26/11/2008 - 15:46h Novas medidas de socorro mudam o papel do banco central dos EUA

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Jon Hilsenrath e Deborah Solomon, The Wall Street Journal - VALOR

O governo dos Estados Unidos se comprometeu a injetar mais US$ 800 bilhões nos conturbados mercados de crédito, sendo que desta vez a maior parte do dinheiro virá diretamente do banco central, o Federal Reserve, que assim passa a ser um agente financeiro em quase todos os cantos da vida americana.

Nos próximos meses, o Fed vai comprar até US$ 600 bilhões em dívida emitida ou garantida por empresas de crédito imobiliário com fortes laços com o governo: Fannie Mae, Freddie Mac, Ginnie Mae e Federal Home Loan. As autoridades esperam que isso derrube os juros das hipotecas e ajude o setor imobiliário. Além disso, o Fed, com apoio do Tesouro, que é o Ministério da Fazenda nos EUA, vai oferecer até US$ 200 bilhões em financiamento para investidores para que possam comprar títulos de dívida atados a créditos estudantis, automobilísticos e de cartões e a empréstimos para pequenas empresas.

Essas ações também representam novos passos dados pelo governo de George W. Bush para resolver a crise financeira no fim de seu mandato, e chegam poucos dias depois de o secretário do Tesouro, Henry Paulson, ter sugerido que poderia adiar o comprometimento de mais verbas oriundas do programa de US$ 700 bilhões para alívio de ativos problemáticos, o Tarp, aprovado pelo Congresso em outubro. Os mercados pioraram nos últimos dias, em parte devido a incertezas quanto aos planos do governo.

Paulson disse que as medidas visavam a aumentar a disponibilidade de financiamento para o consumo e aquisição de casa própria. “Nada é mais importante para sair desta correção do mercado imobiliário do que a disponibilidade de financiamento hipotecário acessível”, disse ele. Paulson acrescentou que o mercado para papéis lastreados por dívida de consumidores “paralisou” no mês passado, tornando quase impossível para milhões de americanos encontrar juros palatáveis para financiar desde computadores até cursos universitários.

Esses mercados pioraram bastante nas últimas semanas. No fim da semana passada, por exemplo, a dívida emitida pela Fannie Mae tinha juros 1,8 ponto porcentual acima dos de títulos do Tesouro de igual prazo. Essa diferença era de apenas 0,7 ponto porcentual em setembro, logo depois de o governo ter assumido controle da gigante hipotecária e sua co-irmã, a Freddie Mac.

Conforme aumentava o custo para a Fannie e a Freddie se financiarem, os juros de hipotecas também subiam. Investidores festejaram o novo plano, e as taxas de crédito imobiliário caíram cerca de meio ponto porcentual ontem, após as notícias, algo que pode ajudar quem quer refinanciar sua casa ou comprar uma.

“Isso vai liberar consumo que de outra forma não ocorreria”, disse Susan Wachter, professora de mercado imobiliário da faculdade de administração Wharton, da Universidade da Pensilvânia. “Vai aumentar diretamente a demanda por casas e ajudar com o problema da queda constante dos preços de imóveis.”

O custo de crédito imobiliário tem subido nos EUA em parte porque investidores de outros países, especialmente bancos centrais, recuaram recentemente devido, em parte, a temores quanto ao mercado americano de casas e à ambigüidade do governo. A Fannie e a Freddie também tiveram limitada sua capacidade de comprar títulos lastreados por hipotecas.

Nos últimos meses, o Fed já disponibilizou suas linhas de crédito para corretoras e empresas não-financeiras. E até anunciou planos de começar a comprar alguns dos complexos títulos de dívida que estão no centro da crise financeira - instrumentos conhecidos como obrigações de dívida garantida (CDO, na sigla em inglês) - através de seu resgate da gigante seguradora American Internacional Group Inc.

Conforme o Fed expandia sua atividade de financiamento, seu balanço inflou de US$ 900 bilhões em agosto para mais de US$ 2 trilhões. Com os novos programas, deve ficar ainda maior. O Fed, ao contrário do Tesouro, não precisa tomar emprestado para financiar seus programas de resgate. Um banco central pode na prática criar dinheiro novo injetando recursos - também conhecidos como reservas - no sistema bancário, algo que o Fed está fazendo agora.

É algo parecido com o que o Japão fez nos anos 90 e também nesta década, quando o Banco do Japão injetou dinheiro nos bancos do país num processo conhecido como “afrouxamento monetário quantitativo”. O Fed está levando esse processo um passo à frente. Ele não está apenas injetando dinheiro, mas também decidindo para onde esse dinheiro deve ir por meio de seus próprios programas de financiamento.

“O Fed está indo mercado a mercado, dizendo: ‘Onde o crédito está entupido?’ e tentando lidar com isso de maneira direta”, disse Laurence Meyer, ex-diretor do Fed e hoje vice-presidente da consultoria econômica Macroeconomic Advisers.

Essa abordagem traz vários riscos. Os mercados podem se tornar dependentes do financiamento do Fed, o que pode retardar uma recuperação. Diretores do Fed estão preocupados com a maneira como poderiam sair dessas linhas de crédito, mas acham que isso é um problema que terão de enfrentar só depois que a crise passar, algo que ainda vêem como um futuro distante.

No âmago, a abordagem do Fed - somada ao volumoso estímulo fiscal planejado pelo futuro governo de Barack Obama - também é inflacionária. Mas dados os problemas em formação na economia americana no momento, como alta do desemprego e queda do consumo, as autoridades do Fed não vêem na inflação um risco iminente.

Há outros riscos - especialmente o de nada dar certo e mais dinheiro se tornar necessário. Além do mais, o Fed poderia ter perdas em todos os empréstimos que conceder, especialmente com a economia tão frágil. O banco central está tomando precauções. Por exemplo, o Tesouro aceitou assumir os primeiros US$ 20 bilhões em perdas da nova linha de crédito de US$ 200 bilhões para financiamento de carros, crédito imobiliário e outros empréstimos para consumo.

Pela estrutura dessa linha de crédito, o banco central vai emprestar dinheiro a investidores - por meio de bancos conhecidos como “dealers” - e os investidores, por sua vez, podem usar o dinheiro para comprar títulos de dívida de alto nível atrelados a crédito ao consumidor. Se a inadimplência de consumidores subir bastante e esses títulos ficarem em atraso, a conta vai cair no colo do Fed e do Tesouro.

O programa de crédito imobiliário é mais direto. A partir da próxima semana, o Fed vai começar a comprar US$ 100 bilhões em dívida emitida pela Fannie Mae, Freddie Mac e outras empresas patrocinadas pelo governo. Ele também planeja comprar US$ 500 bilhões em dívida lastreada por hipotecas que essas firmas avalizam.

O Fed espera aumentar a cotação da dívida com suas compras, o que reduziria o rendimento dela e, teoricamente, os juros de hipotecas.

Com o novo plano, o Tesouro na prática comprometeu US$ 330 bilhões dos US$ 700 bilhões do programa de resgate. Ele precisa de autorização do Congresso para ir além de US$ 350 bilhões.

(Colaboraram Serena Ng e James R. Hagerty)

25/11/2008 - 14:47h Anatomia do pânico com o Morgan Stanley

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Susan Pulliam, Liz Rappaport, Aaron Lucchetti, Jenny Strasburg e Tom McGinty, The Wall Street Journal - VALOR

Dois dias depois que a Lehman Brothers Holdings pediu concordata, espalhou-se um boato explosivo: outra grande firma de Wall Street, o Morgan Stanley, estava prestes a quebrar. O que se dizia no mercado naquele 17 de setembro é que o Deutsche Bank AG tinha cancelado uma linha de crédito de US$ 25 bilhões para o banco de investimento.

Não era verdade, mas o boato ajudou a desencadear uma cascata de apostas contra o Morgan Stanley. O diretor-presidente John Mack queixou-se amargamente de que operadores desejosos de lucros estavam semeando o pânico. Mas faltava uma informação essencial: quem, exatamente, estava por trás dessas transações?

Registros de transações examinados pelo Wall Street Journal oferecem agora uma resposta parcial. Esses documentos revelam que algumas das maiores firmas de Wall Street - Merrill Lynch & Co., Citigroup Inc., Deutsche Bank e UBS AG - estavam apostando pesado contra o Morgan. A estratégia dessas firmas era usar complicados instrumentos financeiros chamados swaps de crédito, uma forma de seguro contra perdas com crédito.

Um exame dessas transações feito pelo WSJ também revela que os swaps tiveram papel importante ao amplificar a avaliação pessimista do mercado sobre o Morgan Stanley, o que, por sua vez, levou os operadores a investir contra as ações da firma, vendendo-as a descoberto. A inter-relação entre as transações com swaps e a venda a descoberto acelerou a espiral descendente da firma.

Este relato foi elaborado a partir dos registros das transações e de mais de 70 entrevistas com executivos de Wall Street, operadores, corretores, administradores de fundos de hedge, investigadores e autoridade reguladoras.

Durante anos, a venda de swaps de crédito foi uma mina de ouro para Wall Street. Mas, por ironia, naqueles dias tumultuados de setembro, o mercado de swaps virou-se contra o Morgan Stanley como um Frankenstein financeiro. Esse mercado se tornou um termômetro bem visível do Pânico de 2008, insuflando a crise que acabou exigindo a intervenção do governo.

Outras firmas também estavam negociando com swaps do Morgan em 17 de setembro: Royal Bank of Canada, Swiss Re e vários fundos de hedge, como King Street Capital Management LLC e Owl Creek Asset Management LP.

A pressão também se intensificou em outra frente: houve um aumento nas vendas a descoberto - apostas contra as ações da Morgan - por parte de grandes fundos de hedge. No fim do dia, a ação do Morgan tinha caído 24%, e as autoridades temiam que investidores com práticas predatórias estavam mirando os bancos de investimento.

Esse tipo de transação, que já havia derrubado Bear Stearns Cos. e Lehman, fez com que as ações do Citigroup desabassem 60% na semana passada, o que forçou novo socorro do governo.

Os investigadores estão tentando identificar o que causou o caos do mercado em meados de setembro e saber se os swaps de crédito ou as ações do Morgan Stanley foram negociados de forma imprópria. O procurador-geral de Nova York, Andrew Cuomo, o escritório em Manhattan da Procuradoria-Geral dos Estados Unidos e a comissão de valores mobiliários americana (SEC) estão investigando se houve manipulação do mercado por parte de corretores que teriam divulgado intencionalmente falsos boatos para lucrar com suas apostas. As investigações também querem verificar se os operadores compraram swaps por altos preços para provocar o medo quanto à estabilidade do Morgan e assim lucrar em outras aplicações, e se as transações envolveram cotações falsas e fechamento de negócios inexistentes, segundo pessoas a par do assunto.

Ainda não surgiu publicamente nenhuma prova de que qualquer firma tenha feito algo de errado em relação às ações ou swaps do Morgan Stanley. A maior parte das firmas afirma que comprou os swaps simplesmente para se proteger contra eventuais prejuízos com vários tipos de negócios que estavam fazendo com o Morgan. Algumas garantem que suas aplicações em swaps foram pequenas em relação a todas as transações desse tipo ocorridas naquele dia.

Provar que o preço de qualquer papel foi manipulado é extraordinariamente difícil. O mercado de swaps não é nada transparente: as transações são feitas por telefone e email entre os corretores, sem cotações públicas.

Erik Sirri, um diretor de mercados da SEC, afirma que o mercado de swaps é vulnerável à manipulação. “Transações de baixo volume em um mercado relativamente pequeno podem ser usadas para (…) sugerir que um crédito é considerado fraco pelo mercado”, disse ele em depoimento ao Congresso americano no mês passado. Sirri disse que a SEC temia que as transações com swaps estivessem causando investimentos prejudiciais às ações.

O Morgan tinha começado setembro em boa forma. Teve lucro nos dois primeiros trimestres fiscais, até 31 de maio. Ao contrário da Lehman, não tinha muita exposição aos créditos imobiliários residenciais de alto risco, embora estivesse exposto ao mercado de imóveis comerciais e de empréstimos alavancados. Mack sabia que os lucros do terceiro trimestre seriam maiores do que o esperado.

Em 14 de setembro, enquanto a Lehman se preparava para pedir concordata, Mack disse aos funcionários, em memorando interno, que o Morgan estava “em uma posição única para ter sucesso neste ambiente tão cheio de desafios”. No dia seguinte, a firma conseguiu alguns novos clientes de fundos de hedge que estavam fugindo da Lehman.

Mas os rumores corriam soltos, com operadores preocupados com qual firma de Wall Street seria a próxima a cair. A conversa nos fundos de hedge, segundo alguns operadores, é que o Morgan Stanley tinha US$ 200 bilhões em risco devido às suas transações com a seguradora American International Group Inc., então prestes a pedir concordata. Isso não era verdade. O Morgan informou à SEC que sua exposição à AIG era “irrelevante”.

Alguns corretores do J.P. Morgan Chase & Co. estavam sugerindo a clientes do Morgan Stanley que era arriscado manter contas nessa firma, segundo pessoas a par do assunto. Mack queixou-se a James Dimon, diretor-presidente do J.P. Morgan, que pôs fim às conversas, segundo essas pessoas. Deutsche Bank, UBS e Credit Suisse também ofereceram seus serviços a fundos de hedge atendidos pelo Morgan, segundo pessoas a par do assunto.

No dia 16, a ação do Morgan desabou durante o dia, mas com uma recuperação no final do pregão. Alguns fundos de hedge retiraram seus recursos da firma, temendo que o Morgan seguisse os passos da Lehman no tribunal de falências, com risco de imobilizar os ativos dos clientes. Em um esforço para amainar as preocupações, o Morgan divulgou seus resultados naquela tarde, às 16h10, um dia antes do previsto.

“É muito importante devolver um pouco de sanidade ao mercado”, disse Colm Kelleher, diretor financeiro do Morgan, em teleconferência com investidores. “As coisas estão realmente saindo de controle, e boatos ridículos estão sendo repetidos.”

Glenn Schorr, analista do UBS, perguntou a Kelleher sobre o alto custo de proteção da dívida do Morgan Stanley no mercado de swaps. A proteção para US$ 10 milhões em dívidas do Morgan tinha subido para US$727.900 por ano, ante US$221.000 em 10 de setembro, segundo a CMA DataVision.

“Certas pessoas estão se concentrando nos swaps de crédito como desculpa para olhar para as ações”, respondeu Kelleher, sugerindo que os operadores que investiam nos swaps também estavam vendendo a descoberto ações do Morgan Stanley, apostando que elas cairiam.

É impossível saber com certeza qual era a motivação dos que compravam swaps do Morgan. Eles receberiam pagamentos caso o Morgan não pagasse títulos e empréstimos. Alguns desses compradores, sem dúvida, possuíam créditos do banco e estavam simplesmente tentando proteger-se contra uma eventual insolvência.

Mas os swaps também eram uma boa maneira de especular, para operadores que não detiam esses créditos. O valor do swap aumenta com o medo da inadimplência. Os operadores que apostavam no aumento dos temores sobre o Morgan Stanley podiam usar os swaps para obter um lucro rápido.

Em meio às incertezas daquele 16 de setembro, a Millennium Partners LP, fundo de hedge com US$ 13,5 bilhões, pediu para retirar US$ 800 milhões dos mais de US$ 1 bilhão que mantinha no Morgan, segundo pessoas a par dessas retiradas. Em separado, a Millennium também tinha vendido a descoberto ações do Morgan Stanley - parte de uma série de apostas na queda das ações de firmas financeiras, disse uma dessas pessoas. Além disso, a fundo de hedge comprou opções de venda, que lhe davam o direito de vender ações do Morgan no futuro a um preço determinado.

“Escute, nós precisamos proteger nossos ativos”, disse Israel Englander, presidente da Millennium, a um executivo do Morgan Stanley, segundo uma pessoa a par da conversa. “Não é nada pessoal.” Essas apostas na queda das ações, pequenas em comparação com o volume total de transações da Millennium, subiam de valor à medida que caíam as ações do Morgan.

Na manhã do dia 17, David “Tiger” Williams, presidente da Williams Trading LLC, que presta serviços de transações para fundos de hedge, ouviu um de seus operadores dizer que certo fundo havia transferido uma conta de US$ 800 milhões do Morgan Stanley para uma firma rival. O operador, que estava ao telefone com o gestor do fundo que retirou o dinheiro, perguntou por quê. O Morgan estava quebrando, respondeu o cliente.

Pressionado a dar detalhes, o administrador do fundo repetiu o rumor sobre o cancelamento da linha de crédito de US$ 25 bilhões por parte do Deutsche Bank. Williams passou a dar vários telefonemas, mas suas fontes no mercado opinaram que se tratava de um boato falso.

Mas o estrago já estava feito. Às 7h10, um operador do Deutsche Bank cotou em US$ 750.000 a compra de proteção para US$ 10 milhões em dívida do Morgan. Às 10h, o Citigroup e outros operadores já cotavam preços de US$ 890.000. E à medida que se alastrava o boato sobre o Deutsche, as ações do Morgan despencaram, de cerca de US$ 26 às 10h para perto de US$ 16 às 11h30.

Antes do meio-dia, operadores de swap começaram a cotar o custo de seguro para o Morgan em “pontos adiantados” - jargão de Wall Street para transações em que os compradores têm de pagar pelo menos US$ 1 milhão adiantado, mais um prêmio anual, para segurar US$ 10 milhões em dívida. No caso do Morgan Stanley, alguns operadores estavam exigindo mais de US$ 2 milhões adiantados.

Durante o dia, a Merrill comprou swaps para cobrir US$ 106,2 milhões em dívida do Morgan Stanley, segundo os documentos das transações. A King Street comprou swaps que cobriam US$ 79,3 milhões; o Deutsche Bank, US$ 50,6 milhões; a Swiss Re, US$ 40 milhões; a Owl Creek, US$ 35,5 milhões; UBS e Citigroup; US$ 35 milhões cada; Royal Bank of Canada, US$ 33 milhões; e ACM Global Credit, um fundo de investimento operado pela AllianceBernstein Holding, US$ 28 milhões, segundo os documentos.

No dia seguinte, 18 de setembro, algumas dessas mesmas firmas estavam de volta ao mercado. A Merrill comprou proteção para outros US$ 43 milhões em dívida do Morgan; o Royal Bank of Canada, US$ 36 milhões; a King Street, US$ 30,7 milhões; e o Citigroup, US$ 20,7 milhões, indicam os registros.

Nenhuma das firmas comenta quanto pagou pelos swaps, ou se lucraram com as operações.

“A proteção que compramos foi um simples hedge, não baseado em nenhuma visão negativa do Morgan Stanley”, diz John Meyers, um porta-voz da AllianceBernstein. Um porta-voz do Royal Bank of Canada diz que o banco comprou os swaps para administrar seu “risco de crédito” com o Morgan Stanley e que não estava “apostando contra o Morgan Stanley nem realizou apostas na baixa de sua ação”.

A King Street, um fundo de hedge com US$ 16,5 bilhões, comprou os swaps para cobrir sua exposição ao Morgan Stanley, que incluía títulos de renda fixa, segundo uma pessoa ligada ao fundo. O fundo não tinha uma posição vendida na ação, diz essa pessoa.

Porta-vozes de Deutsche Bank e Citigroup dizem que as transações deles foram relativamente pequenas e com o propósito de proteger contra perdas em outros investimentos relacionados ao Morgan, e para atender a ordens dos clientes. Um porta-voz da Owl Creek diz que ela comprou os swaps “para segurar o colateral que tínhamos no Morgan Stanley na época”, e que continua a fazer negócios com a firma.

Merrill, UBS e Swiss Re negaram-se a prestar comentários.

Durante o frenesi de transações em 17 de setembro, Mack havia começado a discutir uma fusão com o Wachovia Corp. Quatro dias depois, o Morgan Stanley alterou o curso, tornando-se uma holding bancária e ganhando maior acesso a recursos do governo. No mês passado, depois de captar US$ 9 bilhões do japonês Mitsubishi UFJ Financial Group, o Morgan recebeu US$ 10 bilhões do governo americano.

O Morgan Stanley precisa agora revisar sua estratégia para lidar com um ambiente avesso a risco e com a supervisão mais rígida do governo que acompanha a condição de holding bancária. Este mês, o banco anunciou que demitiria 2.300 empregados, ou 5% do total.

O custo de segurar sua dívida caiu. Ontem sua ação subiu 33,13% e fechou a US$ 13,38.

18/11/2008 - 09:21h BB e CEF dão mais R$ 13 bi para ampliar financiamentos

Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil já se preparam para jogar mais R$ 13 bilhões na economia.

A Caixa oferecerá R$ 8 bilhões para servidores públicos federais comprarem imóveis em até 30 anos. Além disso, a própria Caixa e o Banco do Brasil estão ampliando os recursos para crédito com desconto em folha (consignado) em até R$ 5 bilhões no ano que vem.

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Novo empurrão oficial
Caixa e BB terão crédito imobiliário de R$ 8 bi para servidor e mais R$ 5 bi para consignado

Gustavo Paul e Geralda Doca - O Globo

BRASÍLIA

Com a missão de segurar o nível do consumo das famílias — motor do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos anos —, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal vão conceder em 2009 R$ 28 bilhões em crédito consignado (com desconto em folha), um reforço de R$ 5 bilhões em relação aos desembolsos de 2008, a despeito da desaceleração da economia no próximo ano em meio à crise financeira global. Além disso, as instituições abriram uma linha de crédito de até R$ 8 bilhões para financiar a compra de imóveis para 1,3 milhão de funcionários públicos federais em condições facilitadas, financiando até 100% da casa própria em até 30 anos.
Ou seja, no total serão mais R$ 13 bilhões em recursos novos.
A Caixa anunciou ontem R$ 10 bilhões para crédito consignado em 2009 e se comprometeu a manter inalterados taxa de juros e prazo de pagamento. O valor representa alta de 25% sobre os R$ 8 bilhões destinados a essa modalidade de crédito este ano. De acordo com fontes ouvidas pelo GLOBO, o BB, maior emprestador em consignação, seguirá o mesmo caminho e já decidiu elevar a carteira com desconto em folha em 20%, para R$ 18 bilhões. Um aumento de 25% não está descartado.
Com as iniciativas, o governo mostra disposição para suprir a escassez de crédito no mercado. Semana passada, após inúmeras linhas para o setor produtivo, o Executivo passou a mirar diretamente o consumidor. Por intermédio da Caixa, liberou R$ 2 bilhões para financiar compras no varejo e R$ 1 bilhão para aquisição de material de construção para quem recebe até R$ 4,9 mil mensais.
Com isso, o “pacote anticrise” do governo federal, anunciado em contagotas desde o fim de setembro, já soma R$ 373,556 bilhões, considerando só a injeção de dinheiro novo no desconto em folha da Caixa e do BB. Entre as medidas estão mexidas nos depósitos compulsórios dos bancos, venda de dólares e financiamento de capital de giro.

Sem limite para valor do imóvel

Novas medidas podem ser editadas.
Hoje à tarde, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comanda reunião com os presidentes de BB, Caixa e BNDES, da qual também participarão o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

— Esse convênio (para o funcionalismo público) é mais uma forma de ajudar a crescer o crédito. Precisamos zelar para que o crédito continue sendo um dos fatores fundamentais a irrigar a economia. Nesse momento de crise, em que Europa e Japão estão em recessão, e também os Estados Unidos, temos de resistir aqui. Temos um momento diferenciado no Brasil — disse o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, na assinatura do crédito imobiliário ao servidor.
Segundo o vice-presidente de Pessoa Física da Caixa, Fábio Lenza, o aumento da carteira de consignado em 2009 visará aos funcionários de empresas privadas, que representam menos de 10% da carteira do banco nesta modalidade. O público potencial é de 1,5 milhão de trabalhadores que recebem salário pelo banco. A taxa de juros do consignado será mantida no próximo ano entre 0,90% e 2,35%.

— A Caixa nesse momento tem trabalhado no sentido de atender à população. Nossa estratégia é não aumentar taxas nem encurtar prazos — disse a presidente da instituição, Maria Fernanda Coelho.
Já o convênio para atender ao funcionalismo reformula um acordo existente desde 2003. O novo plano prevê taxas de juros entre 8,9% a 11,5% ao ano, mais variação da Taxa Referencial (TR), enquanto nos demais planos da instituição, em média, as taxas são de 11% mais TR. Não haverá limite para o valor do imóvel a ser financiado. Será analisada só a capacidade de pagamento do comprador, que pode possuir outro imóvel em seu nome.
Paulo Bernardo ressaltou que as taxas poderão cair devido à concorrência entre os bancos.

— Estamos tentando nos contrapor a efeitos maléficos que a crise pode causar à economia brasileira — disse o presidente do BB, Antônio Lima Neto.
O governo também deve anunciar nos próximos dias regras para facilitar a obtenção de crédito para micro e pequenas empresas. A Fazenda deve regulamentar a possibilidade desse segmento emitir recebíveis para os bancos e, assim, antecipar receita com vendas para o governo.

14/11/2008 - 11:13h FMI alerta para efeito “boomerang” na crise

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Crédito requer incentivo , diz Banco Mundial

Sergio Leo, VALOR

Grande número de países em desenvolvimento está entrando numa nova zona de turbulência provocada pela crise financeira mundial, e, para evitar conseqüências severas, a paralisação nos mercados de crédito tem de ser atacada rapidamente pelas principais economias do planeta, que se reúnem neste fim de semana em Washington, alertam analistas do Banco Mundial convocados para assessorar o grupo das maiores economias mundiais, o G-20. As condições de crédito tendem a piorar em 2009, e exigem resposta rápida, concordam técnicos do Fundo Monetário Internacional.

Deve ser revisto, para incluir hipóteses mais pessimistas, o cenário de arrocho no crédito traçado pelo relatório sobre estabilidade financeira global, divulgado pelo FMI em outubro. O relatório, já austero, previa que a oferta de crédito não teria nenhum crescimento, e que seriam necessários US$ 675 bilhões para financiamento nos próximos dois anos. A ação dos bancos centrais que injetaram dinheiro nos bancos privados é suficiente para suprir essas necessidades de crédito, avalia o Fundo; mas o problema é que o agravamento da crise deve provocar perdas muito maiores que as esperadas.

O risco do efeito bumerangue, com o reflexos, nos bancos dos países ricos, da crise sobre os emergentes, deve servir de alerta aos governos do G-20, acreditam os técnicos. Uma das principais preocupações dos economistas dos bancos multilaterais é a rapidez com que a crise se espalhou para a Europa e países em desenvolvimento, e se deterioraram as condições de financiamento nos países emergentes, especialmente para o setor privado.

O ajuste nos sistemas financeiros dos países desenvolvidos deve reduzir a disponibilidade de crédito pelos próximos anos, o que torna ainda mais desafiador o cenário para os países emergentes necessitados de financiamento. É grande o número desses países, até hoje beneficiados por fluxos de investimentos diretos que vinham sendo estimulados pelo crescimento nas economias centrais.

Na estimativa do FMI, as necessidades de financiamento nesses países praticamente dobrarão entre este ano e o ano que vem, o que exigirá uma emissão recorde de títulos da dívida. O setor privado deve aumentar suas necessidades de quase US$ 250 bilhões para pouco mais de US$ 470 bilhões; o setor público, de quase US$ 100 bilhões para cerca de US$ 200 bilhões. Isso em uma situação de aumento nos custos dos papéis, e na qual, desde setembro nenhuma empresa de país emergente encontrou condições de emitir títulos no mercado externo, sequer para rolar dívidas existentes.

O “efeito bumerangue” identificado pelo FMI tem duas vias: por um lado a deterioração dos preços dos ativos mantidos por bancos estrangeiros nos mercados emergentes pode levar a fortes perdas nesses bancos, com grande exposição a créditos na Ásia, América Latina e Leste Europeu; por outro, a piora na situação dos bancos europeus pode levá-los a aumentar taxas de risco e reduzir a oferta de crédito, dificultando ainda mais a situação dos países em dificuldades.

Esses são só alguns dos problemas que terão de ser tratados pelos governantes reunidos em Washington, sob um clima de desânimo pela falta de um importante convidado, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama. O encontro já foi apelidado de Bretton Woods II, em comparação com a conferência de Bretton Woods, que criou instituições como o Banco Mundial e o FMI, para lidar com os desafios econômicos após a Segunda Guerra Mundial.

As chamadas instituições de Bretton Woods, habitualmente mais inclinadas a políticas de contenção de demanda em situações de crise, agora defendem que a política fiscal tenha um papel central no esforço para reduzir os riscos de deflação e sustentar o consumo e os investimentos. Cortes nas taxas de juros como os que vêm sendo anunciados pelos países ricos são importantes, mas apenas paliativos para a severa contração de crédito, que deve aumentar em 2009. Isso é especialmente verdadeiro nos EUA, onde já não há mais espaço para novos cortes na taxas de juros, na avaliação dos técnicos.

Os economistas do Fundo concordam com a ênfase de Obama para a necessidade de medidas destinadas a deter a queda no preço dos imóveis e inadimplência nas hipotecas nos EUA. Discordam porem da idéia de criar descontos nos impostos para isso; o mais eficiente, acreditam, será apoio financeiro direto ao setor imobiliário, transferências para governos estaduais para programas nos setor e aumento de gastos com obras públicas.

Na Europa, onde a política monetária ainda é vista como apertada pelo FMI e as pressões inflacionárias decrescem com a queda nos preços de commodities, novos cortes nas taxas de juros podem ser recomendáveis, aliados a medidas coordenadas de expansão dos gastos públicos.

A recuperação dos mercados desenvolvidos é fundamental para lidar com fatores responsáveis pela contaminação da crise nos países emergentes. Além das necessidades de financiamento das dívidas, um grande número de países emergentes registra crescimento em seus déficits de contas correntes, o balanço das transações comerciais, de serviços e de transferências dessas nações com o exterior. Um dos sérios problemas é a queda nas remessas feitas por imigrantes aos países de origem, segundo nota o banco Mundial: em 28 países, essas remessas, que devem chegar a US$ 295 milhões neste ano, são maiores que as receitas de exportação da commodity mais relevantes; em 36 nações são maiores que a entrada de capitais privados ou do setor público. Devem cair rapidamente em 2009, de, em média, 2% do PIB para 1,7% do PIB dos países de destino do dinheiro.

10/11/2008 - 12:13h O que fazer com a China na crise

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Sergio Leo - VALOR

O Brasil tem dois tipos de preocupações em relação à China, que, apesar do tamanho, é um participante discreto das reuniões de cúpula convocadas para evitar uma ameaçadora recessão mundial. Analistas buscam na peculiar macroeconomia chinesa pistas da reação do país à crise e da capacidade de ajudar o mundo a atravessá-la. Ao mesmo tempo, o Brasil debate a melhor estratégia para lidar com a crescente voracidade chinesa no mercado internacional.

Em Brasília, as autoridades esperam receber neste mês um sinal de como a China vai combinar a retração dos mercados consumidores e as sensibilidades afetadas pelo apetite dos exportadores chineses. Vence em dezembro o prazo combinado na OMC para que os países sócios pudessem impor salvaguardas contra produtos têxteis chineses. Com a extinção das salvaguardas hoje aplicadas pelo Brasil, estará liberada a entrada de têxteis da China no mercado brasileiro, o que apavora os concorrentes nacionais. O governo brasileiro sugeriu uma alternativa às salvaguardas; os chineses fazem mistério.

O Brasil quer um “mecanismo de consultas” entre os setores privados dos dois países, sob a supervisão dos governos: sempre que houver alta muito forte nas vendas chinesas ao Brasil, se não houver acordo privado para evitar danos sérios aos concorrentes nacionais, o governo brasileiro poderia adotar “medidas administrativas” contra as “distorções” no comércio.

“É um mecanismo muito mais suave do que existe hoje”, defende o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, que não dá detalhes sobre as “medidas administrativas” cogitadas. Os chineses temem criar precedentes contra as próprias importações e estão calados desde meados de outubro, quando receberam respostas a pedidos de esclarecimento sobre a proposta brasileira.

Neste ano, haverá déficit recorde no comércio com a China. As compras de produtos chineses vão superar em mais de US$ 2 bilhões as vendas do Brasil àquele país. Até outubro, mesmo com menor ritmo de crescimento, o déficit já chegou perto do alcançado em 2007 (US$ 1,87 bilhão): as importações brasileiras foram quase US$ 1,8 bilhão superiores às vendas para aquele mercado. “Precisamos diversificar a pauta de exportações para a China, que importa muitos manufaturados, mas não do Brasil”, diz Ramalho.

No último trimestre, houve aumento forte no ritmo de aumento das vendas à China, e uma redução do ritmo de crescimento das compras. Mas os negócios com grãos e óleo de soja são os maiores responsáveis pelo melhor desempenho, e representam, sozinhos, 42,5 % das exportações brasileiras à China. Com as exportações de minério, somam 70% do total. No caso da soja, pelo menos, é boa notícia o fato de que se destinam ao mercado consumidor interno, como reflexo da melhoria nas condições locais de alimentação e urbanização - algo que a recessão mundial não abalará muito..

O governo prepara um esforço de exportação para a China e, baseado nas estatísticas de comércio, já identificou setores como máquinas para têxteis e couros, autopeças e motores, preparações alimentícias e equipamentos diversos que os chineses compram de outros países. “Estamos na fase de identificar, no caso de máquinas e equipamentos, que produtos são comprados, de quem e por quê”, relata Ramalho. No próximo ano, missões comerciais para vender manufaturados serão enviadas à China.

O secretário-executivo da Câmara de Comércio Brasil-China, Rodrigo Maciel, argumenta que o principal fator responsável pelo aumento de importações de produtos da China são as compras feitas pela própria indústria brasileira, de máquinas e equipamentos. Essas importações de bens de capital representam, há anos, mais de 50% do total das importações, e o crescimento até setembro de 2008 chegou a 78% em relação ao mesmo período do ano passado, lembra ele.

As vendas chinesas de têxteis ao Brasil aumentaram 50%, mas perderam espaço no total das importações originadas na China, pela primeira vez nos últimos anos, de 7,9% para 7%. As de brinquedos também decresceram de 2% do total para 1,2% do total (o aumento das exportações de brinquedos em relação a 2007 foi de quase 35%). Maciel desdenha dos temores de uma invasão potencial de produtos chineses deslocados pela recessão dos mercados desenvolvidos. “O esforço estratégico das exportações chinesas para diversificar mercados já aconteceu e eles ocuparam o que podiam”, argumenta. “O Brasil foi um dos países para os quais mais cresceram as vendas da China.”

“Os chineses estão aumentando o valor agregado dos produtos vendidos para cá e isso preocupa cada vez mais setores industriais”, responde o presidente do Conselho d e Comércio Internacional da Fecomercio, Mario Marconini, que, amanhã, promove um seminário em São Paulo dedicado às conseqüências da crise para a China e o Brasil. “Todos precisamos da China, para dar fôlego ao mercado mundial. A a questão é como irão reagir à crise”, acrescenta.

Muito do que acontecerá no comércio com os chineses dependerá da reação da China ao desaquecimento na economia mundial. Até setembro, apesar da redução no ritmo de crescimento, as exportações chinesas aos EUA continuam firmes, e mesmo os bancos mais expostos a maus negócios no mercado americano mostraram bons resultados no terceiro trimestre, segundo a consultoria GaveKalDragonomics. O setor imobiliário contraiu-se com as medidas oficiais de restrição de crédito, e a produção industrial perde fôlego, mostrando sinais de acúmulo de estoques.

Ainda não se sabe se são estoques de bens intermediários, sinal de gestão de preços nas indústrias, ou de bens finais, que mostrariam preocupante retração na demanda tradicional por mercadorias chinesas. Na semana passada, as autoridades locais anunciaram liberação de quase US$ 600 milhões para incentivar o mercado interno. Mas a resposta chinesa ainda é um dos maiores enigma da crise.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

29/10/2008 - 18:17h O Metrô e a cidade

TENDÊNCIAS/DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

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JORGE WILHEIM


Não se pode imaginar que um transporte de massa tão vital para os cidadãos quanto o metrô seja implantado sem diálogo

APÓS O período eleitoral, em que não houve espaço para esclarecimentos suficientes sobre propostas para a rede de metrô em São Paulo, volto ao tema, urgente diante do grau de congestionamento de tráfego que prejudica todos.
Para a circulação de pessoas, há dois paradigmas a considerar: a) transporte é um sistema, do qual participam o pedestre, a bicicleta, o automóvel, o veículo coletivo, o trem -donde a importância de considerar em conjunto as vias por que cada um transita e os estacionamentos em estações e terminais; b) o desenho do transporte de massa deve constituir uma rede, uma malha em que se busca maximizar o número de nós, isto é, das estações de transbordo entre uma linha e outra, pois somente assim cada um escolherá seu itinerário e o total de usuários se distribuirá, diluindo a concentração por linha que ocorre quando a rede ainda não se encontra estabelecida.
A rede de metrô, um verdadeiro reticulado, deveria cobrir toda a cidade e estender-se para municípios vizinhos: Guarulhos, São Bernardo, Taboão, Osasco. Esse desenho tem sido debatido pelos técnicos do Metrô, ocorrendo por vezes legítima divisão de opiniões.
Assim é que, enquanto um grupo, que prevaleceu quando o engenheiro Claudio de Senna era secretário estadual de Transportes Metropolitanos, defendia uma rede aberta, como a acima descrita, denominada Pitu - 2020, outros técnicos, em data mais recente, defendem a implantação de uma rede mais concentrada, no centro expandido, não chegando a constituir claramente uma rede nem tendo um alcance metropolitano, à qual se deu o nome de rede essencial, parcialmente coincidente com um Pitu - 2025.
Essa era, e é, a divergência entre as teses enunciadas durante a recente campanha eleitoral. Enquanto Marta Suplicy defendia a rede aberta, de caráter metropolitano, Kassab a acusava de ter “inventado” uma malha diferente da que se estava implantando, defendendo implicitamente outra tese, a da rede essencial.
Há, contudo, algumas modificações em ambos os esquemas gerados pelos técnicos do Metrô. A candidata Marta propunha algumas extensões a fim de alcançar Freguesia do Ó, Cerro Corá, Taboão, Vila Maria e Sapopemba a partir de linhas existentes ou em construção. Enquanto à rede essencial o governo do Estado está acrescentando uma linha nova, ligando Freguesia do Ó à estação São Joaquim (da linha norte-sul), paralela e próxima a duas linhas existentes (a leste-oeste e a que passa pela av. Paulista).
Uma divergência técnica seria normal, porém, conviria que o debate fosse ampliado, incluindo de algum modo a opinião dos usuários, além de ser imprescindível o diálogo entre a secretaria estadual e o Metrô com os responsáveis pela cidade de São Paulo e pelos municípios contíguos.
Não se pode imaginar que um transporte de massa tão vital para os cidadãos seja implantado sem diálogo com a prefeitura, sem contemplar o Plano Diretor, as operações urbanas, a política de uso do solo, o planejamento, as ações estratégicas previstas e sem debate público.
Para definir o desenho final das linhas, além do conceito de rede, deve-se considerar tanto a população que demanda o transporte quanto a força de indução que o metrô acarreta, adensando e diversificando o uso do solo.
Por isso, uma pesquisa de origem e destino, retratando as demandas atuais, não é suficiente para a determinação da malha. Essa pesquisa resulta numa redundância das tendências atuais, recaindo na articulação no centro e em sua rótula, e exclui a função indutora do metrô, bem conhecida e valorizada pelo setor imobiliário.
Embora com décadas de atraso, é urgente definir o desenho final da rede de metrô. Essa definição terá que resultar de franco e transparente debate técnico entre especialistas do Metrô e urbanistas das prefeituras pertinentes e terá que ser convalidada por uma consulta aos usuários.
Finalmente, em nível político-administrativo, o desenho da malha final e o resultante cronograma de elaboração de projetos, assim como de investimentos, deverão constituir a pauta de um acordo entre os três níveis de governo, cada um assumindo suas responsabilidades, à semelhança da divisão de encargos financeiros proposta pela então ministra do Turismo destinada a fazer face ao aumento de turistas durante o ano de 2014, ano da Copa.
O metrô de São Paulo é tão vital para a cidade e para o país que nenhum governante se furtará de buscar tal acordo, ansiosamente aguardado pela população metropolitana.

JORGE WILHEIM, 80, é arquiteto e urbanista. Foi secretário de Planejamento Urbano do município de São Paulo (gestão Marta Suplicy).

29/10/2008 - 16:30h Onde buscar sinais de duração da crise

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Justin Lahart e Kelly Evans, The Wall Street Journal - VALOR

Em meio ao tumulto financeiro mundial, economistas estão se debatendo para estimar por quanto tempo a economia ficará fraca. Medidas habituais, como o produto interno bruto e dados trabalhistas, dão idéia do que tem ocorrido, mas não dizem muito sobre o que ainda está para acontecer. Economistas estão usando outras medidas menos óbvias para ter indicações de quando a economia vai sair do buraco.

Nos Estados Unidos, os bancos estão reduzindo empréstimos, os consumidores gastando menos, as empresas cortando empregos por causa do naufrágio dos lucros e a crise no mercado imobiliário, que provocou a desaceleração, persiste. Aqui, uma visão das cinco áreas que os economistas estão observando e os indicadores que estão acompanhando.

Bancos

O plano do governo americano de injetar US$ 250 bilhões nas instituições financeiras, assim como a garantia que ele deu aos empréstimos interbancários, diminuíram parte do estresse que dilacerava os mercados de crédito no início deste trimestre.

Num sinal de que os bancos estão menos desconfiados de emprestar dinheiro uns aos outros, a Libor, a taxa do interbancário de Londres, referência para muitos empréstimos em dólar, caiu bastante nas duas últimas semanas. Contudo, ela ainda está mais alta do que o habitual em relação à taxa do Federal Reserve, o banco central americano.

As taxas interbancárias são uma condição importante para a recuperação dos mercados de crédito, mas elas não vão causar uma retomada automática dos empréstimos. “Não importa se um banco vai emprestar para outro banco”, diz o economista paul Kasriel, do Northern Trust. “Interessa se o banco vai emprestar” para o homem comum.

Os bancos estão cautelosos para conceder crédito, em parte porque foram atingidos fortemente pela queda do mercado imobiliário e pela bagunça do mercado financeiro, mas também porque é mais arriscado emprestar num período de desaceleração. Na pesquisa trimestral do Fed em julho com diretores de crédito, uma grande porcentagem dos bancos relatou que está aumentando as exigências para conceder empréstimos. Um primeiro sinal de que a economia está a caminho da recuperação, segundo Kasriel, será quando mais bancos as estiverem diminuindo e não aumentando.

Residências

O mercado imobiliário terá um papel importante na flexibilização dos empréstimos. Enquanto o preço dos imóveis residenciais continuar caindo, mais mutuários vão se ver devendo mais em suas hipotecas do que suas casas valem. Isso abre caminho para que haja mais inadimplência e que os credores continuem cautelosos. No segundo trimestre, o índice de preços de imóveis residenciais da S&P ficou 18% abaixo de seu ponto mais alto, em 2006.

Para saber quanto os imóveis ainda vão cair, diz o economista Jan Hatzius, da Goldman Sachs, a chave é a velocidade de absorção do excesso de oferta de imóveis.

No início de 2005, 1,8% dos imóveis residenciais americanos, excluídos os destinados a locação, estavam vazios e esperando ser vendidos. Ontem, o Censo informou que o índice de vacância no terceiro trimestre de 2008 foi de 2,8% - igual ao do segundo trimestre e quase o mesmo do primeiro, que foi de 2,9%. Com tantos imóveis no mercado, os proprietários têm baixado os preços para atrair compradores.

“Se você vir o excesso de oferta diminuir, é elementar que os preços vão acabar se estabilizando”, diz Hatzius.

Consumidores

A preocupação com a economia tem feito os consumidores fechar a carteira. O consumo move mais de dois terços da economia dos EUA e não diminuía trimestralmente desde o fim de 1991. Aquele espasmo de quase 20 anos de crescimento no consumo acabou no período entre julho e setembro, avaliam os economistas, arrastando com ele o crescimento econômico.

Um sinal de atitude positiva dos consumidores será a intenção que eles tenham de comprar coisas caras, como carros, móveis, eletrodomésticos e eletrônicos - categorias que foram atingidas duramente nos últimos meses porque aumentaram os requisitos para financiamento e o consumidor se afastou de grandes compras.

Empregos

Os americanos provavelmente não estarão a fim de tais compromissos até vislumbrarem melhora no mercado de trabalho. Os números sobre folhas de pagamento e índice de desemprego são indicadores que mostram mudanças no setor de empregos muito depois dos fatos.

Muitos economistas monitoram mais de perto o relatório semanal do Departamento de Trabalho sobre pedidos iniciais de auxílio-desemprego, que calcula o número de pessoas que se inscrevem para receber o benefício pela primeira vez. Por experiência, quando os pedidos ficam acima de 400.000, a economia está entrando em recessão. Isso começou a acontecer em julho. O número mais recente foi 478.000.

Bolsas

As empresas têm o papel principal no panorama de empregos: se elas estão preocupadas com prejuízos, é mais provável que cortem força de trabalho do que contratem. Apesar de todas as suas imperfeições, o mercado acionário é um dos melhores indicadores da saúde das empresas. Milhões de investidores se dedicam a calcular onde vão ter lucro e a opinião deles se reflete nas cotações da bolsa.

Mas, numa época em que a saúde das empresas depende altamente do clima econômico global, observar a Média Industrial Dow Jones pode não dar a melhor idéia. Em vez disso, o estrategista Richard Bernstein, da Merrill Lynch, segue o Índice Composto de Ações da Coréia, mais conhecido como Kospi. As empresas sul-coreanas são exportadoras por excelência, o que as deixa muito sensíveis ao crescimento mundial. O Kospi registrou seu ponto mais alto no ano passado. Ontem, ele estava 52% abaixo daquele nível.

28/10/2008 - 10:00h OCDE pede mais ação contra crise prolongada

Assis Moreira, de Genebra - VALOR

Secretário-geral da OCDE, o mexicano José Ángel Gurría
acha que o tamanho e a duração da dramática crise financeira global
continuam incertos - foto AP


O secretário-geral da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), José Ángel Gurría, estima que o tamanho e a duração da dramática crise financeira global continuam incertos. Certeza mesmo ele tem de uma coisa: de que medidas governamentais são essenciais para evitar que a crise se prolongue. Ele vê as perspectivas econômicas especialmente sombrias no curto prazo. Economistas da OCDE projetam volta de crescimento global acima de 3% só em 2010.

Para o secretário-geral dessa espécie de clube dos países mais industrializados, se a crise persistir, a América Latina se tornará especialmente vulnerável, incluindo o Brasil, especialmente pelo lado das exportações.

Em entrevista ao Valor, Gurría faz um diagnóstico severo da crise financeira e recomenda aos atores do mercado voltarem a estudar finanças e gestão de riscos, e sugere criação de mecanismos para que ela não possa se repetir.

Ex-ministro de Finanças do México e secretário-geral da OCDE desde junho de 2006, Ángel Gurría lançará hoje o relatório Latin America Outlook 2009, numa cerimônia em El Salvador. O estudo enfatiza o papel de política fiscal também como uma ferramenta para o desenvolvimento da América Latina. Mostra que a desigualdade de rendimentos brutos não difere muito entre os países europeus da OCDE e os países da América Latina. Mas os impostos e transferências são eficientes na redução das desigualdades apenas nos países europeus da OCDE. Ou seja, o que é importante é o uso dos impostos.

Leia a seguir os principais trechos de sua entrevista:

Valor: Como a OCDE avalia essa crise? O sr. viu em certo momento o colapso da economia mundial?

Angel Gurría: Essa crise financeira que está varrendo os mercados mundiais é sem dúvida a pior desde a Grande Depressão. Ao mesmo tempo em que tem impacto direto sobre a economia real, estão sendo aprendidas duras lições. O tamanho e a duração da crise continuam incertos, mas o custo é imenso, em perdas com subprimes, desvalorização de ações, pacotes de socorro e outros. Vimos antes ciclos de prosperidade e de quedas, mas agora estamos vivendo circunstâncias excepcionais. Desta vez, o sistema financeiro, motor que irriga o funcionamento da economia, foi bloqueado. A crise colocou sérias dúvidas na cabeça das pessoas sobre a confiabilidade dos bancos e dos serviços financeiros, e sobre a própria credibilidade do sistema de mercado.

Valor: Para a OCDE, qual o impacto da crise na economia real?

Gurría: As perspectivas no curto prazo são sombrias, pretas, achamos que haverá uma acumulação de desacelerações econômicas. Nossas projeções apontam para uma estagnação na atividade até o final deste ano, com crescimento negativo em alguns casos. Nos EUA, o desemprego cresce rapidamente, as pessoas cortam o consumo. Na zona euro, também as projeções são de declínio, com queda forte nas autorizações para construção, e aperto do crédito afetando os investimentos. No Japão, o consumo fraco - aliado à falta de confiança - também é inquietante. As economias emergentes também deverão sofrer desaceleração econômica, ainda mais com a redução da demanda no comércio internacional.

Valor: O que os governos precisam fazer mais para restaurar uma certa confiança?

Gurría: Há uma ampla concordância de que os mercados precisam de monitoramento e regulação efetivas, e de governança corporativa mais forte. É verdade que pode ter havido ignorância sobre o montante das dívidas nos balanços e da exposição dos bancos, mas claramente a estrutura regulatória foi incapaz de tratar de questões como securitização baseada em hipotecas, derivativos, CDS (credit-default swaps). Agora, precisamos assegurar que os pacotes de socorro funcionem, que o crédito seja retomado e os sistemas de pagamentos sejam garantidos. Para isso, os mercados precisam recobrar um mínimo de normalidade, evitando-se excessiva volatilidade.

De maneira geral, uma cultura mais holística de gestão de riscos, questões de compensação e responsabilidade, gestão ética e responsável devem ser criados, baseados em melhores estruturas regulatórias e implementação mais forte de padrões que já existem, como os Princípios da OCDE de Governança Corporativa. Também é preciso melhorar a educação financeira e a consciência de risco entre os usuários do mercado financeiro. Outras medidas devem ser reforçadas, não apenas em relação aos bancos, mas no setor imobiliário, por exemplo, de forma que famílias de baixa renda não sejam expostos injustamente a riscos hipotecários.

Valor: Qual será o custo dessa crise para as populações?

Gurría: O que realmente conta é o bem-estar das pessoas, suas casas, empregos e negócios. O objetivo mais importante para nossas ações é evitar uma longa desaceleração econômica global, é restaurar as condições para o crescimento e assegurar que a crise não possa se repetir. Ainda não está clara em qual extensão a intervenção governamental afetará orçamentos deficitários e a demanda agregada, mas está claro que será necessária uma gestão fiscal séria, que mais gastos de um lado precisam ser compensados com economias em outro lugar para não se cair na armadilha de riscos descontrolados. Também continua incerto o grau pelo qual uma inflação menor permitirá uma política monetária mais acomodativa.

Medidas governamentais são essenciais para restaurar o crescimento econômico. Devemos examinar o que nos permitirá uma nova era de maior produtividade e crescimento. E, fazendo isso, é preciso tratar também de questões como concorrência, educação e reformas. Medidas sociais precisarão ser reforçadas para atacar a alta prevista de desemprego. E não devemos negligenciar outros desafios, como mudança climática.

Valor: Como a OCDE vê as perspectivas e desafios para o Brasil?

Gurría: O desempenho econömico recente do Brasil tem sido forte. O principal fator do crescimento nos últimos anos foi a demanda doméstica. Investimentos têm sido elevados, o que é bom para aumentar o potencial de crescimento de longo prazo. O desemprego tem sido baixo.

Mas a economia brasileira não está imune da situação global. Tem o aperto considerável nas condições de crédito externos, afetando liquidez nos mercados domésticos. O real desvalorizou fortemente desde meados de setembro devido a diminuição rápida do apetite por risco. Isso apesar do fato de os bancos brasileiros estarem em geral bem capitalizados e com pouca dependência de financiamento externo.

O efeito sobre o comércio é importante, mas é menor que o efeito do canal financeiro por dois motivos: o Brasil é uma economia bastante fechada, apesar da abertura dos últimos tempos, e de outro lado tem avançado com êxito na diversificação geográfica de suas exportações. Apesar disso, uma queda generalizada dos termos de intercâmbio prejudicaria vários setores.

A demanda por exportações brasileiras pode enfraquecer. A queda nos preços de commodities pode ajudar a aliviar pressões inflacionárias, mas podem também um impacto negativo no valor das exportações.

Valor: Até que ponto a OCDE vê a América Latina afetada?

Gurría: Como se pode ver na história econômica, quando os Estados Unidos espirram, a América Latina pega uma gripe. O crescimento na região é altamente correlacionado com os influxos de capital privado e, portanto, com as condições financeiras externas. Os títulos emitidos por países da região tendem a flutuar junto aos títulos de “alto rendimento” dos Estados Unidos, títulos de empresas americanas de maior risco que o governo e que algumas empresas gigantes. Quando essas firmas dos EUA sofrem falta de crédito, o mesmo acontece para a América Latina.

Tradicionalmente, as recessões nos EUA impactam fortemente a América Latina, mais quando os EUA desaceleram só um pouco, e sem entrar em recessão, a América Latina pode não sentir efeito negativo nenhum.

Hoje a crise é financeira, e os governos da região devem estar preocupados. Mas a região tem vários suportes recentes que puseram a maioria dos países, incluindo o Brasil, sobre um fundamento melhor para suportar a crise.

A forte reestruturação da dívida pública e da dívida externa faz possível que o governo e a indústria possam suportar a seca de crédito e a possível perda no preço das importações. Mas este suporte tem limite, e só será possível se a crise não se estender por muito tempo.

Há portanto fatores a favor: maior credibilidade dos bancos centrais para conter pressões inflacionárias, taxa de câmbio flexíveis, reservas estrangeiras (só como sinal de responsabilidade fiscal), diversificação do destino das exportações.

Mas a região é ainda vulnerável, em especial se a crise continuar por longo tempo, porque a dívida é ainda elevada na região, os preços relativos das importações/exportações poderiam se deteriorar, e nem todos os setores tem a liquidez do setor exportador. E a saúde do setor bancário continua sendo mais importante para o crédito doméstico que as subidas e quedas da bolsa.

Valor: O que os governos da América Latina deveriam evitar?

Gurría: Não devem cair na tentação do protecionismo. Num mundo mais globalizado, não tem lugar a volta das economias autárquicas. O jeito de se desenvolver e sabendo como navegar em águas tormentosas é não ficando em terra.

Valor: A OCDE lança hoje o Latin American Economic Outlook 2009. Quais as principais conclusões?

Gurría: Basicamente que a política fiscal é não apenas um instrumento macroeconômico, mas é também uma ferramenta para o desenvolvimento da América Latina. Uma boa política fiscal, bons gastos públicos e uma boa gestão da dívida podem melhorar o crescimento e ajudar a combater a pobreza e a desigualdade.

Um aspecto interessante é que a desigualdade de rendimentos brutos não difere muito entre os países europeus da OCDE e os países da América Latina. Mas os impostos e transferências são eficientes na redução das desigualdades apenas nos países europeus da OCDE. O que é importante é o uso dos impostos. Sobretudo as contribuições sociais são muito regressivas (na região). Existem também duas questões principais por resolver a respeito dos impostos: as receitas fiscais são baixas e a importância dos impostos indiretos nas receitas fiscais é elevada.

Valor: O sr espera para quando a entrada do Brasil na OCDE ?

Gurría: Os governos da OCDE decidiram em maio de 2007 reforçar a cooperação da entidade com o Brasil, China, Indonésia e África do Sul em vista de uma possível entrada. Isso é particularmente importante para a OCDE cumprir seu mandato de promover políticas convergentes e desenvolvimento econômico global. Ao mesmo tempo, não há uma data-alvo para a adesão do Brasil. Se e quando for aberta a discussão, será determinada com base na disposição, preparação e capacidade do Brasil e dos outros quatro países para adotar práticas, políticas e padrões da OCDE.

Quando esse momento chegar, o Brasil decidirá se estará interessado em lançar um processo de acessão. Há todos os sinais da importância que o Brasil dá ao desenvolvimento de seu engajamento com a OCDE.

Valor: O que é preciso para o país se tornar membro?

Gurría: O conselho (da organização) determina o procedimento a ser seguido e aciona os comitês especializados em áreas relevantes de política econômica para examinar as políticas e regulamentações do país para assegurar que este está pronto a assumir as responsabilidades como membro. O país candidato deve declarar sua posição em relação aos “instrumentos legais” da OCDE, que são as decisões, recomendações e declaracões adotadas. Ou seja, é preciso mostrar tanto a vontade como capacidade de adotar os principais princípios da organização e as obrigações legais e políticas que resultam disso.

Esses “instrumentos” são mais de 160 no total, agrupados por setores, e a posição do país em cada setor é examinado por um comitê. Os países podem fazer reservas sobre “instrumentos” ou parte deles, os quais são incapazes ou relutam aplicar. Essas reservas sao submetidas a um comitê que as discutem até que um consenso sobre sua aplicação seja obtido. Isso pode consumir um bom tempo.

A OCDE tem estado na vanguarda para desenvolvimento internacional de “regras do jogo” sobre movimento de capital, investimento externo e comércio em serviços. Nesse contexto, o Brasil assinou em 1997 a Declaracão e Decisões sobre Investimento Internacional e Empresas Multinacionais, um acordo politico entre os países para cooperação em questões de investimentos. Também se associou à Recomendação do Conselho Envolvendo Ações Efetivas contra Cartéis, Convenção de Combate ao Suborno.

26/10/2008 - 08:53h Crise imobiliária muda cara dos EUA

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Bairros operários e endereços glamourosos são arrastados pela inadimplência de hipotecas e até turismo é afetado

Lourival Sant’Anna - O Estado de São Paulo

Como na economia americana, os problemas na vida de Jesús Meléndez também começaram no setor imobiliário. Nos Estados Unidos há 30 anos, Meléndez era um caso muito raro: não tinha nenhuma dívida. “Meu pai me ensinou a só comprar alguma coisa quando tivesse o dinheiro”, explica o colombiano naturalizado americano, de 58 anos. Há seis anos, ele abandonou esse princípio, depois de ganhar US$ 20 mil na loteria.

Meléndez, que sempre morou de aluguel, deu entrada numa casa de dois quartos e dois banheiros no bairro operário de North Miami Beach. A casa valia US$ 130 mil. Ele financiou US$ 110 mil e começou a pagar parcelas mensais de US$ 880. Com seu táxi, e mais o trabalho de sua mulher numa confecção, dava para encaixar no orçamento doméstico.

Desde então, a cada ano, Meléndez passou a refinanciar sucessivamente sua casa, sacando dinheiro para reformá-la, mobiliá-la, comprar dois carros usados e, finalmente, cobrir as despesas crescentes de sua filha de 22 anos e dos filhos gêmeos de 16. No total, ele fez cinco empréstimos, sempre com base em reavaliações da casa, que somaram US$ 73 mil. “Todo mundo fazia isso”, justifica. Nesse processo, novos contratos foram assinados, o Banco Regions vendeu a dívida para a financeira Countrywide e os juros, que antes eram fixos, tornaram-se variáveis. As prestações saltaram para US$ 1.300.

Em abril deste ano, a confecção em que sua mulher trabalhava faliu e ela ficou desempregada. Meléndez recorreu à Countrywide, que lhe negou novo empréstimo, alegando que sua casa, que chegara a valer US$ 260 mil, tinha perdido mais de 30% do valor. Meléndez tentou renegociar a prestação, com base nessa queda de preço. Não aceitaram. Há cinco meses, ele não paga mais a hipoteca. A dívida está agora em US$ 196 mil.

A crise econômica reduziu drasticamente o turismo em Miami e seu táxi, que antes rendia US$ 800 líquidos por semana, agora rende a metade. “Com os problemas econômicos, começaram as brigas em casa”, conta ele. O casal se separou e sua mulher, que trabalha agora como faxineira, por falta de outro emprego, mudou-se com os filhos para um apartamento alugado por US$ 900. Meléndez vendeu dois dos três carros e deve US$ 6.800 de cartão de crédito. Sob orientação de uma advogada especialista na área, vai declarar falência.

Como Meléndez, 1,5 milhão de mutuários americanos não pagam suas prestações há pelo menos dois meses. Outros 5 milhões chegarão a essa situação conforme a crise se aprofundar, prevê o economista Mark Zandi, da Moody’’s Economy. E, até 2010, 19 milhões terão dívidas hipotecárias maiores que o valor de suas casas.

Em North Miami Beach, uma em cada três casas está vazia. Algumas foram invadidas por mendigos e viciados em drogas, agravando a desvalorização. A crise imobiliária é mais grave na Flórida e na Califórnia, onde os bancos e financeiras foram mais afoitos em reavaliar as casas e conceder refinanciamentos. Mas o cenário se repete em todo o país. A proporção de casas desocupadas é a mais alta desde 1956, quando o Census Bureau começou o levantamento.

Em Miami, endereços antes glamourosos, como Biscayne Boulevard, Collins Avenue e Lincoln Road têm também uma proporção de um a cada três pontos comerciais fechado. Dois hotéis faliram. Torres reluzentes de escritórios, hotéis e apartamentos recém-construídas por empreendedores famosos como Donald Trump esperam clientes, às moscas, mesmo depois de terem baixado seus preços em cerca de 30%. Na Brickell Avenue, no centro da cidade, apartamentos antes alugados por até US$ 4 mil agora tentam atrair inquilinos a US$ 1.200.

A crise repercute no restante da economia. A indústria automobilística, que emprega 200 mil pessoas nos Estados Unidos, sofre severa retração nas vendas. No último ano, as ações da General Motors caíram 80% e as da Ford, 75%, segundo The New York Times. As duas e mais a Chrysler estão sob risco de falência. O índice de desemprego no país subiu de 4,4%, no fim de 2007, para 6,1%, um patamar bastante elevado para o padrão americano. A expectativa é que siga subindo.

“Atravessei quatro recessões”, diz Paul Kanavos, de 51 anos, dono da construtora Flag Luxury, de Nova York, cujo pai atua no setor desde 1946. “Essa é a pior de todas. Nenhum banco nos EUA oferece financiamento hoje.” Kanavos tinha dois projetos em andamento - um balneário na ilha de Anguilla, no Caribe, que já está 70% construído, e um complexo de hotéis, cassino e lojas em Las Vegas, com o terreno comprado. Ambos somam US$ 700 milhões e são financiados pelo Credit Suisse. O banco se recusa a rolar os financiamentos, de três anos, que estão vencendo agora. “Estamos negociando.”

“Decidimos que, enquanto houver recessão, não entraremos em novos projetos imobiliários”, diz Lisa Rodriguez, do banco francês Société Générale em Nova York. “Acreditamos que vá durar dois anos.”

Em março, Donald Matheson, dono da incorporadora Almat Group, também de Nova York, apresentou aos investidores um projeto de prédios de apartamentos no Brooklin, no valor de US$ 14 milhões. O Banco Goldman Sachs manifestou interesse, desde que o empreendimento fosse ampliado, elevando o investimento para US$ 23 milhões. “Uma semana antes de fechar o negócio, o banco se retirou”, diz Matheson, que investiu mais de US$ 500 mil no projeto. “Não tenho como recuperar esse dinheiro.” Com seu sócio nigeriano Uche Alozie, Matheson está investindo US$ 35 milhões no projeto de um complexo hoteleiro em Lagos (Nigéria): “A África é muito mais palatável”, diz ele.

22/10/2008 - 08:43h FMI prevê que mais bancos vão falir na Europa

http://www-public.tu-bs.de:8080/~y0028855/old/pag/frank1706/O_banco_central_europeu.JPG

Fundo mantém previsão de crescimento de 0,2% para a zona do euro no próximo ano, ante 1,3% em 2008

Bloomberg News* - O Globo

PARIS, BRUXELAS e TÓQUIO. O Fundo Monetário Internacional (FMI) avalia que mais bancos europeus deverão falir. Em sua análise anual da economia européia, divulgada ontem, a instituição diz que os mercados financeiros estão, agora, “dando mais atenção” à alavancagem pura e simples, em vez de avaliar seu grau de risco. Nesse aspecto, os bancos europeus estariam em posição menos favorável que a dos americanos, de acordo com o Fundo. O FMI manteve ainda sua previsão de desaceleração de 1,3% em 2008 para 0,2% no próximo ano para a zona do euro.

O FMI ressalta que, num momento de volatilidade dos mercados e em que os fundos soberanos e investidores exibem reduzido apetite para injetar recursos nos bancos, as instituições financeiras européias verão cair sua capacidade de levantar recursos e aumentar a necessidade de ajuda estatal. “Embora a recapitalização tenha ido bem inicialmente, ela tende agora a desacelerar. Um maior número de bancos deverá falir”, diz o relatório.

Os bancos europeus levantaram US$ 266,7 bilhões em capital novo desde o início de 2007, em meio aos US$ 228 bilhões em prejuízos e baixas contábeis registrados desde então, segundo dados da agência de notícias Bloomberg.

De acordo com o FMI, o desgaste do setor bancário está se infiltrando na economia real, num momento em que empresas e consumidores vêem barrado seu acesso ao crédito. Os países que vivenciaram surtos de crescimento do setor imobiliário, como Espanha e Reino Unido, são os que sofrerão o desaquecimento mais agudo.

— Estamos enfrentando uma desaceleração de grandes proporções em todos os países — disse à imprensa Alessandro Leipold, diretor interino do Departamento de Europa do FMI, salientando que a maioria das economias passará por uma recessão até o início de 2009, seguida por uma recuperação gradual.

Japão planeja ampliar ajuda para bancos grandes O fundo reiterou sua projeção de 8 de outubro para a zona do euro, que registrará crescimento de 0,2% em 2009.

Para todos os países europeus, a previsão foi mantida em 1,4%. Ao mesmo tempo, o FMI espera que a inflação na zona do euro caia para 1,9 % em 2009, ante 3,5% este ano.

Ainda segundo a instituição, os mercados emergentes deverão crescer no ano que vem menos que os 4,3% previstos para o período. As economias dos mercados emergentes “também estão sentindo a pressão”, e os riscos de um “pouso turbulento continuam elevados em partes da região” depois que a disparada dos déficits em conta corrente aumentou sua dependência de capital externo, segundo o relatório.

O governo do Japão sinalizou ontem que poderá ampliar o acesso a seu programa de ajuda para os maiores bancos do país, na tentativa de evitar efeitos da crise global de crédito.

— Como estamos considerando a necessidade de facilitar o empréstimo para pequenas firmas, não vejo razão para discriminar grandes bancos — afirmou o ministro de Finanças, Kaoru Yo

20/10/2008 - 07:40h Crise esfacela preço dos imóveis nos EUA

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Ricardo Balthazar - VALOR

O declínio continuado dos preços dos imóveis nos Estados Unidos está agravando os problemas existentes no mercado imobiliário americano, corroendo o patrimônio de milhões de pessoas que compraram suas casas recentemente e gerando novas complicações para o sistema financeiro e a economia do país.

Com o desemprego em alta e a recessão batendo à porta, muitas famílias têm suado para continuar pagando suas hipotecas. Elas alcançaram o sonho da casa própria obtendo empréstimos em condições muito vantajosas nos últimos anos e agora estão com dificuldades porque as prestações subiram e não cabem mais no orçamento doméstico.

Mas até proprietários que têm condições de ficar em dia deixaram de pagar suas dívidas, devido aos prejuízos provocados pela desvalorização dos imóveis. Essas pessoas preferem perder as casas em que moram e ver o investimento feito até agora evaporar, porque a perda financeira seria maior se elas continuassem honrando seus compromissos.

Cerca de 12 milhões de pessoas têm atualmente dívidas superiores ao valor de suas residências, segundo a consultoria Moody’s Economy.com. Pagar a hipoteca em dia nessas circunstâncias é perder dinheiro na certa. De cada seis pessoas que moram em casa própria nos Estados Unidos, uma se encontra nessa situação.

O governo, o Congresso e a iniciativa privada lançaram nos últimos meses diversos programas para renegociar essas dívidas e evitar que os problemas se alastrem ainda mais. Mas os resultados foram pífios. Muitos proprietários que conseguiram renegociar hipotecas com os bancos voltaram a ficar inadimplentes pouco tempo depois.

“Em geral os novos contratos se limitam a empurrar o problema com a barriga, mantendo as cláusulas que fizeram as prestações aumentar e cobrando os atrasados lá na frente”, disse Lou Tisler, diretor-executivo da Neighborhood Housing Services, empresa que ajuda proprietários com problemas a renegociar suas dívidas no Estado de Ohio.

A bolha especulativa que inflou o mercado imobiliário americano no início da década estourou em meados de 2006. Desde então, os preços dos imóveis nos EUA caíram 21%, conforme o índice S&P/Case-Shiller, principal termômetro do setor. Os economistas acreditam que os preços continuarão caindo por vários meses antes de encontrar um ponto de equilíbrio.

Quem comprou no auge da bolha é quem mais está sofrendo agora. Segundo o site Zillow, que compila informações sobre negócios feitos no país inteiro, 45% dos proprietários que adquiriram imóveis em 2006 e 37% dos que fizeram isso em 2005 têm agora dívidas superiores ao valor que poderiam obter se vendessem suas propriedades.

O fim da bolha imobiliária está na raiz da crise de confiança que atualmente sufoca o sistema financeiro global. Os empréstimos feitos nos tempos de euforia foram usados para lastrear trilhões de dólares em títulos que hoje estão azedando nas carteiras de bancos, seguradoras e outras instituições financeiras.

A inadimplência no setor não pára de aumentar, dois anos depois da implosão da bolha. Mais de 6% das hipotecas estavam com pagamentos em atraso no fim de junho, segundo a Associação dos Banqueiros de Hipotecas. Entre os clientes de alto risco que foram os primeiros a deixar de pagar, 19% estão inadimplentes atualmente e correm o risco de perder suas casas.

Além do impacto direto sobre o sistema financeiro, os problemas do setor imobiliário contribuem para a desaceleração da atividade econômica. Os proprietários endividados estão apertando o cinto e deixaram de consumir como antigamente. Com o mercado cheio de casas que ninguém quer comprar, as construtoras estão cancelando obras e demitindo funcionários.

Muitos economistas acham que forçar a renegociação das hipotecas em termos mais generosos seria a melhor maneira de superar a crise atual, porque isso ajudaria a valorizar os ativos dos bancos e a reanimar a atividade econômica. Mas o governo tem preferido usar o seu dinheiro para lubrificar as engrenagens dos mercados de crédito e reerguer os bancos em dificuldade, sem atacar diretamente os problemas do mercado imobiliário.

“O governo deveria ter agido muito antes para evitar que o problema fugisse ao controle”, disse o advogado Michael Barr, professor de direito da Universidade de Michigan. “O trágico é que o governo esperou meses para intervir e deixou os proprietários endividados por último na fila dos que terão ajuda.”

Um dos fatores que torna complicada a renegociação das hipotecas é a forma como os empréstimos foram empacotados e vendidos pelos bancos. Muitos dos títulos que têm as hipotecas como lastro possuem cláusulas que impedem a renegociação dos contratos originais. Os credores desses títulos são investidores do mundo inteiro que não têm condições de negociar com os proprietários inadimplentes.

Uma associação formada por bancos, companhias hipotecárias e organizações assistenciais chamada Hope Now Alliance conseguiu nos últimos meses renegociar as hipotecas de 2,6 milhões de pessoas, evitando que elas perdessem suas casas. Mas na maioria dos casos houve apenas um pequeno abatimento nos juros, sem redução do principal da dívida, o que significa que essas pessoas certamente terão novos problemas no futuro.

Um estudo feito pelo banco Credit Suisse, que analisou milhares de contratos modificados recentemente, concluiu que quase um terço dos proprietários que renegociaram seus empréstimos no último trimestre do ano passado voltaram a ficar inadimplentes depois de oito meses. Um quarto dos que tiveram redução do principal voltaram a atrasar os pagamentos da hipoteca nesse mesmo período.

Em julho, o Congresso americano autorizou o governo a gastar US$ 300 bilhões para renegociar hipotecas de quem estiver com a corda no pescoço. O governo oferecerá empréstimos com taxas de juros fixos e 30 anos para pagar, desde que os atuais credores concordem em abater o principal e os proprietários tenham os documentos em ordem, condição que poderá excluir muitos imigrantes que se endividaram no auge da bolha.

Estima-se que o programa do governo poderá beneficiar cerca de 400 mil pessoas, uma pequena fração dos milhões de proprietários que estão atravessando dificuldades. Quase três meses depois de aprovado pelo Congresso, o plano ainda não começou a ser executado por causa de questões burocráticas.

Bancos e companhias hipotecárias também têm perdas significativas com a inadimplência de seus clientes. Em geral, eles têm recuperado menos da metade do valor dos imóveis nos casos em que decidem retomar as casas dos proprietários inadimplentes para cobrir seus prejuízos. Ninguém será obrigado a participar do programa do governo. Ele terá caráter voluntário.

Muitos especialistas têm sugerido ao governo mecanismos para incentivar a participação dos credores. Uma proposta que surgiu prevê a substituição das hipotecas com problemas por contratos em que as condições seriam revistas periodicamente conforme a evolução dos preços dos imóveis, o que reduziria os riscos para os proprietários e seus credores. “Seria também uma forma de evitar a formação de novas bolhas no futuro”, disse o economista Andrew Caplin, da Universidade de Nova York.

17/10/2008 - 10:35h Para além das políticas de resgate

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João Sicsú - VALOR

O sistema financeiro ofereceu aos americanos de renda mais baixa e instável o sonho da casa própria. Ao mesmo tempo, ofereceu aos de cima outro sonho, o da alta rentabilidade financeira - já que as operações tradicionais, como a concessão de crédito, estavam remunerando muito aquém dos seus sonhos financistas. O sonho dos de baixo era compatível com o sonho dos de cima. Diferentemente das empresas e outros entes, os americanos de baixo (os indivíduos do grupo subprime) supostamente poderiam pagar aos de cima juros mais altos. O sistema pactuou os sonhos dos “subcidadãos” com os sonhos das superinstituições financeiras.

As operações de financiamento imobiliário ao grupo de “subcidadãos” eram de alto risco por estarem garantidas pelo trabalho, por vezes informal e por rendas potencialmente variáveis. E chegou o dia em que as garantias evaporaram. Chegou o dia em que as prestações da casa própria não puderam mais ser pagas. Uma das formas de pactuação dos sonhos foi estabelecer contratos de financiamento imobiliário com juros altos, mas com percentuais diferenciados ao longo do tempo. No começo do contrato, as taxas de juros eram baixas, depois eram muito altas para compensar a redução da primeira fase. Quando a maior parte dos contratos ainda estava na fase de juros mais baixos, a inadimplência era reduzida - foi o que ocorreu até o final de 2006. Posteriormente, na fase de juros mais altos, a prestação elevada não cabia no rendimento dos “subcidadãos” e os empréstimos deixaram de ser validados. Esse é o desenho da crise de crédito que atingiu a economia americana.

O sistema financeiro vendeu a dívida que carregava dos “subcidadãos” para as superinstituições, remunerando-as com juros elevados, proporcionais ao risco da operação. Quando foi percebido que a dívida dos de baixo não estava sendo validada, decidiu-se vender o papel lastreado na capacidade de pagamento dos “subcidadãos”. Quase que simultaneamente, todos tomaram a mesma decisão. Por razões óbvias, os papéis passaram a valer quase nada. Quando os preços de ativos entram em deflação aguda, diz-se, então, que o mercado entrou em crise de liquidez.

Esses papéis de alto risco e remuneração compunham o ativo de muitas instituições financeiras nos Estados Unidos. Os valores de passivos são mais rígidos do que de ativos. Se por um lado, a maior parte dos ativos das instituições financeiras é cotada pelo mercado, por outro, os seus passivos estão registrados em contratos. Assim, passivos e ativos se desequilibraram. Foi isto que tornou o capital de diversas instituições insuficiente para garantir a continuidade de suas operações. A terceira crise, então, adentrou a economia: a crise patrimonial. Primeiro foi a crise de crédito, que se transformou em crise de liquidez, que, por sua vez, se transformou em crise patrimonial.

Instituições financeiras que não foram atingidas tão diretamente pela crise estão temerosas e decidiram retrair seus negócios: afinal, ao negociar um ativo, o devedor potencial pode ser um “subcidadão” oculto ou uma superinstituição em crise, mas sem sintomas externos. Se isto vale para o sistema financeiro, vale também para setor real da economia. Quem tinha planos de investimento em capital produtivo vai mantê-los na gaveta. O trabalhador sujeito a risco de renda (desemprego) vai reduzir a demanda para fazer um fundo de precaução. Portanto, o risco agora é de que haja uma quarta crise: uma crise de demanda por mão-de-obra, bens de consumo e capital produtivo. O canal mais objetivo de contaminação dessa próxima crise é a redução da oferta e da demanda por crédito, independentemente das taxas de juros cobradas ou oferecidas. O outro canal é subjetivo, é a desconfiança generalizada na capacidade de compra futura da economia, ou seja, mesmo aqueles que não necessitam do sistema financeiro para investir, produzir ou consumir tenderão a se retrair.

Aviso aos liberais: esta crise é resultado da falta regulamentação sobre as superinstituições financeiras e da falta de políticas públicas de moradia para os “subcidadãos”. Foi a falta de atuação do Estado, e não a sua ação ativa, que causou a crise.

As políticas governamentais de resgate do sistema financeiro são todas necessárias. As políticas de compra de papéis que não valem o que o mercado pagaria restituem o capital de instituições que poderiam falir. As benesses orçamentárias do governo que envolvem as transações de aquisições de instituições dentro do sistema financeiro são válidas. As intervenções diretas com recapitalização e tomada do controle por parte do Estado são indispensáveis. Contudo, todas essas políticas são limitadas porque os canais objetivo e subjetivo de contaminação do setor financeiro para o setor real já estão abertos.

Uma política fiscal agressiva de gastos será necessária. Todas as políticas de salvamento de instituições financeiras podem restabelecer a saúde do sistema, mas não são capazes de restaurar a sua atividade. O saneamento do sistema é um problema objetivo, contábil. Contudo, sua atividade depende de sentimentos, conjecturas e temores tanto da parte do sistema financeiro quanto da parte do setor real. Toda a liquidez que poderá restaurar instituições financeiras e impedir que a crise atinja o sistema em sua totalidade pode ficar represada. Banqueiros e empresários não têm interesse em realizar negócios que podem não ser validados pelo consumidor final. A saída bem-sucedida deverá ser uma ativação dos negócios privados estimulada pelo setor público, que deverá realizar gastos, contratar mão-de-obra e transferir renda àqueles que têm alta propensão a gastar (que são os “subcidadãos”) e, portanto, não vão represar liquidez.

Caso as políticas do governo americano sejam apenas de restauração do sistema financeiro, a economia dos Estados Unidos ficará patinando por algum tempo, que poderá ser longo. A economia japonesa já mostrou e tem mostrado que não vale a pena esperar. A diferença entre as políticas de ampliação da liquidez e as políticas fiscais de gastos, ensinada por J. M. Keynes, é que as primeiras são dependentes das reações por vezes pessimistas ou excessivamente cautelosas do setor privado, enquanto as últimas representam “remédio direto na veia”, ou seja, compras diretas ao setor privado, contratações de mão-de-obra ou transferências de renda àqueles que gastam tudo aquilo que recebem e que, portanto, ativam os negócios privados da economia.

João Sicsú é diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea e professor do IE-UFRJ.

10/10/2008 - 07:27h “Poderemos ter uma depressão global”

FOLHA SP - ENTREVISTA  NOURIEL ROUBINI

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Economista que previu crise diz que sistema financeiro precisa mudar para evitar “derretimento total”

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Na segunda-feira, Nouriel Roubini escreveu que o governo norte-americano deveria organizar um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e o Federal Reserve, o banco central do país, tinha de fazer empréstimos de curto prazo diretamente para as empresas. Na terça e na quarta, as duas medidas foram anunciadas. Você sabe que a crise é realmente grave quando um economista conhecido pelo apelido de “Sr. Apocalipse” começa a ser ouvido pela Casa Branca.
Profissional do meio que mais acertos fez em relação à crise atual, Roubini falou à Folha por telefone na tarde de anteontem. Sotaque de mafioso de filme B de Hollywood -filho de judeus iranianos, nasceu na Turquia, morou na Itália e vive em Nova York-, disse que toureava 300 pedidos de entrevista que chegaram apenas naquele dia. Ele acha que o mundo corre o risco de uma depressão, e o Brasil, de crescer menos de 3% (leia texto nesta página). Leia trechos da entrevista.

FOLHA - Depois de os 12 passos que o sr. previu em fevereiro para a crise atual se cumprirem, o que podemos esperar para o 13º?
NOURIEL ROUBINI
- Bem, há duas opções. Ou promovemos uma mudança radical no sistema financeiro para evitar o derretimento completo, que é a coisa certa a fazer, ou esse sistema sofrerá colapso nos Estados Unidos, na Europa e em outros países. E poderemos ter uma depressão global.

FOLHA - O sr. vê contágio no setor corporativo?
ROUBINI
- Já começa a acontecer aqui nos EUA. Em geral, com algumas exceções, as companhias americanas não estavam tão expostas ao papéis tóxicos hipotecários. Ainda assim, nas últimas semanas, diminuiu drasticamente o acesso a crédito das empresas aqui no país, mesmo companhias avaliadas pelas agências de risco como AAA.
Com o mercado de papéis comerciais [letras de câmbio não-garantidas] praticamente interrompido e os empréstimos bancários caríssimos, não há dinheiro para que elas cumpram as obrigações do dia-a-dia. Se nem essas estão tendo acesso, imagine as que têm avaliação pior. Se isso se agravar no setor corporativo, todo o sistema pára, começaremos a ver quebras de empresas incapazes de honrar seus compromissos de curto prazo. Na minha opinião, já estamos no ponto de crise grave também aqui.

FOLHA - Isso leva à minha próxima pergunta. O sr. escreveu na última segunda um artigo em que pedia um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e que o Federal Reserve emprestasse diretamente para as empresas. Nos dias seguintes, as duas medidas foram anunciadas. Coincidência, é claro, mas o sr. acha que alguém no governo finalmente começou a ler suas colunas?
ROUBINI
- Eu sei que eles ouvem de fato, porque muit