sintetizar melhor as mudanças observadas, restringimos a análise que se segue aos 50% mais pobres e aos 10% mais ricos. Os primeiros detém por definição a metade mais pobre da população enquanto os segundos no auge da desigualdade, detinham quase metade do bolo de renda tupiniquim. As respectivas taxas acumuladas de crescimento da renda real per capita foram de 12,58% e 52,59%. Isso indica que o bolo da metade mais pobre da população brasileira cresceu a uma taxa 318% mais alta que a dos 10% mais ricos entre 2001 e 2009. Essa é uma medida intuitiva da evolução da desigualdade.

Tecnicamente, a década passada, se iniciou na virada de 2000 para 2001 e terminou na mudança de calendário de 2010 para 2011. Infelizmente, a PNAD não vai a campo em anos de Censo Demográfico que delimitam as décadas, como 2000 e 2010. Logo só poderemos saber pelos dados da PNAD apenas o que aconteceu em 8 dos 10 anos que nos interessam.

Optamos aqui por completar as séries da PNAD pelas da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) que só pesquisa a renda do trabalho nas seis principais regiões metropolitanas brasileiras. Tenho a consciência que pelas diferenças de cobertura geográfica e de conceito de renda, a comparação direta entre PNAD e PME é inviabilizada. Seria o equivalente a comparar laranjas com bananas.

Aqui comparamos PME com PME nos mesmos meses do ano. Pois mesmo bananas do mesmo tipo possuem diferentes qualidades em diferentes meses em função de sazonalidades.

Posteriormente, essas variações serão incorporadas às séries da PNAD com as devidas ressalvas – as PMEs captam apenas a renda domiciliar per capita do trabalho, que corresponde a ¾ da renda das pessoas, de forma mais ou menos uniforme ao longo da distribuição de renda.

Nessa analogia, os censos são espécies de abacaxis, muito raros e saborosos mas cheios de espinhos, função das mutações metodológicas sofridas ao longo de cada década. De forma que preferimos não comparar abacaxis do tipo A com abacaxis do tipo B. Até por que os últimos ainda não foram nem descascados, muito menos processados. A longa defasagem incorrida entre a coleta de campo e a disponibilização das séries de microdados do novo censo indica que só poderemos calcular os mutantes números censitários da desigualdade no final de 2012.

A renda dos 50% mais pobres nos anos 2000 sobe 69%, a imagem do espelho do ganho dos 10% mais ricos nos anos 60

Segundo a PME, as taxas de crescimento da renda dos pobres foram sempre superiores à dos ricos entre dezembro de 2000 e setembro de 2001 e de setembro de 2009 a dezembro de 2010. Isso indica que a desigualdade caiu não só entre cada PNAD mas sugere que também caiu nos extremos das décadas gregorianas. A diferença é que no começo da década passada a renda caia menos para os mais pobres e no final crescia mais para os mais pobres.

Ao completarmos as séries pela taxa de variação da PME observadas nas extremidades da década, chegamos a uma taxa acumulada de crescimento na década passada de 10,03% para os 10% mais ricos e 67,93% para os 50% mais pobres. Ou seja, a taxa de crescimento da metade inferior foi 577% mais alta que a dos 10% mais ricos. Isso faz com que a razões de rendas médias nos dois estratos populacionais que é uma medida de desigualdade, caia quase à metade dos valores iniciais: de 18,12 em dezembro de 2000 para 9,76 em dezembro de 2010.

Agora dado o cenário para a década de 2000 como um todo precisamos compará-lo com as demais décadas. O estudo da desigualdade de renda brasileira completa agora meio século, começando no Censo de 1960, a primeira das pesquisas domiciliares representativas do país a perguntar diretamente a renda da população. O espetacular aumento da desigualdade entre 1960 e 1970 foi seguido de uma longa monotonia estatística. Alguns chegaram a comparar a dinâmica dessas séries à do eletrocardiograma de um morto.

A comparação que nos interessa portanto é a da década de 2000 com a de 1960. O problema do Censo de 1960 é que a renda individual não era passível de ser agregada em termos de renda per capita de cada domicílio. Em função dessas limitações comparamos mudanças de medidas distintas. O conceito usado na obra seminal de Carlos Langoni 1973, reeditada pela Editora da Fundação Getulio Vargas, era renda individual. O trabalho de Langoni continua surpreendentemente atual na metodologia e nas conclusões, se as últimas forem invertidas. O resumo da ópera é uma revolução de 360°. Acabamos de voltar ao menor nível de desigualdade de nossas séries históricas observado em 1960.

Senão vejamos: a renda dos 10% mais ricos sobe 66,87% entre os censos de 1960 e 1970. Se restringimos a análise apenas aos 5% mais ricos o aumento foi ainda maior 75,42%. Os 50% mais pobres obtiveram um aumento de 15,26% no mesmo período. Ou seja, a renda da metade mais pobre cresceu 81,22% menos que a dos 10% mais ricos.

Incidentalmente quando comparamos as décadas de 1960 e a de 2000, as taxas acumuladas de crescimento dos estratos extremos da distribuição são similares. A renda dos 10% mais ricos nos anos 60 sobe 66,87% quase o aumento de renda dos 50% mais pobres na década passada. É o que podemos chamar de imagem no espelho da desigualdade.

Marcelo Côrtes Neri, economista-chefe do Centro de Políticas Sociais e professor da EPGE, Fundação Getulio Vargas. Autor dos livros “Ensaios Sociais”, “Cobertura Previdenciária: Diagnóstico e Propostas” e “Microcrédito, o Mistério Nordestino e o Grammen brasileiro”. mcneri@fgv.br.

25/02/2011 - 08:30h Pesquisas mostram mercado de trabalho ainda aquecido

Conjuntura: Criação de vagas formais foi a segunda mais alta para o mês de janeiro na série do Caged

João Villaverde e Luciana Otoni | VALOR

De São Paulo e Brasília

As duas principais pesquisas de emprego do país, divulgadas ontem, apontaram que o início de 2011 pode ser um momento de ampliação do mercado de trabalho, apesar das medidas recentemente adotadas para conter o ritmo de crescimento do país. As pesquisas trouxeram resultados acima do esperado pelos analistas.

Enquanto o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, registrou saldo líquido de 152 mil vagas – 16% inferior ao forte janeiro de 2010, mas ainda assim o segundo melhor mês de janeiro da série histórica -, a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou alta de 0,8 ponto percentual na taxa de desemprego, movimento sazonal para o período. Mesmo com o aumento, ela ficou em 6,1%, patamar historicamente baixo.

Os principais contratantes de mão de obra em janeiro foram as empresas de serviços, segundo os dados do Caged. Elas responderam por 48,1% das vagas criadas no mês, uma participação superior aos 31,8% de 2010, indicando um mercado aquecido e que tem aberto espaço para aumento de preços. Dentro do setor, o maior empregador foi o segmento prestador de serviços comerciais e de administração de imóveis, como corretores, com saldo de 36,1 mil vagas, refletindo o aquecimento imobiliário do país. A indústria criou 53 mil empregos em janeiro deste ano, representando 35% das novas vagas, um pouco abaixo dos 38% de participação alcançados em igual mês de 2011.

Para os economistas consultados pelo Valor, a menor demanda por vagas na indústria, comércio e construção sinaliza que a atividade econômica está desacelerando – mas ainda corre em ritmo bom. Dentre os segmentos industriais, por exemplo, apenas um registrou saldo negativo em janeiro – as fábricas de alimentos processados, com fechamento de 983 vagas. Já o segmento que produz materiais elétricos e de comunicações, com saldo positivo de 5,1 mil postos de trabalho, registrou o melhor resultado para meses de janeiro da série histórica, iniciada em 1999.

A parcela dos trabalhadores ocupados na indústria nas regiões metropolitanas, no entanto, permaneceu constante na comparação entre os meses de janeiro de 2010 e 2011. Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o equivalente a 16,4% do total de ocupados no mês passado está nas indústrias de transformação e extrativa, mesma parcela verificada em janeiro de 2010.

O comércio, que sazonalmente dispensa os trabalhadores temporários em janeiro, após as festas de fim de ano, dobrou o tamanho do corte na pesquisa do Caged. Passou do corte líquido de 6,2 mil comerciários em janeiro do ano passado para 18,1 mil demissões em igual mês deste ano. Da mesma forma, o setor de construção civil diminuiu quase pela metade o saldo de vagas formais geradas – de 54,3 mil, em janeiro de 2010, para 33 mil no mês passado.

A tendência para o primeiro semestre de 2011 é que os resultados mensais das contratações sejam inferiores aos apresentados nos primeiros seis meses do ano passado, cujos números foram recordes. Além de uma base elevada de comparação que configura 2010, medidas adotadas pelo governo para controlar a inflação e frear o ritmo de expansão da economia tendem a reduzir o ritmo das admissões.

No Ministério do Trabalho, a avaliação é que o mercado formal de empregos continuará aquecido, embora possa passar por ajustes sazonais. A indicação é que o setor serviços e a construção civil liderarão a oferta de vagas nos próximos meses, seguidos por maior demanda nas empresas do agronegócio diante da perspectiva de safra agrícola recorde. Para o ministério, a indústria da transformação recontratou os demitidos de 2009, ampliou as equipes em 2010 e tende a demandar menos empregados este ano. Em meio a essas adaptações setoriais e ao ajuste macroeconômico para desacelerar o Produto Interno Bruto (PIB), o ministro Carlos Lupi acredita que o ano possa registrar 3 milhões de contratações líquidas.

O especialista em políticas públicas, Marcelo Neri, não considera essa meta factível. Ele avalia que o mercado formal de emprego passará por ajustes e ainda não está claro que o crescimento este ano possa resultar em 2,2 milhões de contratações, repetindo 2010 (na série antiga do Caged). Para Fabio Romão, especialista da LCA Consultores, o saldo deve ficar em 1,8 milhão de vagas, uma vez que setores dinâmicos, como construção civil, já esbarram na falta de mão de obra qualificada.

Segundo Fabio Ramos, analista da Quest Investimentos, a situação é mais perigosa para a indústria. “As condições ruins, como o câmbio valorizado e os mercados externos fechados, continuam. E os pontos positivos de 2010, como os incentivos fiscais e os salários subindo aceleradamente, já não estão no radar”, diz Ramos, que estima um saldo pouco inferior a 1,9 milhão de vagas formais no ano.

Além de uma possível acomodação no ritmo de oferta de vagas, Marcelo Neri observa que a regra de reajuste do salário mínimo – a ser corrigido anualmente até 2014 pela variação da inflação do ano anterior e pela variação do PIB dos dois últimos anos anteriores ao reajuste – pode reduzir a oferta de oportunidades com carteira assinada, ao tornar a mão de obra mais cara ao empresariado.

A divulgação dos números do Caged, ontem, confundiu os especialistas. Em nota, na semana passada, o Ministério do Trabalho apontou que “a partir de janeiro de 2011, serão disponibilizadas mensalmente as informações relativas aos vínculos empregatícios declarados fora do prazo legal”. Os analistas entenderam que seriam corrigidos os dados do próprio mês, mas o ministério, na divulgação de janeiro, corrigiu os dados de dezembro e assim fará a partir dos próximos meses.

25/02/2011 - 08:06h Desocupação é das mais baixas do mundo

Rafael Rosas | VALOR

Do Rio

O resultado do mercado de trabalho em janeiro, divulgado ontem pelo IBGE, mostra uma forte evolução do Brasil em comparação com as principais economias do mundo. Cimar Azeredo, gerente da pesquisa, ressaltou que, antes da crise econômica, a taxa de desocupação no Brasil era a segunda maior no grupo das 20 maiores economias. Na última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), o país já aparecia com a 10ª maior taxa. Agora, em janeiro, apenas cinco das 20 principais economias têm taxa de desocupação menor que a brasileira.

O resultado de 6,1% de janeiro coloca o Brasil à frente do Canadá (7,8%), da Alemanha (7,9%), e dos Estados Unidos (9%). Entre os países que divulgam as taxas por trimestre, o Brasil ficou à frente da Espanha (20,33%) no quarto trimestre, e da Itália (8,4%). Com resultados melhores aparece a Coreia do Sul, com taxa de 3,8% em janeiro.

30/11/2010 - 09:14h Déficit habitacional cai e se aproxima do número total de domicílios vazios

Enquanto total de residências cresceu 25,5%, população subiu 12,3%

Cássia Almeida – O GLOBO

● O Censo populacional de 2010, divulgado ontem pelo IBGE, trouxe números que indicam que o déficit habitacional ficou menor no Brasil. O número de domicílios ocupados subiu 25,5% em dez anos, enquanto a população cresceu menos da metade: 12,3%. São 56,5 milhões de domicílios ocupados, para 190,7 milhões de habitantes. Assim, o número médio de moradores por casa baixou de 3,75 em 2000 para 3,3 este ano.

— Houve queda da taxa de fecundidade, que influencia esse indicador. Mas isso mostra também que o déficit habitacional caiu no período, com o número de casas subindo mais que a população — avaliou o demógrafo José Eustáquio Diniz, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), ligada ao IBGE.

E o número de casas vazias, ou seja, que estão sendo construídas, postas para alugar ou vender e abandonadas somam seis milhões de unidades, 9% do total. Número suficiente para praticamente resolver o déficit habitacional brasileiro, que está em torno de sete milhões, pelas projeções atuais, que devem ser refeitas com os números do Censo.

Neste levantamento, os agentes acharam o dobro do número de residências fechadas, onde não foi encontrado o morador para ser entrevistado. Foram 901 mil casas fechadas, 1,34% do total, contra 528 mil em 2000, que representava 0,97% do total de domicílios. Porém, pela primeira vez, o IBGE estimou o número de moradores para essas casas fechadas:

— Estimamos o número de moradores conforme o perfil do município, pelo tamanho, se era urbano ou rural. Repetimos o número de moradores do domicílio com essas características para outro fechado — explicou Marco Antonio dos Santos Alexandre, coordenador técnico do Censo.

Sobe em 46% número de casas de veraneio

Segundo o presidente do IBGE, Eduardo Nunes, essa metodologia é usada largamente em países como Austrália, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, México e Nova Zelândia. Também se estimou o número de moradores na contagem populacional que aconteceu em 2007, mas a metodologia é usada pela primeira vez em um Censo. Com essa estimativa, a população cresceu dois milhões. Sem ela, ficaria inferior a 190 milhões, pelas contas de Alves, da Ence.

— Com o trabalho de supervisão, conseguimos entrevistar moradores de 600 mil domicílios que encontramos fechados nas primeiras visitas dos recenseadores — disse Nunes.

No Estado do Rio de Janeiro, o percentual de casas fechadas ficou acima da média nacional: 2,1% contra 1,34% do resto do país. Na cidade, a parcela fica ainda maior: 2,7%. Foram encontradas 126.382 casas fechadas no Estado do Rio de Janeiro.

Ao mesmo tempo em que convive com déficit habitacional projetado em sete milhões de residências, há no país 3,92 milhões de casas ocupadas por poucos períodos no ano. Ou seja, a família tem casa de campo ou de praia, na maioria das vezes. Foi um crescimento de 46% na década e corresponde a quase 6% dos domicílios no país.

Já as residências coletivas, onde se incluem hotéis, pensões, presídios, quartéis, postos militares, asilos, orfanatos, conventos, alojamentos de trabalhadores e outros, somaram 110 mil domicílios. ■

29/10/2010 - 10:38h Crescimento econômico impulsiona inovação tecnológica no País, diz IBGE

Porcentual de empresas investigadas que são inovadoras em processos ou produtos chegou a 38,6% em 2008

Jacqueline Farid, da Agência Estado

RIO – A inovação tecnológica aumentou no Brasil nos últimos anos, inclusive na indústria. Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) relativa ao período 2006-2008 divulgada pelo IBGE mostra que a taxa de inovação – porcentual de empresas investigadas na pesquisa que são inovadoras em processos ou produtos – chegou a 38,6% em 2008, ante 34,4% na pesquisa anterior, relativa a 2005.

Na indústria, segundo a Pintec, houve um forte incremento da inovação tecnológica nesta década. Se em 2000 a taxa de inovação no setor era de 31,5%, em 2005 atingia 33,5% e em 2008, subiu para 38,1%. A gerente da pesquisa, Fernanda Vilhena, atribui o crescimento a “um momento econômico muito favorável”.

Segundo ela, os indicadores macroeconômicos relativos a Produto Interno Bruto (PIB), investimentos, consumo das famílias, importações e exportações registraram bons resultados no período pesquisado, o que tem efeitos positivos sobre a inovação.

Fernanda explica que as inovações estão diretamente relacionadas ao desempenho da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). “Hoje no Brasil permanece o padrão de fazer inovação modernizando o parque industrial, com compra de máquinas e equipamentos, ou lançamento de novos produtos que também dependem da compra de novas máquinas, daí a ligação estreita entre investimentos e inovação”, disse ela.

A Pintec investigou 106 mil empresas e, dessas, 100 mil são empresas industriais. A pesquisa aborda empresas do setor industrial e de serviços (incluindo edição, telecomunicações, informática). Fernanda disse que os destaques de inovação nas indústrias em 2008 ficaram com o setor farmacêutico (por causa da fabricação de medicamentos genéricos), indústria química (com inovação de processos, inclusive em meio ambiente), além de produtos com “alto componente tecnológico) como TV Digital e produtos de informática, como notebooks.

Alimentos

Outro segmento industrial destacado por Fernanda é o de alimentos que, segundo ela, não tem alta intensidade tecnológica, mas inovou com a fabricação de produtos light e diet e também funcionais (iogurte com fibras, maionese sem colesterol). Ela citou ainda a indústria automobilística, tanto pelo desenvolvimento de novos modelos como peças e acessórios.

A Pintec também mostra os gastos com inovação, em relação ao faturamento das empresas, permaneceu estável em quatro anos, o que, segundo Fernanda, mostra que o patamar de despesas nessa área aumentou. Em 2005, as atividades inovadoras foram foco de gastos equivalentes a 2,8% % do faturamento das empresas. Em 2008, a fatia era praticamente similar, de 2,85%.

“Os dados apontam uma estabilidade, mas é importante ressaltar que, como esse foi um período de crescimento econômico e elevação do faturamento das empresas, o gasto inovativo cresceu no mesmo ritmo da expansão da receita, o que não é pouco”, disse a gerente da pesquisa. O investimento total das empresas em atividades inovativas alcançou R$ 54,1 bilhões em 2008, R$ 12,8 bilhões a mais que em 2005.

Segundo o IBGE, a Pintec tem o objetivo de fornecer dados para a construção de indicadores das atividades de inovação tecnológica das empresas brasileiras nos setores industrial, de serviços selecionados (edição, telecomunicações e inofrmática) e de pesquisa e desenvolvimento. A série da pesquisa teve início no ano 2000 e o levantamento sempre aborda um período de três anos. A Pintec divulgada hoje refere-se ao período de 2006 a 2008.

Internet

A Pintec revelou que o uso da Internet como “fonte do processo inovativo” foi citado por 68,8% dos estabelecimentos no setor industrial entrevistados, “caracterizando-se como o principal instrumento de inovação”. Nos serviços , o porcentual foi ainda maior, de 78,7%. Os técnicos da pesquisa destacam que a Internet não havia sido apontada como principal fonte de inovação em nenhuma das três edições anteriores da Pintec, ocupando no máximo a quinta posição em 2005.

A pesquisa mostrou também que crescimento do porcentual de empresas inovadoras que utilizaram pelo menos um instrumento de apoio governamental, passando de 18,8% em 2005 para 22,3% em 2008. Ainda segundo a Pintec, o crescimento da taxa de inovação não evitou que o número de empresas com dificuldades ou obstáculos tenha aumentado de 35,2% do total de empresas investigadas em 2005 para 49,8% em 2008. A falta de pessoal qualificado é apontada por 57,8% das empresas como um dos principais obstáculos à inovação.

De acordo com a Pintec, em 2008 as oito atividades que apresentaram maiores taxas de inovação foram automóveis, camionetas, utilitários, caminhões e ônibus (83,2%), produtos farmoquímicos e farmacêuticos (63,7%), outros produtos eletrônicos e ópticos (63,5%), produtos químicos (58,1%), equipamentos de comunicação (54,6%), equipamentos de informática e periféricos (53,8%), máquinas e equipamentos (51,0%) e componentes eletrônicos (49,0%).

Segundo a pesquisa, as taxas de inovação alcançadas pelos serviços entre 2006 e 2008 “estão entre as mais elevadas”, incluindo desenvolvimento e licenciamento de programas de computador (58,2%), telecomunicações (46,6%), outros serviços de tecnologia da informação (46,1%), edição e gravação e edição de música (40,3%) e tratamento de dados, hospedagem na internet e outras atividades relacionadas (40,3%).

22/10/2010 - 13:19h Turismo cresce mais que o conjunto da economia, diz IBGE

Estudo mostra que o setor aumentou 22% entre 2003 e 2007, contra 19,3% da média brasileira.

BBC Brasil – Agência Estado

Segundo o estudo, o crescimento no turismo foi maior do que o do PIB

Um relatório divulgado nesta sexta-feira pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indica que o setor do turismo teve um crescimento de 22% no Brasil entre 2003 e 2007, superando o avanço de 19,3% registrado pela economia brasileira como um todo no mesmo período.

Entretanto, segundo o estudo, intitulado Economia do turismo – Uma perspectiva macroeconômica 2003-2007, a fatia que o turismo representou para a economia no período não aumentou, continuando a responder por 3,6% do valor adicionado (ou seja, o que representa para o PIB, tirando os impostos) entre o primeiro e o último ano da pesquisa.

O relatório, realizado em parceria com o Ministério do Turismo, mostrou que a renda gerada pelo turismo em 2007 foi de R$ 82,7 bilhões, o que representa um aumento de 4,8% em relação ao ano anterior, quando a renda foi de R$ 73,9 bilhões.

O percentual ficou aquém do crescimento de 5,8% observado no conjunto da economia para o período.

Hotéis e restaurantes

O estudo levou em consideração todas as atividades ligadas ao turismo, desde alojamento em hotéis até o serviço de fotografias para passaportes e vistos.

No topo da lista ficaram os serviços de alimentação, que geram 34,9% da renda que vem do setor. Em 2007, R$ 28,9 bilhões foram gerados no setor.

Em segundo lugar está o transporte rodoviário (21%) e, em terceiro, as atividades recreativas, culturais e desportivas (17,84%). No fim do ranking estão o transporte aquaviário, com 0,46%, e ferroviário, com 0,03%. Já o transporte aéreo respondeu por 4,89%.

A participação do turismo dentro do setor de serviços caiu de 5,6% para 5,4% entre 2003 e 2007. Os empregos gerados aumentaram 9,6% no período, passando a ocupar, em 2007, 5,9 milhões de pessoas – o equivalente a 6,2% do total da economia brasileira. O incremento de empregos ficou abaixo da tendência nacional, com 12% para o período.

Técnico do IBGE responsável pela pesquisa, Ricardo Moraes esclarece que um problema a ser enfrentado numa próxima edição do estudo, que foi realizado pela segunda vez, será separar os serviços oferecidos para turistas e locais.

“Na prática, o que o estudo mostra é o que está sendo gerado de empregos e de renda pelas atividades relacionadas ao turismo. Mas muitas delas atendem tanto a turistas quanto a não-turistas, e o próximo passo é refinar a pesquisa”, explica.

Os serviços de alimentação, por exemplo, englobam todos os restaurantes, bares e afins em território nacional. O estudo conseguiu eliminar apenas cantinas de empresas e estabelecimentos que claramente não se voltavam para visitantes.

22/10/2010 - 09:56h Porto Alegre, Belo Horizonte e Rio atingem pleno emprego

O GLOBO

DO RIO

Em 3 das 6 maiores regiões metropolitanas do país, a taxa de desemprego declinou a um nível considerado como de pleno emprego -ou seja, quando a demanda se aproxima da oferta.
São elas: Porto Alegre, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, onde as taxas ficaram, respectivamente, em 4,1%, 4,9% e 5,3% em setembro.
“Essas regiões atingiram taxas muito baixas, parecidas com a dos EUA antes da crise, que vivia uma condição de pleno emprego”, disse Cimar Azeredo Pereira.
Foi a primeira vez que Belo Horizonte ficou abaixo dos 5%. Em Porto Alegre, a taxa é inferior a esse percentual desde maio. Já o Rio teve a sua mais baixa marca da série histórica do IBGE, iniciada em março de 2002.
Não há uma definição padrão, mas muitos economistas consideram que taxas próximas a 5% significam pleno emprego. Isso porque sempre existe o chamado desemprego natural.
É que persiste uma assimetria do mercado, pela qual as vagas oferecidas nem sempre se encaixam ao perfil de quem as procura. Além disso, há pessoas que estão buscando o emprego ideal e não se ocupam até encontrá-lo.
Porto Alegre já vivia uma realidade melhor há mais tempo -em setembro, a ocupação cresceu 1% ante agosto, enquanto o número de desempregados caiu 8%.
Rio e Belo Horizonte avançaram mais recentemente e não registraram indicadores tão bons em setembro.
No Rio, o total de empregados caiu 0,4% em relação a agosto. Já o de desocupados teve queda maior: 8%. Em Belo Horizonte, a ocupação subiu 0,2%, ao passo que o contingente de desempregados recuou 7,7%.
Para Fábio Romão, economista da LCA, o conceito de pleno emprego é controverso, ainda mais no Brasil. “Há uma disparidade de renda muito grande no país e alta informalidade.”
Na média, porém, o desemprego caiu graças a São Paulo, onde a ocupação cresceu 0,7% de agosto para setembro e o número de desempregados cedeu 7,4%.

21/10/2010 - 12:18h Desemprego de setembro é o menor da história, diz IBGE

CARTEIRA ASSINADA
Desemprego no Brasil cai a 6,2% em recorde de baixa

Reuters/Brasil Online – O Globo

RIO DE JANEIRO – O desemprego brasileiro atingiu recorde de baixa em setembro, caindo para 6,2%, ante 6,7% em agosto, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira. Foi o menor patamar da série histórica iniciada em março de 2002.

Economistas projetavam uma taxa de 6,5%, uma média de previsões que oscilaram de 6,4% a 6,7%. A população ocupada totalizou 22,282 milhões em setembro, alta de 0,7% sobre agosto e de 3,5% sobre igual período do ano passado.

O total de desocupados alcançou 1,480 milhão, recorde de baixa, queda de 7,5% mês a mês e recuo anual de 17,7%. O rendimento médio do trabalhador cresceu 1,3% em setembro sobre agosto e 6,2% ano a ano, para 1.499 reais.

24/09/2010 - 07:12h Desemprego é o menor em 8 anos. Renda média também bate marca histórica

Taxa cai para 6,7% em agosto, a mais baixa desde o início da série da pesquisa, em 2002

Jacqueline Farid / RIO – O Estado de S.Paulo

A taxa de desemprego apurada pelo IBGE nas seis principais regiões metropolitanas do País ficou em 6,7% em agosto, a menor taxa mensal desde o início da série histórica da pesquisa, em 2002. Até a divulgação de ontem, os recordes de baixa na taxa estavam restritos aos meses de dezembro, quando há tradicionalmente um forte aquecimento do mercado de trabalho. A renda média real também foi recorde no mês.

Os dados dos primeiros oito meses de 2010 já apontam para um resultado que deverá confirmar também a menor taxa da série, para um ano fechado.

De janeiro a agosto, a taxa média foi de 7,2%, bem inferior ao melhor dado anterior para o período, de 2008, quando foi de 8,2%. O gerente da pesquisa mensal de emprego do instituto, Cimar Azeredo, atribui ao “cenário econômico muito favorável” os bons números de agosto.

Ele observou que, mesmo não sendo possível adiantar se haverá novas quedas na taxa mensal nas próximas pesquisas, a série histórica mostra que, de setembro a dezembro, as taxas costumam ser menores ou iguais às apuradas em agosto, já que há aquecimento do mercado de trabalho nos últimos meses do ano.

Em agosto, segundo Azeredo, a taxa caiu porque o número de desocupados (sem trabalho e procurando emprego) também caiu, com a criação de novas vagas no mercado de trabalho. Em relação a julho, o número de ocupados aumentou 0,5%, com a geração de 115 mil vagas. “É um número a ser comemorado”, disse.

Na comparação com agosto do ano passado, a ocupação aumentou 3,2%, com a geração de 691 mil vagas. Já o número de desocupados caiu 2,6% em agosto ante julho (menos 43 mil pessoas) e teve queda de 15,3% (menos 289 mil pessoas) ante agosto de 2009, mas ainda soma 1,6 milhão de pessoas nas seis regiões.

Analistas também projetam uma continuidade na evolução positiva para o emprego e a renda nos próximos meses. Para Bernardo Wjuniski, ” o mercado de trabalho deve continuar aquecido”. Ele estima que e a taxa de desemprego prossiga em declínio, fechando 2010 no patamar de 6,9%. No ano passado, a taxa foi de 8,1%.

Ainda mais otimista está o economista-chefe da Prosper Corretora, Eduardo Velho. “O viés para o quarto trimestre é ainda mais otimista: não devemos nos surpreender se a taxa no final do ano romper para baixo a faixa de 6%, podendo se situar em 5,8%”, disse ele, que sublinha que os salários também estão subindo acima do padrão histórico.

Renda. O rendimento médio real dos trabalhadores atingiu R$ 1.472,10 em agosto, o maior patamar da série histórica da pesquisa mensal de emprego do IBGE. Segundo o gerente da pesquisa, a continuidade do crescimento da renda reflete o aumento da fiscalização e da conscientização dos trabalhadores, maior rapidez no julgamento de causas trabalhistas e também a queda da inflação em agosto.

Além disso, segundo Azeredo, o próprio aumento da formalidade eleva a renda, assim como a terceirização, já que as empresas contratadas por outra precisam apresentar um contingente de funcionários legalizados.

O emprego formal também prosseguiu em elevação em agosto e, segundo o gerente, retomou, na comparação anual, o ritmo de crescimento de antes da crise.

COLABOROU MARCÍLIO SOUZA

Boas notícias para o trabalho

Análise: Clemente Ganz Lúcio – O Estado de S.Paulo

A divulgação de agosto de 2010 da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE indica este ano como o melhor desde 2002 no que se refere a taxa de desemprego e nível de remuneração.

A Pesquisa de Emprego e Desemprego – PED, realizada pelo Dieese, Fundação Seade e parceiros regionais (com metodologia diferente) também tem registrado as menores taxas de desemprego para o mesmo mês em mais de uma década.

Mas as boas notícias não param por aí. O nível de ocupação cresce acima de 3%, revelando uma elasticidade produto-emprego próxima de 0,5. Em outras palavras, para cada 1% de crescimento do PIB, cresce em 0,5% o nível de ocupação. É sinal de que o crescimento do nível de ocupação está distribuído pelos principais setores: indústria, serviços, comércio e construção civil.

Também é positiva a criação de empregos formais, com carteira assinada. Em um ano foram criados 685 mil empregos com carteira nas seis regiões pesquisadas. Como o total de ocupações criadas em 12 meses atingiu 691 mil, pode-se dizer que praticamente toda a expansão da ocupação se deu pelo crescimento do emprego formal, melhorando a qualidade das ocupações nas áreas metropolitanas.

E, fechando o quadro de boas notícias, o rendimento médio real dos trabalhadores cresceu 5,5% na comparação anual e 1,4% em relação ao mês anterior.

A renda média no Brasil ainda é baixa, não há dúvida, a massa de salários representa pouco mais de 40% do PIB e a taxa de desemprego, em que pese venha caindo, ainda se encontra em patamar elevado.

Entretanto, mantida a tendência de melhora dos últimos anos é possível crer que o mercado de trabalho tenha papel central na reversão de nossa injusta distribuição de renda.

É DIRETOR TÉCNICO DO DIEESE

09/09/2010 - 09:12h Sob as lentes da Pnad, nossas conquistas, percalços e desafios

Análise

Marcelo Neri – O Estado de S.Paulo

Me lembro da primeira vez que vesti óculos para miopia. Da indescritível sensação de começar a perceber a profundidade e clareza das coisas ao redor. Olhava maravilhado os contornos do mundo a minha volta. As possibilidades de enxergar o Brasil também têm evoluído.

Um marco foi 1995, quando o IBGE abriu os microdados de suas pesquisas conferindo liberdade a cada um de olhar, desde uma perspectiva própria, os brasileiros em suas casas.

Me lembro em 1994, mais ou menos na mesma época que fui introduzido aos óculos, de ler no New York Times sobre os determinantes do peso das crianças, pensava comigo quão distante disso estava o Brasil. À época, pensava antes e acima de tudo na inflação, que distorcia sentidos e preocupações. Hoje, a cada Pnad, debatemos nossas conquistas, percalços e desafios.

A edição de 2009 guarda novidades. Enxergamos se há nas garagens das casas motos (16%) ou carros (37%), o que permitirá medir impactos da redução do IPI durante a crise; vamos agora além do acesso à internet em computador pessoal (27%) e vemos que os brasileiros acessam mais a rede em computador coletivo (42%), mas o uso do celular é acima de tudo um bem pessoal (58% das pessoas têm).

Voltamos a saber detalhes da vida privada: se os adultos são solteiros (43%), viúvos(6%), separados (5%) ou casados (46%) de papel passado ou não; e se as relações entre Estado e empresas são de papel passado (apenas 14% dos conta próprias têm CNPJ – mesmo depois do advento da Lei do Microempreendedor Individual).

Agora, de todas as inovações introduzidas no questionário, a que eu gostei mais – e tenho um certo orgulho através de sugestão do movimento Todos pela Educação que faço parte – é a abertura dos alunos por redes de ensino público: federais (2,4 %), estaduais (43%)e municipais (55%). Isso permitirá responsabilizar cada ator na cobrança de metas para tornar esta década a da qualidade da educação. Pois nesse campo só o que temos são desafios.

Talvez a melhor boa nova “pnadiana” seja que, apesar da crise, não há novidade no bolso dos brasileiros: segundo nossos cálculos sobre os microdados da Pnad, a renda per capita ou por brasileiro ainda cresceu 2,04% entre 2008 e 2009, apesar do repique do desemprego e da queda da taxa de ocupação.

Há outros fatores indo na direção contrária como aumento de formalidade, de salários, a expansão de benefícios previdenciários e de programas sociais.

Mais do que isso, a renda dos 40% mais pobres cresce 3,15% ante 1,09% dos 10% mais ricos. Ou seja a desigualdade continua em queda (Gini cai 0,7%). O que acontece ano após ano desde 2001 quando o então candidato Serra bradava “Tudo contra a desigualdade”. Essa é a grande inovação tupiniquim na década que esta Pnad encerra.

Como consequência da manutenção do crescimento com redução da desigualdade, a pobreza também continua a sua tendência decrescente que vem desde 2003, quando o número de pobres segundo a linha da FGV era de 49 milhões de pessoas.

Após a recessão do primeiro ano do governo Lula até 2008, 19,5 milhões de pessoas saíram da pobreza e adicionamos no ano passado mais 1 milhão no último ano, chegamos a um contingente de 28,8 milhões de pobres, um contingente ainda expressivo. A taxa de pobreza cai de 16,02% para 15,32% entre 2008 e 2009, uma queda de 4,37%. Agora, se você quiser saber por que e para onde foram esses pobres, como anda a nova classe média brasileira aí incluindo seus bolsos, bens e aspirações, não perca a nova pesquisa do Centro de Políticas Sociais (CPS) que está saindo do forno.

É ECONOMISTA DO CENTRO DE POLÍTICAS SOCIAIS DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS (CPS/FGV)

09/09/2010 - 08:32h Pnad: Mesmo com a crise, um milhão de brasileiros deixou a pobreza em 2009

Distribuição de renda melhorou, mas em ritmo menor que em outros anos

Fabiana Ribeiro, Cássia Almeida e Letícia Lins – O Globo

RIO e RECIFE. A despeito de uma das maiores crises internacionais desde a Grande Depressão dos anos 30, um milhão de brasileiros deixou a pobreza no ano passado. Nos cálculos do economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getulio Vargas (FGV), o número de pobres caiu de 29,8 milhões para 28,8 milhões em um ano — que representam agora 15,32% da população brasileira e não mais os 16,02% do ano anterior.

O economista considera pobre quem tem renda familiar per capita de até R$ 140.

— A renda familiar per capita subiu 2,04% de 2008 para 2009, mesmo com um aumento do desemprego no país. E isso ajudou a reduzir a desigualdade, especialmente em tempos de crise — afirmou Neri, acrescentando que, considerando a renda familiar per capita de meio salário mínimo (ou R$ 232,50, pelo piso de 2009), 3,5 milhões de pessoas deixaram a pobreza no ano passado.

A distância entre ricos e pobres também foi reduzida. Segundo Neri, os 40% mais pobres tiveram um aumento na renda domiciliar per capita de 3,15%, com ganho médio de R$ 294. Já a renda dos 10% mais ricos subiu 1,09%, para R$ 2.566: — Vários fatores ajudaram a explicar a queda na desigualdade, como reajustes do mínimo, a Bolsa Família e o desempenho do mercado de trabalho.

Emprego formal fez aumentar renda O Índice de Gini, medida de distribuição de renda que, quanto mais próximo de um mais desigual é a sociedade, caiu de 0,521 para 0,518 no mercado de trabalho. Numa velocidade menor que em outros anos. Para Sonia Rocha, economista do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets), essas oscilações já aconteceram em outros anos: — Ainda não se configura uma tendência. Não quer dizer que está se esgotando. É espantoso que a distribuição de renda continue melhorando. O impacto da escassez de mão de obra qualificada não tem afetado a distribuição.

Nas famílias, a distribuição de renda também melhorou. O Índice de Gini passou de 0,514 para 0,509. E o principal fator foi o mercado de trabalho, segundo Sonia: — A renda do trabalho responde por 75% dos rendimentos das famílias. Sem dúvida, o aumento do salário mínimo foi um dos componentes. Além disso, a cultura da formalização está aumentando.

Há um interesse das empresas em se formalizar para ter acesso a crédito e a compras governamentais.

Para o economista Sergei Soares, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), essa melhora mais lenta na distribuição de renda pode representar, sim, uma eficácia menor dos programas sociais.

— Porém, a desigualdade deve continuar caindo pelos fatores demográficos e educacionais.

“A sociedade ainda é muito desigual” Com ensino fundamental completo, Eliel Carvalho da Silva, de 22 anos, fazia biscates até os 18 anos, quando o seus rendimentos não atingiam, sequer, metade do salário mínimo.

Aos 20 anos, conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada, no qual ficou até julho passado. Não ficou um mês sem trabalho. Mesmo sem ser qualificado, ele já conseguiu outra vaga, como servente de construção em Recife.

No feriado de 7 de setembro, Silva trabalhava na reforma de uma agência bancária no bairro de Casa Forte, com companheiros que chegaram a passar até uma década sem trabalho formal. Silva ganha mais de um salário mínimo — R$ 530, com direito a alguns outros benefícios sociais. Apesar do dinheiro não ser muito, está com as contas em dia. Ele está se programando agora para comprar uma geladeira, mas não quer se endividar.

— Espero fazer isso em 2011 e estou poupando para comprar à vista e com desconto — afirma Silva.

Para o diretor do Instituto de Economia da UFRJ, João Saboia, apesar das melhoras, ainda há muito a avançar.

— A escolaridade é menor que de nossos vizinhos. A sociedade ainda é muito desigual.

09/09/2010 - 07:16h Pnad 2009: Número de empregos formais aumenta

Fernando Dantas – O Estado de S.Paulo

O mercado de trabalho brasileiro melhorou em 2009 em termos qualitativos, segundo a Pnad, com avanço da formalização e da educação média dos trabalhadores.

De um total de 54,3 milhões de trabalhadores empregados no Brasil em setembro do ano passado, excluindo-se os domésticos, 59,6%, ou 32,3 milhões, tinham carteira assinada. Outros 12,2% eram militares e servidores públicos estatutários, e 28,2% não tinham carteira assinada.

Esses números mostram uma evolução em relação a 2008, quando os com carteira eram 58,8%. Mas a trajetória de melhora é mais longa. Em 2004, 54,9% tinham carteira assinada. A proporção de militares e estatutários têm permanecido em torno de 11,5% a 12% em todo período.

Em números absolutos, houve um acréscimo de 483 mil trabalhadores com carteira assinada, ou de 1,5%, de 2008 para 2009. Esse aumento, no entanto, foi menor do que o de 2007 para 2008, que atingiu mais de 700 mil novas carteiras assinadas. Desde 2004, o contingente de empregados com carteira assinada cresceu 26,6%, mais do que o dos empregados como um todo, que teve expansão de 16,7%.

Em 2009, a região Sudeste teve a maior proporção de trabalhadores com carteira assinada, de 67,3%, e a região Norte a menor, com 42,4%. Apesar do avanço da formalização como um todo, houve queda, de 2008 para 2009, na proporção de empregados com carteira assinada no setor agrícola – de 38,6% para 35,1%. Na indústria, a proporção em 2009 chegou a 81,6%.

A Pnad 2009 constatou ainda que os trabalhadores que contribuem para a Previdência Social chegaram a 49,6 milhões em 2009, ou 53,5% da população ocupada. Isso representa um avanço em relação à proporção de 52,1% em 2008, e de 46,4% em 2004.

Formação. Em 2009, 43,1% da população ocupada tinha pelo menos o ensino médio completo, um avanço ante a proporção de 41,2% em 2008, e de 33,6% em 2004. O porcentual de trabalhadores com nível superior completo saiu de 8,1% em 2004 para 11,1% em 2009 (em 2008, era de 10,3%).

03/09/2010 - 10:37h PIB cresce 8,9% no semestre, maior alta da série

Rafael Rosas | Valor

RIO – O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro aumentou 8,9% no primeiro semestre de 2010, na comparação com igual período do ano passado. Foi o melhor desempenho histórico para um semestre desde o início da série, em 1996, indicou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

A maior alta na ótica da oferta ficou com a Indústria, que avançou 14,2% em relação ao período janeiro-junho de 2009, quando a economia nacional ainda se ressentia dos efeitos da crise internacional. A seguir, vieram os avanço da Agropecuária, com 8,6%, e dos Serviços, com 5,7%.

Do lado da demanda, a principal alta foi da formação bruta de capital fixo (FBCF), com crescimento de 26,2%, recorde da série iniciada em 1996. Já o consumo das famílias avançou 8% e o consumo do governo cresceu 3,6%.

(Rafael Rosas e Juliana Ennes | Valor)

28/08/2010 - 11:51h Desnutrição infantil está em queda no Nordeste

Pesquisa do IBGE indica que a região apresenta também índices de déficit de altura abaixo da média nacional

Rafael Galdo e Efrém Ribeiro – O GLOBO

RIO E TERESINA. Na periferia de Teresina, no Piauí, os dois filhos da faxineira Nara Cavalcante, bem alimentados e com acompanhamento médico gratuito, pouco lembram a infância da mãe, marcada pela fome.

Saudáveis, livres da desnutrição, são um retrato de uma realidade cada vez mais comum no Nordeste e no Brasil como um todo, conforme revelou a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, divulgada ontem pelo IBGE. Segundo o levantamento, indicadores que apontam a desnutrição infantil estão em queda no país. Entre eles, o déficit de altura, que entre as crianças menores de 5 anos foi de 6%, abaixo da estimativa de 7,1% do Ministério da Saúde em 2006-2007.

E nesse caso, o Nordeste, diferentemente da maioria dos indicadores sociais, foi a região que apresentou um dos índices mais baixos, de 5,9%, abaixo da média nacional e maior apenas do que no Sul (3,9%). A piauense Naira atribui a boa nutrição dos filhos à merenda escolar da mais velha, Ana Alice, e ao Bolsa Família, lembrando que os pais beneficiados pelo programa são obrigados a levar os filhos ao posto de saúde para saber se estão dentro do peso ideal.

Perto dali, no Centro Municipal de Educação Infantil da Vila da Paz, em outra medida de combate à desnutrição, 188 crianças fazem quatro refeições ao dia, são pesadas e medidas periodicamente. Se estiverem abaixo do peso, recebem alimentação reforçada da Pastoral da Criança.

— Sempre teve merenda escolar, mas ela não conseguia nutrir as crianças. Agora, temos soja, peixe, arroz, feijão…

— comemora a pedagoga Teresinha Moreira de Aquino.

Porém, apesar de os resultados da POF indicarem que o crescimento das crianças menores de 5 anos está bem próximo do padrão da Organização Mundial da Saúde, a pesquisa aponta que o déficit de altura persiste ainda entre os mais pobres (8,2% das crianças abaixo de 5 anos em famílias com renda per capita de até um quatro do salário mínimo) e no Norte, atingindo 8,5% das crianças nessa faixa etária. São da região também os maiores índices de crianças, de 5 a 9 anos, com déficit de altura: 12,2% para meninos e 10,3% para meninas, contra a média nacional de 7,2% para eles e 7,9% para elas.