30/08/2012 - 09:57h Indústria pede socorro ao Brasil urbano

Luiz Ushirobira/Valor / Luiz Ushirobira/Valor Luiz Ushirobira/Valor – Para a CNI, mobilidade caótica afeta o desenvolvimento do país, ao restringir fluxo de pessoas, bens e ideias e reduzir a produtividade, inovação e qualidade de vida

Por Marli Olmos | VALOR

De São Paulo

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) acaba de concluir um extenso estudo sobre os efeitos provocados pelos problemas de mobilidade na produtividade do país. O setor está preocupado com o tempo que seus funcionários perdem para chegar nas fábricas e escritórios, os atrasos nas entregas nas mercadorias e o prejuízos à atividade intelectual, quase sempre concentrada nos centros urbanos. Trata-se, conclui a entidade, de uma perda na qualidade de vida para os 45% da população que vivem em 10 metrópoles brasileiras.

A direção da CNI acredita ter como fortes aliados dois importantes acontecimentos no país – a criação do PAC da Mobilidade, para o qual o governo federal reservou R$ 7 bilhões, e as eleições municipais. Seus dirigentes imaginam que essas duas forças ajudarão na mobilização que a entidade pretende comandar para suscitar um debate nacional.

O documento, que acaba de ser elaborado com a ajuda de dados da Associação Nacional dos Transporte Públicos (ANTP), arquitetos e urbanistas, será encaminhado à presidente Dilma Rousseff. Posteriormente, a ideia é envolver prefeitos, governadores, candidatos e outros agentes municipais, estaduais e federais no centro do debate público nacional.

O diretor de políticas e estratégia da CNI, José Augusto Coelho Fernandes, lembra que se por um lado as empresas se esmeram em desenvolver modernos sistemas de manufatura enxuta, como o chamado “just in time” (por meio do qual as peças de um determinado item chegam à fábrica no exato instante da sua produção), por outro ficam à mercê do que acontece nas ruas congestionadas, na tentativa de adivinhar o horário que sua mercadoria chegará ao destino final.

“Temos percebido que essa questão está fora dos centros de debates no país”, afirma. “As dificuldades de mobilidade deixaram de ser problemas que envolvem somente São Paulo e Rio de Janeiro. Em cidades como Salvador, Recife e Manaus, que vivem situações do mesmo tipo, ninguém consegue marcar compromissos”, completa.

Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Belém, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre e Recife abrigam 45% da população urbana brasileira. Nas duas maiores, São Paulo e Rio de Janeiro, estão 20% dos que habitam o Brasil.

Segundo o estudo preparado pela CNI, cada morador dessas 12 metrópoles gasta, em média, uma hora e quatro minutos para fazer seus deslocamentos diários. Os problemas de locomoção têm se agravado, no entanto, nos municípios com mais de 500 mil habitantes. O trabalho da entidade que representa a indústria mostra que o tempo médio gasto em mobilidade nas regiões aumentou 20% entre 2003 e 2010, em função, principalmente, da expansão das cidades e do aumento das distâncias.

O documento sugere que ” sob o prisma do desenvolvimento sustentado”, é melhor crescer para dentro da metrópole e não mais expandi-la. “Reciclar o território é mais inteligente do que substituí-lo”, destaca o estudo.

A análise sobre a qual os dirigentes da indústria passam a se concentrar servirá também para reorientar os investimentos do setor no país. “Os dados servirão também como fonte de teoria da qualidade das cidades”, afirma Fernandes. Segundo ele, os atrativos de um município passarão a incluir o grau de desenvolvimento de um sistema de transporte, por exemplo.

Nessa linha, o trabalho que a CNI quer levar aos debates políticos enfatiza a necessidade de privilegiar projetos voltados ao transporte público, em redes de ligação de vários modais.

Para reforçar a defesa dos investimentos em transporte coletivo, o estudo da CNI cita que o morador de uma grande cidade gasta 2,93 minutos para percorrer 1 quilômetro em transporte coletivo. Um automóvel gasta 2,67 minutos para percorrer a mesma distância. Essa diferença, de segundos revela, segundo a entidade, que o ganho do transporte individual deixou de ser significativo em uma metrópole.

Desde a década de 1940, o Brasil urbano multiplicou sua população em 14 vezes, o que significa que 85% dos habitantes do país está nas cidades. Mas desde os anos 1960, a mobilidade nas grandes cidades brasileiras tem se baseado no modo rodoviário. A partir da década de 70, todos os sistemas de bondes começaram a ser desativados, o que deu lugar à hegemonia do transporte sobre rodas.

A proposta que a CNI destaca em sua pesquisa é a utilização do transporte coletivo de alto rendimento para os deslocamentos rotineiros. A integração de diversos modais, inclusive as viagens a pé é, segundo a entidade, uma forma de garantir a expansão econômica.

Dessa forma, a entidade que representa a indústria considera que o automóvel, que ganhou projeção “pela mágica do deslocamento imprevisível”, revela-se agora como inadequado como “meio hegemônico de transporte motorizado nas cidades”. “Na grande cidade contemporânea, os automóveis não podem mais ser protagonistas. Precisam ser coadjuvantes”, destaca o estudo.

A CNI reconhece, no entanto, que “não será simples implantar ou mesmo propor uma alternativa ao atual modelo”. Entre 2003 e 2010, o crescimento demográfico no Brasil alcançou de 13% enquanto o aumento da frota de veículos foi de 66%.

Fernandes lembra como cidades como Tóquio têm conseguido povoar o entorno de estações de trem e metrô com moradias, escritórios, shopping centers e demais estruturas necessárias para manter os habitantes próximos dos pontos de deslocamento. No Brasil do passado, por exemplo, a proximidade às estações de trem foi decisiva para a implantação de equipamentos comerciais e de serviços.

Para Fernandes, é urgente, por isso, que o país coloque na agenda de discussão política a necessidade de criar um sistema com multiplicidade de uso de modais e ampliação e facilidade de conexões. Este pode também ser um caminho, segundo a CNI, para cumprir os compromissos de sustentabilidade.

Fernandes lembra que muitas empresas têm enfrentado dificuldades na contratação de profissionais por conta da dificuldade na locomoção em determinada região. Isso acaba por prejudicar o desenvolvimento dos centros de pesquisa e a intelectualidade. “As megacidades serão o cenário concentrador da inovação nas próximas décadas”, prevê o estudo da CNI. Segundo a entidade, ao contrário do que se pregava no passado, “os ganhos econômicos da metropolização são maiores do que os da descentralização urbana”.

Com a concentração do uso do meio rodoviário, com foco no automóvel, os espaços urbanos para moradias se espalharam. A distância do local de trabalho que muitos passaram a enfrentar trouxe graves consequências a partir dos congestionamentos e falta de opções de transporte. Para o brasileiro das classes mais altas, que dirige o próprio automóvel, o tempo de deslocamento é cada vez maior e mais desconfortável. Quem pega ônibus enfrenta ainda mais problemas. Mas são as classes mais pobres que mais sofrem e que fizeram surgir o que a CNI chama de “cidade informal dos loteamentos e favelas”. São as pessoas que preferem morar mal perto do trabalho do que ter de enfrentar a angústia diária do deslocamento.


São Paulo exporta bilhete único, nova bandeira política

Por Raphael di Cunto e Sérgio Ruck Bueno | VALOR

De São Paulo e Porto Alegre

Se a distância acabou por se transformar num dos maiores impedimentos no deslocamento de quem mora distante das regiões centrais das cidades, o bilhete único surgiu como uma solução e, para alguns, a única maneira de sustentar o custo do transporte até o local de trabalho ou escola.

O bilhete único foi criado em maio de 2004 pela ex-prefeita Marta Suplicy (PT). Os sistema permite que, com apenas uma tarifa, de R$ 3,00, o usuário pegue quatro ônibus em um período de três horas, ou três ônibus mais uma integração com metrô ou trem pela metade do preço (R$ 1,50), também num período de três horas. Isso permitiu que os moradores da periferia, mais carentes, gastassem menos para ir ao emprego, concentrado no centro expandido da cidade.

Apesar de elogiado pelos candidatos, o bilhete único é criticado pelo ex-presidente da Dersa e consultor na área de transportes Luiz Célio Bottura. Para ele, o bilhete único não é uma política de transporte, “é política social”, e acaba por sobrecarregar o sistema. “Se as pessoas tivessem que pagar o transporte, pensariam onde vão morar. Como não pagam, não pensam nisso”, afirma.

Entre os candidatos a prefeito em São Paulo, no entanto, todos elogiam o bilhete único, que tem forte apelo e aceitação popular. Celso Russomano (PRB) diz que já ouviu reclamações de que o período de integração deveria ser de mais de duas horas, mas ainda não fez estudos para saber o impacto disso. Ele promete, porém, permitir a recarga do bilhete dentro do próprio ônibus, com os cobradores – hoje, a recarga só é feita nas estações.

Gabriel Chalita (PMDB) diz que fará estudos técnicos e negociará com empresas de ônibus, CPTM e Metrô (estas duas sob responsabilidade estadual) para expandir o tempo de uso e formas de integração com outras cidades da região metropolitana, “já que parte dos usuários do sistema é composta por trabalhadores de outras cidades que precisam vir diariamente para São Paulo”.

Há poucos dias, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad, candidato do PT, prometeu criar um “bilhete único mensal”, que permitiria aos usuários de transporte público utilizar de forma ilimitada os ônibus da capital por um mês com uma tarifa de R$ 150,00. Nesse sistema, haveria também versões mensais e semanais do bilhete único. Metrô e trem, geridos pelo governo do Estado, teriam tarifa diferenciada. Haddad defende, no entanto, a integração com os ônibus de prefeituras da região metropolitana e promete associar o cartão a futura rede de bicicletas públicas.

José Serra (PSDB) lembra que foi em sua gestão como prefeito que o bilhete único foi integrado ao metrô e CPTM, o que “permitiu enorme economia para quem usa transporte público na cidade”. Ele destaca ainda o aumento no período de integração, feito por seu aliado, o prefeito Gilberto Kassab (PSD), em 2008. “O mais importante agora é investirmos na integração entre os diferentes modais (ônibus, metrô e trens), criando mais oportunidades da integração tarifária”, diz.

Soninha Francine (PPS) diz que fará a integração com outros modais. Ele prevê a construção de garagens para automóveis nas estações de metrô fora do centro da cidade e a associação do bilhete a uma rede de bicicletas compartilhadas. “O Haddad falou primeiro, mas eu já tinha pensado nisso”, brinca. Ela afirma que também quer integrar o sistema de transporte com outras cidades da região metropolitana, mas que a “prefeitura, sozinha, não tem poder sobre isso”.

Porto Alegre implantou o sistema de bilhetagem eletrônica em 2008 e desde julho do ano passado adota o modelo de integração com segunda passagem gratuita. O benefício vale para usuários do chamado cartão “Tri”, inclusive os que usam passe escolar e vale-transporte, que tomam o segundo ônibus até 30 minutos depois de desembarcar do primeiro.

É um dos trunfos do prefeito José Fortunati (PDT), que concorre à reeleição. Segundo ele, no primeiro ano de integração mais de 30 milhões de passagens, que custam R$ 2,85 cada, deixaram de ser cobradas. De 2008 para 2009, o volume de passageiros na cidade caiu ligeiramente, mas em 2011 voltou a subir.

A bilhetagem dos ônibus urbanos também funciona integrada ao sistema de cartões da Trensurb, estatal federal que opera o trem que liga Porto Alegre a cinco municípios da região metropolitana, com desconto de 10% em cada uma das tarifas.

A candidata do PCdoB, Manuela D’Ávila, diz que o sistema de integração precisa ser “repensado”. Para ela, um dos problemas é a perda da passagem gratuita, quando o passageiro demora mais de meia hora para pegar o segundo coletivo. Para o candidato do PT, Adão Villaverde, a solução é aumentar o limite de 30 minutos entre uma viagem e outra para garantir a isenção da segunda tarifa. Ele também propõe uma “política concertada” com outras prefeituras num sistema de integração entre os sistemas de transporte dos municípios da região metropolitana.

O candidato do PSOL, Roberto Robaina, considera “adequado” o sistema atual. “Alguma coisa foi feita”, diz. Já os candidatos do PSDB, Wambert Di Lorenzo, e do PSTU, Érico Corrêa, revelam uma afinidade incomum e propõem um modelo que permita o pagamento de uma única passagem por dia, sem limite de utilização.

Esta é a quarta reportagem do jornal VALOR da série “Mobilidade nas Eleições”

27/07/2012 - 09:31h Dilma diz que setores que recebem incentivo devem garantir emprego

Fala da presidente foi um recado à indústria automobilística

O GLOBO

LONDRES — A presidente Dilma Rousseff disse nesta sexta-feira, em Londres, que o governo anunciará em agosto e setembro medidas anticíclicas (de combate à crise) para estimular a economia, e afirmou que os setores que recebem incentivos governamentais devem garantir a manutenção do emprego no país. A fala parece ter sido um recado para a indústria automobilística, que, apesar de ter recebido incentivos fiscais, tem sinalizado com o fechamento de postos em sua linha de montagem.

— Todos os setores que receberem incentivos do governo têm que saber que nós fazemos isso por um único motivo no mundo: garantir o emprego e a renda do brasileiro — disse ela em entrevista à imprensa no hotel onde está hospedada em Londres por ocasião da abertura dos Jogos Olímpicos, nesta sexta-feira. — Nós iremos, no mês de agosto e um pedaço de setembro, tomar algumas medidas, continuando nosso programa contracíclico. Estamos muito preocupados em reduzir o custo do país — acrescentou ela, citando planos do governo de reduzir o custo da energia elétrica.

Na terça-feira, a General Motors dispensou, sob licença remunerada, todos os seus funcionários em São José dos Campos (SP). Segundo a empresa, os trabalhadores ameaçavam invadir a fábrica em meio às negociações sobre o destino dos 1.500 operários da unidade, que será fechada. De acordo com o sindicato, haveria demissão em massa.

Na quinta, a montadora foi chamada pelo Ministério da Fazenda para esclarecer, na próxima terça-feira, a situação da fábrica de São José dos Campos. O ministério, segundo sua assessoria de imprensa, quer uma explicação da montadora sobre os últimos acontecimentos, como o encerramento da produção de três modelos — Zafira, Meriva e Corsa —, além do fechamento da fábrica na última terça-feira. A pasta também vai cobrar explicações da Anfavea, entidade que representa a indústria automobilística nacional.

Governo anuncia investimento em infraestrutura de transporte

Dilma ainda afirmou que o governo fará uma política de investimentos nas áreas de portos, aeroportos, ferrovias e rodovias, o que incluirá concessões e outros marcos regulatórios, como parcerias público-privadas.

— Temos certeza de que estamos no caminho da estabilidade. Nós vamos fazer tudo isso mantendo a solidez fiscal, a inflação sob controle e continuando nossas políticas sociais — disse Dilma.

A presidente reconheceu que o Brasil tem sofrido os impactos da crise da zona do euro, e que todos os países do Brics — grupo de emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — vêm sendo afetados. Dilma, no entanto, disse esperar a recuperação da taxa de crescimento do país nos próximos meses.

— Acredito que nós iremos, nos próximos meses, crescer a uma taxa maior. Mas mesmo hoje nós estamos segurando o nível de crescimento, que é bastante significativo considerando a situação internacional — disse ela.

O governo vem buscando adotar medidas de estímulo diante da dificuldade da economia brasileira em deslanchar depois de o Produto Interno Bruto (PIB) ter crescido apenas 0,2% no primeiro trimestre na comparação com os últimos três meses de 2011.

Entre as medidas já adotadas, o governo anunciou benefícios fiscais a indústrias e consumidores, além de aumento das compras federais. Em outra frente, o Banco Central realizou oito cortes seguidos na taxa básica de juros desde agosto passado, para a atual mínima recorde de 8% ao ano.

15/07/2012 - 10:02h Crise ainda ‘poupa’ mercado de trabalho

Desaceleração econômica não afeta empregos substancialmente. Cenário pode mudar se incertezas permanecerem no ano que vem
15 de julho de 2012

MÁRCIA RODRIGUES – O Estado de S.Paulo

A economia em marcha lenta e a crise financeira internacional não devem afetar o mercado de trabalho de forma significativa neste ano, embora setores da indústria registrem desemprego.

“Se o cenário de desaceleração econômica persistir, podemos começar a sentir um encolhimento, ainda que pequeno, apenas a partir do primeiro quadrimestre do ano que vem. Antes, o cenário continua positivo para a maioria dos setores”, prevê o professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Luiz G. Brom, doutor em sociologia e especialista em mercado de trabalho.

Segundo Brom, apesar da desaceleração, não há ainda um reflexo no mercado de trabalho. “Se vai apresentar em médio prazo, vai depender da própria performance econômica nos próximos meses. Porém, nós não podemos esquecer de que o Brasil teve altas taxas de crescimento muito recentemente.”

Para o economista, mesmo que o País cresça pouco em 2012, ele vai crescer pouco, mas depois de ter crescido muito nos últimos anos. “Estamos em um patamar de atividade muito mais elevado do que há alguns anos. Por outro lado, se o esfriamento continuar, o mercado de trabalho deverá sofrer consequências. Mas no momento nenhuma pesquisa ou indicador demonstra este quadro”, diz.

Brom cita como exemplo os indicadores de maio da pesquisa mensal de emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Eles são positivos. Alguns setores, inclusive, demonstram acréscimo.” Entre os setores que continuaram com a criação de vagas em alta estão: construção, que passou de 7,7% em maio do ano passado para 7,9% para o mesmo mês neste ano; atividades financeiras, que foi de 15,9% para 16,3% no mesmo período; e serviços, que foi de 17,4% para 17,6% (veja tabela completa acima).

“O único setor que vem registrando queda no número dos postos de trabalho é a indústria”, afirma o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), Hélio Zylberstajn.

Segundo o professor, a indústria tem mostrado incapacidade de criar vaga já há algum tempo. “O setor não está conseguindo ser competitivo. Não consegue exportar e vem perdendo mercado interno por conta do aumento das importações.”

De acordo com o indicador do IBGE, a criação de postos de trabalho foi de 16,7%, em maio de 2011, para 16,1% no mesmo mês deste ano. Outra pesquisa, divulgada na última quinta-feira pela Federação e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp), apontou que a indústria paulista fechou sete mil postos de trabalho em junho, registrando uma queda no mês de 0,39% (veja matéria abaixo).

“Apesar do encolhimento na criação de vagas registrado na indústria, o mercado de trabalho não vem sentindo a retração, porque o setor representa apenas 20% dos postos abertos no País”, afirma Zylberstajn.

Outro economista que acredita que o único impacto da crise vem sendo sentido apenas pela indústria é o professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rodrigo Leandro Moura. “Enquanto a indústria sinaliza uma pequena retração, já que a taxa de desemprego continua baixa, percebemos um acréscimo na população ocupada (pessoas economicamente ativas) no trabalho informal.”.

De acordo com o professor, é possível medir este crescimento, porque a pesquisa do IBGE contabiliza, além dos trabalhadores que atuam com ou sem carteira assinada, os profissionais que exercem suas atividades por “conta própria” e os empregadores, ou seja, todas as pessoas que possuem algum tipo de rendimento. O porcentual de ocupados passou de 53,6%, em maio de 2011, para 54,2%, em maio deste ano. Enquanto o de desocupados caiu de 3,6% para 3,3% no mesmo período. “Um fator que pode ter contribuído para este acréscimo é o aumento da adesão ao microempreendedor individual (MEI)”, comenta Moura.

Economista da LCA Consultores, Caio Machado acredita que o cenário deve melhorar no segundo semestre, por conta das medidas econômicas anunciadas pelo governo. “Além dos fatores sazonais, como a abertura de vagas temporárias que ocorrem neste período, a expectativa é de as medidas monetárias e fiscal do governo comecem a se refletir no desempenho das empresas nos próximos meses.”

Opinião semelhante tem a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad. Segundo ela, alguns setores continuam sofrendo com a escassez de mão de obra qualificada. E, mesmo com a economia desacelerada, ainda devem continuar com as contratações em alta. “O déficit em alguns casos é tão grande, que não será possível sentir a falta de postos de trabalho.”

Entre os setores que manterão as contratações estão engenharia, principalmente a civil e de petróleo e gás, e tecnologia da informação. “Esta crise não está tão perceptível para o mercado de trabalho como a de 2009. Não estamos percebendo fechamento de vagas”, diz.

09/07/2012 - 09:46h ‘Reação do governo evitou a recessão’


Ele diz que é preciso olhar o lado positivo: ‘economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer’

09 de julho de 2012

IURI DANTAS / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Principal formulador do Plano Brasil Maior, a política industrial do governo, o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mauro Borges Lemos, avalia que o País “provavelmente estaria à beira da recessão”, não fossem os pacotes de estímulo ao consumo. Ele aposta em crescimento “pequeno” da indústria neste ano, apesar da queda da produção industrial nos primeiros seis meses de 2012.

Amigo de longa data de Dilma e do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, a quem é subordinado, o economista afirma que “o governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo”. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao Estado:

Por que a indústria está patinando?

Porque estamos no meio de uma crise internacional de grandes proporções. A forma mais visível de mensurar isso é a grande agressividade das importações. Há excedente de bens manufaturados no mundo e a estratégia, em geral, é desová-los em mercados que ainda estão em crescimento.

O dólar a R$ 2 demorou?

O dólar a R$ 2 é insuficiente para impedir a desova.

O endividamento das famílias e a cautela dos bancos em emprestar limitam o impacto das medidas de estímulo ao consumo anunciadas pelo governo?

O maior economista do século 20, o John Maynard Keynes, denominou a economia capitalista de uma economia monetária, regida por relações mediadas pelo dinheiro, pela moeda. Hoje, no Brasil, como somos uma economia monetária em pleno funcionamento, é absolutamente normal que, frente a um quadro totalmente adverso, você aumente o que Keynes chamava de preferência pela liquidez. Nestes momentos, você tem contração do consumo das famílias e dos empresários, que é o investimento. Eles tendem a reagir com uma contração relativa perante grande incerteza.

Medo de a crise piorar?

Claro que há uma aversão à incerteza. Não é aversão ao risco, é mais do que isso. É uma aversão a um cenário econômico futuro que não conhecemos. Obviamente o governo está tentando, com todos os instrumentos à sua disposição, mitigar isso e eventualmente retomar o crescimento no segundo semestre. O governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo, que é a questão fundamental.

A presidente Dilma apelou ao espírito animal dos empresários, mas o investimento não deslanchou. Por que não deu certo?

Primeiro, eu diria que está dando certo. Vamos ter um crescimento positivo neste ano. Se pegar o analista mais pessimista, ele não projeta recessão. A economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer. Que seja 2%, 2,5% ou 3%, não interessa.

O governo deixou de arrecadar R$ 100 bilhões da indústria, mas a tributação continua alta. O que falta para a indústria reagir?

O problema central não é, em si, da desoneração tributária, mas fatores estruturais e heranças regulatórias e tributárias, que fazem com que capital e trabalho e os insumos básicos da economia estejam relativamente caros. A questão é como caminhar na agenda de redução destes fatores e insumos. Quando você inicia uma trajetória de política econômica com redução da taxa real de juros, está reduzindo o custo do crédito, do dinheiro. Quando desonera a folha de pagamentos de setores intensivos de trabalho está reduzindo custos que, por razões históricas, têm uma tributação muito grande. A grande estratégia do governo é um programa de redução desses custos no longo prazo. Há um conjunto de medidas que vão além de pura desoneração para aumentar o consumo, como vem sendo propalado.

Por exemplo?

Os regimes especiais de tributação. O esforço pela redução do custo da energia. Essa é uma agenda que tem impacto nos custos da indústria muito grande. Se desonerar o custo da energia, ou reduzi-lo através de mecanismos regulatórios, está aumentando a competitividade da indústria. Ao contrário da chamada agenda do puxadinho, é uma agenda de longo prazo.

A produção industrial cai há nove meses, cadê os resultados? Vamos fazer um raciocínio contra-factual: se o governo não estivesse tomando nenhuma medida, como estaria a economia brasileira hoje? Possivelmente, já estaria à beira da recessão. A reação do governo está contribuindo decisivamente para não entrarmos em recessão

Economistas defendem reformas estruturais. O País consegue superar a crise sem isso?

O Brasil vai continuar fazendo reformas e já fez muitas. Não vamos parar o País, fazer reformas durante um determinado número de anos e depois voltar a funcionar. Nessas reformas, você troca o pneu furado com a bicicleta andando. Estamos num processo permanente. Por exemplo: criar um sistema privado de financiamento do longo prazo, do investimento, é um grande desafio hoje. Temos condições de implementar essa reforma e isso está no radar do Banco Central e da Fazenda. Outro exemplo é a mudança do sistema previdenciário público, que está em plena implantação e é um dos projetos mais importantes da Presidência da República.

A indústria encerra o ano com crescimento? De quanto?

Estamos torcendo fortemente para um crescimento. Vai ser um número positivo, mas pequeno.

04/07/2012 - 08:51h BC pode intervir no câmbio para ajudar a indústria

Diretor de política monetária diz que dólar abaixo de R$ 2 pode não ser bom para o setor
04 de julho de 2012

FERNANDO NAKAGAWA / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

O dólar abaixo de R$ 2 não agrada a equipe econômica e o Banco Central pode voltar a agir. O recado foi dado ontem pelo diretor de política monetária da instituição, Aldo Luiz Mendes. “Minha percepção é que o dólar abaixo desse nível de R$ 2 pode não ser bom para a indústria”, disse no fim da manhã.

O aviso mudou os ventos do mercado e a moeda, que recuava, passou a subir, voltou ao nível considerado adequado e terminou a R$ 2,0150, maior valor do dia, em alta de 1,31%.

Em entrevista ao Estado, Mendes deixou clara a insatisfação e a preocupação do governo com o tema. Mais que isso: mostrou que o BC está alinhado com o restante da equipe econômica no esforço de manter o dólar em um patamar favorável às empresas brasileiras.

“O desempenho industrial mais fraco até aumenta a possibilidade de o governo querer um dólar mais alto que a cotação de hoje (ontem)”, disse o diretor do Banco Central.

Minutos antes da entrevista, o dólar chegou a ser trocado de mãos por R$ 1,9770. O governo entende que o dólar mais alto é importante para os exportadores, já que torna produtos e serviços brasileiros mais competitivos.

Liquidez. Oficialmente, o BC não tem um objetivo para o preço da moeda e a instituição só intervém para resolver problemas de liquidez. “Não temos uma meta de câmbio, atuamos no ajuste da liquidez”, argumentou o diretor. Apesar do discurso, Aldo avisou que o banco pode voltar a comprar dólares, o que evidentemente aumentaria o preço da moeda. “O BC tem atuado numa ponta (a vendedora) e pode atuar na outra (como comprador). Sempre estamos de olho”, afirmou o diretor.

A chance de voltar às compras tem até endereço: o mercado futuro. “A dinâmica atual tem sido concentrada no segmento futuro. Se a gente tivesse de voltar a intervir, seria no futuro”, disse. Essa simples ameaça foi suficiente para a moeda, em poucos minutos, retornar ao patamar indicado.

O mesmo BC que agora ameaça comprar dólares teve, na semana passada, forte atuação como vendedor da moeda americana. Em três dias seguidos – entre quarta-feira e sexta-feira -, realizou leilões no mercado futuro que corresponderam à venda de cerca de US$ 9 bilhões.

Crise externa. Mesmo com tais intervenções, o diretor do Banco Central afirma que a recente queda do dólar para abaixo de R$ 2 não é responsabilidade do banco. Para ele, a queda é resultado de uma percepção positiva dos investidores sobre a crise externa. “Os anúncios após o encontro da cúpula europeia na semana passada têm consistência um pouco maior do que havia sido divulgado antes. Por isso, houve o recuo do dólar”, argumenta Mendes. “Houve alívio para a tomada de risco.”

Em Bruxelas, líderes europeus acertaram diretrizes para uma ação conjunta em favor do crescimento e para enfrentar a crise da dívida de vários países da região.

A sinalização dada pelo diretor do Banco Central mostra como a autoridade monetária compartilha ideias com o Ministério da Fazenda e o Palácio do Planalto. No esforço de tentar manter a indústria e o restante da economia aquecida, inúmeras medidas têm sido tomadas nas áreas tributária, fiscal e de crédito.

Sob a responsabilidade do Banco Central, o juro cai desde agosto do ano passado e houve liberação de recursos dos bancos – o compulsório – para crédito de veículos e rural.

04/04/2012 - 09:07h Governo monta pacote de R$ 60,4 bi para estimular a economia

Dilma discursa ontem no lançamento do pacote de estímulo, acompanhada por ministros, Marco Maia e Michel Temer


Por João Villaverde e Edna Simão | VALOR

De Brasília

O governo abriu mão de R$ 3,1 bilhões em receitas fiscais neste ano para impulsionar o crescimento e levar o Produto Interno Bruto (PIB) a aumentar 4,5% em 2012. O pacote de medidas divulgado ontem em cerimônia no Palácio do Planalto envolve R$ 60,4 bilhões em estímulos, sendo a maior parte referente ao repasse de R$ 45 bilhões do Tesouro Nacional para o BNDES. A grande aposta do governo para gerar estímulos imediatos à economia, no entanto, é a desoneração da folha de pagamentos.

Ao todo são 15 (quatro antigos e 11 novos) os setores que, em 90 dias, passarão a ter a contribuição previdenciária sobre a folha de pagamentos reduzida a zero, numa operação que vai cortar em R$ 4,9 bilhões as receitas da Previdência Social. Esses setores, no entanto, vão passar a contribuir com uma alíquota sobre o faturamento bruto de 1%, para a indústria, e 2% para serviços.

Os quatro segmentos da indústria que desde o início do ano já estavam contemplados na medida tiveram as alíquotas da contribuição que incide sobre o faturamento reduzidas ontem. A receita anual com a tributação do faturamento será de R$ 2,3 bilhões. O déficit que surgirá nas contas previdenciária a partir dessas mudanças será financiado pelo Tesouro Nacional.

O governo, em contrapartida, também elevou as alíquotas do PIS/Cofin sobre as importações na proporção da alíquota sobre o faturamento que a produção nacional dos 15 setores pagará para a Previdência. Com isso, além de apurar cerca de R$ 1,3 bilhão em receitas, encarecerá as importações em relação ao produto nacional. As exportações estarão isentas do imposto sobre o faturamento, melhorando, assim, a competitividade do país no exterior. A renúncia fiscal líquida, dessa forma, cai para R$ 3,1 bilhões.

Se uma empresa produzir tipos diferentes de produtos ou prestar diferentes tipos de serviços, sendo apenas alguns deles elencados na medida provisória que o governo edita hoje, as empresas dos setores contemplados no pacote devem recolher a contribuição previdenciária em duas guias: uma parcela sobre o faturamento e outra parcela sobre a folha de pagamento, explicou uma fonte ao Valor.

Em decreto que deve ser publicado hoje no “Diário Oficial da União” será criada uma comissão tripartite (com governo, empresários e sindicalistas dos 15 setores) para acompanhar os resultados econômicos e os impactos fiscais da medida.

No pacote de desoneração da folha de pagamentos também foram incluídos os hotéis. A medida, segundo apurou o Valor, foi acertada na semana passada, entre o ministro do Turismo, Gastão Vieira, e Nelson Barbosa, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, que integravam a comitiva brasileira que acompanhou a presidente Dilma Rousseff à Índia. O ministro do Turismo explicou que a desoneração de hotéis não atinge outros tipos de estabelecimentos, como apart-hotéis e pensões. “A medida visa os resorts, que reclamavam da concorrência dos cruzeiros internacionais”, disse Vieira.

Para compensar as renúncias fiscais o Ministério da Fazenda pretende aumentar a tributação do IPI sobre bebidas já em decisão que deve ser divulgada hoje.

“As medidas devem ser compensadas para não afetar o cumprimento da meta de resultado primário”, afirmou Nelson Barbosa. “Haverá esse reajuste do IPI e outras medidas complementares” no ramo de bebidas frias, como cervejas e refrigerantes, informou ele.

As empresas nacionais serão estimuladas com o sobrepreço de até 25% que o governo deve detalhar hoje para produtos, em especial relacionados ao complexo industrial da saúde (como fármacos e medicamentos) e máquinas agrícolas, para comprar governamentais. Ao todo, o governo estima desembolsar R$ 3,9 bilhões com a aquisição de produtos nacionais entre 2012 e 2013.

A definição de margens de preferência (sobrepreço) para a aquisição de máquinas retroescavadeiras (de 10%) e motoniveladoras (de 18%) foi uma demanda do Ministério do Desenvolvimento Agrário. O objetivo na aquisição dessas máquinas é a recuperação de estradas vicinais.

Ainda como incentivo fiscal o governo decidiu postergar o pagamento do PIS/Cofins para alguns setores industriais em seis meses, de abril e maio para novembro e dezembro; concedeu incentivos ao plano de banda larga e semicondutores; e ampliou o benefício fiscal para investimentos em estruturas portuárias.

As renúncias de receitas estão distribuídas da seguinte forma: R$ 1,8 bilhão líquidos de desoneração da folha, já deduzidas as receitas de R$ 1,3 bilhão com a tributação das importações e R$ 2,3 bilhões de arrecadação com a taxação do faturamento; R$ 462 milhões no Plano Nacional de Banda Larga; R$ 186 milhões do regime especial dos portos; e R$ 154 milhões do programa um computador por aluno. Além desses, a prorrogação do IPI reduzido para a linha branca, móveis e luminárias vai representar renúncia de R$ 143 milhões até fim de junho.

(Colaborou Lucas Marchesini)


Jorge Gerdau: “O importante é que o governo tomou uma medida que vai tornar a indústria forte. Isso é uma etapa”

Desoneração pode virar queda de preço ou ganho de margem

Por Fernando Exman, Yvna Sousa, Thiago Resende, Edna Simão, Rodrigo Pedroso, Carlos Giffoni e Marta Watanabe | Valor | De Brasília e São Paulo

BRASÍLIA – A ampliação da desoneração da folha de salários anunciada ontem é considerada uma medida positiva, mas tímida, por representantes de empresas. O resultado prático da mudança – a recomposição de margem, a formalização de mão de obra ou a redução de preço – deve variar entre as companhias e não somente entre setores. O impacto depende da relação folha/faturamento e da fatia de importados e da exportação na receita da empresa. Setores como móveis, plásticos e tecnologia da informação dizem que a redução de carga tributária não é uniforme.

Segundo a Associação Brasileira de Máquinas de e Equipamentos (Abimaq), o ganho real no faturamento com o alívio de carga tributária vai variar entre 0,9% e 1,7%. Nas empresas em que as importações representam entre 20% e 30% dos insumos, o impacto será menor, já que houve acréscimo de 1% na alíquota de PIS/Cofins sobre importação. Na mão contrária, aquelas que focam a produção para o exterior vão ter ganho real de até 1,7%, pois a receita de exportação não compõem o faturamento sobre o qual o setor deve pagar alíquota de 1%, calcula Mario Bernardini, assessor econômico da presidência da Abimaq. As novas medidas são positivas, mas o governo precisa reduzir de forma mais contundente os juros e assegurar um câmbio que amenize a falta de competitividade, diz o presidente da Abimaq, Luiz Aubert Neto.

O presidente do Conselho de Administração da Gerdau, Jorge Gerdau, também elogiou o pacote. “O importante é que o governo tomou uma medida que vai tornar a indústria forte e competitiva. Isso é uma etapa.” Segundo ele, porém, outros temas precisam ser atacados pelo governo, como redução de gargalos logísticos, sistema tributário e melhoria da educação.

Lipel Custódio, diretor da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), lembra que o setor já foi beneficiado pela redução de 5% para 0% do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), anunciada em fim de março. “Com o IPI, esperamos crescimento de 8% do setor no segundo trimestre, na comparação com o trimestre anterior.” Segundo ele, porém, não é possível prever o impacto no preço.

O conjunto de medidas, diz, vai certamente permitir que o empresário cobre preços mais baixos para os distribuidores, mas isso varia de acordo com o tipo de mobiliário. Segundo ele, a alíquota de 1% sobre a receita bruta não beneficiará todos. Haverá, diz, aumento de carga tributária para 20% a 25% do setor, principalmente em empresas onde há muita automação.

José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), diz que não é possível estimar o repasse da desoneração aos preços. “Há cerca de 12,5 mil empresas do setor no Brasil. A concorrência é ferrenha e o preço será mantido o mais baixo possível.” Roriz acredita que a desoneração da folha, que trará benefício para cerca de 82% das empresas do setor, vai preservar o emprego. “A manutenção das vagas passa a ter peso menor.”

Roriz, que também é diretor de competitividade da Fiesp, diz que a postergação do prazo de recolhimento do PIS e da Cofins dos meses de abril e maio ameniza a situação dos setores contemplados (autopeças, têxtil, confecção, calçados e móveis), que estão entre os mais afetados pela importação.

Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Vestuário e Confecção do Estado de São Paulo (Sindivestuário), Ronald Masijah, a redução na tributação deverá ser repassada aos preços dos produtos. No pacote de ontem o segmento, que já tinha desde janeiro o cálculo da contribuição previdenciária sobre faturamento, teve a alíquota reduzida de 1,5% para 1% da receita. “Não é isso que vai fazer o setor crescer mais no ano. O repasse ao preço é certo, pois quem não fizer vai estar morto comercialmente.”

Pertencente à mesma cadeia produtiva, o setor têxtil acredita que as medidas de proteção à indústria nacional estão evoluindo, segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Aguinaldo Diniz. Segundo ele, a folga na planilha de custos deverá ser usada para as empresas se capitalizarem.

O setor de tecnologia da informação é outro no qual o efeito da desoneração não é homogêneo. Inicialmente beneficiada com alíquota de 2,5% sobre faturamento em vez da contribuição previdenciária de 20% sobre folha, o segmento teve a alíquota sobre receita reduzida a 2% no pacote de ontem. A medida é considerada benéfica por empresas maiores do setor, para quem a mudança deve acelerar a formalização do trabalho, diz Antonio Gil, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom).

Luigi Nese, presidente do Seprosp, sindicato que reúne empresas de processamento de dados e de informática no Estado de São Paulo, diz que mesmo depois da redução de 2,5% para 2% na alíquota sobre faturamento, a alteração continua prejudicando as companhias menores. Ele lembra que essas empresas possuem folha relativamente pequena e, com o recolhimento sobre a receita, pagam mais tributos. “A redução ameniza, mas não resolve.” Segundo Nese, o Seprosp havia ajuizado ação para questionar a mudança e o processo será mantido.

No setor de hotelaria as perspectivas são boas. A redução média no preço da hospedagem no Brasil após a desoneração será de até 10%, estima Enrico Torquato, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih). Segundo ele, resorts e hotéis de cinco e quatro estrelas serão os principais beneficiados, já que contam com um quadro maior de funcionários.

O presidente do grupo FarmaBrasil, Reginaldo Arcuri, considerou “extremamente importantes” as novas medidas. “A medida específica para o setor de fármacos é o início do uso de poder de compra nas licitações em que há disputas com importados”, comentou, referindo-se à preferência que o governo deve dar para os produtos nacionais do setor nas licitações. Segundo ele, o setor crescerá mais do que a economia, de 7% a 8% em 2012. O grupo reúne nove empresas farmacêuticas nacionais.

(Fernando Exman, Yvna Sousa, Thiago Resende e Edna Simão, de Brasília, Rodrigo Pedroso, Carlos Giffoni e Marta Watanabe, de São Paulo | Valor)


Medidas devem ter impacto reduzido sobre a inflação, dizem economistas

Por Arícia Martins | De São Paulo

As medidas de estímulo à indústria anunciadas ontem pelo governo terão impacto reduzido sobre a inflação, avaliam economistas consultados pelo Valor. Para eles, o alívio de custos que pode ocorrer com a desoneração da folha de pagamento de mais 11 segmentos industriais, além dos quatro já contemplados com o benefício, não chegará ao consumidor, já que a “folga” deve ser usada para recompor as margens do setor em um momento de fragilidade. Além disso, a renúncia fiscal de líquida de R$ 3,1 bilhões estimada pela Fazenda não implicaria em contenção de gastos públicos, pois o governo tem margem de manobra no Orçamento, limitando uma ajuda à inflação por essa via.

Na contramão dos serviços, os bens industriais já vêm ajudando a inflação porque a competição acirrada com os importados reprime aumento de preços. Nos 12 meses encerrados na segunda quinzena de março, os bens duráveis, grupo composto somente por produtos industrializados, acumulam queda de 2,8% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15). A inflação de bens industriais no período, calculada pelo Banco Fator, foi de 2,79%, abaixo dos 5,6% do indicador geral.

“Na hora que essas medidas foram decididas, acredito que a questão da inflação não foi um dos pontos analisados pelo governo”, diz Luiz Otávio Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, que não aposta em efeitos consideráveis do pacote na dinâmica de preços. “Pode haver algum impacto de curto prazo, mas o problema da inflação continua sendo os serviços”, afirma.

A economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, acredita que a ampliação da desoneração da folha de pagamento deve reduzir custos de produção, mas vê como limitado o espaço de repasse aos preços finais, já que, em sua opinião, é elevada a probabilidade de os recursos extra serem usados para reforçar o caixa das empresas.

Para o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, a diminuição de custos por desoneração é “mínima”, mas é possível que haja impacto adicional nos preços no longo prazo pelo acúmulo de medidas que vão sendo colocadas para proteger a indústria.

Do lado dos importados, a tendência de desvalorização do real, aliada à tributação maior sobre importados, acrescenta Vale, aumenta as chances de que o comportamento dos preços de bens duráveis “deixe de ser tão favorável”, hipótese que Alessandra vê com mais cautela. “A diferença de preços dos produtos domésticos em relação aos importados ainda será significativa. Temos a questão do mundo fraco”, o que, segundo a economista, impede aumentos expressivos dos produtos estrangeiros. “Se os preços dos importados aumentarem, aí é que a indústria nacional não vai mexer nos dela”, afirma Leal, do ABC Brasil.

Para analistas, incentivos são insuficientes para fazer PIB crescer mais que 3,5%

Por Francine De Lorenzo e Tainara Machado | De São Paulo

O pacote de incentivos à indústria anunciado ontem em Brasília trará alívio para o setor no curto prazo, mas dificilmente tornará possível que o crescimento neste ano seja de 4,5%, como deseja o governo, segundo economistas consultados pelo Valor.

Para se chegar a esse resultado, calcula a LCA Consultores, seria necessário que o PIB crescesse 2,4% por trimestre, entre o segundo e o quarto trimestres deste ano – uma vez que a expectativa é de que o avanço não passe de 0,5% nos três primeiros meses de 2012, na comparação com o último trimestre de 2011, já descontados os efeitos sazonais. Até mesmo a projeção do Banco Central, de expansão de 3,5% em 2012, é vista como otimista. “Uma expansão acima de 3% neste ano só seria possível se houvesse mais medidas para impulsionar a demanda”, diz Bráulio Borges, economista-chefe da LCA.

“Embora positivas, as medidas não alteram o cenário para a economia neste ano. Já era esperada uma recuperação da indústria baseada em ajuste de estoques e retomada da confiança dos empresários, e o pacote contribui nesse sentido”, avalia Roberto Padovani, economista-chefe da Votorantim Corretora. Para ele, haverá uma melhora gradual na indústria, mas um ganho expressivo de ritmo não será visto neste ano. “Ainda que o governo promova a desoneração da folha de pagamento, os custos da indústria permanecem altos.”

Para o economista-chefe do Crédit Agricole, Vladimir do Vale, é difícil para o governo conseguir se contrapor ao que é uma tendência global, referindo-se à queda da demanda nos países desenvolvidos e a destinação de parte da capacidade para mercados que apresentam crescimento, caso do Brasil. Para ele, o pacote dará “auxílio marginal” ao setor industrial.

O professor José Márcio Camargo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), avalia que o alívio poderá ser observado no curto prazo, mas faz uma ressalva: “É possível que, em seis meses, a indústria se encontre novamente nesta situação.” Isso pode ocorrer, argumenta, mesmo que o câmbio nominal se mantenha estável. “Como a inflação no Brasil é maior do que a de seus parceiros comerciais, sem reformas estruturais o câmbio real será de novo um entrave à indústria”, afirmou.

O maior mérito do pacote, na avaliação de Carlos Kawall, economista-chefe do Banco J. Safra, está em sua capacidade de estimular a confiança empresarial e, dessa forma, tornar o ambiente mais atrativo para investimentos. “Essas medidas fazem parte de um esforço para criar um clima mais positivo para a indústria”, afirma. A visão, no entanto, não é consensual. Para Camargo, da PUC-RJ, a indústria não investe por causa das baixas expectativas em relação ao futuro. Por isso, baratear o custo do crédito surte pouco efeito.

03/04/2012 - 13:28h Governo lança pacote de R$ 57 bilhões para estimular a economia

Principal mudança é a substituição da contribuição previdenciária de 20% sobre salário por uma alíquota de 1% a 2% sobre o faturamento para 15 setores

Catarina Alencastro, Daniel Haidar, Eliane Oliveira e Martha Beck – O GLOBO

BRASÍLIA e RIO —O governo lançou nesta terça-feira um mega pacote de medidas para estimular a economia. As ações incluem uma série de desonerações, aumento e barateamento do crédito para investimentos, além de redução da burocracia para as empresas que solicitam financiamento junto aos bancos públicas e injeção do recursos no BNDES. Juntas, elas somam nada menos que R$ 57,8 bilhões somente em 2012. Boa parte se refere à capitalização do BNDES , R$ 45 bilhões, e o restante são as renúncias fiscais do governo.

- O Brasil terá os estímulos necessários para continuar na trajetória de crescimento de temos tido nos últimos anos. O país pode crescer 4,5% esse ano e continuar nesse patamar nos próximos – afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante a solenidade de lançamento no pacote no Palácio do Planalto.

A principal desoneração veio na folha de pagamentos, com o fim da contribuição patronal previdenciária de 20% sobre a folha salarial para 15 setores (têxtil, confecções, couro e calçados, móveis, plásticos, material elétrico, autopeças, ônibus, setor naval, setor aéreo, bens de capital mecânicos, hotéis, tecnologia da informação, call centers e design house). A cobrança será substituída por uma nova taxa de 1% a 2,% que incidirá sobre o faturamento para empresas. nova alíquota sobre faturamento não atinge receita de exportações.

Quatro desses setores (confecções, couro e calçados,tecnologia da informação e call center) já pagavam contribuição sobre faturamento em vez de taxa na folha, desde o início do ano. O alívio na folha de pagamento das empresas desses setores vai resultar em uma renúncia fiscal de R$ 7,72 bilhões por ano e R$ 4,9 bilhões somente em 2012, já que as medidas só entram em vigor em julho. Esses setores terão ainda que recolher PIS/Cofins sobre as importações que fizerem.

No quadro acima, o Ministério da Fazenda informou a taxa neutra, que é quanto deveria haver perda e a taxa fixada, que será efetivamente cobradas das empresas e reduzindo a arrecadação o INSS. Mas segundo o governo, a diferença será coberta pelo Tesouro para garantir que as medidas não aumentem o rombo da Previdência.

- Os trabalhadores serão beneficiados, porque com a redução, as empresas poderão contratar mais – afirmou.

O governo também deu um alívio para os setores que estão sendo mais prejudicados pela competição dos importados. Os fabricantes de autopeças, têxteis, confecções, calçados, móveis terão mais tempo para recolher o PIS/Cofins que deveriam pagar em abril e maio deste ano. O valor poderá ser recolhido em novembro e dezembro.

Nova dedução no Imposto de Renda

Outra novidade é que pessoas físicas e jurídicas poderão deduzir do Imposto de Renda as doações e patrocínios em favor de entidades associativas ou fundações dedicadas à pesquisa de tratamento do câncer. O impacto fiscal estimado é de R$ 305,8 milhões em 2013 e de R$ 337 milhões, em 2014.

No novo plano, o governo também aproveitou para tirar do papel uma série de desonerações que estavam sendo prometidas há tempo e que vinham sendo adiadas pela equipe econômica. Foi lançado, por exemplo, o Plano Nacional de Banda Larga e também prorrogado o programa Um Computador por Aluno.

Ao anunciar o pacote, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ainda que o governo está agindo no câmbio e na área de defesa comercial, mas não anunciou nada novo. Ele fez questão de citar operações de controle aduaneiro que já vinham sendo implementadas pela Receita Federal. E fez o mesmo na área cambial. Mais uma vez, o ministro tentou segurar a queda do dólar no discurso:

- O importante não são as medidas já tomadas, mas as que vamos tomar.

Ele criticou o que chamou de “subsídio disfarçado” a desvalorização de suas moedas praticada por outro países.

- Todo mundo quer desvalorizar sua moeda para que seus produtos sejam mais baratos no mercado intencional. O subsídio cambial nada mais é que um subsidio disfarçado

O plano também prevê a manutenção da preferência para os produtos nacionais nas compras governamentais de medicamentos, fármacos, biofármacos, retroescavadeiras e motoniveladoras. Esses produtos terão prioridade e poderão custar até 25% mais caro em licitações.

BNDES recebe aporte

O plano inclui um aporte de R$ 45 bilhões do Tesouro Nacional ao BNDES. Com esses recursos, o banco vai aumentar linhas de financiamento para setores como o de inovação e também baratear suas taxas de juros. Pelas novas condições do programa, no caso do financiamento à produção local de ônibus e caminhões, por exemplo, a taxa de juro fixa cairá de 10% para 7,7%, e o prazo total estendido de até 96 meses para 120 meses. Além disso, a participação máxima do BNDES no investimento foi elevada, podendo chegar a 100% em alguns casos. Para bens de capital, a taxa de juro fixa para grandes companhias passou de 8,7% para 7,3% ao ano, e de 6,5% para 5,5% no caso da micro, pequena e média empresa. O prazo do financiamento continua em 120 meses.

Além disso, o governo lançou o novo regime automotivo. Ele estabelece que a partir de 2013, tanto as montadoras já instaladas no Brasil quanto as que queiram fazer isso ganharão um desconto no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de acordo com seus investimentos em pesquisa, inovação, conteúdo nacional e eficiência energética.

O anúncio começou com um panorama da economia global traçado pelo ministro. Ele destacou que o ano de 2012 será de baixo crescimento na economia internacional e a indústria é o setor que mais sofre nesse cenário. Mas disse que o “Brasil será um dos poucos países em que em 2012 terá crescimento maior do que em 2011”.

03/04/2012 - 09:11h Medidas podem garantir alta de 4% no PIB, avalia governo

Durante discurso, hoje, o ministro Guido Mantega vai enfatizar o foco do BNDES em inovação e na exportação


Por João Villaverde e Edna Simão | VALOR

De Brasília

BRASÍLIA – O governo anuncia hoje um conjunto de medidas de estímulo à indústria, que incluem a desoneração da folha de pagamentos de pelo menos nove setores, o reforço de capital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre R$ 18 bilhões e R$ 20 bilhões, com mais R$ 6,9 bilhões para a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), e a flexibilização das regras de acesso aos recursos dos fundos de desenvolvimento regionais (do Nordeste e da Amazônia).

Todo o esforço do governo, agora, é para tentar garantir uma expansão do Produto Interno Bruto este ano acima de 4% – a previsão oficial ainda é 4,5%. Para isso, na próxima semana também será anunciado o corte dos juros da Caixa e do Banco do Brasil, tanto para as empresas quanto para o consumo.

Os últimos detalhes do pacote de estímulos ao crescimento estavam sendo fechados ontem à noite. Não estava claro, até então, se o regime automotivo que vai definir a tributação do setor a partir de 2013 seria anunciada hoje.

Dentre as medidas, o governo deve anunciar um novo empréstimo do Tesouro Nacional para o BNDES, num valor que pode chegar a R$ 20 bilhões. Somados aos R$ 10 bilhões que sobraram dos recursos repassados ao banco em 2011, esse aporte vai compor mais cerca de R$ 30 bilhões de disponibilidade para financiamentos à economia. O BNDES vai anunciar, também, o corte de cerca de um ponto percentual nas taxas de juros praticadas pelo Programa de Sustentação do Investimento (PSI). A queda dos juros deve ajudar a acelerar os empréstimos. Do orçamento total de R$ 205 bilhoes do PSI desde 2009, foram contratados até hoje R$ 155 bilhões, ou seja, 75%.

O anúncio dessas medidas será feito no Palácio do Planalto em solenidade que contará com a presença de empresários e sindicalistas. Ao todo foram convidadas 600 pessoas. Em seu discurso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pretende destacar que o BNDES dará prioridade às empresas cujos projetos produtivos combinarem inovações tecnológicas e que tenham perfil exportador.

Além disso, o Valor apurou que a Financiadora de Estudos e Pesquisas (Finep) deve obter cerca de R$ 6,9 bilhões do BNDES, para operar uma linha do PSI. No ano passado, a transferência do BNDES para a Finep foi de R$ 3,7 bilhões. A Finep, vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, conta com cerca de R$ 5 bilhões em projetos para análise.

Ontem os técnicos da Fazenda e do Desenvolvimento se encontraram, pela segunda vez, com representante da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A ideia era fechar o novo regime automotivo para aguardar a palavra final da presidente Dilma. Uma das medidas previstas é estabelecer uma espécie de “tablita”. A empresa acumula pontos ao utilizar produtos nacionais ou investir em tecnologia para deduzir o pagamento de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Ontem à noite ainda não havia uma decisão sobre o anúncio da medida.

O pacote do governo vai incluir, também, a permissão para que o BB e a Caixa operem recursos dos fundos de desenvolvimento regional do Nordeste (FNDE) e da Amazônia (FNA). Preparada pelo Ministério da Integração Nacional, visa ampliar o acesso das empresas com processos de infraestrutura na região – hoje apenas os bancos do Nordeste (BNB) e da Amazônia podem operar essas linhas.

Ao menos nove setores da indústria de transformação terão a contribuição de 20% à Previdência que incide sobre a folha de pagamento zerada. Em troca, os fabricantes contemplados pelos incentivos passarão a contar com uma alíquota de cerca de 1% sobre o faturamento bruto. Deverão ser beneficiados empresas do segmento têxtil, indústria plástica, móveis, aeroespacial (basicamente Embraer), bens de capital, máquinas e equipamentos, indústria eletroeletrônica, fabricantes de ônibus (Marcopolo), autopeças e naval.

Os quatro setores (confecção, calçados, software e call center) em que a contribuição previdenciária já incide sobre o faturamento terão suas alíquotas reduzidas. No caso de confecção e calçados, ela cai de 1,5% para 1%. Nos demais, onde a alíquota atual é de 2,5%, a redução pode superar 0,5 ponto percentual.

Para um representante do setor têxtil, as medidas de estímulo são uma reedição melhorada do Brasil Maior. Muito do que foi anunciado em agosto de 2011 sequer saiu do papel. Por exemplo, só hoje deverá ser assinado o convênio entre o Inmetro e a Receita Federal para formalizar a participação do instituto no desembaraço alfandegário.

Outra fonte do Executivo disse que, apesar do governo não ter uma avaliação sobre os impactos para os setores desonerados, a medida é urgente para impedir uma deterioração ainda maior do setor industrial brasileiro. Após a publicação da desoneração da folha para outros setores, será publicado um decreto criando um comitê com representantes do governo, trabalhadores e empresas para acompanhamento dessas medidas.

(João Villaverde e Edna Simão | Valor)

02/04/2012 - 08:42h Indústria vai investir 11% menos em máquinas e 28% mais em inovação

VALOR

A desaceleração do mercado internacional, a alta competição com o importado e menor crescimento da economia brasileira contribuíram para frear ainda mais a intenção de investimento da indústria de transformação. Pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostra que o setor deve investir este ano R$ 171,1 bilhões, o que significa redução de 3,4% em relação a 2011, quando os investimentos já caíram 2,5% em relação a 2012.

Realizada com 1.200 empresas que possuem operações em todo o país, o levantamento revela que aquisição de máquinas, equipamentos e aplicação de recursos em instalações perdem espaço no destino dos investimentos. Essas aplicações, segundo a pesquisa, devem chegar a R$ 105,3 bilhões em 2012, com retração de 11% em relação ao aplicado no ano passado.

Com a redução, a aplicação de recursos em capital fixo pelas indústrias deve recuar de 67% do investimento em 2011 para 61% este ano. Em contrapartida, a indústria pretende elevar os investimentos em inovação e pesquisa e desenvolvimento (P&D) em 28% e 8,4%, respectivamente.

José Ricardo Roriz Coelho, diretor de competitividade da Fiesp, diz que isso significa que a indústria não pretende aumentar a capacidade de produção em 2012. A intenção de investir mais em inovação e P&D, afirma Coelho, demonstra que a indústria tem se esforçado para obter melhorias nos produtos e processos para concorrer com os produtos estrangeiros.

Das empresas pesquisadas, 58% apontaram a redução de custos como um dos objetivos do investimento. A elevação da eficiência produtiva é a segunda preocupação mais representativa, com 53% das empresas. A intenção de expandir a capacidade de produção foi relatada por 41% das indústrias. A fatia de empresas que não deve fazer investimentos este ano aumentou para 32,4% – eram 24,6% em 2011. O investimento estimado para este ano deve chegar a 7,4% do faturamento – abaixo dos 7,9% do ano passado.

A queda do investimento da indústria de transformação, diz Roriz, deve contribuir de forma negativa para a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) em 2012. “Da mesma forma que o ano passado, esse investimento total do país deve ser sustentado por setores como o de petróleo e gás, extração mineral, construção civil e infraestrutura, em razão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), além de obras da Copa e dos Jogos Olímpicos.” Segundo estimativa da Fiesp, o investimento fixo total do país deve cair de 19,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011 para 19,2% neste ano.

Para Roriz, a retração no investimento da indústria de transformação em capital fixo tem impacto a curto e longo prazo. Uma aplicação menor em máquinas, equipamentos e instalações, explica, deixa de contribuir para a expansão de demanda, em função do elevado encadeamento setorial proporcionado pelo setor de bens de capital. A longo prazo o efeito é na oferta futura. “Sem investimento hoje, a indústria não terá capacidade de produção e escala suficiente para uma expansão econômica, o que pode resultar em inflação”, diz.

Roriz lembra que os investimentos da indústria, seja em bens de capital ou em inovação e P&D, são ainda viabilizados, na maior parte, com recursos próprios. Em 2011, segundo a pesquisa, 68,8% do investimento do setor foi realizado com capital próprio. Em 2012, essa fatia deve cair para 64,3%.

Como a principal fonte de recursos para investimento é o capital próprio, as empresas tendem a elevar os investimentos conforme os lucros aumentam. “A menor rentabilidade do setor, porém, tem provocado menor nível de investimento, o que compromete a capacidade de oferta e a rentabilidade futuras.” Segundo Roriz, a indústria precisa de uma política industrial mais ampla, além de taxas de juros menores.

Para Paulo Skaf, presidente da Fiesp, o resultado da pesquisa é mais uma das evidências de um processo de desindustrialização. “Em 1985, a indústria de transformação representava 27% do PIB. Hoje, menos de 15%. Com a taxa de câmbio, os juros, os tributos, o custo de energia, a burocracia e os incentivos dados por alguns Estados aos importados, ficou mais barato produzir na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia e nos países vizinhos.”

Skaf diz que o resultado é a menor competitividade brasileira e o desvio de empregos de brasileiros para outros países. “Os impostos que poderiam ser recolhidos aqui também serão pagos em outros lugares.”

21/03/2012 - 09:26h ‘Indústria está sendo depenada’, afirma Delfim

21 de março de 2012

WLADIMIR DANDRADE – O Estado de S.Paulo

O ex-ministro Delfim Netto alertou ontem que o Brasil corre o risco de reduzir o tamanho do seu parque industrial por falta de capacidade de competir com os produtos industrializados importados.

“A indústria de transformação brasileira só cresceu 0,1% porque os empresários não compareceram ao trabalho”, afirmou o ex-ministro, ironicamente, para depois completar: “A indústria de transformação do Brasil está sendo depenada”.

As declarações do ex-ministro foram feitas após debate sobre possíveis mudanças na remuneração da caderneta de poupança, promovido ontem pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomércioSP).

Em sua palestra, Delfim Netto disse que o parque industrial brasileiro precisa ganhar competitividade a partir de reformas estruturais. A discussão, segundo ele, não se limita a discutir a redução da taxa de juros.

Um dos fatores importantes, segundo ele, é a alta carga tributária. O ex-ministro, no entanto, se mostrou cético quanto à redução expressiva dos impostos. “É um sonho da gente achar que o Brasil vai baixar sua carga tributária”, afirmou.

“A Constituição do Brasil tem um objetivo quase utópico: saúde e educação universais e gratuitas. Isso significa dar igualdade e oportunidade a todo cidadão e isso exige impostos mais altos.” A solução, disse Delfim, está no aumento da eficiência nos gastos públicos.

Poupança. O ex-ministro Delfim Netto defendeu a necessidade de mudança no rendimento das cadernetas de poupança para melhorar o ambiente econômico do País e permitir a continuidade da queda das taxas de juros. “A remuneração da poupança estipula um piso para a taxa básica de juros”, disse.

Para o economista, não mexer na poupança significa impor uma barreira ao avanço do País. “Não se trata apenas de redução da poupança, mas sim de um programa de política monetária, fiscal e cambial para reduzir as taxas de juros no Brasil”, afirmou Delfim.

Para ele, o desafio é convencer a sociedade de que a mudança na rentabilidade da caderneta de poupança é importante para a população. Para isso, disse ele, é necessário um mínimo de educação financeira. “A questão da poupança se tornou algo extremamente difícil de se por a mão”, afirmou, em referência ao custo político que envolve a questão.

Na prática, a redução da taxa básica de juros (Selic), fixada em 9,75% desde 7 de março, deve levar os fundos de investimento a reduzir suas taxas de administração para se ajustar à nova realidade de rendimentos mais baixos do que a poupança.

“A preocupação explícita pela redução do rendimento da poupança é dos fundos de investimento e de pensão”, disse. Para ele, a queda do juro não terá impacto significativo sobre o financiamento da dívida pública. Mesmo com rentabilidade menor dos títulos do Tesouro Nacional em relação à poupança, a dívida pública seguirá sendo o investimento de maior segurança.

09/03/2012 - 08:25h Para apoiar a indústria, União amplia Brasil Maior

Por Sergio Leo | VALOR

De Brasília

O governo deve criar, para montadoras que se instalarem no país, uma cota para importação de automóveis com abatimento, até 2013, de 30 pontos percentuais do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI). O benefício pode ser estendido futuramente, mas só quando o governo concluir o novo regime automotivo, com as regras de incentivo ao investimento e aperfeiçoamento tecnológico do setor até 2016. O novo regime faz parte de um conjunto de medidas que a presidente Dilma Rousseff quer anunciar até o fim do mês para aumentar a competitividade da indústria brasileira.

Nos próximos dias serão divulgadas, também, as condições favorecidas para fornecedores nacionais de medicamentos e equipamentos médicos para o Sistema Único de Saúde (SUS) e de motoniveladoras e retroescavadeiras para as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ao vender essas máquinas ao PAC, os fornecedores nacionais poderão apresentar preços entre 5% e 8% (o índice está em discussão) maiores que os dos concorrentes estrangeiros.

Dilma ouviu o ministro da Fazenda, Guido Mantega e aproveitou a viagem a Hannover, na segunda-feira, para discutir com o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, as novas medidas, que quer divulgar ainda na próxima semana. Alguns dos pontos, como a cobrança de IPI para montadoras com novas fábricas, ainda podem sofrer alteração.

Na última versão do decreto a ser publicado, as empresas que até o fim deste ano se habilitarem com projetos de fabricação de automóveis no país terão direito a crédito presumido do IPI, abatendo o imposto a pagar, desde que se comprometam em atingir índice de nacionalização de 45% em um ano, 55% no ano seguinte e 65% ao fim de três anos.

O objetivo do regime automotivo é elevar investimentos em produção e desenvolvimento de tecnologia, mas o governo decidiu adiar o anúncio das regras que valerão entre 2013 a 2016 para avaliar, primeiro, a reação do mercado às regras provisórias deste ano. Há países que ameaçam contestar as regras na Organização Mundial do Comércio (OMC), e empresas que avaliam recorrer à Justiça.

O conjunto de medidas a ser anunciado por Dilma deve aproveitar os investimentos previstos no Plano Nacional de Banda Larga para estimular o investimento na produção nacional de equipamentos de tecnologia da informação, como modems, roteadores, cabos ópticos e componentes.

A presidente quer anunciar incentivos fiscais para os fabricantes desses equipamentos, que irão compor uma lista de “produtos prioritários” a ser acrescentada ao anexo do regime tributário especial para produtos de tecnologia da informação.

Ao lado das medidas de incentivo, o governo ainda estuda, em ritmo acelerado, por ordem da presidente, medidas de financiamento a exportações, capazes de compensar, pelo menos parcialmente, o efeito negativo da valorização dor real em relação ao dólar. Uma das principais novidades é a criação de mecanismo de garantia para aumentar o volume de empréstimos a países de maior risco, especialmente na África, para onde se dirigem projetos de empreiteiras brasileiras, que estimulam a demanda por máquinas, equipamentos e até têxteis brasileiros.

Uma das discussões mais difíceis tem sido a alteração do Proex, principal linha de financiamento oficial ao comércio exterior, hoje vinculada ao Orçamento. Os técnicos estudam a proposta de transformar o Proex em um fundo independente, realimentado com recursos dos empréstimos anteriores, que, assim, deixariam de ser parte do caixa da União e ficariam a salvo dos cortes e contingenciamentos orçamentários. Ainda há resistência à ideia na Fazenda.

Todas as medidas estão abrigadas no plano Brasil Maior, anunciado em 2011, e o governo admite que não são suficientes para garantir o aumento de competitividade e produtividade. Medidas de melhoria da infraestrutura e iniciativas capazes de conter a valorização cambial, como a recente redução da taxa básica de juros, são consideradas essenciais pela equipe econômica, que também pretende continuar recorrendo a novas ações de defesa comercial contra importados que ameacem a sobrevivência de setores industriais.

01/02/2012 - 09:05h Indústria volta a crescer e retomada atinge 60% do setor

Por Arícia Martins | VALOR

De São Paulo

Depois de um resultado pífio em 2011, a indústria voltou a crescer no último mês do ano. Apoiada nos setores de bens duráveis e de capital, a produção industrial subiu 0,9% entre novembro e dezembro, feitos os ajustes sazonais, mas a melhor notícia no resultado foi o grande número de setores com resultado positivo – dos 27 ramos analisados pela Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 16 aumentaram sua produção no período (60% do total). O resultado foi visto por economistas como sinal de que, daqui para frente, o setor deve entrar numa trajetória de retomada lenta e gradual, após o ano perdido para a produção: a expansão foi de apenas 0,3% em 2011 na comparação com 2010.

Os principais entraves à indústria no ano passado, afirmam analistas ouvidos pelo Valor, foram o aperto do crédito, que reprimiu a demanda e provocou acúmulo de estoques, o câmbio valorizado, que favoreceu o consumo de importados, e a crise externa, que piorou na passagem do primeiro para o segundo semestre e afetou a confiança de consumidores e empresários. “O real valorizado durante a maior parte do ano favoreceu a presença de produtos importados de têxtil e calçados no mercado doméstico”, avaliou André Luiz Macedo, economista do IBGE.

Como o governo tomou medidas de incentivo à economia no fim do ano passado e o Banco Central está cortando os juros desde agosto, o consumo doméstico deve ser a base da recuperação da indústria em 2012, já que a

demanda externa e o câmbio não devem ajudar as exportações, dizem os economistas. Para alguns, a disseminação do crescimento no fim de 2011 reforça o quadro de otimismo para o começo deste ano.

Para Fernanda Consorte, do banco Santander, o dado de dezembro é o início de uma trajetória de ascensão da indústria, que está diminuindo seus estoques e deve apresentar taxas positivas ao longo do ano. “Não vai ser todo mês que a indústria vai crescer 0,9%, mas vai sempre registrar crescimento em relação ao mês anterior”, projeta ela.

Fernanda aponta que o avanço do setor de bens de capital no último mês do ano, cuja produção cresceu 3,7% frente a novembro, descontados os fatores sazonais, é um indício de que a confiança dos empresários está aumentando, o que resulta em produção maior mais à frente. O resultado foi influenciado pela aceleração na produção de caminhões em dezembro porque em janeiro entrou em vigor uma nova legislação de emissão de poluentes, mas também cresceu o indicador de bens de capital para uso industrial.

A categoria de uso que mais se destacou na passagem de novembro para dezembro foi a de bens duráveis, que cresceu 7% na série dessazonalizada. A redução do IPI para parte da linha branca aumentou a produção nesse segmento (6% sem ajuste sazonal), mas o setor de veículos automotores foi a principal influência positiva para o resultado geral, avaliam os economistas ouvidos. A indústria automobilística, que tem peso de 7% no indicador geral, registrou expansão de 5,2% no período, de acordo com o IBGE, nesse caso descontados os efeitos sazonais.

Segundo Thovan Tucakov, da LCA Consultores, ainda é cedo para concluir que a reversão parcial das medidas macroprudenciais já está soltando as amarras sobre o crédito e impulsionando a demanda, avaliação feita por Fernanda, do Santander. “A indústria responde rápido a isso”, afirma a economista, para quem a produção deve aumentar 2% este ano.

Se até agora os efeitos dos estímulos sobre a produção ainda não foram claros, pondera o analista da LCA, eles devem aparecer com mais força no segundo trimestre de 2012, quando a indústria já tiver concluído seu processo de ajuste de estoques e estiver pronta para atender o mercado doméstico, aumentando a atividade nas fábricas. Por outro lado, a demanda externa enfraquecida e o câmbio valorizado continuarão presentes em 2012, dificultando uma retomada mais forte da produção.

A LCA espera um câmbio médio em torno de R$ 1,70 em 2012, diante de R$ 1,67 registrado em 2011. “Não será do lado do câmbio que teremos alívio. Em um cenário de crise, os recursos continuarão sendo direcionados para países emergentes, que terão crescimento melhor do que economias maduras. Além disso, mesmo com o ciclo de redução de juros, o diferencial do Brasil em relação a outros países seguirá grande”, explica Tucakov, que prevê crescimento de 2,5% da produção este ano.

A MB Associados trabalha com um cenário um pouco mais pessimista para a indústria em 2012, sem esperar maiores efeitos da política econômica, comenta Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria. Para ele, uma retomada modesta do setor deve ocorrer somente no segundo semestre. “Esse 0,9% me parece mais um respiro de fim de ano. Há uma perspectiva complicada para o primeiro semestre, quando ainda continuaremos vendo números bastante fracos.”

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) viu com certo otimismo o resultado de dezembro, mas não aposta em um desempenho brilhante do setor em 2012, ano que será marcado pela volatilidade do câmbio e por nova onda de importações, segundo Rogério César de Souza, economista-chefe da entidade. “É um aumento de importados que não é para completar a produção nacional. É para tomar o lugar, mesmo.” (Colaborou Diogo Martins, do Rio)

01/02/2012 - 08:21h Mínimo reforça planos de parte da indústria


Novo piso salarial deve injetar uma renda extra de R$ 60 bilhões na economia neste ano

Por Arícia Martins | VALOR

De São Paulo

Após um ano ruim para a indústria em 2011 – com crescimento de apenas 0,3% sobre 2010 -, o aumento de 14% do salário mínimo pode estimular a produção em setores cujas vendas dependem mais da renda do que do crédito e dar um alento ao resultado geral no fim do ano. Levantamento do Valor com nove empresas dos setores de alimentos e bebidas, vestuário, cosméticos e motocicletas e três associações de indústrias indica que a maioria dos empresários está otimista com o reajuste, que elevou o valor do mínimo de R$ 545 para R$ 622 a partir de 1º de janeiro, e planeja produzir mais este ano para atender essa demanda extra. Cálculos de diferentes consultorias indicam que o mínimo vai injetar uma renda extra de R$ 60 bilhões na economia este ano.

O setor de alimentos e bebidas – segunda maior indústria do país e empregadora de 1,54 milhão de pessoas em 2011 – deve ser um dos mais beneficiados com o aumento. Dos 4% a 4,5% previstos para o aumento da produção do setor em 2012, cerca de dois pontos percentuais devem vir apenas da alta do mínimo, segundo Denis Ribeiro, diretor do Departamento de Economia e Estatística da Associação Brasileira das Indústria da Alimentação (Abia), que reúne 45 mil empresas do segmento.

Ribeiro aponta que a nova Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE, mostrou que a família brasileira gasta, em média, 16% de seus rendimentos com alimentos. “Considerando a quantia a ser injetada na economia com o aumento do mínimo, 16% é substancial para o setor de alimentos”, diz. Em 2011, a Abia calcula que a produção do setor aumentou 5% sobre 2010, número que não é a estimativa oficial da entidade para 2012, mas que pode ser alcançado caso não haja deterioração adicional do cenário externo, afirma o diretor. “A produção pode até crescer um pouco mais em função desse apoio do mercado interno.”

A General Brands, empresa cujo principal negócio é a fabricação de refrescos em pó e néctares (sucos prontos para beber), planeja incrementar a produção dessas duas bebidas este ano após ter dobrado a de néctares e ter elevado a de refrescos em 5% em 2011. “Essa injeção do mínimo é um prato cheio para o consumo”, diz Isael Pinto, diretor-presidente da GB, que ainda não tem projeções fechadas para a produção em 2012, mas acredita que o faturamento da companhia vai avançar 20% este ano.

Com uma fábrica em Guarulhos, a GB emprega cerca de 650 pessoas e também produz gelatinas, gomas de mascar, bebidas à base de soja, chás e sucos naturais. Pinto está mais otimista ainda com o mínimo porque seus produtos, vendidos em sua maioria em redes de supermercados, são líderes de mercado em boa parte do Norte e Nordeste, regiões onde o reajuste terá maior impacto na economia.

A Ajinomoto – cuja linha ao consumidor é voltada para temperos, mas inclui sopas individuais, refrescos em pó e adoçantes – não divulga estimativas de produção separadas por área de negócio, mas acredita que o mínimo impactará toda a linha de alimentos, pois cerca de 80% de seus consumidores pertencem às classes C, D e E, segundo Chiara Tengan, gerente de marcas da companhia. “O aumento da renda da população sempre se reflete positivamente em nosso volume, pois além de permitir a entrada de consumidores de todas as classes sociais, contribui para que consumidores atuais elevem sua frequência de consumo”, diz.

Os setores têxtil e de vestuário também vislumbram um ano melhor em 2012, mas não só devido ao mínimo. Em 2011, segundo o IBGE, a produção nessas duas indústrias caiu 14,9% e 4,4%, respectivamente, em relação a 2010. Para a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o resultado negativo é explicado pelo aumento da parcela de importados no mercado, já que o consumo se manteve em alta. Pesquisa do Pyxis Consumo, ferramenta do Ibope Inteligência, aponta que cada brasileiro gastou R$ 583 com roupas em 2011, valor que deve subir para R$ 670 este ano.

O presidente da Abit, Aguinaldo Diniz Filho, espera que, com a queda da taxa de juros, um câmbio menos valorizado que o de 2011 e a expansão da renda provocada pelo mínimo, a indústria nacional aumente sua participação no consumo desses produtos em 2012. “Se houver transferência de renda para importação, no entanto, estamos sendo ingênuos”, pondera.

“A injeção de recursos no mercado é benéfica para todo mundo”, afirma Carlos Alexandre Döhler, diretor-comercial da Döhler, empresa catarinense que fabrica produtos têxteis para casa. Por ter capital aberto, a companhia ainda não pode informar suas projeções para 2012, que devem ser divulgadas no próximo relatório trimestral à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A expectativa, no entanto, é positiva, antecipa o empresário, já que a Döhler é voltada para o consumidor das classes C e D. “Estamos prevendo para 2012 um ‘difícil ano bom’. A produção vai ser um pouco maior do que em 2011 e continuamos fazendo investimentos”, diz.

Nova classe média vira alvo preferencial

Por De São Paulo

O impulso do salário mínimo também está sendo interpretado como fôlego extra à produção por setores pouco tradicionais da indústria, mas que apostam na mudança dos padrões de consumo das classes C e D. Segundo estudo do instituto Data Popular, dos R$ 63,98 bilhões a serem injetados na economia neste ano com o novo mínimo, R$ 48,3 bilhões irão parar nas mãos da nova classe média, ou 75,5% do total.

A Nonus, empresa de São Paulo que emprega 90 pessoas e fabrica leitores de códigos de barras para o pagamento de contas em casa via internet – o chamado “homebank” – está de olho no potencial de consumo dessa parcela da população, que está se “bancarizando” e acessando mais a web.

Fundada em 1985, desde então a Nonus produz leitoras para o atendimento em bancos, mas, a partir de 2004 passou a desenvolver o homebank quando percebeu que as próprias instituições financeiras estavam investindo na automação de seus clientes, conta Marcos Canola, diretor-comercial. Hoje, o “leitor doméstico”, que custa cerca de R$ 100 no varejo, já representa 20% do faturamento da empresa. Em 2011, foram vendidas 50 mil unidades do produto.

“No começo, como imaginamos, os principais interessados eram as pessoas da classe A e B, que já tinham computador, mas isso começou a se expandir para qualquer pessoa que tivesse interesse em tecnologia. A nova classe média quer ficar antenada”, diz Canola, que prevê expansão de 20% da produção do homebank em 2012 e de 20% a 30% nas vendas.

O Brasil encerrou 2011 com 58 milhões de acessos aos serviços de conexão à internet, o que representou um crescimento de quase 70% em relação a 2010. Ao todo, 23,3 milhões de novos acessos foram ativados no ano passado, de acordo com levantamento da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil).

O setor de cosméticos também está animado com o aumento do mínimo. Mesmo marcas voltadas ao consumo da classe AB esperam vender mais e, consequentemente, produzir mais em 2012. É o caso da Aspa Cosméticos, marca cujo carro-chefe são sprays para cabelo, produzidos pela Aerojet Química Industrial. “É um aumento de R$ 77. Não acredito que dê para comprar eletrodomésticos com esse dinheiro”, diz o sócio-diretor da Aerojet, Demetre Giokaris, para quem a renda extra deve ser canalizada para o consumo de bens não duráveis.

Sediada próxima a Petrópolis (RJ), a fábrica da Aerojet emprega cerca de 250 pessoas e, além de produzir hairsprays em geral, é a única no país no segmento de “maquiagem para pernas”, um spray em aerosol que substitui o uso da meia-calça no verão. Os produtos são vendidos em todos os Estados e exportados para seis países. “As classes mais baixas estão começando agora a ter acesso aos nosso produtos”, afirma Giokaris, que espera crescimento da produção em torno de 16% em 2012, taxa igual a de 2011. “O setor de cosméticos vai crescer mais do que a média”, acredita.

A Rishon, fabricante de cosméticos especializada em produtos para tratamento capilar do Recife (PE), vai ampliar sua fábrica este ano e espera resultados próximos ao de 2011, quando o faturamento cresceu 50% e a produção, 35%. Segundo a empresária Marcelle Sultanum, o aumento do mínimo, apesar de onerar seus custos com mão de obra, “beneficia muito” seu negócio, já que, na região Nordeste, grande parte da população recebe entre um e dois salários mínimos. “As mulheres das classes C e D ficam com mais poder aquisitivo para comprar e consomem nossos produtos, mesmo com renda bem mais baixa”, afirma.

Com mercado já consolidado no Nordeste e no Estado do Pará, a Rishon vende para todo o país por meio de sua loja virtual, chegou no ano passado ao varejo especializado em beleza de São Paulo e planeja começar a exportar parte de sua produção. “Nosso público são mulheres muito interessadas em cabelo, ou seja, qualquer brasileira, seja de alta ou baixa renda”, resume Marcelle.

Esse é o mesmo pensamento de Alexandre de Oliveira, diretor da Koloss Cosméticos, pequena empresa de Jaú, no interior de São Paulo, que produz maquiagens a preços acessíveis vendidas em perfumarias e redes de farmácias em todo o país. Os batons, principais produtos da Koloss, custam cerca de R$ 4 no varejo, diz Oliveira, que está adquirindo novas máquinas e planeja expandir a produção em 40% este ano, após um crescimento de cerca de 30% em 2011. “O mínimo certamente tem um papel nessa projeção, ainda que não principal”, comenta o empresário. (AM)

12/09/2011 - 10:38h Brasil torna-se mercado prioritário para grandes grupos estrangeiros

12 de setembro de 2011

- O Estado de S.Paulo

O cenário de relativa incerteza no Brasil não reduziu, porém, o apetite das gigantes estrangeiras – afinal, a situação nos países desenvolvidos não é cor de rosa. A mais ambiciosa das multinacionais é a europeia EADS, que já está no País desde a década de 70, mas agora se prepara para um salto. O grupo decidiu que, até 2020, 40% de sua receita (que deve chegar a 80 bilhões) terá que vir de fora da Europa. Hoje, esse porcentual está ao redor de 20%.

Diante da mudança, o Brasil tornou-se prioridade. A Cassidian, uma das empresas do grupo, vai abrir no Brasil seu primeiro centro de engenharia fora da Europa e pretende desenvolver softwares de defesa e segurança voltados para os problemas enfrentados nos países emergentes. Alguns desses sistemas poderão ser usados não apenas na área de defesa, mas na segurança das cidades e de eventos, como a Copa do Mundo. “Agora, são os emergentes que podem ajudar a Europa em seus problemas. Os países europeus estão enfrentando uma violência que não existia antes, a exemplo dos carros queimados na França e do quebra-quebra nas ruas de Londres”, diz Christian Gras, presidente da empresa no Brasil.

A Cassidian não é a única. “Atuamos nas áreas de segurança urbana, monitoramento de grandes eventos e segurança de ativos críticos, como plataformas de petróleo. Em que outro lugar no mundo todas essas áreas crescem ao mesmo tempo?”, diz David Barioni, presidente da AGT International, empresa de segurança com sede na Suíça recém-chegada ao País. A companhia mantém conversas com possíveis clientes no Brasil.

Os anúncios recentes do governo foram o suficiente para gerar uma enxurrada de investimentos como há muito não se via na indústria de defesa. Resta saber quantas das novas entrantes efetivamente cabem no setor. No mundo todo, as empresas do setor passam por um brutal processo de consolidação.

Na Europa, há quatro gigantes que fornecem para o mundo todo. Nos Estados Unidos, o maior mercado, sobraram três companhias depois de uma série de fusões e aquisições. “Em um mercado como o brasileiro, tem espaço para todos esses grupos nacionais”, diz um executivo do setor.

31/08/2011 - 09:59h Novas hidrelétricas aquecem mercado de máquina pesada

Por Eduardo Laguna | VALOR

De São Paulo

Há cerca de dois meses, o cais de Vitória do Xingu, no Pará, recebe quase que semanalmente uma quantidade expressiva de maquinário pesado usado em construção. São máquinas e equipamentos que saem do porto de Belém e fazem uma viagem de aproximadamente 80 horas pelo rio Xingu até chegar ao local, de onde partem para as obras do maior projeto hidrelétrico em curso no país: a usina de Belo Monte.

O primeiro lote aportou ali no dia 5 de julho com dez tratores, sete motoniveladoras, sete rolos compactadores, cinco pás carregadeiras, cinco escavadeiras e três retroescavadeiras – equipamentos da chamada linha amarela da indústria de bens de capital.

Até o momento, aproximadamente 700 máquinas pesadas foram contratadas para Belo Monte, incluindo uma encomenda de 540 caminhões fechada com a Mercedes-Benz. Já as máquinas da linha amarela são da Caterpillar, compradas por meio da Sotreq, revendedora da fabricante americana. Segundo o consórcio responsável pelas obras da usina – liderado pela Andrade Gutierrez -, metade do maquinário tem entrega prevista até dezembro.

Empresas avaliam que as necessidades das hidrelétricas em obras vão além do volume que já foi contratado

Belo Monte é o empreendimento mais importante, mas não é o único que está ajudando a engordar as carteiras de pedidos na indústria de bens de capital. Para a construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, foram contratados 44 tratores, 65 escavadeiras, 15 gruas e 229 caminhões.

Na usina de Teles Pires, cuja licença ambiental de instalação foi concedida pelo Ibama este mês, a Odebrecht, responsável pelas obras, já comprou 80 caminhões, onze tratores, 14 escavadeiras e 19 máquinas de perfuração de solo, além de 18 caminhões tipo fora-de-estrada da Randon.

Essa última encomenda se soma a outros 30 caminhões entregues pela Randon nas obras da usina de Santo Antônio. “Nossa relação com hidrelétricas vem desde a construção das barragens de Itaipu, quando nossas máquinas também foram utilizadas”, conta Norberto Fabris, diretor de implementos e veículos da empresa, sediada em Caxias do Sul (RS).

Executivos do setor de máquinas e equipamentos avaliam que as necessidades das hidrelétricas em obras vão além do que já foi contratado, algo que abre a possibilidade para novos negócios nos próximos meses. Yoshio Kawakami, presidente da Volvo Construction Equipment (VCE) na América Latina, cita planos de colocar os caminhões articulados da marca em Teles Pires. Diz também que Belo Monte ainda vai ter “necessidade significativa” desse tipo de veículo, capaz de operar em áreas de difícil acesso. “É uma oportunidade que vemos, mas ainda não fechamos nada.”

O braço de máquinas para construção do grupo sueco Volvo – que espera alcançar neste ano uma receita superior a US$ 700 milhões na América Latina – já negociou de 30 a 40 caminhões para as obras das usinas de Santo Antônio e Jirau, também no rio Madeira.

Na Randon Veículos, Fabris diz que negocia mais vendas relacionadas a obras de hidrelétricas, mas de porte inferior aos últimos contratos anunciados. “Existe a possibilidade de algo mais”, afirma o executivo, que prevê vender 110 caminhões neste ano.

De acordo com o consórcio construtor de Belo Monte, novos lotes de caminhões poderão ser encomendados no futuro, mas no momento não há previsão de outros pedidos. Dos 540 caminhões negociados com a Mercedes-Benz, 398 são do tipo fora-de-estrada, que podem enfrentar condições extremas de operação.

Estimativas da Sobratema, entidade que coleta informações sobre esse mercado, apontam consumo de 77,82 mil equipamentos de construção este ano. Disso, 27,35 mil unidades da linha amarela. Segundo índices conjunturais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção de bens de capital para construção evoluiu 19% no primeiro semestre.

A expectativa de investimentos robustos em infraestrutura já levou alguns fabricantes estrangeiros – como as asiáticas Hyundai, Doosan, Sany e XCMG – a anunciar planos de montar fábricas no país. (Colaborou Marcos de Moura e Souza, de Belo Horizonte)

14/06/2011 - 08:55h Visões do investimento

José Paulo Kupfer – O Estado de S.Paulo

A indústria, em 2011, reduzirá os investimentos em máquinas, mas aumentará a aplicação de recursos em inovação. É o que informa reportagem do colega Marcelo Rehder, publicada no Estadão de domingo. Entre os motivos destacados pela Fiesp, que patrocinou o levantamento, a desaceleração da atividade econômica e o avanço dos produtos importados assumem a linha de frente.

Essa é a visão pragmática dos empresários. Entre os economistas, sempre que se fala em investimento no Brasil, fala-se que a taxa é baixa. Fala-se, na sequência, que é preciso elevá-la para evitar voos de galinha em meio a surtos inflacionários.

O roteiro, que parece reproduzir os chiados e os engasgos de um velho disco arranhado de vinil, segue com explicações da sabedoria convencional, segundo as quais a taxa de investimento é baixa porque a taxa de poupança é baixa e que a taxa de poupança é baixa porque o governo, com seus déficits e suas dívidas, restringe a capacidade de formação de poupança. Completa-se o script com menções às espetaculares taxas de poupança e investimento na China.

Não há mentira, nem mesmo erro, nessas afirmações. Elas apenas refletem uma visão da economia que, pela insistência e predominância, parece única, ainda que nem de longe seja.

A discussão da causalidade entre poupança e investimento é uma das muitas infindáveis e inconclusivas discussões econômicas. Se há uma identidade incontestável entre poupança e investimento, ela só é verificável “ex-post”, como dizem os economistas em seu terrível jargão – ou seja, depois que tudo já ocorreu. A divergência insanável está na abordagem “ex-ante” – ou seja, aquela que observa o fenômeno na partida e procura descrever, quando as engrenagens se movem, o que causa o quê.

Num outro modo de ver, o dos “keynesianos” – genericamente assim classificados em oposição aos qualificados como “neoclássicos” -, pode haver quanta poupança agregada houver que, sem horizontes para investir e, sobretudo, sem financiamento que o atenda, não haverá investimento.

“Para Keynes, o investimento não depende de poupança prévia, e sim de financiamento”, escreveu, resumindo essa visão, Luiz Fernando de Paula, presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), no jornal Valor, em novembro de 2010. “Este, por sua vez, não se confunde com poupança, podendo a liquidez necessária para realização do investimento ser criada endogenamente pelo sistema financeiro (…)”.

Tome-se o caso da China. Enquanto “neoclássicos” olham para a taxa de poupança de 50% do PIB e com ela explicam os 40% do PIB exibidos pela taxa de investimento chinesa, os “keynesianos” focam o olhar no sistema bancário chinês. Ele é integralmente público e voltado para atender, com crédito subsidiado e a baixo custo, toda a demanda de financiamentos existente.

Quando se adicionam a essa outras características da economia chinesa, como a alta relação lucro/salário e o absoluto controle do câmbio, para mantê-lo depreciado, uma pulga pode se instalar atrás da orelha e indagar se, diferentemente do convencional, não é a alta taxa de investimento que dá sustentação a uma alta taxa de poupança.

Pode-se – e deve-se – extrair algumas lições desse debate. A primeira e mais importante delas é que, qualquer que seja o deflagrador causal do investimento, o fator “financiamento” é crítico. Disso decorre que também é crítica a necessidade de contar com um sistema financeiro flexível e elástico, capaz de atender às demandas potenciais de investimento.

Tanto quanto contas públicas em ordem e um sistema tributário que abra espaço à produção competitiva, para fazer deslanchar o investimento, o Brasil carece de um sistema privado de financiamento de longo prazo. Viu-se, recentemente, com as tumultuadas transações do Tesouro Nacional com o BNDES, que há limites fiscais para o atendimento pelo setor público de toda a demanda potencial por investimento.

Não será possível estruturar esse sistema sem uma reforma financeira que separe os juros de títulos de curto, médio e longo prazos. As Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), por exemplo, sobreviveram ao Plano Real e à estabilidade da moeda, e mantêm hoje as características de funcionamento do overnight dos tempos da hiperinflação, garantindo, ao mesmo tempo, segurança, rentabilidade e liquidez. Impossível financiamento longo com as vantagens oferecidas no curto prazo. Mas este é um tema, embora já bem conhecido, que rodopia em falso.

03/02/2011 - 09:33h Indústria tem maior alta em 24 anos

Produção cai em dezembro com concorrência dos importados e efeito dos juros, mas avanço no ano chega a 10,5%, o maior desde 1986

Alessandra Saraiva – O Estado de S.Paulo

A atividade industrial amargou em dezembro o pior resultado em seis meses. O ambiente de juros altos e de forte concorrência de importados aprofundou a trajetória de queda na produção industrial, de -0,2% para -0,7% de novembro para dezembro. Mas o saldo do ano foi positivo, com alta acumulada de 10,5% em 2010, a maior em 24 anos.

No entanto, a performance positiva em 2010 não melhorou o humor do mercado financeiro, que foi surpreendido negativamente com a queda no fim do ano. Analistas projetavam um aumento de, no mínimo, 0,4% na produção em dezembro.

O uso de uma base de comparação muito baixa, referente a 2009, quando a indústria sofria os efeitos negativos da crise global e mostrou queda de 7,4% na produção (a pior em 19 anos) foi a explicação dos especialistas para o grande salto no ano.

Na prática, a produção industrial mostrou uma “trajetória descendente” na atividade da ao longo de 2010, nas palavras do gerente da Coordenação de Indústria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), André Macedo.

Ele fez a observação ao comentar a evolução trimestral da produção no ano passado, que subiu 3,1% no primeiro trimestre; avançou 1,1% no segundo trimestre; caiu 0,6% no terceiro trimestre; e recuou 0,1% no quarto trimestre, sempre na comparação com trimestre imediatamente anterior.

Efeito IPI. Macedo lembrou que o primeiro trimestre foi o período em que a indústria ainda se beneficiava da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). “As medidas de isenção fiscal beneficiaram o desempenho de bens duráveis, de bens intermediários, e de capital. Isso ajudou na elevação mostrada no primeiro trimestre, mas esta alta não se manteve”, disse. “Houve, claramente, uma redução no ritmo da produção industrial como um todo.”

Um dos destaques negativos em dezembro foi a indústria de material eletrônico e equipamento de comunicações, que mostrou queda de 13,3% em dezembro contra novembro, prejudicada pela concorrência com importados e fim de isenção do IPI. “Muito deste recuo tem a ver com desempenho mais fraco de eletrodomésticos, de celulares, e de produtos da linha marrom”, acrescentou.

Mau momento. Para o consultor do Instituto de Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) Rogério Souza o resultado de dezembro comprova o mau momento da indústria. Segundo ele, desde abril do ano passado a indústria já mostrava sinais de arrefecimento na atividade, que se aprofundaram em dezembro.

“A indústria não está seguindo o bom comportamento que a economia brasileira mostra como um todo, e perde na concorrência com importados”, afirmou. “É um cenário preocupante, e que pode prosseguir em 2011″, disse, acrescentando que, em sua avaliação, não existem medidas no momento que possam reverter este quadro no curto prazo.

14/12/2010 - 10:33h Para Iedi, perda de espaço da indústria na economia pode ameaçar crescimento

Sergio Lamucci | VALOR

De São Paulo

A indústria de transformação brasileira perde espaço na produção da economia brasileira e mundial, tendência que pode ameaçar a consolidação de ritmo de crescimento mais expressivo nos próximos anos, adverte, em estudo, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Enquanto no Brasil a fatia do setor no Produto Interno Bruto (PIB) está em queda, recuando da casa de 30% nos anos 70 para um nivel inferior a 24%, ela mantém trajetória de alta em países asiáticos que há décadas crescem a taxas elevadas. Na Coreia do Sul, está em 38% e na China, próximo de 53%. Os números são da Organização das Nações Unidas (ONU), a preços em dólares de 1990 (ver gráfico).

Para o presidente do Iedi, Pedro Passos, a situação brasileira é reversível, mas exigirá um esforço que passa não só por mudar o quadro de câmbio valorizado, mas também por medidas como a redução do custo financeiro na economia e dos encargos sobre a mão de obra e pela melhora dos sistemas de logística e da inovação empresarial.

O estudo ressalta a importância do bom desempenho da indústria de transformação para a expansão recente da economia brasileira, ao analisar o resultado de uma série de 54 resultados para o crescimento do PIB brasileiro acumulado em quatro trimestres entre o começo de 1997 e junho de 2010. “Nesse período, em apenas 12 trimestres o aumento do PIB superou 5% em bases anuais, e em todos esses trimestres a indústria de transformação cresceu em percentuais próximos ou superiores. Em oito desses trimestres, o crescimento da indústria de transformação situou-se entre 6% e 9%”, destaca o Iedi.

Para o economista-chefe do instituto, Rogério César de Souza, os números indicam que, para promover uma expansão a taxas robustas, é fundamental que a indústria de transformação avance a passos rápidos. Souza diz que países com taxas robustas de crescimento “tiveram na indústria o principal apoio”.

Segundo o estudo, “China, Coreia do Sul, Indonésia, Índia, Malásia, Tailândia e Irlanda, todos com taxas médias anuais de expansão superiores a 5% ao ano entre os anos de 1970 e 2007, tiveram aumentos relevantes na participação de seus setores industriais no PIB. No outro extremo, países já industrializados e várias economias latino-americanas, dentre elas o Brasil, tiveram médias de crescimento abaixo de 5% ao ano e declinantes participações nos respectivos PIBs.”

Na China, a fatia da indústria de transformação no valor adicionado total da economia pulou da casa de 35% no começo dos anos 80 para 52,9% em 2007. Na Coreia, a participação passou de 20% nos anos 80 para 38,4% em 2007. Nesse cenário, a participação do Brasil no valor adicionado da indústria de transformação global caiu da casa de mais de 3% no começo dos anos 80 para os 2,2% de 2007.

Outro sinal que preocupa Passos e Souza é o comportamento da balança da indústria de transformação. Em 2006, havia superávit bastante expressivo, na casa de US$ 30 bilhões. Em 2008, o resultado entrou no vermelho, atingindo déficit de US$ 7,1 bilhões, que se ampliou para US$ 8,3 bilhões em 2009. De janeiro a setembro de 2010, o rombo foi de US$ 25,8 bilhões. “Isso revela um processo intenso e rápido de deterioração da competitividade do setor”, diz Souza, atribuindo à valorização do câmbio a maior responsabilidade por essa piora.

Para o Iedi, o fortalecimento do real tem no diferencial de juros internos e externos uma de suas principais causas. “Não é o saldo comercial do agronegócio e da mineração que vem determinando a valorização da moeda”, afirma Souza, para quem não há oposição entre agricultura e indústria ou entre a economia industrial e a de commodities, tampouco existindo a necessidade de o país optar por uma especialização num desses segmentos. “O êxito simultâneo da indústria e dos demais setores é perfeitamente possível, considerando-se, evidentemente, a obtenção de uma taxa de câmbio competitiva”, destaca o estudo.

Para Passos, o papel do câmbio tem sido relevante para explicar a perda de importância da indústria de transformação. “Em primeiro lugar, a tendência do real tem sido de valorização, exceto em momentos de crise, como em 1999, 2002 e 2008. E há uma grande flutuação do câmbio, o que também atinge a competitividade.” Segundo ele, esses problemas do câmbio afetam especialmente a competitividade da indústria, que não conta com preços internacionais favoráveis na mesma intensidade que os setores que produzem commodities.

Passos diz que não há uma solução única para reverter esse quadro para a indústria. Mexer no câmbio é importante, mas também é fundamental diminuir o custo financeiro e tornar menos pesado os encargos que encarecem a mão de obra, assim como melhorar a logística. Ele destaca ainda a necessidade de “políticas voltadas à indústria, à inovação empresarial e à sustentabilidade”. Outro ponto crucial é o país desenvolver um regime mais avançado de financiamento de longo prazo. “É importante algo que contemple, além do BNDES, mecanismos voluntários de crédito bancário longo e de instrumentos do mercado de capitais.”

24/11/2010 - 10:23h CNI quer que Dilma fixe meta para limitar gasto público

Para novo presidente da entidade, país não está vivendo uma fase de desindustrialização

Ruy Baron/valor
Robson Andrade: “Propusemos que a Camex fique subordinada à Casa Civil e não mais ao Ministério do Desenvolvimento”



Luciana Otoni | VALOR

De Brasília


A indústria perdeu peso relativo no PIB. Tínhamos 34% e hoje temos 25%. Isso é normal em uma economia que cresce”

“O PIB da indústria deverá aumentar 11% neste ano e no ano que vem essa taxa deverá ficar em 7%”


O empresário mineiro Robson Andrade, recém-empossado presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), tem à frente a responsabilidade de conduzir a indústria brasileira a uma trajetória de expansão condizente com uma economia em condições de avançar em um ritmo de 5,5% ao ano.

Para atrelar a indústria ao PIB, a CNI enfrentará as consequências do dólar desvalorizado, a maior concorrência com os importados na disputa pelo mercado interno, uma economia internacional retraída e a frequente intenção do governo de ressuscitar a CPMF.

Nesse contexto em que a administração de Dilma Rousseff é uma peça nova no jogo, a indústria quer que a presidente eleita adote uma meta para limitar o gasto público, de forma a criar condições para a redução sustentada dos juros. A CNI também quer que o Banco Central mantenha autonomia na calibragem da política monetária para efeito de controle da inflação.

Para estimular as exportações, os industriais tentam convencer o Ministério da Fazenda a retirar a cobrança do PIS e da Cofins sobre as vendas feitas no exterior e a acelerar a devolução de R$ 17 bilhões em créditos tributários.

Em entrevista ao Valor, Robson Andrade, um líder da indústria que assume a CNI depois de quatro mandatos conferidos a políticos na direção da entidade, afirma que não há risco de desindustrialização, mas que o setor fabril está deixando de fazer investimento em inovação e tecnologia. Ele informa que a indústria encerrará 2010 com crescimento de 11% e que se prepara para uma expansão de 7% no próximo ano.

Valor: Com os sinais de que Dilma Rousseff vai desistir da CPMF, o risco de mais um tributo está afastado?

Robson Andrade: Se a presidente eleita acha que pode abandonar esse projeto de recriação da CPMF, isso é uma decisão ponderada e equilibrada, porque esse é um projeto que não tem o menor apelo por parte da sociedade. Não tem cabimento. Por outro lado, muitas vezes esses projetos nascem não somente do desejo do presidente, mas do desejo de governadores e de deputados que tentar arrumar recursos de maneira fisiológica. Temos que ficar atentos. Não podemos nos descuidar.

Valor: Qual é a estratégia da CNI de combate ao retorno da CPMF?

Andrade: A estratégia é mostrar à sociedade e aos políticos a incoerência da recriação da CPMF, porque isso não resolve o problema. Está provado que destinar determinado imposto à vinculação de despesa não resolve. Muitas vezes esses recursos se perdem no custeio da máquina e precisamos trabalhar melhor a gestão do gasto público que tentar o aumento da receita pura e simplesmente.

Valor: Considerando a montagem da equipe econômica do novo governo, o Banco Central pode vir a perder autonomia e submeter-se ao Ministério da Fazenda? Isso facilitaria a redução dos juros?

Andrade: O presidente Lula manteve o Banco Central independente e isso foi algo responsável para a manutenção do controle inflacionário e monetário do país. Mesmo considerando os juros elevados, temos que reconhecer que Henrique Meirelles teve uma administração bastante rígida. Não acredito que o BC será controlado ou perderá totalmente essa independência. No governo Lula não houve independência total, mas uma independência de gestão. A pessoa que a presidente Dilma nomear tende a continuar com a mesma filosofia. Os nomes que ouvimos falar possuem conhecimento técnico e conhecimento sobre a operação do sistema financeira brasileiro e internacional.

Valor: Qual é o impacto da mudança de comando no BC na gestão na política monetária?

Andrade: Temos que discutir a redução dos juros, o país não pode continuar com a taxa de juros que temos, isso traz uma série de problemas. Por outro lado, a manutenção da independência no Banco Central é importante.

Valor: Qual é a pré-condição para a redução da taxa Selic?

Andrade: Primeiro, é reduzir o gasto público. É preciso uma reforma fiscal para melhorar a qualidade da despesa, diminuí-la e reduzir também o déficit da Previdência.

Valor: Essa redução do déficit da Previdência seria via reforma constitucional?

Andrade: Alguns estudos que tive conhecimento mostram que Brasil passará por momento de quase pleno emprego, porque quando se tem 6% de desemprego isso é quase pleno emprego. Como há uma força de trabalho jovem e como trabalhamos com a tendência de desoneração das exportações e dos investimentos, haverá maior formalização do emprego. À medida que isso aumenta, dá-se mais equilíbrio à Previdência. Hoje, o horizonte é de grande força de trabalho, contribuindo para a Previdência ao mesmo tempo em que a população de aposentados não tende a aumentar muito nos próximos anos. O Brasil está em uma condição privilegiada para preparar o futuro, mas isso dependerá de vontade política.

Valor: O que a CNI sugere como forma de controle do gasto público?

Andrade: Deveria haver um limite para a expansão do gasto em proporção ao PIB. Acho que o Brasil precisa investir mais na qualificação do funcionalismo público e até pagar mais, desde que haja compromisso maior com a máquina pública. Isso tem que ser planejado. Cortar burocracia não reduz o número de funcionários, mas elimina custos e diminui as despesas.

Valor: O sr vê sinais de que o governo Dilma Rousseff terá preocupação em controlar o gasto?

Andrade: Há pessoas, como o Paulo Bernardo, Antonio Palocci e o Guido Mantega, que mostram atenção a isso. Às vezes, o Mantega dá algumas declarações que parecem que ele não se preocupa muito com o gasto, mas nas conversas se vê que ele é preocupado. Essas pessoas são preparadas e conhecem a máquina pública e os grandes problemas do setor público.

Valor: Em que fase estão suas negociações com Ministério da Fazenda em torno das desonerações para o setor exportador?

Andrade: Temos discutido muito a questão das exportações. As exportações de commodities são importantes e quanto mais pudemos vender ao exterior, melhor. E temos que aproveitar o preço no mercado internacional, que está elevado e para o qual há garantia de que permanecerá nesse patamar no futuro. Minério, por exemplo, não dá duas safras, só dá uma. Então, tem que se aproveitar o momento. Por outro lado, o Brasil não pode deixar de exportar produtos manufaturados e com conteúdo tecnológico e de mão de obra.

Valor: Qual é o risco?

Andrade: A indústria é, pelo que desenvolve de inteligência, a responsável pelo aumento de produtividade e de qualidade em diversos setores da economia, como a agricultura e o setor serviços. E faz isso não somente baseado no mercado doméstico, mas baseado, também, no mercado global. Então, o Brasil tem que participar desse mercado global, só que hoje temos visto que esse mercado global quer apenas vir para o Brasil para vender no nosso mercado e não estamos tendo condições de competir de maneira isonômica. Então, é preciso dar condições para a indústria brasileira desenvolver produtos e se preparar para fornecer para outros países. É preciso que a indústria brasileira tenha condições de competir com os concorrentes internacionais no mercado interno e no mercado externo também.

Valor: A saída é desonerar as exportações?

Andrade: É preciso tudo. Desoneração das exportações, solucionar o problema da paridade dólar/real, definir barreiras técnicas e medidas antidumping. É preciso conferir à indústria brasileira condições de desenvolver novas tecnologias.

Valor: Por onde começar?

Andrade: Durante a campanha propusemos à Dilma transferir a administração da Camex para a Casa Civil. Hoje, a Camex está ligada ao Ministério do Desenvolvimento, e dela participam os ministérios da Fazenda, do Planejamento, da Agricultura, do Desenvolvimento, o Itamaraty, e participa também o setor privado. Como isso é muito importante para política de exportação e de comércio internacional do Brasil, a Camex teria que ficar ligada a um órgão de mais peso, inclusive sobre os outros ministérios. A Casa Civil faria coordenação mais forte, porque tem peso maior sobre a Fazenda, sobre o Itamaraty, e faria coordenação maior das ações e definições que a câmara tomar.

Valor: Essa proposta teve receptividade por parte da presidente eleita?

Andrade: Ela se mostrou receptiva, agora vamos ver a decisão que ela tomará. No Conex [Conselho Nacional de Exportação] aprovamos propostas de desoneração tributária do PIS e da Cofins via compensação de créditos e encargos com INSS. E a Camex vai agora apreciar.

Valor: A Camex aprovará?

Andrade: Acho difícil. Estamos tentando motivar a Fazenda, que tem o olhar mais crítico.

Valor: O setor industrial conta com o pacote de medidas de longo para este ano?

Andrade: Acho que será anunciado este ano. Esse pacote será mais voltado ao crédito de longo prazo, atrelado a investimento e principalmente às obras de infraestrutura. Hoje investimos nisso cerca de 2% do PIB e precisamos avançar para 4% do PIB. O BNDES não vai ser suficiente para apoiar os investimentos que o país precisa, tanto no setor privado como no setor público. Há o pré-sal, os projetos de óleo e gás, toda a infraestrutura, os grandes projetos no setor de energia e de saneamento. É preciso retirar os benefícios voltados para aplicações financeiras especulativas e dirigir essas vantagens para que as empresas possam buscar recursos lá fora e para que os investidores externos possam trazer recursos para aplicação em investimento direto no Brasil.

Valor: Por que o sr. defende a quarentena para os capitais especulativos?

Andrade: Não temos como ter uma medida única que resolva o problema do câmbio. A não ser que façamos como a China, onde o câmbio é tanto e pronto. Mas isso o mercado não aceita, o país está hoje inserido em uma economia globalizada, que não aceita esse tipo de conduta. Por outro lado, o mundo e a economia global aceitam determinadas medidas de defesa da economia. Então, pode-se adotar medidas para onerar as aplicações financeiras de estrangeiros não só com o IOF [Imposto sobre as Operações Financeiras], mas também com o Imposto de Renda. Pode-se, também, criar mecanismos de quarentena para esses investidores não-residentes. O Chile adotou medidas vinculadas a quarentena por quase nove anos que foram muito bem sucedidas. E podemos, ainda, direcionar os recursos que vêm para o Brasil para investimento direto para projetos voltados para a exportação. Por exemplo: não precisamos de investimento estrangeiro em mineração, mas precisamos de recursos para desenvolver semicondutores para exportação. Estamos falando, nesse caso, de tecnologia de ponta, de forma a fazer que esses produtos sejam destinados ao exterior. Assim, começamos a mudar essa matriz de empresas estrangeiras que quiserem vir para cá só para se aproveitarem do nosso mercado interno. Tínhamos um mercado interno fraco e havia subsídios para que as empresas brasileiras exportassem e o mundo falava que isso não podia ser feito e que estávamos na contramão. Agora, temos um mercado interno forte e lá fora eles querem dar subsídios para as empresas estrangeiras virem vender em nosso mercado. A gente está sempre sendo penalizado. Temos que defender nossa economia, o trabalho dos nossos filhos, as nossas empresas e as condições para desenvolvermos a capacidade do país.

Valor: O câmbio está provocando desindustrialização?

Andrade: Não considero que haja desindustrialização. Os dados que temos mostram que a indústria e a economia estão crescendo. Nos últimos anos a indústria perdeu participação relativa na composição do PIB. Tínhamos 34% do PIB e hoje temos 25%. Mas isso é normal em uma economia que cresce, e na qual a agricultura e o setor de serviços se expandem. Temos de analisar o setor, ver o que estamos perdendo em relação a indústrias que são geradoras de tecnologia e de conhecimento.

Valor: Qual é o risco do dólar desvalorizado?

Andrade: O risco é que fica mais barato importar e, assim, não desenvolveremos tecnologias.

Valor: As medidas adotadas pelo governo para conter a valorização do real são suficientes?

Andrade: Essas medidas não dão resposta imediata e não podemos esperar que os resultados apareçam para tomarmos outras medidas. Por exemplo: a desoneração dos investimentos e das exportações pode ser feita de imediato. Medidas de quarentena e de tributação sobre investimentos estrangeiros especulativos podem ser adotadas de imediato, assim como medidas antidumping. Em tudo isso podemos ser mais ágeis.

Valor: Neste ano o Natal será do produto brasileiro ou do produto importado.

Andrade: Acho que será o Natal dos importados. Nisso falamos de produtos de consumo que hoje entram abertamente no país. São importações de produtos manufaturados e de bens de consumo de todo o tipo. Como estamos com um mercado interno aquecido, será bom também para a indústria brasileira. Temos visto que, como não há política voltada para investimento, as empresas nacionais estão sendo substituídas pelos importados. Precisamos mudar essa lógica.

Valor: Quanto a indústria crescerá neste ano?

Andrade: O PIB da indústria deverá aumentar 11% neste ano e no ano que vem essa taxa deverá ficar em 7%.

Valor: E o setor industrial ampliará o nível de investimentos?

Andrade: Acho que sim. O mercado interno está aumentando, vemos muitas decisões de investimento em setores estratégicos como mineração, indústria automobilística, indústria de fármacos, siderurgia, mineração, setor de petróleo e gás, tudo isso faz girar essa indústria de bens de capital e de bens de serviços.

Valor: Na exploração do pré-sal, o setor industrial garantiu a definição do conteúdo local nos fornecimentos à Petrobras?

Andrade: O presidente Lula, quando assumiu, disse que a Petrobras deveria fixar 70% e isso foi importante porque desenvolveu o setor. Sempre se pode discutir que não é 70%, porque tem diferença de preço e os produtos lá de fora são mandados para cá sem impostos. Independentemente disso, a Petrobras deu uma contribuição enorme, na medida que privilegiou as compras no país.

Valor: Para a exploração das reservas do pré-sal, qual é definição do conteúdo nacional?

Andrade: Para esses novos investimentos no pré-sal está sendo negociado o percentual do conteúdo local. A Petrobras alega a necessidade de compras que a indústria brasileira não pode suprir, mas achamos que podemos suprir. No geral, a indústria opera com capacidade de ocupação de 82%, então, há uma faixa para avançar, para investimos mais.

Valor: O que falta definir?

Andrade: Falta definir o percentual do conteúdo nacional. E tem que ser no mínimo 70%.

Valor: A indústria tem condições de atender esse limite e garantir as entregas?

Andrade: Tem. E os chineses, ou qualquer outro país que queira fornecer equipamentos para o pré-sal, deveriam vir para o Brasil, montar uma empresa aqui, trazer a tecnologia para cá, competir aqui, empregando a mão de obra local, operando com a nossa legislação ambiental, trabalhista, e recolhendo os impostos que temos aqui.

05/11/2010 - 09:35h Faturamento da indústria bate recorde


Segundo pesquisa da CNI, o aumento chega a 11% em relação a 2009, já descontada a inflação

Eduardo Rodrigues BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

O faturamento da indústria nunca esteve tão alto, de acordo com os Indicadores Industriais de setembro, divulgados ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O resultado do mês superou o pico anterior, obtido em março deste ano, e voltou a superar também o maior resultado obtido até então, que era o de julho de 2008, antes da crise financeira internacional.

Em setembro, o indicador chegou a 120,3 pontos, ante 119,6 pontos em março deste ano e 118,9 pontos em julho de 2008. O desempenho em março deste ano, porém, foi atípico porque resultou da corrida pelo consumo no mês em que acabaram os incentivos fiscais concedidos pelo governo na crise. A pesquisa da CNI utiliza como índice a base fixa de 100 pontos, que equivale à média obtida em 2006, data de início da publicação.

No acumulado do ano, até setembro, o faturamento real da indústria apresenta crescimento de 11,3% em relação ao mesmo período desde 2009, mostrando que, pelo menos quanto ao faturamento, a indústria já superou completamente a crise.

Apesar do faturamento recorde, a velocidade de crescimento ficou mais moderada nos últimos meses, na avaliação do gerente executivo de Política Econômica CNI, Flávio Castelo Branco. Após cair em agosto ante julho, o faturamento real da indústria voltou a crescer em setembro, com 1,9% em relação ao mês anterior. Na comparação com setembro de 2009, cresceu 10%. “Os dados de setembro mostram certo comportamento de moderação”, disse Castelo Branco.

Cautela. Para o economista, o recorde de faturamento no mês deve ser observado com cautela, pois parte do crescimento este ano decorre da recuperação em relação a uma queda forte em 2009. “Somente após dois anos ultrapassamos a crise. É claro que crescemos muito, mas o crescimento foi apenas para voltar ao ponto em que estávamos. É como um time de futebol que está perdendo de 4 a 0 no intervalo e consegue empatar no segundo tempo”, comparou.

Segundo Castelo Branco, a indústria deve continuar crescendo nos próximos meses, mas a uma velocidade menor, o que mesmo assim indica novos recordes para o indicador de faturamento. “A indústria agora busca encontrar seu patamar normal de crescimento, mas qual vai ser essa taxa a gente ainda não sabe”, completou.

Pelo segundo mês seguido, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) na indústria recuou e chegou a 81,9%, em setembro. Em agosto, estava em 82,2%. Para Castelo Branco, o movimento revela que a indústria tem capacidade de ampliar a oferta de produtos, caso a demanda continue em alta. “Provavelmente, está havendo ampliação da capacidade por meio de novos investimentos. E, quando você amplia o parque instalado, também aumenta o emprego.”

Acima da média

120,3 pontos
foi o quanto alcançou o indicador de faturamento da indústria em setembro, considerada a média de 100 pontos, obtida em 2006

119,6 pontos
foi o resultado de março

119,6 pontos
foi o resultado de julho de 2008

04/11/2010 - 08:36h Efeito Dilma anima a Wurth a investir no País

Clayton Netz – O Estado de S.Paulo

Nesta segunda-feira, o executivo César Alberto Ferreira, presidente da Wurth do Brasil, recebeu um e-mail de Reinhold Wurth, fundador e controlador do conglomerado alemão que fabrica produtos químicos, ferramentas manuais e peças de fixação, como parafusos, arruelas, entre outros, e faturou mundialmente 7,5 bilhões em 2009. Na mensagem, Wurth, considerado um dos maiores colecionadores particulares de arte do mundo, elogiou a eleição da candidata do PT, Dilma Rousseff, para a presidência da República, deu os parabéns a Ferreira e se disse confiante no momento econômico vivido pelo Brasil.

Depois da comemoração, no entanto, o empresário lançou um desafio: a operação brasileira deve mais do que dobrar seu faturamento, atingindo R$ 1 bilhão até 2013. “Temos todas as condições de atingir essa meta”, diz Ferreira. “E já estamos acostumados a metas desse tipo.” Prova disso, lembra ele, é que a subsidiária saiu de uma receita de R$ 40 milhões, há sete anos, para os R$ 450 milhões previstos para 2010.

Lançado o desafio, a matriz da Wurth também tratou de aplainar o caminho para superá-lo. Segundo Ferreira, já estão à sua disposição R$ 300 milhões, confirmados ontem, para bancar os investimentos necessários. Eles passam, em grande medida, pela aquisição de duas empresas, uma no setor químico e outra no de ferramentas ou peças. No primeiro caso, as negociações estão mais avançadas. “Até o final deste ano ou começo do outro, poderemos anunciar o fechamento do acordo”, diz.

Outro ponto do plano de expansão da Wurth é o aumento da capacidade de sua fábrica de componentes automotivos, como lubrificantes e aditivos, localizada em Ponta Grossa, no interior do Paraná, onde também são produzidos, por meio de contratos de terceirização, itens para marcas como a Bosch, 3M e Henkel. A esse investimento se somará a automação e duplicação da capacidade de seu centro de distribuição (CD), localizado em Cotia, na Grande São Paulo, totalizando recursos da ordem de R$ 25 milhões até 2011. “Nossa capacidade de armazenagem já se esgotou”, diz Ferreira. “Recentemente, tivemos de alugar tendas para suprir a falta de espaço construído.”

Quadro de pessoal. O aumento da capacidade instalada, complementado pela ampliação das importações da matriz e das subsidiárias do grupo, espalhadas por 84 países, será acompanhado pelo reforço do quadro de pessoal, atualmente em torno de 2500 funcionários. A área que mais deverá crescer é a de vendas, que representa 60% do total de empregados e deverá triplicar de tamanho.

Dos 1,5 mil vendedores atuais, sua equipe deverá passar a 4500 em três anos. “Como não lidamos diretamente com o consumidor final, precisamos aumentar o contato com nossos clientes, como a indústria moveleira e profissionais de marcenaria, entre outros”, diz Ferreira, que garante ter uma carteira de 300 mil clientes espalhados pelo País. “Pelo menos 120 mil apresentam potencial para aumentar suas compras conosco”, afirma.

25/10/2010 - 07:27h Melhora da economia inclui todos os setores

Pesquisa com 99 setores mostra que todos estão em situação melhor do que há um ano

Márcia De Chiara – O Estado de S.Paulo

Houve uma melhora generalizada no desempenho da economia no terceiro trimestre deste ano. Nenhum segmento da indústria, do comércio, dos serviços e do agronegócio, dos 99 avaliados pelo estudo da Serasa Experian, teve piora entre julho e agosto em relação ao mesmo período de 2009.

O resultado ganha relevância porque foi especialmente a partir de setembro do ano passado que o ritmo de atividade deslanchou, após o baque da crise.

O estudo, que reúne cerca de 700 indicadores de 99 segmentos e é uma espécie de radiografia do Produto Interno Bruto (PIB) do País, detectou que 76 segmentos melhoraram o seu desempenho no terceiro trimestre na comparação anual e 23 ficaram estáveis. No primeiro e no segundo trimestres deste ano, ainda havia segmentos piores na comparação anual, algo que não ocorreu no último trimestre.

“Esses resultados indicam que o PIB do terceiro trimestre será robusto na comparação anual, porque a maioria dos setores tem desempenho melhor em relação ao ano anterior”, afirma Marcos Abreu, gerente de Análise Setorial da Serasa Experian.

Impulso. Ganhos da massa de rendimentos, aumento real do salário mínimo, redução do desemprego e alongamento dos prazos de pagamento impulsionaram o consumo e explicam o excelente resultado do comércio, que foi a estrela da economia no período, diz Abreu.

Todos os seis segmentos analisados do varejo melhoraram entre julho e setembro na comparação com o terceiro trimestre de 2009, aponta o estudo.

De janeiro a agosto, as vendas dos supermercados, por exemplo, cresceram 4,7% em relação ao ano anterior, descontada a inflação do período, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Sussumu Honda, presidente da entidade, projeta que o ano encerre com um acréscimo nominal de 7,3% e o faturamento atinja R$ 190 bilhões.

Só o Pão de Açúcar, um dos gigantes do setor, ampliou em 12,5% as vendas brutas no terceiro trimestre ante o mesmo período de 2009, levando em conta as mesmas lojas. “O desempenho foi muito positivo”, diz o vice-presidente de Relações Corporativas do Grupo, Hugo Bethlem.

Outro destaque do varejo foi o desempenho das distribuidoras de combustíveis, que são um bom termômetro do ritmo de atividade. Dados do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom) mostram que o volume de vendas cresceu 10,5% no terceiro trimestre deste ano comparado com os mesmos meses de 2009. A venda do diesel, que responde por 45% dos combustíveis, aumentou 12,8% no período. No caso da gasolina, a alta foi de 16,4%.

“O diesel, responsável pelo transporte de carga, tem forte correlação com o PIB”, diz Alísio Vaz, vice-presidente do Sindicom. Ele lembra também que, com aumento do poder de compra, a população passou a adquirir carro e teve de abastecê-lo.

Carro-chefe. “O comércio é o carro-chefe da atividade” diz Abreu, da Serasa Experian. Isso significa que quando o varejo vai bem, ele puxa outros setores, como a indústria. Dos 55 segmentos da indústria avaliados pelo estudo da Serasa Experian, 45 tiveram desempenho melhor no terceiro trimestre na comparação anual e 10 ficaram estáveis.

Ao lado da indústria de alimentos e bebidas, das mineradoras, das cimenteiras e dos produtores de cosméticos, os fabricantes de caminhões e ônibus, por exemplo, fazem parte do grupo de segmentos que teve desempenho invejável.

“Não tem mais fila de espera para a compra de caminhões porque aumentamos um turno de produção na fábrica de Rezende (RJ)”, conta Roberto Cortes, presidente da MAN Latin America, que produz caminhões da marca Volkswagen. Segundo o executivo, cresceram as vendas de todos os tipos de caminhões.

No segmento de ônibus urbanos e intermunicipais, a procura também cresceu, diz Cortes. “A procura por ônibus está em outro patamar. Com aumento do poder aquisitivo, há mais pessoas usando o ônibus para visitar a mãe”, brinca o executivo.

Ele aponta um conjunto de fatores para o deslanche do setor: a isenção de Imposto sobre Produto Industrializado (IPI), os programas de Sustentação do Investimento (PSI) e de Mais Alimentos que têm juros reduzidos para compra de equipamentos, além do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Casa própria. No setor de serviços, 19 dos 25 segmentos registraram melhora no terceiro trimestre do ano e a construção civil é um dos destaques.

A construtora Trisul, por exemplo, voltada para moradias do segmento médio, aumentou em 8% as vendas e em 10% os lançamentos no terceiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado.

“A taxa de crescimento foi maior no primeiro semestre, porque a base de comparação era mais fraca e resolvemos antecipar os lançamentos. Mas certamente vamos ter um ótimo ano”, diz o diretor financeiro da construtora, Marco Mattar.


04/09/2010 - 10:45h Com otimismo em alta, indústrias retomam projetos

Expansão de investimentos atinge 26,5%, maior taxa em 14 anos. Empresas ampliam capacidade de produção

Aguinaldo Novo – O GLOBO

SÃO PAULO. Líder do mercado brasileiro de semicondutores de potência (usados na fabricação de equipamentos eletroeletrônicos), a Semikron vai reduzir o espaço ocupado hoje por sua área administrativa.

Crise, demissões em massa? Nada disso: para dar conta das encomendas, 40% acima do volume registrado em 2009, a empresa decidiu mudar o layout de sua fábrica para aumentar a área industrial. A solução encontrada foi cortar pela metade o espaço físico ocupado pelos funcionários de retaguarda.

— Vamos nos espremer um pouquinho, mas será por uma boa causa — afirmou o gerente financeiro da companhia, Paulo Lagazzi.

O desempenho da Semikron é uma amostra prática dos números divulgados ontem pelo IBGE, que mostram uma expansão de 26,5% nos investimentos (formação bruta de capital fixo) no segundo trimestre, frente aos três primeiros meses do ano, a maior taxa da atual série histórica, iniciada em 1996.

No segundo trimestre, o volume de investimentos no país somou 17,9% do PIB, taxa superior à registrada no mesmo período do ano passado (15,8%), porém ainda abaixo dos níveis recordes de 2008, antes da crise financeira internacional, quando a taxa ficou em 18,4% no segundo trimestre.

No caso da Semikron, o plano de investimentos, engavetado no ano passado por causa dos efeitos da crise financeira internacional, foi retomado.

Os desembolsos este ano chegarão a R$ 1,5 milhão, em linha com o registrado em 2008, antes da crise. A empresa, que já trabalha utilizando 90% de sua capacidade instalada, decidiu abrir um quarto turno de produção de diodos de baixa tensão.

Votorantim Cimentos vai abrir 8 fábricas e investir mais R$ 5 bi A Lupo, tradicional fabricante da área têxtil, é outro exemplo do novo ciclo de investimentos. Apostando na recuperação do mercado interno (que responde por 94% do sua receita), a empresa decidiu dobrar seus desembolsos — dos R$ 18 milhões em 2009, para R$ 37 milhões este ano. Desse total, 70% estão sendo usados para a compra de máquinas, principalmente para a produção de roupas esportivas.

O objetivo da Lupo, que tem fábrica em Araraquara, no interior paulista, é expandir em 15% sua capacidade de produção em relação a 2009, quando confeccionou 90 milhões de peças.

— Vamos faturar R$ 570 milhões neste ano. Queremos chegar a R$ 1 bilhão até 2013, o que significaria um aumento de 120% em relação a 2009 — disse o diretor comercial da Lupo, Valquírio Cabral Jr.

Beneficiada pelo crescimento do setor imobiliário e pela perspectiva de novos projetos de infraestrutura no país, a Votorantim Cimentos anunciou em abril a ampliação do seu projeto de investimentos de 2007 a 2013. Além das 14 fábricas já em operação ou em construção, a empresa definiu a abertura de mais oito unidades, elevando para R$ 5 bilhões o valor total de gastos no período. Quando todas entrarem em operação, a partir de 2013, a capacidade de produção pulará das atuais 27 milhões de toneladas para 42 milhões de toneladas ao ano.

Segundo o presidente da Votorantim Cimentos, Walter Schalka, a estratégia é operar com uma “ociosidade estratégica” e se “antecipar à crescente demanda por materiais básicos no país”. A companhia tem hoje uma fatia de 40% do mercado nacional.

04/09/2010 - 10:22h Economia com fôlego para crescer


PIB sobe 1,2%, acima das projeções. Investimento é recorde

Cássia Almeida, Fabiana Ribeiro e Clarice Spitz – O GLOBO

Os números da economia brasileira no segundo trimestre surpreenderam positivamente o mercado. Depois dos recordes registrados no início do ano, a desaceleração foi mais branda que o esperado. O Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país) cresceu 1,2%, frente ao primeiro trimestre, já descontados efeitos sazonais, embalado principalmente pela indústria e por um avanço dos investimentos, informou ontem o IBGE. Analistas projetavam uma alta entre 0,4% e 1% no PIB. Frente ao mesmo período de 2009, o crescimento foi de 8,8%, ligeiramente abaixo dos 9% do trimestre anterior.

No primeiro semestre, o PIB cresceu 8,9%, a maior alta dos últimos 14 anos, quando começou a série histórica do IBGE. Com o crescimento acima do previsto da economia brasileira, consultorias e bancos já começam a revisar suas contas e projetam um PIB de até 8% este ano. E, mesmo que a economia brasileira fique parada até o fim do ano, só o desempenho do primeiro semestre já garante uma expansão do PIB de 7% em 2010.

— O crescimento do PIB está ligado ao desempenho positivo da demanda interna. Essa pequena desaceleração veio por conta da base de comparação mais elevada. A indústria junto com a agropecuária explicam a expansão — afirmou Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais Trimestrais do IBGE.

A formação bruta de capital fixo, que indica o investimento dos diferentes setores da economia para ampliar sua capacidade de produção, avançou 26,5% na comparação com o segundo trimestre do ano passado, na maior alta em 14 anos. Com isso, os investimentos responderam por mais da metade da expansão do PIB nessa comparação, que foi de 8,8%. Todos os componentes do investimento — produção interna, importação de máquinas e equipamentos e construção civil — aumentaram.

Esse último setor também registrou taxas recordes de abril a junho.

A construção cresceu 16,4% frente ao segundo trimestre do ano passado, impulsionada pelo crédito e pelas contratações de trabalhadores.

— Apesar de ter mais que recuperado as perdas com a crise, é lógico que a expansão de 26,5% dos investimentos está inflada pela queda de 16% (recorde negativo) no segundo trimestre de 2009 — disse Rebeca.

Na avaliação de Ricardo Carneiro, professor do Instituto de Economia da Unicamp, os números de investimentos apontam para um crescimento sustentável por mais tempo, dando mais fôlego à economia brasileira.

mdash; E isso é uma consequência do próprio consumo dos brasileiros, que também induz ao investimento. O cenário sugere que o país entra num ciclo mais longo de crescimento. E nesse ano, com a economia avançando 7% ao menos, o país estará entre os cinco que mais crescerão no mundo, ao lado de China e Índia

Consumo doméstico cresce 12,4%

A demanda doméstica, responsável pelo período de expansão recente, continua crescendo. Subiu 12,4% (no trimestre anterior ficara em 11,9%). A demanda externa, por sua vez, foi negativa em 3,3%. Ou seja, o consumo do país foi maior que a produção e precisou ser suprido pelas importações, que avançaram 4,4% contra o início do ano e 38,8% na comparação com o segundo trimestre de 2009.

— Boa parte das importações foi de máquinas e equipamentos, que serviu para investimentos. Estamos com câmbio valorizado e é óbvio que isso aumenta as importações — afirmou Rebeca, do IBGE.

Para Alexandre Maia, economistabchefe da GAP Asset, os números recordes do primeiro semestre, o melhor em 14 anos, mostram um momento único no Brasil: — Nunca tivemos na história recente um crescimento tão forte com inflação perto de 5%, não muito distante do centro da meta.

Crescimento semelhante ao esperado para 2010 (acima de 7%) se iguala ao período do Plano Cruzado.

Mas em 1986, quando o PIB cresceu 7,5%, a inflação foi de 79,66%.

Na demanda interna, enquanto o consumo das famílias perdeu fôlego, as despesas do governo avançaram e ficaram acima das expectativas. Os gastos dos consumidores saíram de um avanço de 1,4% no primeiro trimestre para 0,8% no segundo trimestre (em relação aos três meses anteriores). Já as despesas do governo aceleraram de 0,8% para 2,1%.

— Com os incentivos tributários (no primeiro trimestre) veio alguma antecipação de consumo. Era lógico que o consumo das famílias iria desacelerar no segundo trimestre — disse Armando Castelar, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV).

No 3° trimestre, expansão mais lenta

Com o consumo em ritmo mais lento, aumentou a poupança na economia.

A taxa de poupança ficou em 18,1% do PIB, bem acima dos 16% do segundo trimestre do ano passado.

Castelar chama a atenção para a aceleração dos gastos do governo, mesmo em período pré-eleitoral. A alta foi de 5,1% contra o mesmo período do ano passado. Os impostos também cresceram fortemente nessa comparação. A alta de 12,6% veio com o bom desempenho da indústria e do imposto de importações.

A formação de estoques também contribuiu para o crescimento de 8,8% no PIB frente ao mesmo período do ano passado. Como em 2009 a economia estava queimando seus estoques acumulados antes da crise, esse indicador ainda continuará por todo o ano de 2010 contribuindo positivamente para o PIB, de acordo com economista-chefe da Convenção Corretora, Fernando Montero. A formação de estoques representou 3% do PIB.

Com o crescimento forte do PIB no segundo trimestre, analistas preveem uma desaceleração da economia entre julho e setembro. A expectativa é de que o PIB tenha alta próxima a 0,5%, frente ao segundo trimestre, já descontados efeitos sazonais.

03/09/2010 - 10:37h PIB cresce 8,9% no semestre, maior alta da série

Rafael Rosas | Valor

RIO – O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro aumentou 8,9% no primeiro semestre de 2010, na comparação com igual período do ano passado. Foi o melhor desempenho histórico para um semestre desde o início da série, em 1996, indicou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

A maior alta na ótica da oferta ficou com a Indústria, que avançou 14,2% em relação ao período janeiro-junho de 2009, quando a economia nacional ainda se ressentia dos efeitos da crise internacional. A seguir, vieram os avanço da Agropecuária, com 8,6%, e dos Serviços, com 5,7%.

Do lado da demanda, a principal alta foi da formação bruta de capital fixo (FBCF), com crescimento de 26,2%, recorde da série iniciada em 1996. Já o consumo das famílias avançou 8% e o consumo do governo cresceu 3,6%.

(Rafael Rosas e Juliana Ennes | Valor)