08/10/2009 - 11:45h Quem sabe faz a hora

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ColunistaHeloisa Magalhães – VALOR

O presidente Lula, a partir de sexta-feira passada, em Copenhague, ficou muito mais confortável com a afirmação de Barack Obama de que ele é “o cara”. Mas o grande vitorioso na disputa pela sede dos Jogos Olímpicos de 2016 não foi ele ou o Rio de Janeiro, mas o país.

O Brasil venceu. Apresentou proposta bem estruturada e convenceu ao apresentar as garantias dos investimentos necessários para realização dos jogos. E apresentou uma fotografia de uma nação confiável, com bons indicadores econômicos avançando no crescimento. Mas em meio a tantos bons propósitos o Brasil ainda está longe de saltar o fosso da desigualdade social. A pobreza urbana, aninhada nas grandes cidades, mostra um jovem, entre os de baixa renda, com pouca perspectiva de futuro e melhoria na qualidade de vida. A mobilidade social ainda é um privilégio de poucos. A maioria dos brasileiros que nasce pobre morre pobre.

Foi nesse calcanhar de Aquiles que o próprio presidente tocou em seu discurso na capital da Dinamarca. Certamente, a perspectiva de contribuir para mudar esse cenário pesou na decisão de trazer os jogos, pela primeira vez, para a América do Sul.

Lula mostrou que um evento da dimensão de uma Olimpíada, além da criação de novas oportunidades, tem todas as condições de instaurar um novo ambiente de esperança. Pode tornar-se uma das molas propulsoras para criar um movimento de formação de crianças e jovens a partir de novas oportunidades de educação, trabalho e esporte.

Para os cariocas, os ganhos com os investimentos com infraestrutura com viés ambiental são fundamentais. O Rio precisa despoluir a Baía da Guanabara, as lagoas, as praias, criar novo sistema de transportes. Com o esvaziamento econômico, a cidade ficou com áreas degradadas. A região portuária é um destaque. Ao recuperá-la, como propõe a prefeitura, e torná-la parte da sede do evento, crescem as perspectivas para revitalização de uma região que pode tanto voltar-se para habitação popular ou centro de negócios, turismo e lazer.

Para esses mesmos cariocas que convivem com o ambiente carente das favelas, com o banditismo presente no dia a dia, uma grande expectativa está sendo a da cidade beneficiar-se de forma ainda mais ampla do momento para antes e depois da Olimpíada. Além do benefício material, o intangível tem tudo para ser o maior legado dos jogos, não só no Rio como em todo Brasil, lembra Edson Menezes, ex-esportista e hoje presidente do Banco Prosper. Ele é o diretor-financeiro do comitê executivo do projeto pró-Rio 2016.

Anos atrás, Menezes defendia a criação de um espaço para crianças e jovens dedicarem-se ao esporte. Ajudou a montar a proposta do que é batizado de Centro Olímpico de Desenvolvimento de Talentos. Seria em Deodoro, subúrbio do Rio. Sem conseguir levantar os recursos, a área acabou abrigando o Estádio Olímpico João Havelange, popularizado como Engenhão. Construído para os Jogos Pan-americanos, em 2007, ficou sem uso. Está arrendado pelo Botafogo Futebol e Regatas.

Menezes diz que a ideia da proposta original agora tem tudo para ser recuperada. O Comitê Olímpico Brasileiro desenvolveu e o próprio Ministério do Esporte já aprovou projeto, que prevê investimentos de R$ 12 milhões e centro para treinar 2,5 mil crianças. A proposta é oferecer de oito a dez modalidades esportivas diferentes na área do Parque Aquático Maria Lenk, na Barra da Tijuca. Também construído para os Jogos Pan-americanos, hoje está subutilizado. Nestes dias, as piscinas, construídas há dois anos, estavam com vazamento. Agora recebem novos azulejos, pois precisam ficar prontas para uma competição.

Por que não replicar o modelo em áreas carentes do país? A questão é atuar para tirar proveito do momento que promete investimentos e ações, não só de governo, mas que também irão atrair a iniciativa privada. O economista Andre Urani, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), lembra que teremos tempo para sincronizar ações das diferentes esferas de governo, do setor privado e da sociedade civil em torno de objetivos comuns.

“É importantíssimo aproveitar a onda positiva e ter foco, centrar no que interessa. O importante é eleger prioridades assimiladas e aceitas pela população para que sejam incorporadas por anos e anos”, diz. Estudioso da cidade, Urani há anos vem batendo na tecla que o Rio precisa buscar um processo de recuperação estruturado. “Barcelona deu um show, aprendeu a costurar ações de forma concatenada e foi capaz de repetir várias outras em diferentes momentos. A loucura de todas as grandes cidades de correr atrás da Olimpíada deve-se ao fato de poderem se expor para o mundo”, pondera.

Ele lembra que a maioria das grandes metrópolis, seja o Rio, seja Londres, a sede dos jogos de 2012, enfrentou esvaziamento com a descentralização industrial, o que “deixou um rastro de destruição, com desemprego e transformando os subúrbios em desertos industriais, com aparecimento da violência”, diz ele.

Londres está se renovando. A construção da infraestrutura da Olimpíada está sendo fundamentalmente na área degradada, no sudeste da cidade. “O que quero dizer é que os jogos são uma oportunidade de reinventar a razão de ser da cidade, revocacionar para o século 21. Precisamos analisar com cuidado as experiências que mudaram cidades como a de Barcelona, Turim e a própria Londres, onde os jogos ainda não aconteceram, mas o foco está sendo preparar para uma nova realidade”, diz.

Heloisa Magalhães é chefe da Redação no Rio

E-mail: heloisa.magalhaes@valor.com.br

20/09/2007 - 11:56h Desigualdade até na pobreza

Nordeste reduz percentual de pobres menos que estados mais ricos.
No Rio, melhoria é recorde

Liana Melo, Cássia Almeida, Letícia Lins e Adriana Baldissarelli*

RIO, RECIFE e FLORIANÓPOLIS Apesar de cerca de seis milhões de pessoas terem ultrapassado a linha da pobreza em 2006, deixando de figurar entre as famílias que ganhavam, mensalmente, menos de R$ 125 per capita, o Brasil continua sendo um país de contrastes, com um Sul rico e um Nordeste pobre. Justamente em alguns dos estados que registram os menores índices de pobreza, a redução do problema foi mais acentuada. Depois de Mato Grosso do Sul, Santa Catarina foi o estado onde a taxa de redução relativa da pobreza foi maior: 26,3%.
No extremo oposto, está o Maranhão, com a menor queda da miséria (-9,73%), apesar de ter sido o estado com o maior ganho de renda no último ano (33,74%).

A conclusão é do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV-RJ), que produziu o estudo “Miséria, desigualdade e políticas de renda: o Real do Lula”, de autoria do economista Marcelo Neri. O levantamento foi feito com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/2006), divulgada na semana passada pelo IBGE. O aumento do emprego formal e do salário mínimo e a expansão do programa Bolsa Família foram os responsáveis pelo incremento de 7,2% na renda do brasileiro, um dos indutores da redução da pobreza, juntamente com a queda da desigualdade.

O que surpreende é Santa Catarina estar entre os que mais reduziram a pobreza.
No estado, o percentual de pobres é de apenas 4,68% da população, o mais baixo do país. Enquanto isso, o Maranhão tem quase metade da população (44,23%) abaixo da linha de pobreza.

— O Nordeste não teve o resultado esperado (seis dos nove estados da região reduziram a pobreza numa intensidade menor que a média brasileira). Uma hipótese possível é que a alta do salário mínimo não teve tanto impacto. Lá, grande parte da população ganha menos que o mínimo — explicou Neri.O economista acredita que uma combinação de capital social e humano e pequenos produtores favoreceu Santa Catarina.

Sonia Rocha, estudiosa de pobreza e desigualdade do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets), diz que houve um desematé penho desigual no Nordeste. E atribui a queda da pobreza ao mercado de trabalho, que teve papel fundamental para diminuir a pobreza no Brasil: — Talvez, o que tenha acontecido no Nordeste esteja relacionado ao Bolsa Família, que teve um impacto menor na redução da pobreza no ano passado, já que o valor do benefício foi mantido. Ou seja, perdeu poder de compra. Mesmo com pouca inflação, houve corrosão.

Morador de Ipojuca, em Pernambuco, Clóvis Vitorino Rosa, 40 anos e quatro filhos, sente em casa a melhoria do rendimento, embora seja um pobre trabalhador do corte de cana. Ele afirma que hoje consegue comprar mais do que antigamente, e que o salário que recebe, embora não seja alto, tem sido suficiente para o sustento da família, o que antes não ocorria.

— Hoje, consigo comprar mais mercadoria do que antigamente.

Tem sempre feijão, arroz, farinha e desematé carne em casa. Isso antes não acontecia — afirma ele, cujo salário cresceu 15,72% nos últimos dois anos.
Além disso, Rosa, a mulher e os filhos engordam sua renda com os R$ 95 do Bolsa Família, benefício social que tem um grande peso na economia do Nordeste, principalmente nas áreas rurais.


Ganho de renda no Rio só perde para o de Belo Horizonte

No Sul do país, para a catarinense Fabíola Silva Leite, a passagem da situação de miséria não está marcada na carteira de trabalho nem em extrato de conta bancária. Esses documentos ainda lhe faltam. A prova de que conseguiu romper a linha estatística é o carnê de uma loja de departamentos. Há quatro meses, pela primeira vez na vida, ela conseguiu obter crédito formal. Acertou seis parcelas de R$ 30 e comprou o sonhado aparelho de DVD para o lazer da família.

— Só faltam duas prestações.

Nunca imaginei que iria conseguir. Fabíola faz a triagem de materiais recicláveis da Associação Recicladores Esperança (Aresp) há um ano e oito meses. Quando chegou à equipe, conseguia uma renda de R$ 35 por semana. Nos últimos meses, fatura mais, em torno de R$ 400 por mês: — Todo o dinheiro é para a comida. A gente pensa primeiro na barriga dos filhos, não sobra para comprar roupa.

Outro desempenho regional que chamou a atenção foi o do Rio de Janeiro. Segundo André Urani, do Iets, a Região Metropolitana do Rio, que concentra 75% da população fluminense, reduziu em 19,28% o número de pobres.

O que significou menos 600 mil pessoas ganhando até R$ 183 (a linha de pobreza do Iets é diferente da usada pela FGV). Na indigência (R$ 92 de ganho domiciliar per capita), a queda foi ainda maior: 24,8%. No ganho de renda, o Rio, com alta de 12,23%, só ficou atrás de Belo Horizonte.

— O Rio saiu-se melhor que o Brasil, na renda, na pobreza e na indigência. E a Região Metropolitana, em crise há mais de dez anos, renasceu. Cresceu mais que o resto do estado nesses indicadores, invertendo tendência de quase uma década — disse Urani.

(*) Especial para O GLOBO

19/09/2007 - 10:39h Governo Lula: Pobreza teve queda recorde em 2006

Número de pobres caiu 13,4% e o de indigentes, 17%, mas as regiões mais pobres tiveram as menores reduções

Fernando Dantas, RIO

O Estado de São Paulo (para assinantes)

A pobreza no Brasil diminuiu 13,4% no ano passado, passando de 29,5% para 25,6% da população. A extrema pobreza teve redução de 17%, caindo de 11% para 9,1%. Com isso, cerca de 7,3 milhões de brasileiros deixaram de ser pobres e 3,5 milhões saíram da indigência (extrema pobreza). Nos dois casos, foram as maiores quedas desde 1996.

Em 2006, porém, a pobreza e a indigência caíram de forma mais intensa nas regiões mais ricas. A pobreza diminuiu 10,4% na Região Norte e 10,2% na Região Nordeste, menos que a média nacional, de 13,4%. Nas regiões mais ricas, Sudeste, Centro-Oeste e Sul, a pobreza caiu mais que a média nacional – respectivamente 18,8%, 21,5% e 15,8%.

O mesmo fenômeno aconteceu com a indigência, que caiu 14,2% na Região Norte, 14,7% na Nordeste, e, respectivamente, 24,4%, 24,2% e 17,2% nas Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul. A média nacional foi 17%.

O Nordeste tinha o maior porcentual de pobres em 2006 (46,4%) e de indigentes (19,8%). Os melhores números foram os do Sudeste, com, respectivamente, 14,8% e 3,9%.

A queda menor da pobreza e da indigência nas regiões mais pobres é um sinal, segundo Mauricio Blanco, pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), no Rio, de que a aceleração do crescimento econômico pode estar trazendo de novo os impactos negativos da falta de educação na distribuição de renda.

Assim, em regiões onde a população pobre tem deficiências mais sérias de educação, os mais ricos tendem a se beneficiar mais do crescimento.

Os números foram calculados pelo Iets, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2006, usando linhas de pobreza e de indigência (atualizadas) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A linha de pobreza média do Brasil (ela varia por região) corresponde a uma renda familiar per capita de R$ 167, e a de indigência, de R$ 83.

Não é possível determinar qual foi a queda específica de 1994 e 1995 porque não houve Pnad em 1994. Mas a redução do número de pobres e indigentes em 2006 foi maior que a média anual de 1994 e 1995, quando os efeitos do Plano Real provocaram uma forte melhora nos indicadores sociais.