14/05/2010 - 11:03h Ilan Goldfajn ex-diretor do BC: Previsão de crescimento de 7,5% do PIB não muda

O GLOBO

Embora o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tenha afirmado que o governo quer evitar um crescimento econômico acima de 7%, o Itaú-Unibanco mantém sua projeção de um avanço de 7,5% do PIB brasileiro este ano, a despeito do corte de gastos. Segundo o economista chefe do maior banco privado do país, Ilan Goldfajn, essa previsão já contemplava uma política fiscal mais restritiva.

— Já prevíamos uma desaceleração razoável a partir do segundo trimestre, ou seja, nossa estimativa já tinha implícita alguma ajuda da política fiscal, porque só com juros é difícil desacelerar tão rapidamente – afirmou Goldfajn, ex-diretor do Banco Central (BC) A previsão do Itaú é que o governo vai cumprir a meta fiscal de superávit de 3,3% do PIB, mas com desconto dos investimentos do PAC.

Na prática, o esforço será de 2,7% do PIB. (Luciana Rodrigues)

09/05/2010 - 11:30h Para Brasil, piores riscos são indiretos


Economistas acham que o País, com dívida pública comparativamente modesta e grandes reservas, está mais preparado para crise

Fernando Dantas – O Estado de S.Paulo

Se os efeitos no mercado financeiro do agravamento da crise grega podem ser severos, o Brasil conta ao menos com uma situação relativamente favorável em termos econômicos mais amplos para resistir à piora do cenário internacional. Com reservas de US$ 250 bilhões, e uma dívida modesta comparada ao padrão dos países problemáticos, o Brasil não está no mapa das preocupações dos investidores internacionais com a solvência dos países e dos seus setores públicos.

“O caso grego certamente foi muito mais patológico do que o do Brasil, que preserva alguma disciplina fiscal, tem alguma meta de superávit primário, e onde não se vê uma trajetória crescente de dívida”, resume Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Santander no País.

Na realidade, os analistas que se debruçam sobre os possíveis impactos da crise grega no Brasil são quase unânimes em avaliar que tudo depende muito de um fator imponderável: quão grave se tornará a situação na Europa.

Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco, pondera que, no caso de uma forte desaceleração do crescimento europeu, o Brasil perderia algo pelo lado do comércio internacional, mas não seria nada trágico.

O risco maior, para Goldfajn, “é o problema europeu desorganizar outras regiões e acabar todo mundo afundando junto; o perigo não é o efeito direto, mas sim o indireto.”

Schwartsman vem trabalhando no detalhamento de um paralelo entre os eventos do fim de 2008, com a quebra do Lehman Brothers, e a crise atual. Ele nota que a crise global de 2008 e 2009 teve três elementos: a fuga de capitais para os Estados Unidos, mesmo com o país sendo o epicentro da turbulência; o colapso do preço das commodities; e a contração global do crédito.

Segundo o economista, no atual episódio de turbulência, ficou evidente que houve um pouco dos dois primeiros efeitos, embora em dimensões totalmente diferentes daquelas da crise pós-Lehman. Assim, o dólar está se fortalecendo, com a fuga de capitais na direção de ativos americanos. “A desvalorização do real agora também é em parte o outro lado da moeda da valorização do dólar”, ele analisa.

Baque. As commodities, por sua vez, sentiram um certo baque, o que também se liga à trajetória do dólar. Quando a moeda americana se fortalece, as commodities tendem a cair. Isso afeta em particular moedas sabidamente ligadas às commodities, como o real brasileiro e o dólar australiano.

Onde Schwartsman vê menos paralelismo entre a turbulência atual e a grande crise global é na área de crédito. Se o problema ficar confinado à Grécia, não é tão grande em termos absolutos.

Mas, mesmo que se espalhe, o estrago agora é bem conhecido, e já se reflete no preço dos papéis dos países europeus atingidos, ao contrário da crise pós-Lehman, em que o tamanho e a localização das perdas com derivativos era desconhecido, o que ajudou a disseminar o pânico.

Particularmente no Brasil, nota o economista, não parece haver agora nada parecido com as perdas de grandes empresas com derivativos cambiais que ocorreu na crise de 2008 e 2009.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, sócio da Quest Investimentos e ex-ministro das Comunicações, acha que uma das características da atual crise que a faz menos ameaçadora do que a de 2008 e 2009 é que a economia americana se encontra em melhor forma. “E o sistema bancário americano não tem essa péssima dívida que está trazendo problemas na Europa.”

Mendonça de Barros considera que a situação relativamente boa do Brasil em termos de endividamento público é um dos maiores diferenciais positivos do País aos olhos dos investidores internacionais.

22/09/2009 - 09:29h Emprego puxa crescimento nos próximos meses

Jefferson Dias / Valor
Foto Destaque
O ex-diretor do BC Ilan Goldfajn acredita que a crise global ficou para trás

Luciano Máximo, de São Paulo – VALOR

Depois de experimentar um crescimento essencialmente concentrado no avanço do consumo e de setores setores beneficiados pelas medidas anticíclicas do governo federal, a atividade econômica no país voltará a crescer de maneira disseminada. A avaliação é do economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco Central (BC). Ele disse ontem que a retomada do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro nos próximos trimestres será ancorada principalmente pelo forte aquecimento do mercado de trabalho, além da retomada da economia mundial.

“O mercado de trabalho terá retomada de fôlego com a volta do crescimento da população ocupada e da renda. Aumento da massa salarial e a retomada de crédito melhoram as perspectivas de vendas”, opina Goldfajn. Em agosto, o país comemorou a criação de 242.126 empregos formais e sonha em fechar 2009 com saldo de 1 milhão de vagas abertas.

Aurélio Bicalho, economista da equipe de Goldfajn, lembrou que o corte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos zero quilômetro país foi fundamental para a expansão da economia entre abril e junho. “A indústria cresceu 2,1% no segundo trimestre na comparação com os três primeiros meses do ano, e o setor automotivo sozinho respondeu pela metade desse crescimento.” Os economistas lembraram também que a forte demanda chinesa ajudou a impulsionar o PIB no segundo trimestre.

A dinâmica do mercado de trabalho também deverá estimular o restabelecimento do crédito. “A decisão das empresas de contratar significa mais confiança na economia, por isso esperamos que os empréstimos, principalmente para pessoa jurídica, voltem ao longo do ano”, aposta Goldfajn. Apesar das previsões positivas, o PIB de 2009 fechará 2009 com queda de 0,6%, segundo o economista. O crescimento projetado para 2010 é de 4,8%.

No lado da demanda externa, o economista-chefe do Itaú Unibanco acredita que o Brasil, ao lado de Índia e China, deverá substituir os Estados Unidos como um grande mercado consumidor mundial, atraindo recursos estrangeiros e reforçando o déficit das transações correntes do país – estimado pela equipe econômica do banco em 1% do PIB em 2009 e 2,6% em 2010. Já em relação à retomada dos investimentos internos, o economista é mais pessimista. “Vão crescer pouco nos próximos trimestres.”

29/08/2009 - 20:26h Um ano depois, Brasil sai da crise mundial maior do que entrou

Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise global, o otimismo com o País tornou-se consenso

Fernando Dantas, de O Estado de S. Paulo

RIO – O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O’Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ‘esse cara é bom’”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O’Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.