14/12/2010 - 17:00h Brasil produz droga melhor contra colesterol

Cientistas sintetizam de forma mais eficaz e barata fármaco usado para limpar as artérias

Antônio Marinho – O Globo

● Os brasileiros que precisam tomar todos os dias comprimidos de estatinas para controlar o colesterol elevado terão uma opção de tratamento tão boa quanto um dos melhores fármacos do mercado e mais barata. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), integrantes do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Fármacos e Medicamentos (INCT-Inofar), descobriram uma forma inédita de produzir a atorvastatina (o princípio ativo do Lípitor, da Pfizer), a mais vendida de sua classe no mundo. A descoberta permitirá que um maior número de pacientes se beneficie de uma droga considerada boa, porém, muito cara. A patente do Lípitor expira no fim deste mês.

Cientistas liderados pelo professor Luiz Carlos Dias, do Laboratório de Síntese Orgânica do Instituto de Química da Unicamp, desenvolveram uma maneira mais viável e eficiente de obter a atorvastatina — indicada para baixar o colesterol ruim, o LDL, associado a doenças cardiovasculares. Para produzir a nova atorvastatina, foi preciso investigar reação por reação descrita na patente original (depositada nos Estados Unidos em 1989). Os cientistas também usaram menos solventes e reagentes para obter a fórmula, o que melhora o rendimento para produção em grande quantidade.

Essa pesquisa abre caminho para a fabricação de outros medicamentos caros e de uso pelo resto da vida. — Preparamos o medicamento a partir de uma rota, um
caminho, de síntese inédita, antes não descrita. A nossa atorvastatina é igual a da Pfizer, mas a estratégia de produção agora ficou mais curta e eficiente. Nosso produto poderá ser preparado em maior quantidade, de forma mais rápida, prática e barata — explica Dias.

O desenvolvimento do princípio ativo no Brasil terá grande impacto econômico, inclusive no Sistema Único de Saúde, já que o preço da atovarstatina de marca varia de R$ 120 a R$ 200, a caixa de 30 comprimidos, dependendo da concentração e da região do país. Mesmo o genérico do laboratório EMS, já disponível aqui, é caro: cerca de R$ 80. — Com esses preços, menos de 5% da população brasileira têm acesso ao medicamento que oferece o melhor efeito terapêutico para baixar o colesterol — afirma Dias. — Agora há uma chance desse número aumentar.

Estima-se que, só em 2009, as vendas do Lípitor geraram uma receita de R$ 400 milhões para Pfizer. No mundo, as vendas atingiram US$ 13 bilhões.

Composto também poderá ser exportado

A próxima ação do INCTInofar é patentear a nova atorvastatina — se houver verba, inclusive no exterior — e buscar parceria com laboratórios brasileiros interessados em produzi-la em larga escala, com o mesmo grau de pureza do produto de marca, visando até a exportação da molécula.

Uma grande dificuldade para se obter uma droga genérica é que as indústrias se antecipam ao fim de uma patente, registrando possíveis rotas sintéticas. Como as empresas farmacêuticas brasileiras não têm tradição nesse tipo de pesquisas, terminam comprando insumos para remédios de países como Índia e China. — A pesquisa nessa área no Brasil pode nos ajudar a produzir compostos mais complexos, inclusive para o mercado externo — comenta Dias. — Depois da aprovação da substância na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não será necessário fazer testes em seres humanos porque a droga já existe, é a mesma do Lípitor.

A patente do Lípitor já deveria ter expirado há dois anos, mas a Pfizer conseguiu na Justiça prorrogá-la até o fim deste ano. O INCT-Inofar foi criado em 2009, no âmbito do Programa dos INCTs do Ministério da Ciência e Tecnologia e é administrado pelo CNPq, com apoio do Ministério da Saúde, MCT e da Faperj. ■

A ação das estatinas

● A maior parte do colesterol, cerca de 60%, é produzida no fígado pela enzima HMG. Ele participa de reações importante, como, por exemplo, manter a integridade
das membranas das células. Para cumprir sua missão, o colesterol pega carona em moléculas formadas por gorduras e proteínas. A de baixa densidade, LDL, é ruim
porque leva o colesterol do fígado para o sangue, entupindo as artérias. As estatinas impedem que a enzima HMG atue no fígado, e o órgão reage aumentando o número de receptores de LDL.

Com o maior número de receptores, o órgão captura mais LDL no sangue. Isso ajuda a eliminar a quantidade de gorduras nocivas nas paredes das artérias.

31/03/2010 - 08:20h Cada vez mais perto do etanol celulósico

Empresa traz para o Brasil enzimas capazes de auxiliar na produção de álcool a partir do bagaço de cana

Foto: Luiz Juttel/CTBE


Leandro Costa – O Estado de S.Paulo

A produção do etanol celulósico – o etanol extraído a partir da biomassa, como o bagaço de cana, por exemplo – pode finalmente ganhar escala industrial. Esse processo, que já é estudado há pelo menos uma década no mundo, pode aumentar em pelo menos um terço a produção de etanol no País, atualmente em 24 bilhões de litros, e tornar mais próxima a consolidação do mercado externo de biocombustíveis.

A Novozymes Latin America, multinacional de biotecnologia de origem dinamarquesa, que há dez anos estuda o desenvolvimento de enzimas capazes de aproveitar os resíduos agrícolas para produzir o etanol celulósico ou de segunda geração, como também é chamado, apresentou, durante o F. O. Licht”s Sugar & Ethanol 2010, na semana passada, em São Paulo (SP), sua nova tecnologia.

São duas enzimas que devem baratear o processo de hidrólise das biomassas. É esse processo que vai permitir às usinas obter glicose a partir dos resíduos da cana e ampliar, assim, a produção do biocombustível. “Já testamos a eficiência das enzimas em plantas de demonstração nos Estados Unidos, usando palha de milho. Agora, vamos comprovar a sua eficiência no Brasil, com o bagaço de cana”, diz o presidente da empresa na América Latina, Pedro Luis Fernandes.

Parcerias. A empresa diz que irá buscar parcerias com centros de referência, como o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC ), de Piracicaba (SP), e o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), de Campinas (SP), para montar plantas de demonstração, para simular o processo de produção do álcool celulósico em escala industrial.

O CTBE, por exemplo, irá concluir até o meio deste ano a primeira planta para experimentos com o etanol celulósico do País. “O prédio está quase pronto e as máquinas já chegaram. Até 2011 pretendemos realizar um grande experimento, com participação da comunidade científica”, diz o diretor do CTBE, Marcos Buckeridge.

Segundo ele, diferentemente de uma planta de demonstração, onde é possível apenas simular o ambiente industrial, a usina piloto em questão permitirá também o desenvolvimento de cada etapa do processo.

Buckeridge, que também é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do Bioetanol, diz que as descobertas nessa área têm avançado muito. “Em todo o mundo há o desenvolvimento de novas enzimas, o que pode baratear a produção do etanol de segunda geração. No ano passado, só o INCT investiu US$ 1 milhão e temos várias enzimas em ponto de descoberta científica”, revela.

Desafios. O esforço coordenado de pesquisa é outro fator que faz Buckeridge acreditar que o álcool celulósico tenha potencial para deslanchar. Segundo ele, apesar de o desenvolvimento das enzimas ser um ponto fundamental, há outros desafios, como a melhoria genética das leveduras que vão fazer a fermentação da glicose obtida da biomassa. “As leveduras que fermentam a glicose do caldo da cana não digerem a glicose vinda da biomassa da mesma forma. Por isso, temos trabalhado também na pesquisa de novas leveduras”, diz o pesquisador Buckeridge.

O programa de cana do Instituto Agronômico (IAC-Apta) também tem se voltado para o tema. Segundo o especialista em melhoria genética e diretor do Centro de Cana do IAC-Apta, Marcos Landell , já estão sendo identificadas variedades de cana que possuem alta produção de celulose e poderiam se encaixar bem na nova indústria. Entre elas, duas variedades lançadas recentemente merecem destaque, para o pesquisador: a IAC 91-1099 e IACSP 95-5000. “Elas têm o perfil biológico de alta produção de biomassa”, diz Landell.

O fato de o Brasil ter uma agroindústria de açúcar e álcool bem desenvolvida, além de matéria-prima abundante, põe o País em vantagem também em relação ao etanol celulósico. É o que pensa o gerente de Desenvolvimento Estratégico e Industrial do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Jaime Finguerut.

Mais perto. “Nós não temos os milhões de dólares dos americanos, que pesquisam as enzimas na palha de milho. Mas estamos mais perto da linha de chegada”, diz. “Só o que precisamos fazer é acoplar o processo de hidrólise nas nossas usinas, que já são eficientes. O bagaço atualmente já está dentro da dinâmica das usinas. Moído, picado e pronto pra virar álcool”, diz Finguerut, citando o fato de que em outros países é preciso montar todo o processo logístico das biomassas.