21/01/2009 - 14:09h Acidentes e articulistas convidados

Depois do acidente em Congonhas com o avião da TAM e após a Folha de São Paulo ter publicado com destaque um artigo acusando o governo federal de assassino, o Ombudsman do jornal na época, prodigou sábios conselhos, que reproduzo a seguir.

São Paulo, domingo, 05 de agosto de 2007

“Governo assassina mais de 200″

Com a fumaça ainda enevoando a tragédia, o psicanalista Francisco Daudt, colunista da Revista da Folha, escreveu, fora do seu espaço habitual, um artigo publicado no dia 19 de julho.
Começava assim: “Gostaria imensamente de ter minha dor amenizada por uma manchete que estampasse, em letras garrafais, “GOVERNO ASSASSINA MAIS DE 200 PESSOAS”. [...] O que ocorreu não pode ser chamado de acidente, vamos dar o nome certo: crime”.
Pelo que se sabe hoje, a gestão aeroportuária não foi determinante para o desastre.
No dia 20, o escritor e piloto Ivan Sant’Anna disse em artigo que o Airbus estava “arremetendo” (tentando levantar vôo) quando bateu. No dia 23, o diretor de teatro Gerald Thomas bancou que o piloto da TAM “tentou arremeter”.
Até agora, os fatos divulgados sugerem o contrário.
A Folha ganharia se não restringisse aos seus jornalistas a orientação de não firmar “certezas” técnicas sem comprovação sobre acidentes aeronáuticos. A norma deveria se estender aos articulistas convidados.”

Hoje, após a tragédia do desabamento do templo de Cambuci, a Folha publica artigo com “certezas técnicas sem comprovação” de “articulista convidado”.

Aparentemente a Folha não levou em consideração os conselhos do seu ombudsman.

Em sua defesa, o jornal poderá arguir que diferentemente do tratamento dado ao acidente da TAM, desta vez o “articulista convidado” diz com todas as letras “Açodadamente, procura-se responsabilizar a prefeitura pelas tragédias, seja por não ter fiscalizado os edifícios, seja por ter concedido os alvarás sem maiores cuidados. A questão central não é a documentação da obra.” e até acrescenta “A prefeitura não entra e nem deve entrar no mérito do trabalho técnico das obras.”

A Folha poderá arguir que incorporada a lição sobre ilações e acusações sem fundamento, agora as autoridades estão preservadas de qualquer acusação sem provas.

Ela pode também, mais prosaicamente, dizer que não é responsável pelos palpites contidos em artigos assinados e que aquele de 2007 tinha um viés antigovernamental e o de hoje pro-prefeitura, por exclusiva responsabilidade dos seus autores.

A arguição da Folha deixará satisfeitos os seus leitores? LF

artigo

Documentação perfeita, técnica desprezada

LÚCIO GOMES MACHADO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Surpreendidos pela Justiça, infratores menores ou maiores não mais negam seus delitos. Cinicamente afirmam: “Não há provas”.
Uma forma análoga de desfaçatez tem comparecido no noticiário: “A documentação está em ordem!”.
Dez anos depois da tragédia do desabamento de um templo evangélico em Osasco, uma nova tragédia semelhante nos choca. Outro templo, também resultado de adaptação de antigo cinema à nova função, desaba. Em Osasco, 25 pessoas morreram e 467 ficaram feridas.
Agora, nove morreram e mais de cem foram machucadas. Neste ínterim, o crime constatado na tragédia de Osasco prescreveu -deixando de punir oito pessoas condenadas em primeira instância- e a “bancada evangélica” impediu a instalação de CPI para averiguar as condições de segurança de templos. Crime perfeito?
Açodadamente, procura-se responsabilizar a prefeitura pelas tragédias, seja por não ter fiscalizado os edifícios, seja por ter concedido os alvarás sem maiores cuidados. A questão central não é a documentação da obra.
Podemos ter certeza: se a documentação não estiver em ordem, rapidamente será regularizada. Há dezenas de firmas de despachantes especializadas nesse campo.
A prefeitura não entra e nem deve entrar no mérito do trabalho técnico das obras. Seu papel é traçar diretrizes urbanísticas, determinar as normas e os padrões de desempenho a serem atendidos por cada tipo de edificação e uso. Deve, sem dúvida, zelar pela garantia da presença de profissionais habilitados e qualificados na condução de projetos, consultorias e obras, além de fiscalizar o efetivo cumprimento desses padrões.
Cabe aos profissionais -arquitetos e engenheiros- garantir a segurança e a qualidade técnica e estética das edificações. Isso não ocorre com a simples assinatura de uma planta, mas ao longo de exaustivo processo de projeto, de direção técnica da obra e de manutenção do edifício.
Deixando de ser objeto de tais ações especializadas, os edifícios nascem defeituosos, adoecem, entram em colapso, morrem e matam.
Por outro lado, é preciso que os profissionais tenham consciência de suas limitações, assumam suas responsabilidades. Mas, para que possam trabalhar, devem ser respeitados como detentores de conhecimento específico que ultrapassa, em muito, o senso comum.
O problema tem se tornado mais grave: tanto a iniciativa privada quanto o poder público têm optado por contratar serviços de arquitetura e de engenharia pelo menor preço, sem exame do mérito técnico do que vai ser elaborado. Isso equivale a comprar a pior qualidade pelo maior preço, como se constata nesses casos: mortes em desabamentos perfeitamente evitáveis se algum profissional competente tivesse examinado periodicamente a estrutura em vez de ter sido contratado algum “esperto” para construir uma documentação vazia.


LÚCIO GOMES MACHADO é arquiteto, professor doutor da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP, ex-vice-presidente do Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo, do Instituto de Arquitetos do Brasil (Departamento de SP) e do Crea-SP
Folha de São Paulo hoje, 21/01/2009