06/04/2009 - 14:09h Brazuca em Paris

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Severino Francisco – Correio Braziliense

Severinofrancisco.df@diariosassociados.com.br

“Vou voltar, vamos comigo?”, perguntou a namorada francesa, de passagem pelo Brasil. E, sem pensar muito, meio na louca, o brasiliense Daniel Carrielo se mandou para Paris com Charlote, a namorada francesa. Certo dia, encontrou numa banca uma revista sobre cultura brasileira, intitulada Brazuca. Na edição seguinte, ele já era o cronista de Brazuca. E, três meses depois, tornou-se o editor. Sem desmerecer o Itamaraty, a revista faz um pouco o papel de embaixadora do Brasil na França.

Brazuca tem uma tiragem de 20 mil exemplares e é feita, principalmente, para belgas e franceses apaixonados pela cultura brasileira. Não é uma revista de comunidade, dirigida apenas aos brasileiros. O que a revista pretende passar é uma visão diferente do Brasil, longe dos estereótipos. Por isso, ela entrevistou o compositor Tom Zé, o jogador Nilton Santos, a atriz Brigitte Bardot e o diretor de cinema Fernando Meirelles. No ano passado, logo após um show do Gilberto Gil na França, Daniel levou a revista para que ele a conhecesse: “Ah, é a Brazuca? Já conheço, gosto dela”, comentou Gil.

No ano passado, Brazuca foi além do papel e lançou virtualmente duas coletâneas de música brasileira. A primeira foi do rock independente, em parceria com o site Senhor F. E a segunda foi com a produtora, selo e festa Criolina, com as novidades do groove brasileiro. Ambas tiveram um alto índice de downloads.

O Nélson Rodrigues escreveu uma crônica hilária sobre a passagem do filósofo francês Jean-Paul Sartre pelo Brasil. Segundo a ótica delirante do Nelson, Sartre olhava para todos os brasileiros com um franco desprezo, como se dissesse: “Vocês são todos uns cretinos”. Aí alguém trouxe um balde de jaboticabas e o Sartre passou a mirar as frutas com o mesmo asco: “Vocês também são umas cretinas”.

Embora achando graça na história, Daniel discorda inteiramente do Nelson, pois os franceses são fascinados pelo Brasil e pela cultura brasileira. O brasileiro tem uma ginga que o francês não tem, argumenta Daniel. Essa ginga pode ser representada por manifestações culturais como o samba, a capoeira, o funk. Pelo drible no futebol. Ou pela capacidade que o brasileiro tem de se adaptar rapidamente às situações imprevistas, o famoso jogo de cintura. Os franceses gostam de samba, de Cartola, de Beth Carvalho, de Bossa nova, de Cinema Novo, de Glauber Rocha. Mas, atualmente, o brasileiro que reina na França é o pernambucano Lenine.

Morar na França fez com que Daniel olhasse Brasília com novos olhos. No mês passado, ele estava dirigindo e, de repente, deu de cara com a Catedral. Foi um choque estético, pois precisou estar longe do Brasil para perceber o quanto a Catedral é bonita. Mas, por outro lado, ele também se deu conta do enorme equívoco de se conceder tanto espaço para os carros em Brasília. Em Paris, o transporte público é excelente, com 14 linhas de metrô e 20 mil bicicletas públicas. Alargar avenidas não resolve o problema. A solução é investir no transporte público como uma prioridade, sentencia o brazuca e brasiliense desgarrado em Paris.

17/03/2009 - 10:52h EUA e Brasil em lua-de-mel, mas sem álcool

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foto de capa do caderno especial do jornal Valor
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Patrick Brock, The Wall Street Journal, de Nova York – VALOR

Numa reunião na Câmara de Comércio de Nova York, em 2 de novembro de 1863, o pastor James Cooley Fletcher se desdobrou para convencer os empresários locais sobre a importância de estreitar os laços com o Brasil, segundo registro de um jornal da época. Acompanhado dos diplomatas brasileiros Joaquim de Azambuja e Luis Fleury, que traziam uma elogiosa carta da Câmara de Comércio do Rio de Janeiro, Fletcher, um entusiasmado brasilianista, celebrava o início da primeira rota direta de vapores entre as duas principais cidades das jovens nações, Rio de Janeiro e Nova York.

Da pequena frota de vapores subsidiados pelos governos dos dois países, as relações comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos evoluíram desde então para uma balança comercial de pouco mais US$ 53 bilhões em 2008, com saldo positivo de US$ 1,8 bilhão para o Brasil. O diálogo transnacional também passou para esferas muito mais altas e hoje o Brasil é considerado pelos EUA como um importante parceiro no desenvolvimento de relações multilaterais, dizem especialistas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi apenas o terceiro chefe de Estado a ser recebido pelo presidente americano Barack Obama, e o primeiro da América Latina, em um encontro sábado na Casa Branca.

Não há nenhum Fletcher hoje pressionando o governo americano a melhorar o relacionamento com o Brasil, mas o momento atual é favorável, segundo vários especialistas. Embora ainda ocorram embates sobre questões comerciais, há boas perspectivas de cooperação em áreas como combate ao tráfico de drogas, mudanças climáticas e relações multilaterais. O governo Obama também tem sinalizado um posicionamento mais flexível em relação a Cuba, o que provavelmente agradaria o governo Lula. Além disso, o Brasil é visto como um país que desfruta de boas relações na América Latina de maneira geral, o que pode ajudá-lo a servir de ponte para um novo diálogo entre os EUA e a região, dizem os especialistas. Após uma reunião com Lula sábado, Obama disse que pretende usar o relacionamento com o Brasil para reforçar os laços com a América Latina.

É claro que a grandiosidade da crise econômica nos EUA e no mundo, e os conflitos no Iraque e no Afeganistão podem dificultar que o governo de Obama dê prioridade à América Latina em sua agenda internacional num futuro próximo, diz o cientista político Riordan Roett, da Universidade Johns Hopkins. “A atitude atual é benigna, mas a escalada da violência no México, fruto da guerra contra o narcotráfico, o policiamento da fronteira com esse país e os efeitos da queda nas remessas de imigrantes devem ganhar mais destaque na agenda do governo Obama” em se tratando de relações com a América Latina, diz Roett, que recebeu em 2000 a medalha da Ordem de Rio Branco das mãos de Fernando Henrique Cardoso.

O convite de Obama para Lula visitar Washington também é um bom sinal, diz Roett, para quem a cooperação entre os dois países no contexto atual é muito mais abrangente do que as questões bilaterais, especialmente com o papel preponderante do Brasil na construção de mecanismos multilaterais. “Se Obama quiser ativar a Rodada Doha, vai precisar do Brasil.” Brasil e EUA se reúnem novamente no início de abril, na conferência do G-20 em Londres, e em 17 de abril para a V Cúpula das Américas, em Port of Spain, Trinidad e Tobago.

Segundo Luiz Alberto Moniz Bandeira, professor aposentado de política exterior do Brasil da Universidade de Brasília, os dois países “não podem deixar de se considerar, (pois) são as duas maiores massas geográficas, demográficas e econômicas do continente”. Moniz aponta também a diminuição na importância dos EUA para as exportações brasileiras, que passaram a ser dominadas pela União Europeia e países emergentes. “O Brasil quer se aproximar dos EUA apenas na medida em que os EUA queiram se aproximar do Brasil”, diz Moniz.

Em entrevista coletiva em 25 de fevereiro, logo após se reunir em Washington com Hillary Clinton, o chanceler Celso Amorim disse que uma prioridade para reativar as negociações multilaterais para o comércio mundial é a confirmação pelo Congresso do indicado para o cargo de representante comercial dos EUA, Ron Kirk. A nomeação ainda está pendente, enquanto pesam sobre Kirk questões relativas a sua declaração de renda.

“O diálogo entre os dois governos realmente evoluiu nos últimos anos e acredito que o governo Obama continuará desenvolvendo isso”, diz Julia E. Sweig, diretora de estudos latino-americanos do Council on Foreign Relations, um centro de pesquisas que tem sede em Nova York e se descreve como não-partidário e independente. A política comercial entre os dois países, contudo, ainda “não foi bem resolvida”. Embora haja muito interesse no Brasil, diz Sweig, especialmente em relação às recentes descobertas petrolíferas e à indústria do etanol, a falta de conhecimento aprofundado sobre o país pode ser um obstáculo para as relações entre os dois países. “O pessoal da política exterior (do governo Obama) está preocupado com México, Cuba e, em terceiro lugar, o Brasil. Mas ainda existe um grande déficit de conhecimento sobre o Brasil e como dialogar com o país em meio à classe política em Washington”, diz.

Questões comerciais também se interpõem entre os dois países. Um dos pontos de debate é a tarifa de US$ 0,14 por litro de álcool combustível importado do Brasil nos EUA. Ela foi mantida na legislação agrícola aprovada em 2008 e está em vigor até o fim de 2010. A demanda por álcool combustível nos EUA vem crescendo, mas o país tem sua própria produção, à base de milho, e os produtores locais têm bastante influência em Washington.

“Barack Obama quer expandir a produção de energia renovável na América Latina de uma maneira que promova a auto-suficiência e crie mais mercados para fabricantes e produtores americanos de biocombustíveis”, diz o plano para a América Latina divulgado ano passado pelo então candidato. Obama reafirmou sua posição ao dizer após a reunião com Lula que o etanol é um “tema tenso” entre os dois países, que não vai mudar de um dia para o outro.

Joel Velasco, representante-chefe para a América do Norte da União da Indústria de Cana-de-Açúcar do Brasil (Unica), tem esperança de que políticos contrários à tarifação apresentem novas emendas que modifiquem a legislação agrícola. Velasco diz que os senadores e deputados das regiões costeiras tendem a apoiar a redução da tarifa, já que não produzem etanol e geralmente são obrigados a pagar mais caro pelo produto. Ele cita como favoráveis à redução da tarifa os senadores republicanos Richard Lugar e Judd Gregg.

Representantes dos senadores confirmaram que eles apoiam a redução da tarifa, mas disseram que no momento não há planos de introduzir nova legislação. Gregg chegou a apresentar em junho do ano passado um projeto de lei para reduzir a tarifa para US$ 0,12 por litro, sob o argumento de que a medida baixaria o preço da gasolina – na época o barril de petróleo estava acima de US$ 140, enquanto agora flutua na casa dos US$ 40. O projeto acabou morrendo no Congresso.

Gregg tinha sido indicado para ocupar a Secretaria de Comércio, um cargo que vem rendendo dor de cabeça a Obama, mas acabou desistindo sob a alegação de que havia “diferenças irresolúveis” com a política do novo presidente. O cargo em questão ainda está vago e Obama indicou recentemente o ex-governador do Estado de Washington Gary Locke, que aguarda confirmação.

26/02/2009 - 11:34h Crise afunda economia espanhola

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Após anos de crescimento alto, puxado por abundância de crédito, desemprego explode no país

Adoção do euro limita ação do governo; empresários querem reforma trabalhista e economistas preveem retomada lenta e dolorosa

VICTOR MALLET DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

Quando um dos maiores clubes de futebol de um país tão fanático pelo esporte quanto é a Espanha deixa de pagar seus jogadores, é um aviso de que algo pode estar drasticamente errado em uma das economias mais bem sucedidas na Europa.
David Villa é um dos jogadores do Valencia cujo último salário está atrasado por tempo indeterminado pelo clube, fortemente endividado. Villa é apenas mais um entre o número crescente de vítimas, ricas e pobres, de um mergulho na recessão que se encaminha para ser uma das piores da Europa.
As tensões estão começando a se manifestar na sociedade espanhola, normalmente tranquila e tolerante. Vendedores de rua e africanos residentes no país fizeram duas manifestações neste mês em Lavapiés, em Madri, protestando contra o alegado racismo e as investidas policiais; subsequentemente, veio à tona que a polícia da capital recebeu cotas semanais de imigrantes ilegais que deve prender. Em Andaluzia, no sul, milhares de imigrantes sem comida ou abrigo invadiram cidades procurando em vão trabalhos na colheita de azeitonas já tomados por espanhóis.
Guindastes estão parados em obras na costa espanhola e nas periferias. Muitas lojas pequenas no centro de Madri fecharam. Um dono de construtora arruinado é acusado de cinco assaltos a bancos.
“Não vamos ter uma recessão. Vamos ter uma depressão, como nos anos 1930″, diz o economista Lorenzo Bernaldo de Quirós, presidente da Freemarket International Consulting. Quirós é um dos analistas mais pessimistas, mas se justifica apontando previsões quase consensuais: o desemprego atingindo 19% até o final do ano (contra mais de 14%, ou 3,3 milhões de pessoas, hoje); um déficit orçamentário de ao menos 6,5% do PIB; contração econômica de 3% ou mais em 2009, e, possivelmente, uma deflação. “Somado à crise financeira, este é o quadro perfeito para definir uma depressão”, conclui.
Essa depressão pode atingir a economia espanhola -uma das dez maiores do planeta e a quarta da zona do euro- com tanta gravidade que pode fazê-la perder muitos dos ganhos conquistados na década passada desde a adoção do euro.
Até a chegada da crise global, a Espanha tinha desempenho elogiável. Seu retorno à democracia e à prosperidade após uma guerra civil e a ditadura Franco é, afinal, uma das grandes histórias de sucesso da Europa do pós-guerra. Nos dez anos terminados em 2006, o crescimento real chegou à média anual de 3,7%, contra 2,1% na zona do euro. O PIB per capital subiu para mais de 90% da média dos 15 principais países ocidentais da União Europeia.
Essa expansão ajudou a gerar mais de 5 milhões de empregos e a atrair mais imigrantes, como proporção relativa à população, que qualquer outro país da Europa. A construção civil, financiada pelo crédito fácil, foi o motor principal da economia durante uma década -e aí está a origem das dificuldades. Como nos EUA e no Reino Unido, a bolha imobiliária se rompeu, com grande força.
Estimados 1 milhão de casas e apartamentos recém-construídos estão desocupados. A construção residencial -que respondeu diretamente por 7,5% do PIB em 2006- está quase parando. O lobby que representa 14 grandes construtoras anunciou que não iniciou a construção de uma única casa nova em dezembro e só 135 em todo o quarto trimestre de 2008. “Durante 15 anos, o padrão de crescimento da economia espanhola foi baseada em mercados financeiros com alto grau de liquidez – e liquidez barata”, diz Rafael Doménech, economista-chefe para a Europa do banco espanhol BBVA. “Foi ótimo para a economia espanhola que as famílias e as empresas usassem essa liquidez para aumentar sua dívida.”
E foi o que elas fizeram. A dívida do setor privado dobrou em uma década, chegando a 120% do PIB. Com boa parte do crédito vindo de aposentados alemães e outros poupadores, através de títulos de crédito espanhóis avalizados por hipotecas, o déficit de conta corrente chegou a mais de 10% do PIB. Com o novo ambiente dos mercados financeiros, diz Doménech, “não podemos esperar usar o mesmo modelo de crescimento dos últimos dez anos”.
Teoricamente, a Espanha poderia substituir a atividade da construção com o aumento da produção em outros setores. O país é uma das economias mais abertas do mundo, e suas empresas nos setores de moda, energia renovável, infraestrutura e bancos têm sido investidores externos e exportadores ativos. Mas outras economias não estão em condições de assumir o lugar da construção. A indústria automotiva espanhola, responsável por um quinto das exportações do país e 6% de seu PIB, está lutando para fazer frente à queda na demanda doméstica e externa. O turismo, que movimenta 50 bilhões, caiu 3% no ano passado -a primeira queda anual desde 97.
O premiê socialista José Luis Rodríguez Zapatero seguiu o mesmo caminho que outros líderes na crise, anunciando uma enxurrada de planos de gastos governamentais, numa tentativa de combater o aumento do desemprego e evitar uma depressão prolongada. Miguel Sebastián, seu ministro da Indústria, vem flertando com o protecionismo -embora negue a acusação-, lançando uma campanha de “compre produtos espanhóis”.
Mas não há certeza alguma de que as medidas de gastos -algumas anunciadas apesar das objeções do ministro das Finanças e ex-responsável pela restrição fiscal, Pedro Solbes- terão os efeitos desejados. O que é certo é que a margem fiscal de manobra do governo, com o déficit orçamentário projetado já sendo mais que o dobro do teto de 3% do PIB permitido pela UE, é fortemente limitada. Embora a dívida pública acumulada ainda seja relativamente modesta, a deterioração das finanças públicas levou a agência de classificação Standard & Poor’s, no mês passado, a tirar da Espanha sua classificação AAA.
Em crises anteriores, a Espanha simplesmente desvalorizou a peseta para aumentar a competitividade das exportações e atrair investimentos -o caminho seguido agora pelo Reino Unido-, mas uma desvalorização unilateral deixou de ser uma opção possível para um membro da zona do euro.
Quase todos os executivos, economistas ortodoxos e políticos da oposição de direita concluem que a única maneira de a Espanha emergir da crise mais forte -ou sobreviver a ela dentro dos limites da zona do euro- é aumentar sua produtividade e competitividade, adotando reformas estruturais. O que querem dizer é que empregados possam ser contratados e demitidos mais facilmente, a um custo menor, e que os salários sejam definidos por empresas, não por setores.
Na semana passada, o presidente do Banco Central, Miguel Angel Fernández Ordóñez, irritou o governo ao descrever a reforma trabalhista como a medida “mais importante” contra o desemprego.
Enquanto isso, o fim da alta performance econômica deixa a dúvida: será que o país poderá retomá-la ao final da crise global? Para os economistas, a construção foi uma parte tão importante que a recuperação inevitavelmente será lenta. “A economia espanhola levará cerca de sete anos para crescer a 3% ao ano novamente”, diz Bernardo Quirós. “Os espanhóis perderão metade de sua riqueza. É horrível.”

Tradução de CLARA ALLAIN

21/11/2008 - 17:52h “Os Irmãos Karamabloch”

CARLOS HEITOR CONY


Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua autobiografia

FAMÍLIA DE 17 PESSOAS chegou ao Rio de Janeiro em 1922, na terceira classe do “Re d’Italia”. Eram ucranianos, genericamente russos, mas, sobretudo, judeus. O patriarca, Joseph Bloch, tivera uma gráfica em Kiev, chegara a imprimir o dinheiro do efêmero governo de Kerenski. Decidira tentar inicialmente os Estados Unidos, mas a cota de imigrantes para aquele país estava fechada, a alternativa foi vir para o Brasil.
Este não foi o início dos Blochs.
Antes da viagem, já se podia falar numa “saga”, com lances que um dos descendentes do clã acaba de lançar: “Os Irmãos Karamabloch” (Companhia das Letras, 344 págs., R$ 48).
Para levantar a sua história, Arnaldo pesquisou durante sete anos, foi a Jitomir e Kiev, entrevistou muita gente e foi testemunha da etapa final de um império da comunicação que teve ascensão e queda -como, de resto, todos os outros impérios tiveram e terão.
O assunto era bom e vasto. Muitos o tentaram, mas desanimaram por um motivo ou outro. Uma biografia tradicional, com princípio, meio e fim, na linguagem correta e oficial para este gênero de livro, com obediência da ordem cronológica e sem assumir deliberadamente a lenda e a história, não daria o resultado que Arnaldo Bloch conseguiu. Antes de mais nada, ele usou a linguagem e a técnica do romance -gênero no qual estreou, com “Amanhã a Loucura”, e continuou com “Talkshow”.
O charme do livro é que o narrador funciona como personagem da trama, recurso que Proust e outros memorialistas também usaram.
Evidente que o foco principal é dedicado aos três Blochs que Otto Lara Resende, frasista famoso, que também é personagem do livro, chamou de “Irmãos Karamabloch”.
Ou seja, os filhos do patriarca: Boris, Arnaldo e Adolpho. As filhas de Joseph funcionam, na narrativa, como o coro das tragédias gregas: comentam a ação, sugerem e sofrem, de certa forma, as conseqüências.
Uma noite dos anos 80, Leonardo e Iná, pais de Arnaldo, trouxeram o rebento para jantar em minha casa, trazendo também o Rodian, um setter que era parente da minha Mila.
Naquela época, Arnaldo estava numa encruzilhada vocacional: por gosto e influência de sua geração, queria se dedicar à música -e era bem dotado para isso. Sentia apelos pela literatura e pelo jornalismo, mas, se dependesse dele, naquela ocasião, seria um músico, intérprete ou compositor.
O pai não era contra, mas preferia que Arnaldo fosse escritor. Daí que me pediu para conversar com o filho. Conversa vai, conversa vem, Arnaldo saiu lá de casa levando alguns livros que lhe indiquei, inclusive um de Balzac, “Grandeza e decadência de César Biroteau”. Levou também Kafka, Goethe e outros.
Mais tarde, após ocupar diversos cargos na empresa da família, foi para “O Globo”, onde, hoje, assina uma crônica semanal e faz reportagens especiais. Um dia, me procurou com os originais de seu primeiro romance, que seria publicado pela Nova Fronteira e que hoje tem uma edição de bolso. Depois veio o segundo, já na Companhia das Letras, que apostou em Arnaldo e patrocinou sua ida a Kiev.
Foi longa a escritura do livro, mais romance do que biografia, embora seja as duas coisas. Basta citar o princípio e o fim da ação: o pai de Arnaldo no salão escuro do apartamento, olhando em silêncio a praia de Copacabana. Cena que se repete ao final, fazendo da ação principal um enorme flashback, em que misérias e grandezas compõem um movimentado gran guignol que lembra Dostoiévski em alguns momentos, em outros o Máximo Gorki de “Os Pequenos Burgueses”.
A figura de Abrascha, que se tornaria Adolpho e que na opinião do tio Jorge “nem era para ter nascido”, ocupa grande parte do primeiro plano da narrativa. Com suas contradições, a compulsão pelos grandes gestos e a submissão aos momentos de cólera, nem sempre justa, fazem dele um dos personagens mais polêmicos, que encantou e provocou ódios de duas gerações de jornalistas e banqueiros.
Por isso mesmo, o livro do seu sobrinho-neto só podia ser escrito como Arnaldo o fez. Sem elogio e sem censura. Não funcionou como o biógrafo preocupado com o rigor histórico e a opinião da crítica. Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua possível autobiografia.

15/11/2008 - 15:18h Sorria, meu bem, sorria


Lentidão recorde após restrições à carga: 230 km

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Renato Machado – O Estado SP

O trânsito na capital parou de novo ontem. Às 18h55, a lentidão chegou a 230 quilômetros – 27,5% das vias monitoradas pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Foi o maior índice após a implementação do pacote que teve como principal medida as restrições para caminhões. O recorde histórico é de 9 de maio, quando a lentidão chegou a 266 km, causada, principalmente, por um acidente envolvendo uma carreta.

Conforme a CET, as principais causas foram excesso de veículos, véspera de feriado e dois acidentes na Marginal do Pinheiros. O primeiro foi às 15h43, quando um caminhão que seguia no sentido Ayrton Senna bateu em um poste, atropelou uma pessoa e bloqueou duas faixas. O outro foi a queda de um motociclista no sentido Castelo Branco. As vias mais afetadas foram a Marginal do Tietê, sentido Ayrton Senna; o corredor norte-sul; e a Avenida dos Bandeirantes, sentido Imigrantes.

Em 30 de junho foi criada a Zona de Máxima Restrição à Circulação de Caminhões (ZMRC), área de 100 km² no centro expandido, onde veículos de carga ficaram proibidos de circular entre 5 e 21 horas. Um mês depois, estabeleceu-se rodízio para caminhões nas Marginais e o de placas pares e ímpares para os Veículos Urbanos de Carga (VUCs). A Secretaria Municipal dos Transportes mudou recentemente regras de estacionamento nos Jardins.

14/11/2008 - 11:13h FMI alerta para efeito “boomerang” na crise

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Crédito requer incentivo , diz Banco Mundial

Sergio Leo, VALOR

Grande número de países em desenvolvimento está entrando numa nova zona de turbulência provocada pela crise financeira mundial, e, para evitar conseqüências severas, a paralisação nos mercados de crédito tem de ser atacada rapidamente pelas principais economias do planeta, que se reúnem neste fim de semana em Washington, alertam analistas do Banco Mundial convocados para assessorar o grupo das maiores economias mundiais, o G-20. As condições de crédito tendem a piorar em 2009, e exigem resposta rápida, concordam técnicos do Fundo Monetário Internacional.

Deve ser revisto, para incluir hipóteses mais pessimistas, o cenário de arrocho no crédito traçado pelo relatório sobre estabilidade financeira global, divulgado pelo FMI em outubro. O relatório, já austero, previa que a oferta de crédito não teria nenhum crescimento, e que seriam necessários US$ 675 bilhões para financiamento nos próximos dois anos. A ação dos bancos centrais que injetaram dinheiro nos bancos privados é suficiente para suprir essas necessidades de crédito, avalia o Fundo; mas o problema é que o agravamento da crise deve provocar perdas muito maiores que as esperadas.

O risco do efeito bumerangue, com o reflexos, nos bancos dos países ricos, da crise sobre os emergentes, deve servir de alerta aos governos do G-20, acreditam os técnicos. Uma das principais preocupações dos economistas dos bancos multilaterais é a rapidez com que a crise se espalhou para a Europa e países em desenvolvimento, e se deterioraram as condições de financiamento nos países emergentes, especialmente para o setor privado.

O ajuste nos sistemas financeiros dos países desenvolvidos deve reduzir a disponibilidade de crédito pelos próximos anos, o que torna ainda mais desafiador o cenário para os países emergentes necessitados de financiamento. É grande o número desses países, até hoje beneficiados por fluxos de investimentos diretos que vinham sendo estimulados pelo crescimento nas economias centrais.

Na estimativa do FMI, as necessidades de financiamento nesses países praticamente dobrarão entre este ano e o ano que vem, o que exigirá uma emissão recorde de títulos da dívida. O setor privado deve aumentar suas necessidades de quase US$ 250 bilhões para pouco mais de US$ 470 bilhões; o setor público, de quase US$ 100 bilhões para cerca de US$ 200 bilhões. Isso em uma situação de aumento nos custos dos papéis, e na qual, desde setembro nenhuma empresa de país emergente encontrou condições de emitir títulos no mercado externo, sequer para rolar dívidas existentes.

O “efeito bumerangue” identificado pelo FMI tem duas vias: por um lado a deterioração dos preços dos ativos mantidos por bancos estrangeiros nos mercados emergentes pode levar a fortes perdas nesses bancos, com grande exposição a créditos na Ásia, América Latina e Leste Europeu; por outro, a piora na situação dos bancos europeus pode levá-los a aumentar taxas de risco e reduzir a oferta de crédito, dificultando ainda mais a situação dos países em dificuldades.

Esses são só alguns dos problemas que terão de ser tratados pelos governantes reunidos em Washington, sob um clima de desânimo pela falta de um importante convidado, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama. O encontro já foi apelidado de Bretton Woods II, em comparação com a conferência de Bretton Woods, que criou instituições como o Banco Mundial e o FMI, para lidar com os desafios econômicos após a Segunda Guerra Mundial.

As chamadas instituições de Bretton Woods, habitualmente mais inclinadas a políticas de contenção de demanda em situações de crise, agora defendem que a política fiscal tenha um papel central no esforço para reduzir os riscos de deflação e sustentar o consumo e os investimentos. Cortes nas taxas de juros como os que vêm sendo anunciados pelos países ricos são importantes, mas apenas paliativos para a severa contração de crédito, que deve aumentar em 2009. Isso é especialmente verdadeiro nos EUA, onde já não há mais espaço para novos cortes na taxas de juros, na avaliação dos técnicos.

Os economistas do Fundo concordam com a ênfase de Obama para a necessidade de medidas destinadas a deter a queda no preço dos imóveis e inadimplência nas hipotecas nos EUA. Discordam porem da idéia de criar descontos nos impostos para isso; o mais eficiente, acreditam, será apoio financeiro direto ao setor imobiliário, transferências para governos estaduais para programas nos setor e aumento de gastos com obras públicas.

Na Europa, onde a política monetária ainda é vista como apertada pelo FMI e as pressões inflacionárias decrescem com a queda nos preços de commodities, novos cortes nas taxas de juros podem ser recomendáveis, aliados a medidas coordenadas de expansão dos gastos públicos.

A recuperação dos mercados desenvolvidos é fundamental para lidar com fatores responsáveis pela contaminação da crise nos países emergentes. Além das necessidades de financiamento das dívidas, um grande número de países emergentes registra crescimento em seus déficits de contas correntes, o balanço das transações comerciais, de serviços e de transferências dessas nações com o exterior. Um dos sérios problemas é a queda nas remessas feitas por imigrantes aos países de origem, segundo nota o banco Mundial: em 28 países, essas remessas, que devem chegar a US$ 295 milhões neste ano, são maiores que as receitas de exportação da commodity mais relevantes; em 36 nações são maiores que a entrada de capitais privados ou do setor público. Devem cair rapidamente em 2009, de, em média, 2% do PIB para 1,7% do PIB dos países de destino do dinheiro.

10/11/2008 - 19:01h Duas visões da vitória de Obama

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por Luiz Weis – Verbo Solto

Deu nos jornais. Há poucas semanas, a deputada republicana Michele Bachmann, de Minnesota, disse na televisão que estava “muito preocupada” com a possibilidade de Obama ter “idéias anti-americanas”. No dia seguinte à eleição, ela se declarou “extremamente grata por termos um presidente afro-americano”. A vitória de Obama, exultou, “foi um tremendo sinal que nós mandamos.”

Se fosse mais uma das incontáveis cenas explícitas de adesismo que os políticos se permitem o tempo todo em toda parte (Mangabeira Unger e Eduardo Paes em relação a Lula, por exemplo, guardadas as devidas), o episódio não serviria de gancho para espetar nele um comentário – ou uma provocação – sobre o que parece a este blogueiro um dos aspectos mais interessantes da eleição americana de que a imprensa mundial se ocupou, com pencas de fatos e argumentos, mas, salvo engano, sem parar para discuti-los.

A deputada, a rigor, não aderiu a Obama. O que ela queria, segundo uma interpretação, era “não ficar no lado errado da história”. Isso deve ser verdade também para aqueles americanos que, a julgar por suas manifestações dos últimos dias, sonhavam desde criancinha com a eleição de um negro para a Casa Branca – e com os quais não se devem confundir os milhões de pessoas, dentro e fora dos Estados Unidos, que torciam ardentemente por ele e acham que o mundo ficou melhor depois da maior das terças-feiras da história da América.

Mas não é nem disso que se trata exatamente. O ponto – que remete aos tais fatos e argumentos que inundaram a mídia, sem que ela os tivesse posto em debate – está no fecho da fala da senhora Bachmann.

Repetindo: “Foi um tremendo sinal que nós enviamos”.

Então lá vai: “Nós” quem, cara-pálida?

”Nós”, evidentemente, seriam os Estados Unidos da América – os seus valores de berço com os quais o país, sem distinções, se reencontrou elegendo Obama. Não foi ele próprio quem disse, no discurso de vitória, que a América “é o lugar onde tudo é possível”?

Ou, no título do editorial da edição do último domingo do Observer, de Londres: “A América restaurou a fé mundial nos seus ideais”.

Aceitar esses enunciados pelo seu valor de face implica, primeiro, passar batido pelo fato de que esses ideais – “democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança”, Obama, no mesmo discurso – conviveram durante 76 anos (de 1787, quando foi promulgada a Consitutição de Filadélfia, a 1863, quando acabou a Guerra Civil) com a escravidão legal e, depois, durante mais de um século com a segregação racial, aberta ou disfarçada, em muitas partes da América.

É fato histórico que, entre abolir a escravidão e garantir a unidade das 13 colônias que viriam a formar os Estados Unidos, os “pais fundadores” escolheram a unidade.

É fato histórico ainda que eles adotaram um sistema político – o do voto majoritário, ou distrital, para a eleição do Congresso, combinado com a escolha em última análise indireta do presidente da República – concebido para barrar a ascensão ao poder das minorias, quaisquer que fossem. E adotaram um sistema eleitoral feito para desestimular os mais pobres a votar [“O voto americano visto do Brasil”, neste blog].

Mas é fato histórico também que, em matéria de liberdades individuais, a começar da mais essencial delas, a de expressão, nenhum país iguala os Estados Unidos.

O país, escreveu na semana passada o historiador holandês Ian Buruma, “representa o que o combalido mundo ocidental tem de melhor e de pior”. Pura verdade.

Em segundo lugar e mais prosaicamente, aceitar o enunciado de que “a América” elegeu Obama faria sentido se ele devesse a sua vitória a uma maioria homogênea, ou quase isso, de eleitores. Não foi assim: quem deu a Obama 65,4 milhões de votos (ante 57,4 milhões para McCain) foi uma determinada América – a coalisão de negros, jovens, mulheres e hispânicos das grandes cidades.

As pesquisas de boca-de-urna (depois da votação) revelaram que votaram em Obama 95% dos negros, 70% dos moradores das metrópoles, 66% dos jovens de 18 a 29 anos – o grande exército mobilizador de recursos e eleitores, via internet –, 66% também dos hispânicos e 56% das mulheres.

A propósito, dos eleitores de primeira viagem, 7 em 10 votaram em Obama.

Se dependesse apenas do voto masculino, não se sabe no que daria a eleição. Foram 49% para Obama, 48% para McCain. Se dependesse apenas do voto branco, daria McCain por 55% a 43%. Embora, proporcionalmente, mais homens brancos votaram em Obama do que em qualquer outro candidato democrata desde Jimmy Carter (1974), Bill Clinton incluído.

Além disso, Obama ganhou no Nordeste, no Meio-Oeste e no Oeste. Perdeu no Sul (Arkansas, Oklahoma, Louisiana, Tennessee, Missisippi, Alabama, Georgia e Carolina do Sul), embora tivesse obtido uma vitória histórica – com perdão pelo adjetivo – na Carolina do Norte.

A coalisão pró-Obama foi também uma coalisão de motivações – o que a ênfase no “voto da América” que percorre a mídia torna mais difícil discernir.

Os negros votaram em Obama, antes de tudo, porque era o primeiro deles escolhido candidato por um dos dois grandes partidos nacionais, portanto o primeiro a ter chances reais de chegar lá.

O mestiço Obama, no Brasil, seria mulato. Nos Estados Unidos de duas cores, negro. E, como tal, os negros o encamparam. Perguntado, depois da vitória, se preferia se referir a Obama como meio-branco e meio-negro, ou simplesmente negro, um barman de Washington respondeu: “Negro. Porque significa mais.”

Não menos revelador – e neste caso também por relativizar a teoria de que “a América” elegeu Obama – foi um comentário recolhido pelo correspondente do Globo em Washington, José Meirelles Passos, em Birmingham, Alabama.

“Sempre houve, no fundo, a sensação de que os negros não podiam ser parte do povo americano, e muito menos do sonho americano”, disse-lhe Jacqueline Wood, diretora-assistente do Programa de Estudos Afro-Americanos da Universidade do Alabama. “Nós estávamos sentados na cozinha. Agora passamos para a sala de visitas.”

Os jovens votaram em Obama principalmente por se identificar com o mais inspirador (“Yes, we can”) dos políticos americanos desde John Kennedy e decerto o mais singular deles: pelas origens, trajetória, personalidade, estampa – e coolness.

Também junto às mulheres funcionaram as suas “armas de atração em massa”. Com uma particularidade que, de novo salvo engano, só foi destacada na imprensa graças a um artigo no New York Times da sexta-feira, 7, pelo sociólogo jamaicano Orlando Patterson, da Universidade Harvard.

”Essa campanha, de maneira notável, foi uma reencenação da inteira e entrelaçada luta de negros e mulheres pela inclusão política”, observou. “A primeira vez que rejeitaram o seu confinamento ao papel de virtuosa maternidade na esfera privada no início da República foi ao liderar o combate muito público pela abolição da escravatura.”

As conquistas negras sempre pressagiaram os avanços femininos, lembra Patterson, “embora não sempre pelos motivos mais nobres”. Ou seja, o movimento pela emancipação das mulheres se nutria da seguinte rationale: afinal, se os negros podem votar, podem encontrar na lei proteção contra a discriminação e disputar cargos eletivos, por que não nós, mulheres?

A partir dos anos 1980, pela primeira vez desde que passaram a ter direito ao voto, as mulheres passaram a votar proporcionalmente mais do que os homens e em candidatos comparativamente mais progressistas.

”Em termos demográficos crus, o mais importante fator da vitória de Obama foi a margem de 13 pontos a seu favor no eleitorado feminino”, assinala o sociólogo.

De fato, a vantagem de Obama foi relativamente maior entre os mais jovens. Mas estes são apenas 18% do eleitorado. Vale para os hispânicos: como os jovens, 2 em cada 3 deles votaram em Obama; mas representam somente 8% do eleitorado. Já as mulheres (56% pró-Obama) pesaram mais porque são 53% do eleitorado.

E os trabalhadores brancos, aqueles a quem, nas prévias do Partido Democrata, e no seu pior momento, Hillary Clinton pediu o voto com uma mensagem que se curvava ao seu preconceito (”Hard-working Americans; White hard-working Americans…”)? O que levou sabe-se lá quantos deles a votar em Obama?

A resposta, numa palavra, parece ter sido a crise. Como se tivessem posto num dos pratos da balança o medo de ter um presidente negro, no outro o medo de ter um presidente branco incapaz de salvá-los do naufrágio econômico.

O New York Times ouviu um deles, no subúrbio de Levittown, Pensilvânia (Estado em que McCain investiu pesadamente, em vão, na reta final da campanha). O técnico em ar-condicionado Joe Sinitski disse ao repórter Michael Sokolove:

”Durante muito tempo eu não podia ignorar o fato de que Obama é negro, se é que me entende. Não me orgulho disso, mas fui criado a pensar que não há negros bons. Eu podia ver que ele é muito inteligente, e isso conta para mim, mas meu instinto ainda era o de fechar com o branco. Mas, quando ele escolheu [a governadora do Alasca] Sandra Palin para vice, com todos os problemas que a gente tem, isso não mostrou inteligência da parte de McCain. Não dizia coisa boa dele em geral.”

O interesse próprio prevaleceu sobre o racismo, em suma.

O que vai acontecer com o racismo americano não se pode prever. O lugar-comum que se encontra numa página dos jornais e na outra também é que o próprio triunfo de Obama – e a sua repercussão mundial sem paralelo – funciona por si só como um breve contra o preconceito.

Tomara. Afinal, o homem tem uma capacidade única de fazer com que as pessoas ponham para fora o que têm de melhor. A euforia dos europeus, por exemplo, é o reverso da medalha da hostilidade européia aos imigrantes, principalmente de pele escura.

Mas, nos Estados Unidos, há apenas quatro meses uma pesquisa nacional mostrou que apenas 30% dos eleitores brancos diziam ter uma opinião favorável de Obama. E mais: cerca de 60% dos entrevistados negros – e não mais de 34% dos brancos – achavam que as relações raciais no país são em geral ruins.

A pesquisa revelou que muitos padrões raciais na sociedade americana permanecem intocados nos anos recentes. Muito pouco mudou no componente racial da vida cotidiana no país desde 2000, quando o New York Times publicou uma série de reportagens intitulada “Como a raça é vivida na América”.

Exemplo: mais de 40% por cento dos negros americanos acham que foram parados pela polícia por causa da cor de sua pele, a mesmo índice de respostas da pesquisa de oito anos atrás.

”Devagar com o andor pós-racial”, escreveu na Folha o correspondente Sérgio Dávila. “Os Estados Unidos mudaram, os novos eleitores e os eleitores novos ajudaram a eleger Barack Obama – mas foi preciso uma crise econômica sem precedentes e o equivalente ao gênio negro na política concorrendo para que isso acontecesse.”

Toda eleição, obviamente, tem a sua circunstância. A desta, nos Estados Unidos, se chamou George W. Bush, atolando americanos em duas guerras, nos maiores índices de pobreza e desigualdade desde os impropriamente chamados Anos Dourados (a década de 1920), e, enfim, no colapso financeiro e na recessão.

Foi o que decidiu a parada em favor de Obama. Antes do derretimento de Wall Street, não custa lembrar, ele e McCain estavam cabeça a cabeça nas pesquisas.

Então, uma coisa é dizer que Obama encarna o que a América tem de melhor ou que a América ficou melhor com a sua vitória. Outra coisa é dizer que o resultado eleitoral comprova a excepcionalidade dos Estados Unidos, o poderio incomparável de seus valores.

A imprensa ficou devendo um debate sobre essas duas visões – um debate, em suma, sobre a democracia na América.

09/11/2008 - 13:33h NAÇÃO FURTA-COR


VITÓRIA DEMOCRATA REVELA PESO DA COMUNIDADE LATINA NOS EUA E MOSTRA COMO O BRASIL PERDEU O BONDE DA HISTÓRIA NA QUESTÃO RACIAL


Anja Niedringhaus – 4.nov.08/Associated Press

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Correligionários do então candidato do Partido Democrata fazem campanha do Hariem, em Nova York

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO
COLUNISTA DA FOLHA

No jogo barra-pesada da política em Chicago, onde Obama se elegeu para o Senado Federal, Kirk Dillard, velha raposa do Partido Republicano, já havia topado com o perigo ameaçando seus correligionários: “Sempre tivemos medo de ver Barack tornar-se um “rock star” da política americana”.
A frase não foi dita na semana passada. Ela apareceu em maio de 2004, no artigo de William Finnegan na revista “New Yorker” que, pela primeira vez na grande imprensa, apontava a garra política de Barack Obama.
Dois meses depois, Obama atraiu a atenção do país com o seu notável discurso “supra-racial” na convenção democrata de Boston. Em novembro do mesmo ano, foi eleito para o Senado Federal.
O resto é a história que transcorre agora sob os olhos e as expectativas dos norte-americanos e do mundo inteiro.
Quais as implicações da eleição altamente simbólica de Obama na política do Brasil, país que contém a maior população afrodescendente das Américas? Culturalmente globalizado, Obama conhece a Europa, a Ásia e a África. Mas nunca pôs os pés na América Latina.
Persiste ainda nos EUA o embaciamento que cobriu a América Latina depois da reorganização da agenda internacional americana na seqüência do 11 de Setembro.
Isto posto, a revista londrina “The Economist” extraiu dos votos no Senado e dos discursos de campanha elementos que configuram a política de Obama com relação à América Latina. No tocante aos tópicos que podem impactar o Brasil, há dois pontos principais.

Ambivalência
O primeiro é ambivalente.
Obama é favorável aos acordos sobre biocombustíveis, mas prega a inclusão de cláusulas sobre o ambiente e as condições de trabalho envolvendo produtos exportados para os EUA. O segundo ponto se refere à imigração.
Obama propõe uma legislação mais liberal, dando aos imigrantes ilegais a oportunidade de se tornarem cidadãos norte-americanos.
Calcula-se que cerca de 900 mil brasileiros vivam legal e ilegalmente nos EUA. Apesar da crise econômica americana, a imigração clandestina brasileira continua ativa.
De modo mais geral, o voto dos latinos -incluindo o voto dos milhares de brasileiros com cidadania americana- constituiu um dos pilares da vitória de Obama.
Ao lado dos jovens (66% dos eleitores entre 18 e 29 anos votaram em Obama), dos negros, tradicionais eleitores democratas (97% em Obama), dos americano-asiáticos (62% em Obama), dos judeus (78% em Obama), dos habitantes das grandes cidades (70% em Obama), os latinos (67% em Obama) renovaram o eleitorado democrata no país.
Nesse contexto, os latinos tiveram um peso decisivo, pois compuseram boa parte dos novos eleitores e porque abandonaram os candidatos republicanos. Sobretudo por causa da crise dos subprimes e da política imigratória do governo de George W. Bush.
O feitio multicultural da vitória democrata, garantia de uma dominação partidária duradoura, responde ao objetivo perseguido com determinação por Barack Obama: posicionar sua candidatura acima das clivagens raciais.
Aqui se situa um outro ponto de impacto na política brasileira. Em que medida a eleição de um negro à Presidência dos EUA influencia o atual debate sobre a discriminação racial e as cotas no Brasil?
De saída, é preciso salientar as semelhanças e as diferenças entre os EUA e o Brasil.
Os dois países tiveram um escravismo arraigado na sociedade e consubstancial à formação nacional. As elites das independências americana e brasileira nacionalizaram e modernizaram o escravismo de origem colonial. Daí o racismo que perpetuou-se -de maneira distinta- tanto nos EUA como no Brasil.
Apoiando as medidas de “ação afirmativa” contra as discriminações raciais, o futuro presidente americano é, no entanto, desfavorável ao sistema de cotas. Obviamente, Obama se beneficiou das políticas que favoreciam a promoção dos jovens afro-americanos.

Contraste gritante
Ora, os negros e mulatos americanos formam uma das minorias demográficas do país, representando 12% da população. Menos, portanto, que os 15% de latinos (descendentes de latino-americanos brancos, negros ou de origem indígena), cuja taxa de natalidade é duas vezes maior que a da restante da população americana.
No Brasil, os afrodescendentes são, desde este ano, mais numerosos que os brancos e, a partir de 2010, formarão a maioria absoluta da população brasileira. O fato de que ainda constituam uma minoria política faz ainda mais cortante o contraste com a situação americana.
Há 50 anos, o estatuto dos negros americanos nos Estados racistas do Sul era, em muitos aspectos, pior que a dos negros brasileiros. O quadro mudou, na seqüência das decisões da Corte Suprema, das campanhas pelos direitos civis e pelas políticas afirmativas, fixando dispositivos legais em favor da minoria negra.
No Brasil, permaneceu tudo igual, e multiplicam-se as estatísticas desenhando o quadro aberrante da desigualdade racial. Hoje, guardadas as devidas proporções, a situação dos negros brasileiros é pior que a dos negros americanos.
Em algumas décadas, a sociedade americana transformou-se, e Barack Obama será o 44º presidente dos EUA. Quantos presidentes haverá ainda no Brasil antes que um negro vista a faixa presidencial no Palácio do Planalto?

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO é historiador, professor na Universidade de Paris 4. É autor de “O Trato dos Viventes” (Cia. das Letras) e escreve regularmente na seção “Autores”, do Mais!.

06/11/2008 - 15:35h O triunfo de uma nação

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Dorrit Harazim – O Globo

Na noite em que Franklin D. Roosevelt obteve colossal vitória sobre o adversário republicano Herbert Hoover, em meio à Grande Depressão que engolia os Estados Unidos em 1932, o 32º presidente eleito fez uma confidência rara ao mais velho de seus 6 filhos: — Ao longo da minha vida, eu tive medo de apenas uma coisa, Jimmy: de incêndio.

(Roosevelt tinha os membros inferiores paralisados e vivia numa cadeira de rodas). Mas hoje acho que sinto medo de algo mais.

— De quê, pai? — Medo de talvez não ter a força necessária para dar conta da tarefa.

Como se sabe, Roosevelt deu conta, e o país se reencontrou como nação para encarar a Segunda Guerra mundial.

Na madrugada de anteontem, perante uma América de todas as raças que se sentia dona de sua própria História, o 44º presidente eleito Barack Hussein Obama festejou: — Esta vitória em si não basta para trazer a mudança que buscamos — ela é apenas o meio… Talvez leve um ano, talvez mais do que um só mandato….

Mas nunca me senti mais esperançoso do que esta noite de que chegaremos lá.

Surpreendentemente, seu tom não era exultante. Era sóbrio e comedido.

Já para a multidão que acompanhava o discurso no Grant Park de Chicago com expressão de alumbramento, tudo, por um instante, pareceu possível — inclusive Obama sair dali caminhando sobre as águas.

Nessa jornada dos Estados Unidos ao encontro de sua História, o país escolheu ser conduzido por um homem cujo sobrenome (Obama), como já foi apontado, lembra o de um terrorista do Oriente Médio; e o nome do meio (Hussein) evoca o do ditador derrubado; e cujo prenome (Barack) rima com Iraque. Difícil inventar algo mais esdrúxulo para o paladar americano.

Mas é esse filho de mãe sulista branca e pai negro queniano, criado no Havaí por avó materna e deslocado para a Indonésia islâmica na juventude — tudo isso antes de procurar sua negritude na periferia de Chicago e se formar em Direito por Harvard — que acaba de receber do rapper Jay-Z a saudação definitiva: — Rosa Parks tomou assento para que Martin Luther King pudesse marchar. Martin Luther King marchou para que Obama pudesse correr. E Obama correu para que pudéssemos voar. O novo presidente é um brother.

A eleição de Obama vem tão carregada de simbolismos que cada um pendura nela o que quiser. Ela tem um efeito cascata que ultrapassa o universo do negro e sua “liberdade de voar”. Também o menino hispânico, a imigrante asiática, ou qualquer cidadão que não nasceu anglo-saxão mas tem na América o chão em que pisa todos os dias haverá de lembrar-se do dia em que Barack Obama foi eleito.

Obama expandiu a noção de pátria

A força por trás da vitória do candidato democrata pouco tem a ver com suas propostas políticas, posições ideológicas ou qualificação específica para o cargo de comandante-emchefe da nação mais poderosa do mundo. O que ele tem a oferecer, por enquanto, é o poder da imagem, o impacto de sua figura como retrato oficial dos Estados Unidos da América.

Para os povos que viveram as últimas décadas com motivos para demonizar o colosso americano, a troca do olhar furtivo de George W. Bush pelos traços mais universais de Barack Obama é tudo, menos cosmética. Ao contrário de seus antecessores, cujo lugar na História dependeu dos rumos que imprimiram a seus mandatos, Obama já garantiu sua cadeira cativa antes mesmo de ser empossado: pelo simples fato de ter sido eleito, ele já redefiniu o que é ser americano. Expandiu a noção de pertencimento, de cidadania, de pátria e de nação. Ou melhor, foram os eleitores que viram nele a possibilidade de redesenhar essas fronteiras.

De resto, a persona política do senador do Illinois continua engenhosamente indecifrável, e, portanto, sem arestas definidas, como lhe convém.

Para a geração que se perdeu entre a Guerra do Vietnã e o colapso de Wall Street essa indefinição vem a calhar, pois permite comparar o fenômeno eleitoral Barack Obama ao rastilho de voluntariado nacional desencadeado por John F. Kennedy em 1960.

Semelhanças com Kennedy

À primeira vista, nada a ver, pois o jovem senador de Massachusetts (40 anos incompletos, quando disputou a Casa Branca) já nascera milionário, caucasiano, era filho de patriarca em cujas veias corria poder. Mas ambos não passavam de calouros na política e disputaram a indicação partidária com senadores escaldados — Lyndon Johnson e Hubert Humphrey, no caso de Kennedy; Hillary Clinton no caso de Obama. Ambos, formados por Harvard, irromperam no cenário nacional de forma inesperada, tomando a palavra numa convenção partidária.

E Kennedy nascera católico, o que, para a América de 50 anos atrás, parecia impedimento político semelhante, senão maior, do que ser negro na América de hoje (à época, a hipótese de algum dia vir a existir um candidato negro sequer era aventada).

Nenhum dos dois se notabilizou por oferecer ao eleitor um plano de governo detalhado nem posições claras sobre questões pontuais de época.

Mas ambos perseguiram com teimosia uma visão de esperança na vida e confiança na capacidade de julgamento do eleitor. Ted Sorensen, conselheiro e braço-direito de JFK por 11 anos, conta que Lyndon Johnson ficou tão desconcertado com as adesões que Kennedy arrebanhava por onde passava que instruiu um assessor a espionar a campanha do adversário: “Descubra qual é o segredo dele, sua estratégia, suas fraquezas”.

Não adiantou. Só Kennedy tinha intuído que a nação americana aspirava por mudança.

Era um desejo vago, difícil de ser computado, uma vez que o presidente em exercício , Dwight Eisenhower, era um dos mais populares desde Franklin D. Roosevelt. Mas a intuição era certa.

Na eleição de 2008, a aspiração de mudança esteve escancarada o tempo todo, ao alcance de qualquer candidato.

Apenas um, Barack Hussein Obama, teve a audácia de convidar a nação a derrubar a sua fronteira mais enraizada. Pode ser uma jornada rumo ao desconhecido.

Mas ela não tem volta. A isso pode se chamar fazer História.

06/11/2008 - 10:00h Após 145 anos, finalmente acabou a Guerra Civil

Obama terá dificuldades, mas poderá ser um dos grandes presidentes da história americana

Thomas L. Friedman, The New York Times * – O Estado SP

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Aconteceu que, em 4 de novembro de 2008, pouco após as 22 horas (horário da costa leste dos EUA), a Guerra Civil americana acabou quando um negro – Barack Hussein Obama – recebeu uma votação suficiente para se tornar presidente.

A Guerra Civil que, até certo ponto, foi decidida pela Batalha de Gettysburg, Pensilvânia, em 1863, terminou 145 anos mais tarde pelas urnas nesse mesmo Estado. Pois Obama conquistou a Pensilvânia, crucial para as eleições, garantindo sua vitória.

Em seu Discurso de Gettysburg, o presidente Lincoln instou cada americano a retomar “o trabalho inacabado que os que aqui lutaram promoveram até agora tão nobremente”. Entretanto, essa obra ficou inacabada por um século e meio. Pois, apesar de décadas de ativismo social, de intervenções judiciais, de leis em defesa dos direitos civis – do caso Brown contra a segregação nas escolas, da cruzada de Martin Luther King (”Eu tenho um sonho”) e da Lei dos Direitos Civis de 1964 -, não se podia dizer que a Guerra Civil tivesse acabado enquanto a maioria branca dos EUA não elegesse um presidente negro.

Foi o que aconteceu na noite de anteontem, e os americanos acordaram em um país diferente. A luta pela igualdade nunca acaba. Mas agora podemos recomeçar de um novo ponto de partida. Que toda criança, todo cidadão e todo imigrante saiba que deste dia em diante “tudo é realmente possível nos EUA”.

Como Obama conseguiu? Provavelmente, foi necessária a crise econômica para que houvesse votos brancos suficientes para eleger um negro. E o jeito calmo de Obama, sua oratória comedida e branda, sua mensagem de “mudança” desprovida de ameaças foram elementos que ele soube usar muito bem.

Mas houve também o “efeito Buffett”, que derrotou o “efeito Bradley” – pelo qual os eleitores brancos diriam a pesquisadores que votariam em Obama mas votariam no candidato branco. O efeito Buffett foi o contrário: foram os republicanos brancos que afirmaram aos colegas no restaurante masculino do Country Club que votariam em McCain e depois votaram em Obama, mesmo sabendo que isso implicaria aumento de impostos.

Por quê? Alguns fizeram isso porque perceberam que seus filhos concentraram suas esperanças em Obama e não só não quiseram frustrar essas esperanças como secretamente decidiram compartilhá-las. Outros abraçaram intuitivamente as convicções de Buffett segundo as quais, se você é bem-sucedido, é porque teve a sorte de ter nascido nos EUA. Portanto, precisamos mais uma vez arrumar nosso país – precisamos de um presidente que possa nos unir. Intimamente, também sabiam que, após a atuação desastrosa da equipe de Bush, haveria conseqüências gravíssimas para o Partido Republicano. Eleger McCain agora significaria premiar a incompetência, zombar da confiança no governo e desencadearia uma onda de cinismo nos EUA.

Obama será sempre nosso primeiro presidente negro. Mas conseguirá ser um dos nossos grandes presidentes? Ele terá sua chance, pois nossos maiores presidentes são os que assumiram o cargo nos momentos mais sombrios. “Assumir em um momento de crise não garante a grandeza, mas pode ser uma oportunidade para alcançá-la”, disse o especialista em filosofia política Michael Sandel, da Universidade Harvard. “Foi o que aconteceu com Lincoln, Franklin Delano Roosevelt (FDR) e Truman.” Entretanto, parte da grandeza de FDR “foi o fato de ele ter criado uma nova filosofia política aplicada ao governo – o New Deal – a partir dos destroços e da desordem política da depressão econômica herdados do antecessor”. Obama precisará proceder do mesmo modo, mas isso leva tempo.

“FDR não disputou em 1932 tendo como plataforma o New Deal”, disse Sandel. “Seu programa baseava-se no equilíbrio do orçamento. Assim como Obama, ele não assumiu a presidência com uma filosofia de governo claramente elaborada.”

Bush & Co. não acreditaram que o governo pudesse ser um instrumento do bem comum. Castraram os secretários de gabinete e nomearam incompetentes para cargos importantes. Para eles, a busca do bem comum não passou da busca do interesse próprio. Os eleitores rebelaram-se. Mas houve também uma rebelião contra uma versão democrata tradicional do bem comum – que é a soma de todos os grupos de interesse que reivindicam sua fatia do bolo.

“Nesta eleição, o público americano rejeitou esses conceitos mesquinhos de bem comum”, afirmou Sandel. Mas uma nova política do bem comum não pode dizer respeito apenas ao governo e aos mercados. “Também terá de dizer respeito a um novo patriotismo – do que significa ser cidadão”, disse. O que arrancou os maiores aplausos em seu discurso de agradecimento foi a afirmação de que todo americano terá a possibilidade de freqüentar a universidade desde que preste um período de serviço à nação – no Exército, nos Peace Corps ou na comunidade. “A campanha de Obama despertou um idealismo civil, a fome de servir a uma causa maior do que eles próprios.”

Nada disso será fácil. Mas, de todas as mudanças que a presidência de Obama inaugurará, a ruptura com nosso passado racista será talvez a menor. Há muito trabalho a fazer. A Guerra Civil acabou. É hora de reconstruir.

*Thomas Friedman é colunista

25/10/2008 - 17:59h O racismo e a crise na Europa

La prima manifestazione nazionale del Pd a Roma (Ansa)
manifestantes italianos contra o racismo e contra Berlusconi

“Segundo uma nova pesquisa do instituto americano Pew Research Centre, a rejeição a judeus e muçulmanos cresceu em quase todos os países da Europa, exceto Reino Unido. Na Espanha, campeão de anti-semitismo, 46% das pessoas admitem ter opinião negativa dos judeus e 52% dos muçulmanos, o dobro de 2005.
Outros países também apresentaram altas, inclusive na Alemanha, onde a rejeição aos muçulmanos chegou a 50%, e aos judeus a 25%.
Na Áustria opiniões como esses fortaleceram a extrema direita, que ganhou 29% dos votos nas eleições gerais de setembro. O significado político do resultado foi ofuscado pela morte de seu líder mais conhecido, Jörg Haider. Mas a mensagem das urnas foi de que um terço dos austríacos quer dar um aperto nos imigrantes.
Em muitos sentidos, tais sentimentos já moldam o discurso e a ação dos políticos europeus. Sob a Presidência da França, a União Européia aprovou na semana passada um pacto que endurece a política migratória do bloco.” (Fonte Folha de São Paulo)

20/10/2008 - 07:40h Crise esfacela preço dos imóveis nos EUA

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Ricardo Balthazar – VALOR

O declínio continuado dos preços dos imóveis nos Estados Unidos está agravando os problemas existentes no mercado imobiliário americano, corroendo o patrimônio de milhões de pessoas que compraram suas casas recentemente e gerando novas complicações para o sistema financeiro e a economia do país.

Com o desemprego em alta e a recessão batendo à porta, muitas famílias têm suado para continuar pagando suas hipotecas. Elas alcançaram o sonho da casa própria obtendo empréstimos em condições muito vantajosas nos últimos anos e agora estão com dificuldades porque as prestações subiram e não cabem mais no orçamento doméstico.

Mas até proprietários que têm condições de ficar em dia deixaram de pagar suas dívidas, devido aos prejuízos provocados pela desvalorização dos imóveis. Essas pessoas preferem perder as casas em que moram e ver o investimento feito até agora evaporar, porque a perda financeira seria maior se elas continuassem honrando seus compromissos.

Cerca de 12 milhões de pessoas têm atualmente dívidas superiores ao valor de suas residências, segundo a consultoria Moody’s Economy.com. Pagar a hipoteca em dia nessas circunstâncias é perder dinheiro na certa. De cada seis pessoas que moram em casa própria nos Estados Unidos, uma se encontra nessa situação.

O governo, o Congresso e a iniciativa privada lançaram nos últimos meses diversos programas para renegociar essas dívidas e evitar que os problemas se alastrem ainda mais. Mas os resultados foram pífios. Muitos proprietários que conseguiram renegociar hipotecas com os bancos voltaram a ficar inadimplentes pouco tempo depois.

“Em geral os novos contratos se limitam a empurrar o problema com a barriga, mantendo as cláusulas que fizeram as prestações aumentar e cobrando os atrasados lá na frente”, disse Lou Tisler, diretor-executivo da Neighborhood Housing Services, empresa que ajuda proprietários com problemas a renegociar suas dívidas no Estado de Ohio.

A bolha especulativa que inflou o mercado imobiliário americano no início da década estourou em meados de 2006. Desde então, os preços dos imóveis nos EUA caíram 21%, conforme o índice S&P/Case-Shiller, principal termômetro do setor. Os economistas acreditam que os preços continuarão caindo por vários meses antes de encontrar um ponto de equilíbrio.

Quem comprou no auge da bolha é quem mais está sofrendo agora. Segundo o site Zillow, que compila informações sobre negócios feitos no país inteiro, 45% dos proprietários que adquiriram imóveis em 2006 e 37% dos que fizeram isso em 2005 têm agora dívidas superiores ao valor que poderiam obter se vendessem suas propriedades.

O fim da bolha imobiliária está na raiz da crise de confiança que atualmente sufoca o sistema financeiro global. Os empréstimos feitos nos tempos de euforia foram usados para lastrear trilhões de dólares em títulos que hoje estão azedando nas carteiras de bancos, seguradoras e outras instituições financeiras.

A inadimplência no setor não pára de aumentar, dois anos depois da implosão da bolha. Mais de 6% das hipotecas estavam com pagamentos em atraso no fim de junho, segundo a Associação dos Banqueiros de Hipotecas. Entre os clientes de alto risco que foram os primeiros a deixar de pagar, 19% estão inadimplentes atualmente e correm o risco de perder suas casas.

Além do impacto direto sobre o sistema financeiro, os problemas do setor imobiliário contribuem para a desaceleração da atividade econômica. Os proprietários endividados estão apertando o cinto e deixaram de consumir como antigamente. Com o mercado cheio de casas que ninguém quer comprar, as construtoras estão cancelando obras e demitindo funcionários.

Muitos economistas acham que forçar a renegociação das hipotecas em termos mais generosos seria a melhor maneira de superar a crise atual, porque isso ajudaria a valorizar os ativos dos bancos e a reanimar a atividade econômica. Mas o governo tem preferido usar o seu dinheiro para lubrificar as engrenagens dos mercados de crédito e reerguer os bancos em dificuldade, sem atacar diretamente os problemas do mercado imobiliário.

“O governo deveria ter agido muito antes para evitar que o problema fugisse ao controle”, disse o advogado Michael Barr, professor de direito da Universidade de Michigan. “O trágico é que o governo esperou meses para intervir e deixou os proprietários endividados por último na fila dos que terão ajuda.”

Um dos fatores que torna complicada a renegociação das hipotecas é a forma como os empréstimos foram empacotados e vendidos pelos bancos. Muitos dos títulos que têm as hipotecas como lastro possuem cláusulas que impedem a renegociação dos contratos originais. Os credores desses títulos são investidores do mundo inteiro que não têm condições de negociar com os proprietários inadimplentes.

Uma associação formada por bancos, companhias hipotecárias e organizações assistenciais chamada Hope Now Alliance conseguiu nos últimos meses renegociar as hipotecas de 2,6 milhões de pessoas, evitando que elas perdessem suas casas. Mas na maioria dos casos houve apenas um pequeno abatimento nos juros, sem redução do principal da dívida, o que significa que essas pessoas certamente terão novos problemas no futuro.

Um estudo feito pelo banco Credit Suisse, que analisou milhares de contratos modificados recentemente, concluiu que quase um terço dos proprietários que renegociaram seus empréstimos no último trimestre do ano passado voltaram a ficar inadimplentes depois de oito meses. Um quarto dos que tiveram redução do principal voltaram a atrasar os pagamentos da hipoteca nesse mesmo período.

Em julho, o Congresso americano autorizou o governo a gastar US$ 300 bilhões para renegociar hipotecas de quem estiver com a corda no pescoço. O governo oferecerá empréstimos com taxas de juros fixos e 30 anos para pagar, desde que os atuais credores concordem em abater o principal e os proprietários tenham os documentos em ordem, condição que poderá excluir muitos imigrantes que se endividaram no auge da bolha.

Estima-se que o programa do governo poderá beneficiar cerca de 400 mil pessoas, uma pequena fração dos milhões de proprietários que estão atravessando dificuldades. Quase três meses depois de aprovado pelo Congresso, o plano ainda não começou a ser executado por causa de questões burocráticas.

Bancos e companhias hipotecárias também têm perdas significativas com a inadimplência de seus clientes. Em geral, eles têm recuperado menos da metade do valor dos imóveis nos casos em que decidem retomar as casas dos proprietários inadimplentes para cobrir seus prejuízos. Ninguém será obrigado a participar do programa do governo. Ele terá caráter voluntário.

Muitos especialistas têm sugerido ao governo mecanismos para incentivar a participação dos credores. Uma proposta que surgiu prevê a substituição das hipotecas com problemas por contratos em que as condições seriam revistas periodicamente conforme a evolução dos preços dos imóveis, o que reduziria os riscos para os proprietários e seus credores. “Seria também uma forma de evitar a formação de novas bolhas no futuro”, disse o economista Andrew Caplin, da Universidade de Nova York.

31/08/2008 - 09:53h Obama presidente seria um “new deal” com o mundo

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Coisas da Política – Um programa de esquerda

Mauro Santayana – JB

Como sempre fizeram os pretendentes democratas à Casa Branca, Barack Obama prometeu a retomada do sonho americano: o de combinar a liberdade com a igualdade. Dentro do espectro ideológico dos Estados Unidos, tratou-se de um discurso de esquerda, como foram os de Roosevelt e de Kennedy, de Carter e de Clinton. A grande diferença está na origem de classe: Obama tem a legitimidade biográfica para defender tais idéias, o que, no momento do voto lhe pode ser vantagem ou desvantagem. Mais do que a vitória de um mulato, filho de imigrante negro com mãe americana, o resultado eleitoral nos dirá se os Estados Unidos se encontram preparados para participar da comunidade internacional em pé de igualdade, sem a presunção imperial que herdaram da Grã-Bretanha. É disso, no fundo, que se trata: ao aceitar Obama, a sociedade americana aceitará “a new deal” com o mundo. Resta saber se isso realmente ocorrerá. Os conservadores norte-americanos têm a consciência de que não se trata de uma disputa entre o democrata e o republicano, entre o senador pelo Illinois, nascido em Honolulu, no Havaí, e o senador pelo Arizona, nascido na Zona do Canal do Panamá. Trata-se de escolha que toca profundamente as glândulas existenciais do povo americano. A vitória de Obama, se ela se der, corresponderá a uma mudança histórica significativa.

Embora ambos sejam, do ponto de vista jurídico, legítimos cidadãos norte-americanos, não deixa de ser emblemático que tenham nascido fora das fronteiras históricas da grande república. O fato faz lembrar outro império republicano, o de Roma, que teve, entre seus imperadores, alguns cidadãos nascidos fora da Itália, como foi o caso notável de Trajano, de perto de Sevilha, e Sétimo Severo, da África.

As promessas de Obama contrariam os interesses dos donos do poder econômico. A mais importante delas foi a de “fechar” os paraísos fiscais, essa nova e inalcançável entidade soberana do capitalismo, que paira sobre todos os estados nacionais, incluído o norte-americano. Quando Reagan abriu caminho a essas zonas francas do capital financeiro, legitimou a sonegação fiscal, autorizou o saqueio dos resultados do trabalho, incentivou o assalto de empresas tradicionais, e legalizou os expedientes contábeis conhecidos, pelos quais os executivos criaram balanços fictícios a fim de se concederem altas e sólidas gratificações. Esses paraísos fiscais não desviaram dinheiro dos estados nacionais, mediante a sonegação, mas foram responsáveis pelo endividamento, desemprego e redução salarial dos trabalhadores no mundo inteiro. Segundo o candidato democrata, essa prática foi a que mais contribuiu para a exclusão social no mundo.

Outra promessa foi a de reduzir a dependência do petróleo do Oriente Médio dentro de 10 anos – o que é mais difícil de se conseguir, a menos que se reduza consideravelmente o consumo de energia na sociedade norte-americana. Obama foi lacônico – e evasivo – no que concerne à política internacional. Não disse de forma concreta como pretende relacionar-se com os países latino-americanos, nem com o resto do mundo. Sua estratégia foi a de situar os problemas internos como prioritários em seu governo. É provável que deixe a Joe Biden, veterano na administração desses assuntos, a tarefa de expor as idéias democratas sobre o estado do mundo durante a campanha. Ele e seus conselheiros provavelmente optaram por essa postura discreta, a fim de não favorecer ambigüidades em tema dessa gravidade. Apesar disso, ficou claro que Obama assume o nacionalismo norte-americano de forma diferente daquela assumida pelos republicanos. Alguns trechos de seu discurso são claros contra a globalização da economia, quando ele nela identifica a exportação de empresas e empregos, com o resultado do empobrecimento das famílias de trabalhadores.

Não devemos esperar muito de Obama, se ele eleger-se. Mas é provável que ele consiga, como prometeu, retomar o sonho americano de prosperidade comum e de liberdade política, que Bush comprometeu com a irracionalidade de seu governo. Isso não deve reduzir os nossos cuidados. No mundo que se rearticula, com os desafios da nova configuração geopolítica, temos que cuidar prioritariamente de buscar a unidade regional, a fim de assegurar a soberania de cada um de nossos vizinhos da América do Sul, e com ela, a segurança continental.

16/07/2008 - 19:14h O X da questão

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El cartel que sostiene el niño dice:

“Tu Cristo es judío
tu escritura es latina
tus números son árabes
tu democracia es griega
tu equipo de música es japónes
tu balón es de Corea
tu videoconsola es de Hong Kong
tu camisa es de Tailandia
tus estrellas futbolísticas son de Brasil
tu reloj es suizo
tu pizza es italiana

¿Y tú eres el que mira a ese trabajador inmigrante como a un despreciable extranjero?”

Esta campaña nació en España, realizada por españoles y no españoles, luego de que cientos de personas fueran deportadas en el aeoropuerto de Barajas, Madrid, cercadas por la policía de inmigración.

Y las deportaciones siguen…

Equis, esa letra medio inútil que toma vigencia en este tiempo a través de una palabra que avergüenza: xenofobia.Fonte Civilización & Barbarie

18/06/2008 - 18:51h Brasil ‘lamenta’ endurecimento de legislação de imigração na UE

Em nota, Itamaraty diz que decisão ‘contribui para criar percepção negativa da migração’

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Sans-papiers à Lille. Photo d’illustration. REUTERS/© Pascal Rossignol / Reuters

Redação estadao.com.br

SÃO PAULO – Em nota divulgada no final da tarde desta quarta-feira, 18, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil disse lamentar a aprovação pela União Européia da diretiva que estabelece regras mais rígidas ao tratamento de imigrantes ilegais nos países do bloco.

“O Brasil, país que deu acolhida a milhões de imigrantes e descendentes hoje harmoniosamente integrados na sociedade brasileira, lamenta uma decisão que contribui para criar percepção negativa da migração e vai no sentido contrário ao de uma desejada redução de entraves à livre circulação de pessoas e de um mais amplo e pleno convívio entre os povos”, diz a nota.

A medida, aprovada nesta quarta-feira pelo Parlamento Europeu, estabelece a extradição de todo estrangeiro em situação irregular (exceto os que estão sob asilo em países da UE) para o seu país de origem e a detenção de até seis meses daqueles que se negarem a abandonar os páises do bloco.

18/06/2008 - 17:05h Os imigrantes ilegais serão tratados como criminais na Europa

Expulser les sans-papiers sera plus facile!

Une directive vient d’être adoptée par le parlement européen.

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Un fillette regarde des CRS, au squat de Cachan, occupé par des sans-papiers, en août 2006. Reuters/© Charles Platiau / Reuters

Les eurodéputés ont adopté la “directive retour“, ce mercredi. Il a été approuvé par 367 voix contre 206 et 109 abstentions par les représentants des 27 Etats-membres.

Aussitôt, le vote a déclenché un tollé parmi les associations: “C’est une directive de la honte”, ont clamé les Verts.

C’est quoi cette directive ?
Un projet de loi controversé destiné à faciliter le renvoi des sans-papiers de l’UE.

Qu’y a-t-il dedans ?
1. La rétention
Tout immigré illégal qui refuse son expulsion ou qui “risque de fuir” est placé en centre de rétention. La rétention aura une durée maximale de 6 mois mais pourra être prolongée jusqu’à 18 mois en cas de “manque de coopération” du sans-papier ou en cas de retards dans la procédure avec le pyas d’origine.

2. Le cas de mineurs
Les mineurs non accompagnés et les familles avec mineurs sont placés en rétention “en dernier ressort”. Le texte garantit également “l’accès à l’éducation” des mineurs et demande aux Etats membres de prendre en compte “l’intérêt supérieur de l’enfant”. Mais il autorise l’expulsion de mineurs non accompagnés vers des pays où ils n’ont ni tuteur ni famille, pourvu qu’il y ait sur place des “structures d’accueil adéquates”.

3. La non-réadmission
Toute personne reconduite aux frontières se voit interdire toute entrée dans l’Union européenne pendant 5 ans, voire plus en cas de “menace grave” pour l’ordre et la sécurité.

4. Le retour volontaire
Si un sans-papiers déclare vouloir rentrer dans son pays ou dans un pays prêt à l’accueillir de manière volontaire, un délai de 7 à 30 jours lui est accordé pour préparer son départ. Ce délai peut être prolongé d’une durée “appropriée” en fonction des circonstances (enfants scolarisés, autres liens familiaux et sociaux…).

(Source: AFP)

“Retour” des sans-papiers: “la directive de la honte”

Par La rédaction du Post , le 18/06/2008
Les Verts, SOS Racisme, la Cimade… s’élèvent contre la nouvelle directive européenne favorisant l’expulsion des sans-papiers fait réagir.

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Sans-papiers à Lille. Photo d’illustration. REUTERS/© Pascal Rossignol / Reuters

Les eurodéputés ont adopté la “directive retour”, un projet de loi controversé destiné à faciliter le renvoi des sans-papiers de l’UE.

SOS Racisme: “Nous nous inquiétons des conséquences que va produire l’adoption de ce texte quant à la dignité et à la sécurité juridique des ressortissants étrangers vivant en Europe.”

“Cette directive est une atteinte aux idéaux de liberté et ‘au vivre ensemble’ portés par les pères de l’Europe”, poursuit l’association de lutte contre le racisme.

Les Verts eux, se sont dits ce mercredi “scandalisés”
par l’adoption de la “directive dite de la honte”, qui vise à harmoniser les règles d’expulsion des sans-papiers dans l’UE.

Le parti écologiste estime qu’”à l’heure où sévit déjà une crise alimentaire mondiale et où apparaissent les premiers réfugiés climatiques, cette directive est particulièrement irresponsable”.

“Elle érige la brutalité administrative en outil de gestion des flux migratoires, demandeurs d’asile inclus”, affirment les Verts.

“Incarcérer des enfants ou des adultes sans procès pendant plus de 18 mois au motif qu’ils ne disposent pas de papiers à jour est un glissement fascisant inacceptable de l’Union européenne. Prépare-t-on un Guantanamo européen?”, s’interrogent les Verts.

La Cimade (Conseil oecuménique d’entraide) qui accueille et accompagne chaque année plusieurs dizaines de milliers de migrants et de demandeurs d’asile, affirme qu’”en adoptant, sans y ajouter le moindre amendement, le texte de la directive retour négocié par les ministres de l’Intérieur et de l’Immigration des 27 Etats membres, le Parlement européen a perdu une grande part de sa crédibilité quant à sa capacité à tenir son rôle d’instance démocratique chargée notamment de la protection des citoyens en Europe”.

(Sources: Communiqués, AFP)

04/06/2008 - 13:24h Ciganos são bode expiatório

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Gilles Lapouge* – O Estado de São Paulo

Tempos horríveis estes para os ciganos italianos, principalmente os chamados “romas”, de origem romena. O premiê italiano, Silvio Berlusconi, acaba de conceder poderes extraordinários para os chefes de polícia de Roma, Nápoles e Milão fazerem um novo censo dos ciganos e expulsarem os que têm problemas com a Justiça.

Será que Berlusconi tem o direito, na União Européia, de perseguir as pessoas desse modo? Os romas são três quartos romenos e um quarto italianos. Portanto, são cidadãos da UE e não podem ser detidos ou expulsos. Mas Berlusconi não está nem aí com isso. Bruxelas se comoverá com a sorte deles? Isso não é tão certo, embora seja desejável.

As medidas contra os ciganos têm precedentes assustadores. Em 1939, sob o nazismo, eles foram tachados de “raça inferior”. Cerca de 30 mil foram expulsos para o Leste e começaram os massacres e o confinamento em guetos. Em 1942, Heinrich Himmler, chefe da SS, deportou os ciganos alemães para campos de concentração.

As medidas de Berlusconi não têm nenhuma relação com tais horrores. Mas não podemos deixar de nos sentir chocados ao ver as mesmas pessoas perseguidas pelo mesmo “crime”: o de pertencer a uma determinada etnia. Pode-se até explicar o gesto de Berlusconi: a Itália padece. A crise é feroz. Nápoles, incapaz de administrar o próprio lixo, apodrece ao sol. Em casos semelhantes, todo líder procura um bode expiatório. O que Berlusconi tinha à mão era o povo cigano.

Sem desculpar Berlusconi, é preciso reconhecer que tal comportamento não é exclusivo dele: em 2007, seu predecessor, Romano Prodi, que não é de direita, mas de centro-esquerda, baixou um decreto que lhe permitiu expulsar ciganos.

A maldição que recai sobre os ciganos também é antiga. Eles deixaram seu berço, a Índia, na Antigüidade, e espalharam-se pela região do Mediterrâneo. Tinham uma fama detestável: os gregos os apelidaram de “intocáveis”.

Nas sociedades modernas, a sorte dos romas italianos mostra que o problema da imigração não pára de se agravar. A crise intensifica o ódio pelos imigrantes, esses sujeitos que vêm “tirar o nosso emprego”. Os países europeus endurecem suas leis, expulsam, separam as famílias, desprezam. Hoje, a Europa, que por muito tempo deu lições de direitos humanos, não exibe um rosto bonito. Ela é feia. Em todas as capitais, afiam-se as armas contra os imigrantes. O código civil é reformulado. A imigração é tratada como crime.

Evidentemente, não podemos esquecer que a imigração em massa representa um desafio. Mas a solução não é lotar aviões fretados, como faz o presidente francês, Nicolas Sarkozy. É necessária na Europa uma política de imigração firme, coerente, diferente das histerias anticiganas de Berlusconi. Uma política que tenha dois pilares: no interior, a solidariedade e a integração; no exterior, acordos de cooperação com os países de emigrantes.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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20/05/2008 - 09:13h Laços mais profundos entre Japão e Brasil

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Mostra no Tomie Ohtake destrincha relações diversas entre as duas culturas

Camila Molina – O Estado de São Paulo

‘Já foi o tempo que a cultura do Japão era diferente, hoje o Brasil é nipônico’, defende Paulo Herkenhoff, curador da exposição Laços do Olhar, que será inaugurada hoje para convidados e amanhã para o público no Instituto Tomie Ohtake. No ano em que se comemora o centenário da imigração japonesa no Brasil, não faltam exposições que exploram a relação entre os dois países, mas Laços do Olhar tem o fôlego de adentrar em campos ricos e variados do entrelaçamento das duas culturas. ‘Existe uma tendência na historiografia de depositar os laços entre o Japão e o Brasil apenas nos pintores japoneses. Acredito que gerações mais novas queiram trocar essa idéia’, diz Herkenhoff, que propõe com essa ampla exposição provar que as duas culturas se entrelaçam em produções artísticas de diversos gêneros, épocas (do século 19 à contemporaneidade) e os criadores de maneira muito mais profunda do que se imagina.

O japonismo do século 19, ‘resposta da Europa à abertura do Japão’, como contextualiza Herkenhoff, teve também na época seu reflexo no Brasil (mesmo antes de aqui aportarem os primeiros imigrantes a bordo do navio Kasato Maru, em 1908). O pintor Eliseu Visconti (1866-1944), por exemplo, realizou em 1893 (antes de viver em Paris) a tela Menina com Ventarola: Estudo de Nu, em que a figura feminina segura o objeto japonês. Mas não apenas isso. Visconti mesmo foi um colecionador de gravuras japonesas – há várias de sua ampla coleção na mostra – e estudou, como poucos, certos elementos da milenar cultura para transpor para suas obras – como os desenhos de movimentos de mãos das mulheres japonesas e de motivos florais (dialogando com obras de Massao Okinaka) e lanternas vermelhas.

Indo ainda adiante, há um momento importante na exposição, dedicado à questão da identidade. Na primeira sala do instituto o curador reúne um conjunto de telas de Anita Malfatti, artista do primeiro modernismo brasileiro. Seus quadros O Japonês (1915/16) e O Homem Amarelo (da mesma época) remetem à idéia ambígua do ocidental pintando, de amarelo, o homem oriental. Ao mesmo tempo, depois dessas obras, estão telas realizadas a partir dos anos 1920 por artistas japoneses que no Brasil aportaram. Neles se fazem presentes duas questões importantes: a presença do auto-retrato como busca de deixar registrado um nome e um rosto (destaque para o de Takaoka) e das paisagens, o que remete à idéia de reconhecimento do novo país em que os imigrantes vivem.

Mas o curador optou por não estabelecer ‘uma narrativa’ cronológica das relações artísticas entre os dois países e sim explorar núcleos em que ora os entrelaçamentos são mais nítidos, ora mais sutis – o que também permite certos encontros sob uma visão mais poética, como no segmento que representa a relação geográfica e cósmica entre os dois países (enquanto é dia no Japão, é noite no Brasil), com obras de Oscar Oiwa, Rego Monteiro e Naiah Mendonça,

De certa maneira, então, a obra O Helicóptero (1969), de Duke Lee (grande homenageado da mostra), raramente vista, transforma-se em ícone de Laços do Olhar: a instalação é formada por um painel contínuo em espiral em que estão colocadas imagens num ‘pot-pourri internacional’. ‘É como um vórtice, um movimento imaginário em que as coisas são levadas, transformadas, se encontram e se distanciam’, diz Herkenhoff.

Sincretismos e correspondências vão, enfim, acontecendo por meios diversos: na poesia (há os célebres haicais de Haroldo de Campos ilustrados por Tomie Ohtake e obras do poeta curitibano Paulo Leminski); na fotografia, na arquitetura, na cerâmica (belas peças do sumiê e esculturas de Kimi Nii), pintura, etc. Na mostra estão, por exemplo, fantasias de carnaval e desenhos do desfile da escola Porto da Pedra, que neste ano teve como enredo a imigração japonesa; desenhos animados japoneses; o erotismo por meio das gravuras Shunga e as fotografias contemporâneas de Nobuyoshi Araki; a referência à tatuagem (irezumis) nas obras de Adriana Varejão e Wakabayashi; o diálogo dos bichos de Lygia Clark com os origamis.. . Há até a Hello Kitty, simbolizando o pop e talvez o processo de despolitização pós-Guerra – a única obra política da mostra, segundo o curador, é o arquivo com a documentação da ação polêmica que Yuri Firmeza realizou em 2006 no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, quando criou a figura de um artista japonês fictício, Souzousareta Geijutsuka.

Serviço

Laços do Olhar. Instituto Tomie Ohtake. Av. Faria Lima, 201 (entrada pela Rua Coropés), Pinheiros, 2245-1900. 3.ª a dom., 11 h às 20 h. Grátis. Até 10/8. Abertura hoje, 20 h,para convidados

11/05/2008 - 18:20h Ponte da Marta: recordar é viver

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José Serra e Gilberto Kassab batizaram a ponte estaiada com o nome do dono e falecido fundador da Folha de São Paulo, Octavio Frias. Uma bela e justa homenagem a um jornalista respeitado. Como lembrou sua filha “Uma ponte é sempre a promessa de um encontro, de uma reunião, de uma convergência. Nesse sentido, o batismo dessa obra é uma homenagem apropriada para quem conheceu Octavio Frias de Oliveira. Meu pai era um homem de diálogo, que gostava de aproximar as pessoas umas das outras, que gostava de promover a reunião de pontos de vista diferentes. Ele próprio foi a ponte do que muitas pessoas eram para o que viriam a ser”.

Na festa da inauguração, onde foi convidado o ex-prefeito Paulo Maluf e não foi convidada a Ministra de Turismo Marta Suplicy, os discursos destacaram a importância da ponte para aliviar o trânsito, a sua beleza arquitetônica e a elegeram em coro o novo cartão postal da cidade.

Para José Serra “ela é um novo marco” para São Paulo. A Folha deu ampla cobertura ao evento destacando que “é a única no mundo em que duas plataformas estaiadas se sobrepõem”.

Ela é capa da Folha de hoje com uma linda foto legendada

Carros antigos desfilam na inauguração da ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira; maior obra da gestão do prefeito Gilberto Kassab

Carros antigos desfilam na inauguração da ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira; maior obra da gestão do prefeito Gilberto Kassab

Em um dos artigos sobre a ponte, a Folha explica:

“é a maior obra do governo do democrata Gilberto Kassab.

Ela foi concebida para desafogar o tráfego na marginal, fazer a ligação com a rodovia dos Imigrantes e se tornar um cartão-postal da cidade, com custo final de R$ 260 milhões. O arquiteto responsável é João Valente Filho.

A ponte pode se tornar um dos cartões-postais da cidade de São Paulo não só por suas luzes mutantes, mas por quatro aspectos de engenharia que a fazem única.

Segundo o engenheiro responsável pela obra, Catão Francisco Ribeiro, o ângulo de 60º, que faz com que a travessia ocorra em curva, é o maior entre as estaiadas do mundo, que costumam ter de 10º a 15º. Outro aspecto inédito é o formato do mastro, o “x” central que sustenta os estais.

A obra faz parte do complexo viário Real Parque e, segundo a Emurb (Empresa Municipal de Urbanização), vai reduzir em até 45 minutos o tempo de viagem do motorista que usa a marginal para chegar a bairros da zona sul da cidade.”

Com tamanho entusiasmo, a Folha acabou esquecendo que a obra foi projetada como parte da operação urbana Água Espraiada pela administração Marta Suplicy (que estranhamente é citada quando a Folha fala do valor pago por Kassab pela obra). A Folha também esqueceu que em relação ao conjunto do projeto, que além da ponte incluía a construção de 8.500 moradias populares para as favelas do entorno, assim como a junção com a Imigrantes, desafogando a Av Bandeirante, só a ponte foi concluída após 4 anos da atual gestão. E a justiça teve que intervir para que os moradores da favela Real Parque não fossem despejados sem qualquer moradia, pela administração Kassab.

Esqueceram também de lembrar que orçada em R$147 milhões ela acabou custando o dobro e por ficar parada durante quase três anos, a prefeitura teve que pagar multa.

Em grande parte custeada pela venda do CEPAC, criado pela administração Marta Suplicy para arrecadar dinheiro sem utilizar o orçamento da cidade, a ponte é hoje sem dúvida um orgulho para todos.

Vale a pena ler os artigos a seguir, disponíveis na Folha online e apreciar as fotos da belezura entregue à cidade.

Aproveitem também para reler o editorial da Folha de São Paulo do 13 de maio de 2005, exatamente três anos antes da Ponte ser inaugurada. Ele figura no final desta nota.

Marta Suplicy mostrou-se visionária e determinada para vencer mais este desafio. Hoje estão extasiados e são unânimes em aplaudir. Quando leiam o editorial em questão verão que é só uma forma do “esqueçam o que eu escrevi”.

Luis Favre

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Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira

da Folha de S.Paulo

Pontes são uma seara vasta e dinâmica para o mundo dos recordes, em que a ponte Octavio Frias de Oliveira, inaugurada neste sábado (10), também passa a figurar. Ela é a única do mundo em que duas plataformas estaiadas se sobrepõem, fazendo com que os cabos se entrelacem, e conta com o maior ângulo entre estaiadas, de 60º.

Por conta disso, a equipe responsável pela obra tem apresentado o projeto em alguns dos maiores congressos internacionais sobre pontes.

da Folha de S.Paulo

A ponte Octavio Frias de Oliveira pode se tornar um dos cartões-postais da cidade de São Paulo não só por suas luzes mutantes, mas por quatro aspectos de engenharia que a fazem única. Segundo o engenheiro responsável pela obra, Catão Francisco Ribeiro, o ângulo de 60º, que faz com que a travessia ocorra em curva, é o maior entre as estaiadas do mundo, que costumam ter de 10º a 15º.

Outro aspecto inédito é o formato do mastro, o ‘x’ central que sustenta os estais –estai é um termo náutico que denomina o cabo que segura a vela de um barco. Nascido de uma necessidade de engenharia, a forma foi aproveitada pelo arquiteto João Valente para marcar o visual da ponte.

A sobreposição de duas plataformas estaiadas também nunca havia sido feita. “Essa [ponte] foi complicadíssima do ponto de vista geométrico, porque os cabos não poderiam cruzar uns com os outros”, diz um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, Augusto Carlos de Vasconcelos, da Divisão de Estrutura do Instituto de Engenharia e autor de “Pontes brasileiras: Viadutos e Passarelas Notáveis” (ed. Pini).

De acordo com Ribeiro, a execução foi como um bordado. As pontes sobrepostas tinham de ser construídas simultaneamente, para que uma contrabalanceasse a outra.

Por conta disso, o processo de construção também foi único: não era possível usar o rio nem as marginais para fazer o escoramento. Assim, a evolução das duas pontes ocorreu ao mesmo tempo.

Segundo Vasconcelos, as pontes estaiadas são uma evolução das pontes pênseis (ou suspensas), e a possibilidade de serem construídas parte por parte permite que a obra seja mais rápida e econômica.

“É muito mais difícil de ser calculada, mas, por outro lado, muito mais fácil de ser concluída”,
afirmou ele.

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São Paulo, sexta-feira, 13 de maio de 2005 EDITORIAL FOLHA DE SÃO PAULO

PROJETO EXTRAVAGANTE

É acertada a decisão do prefeito José Serra (PSDB) de retomar as obras que ligam as avenidas Jornalista Roberto Marinho (antiga Água Espraiada) e a marginal Pinheiros, deixando de lado a construção de duas pontes sobre o rio Pinheiros, na zona sul da cidade, previstas no projeto original aprovado pela administração da ex-prefeita Marta Suplicy. A justificativa apresentada por José Serra é que a construção dessas pontes estaiadas (suspensas por cabos de aço) encareceria desnecessariamente a obra.
A cautela e a mudança do projeto original são procedentes. Com as pontes endossadas por Marta, toda a empreitada custaria nada menos que R$ 147 milhões. Sem elas, o custo total -que inclui outras alterações na malha viária, além da construção das alças- cai para R$ 85 milhões.
É duvidoso, ademais, que a venda em leilões dos Cepacs (Certificados de Potencial Adicional de Construção), títulos que dão direito de construir além dos limites estabelecidos em certas áreas da cidade, possa gerar recursos suficientes para arcar com as despesas previstas inicialmente no projeto. No ano passado, os leilões desses papéis, realizados para angariar fundos para a construção das pontes, não conseguiram amealhar mais do que R$ 35 milhões, soma muito aquém da estimada para a conclusão das obras.
Além de cara, a construção dessas pontes suspensas está longe de ser uma prioridade para aquela área da cidade. A ligação da avenida Roberto Marinho com a marginal Pinheiros pode continuar a ser feita, sem maiores transtornos, através de duas outras pontes já existentes a apenas 800 metros do local. Essa circunstância, aliás, torna ainda mais extravagante -e suspeito- o projeto deixado pela gestão petista, para o qual, até aqui, não foram apresentadas justificativas convincentes.

10/05/2008 - 07:37h Com 3 anos de atraso e R$ 113 mi a mais, Ponte Estaiada é inaugurada

Novo cartão-postal da cidade receberá cerca de 4 mil carros por hora em cada pista, segundo a Prefeitura

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Com Serra-Kassab o projeto original costou o dobro e demorou 3 anos a mais

Diego Zanchetta e Vitor Hugo Brandalise – O ESTADO DE SÃO PAULO

Com três anos de atraso e R$ 113 milhões mais cara, a Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira, no Brooklin, zona sul, será inaugurada hoje, às 11 horas. A expectativa é de que a obra desafogue o tráfego nas principais avenidas da região – embora ainda com efeito reduzido, enquanto o restante do projeto viário previsto para o local não estiver pronto. A obra, que começou em outubro de 2003, já consumiu R$ 260 milhões – falta ainda uma praça, com 520 árvores, a ser construída entre a Avenida Luiz Carlos Berrini e a Marginal do Pinheiros. A licitação do projeto, de 2002, vencida pela empreiteira OAS, previa gastos de R$ 146,9 milhões e conclusão do projeto no final de 2005.

Quando assumiu a Prefeitura, o hoje governador José Serra (PSDB) criticou os custos da obra. A opção pela manutenção do contrato com a OAS só foi feita porque a indenização à empreiteira, em caso de rompimento, seria de R$ 150 milhões. Nos últimos dois anos, contudo, o plano original da construção passou por incrementos. Houve um aditamento de R$ 36,6 milhões no contrato e uma nova licitação, também vencida pela OAS, de R$ 70 milhões, para o remanejamento da rede elétrica que cruzava a estrutura. “O projeto não encareceu, o que ocorreram foram aditamentos normais”, diz o gerente de obras da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Norberto Duran.

Urbanistas e o Ministério Público reclamam que parte do dinheiro usado na construção, cerca de R$ 130 milhões, vieram da Operação Urbana Água Espraiada. Esse valor, segundo a promotora Claudia Beré, deveria ter sido investido em melhorias para os moradores da favela do Jardim Edite, área considerada Zona Especial de Interesse Social (Zeis).

A nova ponte receberá cerca de 4 mil carros por hora em cada pista e permitirá acesso direto da Avenida Jornalista Roberto Marinho à Marginal do Pinheiros, sentido Interlagos, à zona oeste e ao centro. Segundo Norberto Duran, os principais benefícios serão sentidos na Ponte do Morumbi – por onde circulam cerca de 7 mil veículos por hora – e no cruzamento entre as Avenidas Berrini e Roberto Marinho.

Especialistas alertam, porém, que a nova ponte pode transferir os congestionamentos que hoje ocorrem na marginal para a Roberto Marinho. O gerente da Emurb admite que, sozinha, a ponte não é solução. “A ponte trará uma rota opcional ao Aeroporto de Congonhas, desafogando a Avenida dos Bandeirantes, mas algo próximo do ideal será conseguido com a construção de todo o projeto viário”, afirma Duran. Ele se refere ao prolongamento de 4,5 km da Roberto Marinho até a Rodovia dos Imigrantes – por meio de um túnel -, cujo projeto está em fase final de execução. A previsão, segundo o prefeito Gilberto Kassab (DEM), é de que todo o projeto viário esteja pronto em seis anos.

10/05/2008 - 07:15h Operação Água Espraiada

Editorial do jornal O Estado de São Paulo elogia a capacidade de planejamento e os benefícios para a cidade de São Paulo da administração Marta Suplicy no que concerne as operações urbanas, particularmente a de Água Espraiada, incluída a ponte estaiada, os projetos de moradia, do verde e viário. Ignora as graves acusações do vereador Donato sobre manipulação dos CEPAC’s pela atual administração e nem uma palavra sobre o aumento em quase 100% do preço da ponte.

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A ponte da Marta foi criticada e agora virou o novo cartão postal da cidade

EDITORIAL O ESTADO DE SÃO PAULO

A primeira fase da Operação Urbana Consorciada Água Espraiada será concluída hoje com a inauguração da Ponte Octavio Frias de Oliveira, no Brooklin, zona sul, sobre o Rio Pinheiros. As etapas seguintes do projeto prevêem a extensão da Avenida Jornalista Roberto Marinho até a Avenida Pedro Bueno e, depois, a ligação desse eixo, por um túnel, com a Rodovia dos Imigrantes. Essas obras contribuirão para desafogar a sempre superlotada Avenida dos Bandeirantes. Além disso, favelas deverão ser substituídas por conjuntos de moradias populares e haverá uma linha de veículos leves sobre trilhos (VLT), além de um parque com 40 mil metros quadrados de área verde. A idéia é que se fixem na região pólos de moradia, emprego, lazer e serviços públicos, para evitar o deslocamento dos moradores.

As obras são financiadas, em grande parte, com recursos dos leilões de venda de Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs), títulos oferecidos pela Prefeitura como forma de antecipação de recursos, autorizando, em troca, o investidor a construir imóveis acima do índice permitido na região da operação urbana. O prolongamento da Avenida Roberto Marinho até a Rodovia dos Imigrantes, que liga a capital à Baixada Santista, será feito com recursos do Estado e da Prefeitura, que já assinaram um termo de parceria.

A venda de 449,3 mil Cepacs, desde 2004, rendeu um total de R$ 172,8 milhões. De acordo com a legislação que instituiu a Operação Urbana Consorciada Água Espraiada, esses recursos só podem ser aplicados em obras que integram o plano para aquela região. A emissão total autorizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é de 3,7 milhões de títulos, totalizando cerca de R$ 1,1 bilhão.

O projeto da Operação Urbana Consorciada Água Espraiada foi desenvolvido durante a administração de Marta Suplicy, pelo ex-secretário de Planejamento Jorge Wilheim, autor de outros planos semelhantes para o ordenamento urbano de São Paulo. São instrumentos previstos no Estatuto das Cidades e no Plano Diretor Estratégico de São Paulo para serem utilizados pela administração municipal em projetos de mudanças urbanísticas e estruturais, assegurando melhorias sociais e valorização ambiental.

A administração Serra/Kassab herdou, já prontos, os projetos das Operações Água Branca, Vila Maria, Rio Verde-Jacu Pêssego, Diagonal Sul, Água Espraiada, pólo Sul, Vila Sônia, Vila Leopoldina e Diagonal Norte. Concentrou esforços, no entanto, apenas na melhoria substancial do chamado eixo do Brooklin. Estima-se que, se todas as operações fossem realizadas no ritmo ideal, o conjunto delas poderia, no prazo de 30 anos, resolver grande parte dos principais problemas urbanos da capital.

Embora discutidas há décadas, as Operações Urbanas mereceram pouca atenção dos administradores e só serviram para interesses de pequenos grupos. Uma das mais polêmicas foi a Operação Urbana Faria Lima, iniciada na administração Paulo Maluf e que teve seus recursos desviados para outros fins. As melhorias previstas para a região se limitaram à ampliação da própria avenida e a algumas reformas do sistema viário. Conforme relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito realizada pela Câmara Municipal, houve irregularidades em 30% dos empreendimentos realizados no eixo da Avenida Faria Lima.

O projeto da Operação Urbana Consorciada Água Espraiada contém diretrizes para a efetiva melhoria da região: infra-estrutura completa, uso misto dos imóveis (evitando que se forme um novo bairro-dormitório), respeito ao meio ambiente e valorização da paisagem urbana.

A Ponte Octavio Frias de Oliveira, que começou a ser construída em 2003, liga a zona oeste à zona sul da cidade por meio de duas pistas de 900 metros de extensão, suspensas por 144 estais (cabos de sustentação). Por ela podem circular até 4 mil veículos por hora, reduzindo em até 45 minutos o tempo de viagem entre a zona oeste e a zona sul. Seu custo foi de R$ 260 milhões.

14/04/2008 - 05:23h Projeto do governo Lula reconhece união gay de imigrantes

Proposta de mudança no Estatuto do Estrangeiro permite que homossexual estrangeiro no país obtenha visto para companheiro

Novo projeto veda, também sem distinção de sexo, a expulsão, em caso de crime, de estrangeiro que possua companheiro brasileiro

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ANDRÉA MICHAEL – Folha de São Paulo

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Projeto do governo federal para a reformulação do Estatuto do Estrangeiro dá ao companheiro do imigrante, sem distinção de sexo, os mesmos direitos -quanto à obtenção de visto temporário ou permanente- que a lei atual só prevê para os cônjuges -portanto, pessoas de sexos diferentes.
Assim, um estrangeiro homossexual pode pedir visto para seu companheiro tal como ocorre hoje com casais heterossexuais. A concessão do visto ocorre da análise de cada caso.
O novo projeto veda, também sem distinção de sexo, a expulsão de estrangeiro que tenha companheiro brasileiro. Hoje, livra-se dessa punição, que ocorre em caso de prática de crime, apenas o estrangeiro casado (portanto, com pessoa de sexo diferente) ou com filho cujo sustento esteja sob sua responsabilidade.
Elaborado pelo Ministério da Justiça, e obtido com exclusividade pela Folha, o texto foi encaminhado à Casa Civil na semana passada -última etapa antes de ser remetido para o Congresso Nacional.
O imigrante ilegal, que aporta no Brasil em busca de emprego e acaba sendo explorado, também passará a ser amparado pelo governo. Em vez de deportado, será encarado como vítima de tráfico de pessoas. Nessa condição, poderá, se quiser, ganhar visto de permanência e passar a morar no país.

Foragidos
Se aprovado o texto do projeto pela Câmara e pelo Senado, haverá uma mudança expressiva do ponto de vista da prisão de estrangeiros foragidos que chegam ao país aproveitando-se do fato de que a diversidade cultural e as dimensões do país favorecem seu esconderijo.
Ao receber de algum país o informe de que um criminoso está foragido, a Interpol -a polícia internacional que congrega 186 nações- distribui a “difusão vermelha”: um aviso de que o sujeito é procurado.
No Brasil, o documento não tem validade de mandado de prisão. A Polícia Federal, que representa a Interpol, só pode seguir o procurado e informar as autoridades do país que busca o foragido. Nesse meio tempo, acontecem as fugas.
Pelo novo projeto, a “difusão vermelha” da Interpol terá força de mandado de prisão. A PF poderá deter o sujeito. Tão logo o faça, deverá avisar o país que requereu a detenção do procurado e esperar que as autoridades estrangeiras peçam oficialmente ao Supremo Tribunal Federal, no prazo de cinco dias, a formalização da prisão para fins de extradição.
Os cuidados com a exploração da Amazônia também foram contemplados no projeto elaborado pelos técnicos da Secretaria Nacional de Justiça.
Hoje, o estrangeiro que pretende ingressar no Brasil para trabalhar em áreas indígenas precisa pedir autorização da Funai (Fundação Nacional do Índio). No novo estatuto, em caso de tais terras indígenas se localizarem na Amazônia Legal, também será necessária a chancela dos ministérios da Justiça e da Defesa.
“Trata-se de uma lei com foco humanitário, inovadora e voltada para uma nova realidade, que já não mais está protegida pelo estatuto em vigor, que tem mais de 20 anos. Esperamos que o Congresso seja sensível e aprove com rapidez, ainda que com eventuais mudanças, a proposta, discutida amplamente com a sociedade”, diz o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior.
O tempo de visto para turista será de cinco anos. Hoje, ele é de “até” cinco anos, mas como praxe o governo autoriza a permanência no país por dois anos.

04/12/2007 - 14:34h Brazilians Giving Up Their American Dream

Sylwia Kapuscinski for The New York Times
Elisabeth Borges, left, her daughter, Marianna, husband, Jose Osvandir Borges, seated, and son, Thiago, right,
with Jose Silva, a family friend.

 

By NINA BERNSTEIN and ELIZABETH DWOSKIN

Published: December 4, 2007 – The New York Times

Like hundreds of thousands of middle-class Brazilians who moved to the United States over the last two decades, Jose Osvandir Borges and his wife, Elisabeth, came on tourist visas and stayed as illegal immigrants, putting down roots in ways they never expected.

After packing up their plasma-screen TV, scholastic trophies and other fruits of 12 prosperous years in the Ironbound in Newark, the couple and their American-born daughter, Marianna, 10, were scheduled to fly back to Brazil for good this morning. They expect their son, Thiago, 21, to follow in a year or two, despite his reluctance to leave the only land that feels like home.

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