09/09/2008 - 10:13h O índice de felicidade futura (IFF)

http://www.neias.org/YEP/newyepp2x.jpg

VALOR

“If I go insane, please don´t put your wires in my brain” - “If”, (Roger Waters), Pink Floyd

A juventude é um estado de espírito não determinado pela idade em si, mas pela postura da pessoa diante do seu futuro. O jovem acredita que o melhor da vida ainda está por vir. Pesquisa da FGV calculou e concebeu esta medida subjetiva de juventude, em projeto para o BID, a partir de uma nota de 0 a 10 reportada diretamente por cada um dos mais de 150 mil entrevistados pelo Gallup World Poll, em uma amostra de 132 países. A pesquisa mostra a satisfação prospectiva de um cidadão do mundo com a vida. A perspectiva de felicidade futura cai com a idade do indivíduo, de 7,41 aos 15 anos até 5,45 para aqueles com mais de 80 anos, quando a felicidade presente e futura se equivalem. Na idade dos debutantes, a média futura é 3,3 pontos, melhor que a média de felicidade presente. No Brasil, é particularmente alta a expectativa em relação ao futuro - na escala de 0 a 10, nossa nota média é 8,78, mais do que qualquer um dos 132 países pesquisados. Ou seja, somos campeões mundiais de felicidade futura, ou de atitude jovem. Essa interpretação permite reconciliar duas qualificações recorrentemente atribuídas ao Brasil: “o país do futuro” por uns, e “país jovem”, por outros. Mais do que país de jovens na sua composição demográfica, o Brasil é um país habitado por jovens de espírito jovem. A média de felicidade futura do brasileiro entre 15 e 29 anos é 9,29, também superior a qualquer outro país pesquisado.

Somos um país habitado por jovens de espírito jovem. A média de felicidade futura do brasileiro entre 15 e 29 é superior aos demais 131 países

Outro estudo da FGV, que descrevi na minha última coluna, era sobre a medida subjetiva de classe média - que, como a juventude, seria um estado de espírito de que a vida vai melhorar no futuro. Pois aí está: entre outras medidas forward-looking, o brasileiro é aquele que apresenta a maior expectativa de felicidade futura, superando inclusive os EUA (9º do ranking) e Dinamarca, líder mundial de felicidade presente, mas 3ª do ranking de felicidade futura. O lanterninha é Zimbábue, na África.

Perguntamo-nos, ao longo da pesquisa, se haveria razão para otimismo da nossa população em geral e dos nossos jovens, em particular. O grosso das respostas são endereçadas à transformação da estagnação trabalhista dos jovens em reversão trabalhista, que a partir de 2004 entra em fase de franca expansão (e.g. mais de 90% dos novos níveis recordes de empregos formais gerados nos últimos quatro anos são de jovens). Prospectivamente, surfaríamos nos efeitos futuros da onda jovem. Finalmente, a faixa juventude no Brasil nunca foi e nunca será tão grande quanto está agora, nos ensinam os demógrafos que criaram o termo “dividendo demográfico”, referindo-se aos altos rendimentos prospectivos associados. Os jovens vão propulsionar nossa sociedade rumo a novas conquistas.

Discutimos aqui os resultados de pesquisa três em um (três temas correlacionados e um lançamento) feita em parceria com o Instituto Votorantim. O eixo da pesquisa é o seguinte: I) Felicidade Futura; II) Decomposição Trabalhista - metodologia Lego, o brinquedo de montar - explicando o papel de ingredientes trabalhistas clássicos como escolaridade, retorno da educação, jornada, ocupação e participação. Desconstruímos por meio desta metodologia os pedaços da expansão trabalhista presente no grupo entre 15 e 29 anos (2004 a 2008 - 10,5% ao ano de ganho de renda), bem como da estagnação trabalhista pregressa (1992 a 2004). As variáveis educacionais foram centrais tanto na fase de crise, como na de expansão; III) O trabalho que começa com uma abordagem de dados internacionais termina com dados locais, um Índice de Juventude Educação e Trabalho (IJET) calculado a partir de informações recentes a nível municipal que está dividido em três blocos: 1) Juventude - revela a proporção de jovens que enxergamos como ativos (e não passivos) das localidades - destaque para Palmas no Tocantins; 2) Educação - mostra a qualidade do investimento realizado nas novas gerações, baseado no desempenho dos estudantes - destaque entre as capitais para o Rio de Janeiro no nível e Campo Grande no avanço; 3) Trabalho geração do emprego formal, captando em que medida os jovens já estão colhendo os frutos do investimento prévio em educação - destaque entre as capitais para Vitória no nível e São Luis na variação. O objetivo é informar à comunidade de cada município em véspera de eleição o estado da juventude, de forma a responsabilizar gestores. Disponibilizamos no site da pesquisa (www.fgv.br/cps/jovem) dados para cada um dos municípios brasileiros com a letra fria dos números, sem comentários.

O objetivo deste trajeto que começa no IFF, nosso primeiro índice mundial, e desemboca em dados municipais (IJET), é facilitar o “pensar global, agir local”. O IFF, em inglês, é Future Felicity Index, cuja sigla lembra as teclas de avanço rápido dos aparelhos de vídeo e de som, que são linguagem universal. Talvez a principal inovação desta pesquisa, frente algumas das principais pesquisas disponíveis hoje no Brasil sobre o jovem, é a atitude positiva, uma vez que somos todos garotos, segundo a pesquisa. Ver o jovem não como um problema, mas como parte fundamental da solução. Mudou a cena do jovem brasileiro, mas não a trilha sonora, que continua de drama. Em particular, estamos em pleno regime de apagão de mão-de-obra, ao invés da crise de desemprego - ambos têm a cara do jovem. Mostramos que, de 2004 a 2008, o mercado de trabalho do jovem brasileiro encontra-se em franca expansão. Os frutos do avanço da cobertura do ensino fundamental chega agora com problemas de qualidade ao ensino médio e superior. A resposta sobre se há base real na positividade do nosso jovem recai sobre a nossa capacidade de entregar soluções ao nosso “pobrema” educacional. A má notícia é que, embora tenha ocorrido aceleração a partir de meados dos anos 90, a nossa educação se encontra hoje ainda num patamar inferior. A boa é que há uma agenda colocada pela sociedade civil e pelo Estado apontando desafios auspiciosos nesta área. Os destaques aqui são as metas educacionais para 2021 do Todos pela Educação e do PAC educacional. Na prática, o paradoxo do alto IFF do jovem brasileiro seria um grande “se”.

Marcelo Côrtes Néri chefe do Centro de Políticas Sociais do IBRE/FGV e professor da EPGE/FGV, é autor de “Retratos da Deficiência”, “Cobertura Previdenciária: Diagnóstico e Propostas” e “Ensaios sociais”. E-mail: mcneri@fgv.br

mcneri@fgv.br

17/08/2008 - 13:56h Gasto público cresce menos que o PIB, gasto com previdência desacelera

A imagem “http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080817/img/capadodia.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

Fernando Dantas - O Estado de São Paulo

No primeiro semestre de 2008, o governo cumpriu a política fiscal que ele mesmo rechaçou de forma enérgica em 2005. Foi naquele ano que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, detonou a proposta do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, apoiada pelo ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci, de implementar uma política fiscal de longo prazo.

Um dos aspectos da proposta era controlar o crescimento dos gastos públicos, o que, mesmo para economistas mais ortodoxos, não significa reduzi-los ou congelá-los, mas fazê-los crescer menos que o Produto Interno Bruto (PIB). Para Dilma, a proposta era “rudimentar”.

Agora, porém, sem fazer nenhum alarde, o governo quase certamente conseguiu pôr a expansão dos gastos federais num ritmo inferior ao do PIB. Segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio, as despesas primárias do governo federal tiveram crescimento real de 4,4% de janeiro a junho. É menos que os 5,5% a 6% que o mercado estima que o PIB cresceu no primeiro semestre, e muito inferior ao ritmo de 6,9%, 9,6% e 11,1% registrado pela expansão dos gastos primários, respectivamente nos primeiros semestres de 2005, 2006 e 2007. Embora o diagnóstico geral seja de que o gasto público continua elevado e com qualidade duvidosa.

Na Carta do Ibre (documento mensal de análise econômica) que será divulgada nesta semana, os economistas da instituição deixam bem claro que consideram uma surpresa positiva o desempenho fiscal na primeira metade do ano. “O governo parece estar conseguindo conter a elevação de seus gastos”, elogia a Carta, em sua primeira frase. O reconhecimento deve ser particularmente saboroso para a equipe econômica do governo, já que o Ibre é tradicionalmente uma instituição inclinada a posições liberais e ortodoxas - campo do qual vêm as críticas mais pesadas à política fiscal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Essa avaliação não está restrita ao Ibre. Segundo o economista Fernando Fenolio, do Unibanco, “para um governo que tem fama de gastador, que de fato o foi até 2007, os números do primeiro semestre de 2008 representam uma surpresa positiva e uma política fiscal diferente da dos outros anos”. Para ele, a contenção do crescimento dos gastos torna factível o superávit primário de 4,3% do PIB em 2008. Outro bom sinal da política fiscal, para Fenolio, é a possível manutenção do superávit primário de 4,3% em 2009.

Os comentários da Carta do Ibre vão além da simples constatação de que o crescimento do PIB ultrapassou o da despesa federal no primeiro semestre. O documento nota que esse resultado foi alcançado de forma saudável, já que a maior desaceleração ficou por conta dos gastos com salários e Previdência Social.

Gasto com Previdência desacelera

Despesa previdenciária cresceu 2,9% de janeiro a julho, ante 7,9% (2006) e 9,2% (2007) em semestres anteriores

Fernando Dantas - O Estado de São Paulo

A desaceleração do crescimento dos gastos federais no primeiro semestre de 2008 atingiu principalmente as chamadas despesas rígidas, como funcionalismo e Previdência, as grandes vilãs dos especialistas preocupados com as contas públicas. E os investimentos, que são vistos como a despesa por excelência que deve crescer, tiveram aumento fortíssimo, que pode ser parcialmente explicado pela limitação ao gasto público no segundo semestre de anos eleitorais.

No caso da Previdência (do setor privado e dos funcionários públicos), o crescimento real no primeiro semestre foi de apenas 2,9%, comparado, respectivamente, a 7,9% e 9,2% quando se analisa o mesmo período do ano em 2006 e 2007. As despesas de pessoal cresceram 4,5% na primeira metade de 2008, ante 9,5% e 9,6%, respectivamente, nos primeiros semestres de 2006 e 2007.

Os investimentos federais tiveram crescimento real de 40,3% no primeiro semestre. Este é um dado a ser comemorado, segundo os economistas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, que consideram positivo o desempenho fiscal do governo Lula na primeira metade de 2008 (ver página B1). Os investimentos representam poupança pública e a necessidade de aumentá-los como proporção do PIB é uma unanimidade absoluta em política econômica.

O enorme salto dos investimentos no primeiro semestre pode estar ligado ao fato de 2008 ser um ano eleitoral, já que há restrições a gastos no segundo semestre. Em 2006, por exemplo, os investimentos cresceram 75,3% na primeira metade do ano. De qualquer forma, o ritmo de expansão desde 2006 é intenso, já que, mesmo em 2007, quando não houve eleição, a taxa foi de 19,4%.

O aumento real das despesas sociais, que atingiu 12,7% no primeiro semestre de 2008, reflete “uma clara opção programática do governo”, segundo os economistas do Ibre. Em outras palavras, faz parte de uma política pública deliberadamente perseguida, e não pode ser considerado com uma gastança desenfreada.

Luiz Guilherme Schymura, presidente do Ibre, nota que nem o aumento do déficit em conta corrente nem da inflação, ocorridos em 2007 e 2008, podem ser atribuídos à política fiscal expansionista do governo. “As contas públicas melhoraram e o déficit cresceu, logo, não é o governo que está fazendo pressão para isso”, comentou. Ele lembra que o superávit no saldo de transações correntes, de US$ 2,4 bilhões nos seis primeiros meses de 2007, transformou-se num déficit de US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2008 - exatamente neste período, o crescimento real da despesa federal primária desacelerou de 11,1% para 4,4%.

A política fiscal de longo prazo defendida por Bernardo e Palocci em 2005 implicava estabelecer uma trajetória sustentável de redução das despesas públicas como proporção do PIB, para chegar gradativamente ao superávit nominal sem continuar expandindo a carga tributária. Para isso, é claro, os gastos devem crescer menos que o PIB. Esse efeito ocorreu de forma muito leve no primeiro semestre de 2008, segundo as contas do Ibre.

O gasto público federal nos primeiros seis meses do ano, depois de subir de 14,1% para 16,2% do PIB entre 2004 e 2007, recuou a 16,1% em 2008. Da mesma forma, a Previdência subiu de 7,7% para 8,5%, e recuou para 8,3%, e as despesas de pessoal subiram de 2,3% para 2,6%, e recuaram para 2,5%.

Com uma trajetória bem diferente, os investimentos e os gastos sociais só cresceram de 2004 até 2008, tomando-se o primeiro semestre - de 0,3% para 0,7% do PIB, no primeiro caso, e de 1% para 1,5% no segundo. O nível dos investimentos ainda é, sem dúvida, pífio, mas mais que dobraram como proporção do PIB no período. E a conta não inclui estatais, Estados e municípios.

Apesar dos elogios ao desempenho da despesa pública federal no primeiro semestre, o Ibre faz o alerta de que o esforço fiscal do governo tem de ser intensificado. A razão é que o setor público deve compensar o excesso de consumo e investimento do setor privado, quando comparado à poupança privada.