06/10/2009 - 10:54h País crescerá até 7% em 2010, prevê FGV

Para Ibre, economia retoma “exuberância” do período pré-crise; mercado volta a estimar expansão em 2009

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DA REDAÇÃO FOLHA SP

O crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) no ano que vem deve variar de 4,5% a 7%, de acordo com projeção do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), da FGV (Fundação Getulio Vargas).
Segundo análise da instituição, uma alta de 7% resultaria de uma recuperação em forma de V, “na qual a intensidade da retomada é equivalente à da contração ocorrida na virada de 2008 para 2009″. “O crescimento de 7% [do PIB] não é, de forma alguma, inconcebível.”
A Carta do Ibre aponta que a economia brasileira está retomando a “exuberância” do nível de atividade pré-crise.
A expansão mais consistente em 2010, porém, poderá trazer o maior desafio ao Banco Central desde a implementação do regime de metas de inflação, em 1999.
Na análise do Ibre, se a economia caminhar no ano que vem para uma taxa de crescimento próxima de 7%, o BC “enfrentará a situação desconfortável de ter que puxar o freio da política monetária em plena campanha eleitoral”. Já o cenário de 4,5% seria de mais tranquilidade para o BC, que poderia, sem o fantasma da pressão inflacionária, manter a taxa básica de juros em 8,75% ao ano.
Entre os fatores que devem estimular a economia em 2010, está o aumento do salário mínimo. Pelas regras atuais, o reajuste deve ser feito pela taxa de inflação do ano mais a taxa de crescimento do PIB verificada dois anos antes, o que elevaria o mínimo para R$ 505,90.

Mercado
Pela primeira vez desde o fim de março, economistas consultados pelo BC esperam uma variação positiva do PIB em 2009. Segundo a pesquisa Focus da última semana, a projeção é de crescimento de 0,01%.
Na semana anterior, a previsão era de variação zero do PIB. Desde março, porém, o mercado vinha prevendo retração na economia.
Em relação à taxa Selic, a previsão para 2010 foi aumentada pela segunda semana seguida, passando de 9,50% ao ano para 9,75%. Para 2009, continuou nos atuais 8,75%.
A projeção para o IPCA chegou a 4,31% para este ano.
Com a Folha Online

19/07/2009 - 11:21h Ação do governo na crise foi positiva, diz Ibre

Mercado Aberto

GUILHERME BARROS – FOLHA SP

guilherme.barros@grupofolha.com.br

quinta-feira, 09 de julho de 2009

O governo teve um papel importante na recuperação da economia e seria injustiça não reconhecê-lo, caso o Brasil não seja mesmo atingido por uma recessão mais profunda nessa crise global.
O diagnóstico consta da “Carta do Ibre”, que abre a revista “Conjuntura Econômica” de julho, da FGV (Fundação Getulio Vargas). O Ibre é dirigido pelo economista Luiz Guilherme Schymura, que tem sido até então um dos maiores críticos do governo.
O trecho da “Carta” com o reconhecimento do papel do governo é o seguinte:
“Seria injusto, caso de fato uma recessão mais profunda e prolongada tenha sido evitada, não reconhecer os méritos da reação da política econômica do governo -desde os primeiros passos, com a gestão de liquidez habilidosa e ágil do Banco Central, que foi da liberação de compulsórios à indução da absorção de bancos e carteiras pelas instituições financeiras mais bem preparadas, até as muitas iniciativas de desoneração tributária setorial.”
A “Carta do Ibre” cita o exemplo dos benefícios concedidos ao setor automotivo, que está batendo recorde de vendas. A constatação é que iniciativas como essas do governo estão tendo impactos positivos emblemáticos e podem ter contribuído para a moderada, porém consistente, melhora dos indicadores de confiança de empresários e consumidores que se verificou recentemente.
De acordo com o texto, o que os números da economia parecem indicar, principalmente a partir dos dados de emprego, é que a parada brusca da indústria não se propagou para os demais setores da economia.
“Se essa visão for confirmada, é possível que o país seja beneficiado por uma feliz coincidência: o desafogo da crise global de crédito veio a tempo de permitir que a indústria, vencida a queima de estoques, reiniciasse a sua marcha, antes que a perda de empregos nesse setor se disseminasse, via demanda, na forma de um impacto mais amplo na economia”, afirma a “Carta”.
Dessa forma, o documento conclui que, apesar da queda das exportações e da indústria, a economia não se desacelerou ainda mais por força da resistência do consumo das famílias e do governo.
“Em resumo, a conjuntura brasileira é sem dúvida melhor do que a apontada pela maior parte das projeções no início deste ano, para não falar do final do ano passado.”

27/05/2009 - 12:17h Os critérios para definir crescimento e recessão ficam mais precisos

Brasil já define recessão pelo critério dos EUA

Hoje, Comitê do Ibre divulga ciclos econômicos nos últimos 30 anos

Fernando Dantas, RIO – O Estado SP

O Brasil já estabelece os seus períodos de expansão e contração econômica num método semelhante ao dos Estados Unidos. A datação é considerada de melhor qualidade do que o critério de dois trimestres seguidos adotado para definir o que se chama de “recessão técnica” na maior parte dos países.

Hoje, em entrevista à imprensa no Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, será divulgada a cronologia dos ciclos de expansão e recessão da economia brasileira nos últimos 30 anos, com pontos de transição precisos, estabelecida pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), organizado pelo Ibre.

O Codace é coordenado por Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), e tem como membros os economistas Dionísio Dias Carneiro, do Instituto de Estudos de Política Econômica (Iepe-Casa das Garças); João Victor Issler, da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da FGV-Rio; Marcelle Chauvet, da Universidade da Califórnia; Marco Bonomo, da EPGE; Paulo Picchetti, da Escola de Economia de São Paulo (EESP/FGV); e Regis Bonelli, do Ibre.

O Codace vai funcionar de forma parecida com o Comitê de Datação de Ciclo de Negócios do National Bureau of Economic Research (NBER), dos EUA. O Comitê do NBER tem a datação dos ciclos econômicos americanos desde 1854, e, no seu site, deixa claro que uma recessão não é definida como dois trimestres consecutivos de queda do PIB real, mas, sim, por “um declínio significativo na atividade econômica espalhado pela economia, durando mais do que alguns meses, normalmente visível no PIB real, na renda real, no emprego, na produção industrial e nas vendas no atacado e varejo”.

Na verdade, o método do NBER, e também o do Codace, além de utilizar todos aqueles dados, conta também com a interpretação dos conselheiros para definir os períodos de recessão e expansão.

Para Rodrigo Azevedo, ex-diretor do BC e sócio da JGP Investimentos, “essa iniciativa é importante porque uniformiza a leitura do ciclo econômico no Brasil”. Alexandre Schwartsman, economista chefe do Santander e também ex-diretor do BC, considera que a datação “é uma tremenda iniciativa, já que a definição de dois trimestres consecutivos de redução do PIB é muito superficial”.

22/02/2009 - 13:06h Retomada desigual preocupa analistas

Autos e alimentos melhoram em janeiro, mas vários setores pioram

Fernando Dantas – O Estado SP

No momento em que a Embraer demite 20% da sua força de trabalho e a angústia em relação à economia em 2009 se intensifica, outra ameaça paira sobre a tênue retomada da indústria brasileira iniciada em janeiro. A recuperação (projetada pelos indicadores antecedentes), após a queda brusca nos três últimos meses de 2008, parece ser bastante desigual entre os setores, com vários deles podendo apresentar resultados ainda muito ruins. “É difícil dizer que o vale (pior momento) já passou”, diz Jander Medeiros, analista de consumo da JGP Investimentos, empresa de gestão de recursos.

O Índice de Situação Atual da Fundação Getúlio Vargas (FGV), componente do Índice de Confiança da Indústria que melhor mede a avaliação das empresas sobre a demanda a cada momento, teve quedas expressivas de dezembro para janeiro em importantes setores industriais: 4,4% em material elétrico e de comunicações; 8,3% no mobiliário; e 14,3% em vestuário e calçados.

Esses resultados foram contrabalançados pela alta em setores como produtos alimentares e material de transporte (que inclui a indústria automobilística), que tiveram altas no Índice de Situação Atual de respectivamente 10,3% e 4,6% em janeiro.

O problema, porém, para vários analistas, é que o setor automotivo pode estar se recuperando por causa de uma queda muito forte no fim do ano passado. O bom desempenho dos alimentos, por sua vez, é compatível com a atual fase da contração econômica, que ainda está mais concentrada nos produtos dependentes de crédito.

“Quando desagreguei o resultado por setores, fiquei mais preocupado porque o índice mostra que há segmentos nobres de consumo, como eletrônicos, mobiliário e vestuário, que ainda têm quedas muito significativas”, diz Vagner Ardeo, vice-diretor do Instituto Brasileiro de Economia, da FGV no Rio.

Bráulio Borges, da LCA Consultoria, está mais otimista. Ele nota que a indústria automobilística é responsável, direta ou indiretamente, por 25% da produção industrial, afetando segmentos como siderurgia, petroquímica, etc. “É um poder de influência muito grande, e essa recuperação é um bom sinal para economia como um todo”, diz.

Um ponto comum nas análises é que o setor automobilístico foi o que pisou com mais força no freio no último trimestre do ano passado, exagerando a dose e provocando a reaceleração em janeiro. “A fábrica da Ford na Bahia, por exemplo, praticamente não operou em dezembro”, observa Borges.

Outros setores de bens duráveis, porém, como eletrodomésticos e móveis, não tiveram freada tão drástica. “Eles ainda têm de se preocupar em reduzir os estoques antes de aumentar a produção”, acrescenta.

Medeiros, da JGP, nota que fator determinante no desempenho dos setores é a dependência ou não do crédito (exceto a indústria automobilística, com sua dinâmica particular). Nos alimentos, que não têm vínculo com crédito, o bom momento se reflete no desempenho de empresas como Wal-Mart, que manteve planos de investimento de R$ 1,5 bilhão, e do Pão de Açúcar, que retomou projetos. O aumento real do salário mínimo também deve ajudar.

Outro segmento que vai bem, acrescenta o analista, é o de cosméticos. Assim como os alimentos, são produtos que podem ter a demanda até ampliada num primeiro momento de retração, à medida que o consumidor corta bens duráveis mais caros. “A pessoa não comprou presente de Natal, mas dá uma melhoradinha na ceia”, resume Ardeo, do Ibre.

Uma preocupação, porém, é que esses setores sejam mais afetados no momento em que o pior da crise se transferir do crédito para o emprego, como parecem indicar os recentes resultados sobre mercado de trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). John Welch, economista global do Itaú, porém, acha que a queda da inflação pode poupar o setor de alimentos de um ajuste mais drástico.

15/02/2009 - 10:49h ”Será que estamos saindo do poço?”

Economista da FGV vê retomada gradual da indústria e diz que dezembro foi o pior mês neste período recente

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Fernando Dantas, RIO – O Estado SP

Apesar da crise econômica global ainda dar sinais de virulência, e da má recepção inicial dos mercados ao pacote de US$ 2 trilhões de ajuda ao sistema financeiro do presidente americano Barack Obama, uma tímida luz no fim do túnel parece ter surgido nos últimos dias, no caso brasileiro.

“Os dados me levam a crer que dezembro foi o pior mês da economia brasileira neste período recente, e que em janeiro nós já estamos saindo um pouco do fundo do poço”, diz Vagner Ardeo, vice-diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio.

Ardeo é o principal responsável por indicadores da FGV com os índices de confiança do consumidor e da indústria de transformação, e o Sinalizador da Produção Industrial (SPI), que busca antecipar a produção industrial em São Paulo.

Ele nota que os índices de confiança chegaram perto da estabilização em janeiro, depois de quedas muito acentuadas nos meses anteriores. No caso do SPI, o índice para janeiro foi de avanço de 5,7%, depois de registrar quedas de respectivamente 0,4%, 6% e 13,5% em outubro, novembro e dezembro.

Ardeo observa que o SPI vem prevendo muito bem o resultado efetivo da produção industrial em São Paulo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que caiu 0,8%, 3,5% e 14,9% de outubro a dezembro. Desta forma, o SPI de 5,7% para janeiro é um resultado animador.

O economista ressalva que o aquecimento está muito concentrado no chamado “material de transporte”, que inclui basicamente a indústria automobilística. Outro ponto de interrogação é o impacto da piora do mercado de trabalho no segmento de bens não-duráveis, como alimentos e roupas.

“Em dezembro houve grande perda de postos de trabalho, e isso tende a afetar a confiança do consumidor, embora em janeiro ela tenha ficado relativamente estável”, diz Ardeo.

Na Quest Investimentos, do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros (leia entrevista abaixo), um levantamento mostra que, no último mês, o real e o peso chileno foram as únicas moedas que se valorizaram em relação ao dólar, numa lista de países que inclui Argentina, México, Turquia, Rússia, Coreia do Sul, Hungria e Polônia. Em termos de mercado acionário, o Brasil, com valorização acima de 5%, teve o melhor desempenho, com exceção da China e da Índia, num grupo de 13 países emergentes acompanhados pela Quest.

Joel Bogdanski, economista do Banco Itaú, é mais cauteloso em relação ao momento da economia brasileira: “É bem difícil afirmar com certeza que o fundo do poço tenha sido atingido, porque a crise continua evoluindo lá fora”. Ele acha que o ocorrido em janeiro no setor automobilístico pode ter sido um fenômeno específico, que não necessariamente sinaliza uma tendência para a economia como um todo.

Bogdanski nota que o que mais afetou a economia brasileira, e provocou a parada brusca do fim de 2009, foram as expectativas, ligadas à confiança de consumidores e empresários. E esta, por sua vez, mostrou-se bastante vulnerável à evolução do quadro internacional, centrada nos Estados Unidos e nas economias ricas.

“Houve essa voltadinha no começo do ano, mas não se pode descartar outra onda de abalo lá fora – uma recessão mundial é algo muito sério”, diz.

Bogdanski concorda, porém, com a análise de Mendonça de Barros de que o Brasil vem se destacando como uma economia emergente numa situação relativamente favorável. “Os investidores estão começando a fazer conta e a perceber que o Brasil está melhor”, afirma.

09/09/2008 - 10:13h O índice de felicidade futura (IFF)

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VALOR

“If I go insane, please don´t put your wires in my brain” – “If”, (Roger Waters), Pink Floyd

A juventude é um estado de espírito não determinado pela idade em si, mas pela postura da pessoa diante do seu futuro. O jovem acredita que o melhor da vida ainda está por vir. Pesquisa da FGV calculou e concebeu esta medida subjetiva de juventude, em projeto para o BID, a partir de uma nota de 0 a 10 reportada diretamente por cada um dos mais de 150 mil entrevistados pelo Gallup World Poll, em uma amostra de 132 países. A pesquisa mostra a satisfação prospectiva de um cidadão do mundo com a vida. A perspectiva de felicidade futura cai com a idade do indivíduo, de 7,41 aos 15 anos até 5,45 para aqueles com mais de 80 anos, quando a felicidade presente e futura se equivalem. Na idade dos debutantes, a média futura é 3,3 pontos, melhor que a média de felicidade presente. No Brasil, é particularmente alta a expectativa em relação ao futuro – na escala de 0 a 10, nossa nota média é 8,78, mais do que qualquer um dos 132 países pesquisados. Ou seja, somos campeões mundiais de felicidade futura, ou de atitude jovem. Essa interpretação permite reconciliar duas qualificações recorrentemente atribuídas ao Brasil: “o país do futuro” por uns, e “país jovem”, por outros. Mais do que país de jovens na sua composição demográfica, o Brasil é um país habitado por jovens de espírito jovem. A média de felicidade futura do brasileiro entre 15 e 29 anos é 9,29, também superior a qualquer outro país pesquisado.

Somos um país habitado por jovens de espírito jovem. A média de felicidade futura do brasileiro entre 15 e 29 é superior aos demais 131 países

Outro estudo da FGV, que descrevi na minha última coluna, era sobre a medida subjetiva de classe média – que, como a juventude, seria um estado de espírito de que a vida vai melhorar no futuro. Pois aí está: entre outras medidas forward-looking, o brasileiro é aquele que apresenta a maior expectativa de felicidade futura, superando inclusive os EUA (9º do ranking) e Dinamarca, líder mundial de felicidade presente, mas 3ª do ranking de felicidade futura. O lanterninha é Zimbábue, na África.

Perguntamo-nos, ao longo da pesquisa, se haveria razão para otimismo da nossa população em geral e dos nossos jovens, em particular. O grosso das respostas são endereçadas à transformação da estagnação trabalhista dos jovens em reversão trabalhista, que a partir de 2004 entra em fase de franca expansão (e.g. mais de 90% dos novos níveis recordes de empregos formais gerados nos últimos quatro anos são de jovens). Prospectivamente, surfaríamos nos efeitos futuros da onda jovem. Finalmente, a faixa juventude no Brasil nunca foi e nunca será tão grande quanto está agora, nos ensinam os demógrafos que criaram o termo “dividendo demográfico”, referindo-se aos altos rendimentos prospectivos associados. Os jovens vão propulsionar nossa sociedade rumo a novas conquistas.

Discutimos aqui os resultados de pesquisa três em um (três temas correlacionados e um lançamento) feita em parceria com o Instituto Votorantim. O eixo da pesquisa é o seguinte: I) Felicidade Futura; II) Decomposição Trabalhista – metodologia Lego, o brinquedo de montar – explicando o papel de ingredientes trabalhistas clássicos como escolaridade, retorno da educação, jornada, ocupação e participação. Desconstruímos por meio desta metodologia os pedaços da expansão trabalhista presente no grupo entre 15 e 29 anos (2004 a 2008 – 10,5% ao ano de ganho de renda), bem como da estagnação trabalhista pregressa (1992 a 2004). As variáveis educacionais foram centrais tanto na fase de crise, como na de expansão; III) O trabalho que começa com uma abordagem de dados internacionais termina com dados locais, um Índice de Juventude Educação e Trabalho (IJET) calculado a partir de informações recentes a nível municipal que está dividido em três blocos: 1) Juventude – revela a proporção de jovens que enxergamos como ativos (e não passivos) das localidades – destaque para Palmas no Tocantins; 2) Educação – mostra a qualidade do investimento realizado nas novas gerações, baseado no desempenho dos estudantes – destaque entre as capitais para o Rio de Janeiro no nível e Campo Grande no avanço; 3) Trabalho geração do emprego formal, captando em que medida os jovens já estão colhendo os frutos do investimento prévio em educação – destaque entre as capitais para Vitória no nível e São Luis na variação. O objetivo é informar à comunidade de cada município em véspera de eleição o estado da juventude, de forma a responsabilizar gestores. Disponibilizamos no site da pesquisa (www.fgv.br/cps/jovem) dados para cada um dos municípios brasileiros com a letra fria dos números, sem comentários.

O objetivo deste trajeto que começa no IFF, nosso primeiro índice mundial, e desemboca em dados municipais (IJET), é facilitar o “pensar global, agir local”. O IFF, em inglês, é Future Felicity Index, cuja sigla lembra as teclas de avanço rápido dos aparelhos de vídeo e de som, que são linguagem universal. Talvez a principal inovação desta pesquisa, frente algumas das principais pesquisas disponíveis hoje no Brasil sobre o jovem, é a atitude positiva, uma vez que somos todos garotos, segundo a pesquisa. Ver o jovem não como um problema, mas como parte fundamental da solução. Mudou a cena do jovem brasileiro, mas não a trilha sonora, que continua de drama. Em particular, estamos em pleno regime de apagão de mão-de-obra, ao invés da crise de desemprego – ambos têm a cara do jovem. Mostramos que, de 2004 a 2008, o mercado de trabalho do jovem brasileiro encontra-se em franca expansão. Os frutos do avanço da cobertura do ensino fundamental chega agora com problemas de qualidade ao ensino médio e superior. A resposta sobre se há base real na positividade do nosso jovem recai sobre a nossa capacidade de entregar soluções ao nosso “pobrema” educacional. A má notícia é que, embora tenha ocorrido aceleração a partir de meados dos anos 90, a nossa educação se encontra hoje ainda num patamar inferior. A boa é que há uma agenda colocada pela sociedade civil e pelo Estado apontando desafios auspiciosos nesta área. Os destaques aqui são as metas educacionais para 2021 do Todos pela Educação e do PAC educacional. Na prática, o paradoxo do alto IFF do jovem brasileiro seria um grande “se”.

Marcelo Côrtes Néri chefe do Centro de Políticas Sociais do IBRE/FGV e professor da EPGE/FGV, é autor de “Retratos da Deficiência”, “Cobertura Previdenciária: Diagnóstico e Propostas” e “Ensaios sociais”. E-mail: mcneri@fgv.br

mcneri@fgv.br

17/08/2008 - 13:56h Gasto público cresce menos que o PIB, gasto com previdência desacelera

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Fernando Dantas – O Estado de São Paulo

No primeiro semestre de 2008, o governo cumpriu a política fiscal que ele mesmo rechaçou de forma enérgica em 2005. Foi naquele ano que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, detonou a proposta do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, apoiada pelo ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci, de implementar uma política fiscal de longo prazo.

Um dos aspectos da proposta era controlar o crescimento dos gastos públicos, o que, mesmo para economistas mais ortodoxos, não significa reduzi-los ou congelá-los, mas fazê-los crescer menos que o Produto Interno Bruto (PIB). Para Dilma, a proposta era “rudimentar”.

Agora, porém, sem fazer nenhum alarde, o governo quase certamente conseguiu pôr a expansão dos gastos federais num ritmo inferior ao do PIB. Segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio, as despesas primárias do governo federal tiveram crescimento real de 4,4% de janeiro a junho. É menos que os 5,5% a 6% que o mercado estima que o PIB cresceu no primeiro semestre, e muito inferior ao ritmo de 6,9%, 9,6% e 11,1% registrado pela expansão dos gastos primários, respectivamente nos primeiros semestres de 2005, 2006 e 2007. Embora o diagnóstico geral seja de que o gasto público continua elevado e com qualidade duvidosa.

Na Carta do Ibre (documento mensal de análise econômica) que será divulgada nesta semana, os economistas da instituição deixam bem claro que consideram uma surpresa positiva o desempenho fiscal na primeira metade do ano. “O governo parece estar conseguindo conter a elevação de seus gastos”, elogia a Carta, em sua primeira frase. O reconhecimento deve ser particularmente saboroso para a equipe econômica do governo, já que o Ibre é tradicionalmente uma instituição inclinada a posições liberais e ortodoxas – campo do qual vêm as críticas mais pesadas à política fiscal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Essa avaliação não está restrita ao Ibre. Segundo o economista Fernando Fenolio, do Unibanco, “para um governo que tem fama de gastador, que de fato o foi até 2007, os números do primeiro semestre de 2008 representam uma surpresa positiva e uma política fiscal diferente da dos outros anos”. Para ele, a contenção do crescimento dos gastos torna factível o superávit primário de 4,3% do PIB em 2008. Outro bom sinal da política fiscal, para Fenolio, é a possível manutenção do superávit primário de 4,3% em 2009.

Os comentários da Carta do Ibre vão além da simples constatação de que o crescimento do PIB ultrapassou o da despesa federal no primeiro semestre. O documento nota que esse resultado foi alcançado de forma saudável, já que a maior desaceleração ficou por conta dos gastos com salários e Previdência Social.

Gasto com Previdência desacelera

Despesa previdenciária cresceu 2,9% de janeiro a julho, ante 7,9% (2006) e 9,2% (2007) em semestres anteriores

Fernando Dantas – O Estado de São Paulo

A desaceleração do crescimento dos gastos federais no primeiro semestre de 2008 atingiu principalmente as chamadas despesas rígidas, como funcionalismo e Previdência, as grandes vilãs dos especialistas preocupados com as contas públicas. E os investimentos, que são vistos como a despesa por excelência que deve crescer, tiveram aumento fortíssimo, que pode ser parcialmente explicado pela limitação ao gasto público no segundo semestre de anos eleitorais.

No caso da Previdência (do setor privado e dos funcionários públicos), o crescimento real no primeiro semestre foi de apenas 2,9%, comparado, respectivamente, a 7,9% e 9,2% quando se analisa o mesmo período do ano em 2006 e 2007. As despesas de pessoal cresceram 4,5% na primeira metade de 2008, ante 9,5% e 9,6%, respectivamente, nos primeiros semestres de 2006 e 2007.

Os investimentos federais tiveram crescimento real de 40,3% no primeiro semestre. Este é um dado a ser comemorado, segundo os economistas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, que consideram positivo o desempenho fiscal do governo Lula na primeira metade de 2008 (ver página B1). Os investimentos representam poupança pública e a necessidade de aumentá-los como proporção do PIB é uma unanimidade absoluta em política econômica.

O enorme salto dos investimentos no primeiro semestre pode estar ligado ao fato de 2008 ser um ano eleitoral, já que há restrições a gastos no segundo semestre. Em 2006, por exemplo, os investimentos cresceram 75,3% na primeira metade do ano. De qualquer forma, o ritmo de expansão desde 2006 é intenso, já que, mesmo em 2007, quando não houve eleição, a taxa foi de 19,4%.

O aumento real das despesas sociais, que atingiu 12,7% no primeiro semestre de 2008, reflete “uma clara opção programática do governo”, segundo os economistas do Ibre. Em outras palavras, faz parte de uma política pública deliberadamente perseguida, e não pode ser considerado com uma gastança desenfreada.

Luiz Guilherme Schymura, presidente do Ibre, nota que nem o aumento do déficit em conta corrente nem da inflação, ocorridos em 2007 e 2008, podem ser atribuídos à política fiscal expansionista do governo. “As contas públicas melhoraram e o déficit cresceu, logo, não é o governo que está fazendo pressão para isso”, comentou. Ele lembra que o superávit no saldo de transações correntes, de US$ 2,4 bilhões nos seis primeiros meses de 2007, transformou-se num déficit de US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2008 – exatamente neste período, o crescimento real da despesa federal primária desacelerou de 11,1% para 4,4%.

A política fiscal de longo prazo defendida por Bernardo e Palocci em 2005 implicava estabelecer uma trajetória sustentável de redução das despesas públicas como proporção do PIB, para chegar gradativamente ao superávit nominal sem continuar expandindo a carga tributária. Para isso, é claro, os gastos devem crescer menos que o PIB. Esse efeito ocorreu de forma muito leve no primeiro semestre de 2008, segundo as contas do Ibre.

O gasto público federal nos primeiros seis meses do ano, depois de subir de 14,1% para 16,2% do PIB entre 2004 e 2007, recuou a 16,1% em 2008. Da mesma forma, a Previdência subiu de 7,7% para 8,5%, e recuou para 8,3%, e as despesas de pessoal subiram de 2,3% para 2,6%, e recuaram para 2,5%.

Com uma trajetória bem diferente, os investimentos e os gastos sociais só cresceram de 2004 até 2008, tomando-se o primeiro semestre – de 0,3% para 0,7% do PIB, no primeiro caso, e de 1% para 1,5% no segundo. O nível dos investimentos ainda é, sem dúvida, pífio, mas mais que dobraram como proporção do PIB no período. E a conta não inclui estatais, Estados e municípios.

Apesar dos elogios ao desempenho da despesa pública federal no primeiro semestre, o Ibre faz o alerta de que o esforço fiscal do governo tem de ser intensificado. A razão é que o setor público deve compensar o excesso de consumo e investimento do setor privado, quando comparado à poupança privada.