10/08/2009 - 17:16h Carrascos sutis

LUIZ FELIPE PONDÉ


A maior invenção depois do computador, o Viagra fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo


http://electricityandlust.files.wordpress.com/2008/10/philip-roth.jpgTENHO LIDO Philip Roth, graças a dois amigos, um de mais de 50 anos, comunista, outro de menos de 30, conservador. O primeiro sempre tentou me convencer de que seria essencial lê-lo -não sou fácil de ser convencido porque sou uma criatura de hábitos e por isso tendo a inércia, o que pode ser uma reação espontânea ao fato de eu desde criança achar o mundo um lugar hostil-, o segundo me presenteou com dois livros de Roth que foram os primeiros que li.

Roth escreve como homem. Hoje “escrever como homem” é raro, porque homens estão fora de moda (sim cara leitora, eu sei que você sofre calada com isso à noite, sozinha na cama). Sua letra, repleta de gosto pelo pecado, passeia como mãos por baixo da saia das mulheres, sem querer dar uma de sensível -como vemos no “Homem Comum”. Um erro crasso da mulher é confundir esta insensibilidade com falta de vínculo afetivo por parte do homem. Ler Roth para as mulheres é uma chance de vasculhar a sensibilidade dura de um homem que as adora.

Em “O Fantasma Sai de Cena”, Roth revela as dores do seu personagem Nathan Zuckerman definhando diante da velhice (a potência no homem é mais do que simples ereção mecânica e, ao mesmo tempo, é uma simples e miserável experiência mecânica).

Após narrar o horror da incontinência urinária em um homem que até ontem devorava mulheres 30 anos mais jovens, Roth salta para uma espécie de poesia rude do mundo na qual homens e mulheres sempre voltam à fúria dos elementos inorgânicos e, aí, descansam.

Em “A Marca Humana”, ele fala das alegrias diante da maior invenção da humanidade depois do computador, o Viagra -que aliás, fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo.

O personagem principal será acusado injustamente de racista por alguns alunos negros vagabundos (junto de seus professores oportunistas), que se aproveitam da canalhice do politicamente correto para destruir uma vida dedicada à universidade e ao conhecimento. Mas um segredo terrível revelará o ridículo e o trágico dessa acusação (não vou contar, é claro).

A heroína feminina desse romance é descrita por Roth como aquele tipo de pessoa cujo olhar carrega o tédio que só a monotonia da infelicidade repetida mil vezes pode causar. O livro narra o amor improvável, graças ao Viagra, entre um homem de mais de 70 anos e uma infeliz de menos de 40.

No “Animal Agonizante”, Roth afirma que o maior ganho para o homem, na emancipação feminina, foi poder se libertar do eterno jogo da mulher frágil. Mas esta libertação, como toda libertação, pode ser fatal: pode deixar o homem só. A dependência da mulher é uma das coisas que mais dá tesão aos homens. E aí reside o perigo: elas sabem disso.

Ela sempre foi dependente (e não só financeiramente) e, portanto, uma escrava, sem grandes papeis além de filha, esposa, mãe, amante (ou seja, o tal segundo sexo). O problema é que esse quadro não tinha só uma escrava, tinha outro escravo. Nos termos de Roth, “os melhores entre nós, homens”, aqueles que se sentiam culpados quando não mais queriam estar com suas mulheres, mas ainda assim permaneciam, porque elas eram de fato dependentes deles. Para os cruéis, isso nunca foi problema.

Com a emancipação feminina, o jogo se desmancha, e “os melhores entre nós” podem respirar e dizer “não quero mais você e não sou responsável por você nem pela sua vida, porque você é hoje independente”. A emancipação feminina nos libertou a todos, pelo menos aos dois tipos de escravos: a mulher trancada entre a cozinha e o tanque e o homem asfixiado entre o escritório (porque deve sustentar a falsa fragilidade e incapacidade feminina) e uma cama habitada por uma mulher sem desejo.

http://d.i.uol.com.br/capa-roth_indignacao_300.jpg“Indignação” (uma espécie de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” a la Roth) traz o terrível tema da paranoia como consciência aguda da fragilidade da vida.

Um pai açougueiro que intui desgraçadamente a autodestruição do filho de 19 anos através de seus micro-atos diários: uma irritação besta aqui, um exagero ali, um palavrão acolá. Nada mais aterrorizador do que o pior paranoico (seu pai) ter razão sobre seu destino trágico. O que a fuga de um filho do controle do pai (algo esperado) seguido por um simples sexo oral praticado em você por uma gostosa colega de faculdade no escuro de um carro parado na estrada (sonho de todo homem) podem fazer para te matar? Enfim, os detalhes e o acaso podem ser carrascos sutis.

ponde.folha@uol.com.br

28/09/2008 - 10:10h O ápice de Philip Roth

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Philip Roth

Novo romance do autor norte-americano, “Indignação” é o melhor que escreveu nos últimos 20 anos, diz crítico irlandês

JOHN BANVILLE – FOLHA SP

“Indignation” [Indignação, ed. Houghton Mifflin, 256 págs., US$ 26, R$ 47] é o melhor romance de Philip Roth desde “O Avesso da Vida” (1986).

Desde então, publicou muitos livros excelentes -talvez livros demais: ele é quase tão prolífico quanto John Updike-, mas nenhum com um desenho tão intricado, apaixonado e fascinante quanto este.

Roth recebeu grandes elogios por lamentos à moda do rei Lear em romances como “Teatro de Sabbath” e “O Animal Agonizante”, bem como, mais recentemente, por “Homem Comum” e “Fantasma Sai de Cena” [todos pela Cia. das Letras], nos quais a morte tem presença central.
Mas, em seu novo romance, retomou a graça e sutileza de trabalhos anteriores e produziu uma obra-prima tardia.

Sangue e gordura

Não que “Indignação” esteja livre do toque de Tânatos, pressagiando morte e desgraça.

Ainda que o protagonista de Roth, Markus “Markie” Messner, tenha apenas 19 anos, em sua época já viu sangue suficiente para saciar a sede de vingança do mais furioso dos reis.

“Cresci com o sangue -com o sangue e a gordura e afiadores de facas e máquinas de fatiar e dedos amputados ou pedaços de dedos desaparecidos das mãos de meus três tios e também de meu pai- e jamais me acostumei com com isso ou gostei disso.”

A história se passa em 1951, e a máquina de fatiar em questão é a Guerra da Coréia. Markie, um jovem de Nova Jersey, estudante aplicado, vem obtendo notas excelentes em uma pequena faculdade da região e espera escapar ao serviço militar.

Mas seu pai, um açougueiro kosher, está “enlouquecido de preocupação pelo filho único e querido parecer tão despreparado para os perigos da vida quanto qualquer pessoa ao chegar à idade adulta, enlouquecido pela descoberta de que o seu menininho está crescendo”.

“Tour de force”

Levado à loucura pela loucura do pai, Markie, que considera “indignação” a mais bela palavra da língua, não encontra outra saída a não ser escapar rumo ao desconhecido. E por isso se matricula no distante Winesburg College, em Ohio.

As páginas iniciais, que evocam de forma compacta o ambiente de Markie em Nova Jersey e seu trabalho no negócio da família, são um daqueles “tours de force” que sempre caracterizaram Roth.

Pode-se ver Markie em seu paletó esporte e sapatos brancos de camurça, pode-se sentir o cheiro do sangue e da serragem no açougue, pode-se sentir o anseio do jovem pelas boas coisas da vida com as quais o futuro lhe acena.

Maravilhosamente evocativas, igualmente, são as passagens que descrevem os esforços do protagonista para se enquadrar às limitações da faculdade no Centro-Oeste dos EUA, sem deixar de preservar a independência e a integridade pessoal.

Obsessão

Uma das sutilezas de “Indignação” é que jamais nos é permitido perceber o que exatamente impulsiona Markie, nos níveis mais profundos. Ainda que ele seja reconhecido como excepcionalmente inteligente e trabalhador e seja convidado a se integrar às fraternidades judaica e cristã da faculdade, prefere se manter rigidamente distante de todas as seduções.

Dedica-se aos estudos com uma obsessão comparável à de seu pai. Mesmo quando sua aparente misoginia é contestada pelo “diretor de homens” da instituição, recusa-se a ceder.

Em um confronto esplêndido, Markie cita de forma extensa e fiel uma polêmica de Bertrand Russell sobre o ateísmo e depois vomita “contra o vidro de uma das fotos emolduradas que enfeitam a parede do diretor, mostrando a equipe de futebol de Winesburg que ganhou, invicta, um campeonato em 1924″. Como sempre, não se pode acusar Philip Roth de excesso de delicadeza.

E, porque Roth é Roth, não demora muito para que surja uma mulher. O sexo é o propulsor incansável de seu trabalho, mas neste livro ele é maculado por sangue e morte.

Trata-se de um tema narrativo que Roth sustenta com imensa competência. A apresentação inicial e direta do sangue e das tripas que o trabalho em um açougue envolve se altera e obscurece quando Olivia Hutton entra em cena.

No começo uma Ofélia para o Hamlet de Markie, ela parece uma estudante completamente normal, “pálida e esguia, com um cabelo castanho avermelhado, escuro”, ainda que possua, ou assim pareça a Markie, “modos distantes, intimidadores e autoconfiantes”.

No entanto Markie mal consegue acreditar na sorte de que desfruta quando, em seu primeiro encontro, Olivia se prova prodigamente generosa com seus favores sexuais.

Como é comum na ficção, porém, bons momentos engendram sérios problemas. Não demora para que Markie esteja de volta ao escritório do Sr. Caudwell, onde o diretor o acusa de um relacionamento indigno com a jovem dama em questão, que deixou o colégio abruptamente, com sua reputação maculada.

“Indignação” é um trabalho enganosamente curto, escrito em estilo cuja limpidez oculta obscuridade.

Mas, ao final do primeiro quarto do livro, quando estamos nos acomodando à história de esforço juvenil e rebelião filial de Markie, sofremos o abalo de uma revelação que abre imensas perspectivas: “Contando minha história para mim mesmo hora após hora em um mundo sem relógio, espreitando incorpóreo nessa gruta da memória, sinto que venho fazendo a mesma coisa há 1 milhão de anos”.

Todo aquele sangue e todas aquelas lâminas deveriam ter nos alertado para os acontecimentos sombrios que viriam, como tenebrosamente vieram.

JOHN BANVILLE é escritor irlandês, autor de “O Mar”. Este texto saiu no “Financial Times”. Tradução de Paulo Migliacci.

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