10/10/2008 - 07:44h Mundo está à beira da recessão, diz o FMI

Strauss-Kahn defende cooperação e coordenação mundial contra a crise

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Rolf Kuntz, O ESTADO SP - WASHINGTON

O mundo está à beira de uma recessão e não há solução nacional para uma crise como esta, disse ontem o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. “Cooperação e coordenação nas ações são o preço do êxito”, acrescentou.

A ação mais urgente, segundo ele, é restabelecer a confiança nos mercados financeiros e a medida mais importante para isso deve ser a recapitalização dos bancos. “Não sairemos desta situação sem recapitalizar suficientemente as instituições financeiras”, insistiu. (Ler abaixo artigo especial de Strauss-Khan.)

A cooperação, disse o diretor-gerente do FMI, tem de ir muito além do entendimento entre os membros do Grupo dos Sete (G-7), formado pelas maiores potências capitalistas (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá). É preciso, segundo ele, incluir no grupo mais quatro, cinco importantes atores da economia mundial. Mesmo assim, as soluções terão de valer para todos os países, “pois agora a crise envolve todo o mundo”.

A ampliação do G-7 (G-8, quando a Rússia participa) é uma reivindicação do Brasil e de outros grandes países emergentes, mas o Strauss-Kahn não entrou nesses detalhes.

Ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais das sete principais potências devem reunir-se hoje no Departamento do Tesouro americano. Essa reunião ocorre tradicionalmente como evento paralelo às assembléias do FMI. Os comunicados desses encontros são, em geral, previsíveis, mas, desta vez, o assunto é a maior crise desde os anos 30.

Já houve nesta semana uma grande ação coordenada, na quarta-feira, quando bancos centrais das economias mais desenvolvidas cortaram 0,5 ponto porcentual dos juros básicos. A iniciativa, embora considerada positiva, foi insuficiente para mudar o humor nos mercados. As bolsas continuaram a fechar em queda nos últimos dois dias. Ontem, o Índice Dow Jones da Bolsa de Nova York despencou 7,3%, levando o Ibovespa novamente para baixo.

A discussão no G-7 deverá envolver propostas de ações mais ambiciosas, como os amplos programas de auxílio a instituições financeiras já aprovados nos Estados Unidos e no Reino Unido. O diretor-gerente do FMI, normalmente convidado para esses encontros do G-7, deverá insistir nas idéias de recapitalização, recolhimento de ativos podres (já autorizado pelo Congresso americano) e garantias para os depositantes.

Haverá pressão, provavelmente, sobre a maioria dos membros da União Européia e sobre o Japão. Dentre os europeus, só o governo do Reino Unido tem acompanhado mais ou menos de perto a ação mais ampla desenvolvida pelas autoridades americanas.

Ontem, Strauss-Kahn cobrou cooperação principalmente dos governos da Europa, insistindo num ponto já tocado por outros dirigentes do FMI. Mas ele demonstra ambicionar um papel mais amplo para o FMI. Esta crise, insistiu, não será resolvida só com os instrumentos monetários e fiscais. Os governos terão de usar também instrumentos financeiros. O Fundo, segundo ele, é a única instituição internacional capaz de trabalhar com os vínculos entre os setores financeiro e real.

No sábado, o espetáculo será mais amplo, com a reunião extraordinária, marcada para as 18 horas, do Grupo dos 20 (G-20), formado por grandes economias desenvolvidas e emergentes. A convocação do encontro foi sugerida pelo secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, presidente do grupo neste ano.

Além dos membros do G-7, o G-20 inclui Brasil, África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, China, Índia, Indonésia, México, Rússia, Coréia do Sul e Turquia. A União Européia também é representada como bloco.

Os ministros do Brasil e de outros emergentes poderão reclamar da crise causada pelas instituições financeiras do mundo rico e cobrar ações corretivas, mas a turbulência internacional afeta seus países de forma diferenciada. Apresentam graus diferentes de vulnerabilidade nas contas externas e diferentes níveis de inflação e de solidez nas contas públicas.

Para o Brasil, comentou Strauss-Kahn, a crise terá como principal conseqüência a redução do crescimento, de 5,2% em 2008 para 3,5% em 2009, segundo a estimativa contida no Panorama Econômico Mundial divulgado no dia anterior.

Nenhum país está imune à crise, repetiu o diretor-gerente do FMI, “mas o Brasil tem fundamentos fortes, a política econômica foi administrada corretamente nos últimos anos, um monte de reservas foi acumulado e a economia do País está em boa forma”.

Bem mais complicada que a dos emergentes é a situação dos países pobres, em geral importadores de alimentos e, em muitos casos, também de petróleo. É a “outra crise”, segundo a expressão de Strauss-Kahn.

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, tratou principalmente da situação desses países, na entrevista concedida também ontem na sede do FMI. Em julho, numa reunião do G-8, lembrou Zoellick, ele mencionou o duplo impacto sofrido pelos países em desenvolvimento - a alta de preços do petróleo e da comida.

“Agora, o golpe é triplo - comida, combustível e finanças - ameaçam não só derrubar as pessoas pobres, mas mantê-las no chão”, disse Zoellick. Aos países mais pobres e sujeitos a dificuldades maiores, o Fundo já oferece ajuda financeira e assistência técnica, por meio de um programa especial, lembrou Strauss-Kahn, e continuará a oferecer enquanto se prolongarem os efeitos da crise.

Esses países foram atingidos principalmente pelo aumento dos preços de produtos básicos e sua situação ainda é grave, mesmo com o recuo das cotações dos produtos agrícolas e do petróleo. E os pobres, lembrou Strauss-Khan, são os primeiros a ser afetados pela inflação.

08/10/2008 - 11:54h É hora de um resgate abrangente no mercado

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MARTIN WOLF - “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

COMO JOHN Maynard Keynes teria supostamente dito, “quando os fatos mudam, eu mudo de idéia.

O que o senhor faz?”. Mudei de idéia, à medida que o pânico se espalha. Investidores e instituições de crédito deixaram de confiar em todo mundo e agora confiam em ninguém. O medo que propele o colapso atual nos mercados financeiro é tão exagerado quanto a cobiça que propelia o comportamento oposto não muito tempo atrás.

Mas pânico injustificado também causa devastação. Devemos detê-lo -não na semana que vem, mas agora mesmo.

O momento para abordagens improvisadas, de instituição a instituição e de país a país, já passou. Demorei algum tempo -talvez tempo demais- para perceber as dimensões do perigo. Talvez tenham sido erros do Tesouro dos Estados Unidos -em particular a decisão de permitir a quebra do Lehman Brothers- que tenham deflagrado o pânico atual. Assim, o que deveria ser feito? Em resumo, “tudo”. As economias afetadas respondem por mais de metade da produção mundial.

Isso torna a crise atual a mais significativa desde os anos 30.

Primeiro, é preciso enfrentar o pânico. Essa necessidade já convenceu alguns governos a oferecer garantias totais ou parciais a passivos. Essas garantias distorcem a competição. Mas, quando concedidas, não se pode retirá-las até que a crise tenha passado. Por isso, os países europeus deveriam oferecer agora uma garantia por prazo limitado (digamos, seis meses) para o grosso dos passivos de instituições com papel sistêmico importante. Nos Estados Unidos, porém, dado o imenso número de bancos, uma garantia como essa não é nem viável nem necessária.

Uma garantia por prazo limite encorajaria as instituições financeiras a concederem empréstimos umas às outras. Caso isso não aconteça, os bancos centrais precisarão emprestar sem limites, mesmo que não existam garantias, às instituições sistemicamente importantes a ponto de tornar impensável uma quebra.

Com medidas como essas, o fluxo de crédito deve ser reativado. Mas os governos não podem permitir que os bancos apostem livremente com recursos oriundos dos cofres públicos. No período de garantia, os governos precisam fiscalizar severamente as instituições que decidiram proteger.

A segunda prioridade é a recapitalização. A grande lição das crises da história recente -como demonstra um capítulo excelente na mais recente “Perspectiva Econômica Mundial” do FMI (Fundo Monetário Internacional)- é que “as autoridades econômicas devem forçar o reconhecimento de prejuízos o mais cedo possível e tomar medidas que garantam capitalização adequada às instituições financeiras”.

Recapitalização

Recapitalização é essencial para que as instituições tenham boa classificação de crédito quando as garantias expirarem. Os governos deveriam insistir em uma capitalização que permita que novos prejuízos venham a ser contabilizados. Deveriam em seguida ou subscrever uma emissão de direitos acionários ou adquirir ações preferenciais. Os governos têm de esperar lucros com esses investimentos quando as instituições se recuperarem.

Uma recapitalização como essa serve de alternativa à conversão forçada de títulos de dívida em ações. Considero que essa idéia tenha atrativos, mas hoje é seguro que ela geraria ainda mais histeria, a menos que fosse possível apresentá-la de maneira confiável como uma medida extraordinária que não seria repetida. Alguns de vocês podem ter percebido que minhas idéias têm por objetivo evitar que encolham os balanços de peças centrais do sistema financeiro. Mas é inevitável que o setor se encolha um pouco, especialmente no Reino Unido e nos Estados Unidos. Devemos permitir que isso aconteça no chamado “setor bancário paralelo”.

O que nos conduz a uma terceira questão: o que fazer quanto aos maus ativos? Ocasionalmente faz sentido tirar esses ativos das mãos dos bancos. É isso que o novo Tarp (Programa de Alívio a Ativos Problemáticos dos EUA) propõe fazer.

Porque maus ativos norte-americanos estão bem distribuídos pelo mundo, o programa do país envolve criar um mercado para esses ativos -e talvez elevar seus preços a um patamar de equilíbrio mais alto-, o que beneficiaria muitos outros sistemas bancários.

Outros mercados

No entanto, em outros mercados a quantidade de maus ativos gerados localmente parece pequena. Assim, esquemas semelhantes não seriam necessários. De modo semelhante, caso os bancos disponham de capitalização adequada, preocupações quanto a contabilizar ativos pelo valor de mercado importam menos, porque os balanços podem arcar com a contabilização de prejuízos necessários. Mas seria sensato declarar explicitamente que as autoridades regulatórias não se concentrarão apenas nas avaliações atuais para determinar os requisitos de capital.

A maior questão quanto a essas propostas é determinar se os governos têm condições de bancá-las. Alguns economistas argumentam que existem bancos que são não só grandes demais para falir como grandes demais para salvar. Eles defendem essa hipótese comparando os passivos bancários brutos ao PIB (Produto Interno Bruto) do país-sede da instituição.

Mas o que importa é a relação entre a pior hipótese possível de recapitalização e o PIB. E infelizmente ela pode ser elevada.

Considerem o Reino Unido, onde os ativos combinados dos cinco grandes bancos equivalem a quatro vezes o PIB. Uma recapitalização equivalente a 1% de seus ativos custaria ao governo uma elevação de dívidas equivalente a 4% do PIB; uma recapitalização de 5% envolveria dívidas equivalentes a 20% do PIB. Se o sistema bancário de qualquer país começar a sofrer perdas dessa escala, converter títulos de dívida em capital poderá se tornar uma solução inescapável. Essa talvez venha a ser a única saída para a Islândia, agora.

Desafio

Alguns argumentam que os países-membros da zona do euro têm um desafio especial: individualmente, afinal, eles não têm acesso a um banco central.

Os saltos recentes, e notáveis, nos “spreads” entre as taxas dos títulos alemães e italianos, para um pico de pouco menos de 90 pontos básicos, sugerem que os mercados podem concordar com essa avaliação. A inflação não deixa de ser também uma forma de inadimplência.

Mas, se a recapitalização de número substancial de bancos da zona do euro se tornar necessária, alguns países-membros podem se provar incapazes de injetar o dinheiro necessário. Haveria risco para os demais caso aquele governo optasse por não agir ou por forçar a conversão de títulos de dívida em capital. Ações como essa poderiam causar pânico em toda parte. A coordenação sobre como proceder é essencial, caso desejemos um sistema bancário saudável na zona do euro.

O pânico também terá grande impacto sobre as economias.

Os bancos centrais, mas não o Federal Reserve, deveriam cortar suas taxas de juros. Na semana passada, eu imaginava que um corte de 0,5 ponto percentual faria sentido no Reino Unido. Caso integrasse o comitê de política monetária hoje, defenderia corte de um ponto.

Os ministros das Finanças e os dirigentes de bancos centrais do G7 (Grupo dos 7) -principais países de alta renda- em breve se reunirão em Washington. Teremos as pessoas certas todas reunidas. É preciso que viajem com uma única tarefa em mente: restaurar a confiança. A história julgará seu sucesso. Eles podem vir a ser conhecidos como responsáveis por uma nova Grande Depressão. É um destino que precisam decidir como evitar, pelo bem de todos nós.
Tradução de PAULO MIGLIACCI

07/10/2008 - 09:12h Contágio pode quebrar a zona do euro

Angela Merkel, primeiro-ministro da Alemanha
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Larry Elliott * - O Estado de São Paulo

De certo modo, quando o ministro das Finanças da Alemanha, Peer Steinbrueck, disse no mês passado que o aperto do crédito era um problema americano, houve a sensação de que ele estava desafiando o destino. Quanto tempo levaria para que o contágio que limpou Wall Street e a City de Londres também fizesse uma ou duas vítimas no setor bancário da zona do euro? Bom, as palavras presunçosas de Steinbrueck mal saíram da sua boca, e recebemos a resposta. Belgas e holandeses tiveram de resgatar o banco Fortis; os irlandeses trataram de estender uma garantia geral para os seus depósitos, com medo de que pelo menos um, e provavelmente dois de seus grandes bancos estivessem perto de capotar.

A reflexão de Steinbrueck sobre a possibilidade de os Estados Unidos estarem perdendo seu status de potência hegemônica da economia mundial foi interrompida pela necessidade de buscar a aprovação de Bruxelas para a malfadada operação de resgate do grupo HRE alemão, de 35 bilhões de euros. E no final de semana os líderes dos quatro grandes países da Europa - Alemanha, França, Itália e Grã-Bretanha - convocaram uma reunião de cúpula global de emergência para o próximo mês. Uma lição para os ministros das Finanças: procurem não irritar os deuses.

O crescimento da França no terceiro trimestre baixou de 0,7%, no terceiro trimestre do ano passado, para 0,4% em cada um dos dois trimestres seguintes, depois tornou-se negativo em 0,3% no segundo trimestre deste ano. Christine Lagarde, a ministra das Finanças, prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) sofrerá nova contração no terceiro trimestre. O que equivale tecnicamente a uma recessão: dois trimestres consecutivos de resultados em queda.

A Itália teve um desempenho ainda pior. O PIB caiu tanto no quarto trimestre de 2007 quanto no segundo deste ano, empurrando a taxa de crescimento anual já anêmica para zero. Na França, é 1,1% e na Grã-Bretanha, 1,4%. A Alemanha obteve o melhor desempenho das quatro principais economias da Europa, mas também está reduzindo o crescimento, porque a demanda de suas exportações foi afetada pela crise global. A produção alemã caiu 0,5% no segundo trimestre, empurrando sua taxa anual de crescimento para 1,7%.

Em comparação, a expansão anual dos Estados Unidos é de 2,2%, embora seu forte desempenho no segundo trimestre se devesse a um corte único dos impostos de US$ 150 bilhões, e agora a economia pareça estar baixando seu ritmo ainda mais rapidamente. Há evidências de que em todo o mundo desenvolvido está havendo uma redução do ritmo, e isto ocorre nos países que seguem tanto o modelo da Europa continental quanto o anglo-saxônico: nos países em que surgiram bolhas no mercado da habitação, e nos que não houve bolha; nos países que adotaram o euro assim como nos que não o adotaram. A Espanha, por exemplo, está na união monetária, mas na sexta-feira anunciou uma ampla queda de 7% da produção industrial e apresenta um aumento acentuado do desemprego.

Três pesquisas realizadas na semana passada entre gerentes de compras na Grã-Bretanha - nos setores da manufatura, serviços e construção - advertiram que há uma recessão. A primeira reunião do gabinete da guerra econômica de Gordon Brown, realizada ontem, havia muito o que discutir.

O quadro é variado no que se refere a Islândia, Noruega e Suíça, que não fazem parte da União Européia. A Islândia está numa situação calamitosa, a confiança em seu sistema bancário em frangalhos e a economia já em marcha a ré acelerada. A Noruega, graças à alta do preço do petróleo, cresce a 3,3%, 1 ponto porcentual acima da Suíça.

Não é fácil enxergar através dessa névoa estatística, mas é possível tirar algumas conclusões. A primeira delas é que nenhum país do mundo desenvolvido ficará imune à crise. A segunda é que os seus efeitos para a “economia real” demoraram para se fazer sentir, mas agora estão se intensificando.

A este respeito, as medidas - ou a falta de medidas - do Banco Central Europeu são curiosas. Ao contrário do Federal Reserve (Fed, banco central americano) ou do Banco da Inglaterra, o BCE decidiu que o aumento da inflação, este ano, causado pelo aumento dos preços do petróleo e dos alimentos , merece a elevação das taxas de juros.

Agora, a inflação está caindo e, a julgar pelos comentários de Jean-Claude Trichet, seu presidente, o BCE pretende abrandar sua estratégia até o início de 2009, quando haverá abundantes evidências de que Europa, Japão e Estados Unidos estão em recessão, e isto terá um efeito enorme para a Grã-Bretanha, onde 50% das exportações vão para o restante da Europa. Entre os presidentes dos bancos centrais. talvez Mervyn King seja o que mais se aproxima dele.

Queimar lentamente Uma terceira conclusão é que o efeito do enfraquecimento lento do sistema bancário europeu provavelmente tem mais a ver com as diferenças nos sistemas contábeis do que com a maneira como é administrado. Como Steinbrueck sabe muito bem, os bancos alemães imitaram seus equivalentes britânicos e americanos no cassino subprime e fizeram as mesmas apostas questionáveis em derivativos arriscados. O que aconteceu foi que demorou mais tempo para os prejuízos aparecerem.

Uma quarta observação - novamente bastante óbvia - é que a zona do euro continua um híbrido. É uma união monetária, mas não uma união política, e portanto, países como a Irlanda tiveram de se arranjar sozinhos na operação de resgate dos bancos em dificuldades. Há uma nítida distinção entre os Estados Unidos, onde o governo tem peso financeiro em todos os 50 Estados, e a União Européia.

Convocar uma cúpula global não é a mesma coisa que fazer algo concreto, e Angela Merkel deixou claro que a Alemanha não ajudará bancos malandros de outros países da União Européia. O Banco Europeu de Investimentos decidiu liberar uma ajuda de emergência de 12 bilhões de libras esterlinas (US$ 2 bilhões) para as pequenas empresas, mas dada a dimensão e a escala da crise da União Européia, a quantia é insignificante.

No longo prazo, as uniões monetárias não sobrevivem sem uma união política, e portanto a quinta conclusão é que há pressões tanto para uma integração maior quanto para a desintegração. A crise poderá fortalecer os que argumentam que as medidas corretivas são intrinsecamente instáveis e continuarão assim até que haja uma união fiscal e monetária. Por outro lado, a crescente ameaça de recessão poderá levar alguns países a questionarem se valerá realmente a pena continuar numa união monetária.

Charles Goodheart, da School of Economics de Londres, observou na semana passada que nos últimos anos houve variações extremas na competitividade, nos custos da mão-de-obra e nas balanças comerciais em toda a zona do euro. As preocupações do BCE com a inflação só poderão ser corrigidas pelos países que registram grandes déficits da conta corrente, como a Espanha, ou que sofrem de uma profunda falta de competitividade, como a Itália, crescendo mais lentamente e reduzindo o padrão de vida. Evidentemente, estas não serão medidas populares.

Goodheart conclui que, se tivessem de decidir agora, alguns membros da união monetária votariam contra seu ingresso.

Optar não aderir é muito diferente de decidir sair, e haveria consideráveis conseqüências para um país que voltasse a adotar sua moeda nacional em lugar do euro. Goodheart aponta para o risco de que a união monetária possa quebrar-se em 10% a 20%, o que é pouco, mas certamente não deixa de ser significativo.

*Larry Elliott é editor de Economia do jornal britânico ‘The Guardian’

03/10/2008 - 11:33h Adeus à revolução neoclássica

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O termo liberal, no mundo anglo-saxão é usado como sinônimo de centro-esquerda ou favorável ao Estado e não como no Brasil como expressão do liberalismo LF

Robert Skidelsky* - VALOR

A ameaçadora quebra do Lehman Brothers e a venda forçada do Merrill Lynch, dois dos maiores nomes das finanças, marcam o fim de uma era. Mas, então, o que virá a seguir?

Os ciclos de modas econômicas são tão antigos como os ciclos econômicos e normalmente são causados por profundos distúrbios na atividade empresarial. Os ciclos “liberais” são seguidos por ciclos “conservadores”, que dão lugar a ciclos “liberais” e assim por diante.

Nos Estados Unidos, ciclos liberais são caracterizados por intervenções do governo e ciclos conservadores, pelo recuo do governo. Um longo ciclo liberal estendeu-se dos anos 30 aos 70, seguido por um conservador, de desregulamentação econômica, que agora parece ter chegado ao fim. Com a estatização de dois gigantescos bancos hipotecários dos Estados Unidos, Fannie Mae e Freddie Mac, na seqüência de outra nacionalização também promovida neste ano, a do britânico Northern Rock, os governos começaram a intervir de novo, para evitar a dissolução do mercado. Os dias entorpecentes da economia conservadora acabaram - por ora.

Cada ciclo de regulamentação e desregulamentação é desencadeado por crises econômicas. O ciclo liberal passado, associado à política do “New Deal” do presidente Franklin Roosevelt e do economista John Maynard Keynes, foi acionado pela Grande Depressão, embora ainda fossem necessários os volumosos gastos governamentais da Segunda Guerra Mundial para que entrasse na marcha apropriada. Durante os 30 anos de era keynesiana, os governos no mundo capitalista geriram e regularam suas economias para manter o pleno emprego e moderar as flutuações econômicas.

O ciclo conservador seguinte foi despertado pela inflação da década de 70, que pareceu ser produto das políticas keynesianas. O guru econômico dessa era, Milton Friedman, sustentava que a busca deliberada pelo pleno emprego estava fadada a alimentar a inflação. Os governos deveriam concentrar-se em manter o dinheiro “sadio” e deixar a economia tomar conta de si mesma. A “nova economia clássica”, como ficou conhecida, ensinava que, na ausência das rudes interferências do governo, as economias gravitariam naturalmente para o pleno emprego, maior inovação e melhores índices de crescimento.

A crise atual do ciclo conservador reflete a acumulação maciça de dívidas de difícil recuperação, tornada visível após o debacle das hipotecas de má qualidade, que se iniciou em junho de 2007 e agora se disseminou para todo o mercado de crédito e afundou o Lehman Brothers. “Pense um uma pirâmide invertida”, escreve o executivo de banco de investimento Charles Morris. “Quando mais se reivindica sobre a produção real, mais cambaleante fica a pirâmide”.

Quando a pirâmide começa a tombar, o governo - isto é, os contribuintes - precisam intervir para refinanciar o sistema bancário, reanimar os mercados hipotecários e evitar o colapso econômico. No entanto, quando o governo intervém nessa escala, costuma ficar por um longo tempo.

O que está em questão aqui é o dilema sem solução mais antigo da economia: as economias de mercado são “naturalmente” estáveis ou precisam ser estabilizadas pela política? Keynes enfatizava a fragilidade das expectativas sobre as quais se baseia a atividade econômica em mercados descentralizados. O futuro é intrinsecamente incerto e, portanto, a psicologia do investidor é volúvel.

“A prática da calma, da imobilidade, da certeza e segurança, de repente se rompe”, escreveu Keynes. “Novos medos e esperanças assumirão, sem aviso prévio, o controle da conduta humana”. Este é uma descrição clássica do “comportamento de manada” que George Soros identificou como característica predominante dos mercados financeiros. É tarefa do governo estabilizar as expectativas.

A revolução neoclássica sustentava que os mercados eram muito mais estáveis ciclicamente do que Keynes imaginava, que se pode saber de antemão os riscos em todas as transações de mercado e que os preços sempre refletirão probabilidades objetivas.

Tal otimismo em relação ao mercado levou a uma desregulamentação dos mercados financeiros nos anos 80 e 90 e à subseqüente explosão de inovações financeiras, que tornaram mais “seguro” captar empréstimos de somas cada vez maiores respaldadas em ativos com altas previsíveis. A bolha de crédito, recém-estourada, alimentada pelos chamados “veículos de investimento estruturado” (SIVs, na sigla em inglês), derivativos, “obrigações garantidas por outros títulos” (CDOs) e classificações de risco de crédito “AAA” ilegítimas, foi construída a partir das ilusões de modelos matemáticos.

Ciclos liberais, dizia o historiador Arthur Schlesinger, sucumbem à corrupção do poder; ciclos conservadores, à corrupção do dinheiro. Ambos têm seus custos e benefícios característicos.

Contudo, se olharmos para os antecedentes históricos, o regime liberal dos anos 50 e 60 foi mais bem-sucedido do que o regime conservador que o sucedeu. Com exceção da China e Índia, cujo potencial econômico foi desatado pela economia de mercado, o crescimento econômico foi maior e muito mais estável na era dourada keynesiana do que na era de Friedman; seus frutos foram distribuídos de forma mais eqüitativa; conservou-se melhor a coesão social e hábitos morais. São vantagens importantes para levar-se em conta diante certa lentidão econômica.

A história, é claro, nunca se repete exatamente. Hoje há sistemas de interrupção da negociação em bolsas para evitar um desabamento no estilo de 1929. Mas quando o sistema financeiro, deixado à própria sorte, fica congelado, como ficou agora, somos claramente encaminhados a uma nova rodada de regulamentação. A indústria ficará livre, mas as finanças serão mantidas sob controle.

Os ciclos das modas econômicas mostram como a economia está longe de ser uma ciência. Não se pode pensar em nenhuma ciência natural na qual a ortodoxia oscile entre dois pólos. O que dá à economia a aparência de uma ciência é que suas proposições podem ser expressas matematicamente, abstraindo-se de muitas características decisivas do mundo real.

A economia clássica da década de 20 abstraiu o problema do desemprego, supondo que não existia. A economia keynesiana, por sua vez, abstraiu o problema da incompetência e corrupção das autoridades, supondo que os governos eram administrados por especialistas benevolentes e oniscientes. A “nova economia clássica” de hoje abstraiu o problema da incerteza, supondo que poderia ser reduzida a riscos mensuráveis (ou contra os quais se podia proteger).

Afora um ou outro gênio, os economistas moldam suas suposições para que se adaptem ao estado das coisas atual, e então as cercam de uma aura de verdade permanente. São mordomos intelectuais servindo aos interesses dos que estão no poder, e não observadores vigilantes da realidade em mutação. Seus sistemas os prendem na ortodoxia. Quando os eventos, por algum motivo, coincidem com seus teoremas, a ortodoxia que adotaram goza seu momento de glória. Quando os fatos mudam, torna-se obsoleta. Como escreveu Charles Morris, “intelectuais são indicadores confiáveis com atraso, guias quase infalíveis do que costumava ser verdade”.

* Robert Skidelsky é membro da Casa dos Lordes do Reino Unido, professor emérito de economia política da Universidade de Warwick, autor da premiada biografia do economista John Maynard Keynes, e membro do conselho da Escola de Estudos Políticos de Moscou.

03/10/2008 - 10:57h FMI prevê recessão nos EUA

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Características da atual crise elevam risco, diz estudo

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON - O Estado de São Paulo

O Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou ontem que os Estados Unidos “provavelmente” vão passar por uma retração econômica mais severa ou uma recessão. O Fundo baseou sua previsão no estudo de 113 crises financeiras ao redor do mundo nos últimos 30 anos. “Baseando-se na comparação do atual episódio de stress financeiro com outras crises, vemos uma grande probabilidade de uma desaceleração econômica severa nos EUA”, diz o Fundo em um dos capítulos do relatório Perspectivas Econômicas Mundiais, divulgado ontem.

O risco de recessão é maior quando a crise envolve o setor bancário, tem queda acentuada de preços imobiliários, excesso de endividamento dos consumidores e empresas e longo período de turbulência financeira - todas características da atual crise. “Agora ficou claro que nós estamos diante do maior choque em mercados financeiros maduros desde 1930, o que representa uma grande ameaça ao crescimento mundial”, disse Charles Collyns, vice-diretor de pesquisa do Fundo.

Até agora os EUA desaceleraram mas não entraram em recessão - pelo menos até o segundo trimestre. “Mas nós vemos enormes riscos; um período prolongado de turbulência financeira tende a ser seguido por desaceleração significativa”, disse Collyns. “Não consigo pensar em um país que tenha sofrido grande perturbação no setor bancário que não tenho sido seguida por grande desaceleração econômica.” O Fundo destaca, no entanto, medidas que podem amenizar os efeitos da crise nos EUA: a rápida reação da política monetária e as taxas de juros relativamente baixas.

O FMI acredita que a União Européia será menos afetada, porque os consumidores estão menos endividados, o que oferece proteção maior, apesar da rápida valorização dos imóveis. Além disso, o setor financeiro europeu ser mais “informal”, com bancos menores também atuando em crédito e menor participação de securitização de hipotecas.

De acordo com o estudo, as crises que envolvem apenas o mercado financeiro - como a quebra do fundo hedge Long Term Capital Management ou a crise na bolsa em 1987 - normalmente não são seguidas de recessão. Das 113 crises estudadas pelo Fundo, 29 foram seguidas de desaceleração, 29 de uma recessão e as restantes 55 não foram seguidas por retração econômica. O Fundo indicou que recapitalizar os bancos é essencial para reduzir o impacto econômico da crise.

O relatório do Fundo alerta para o perigo da inflação, principalmente em perigos emergentes. Apesar de o preço das commodities ter recuado, principalmente o do petróleo, as cotações ainda estão muito acima das médias históricas.

02/10/2008 - 09:09h Como recapitalizar o sistema bancário

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GEORGE SOROS ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

A LEGISLAÇÃO de emergência em estudo pelo Congresso dos EUA foi mal calculada ou, para ser mais preciso, não foi calculada. E quando o Congresso tentou aperfeiçoar o que o Tesouro havia solicitado originalmente, emergiu um plano combinado que consiste do Programa de Alívio a Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês) que o Tesouro solicitou e de um programa bastante diferente de infusão de capital sob o qual o governo investiria em e estabilizaria bancos enfraquecidos, e sairia lucrando quando a economia vier a melhorar. A abordagem de infusão de capital custará menos aos contribuintes nos anos futuros e poderá até dar lucro a eles.

Duas semanas atrás, o Tesouro não tinha um plano preparado -é por isso que teve de solicitar total liberdade quanto ao desembolso dos recursos.

Mas a idéia geral era a de propiciar alívio ao sistema bancário ao assumir os títulos tóxicos dos bancos e estacioná-los em um fundo controlado pelo governo, de modo a que não fossem despejados no mercado a preços cada vez menores.

Com o valor de seus investimentos estabilizado, os bancos poderiam, então, levantar capital acionário.

A idéia estava repleta de dificuldades. Os títulos tóxicos não são homogêneos, e, em qualquer processo de leilão, os vendedores certamente transferirão ao governo os piores deles.

Além disso, o esquema trata só de metade do problema subjacente à indisponibilidade de crédito. Pouco faz para permitir que os proprietários de casas cumpram suas obrigações hipotecárias e pouco faz para resolver o problema da execução de hipotecas. Com os preços das casas ainda em queda, caso o governo estabeleça preços elevados aos títulos lastreados por hipotecas, os contribuintes poderiam sair perdendo; mas, se o governo não pagar mais do que os papéis valem, o sistema bancário não teria sua situação muito aliviada e não conseguiria atrair capital privado.

Um esquema que beneficie o mundo financeiro tão pesadamente, em detrimento da economia mais ampla, seria inaceitável politicamente. Os democratas, que detêm a maioria no Legislativo, alteraram os termos, de modo a punir as instituições financeiras que se beneficiem do plano. Os republicanos decidiram que não poderiam ficar para trás e impuseram o requisito de que os títulos oferecidos em leilão deveriam ser cobertos por seguros cujos prêmios seriam pagos pela empresa oferecedora. O pacote de resgate, em sua forma atual, constitui um amálgama de múltiplas abordagens. E existe risco real de que o programa de aquisição de ativos não venha a ser empregado plenamente devido às condições onerosas que foram impostas.

Mesmo assim, um pacote de resgate era desesperadamente necessário e, a despeito de suas deficiências, poderia alterar o curso dos acontecimentos. Ainda em 22 de setembro, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, expressava a esperança de evitar o uso de dinheiro dos contribuintes; por isso permitiu a quebra do Lehman Brothers. O Tarp estabelece o princípio de que fundos públicos são necessários e, se o programa atual não funcionar, outros programas serão instituídos.

Já que o Tarp foi mal calculado, seria previsível que causasse resposta negativa da parte dos credores dos EUA. Eles o veriam como tentativa de liquidar a dívida por inflação. O dólar deve sofrer pressão renovada, e o governo terá de pagar mais para colocar seus títulos de dívida, especialmente os de longo prazo. Essas conseqüências adversas poderiam ser mitigadas por um uso mais efetivo do dinheiro dos contribuintes.

Em lugar de apenas adquirir ativos problemáticos, o grosso do dinheiro deveria ser usado para recapitalizar o sistema bancário. Fundos injetados em nível de capital têm mais efeito do que fundos usados para equilibrar balanços por um fator mínimo de 12 -o que equivaleria, em termos práticos, a fornecer ao governo US$ 8,4 trilhões para reativar o fluxo de crédito. Na verdade, o efeito seria ainda maior porque a injeção de fundos do governo também atrairia capital privado. O resultado seria maior recuperação econômica e chance de lucro aos contribuintes.

Eis como o sistema poderia funcionar. O secretário do Tesouro dependeria de auditores bancários em lugar de delegar a implementação do Tarp às empresas de Wall Street. Os auditores bancários estabeleceriam as necessidades de capital acionário adicional para cada banco, a fim de que atingissem capitalização adequada nos termos das atuais normas de capitalização. Caso os administradores dos bancos não sejam capazes de levantar o dinheiro requerido junto ao setor privado, poderiam recorrer ao Tarp.

O Tarp investiria em ações preferenciais com prioridade de remuneração. As ações preferenciais ofereceriam juros baixos (digamos, 5%), para que os bancos mantivessem o interesse em continuar emprestando. Os acionistas anteriores, no entanto, pagariam um preço pesado, porque suas posições seriam diluídas pelas novas ações preferenciais prioritárias. Mas eles teriam o direito de subscrever novas ações emitidas nos termos do Tarp. Esses direitos seriam negociáveis, e o secretário do Tesouro seria instruído a estabelecer termos de modo a que os direitos possam ter valor positivo.

Investidores privados como eu provavelmente correriam para aproveitar a oportunidade. Os bancos recapitalizados teriam autorização para elevar seu endividamento e por isso retomariam os empréstimos.

Limites ao endividamento bancário seriam impostos posteriormente, depois que a economia se tiver recuperado. Caso o dinheiro fosse usado dessa maneira, a recapitalização do sistema bancário poderia ser conduzida com menos de US$ 500 bilhões em verbas públicas.

Uma legislação de emergência revisada também deveria oferecer mais ajuda aos proprietários de casas. O projeto requereria que o Tesouro desse financiamento barato a títulos hipotecários cujos termos tenham sido renegociados, com base no custo de captação do Tesouro. As companhias de serviços hipotecários poderiam ser proibidas de cobrar honorários pela execução de hipotecas, mas seria de esperar que os detentores de títulos oferecessem incentivos à renegociação, como a Freddie Mac e a Fannie Mae já vêm fazendo.

Os bancos considerados insolventes não seriam elegíveis para recapitalização. A FDIC (agência federal que oferece seguro aos depósitos bancários) tomaria o controle dessas empresas e seria recapitalizada com US$ 200 bilhões, como medida de emergência, e removeria o limite de US$ 100 mil aos depósitos que garante. Essa revisão na lei seria mais equânime, teria mais chance de sucesso e custaria menos aos acionistas no longo prazo.

GEORGE SOROS é presidente do conselho da Soros Fund Management

Tradução de PAULO MIGLIACCI

29/09/2008 - 15:42h Maior alta na aprovação a Lula é no combate ao desemprego

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O combate ao desemprego pelo governo Lula foi o setor que registrou maior alta, subindo da aprovação de 52% dos entrevistados em junho para 60% em setembro.

No combate à fome e à pobreza, 67% dos entrevistados aprovam a gestão do governo.

52% dos entrevistados também aprovam a condução do governo no combate à inflação.

 

Pesquisa indica que economia, redução da inflação e pré-sal colaboraram para aprovação do governo

GABRIELA GUERREIRO da Folha Online, em Brasília

O desempenho recorde atingido pelo governo federal e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em setembro deste ano, segundo mostra pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta segunda-feira, se justifica pelo resultado da economia brasileira associado à redução da inflação e à descoberta da camada de petróleo pré-sal.

O diretor de Relações Institucionais da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Marco Antonio Guarita, disse que os três fatores unidos fizeram com que o governo federal e o presidente alcançassem recordes de popularidade e avaliação positiva este mês.

“Temos um desempenho do presidente e do governo que alcançam pontos máximos em relação ao seu mandato. São patamares expressivos desde o início da pesquisa”, afirmou.

Segundo a pesquisa, a avaliação positiva do governo Lula chegou a 69% em setembro. Já a aprovação pessoal ao presidente atingiu o índice positivo entre 72% dos entrevistados.

A pesquisa mostra que a descoberta da camada pré-sal de petróleo foi a notícia mais lembrada pelos entrevistados no mês de setembro –o que reforça a tese da CNI/Ibope de que o tema ajudou na popularidade de Lula.

“Há um otimismo associado à exploração do pré-sal. Ainda é um evento futuro, mas quando olhamos as notícias podemos ver que a população é capaz de apostar na exploração do pré-sal”, afirmou Guarita.

Depois do pré-sal, a notícia mais lembrada pelos entrevistados foi a descoberta de uma nova bacia de petróleo em Santos, seguida pelas viagens do presidente Lula.

As notícias sobre o aumento no valor do Bolsa Família e a redução da inflação aparecem em quarto e quinto lugar entre as mais lembradas pelos entrevistados.

Áreas de atuação

A pesquisa mostra que, por áreas de atuação, o governo federal obteve aprovação pela maioria dos entrevistados em vários setores. No combate à fome e à pobreza, 67% dos entrevistados aprovam a gestão do governo, enquanto 30% desaprovam. Outros 4% não quiseram responder ou não opinaram. A avaliação do setor já era positiva em junho, aprovada por 59% dos entrevistados, mas subiu oito pontos percentuais em setembro.

O combate ao desemprego pelo governo Lula foi o setor que registrou maior alta, subindo da aprovação de 52% dos entrevistados em junho para 60% em setembro. Somente 35% dos entrevistados este mês disseram desaprovar a gestão Lula ano que diz respeito ao desemprego.

No total, 52% dos entrevistados também aprovam a condução do governo no combate à inflação, enquanto 41% desaprovam. A aprovação às políticas inflacionárias subiu 11 pontos percentuais em relação a junho, quando o índice positivo era de 41%.

O governo Lula registrou maioria de desaprovação na ares de segurança pública, com 50% dos entrevistados que se mostraram pessimistas nesse setor. Outros 46% disseram aprovar a gestão petista na área de segurança pública.

Outro setor com maior índice negativo foi a taxa básica de juros da economia (Selic), desaprovada por 55% dos entrevistados, contra outros 36% que aprovam as recentes altas na taxa de juros.

A maioria dos brasileiros também desaprovou os impostos cobrados pelo governo (56%) contra 38% que aprovam a atuação do governo no que diz respeito aos impostos cobrados no país.

As áreas de saúde e educação foram aprovadas, respectivamente, por 54% e 63% dos entrevistados. Outros 44% desaprovam as políticas da área de saúde, enquanto 35% desaprovam as da área de educação.

A pesquisa foi realizada entre os dias 19 e 22 de setembro e ouviu 2.002 pessoas em 141 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

28/09/2008 - 12:59h Desvantagem do Brasil pode virar vantagem na crise


Por ter crescido menos que outros Brics e ser mais fechado, país deve ganhar com agravamento da situação externa

Sistema financeiro do país é mais sólido que o de China, Rússia e Índia; perigo maior está numa queda brusca no preço das commodities

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ÉRICA FRAGA ESPECIAL PARA A FOLHA

O agravamento da crise financeira global nas últimas semanas enterrou de vez a tese de que as chamadas economias emergentes, como a brasileira, poderiam ter se descolado (”decoupled”, em inglês) daquelas dos países desenvolvidos e, com isso, estariam quase imunes ao furacão que se aproximava. Mas é fato que a maioria dos emergentes está menos vulnerável hoje do que há uma década. E o Brasil, que nos últimos anos de bonança sempre foi considerado o patinho feio dos Brics (expressão cunhada pelo Goldman Sachs em 2003 em referência às grandes economias “do futuro”: Brasil, Rússia, Índia e China), pode ter uma história melhor para contar nestes tempos difíceis.

O fato de que a economia brasileira ainda é bastante fechada contribuiu para que o país crescesse de forma bem menos exuberante do que Rússia, Índia e China em anos recentes.

Mas agora o que era desvantagem virou seguro: o país pode acabar suportando melhor os efeitos negativos da crise do que os “Rics”, desde que não haja um colapso nos preços das commodities.

Embora os problemas que levaram à crise atual tenham sido gerados no mundo desenvolvido, vão continuar afetando os emergentes por dois canais: o da economia real e o dos mercados financeiros. O principal dado que já depunha contra a tese do descolamento se refere ao peso que os países desenvolvidos ainda têm na demanda global. Juntos, Estados Unidos e Europa Ocidental representam mais da metade (52%) do consumo privado mundial.

É verdade que as fatias representadas por China, Brasil, Índia, Rússia e outros vêm aumentando. Mas não o suficiente para evitar que uma brutal desaceleração da demanda por bens e serviços por parte dos países desenvolvidos fosse pouco sentida no mundo emergente. E esse impacto negativo tende a ser ainda maior porque o peso das exportações no PIB dos países emergentes aumentou sem parar nas últimas décadas: passando de 26% em 1990 para quase 44% em 2007.

Ou seja, o crescimento nos países emergentes se tornou muito dependente da performance de suas exportações. E, agora, os mercados que costumavam absorver boa parte dessas exportações caminham para a recessão: vão consumir menos, importar menos, quem vendia para eles vai crescer menos.

O Brasil obviamente não está imune, descolado, dessa tendência, mas é menos vulnerável que a maioria dos seus pares à forte desaceleração da demanda privada dos países ricos. Isso porque enquanto as exportações têm um peso de mais de 40% no PIB da média dos emergentes (41% na China, 31% na Rússia, 21% na Índia), no Brasil representam apenas 14%. Embora esse percentual seja bem maior que os cerca de 7% registrados em 1995-98, ainda caracteriza uma economia bastante fechada, menos vulnerável a choques como o que vem pela frente, principalmente se a desaceleração econômica no mundo desenvolvido for ainda pior do que se espera hoje. Um risco que, dada a forte turbulência nos mercados globais nas últimas semanas, não é nada desprezível.

Isso não quer dizer que o Brasil deva se orgulhar de ter uma economia ainda bastante fechada (na qual o peso de exportações e importações no PIB é relativamente baixo).

Graus maiores de abertura tendem a vir acompanhados de maior concorrência e ganhos de produtividade que beneficiam os consumidores e tornam a economia mais eficiente.

O fato de que o Brasil parece seguir rumo a uma maior abertura da economia é positivo, ainda que, neste momento, a menor importância relativa das exportações para o crescimento econômico ajude a amortecer os efeitos negativos da crise externa.

Mas há outros indicadores que podem fazer o Brasil menos vulnerável aos desdobramentos da crise atual, esses, sim, positivos “per se”. De forma geral, os indicadores que medem a solidez do sistema financeiro brasileiro-o outro canal pelo qual a turbulência externa continuará se propagando- são melhores que os dos outros três Brics. Os bancos brasileiros possuem altos níveis de solvência e liquidez e o regime de supervisão do setor é eficiente.

Diferentemente da China, o risco de grandes colapsos no sistema financeiro brasileiro é relativamente pequeno. Ao contrário do que ocorre em China e Índia, não existem bolhas significativas nos preços de ativos (como casas) no Brasil. O nível de inadimplência em empréstimos bancários na China (próximo de 6%) é pouco menos do que o dobro da média registrada no Brasil e quase certamente é subestimado.

Além disso, inflação no Brasil preocupa, mas bem menos que na Rússia e na Índia. Na verdade, talvez o risco maior para o Brasil nessa área seja que um excesso de cautela por parte do Banco Central leve a uma desaceleração excessiva da demanda doméstica. O perigo de desvalorização muito forte do real é bem menor que o da moeda russa (o rublo), que está bastante sobrevalorizada. As empresas russas contraíram crédito em moeda estrangeira de forma excessiva nos últimos anos. O estoque de dívida privada externa na Rússia pulou de US$ 64 bilhões em 2004 para quase US$ 300 bilhões neste ano, o que representa um risco grande de possível dificuldade de rolagem neste momento de forte retração do crédito.

Risco

Tudo isso quer dizer que o Brasil está blindado contra a crise? Certamente, não. Se os preços de commodities, por exemplo, desabarem, o país será um dos mais negativamente afetados, dado o alto peso das mesmas (por volta de 50%) na pauta de exportação brasileira.

Mas esse risco ainda parece ser relativamente pequeno. Fatores estruturais que sustentam os preços nos altos níveis atuais (como muito mais gente consumindo mais comida na Ásia) dificilmente desaparecerão.

Tampouco os dados que fazem com que o Brasil esteja menos sensível que outros emergentes a riscos associados à crise atual querem dizer que o potencial de crescimento de longo prazo do país seja melhor que os dos demais. Isso vai depender de muitos outros fatores, como progresso na área de educação e reformas estruturais. Mas os dados, sim, chamam atenção para o fato de que o Brasil não é mais (talvez nunca tenha sido) o pior dos Brics.

ÉRICA FRAGA é editora de América Latina da consultoria britânica Economist Intelligence Unit (ericafraga@economist.com)

25/09/2008 - 08:29h Brics podem indicar saída para atoleiro

JIM O’NEILL ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

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A DESPEITO da magnitude dos desafios atuais, se já houve um bom momento para que os Estados Unidos e o mundo enfrentassem as notáveis dificuldades que vivemos, é este. E isso porque o consumo dos principais países de mercado emergente Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) parece capaz de compensar a desaceleração nos Estados Unidos. Um grande volume de demanda mundial continua a ser criado pelos Brics. Isso é especialmente válido no que tange à China, que em agosto viu uma aceleração de 15,9% nas vendas do varejo, já considerada a inflação. Os consumidores chineses estão contribuindo mais para o PIB (Produto Interno Bruto) mundial do que os infames consumidores dos Estados Unidos. Enquanto isso, o Brasil registrou crescimento muito mais forte que o esperado em seu PIB, no trimestre passado, com 6,1%.

Demanda

De acordo com as nossas mais recentes estimativas, até agora nesta década os países Brics apresentaram quase tanta demanda quanto os Estados Unidos. No futuro, a porção deles na demanda mundial começará a se encaminhar ao mesmo patamar ocupado pelas economias agregadas do G7 (grupo dos 7 países mais industrializados). Os Estados Unidos estão empreendendo uma dramática mudança de equilíbrio. Era óbvio há algum tempo que os consumidores norte-americanos estavam distendidos e que uma razão de consumo superior a 70% do PIB é insustentável. A tendência começou a se reverter no último ano. É bastante concebível que, ao longo dos próximos dez anos, o consumo caia para perto dos 60% do PIB, nos Estados Unidos. Para que o PIB mundial seja capaz de enfrentar a queda no consumo norte-americano, o consumo precisa subir em outros lugares. O consumo norte-americano, em 70% do PIB do país, equivale a 21% do PIB mundial. Caso caia a 60% do PIB dos Estados Unidos, equivalerá a apenas 18% do PIB mundial. O consumidor dos Brics pode ajudar a compensar esse fator e pode também receber alguma ajuda dos consumidores alemães e japoneses, ainda que de forma mais limitada. Isso significa que, no início desse período de ajuste, um crescimento mundial da ordem de 3,5% é perfeitamente viável, mesmo que não sejamos capazes de sustentar os 5%. Embora muita gente no setor de serviços financeiros, que compreensivelmente vem concentrando suas preocupações nos próprios problemas, acredite agora que existe uma compressão de crédito em toda parte, é improvável que todos os demais países enfrentem a mesma situação que os Estados Unidos. De fato, o que acontecer quanto ao preço do petróleo e de outras commodities provavelmente será muito mais importante, certamente para os grandes países de mercado emergente e talvez para alguns dos países desenvolvidos nos quais as restrições de crédito sejam menores, como na Alemanha e no Japão. Quanto a isso, os desdobramentos das últimas semanas parecem positivos. Os preços menores do petróleo são bons para a renda real disponível em muitos desses lugares, e isso quase certamente significa que a inflação cairá de forma acentuada nos próximos meses. Uma das grandes lições do crash das Bolsas em 1987, e também da crise da Long-Term Capital Management em 1998, é que, ao agir com rapidez, as autoridades conseguiram isolar os mercados financeiros do restante da economia. A economia dos Estados Unidos e a mundial não entraram em recessão, nos dois casos. As lições deveriam ser lembradas quanto às ações que estão sendo empreendidas pelas autoridades dos Estados Unidos. Apoiar a Fannie Mae e a Freddie Mac, apoiar a AIG e agora propor uma versão modernizada do resgate às instituições de poupança e empréstimos pela RTC são as medidas necessárias a garantir que os males do setor bancário não causem crise econômica mundial generalizada.

Condições melhoram

Prever para onde vamos nos próximos dias e semanas seria ousadia. Mas as condições para uma recuperação significativa nos mercados de capitais melhoraram dramaticamente, não menos por efeito do senso de “crise”, que facilita as ações das autoridades. As ações das autoridades norte-americanas e chinesas na semana passada mostram que os líderes das duas economias possivelmente mais importantes do mundo estão agindo de maneira proativa para conter a crise. Agora, todas as atenções estarão concentradas nos demais países dos quais se espera resposta igualmente proativa. No Reino Unido, por exemplo, onde os empréstimos hipotecários caíram de maneira dramática e a economia é mais fraca que a dos Estados Unidos, algumas medidas econômicas criativas para mitigar os efeitos de desaceleração cíclica de outro modo severos deveriam ser consideradas seriamente.

JIM O’NEILL é economista-chefe do Goldman Sachs

23/09/2008 - 16:10h Lula defende “regulação” na economia mundial, no seu discurso na ONU

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Agencia Estado

 

SÃO PAULO - Na abertura da 63ª Assembléia Geral das Organizações das Nações Unidas (ONU), em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira, 23, citando o economista Celso Furtado, que a privatização dos lucros e a socialização das perdas é uma atitude “inadmissível”. Lula centrou seu discurso na crise financeira global. “A crise financeira é dura realidade. A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos, após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial”, acrescentou.Em clara referência ao pacote de socorro implementado pelo governo norte-americano, o presidente observou que as “indispensáveis intervenções” realizadas pelo Estado mostram que “é chegada hora da política”. “Somente ação determinada dos governantes, em especial de países que estão no centro da crise, será capaz de combater a desordem que se instalou nas finanças internacionais, com efeitos perversos na vida cotidiana de milhões de pessoas”.

Leia abaixo a íntegra do discurso:

Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, Nova Iorque-EUA, 23 de setembro de 2008

Senhores e senhoras chefes de Estado e de Governo,

Senhor Miguel d’Escoto, presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas,

Senhor Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas,

Senhoras e senhores chefes de Delegação,

Saúdo, com alegria, o presidente da Assembléia Geral, meu ilustre amigo Miguel d’Escoto. Desejo-lhe pleno êxito em sua missão.

Esta Assembléia realiza-se em um momento particularmente grave. A crise financeira, cujos presságios vinham se avolumando, é hoje uma dura realidade. A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial.

As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política. Somente a ação determinada dos governantes, em especial naqueles países que estão no centro da crise, será capaz de combater a desordem que se instalou nas finanças internacionais, com efeitos perversos na vida cotidiana de milhões de pessoas.

A ausência de regras favorece os aventureiros e oportunistas, em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas.

O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores. A ética deve valer também na economia. Uma crise de tais proporções não será superada com medidas paliativas. São necessários mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras.

Os organismos econômicos supranacionais carecem de autoridade e de instrumentos práticos para coibir a anarquia especulativa. Devemos reconstruí-los em bases completamente novas. Dado o caráter global da crise, as soluções que venham a ser adotadas deverão ser também globais, tomadas em espaços multilaterais legítimos e confiáveis, sem imposições. Das Nações Unidas, máximo cenário multilateral, deve partir a convocação para uma resposta vigorosa às ameaças que pesam sobre nós.

Há outras questões igualmente graves no mundo de hoje. É o caso da crise alimentar, que ameaça mais de um bilhão de seres humanos; da crise energética, que se aprofunda a cada dia; dos riscos para o comércio mundial, se não chegarmos a um acordo na Rodada de Doha; e da avassaladora degradação ambiental, que está na origem de tantas calamidades naturais, golpeando sobretudo os mais pobres.

Senhor Presidente,

Senhoras e senhores,

O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados.

Um suposto “nacionalismo populista”, que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos. As crises financeira, alimentar, energética, ambiental e migratória, para não falar das ameaças à paz em tantas regiões, demonstram que o sistema multilateral deve se adequar aos desafios do século XXI. Aos poucos vai sendo descartado o velho alinhamento conformista dos países do Sul aos centros tradicionais.

Essa nova atitude não conduz, no entanto, a uma postura de confrontação. Simplesmente pelo diálogo direto, sem intermediação das grandes potências, os países em desenvolvimento têm-se credenciado a cumprir um novo papel no desenho de um mundo multipolar. Basta citar iniciativas como o IBAS, o G-20, as cúpulas América do Sul-África ou América do Sul-Países Árabes e a articulação dos BRICs.

Está em curso a construção de uma nova geografia política, econômica e comercial no mundo. No passado, os navegantes miravam a estrela polar para “encontrar o Norte”, como se dizia. Hoje estamos procurando as soluções de nossos problemas contemplando as múltiplas dimensões de nosso Planeta. Nosso “norte” às vezes está no Sul.

Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado - em 200 anos de vida independente - que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa.

Reunidos em Santiago do Chile há pouco mais de uma semana os presidentes da América do Sul, comprovamos a capacidade de resposta rápida e eficaz da Unasul frente a situações complexas, como a que vive a nação-irmã boliviana. Respaldamos seu governo legitimamente eleito, suas instituições democráticas e sua integridade territorial e fizemos um apelo ao diálogo como caminho para a paz e a prosperidade do povo boliviano.

Em dezembro, o Brasil irá sediar, na Bahia, uma inédita cúpula de toda a América Latina e do Caribe sobre integração e desenvolvimento. Será uma reunião de alto nível, sem qualquer tutela, assentada em uma perspectiva própria latino-americana e caribenha.

Todos esses esforços no plano multilateral são complementados por meio de ações de solidariedade de meu país para com nações mais pobres, especialmente na África. Quero também enfatizar nosso compromisso com o Haiti, país em que exercemos o comando das tropas da Minustah e ajudamos a restabelecer a paz. Renovo meu chamamento à solidariedade dos países desenvolvidos com o Haiti, muito prometida e pouco cumprida.

Senhor Presidente,

A força dos valores deve prevalecer sobre o valor da força. É preciso que haja instrumentos legítimos e eficazes de garantia da segurança coletiva.

As Nações Unidas discutem há quinze anos a reforma do Conselho de Segurança. A estrutura vigente, congelada há seis décadas, responde cada vez menos aos desafios do mundo contemporâneo. Sua representação distorcida é um obstáculo ao mundo multilateral que todos nós almejamos. Considero, nesse sentido, muito auspiciosa a decisão da Assembléia Geral de iniciar prontamente negociações relativas à reforma do Conselho de Segurança.

O multilateralismo deve guiar-nos também na solução dos complexos problemas ligados ao aquecimento global, com base no princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas. O Brasil não tem fugido a suas responsabilidades. Nossa matriz energética é crescentemente limpa.

As crises alimentar e energética estão profundamente entrelaçadas. Na inflação dos alimentos estão presentes - ao lado de fatores climáticos e da especulação com as commodities agrícolas - os aumentos consideráveis do petróleo, que incidem pesadamente sobre o custo de fertilizantes e transporte.

A tentativa de associar a alta dos alimentos à difusão dos biocombustíveis não resiste à análise objetiva da realidade. A experiência brasileira comprova - o que poderá valer também para outros países com características semelhantes - que o etanol de cana-de-açúcar e a produção de biodiesel diminuem a dependência de combustíveis fósseis, criam empregos, regeneram terras deterioradas e são plenamente compatíveis com a expansão da produção de alimentos. Queremos aprofundar esse debate, em todos os seus aspectos, na Conferência Mundial sobre biocombustíveis que convocamos para novembro, na cidade de São Paulo.

Minha obsessão com o problema da fome explica o empenho que tenho tido, junto a outros líderes mundiais, para chegar a uma conclusão positiva da Rodada de Doha. Continuamos insistindo em um acordo que reduza os escandalosos subsídios agrícolas dos países ricos. O êxito da Rodada de Doha terá impacto muito positivo na produção de alimentos, sobretudo nos países pobres e em desenvolvimento.

Senhor Presidente,

Há quatro anos, junto com vários líderes mundiais, lancei aqui em Nova Iorque a Ação contra a Fome e a Pobreza. Nossa proposta era, e continua sendo, a de adotar mecanismos inovadores de financiamento. A Unitaid, Central de Compra de Medicamentos, é um primeiro resultado dessa iniciativa, ajudando a combater Aids, tuberculose e malária em vários países da África. Mas não basta. Precisamos avançar, e muito, se queremos que a Humanidade cumpra efetivamente as Metas do Milênio.

Em dezembro serão comemorados os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que não pode ser objeto de uma homenagem meramente protocolar. Ela traduz compromissos inalienáveis, que nos interpelam a todos. Como governantes, mais do que a defesa retórica da Declaração, somos chamados a lutar para que os valores proclamados há seis décadas se transformem em realidade em cada país e em todo o mundo.

Senhor Presidente,

O Brasil de hoje é muito distinto daquele de 2003, ano em que assumi a Presidência do meu país e em que, pela primeira vez, compareci a esta Assembléia Geral. Governo e sociedade deram passos decisivos para transformar a vida dos brasileiros. Criamos quase 10 milhões de empregos formais. Distribuímos renda e riqueza. Melhoramos os serviços públicos. Tiramos 9 milhões de pessoas da miséria e outras 20 milhões ascenderam à classe média. Tudo isso em um ambiente de forte crescimento, estabilidade econômica, redução da vulnerabilidade externa e, o que é mais importante, fortalecimento da democracia, com intensa participação popular.

No ano em que celebramos o centenário do grande brasileiro Josué de Castro, o primeiro diretor-geral da FAO e um dos pioneiros da reflexão sobre o problema da fome no mundo, vale a pena recordar sua advertência: “Não é mais possível deixar-se impunemente uma região sofrendo de fome, sem que o mundo inteiro venha a sofrer as suas conseqüências.” Tenho orgulho de dizer que o Brasil está vencendo a fome e a pobreza.

Senhor Presidente,

Reitero o otimismo que expressei aqui há cinco anos. Somos muito maiores do que as crises que nos ameaçam. Dispomos de sentimento, razão e vontade para vencer qualquer adversidade. Esse, mais do que nunca, é o espírito dos brasileiros.

Muito obrigado.

18/09/2008 - 09:03h ”Crise é o Muro de Berlim do livre mercado”

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Instituições voltadas para os mercados nas economias de mercado quebram e pedem socorro ao governo, diz Stiglitz

Nathan Gardels e Global Viewpoint - O Estado de São Paulo

http://blogs.zdnet.com/open-source/images/joseph-stiglitz.jpgCom a profunda crise por que passa o sistema financeiro mundial, puxada pela quebra das principais instituições de crédito dos Estados Unidos, Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001, avalia que a queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o comunismo. A seguir, principais trechos da entrevista ao editor do Global Viewpoint.

Barack Obama disse que a quebradeira de Wall Street é a maior crise desde a Grande Depressão; John McCain afirma que a economia está ameaçada, mas que é fundamentalmente forte. Quem tem razão?

Obama está muito mais próximo da verdade. De fato, os Estados Unidos têm pessoas de talento, grandes universidades e um excelente setor de alta tecnologia. Mas os mercados financeiros desempenharam um papel muito importante e foram responsáveis por 30% dos lucros corporativos dos últimos anos. Os principais operadores dos mercados financeiros colheram esses lucros argumentando que estavam contribuindo para administrar o risco e alocar o capital de modo eficiente e, por isso, afirmam, “merecem” os altos retornos. Ficou claro que nada disso é verdade. Eles administraram pessimamente toda a situação. Agora esta se voltará contra eles e o restante da economia terá de pagar, enquanto as engrenagens da atividade econômica começam a rodar mais devagar em razão do aperto no crédito. Nenhuma economia moderna pode funcionar bem sem um vibrante setor financeiro. Portanto, o diagnóstico de Obama é correto: nosso setor financeiro se encontra numa situação desesperadora. E, se está numa situação desesperadora, significa que a nossa economia está na mesma situação. Mesmo se não analisarmos a turbulência financeira, mas o grau de endividamento nacional, federal e do setor da habitação, veremos que há um grave problema. Nós estamos afogando. Se considerarmos a desigualdade, a mais profunda desde a Grande Depressão, veremos igualmente um grave problema. Se considerarmos os salários estagnados, perceberemos outro grave problema. A maior parte do crescimento econômico nos últimos cinco anos teve base na bolha da habitação, que acaba de estourar. E os frutos desse crescimento não foram amplamente compartilhados. Em suma, os fundamentos não são fortes.

Que medida seria necessária para enfrentar a crise de Wall Street?

Evidentemente, não precisamos só de uma nova regulamentação, mas de uma reformulação do sistema regulador. Durante seu reinado à frente do Federal Reserve (Fed) - no qual a bolha financeira e hipotecária foi crescendo -, Alan Greenspan dispunha de inúmeros instrumentos para contê-la, mas não o fez. Afinal, ele foi escolhido por Ronald Reagan por suas atitudes contrárias à regulamentação. Paul Volcker, o chefe anterior da instituição, conhecido por manter a inflação sob controle, foi demitido porque o governo Reagan julgou que ele não atuava de maneira adequada à desregulamentação. Nosso país sofreu, então, as conseqüências da escolha para o cargo de principal regulador da economia de alguém que não acreditava em regulamentação. Portanto, em primeiro lugar, para corrigir o problema precisamos de líderes políticos e de estrategistas que acreditem em regulamentação. Além disso, precisamos adotar um sistema capaz de lidar com a expansão das finanças e de instrumentos financeiros além dos tradicionais bancos.Por exemplo, precisamos regulamentar os incentivos. É preciso começar a pagar bônus pelo desempenho referente a vários anos, e não só a um ano, porque isso acaba encorajando o jogo. As opções de ações estimulam a contabilidade desonesta e precisam ser limitadas. Em suma, criamos incentivos para um mau comportamento do sistema e foi o que tivemos. Também precisamos de “redutores de velocidade” . Historicamente, toda crise financeira esteve associada a uma expansão muito rápida de determinados tipos de ativos, das tulipas às hipotecas. Se conseguirmos reduzir isso, poderemos impedir que as bolhas escapem do controle. O mundo não teria desaparecido se expandíssemos o setor de hipotecas a 10% ao ano, em lugar de 25%. Conhecemos o esquema tão bem que deveríamos ser capazes de fazer alguma coisa para contê-lo. Acima de tudo, precisamos de uma comissão de segurança para produtos financeiros, assim como temos uma comissão para os bens. Os financistas inventaram produtos que não tinham o objetivo de administrar o risco, mas criar o risco. É claro que acredito totalmente em maior transparência. Entretanto, em termos de normas reguladoras, esses produtos eram transparentes do ponto de vista técnico, mas eram tão complexos que ninguém conseguia entendê-los. Se todas as cláusulas desses contratos tivessem sido divulgadas, não teriam acrescentado nenhuma informação útil sobre o risco para os mortais comuns. O excesso de informações não é informação. Nesse sentido, os que pedem maior transparência como solução do problema não compreendem as informações. Quando você compra um produto, quer conhecer o risco, essa é a questão.

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Os títulos respaldados em hipotecas, que estão na base da crise, estão espalhados pelo mundo, de bancos a fundos soberanos na China, Japão, Europa e Golfo. Qual o impacto da crise para eles?

É verdade. Os prejuízos das instituições financeiras européias relativos ao crédito hipotecário subprime foram maiores que nos EUA. O fato de os EUA terem diversificado esses títulos para os seus investidores no mundo todo, graças à globalização dos mercados, amorteceu o impacto nos EUA. Se não tivéssemos diluído o risco, o resultado nos EUA teria sido muito pior. Uma coisa que agora todos compreendem como conseqüência dessa crise são as informações assimétricas da globalização. Na Europa, por exemplo, não se entendia muito bem que as hipotecas americanas são non-recourse (o valor do financiamento não pode superar o valor de mercado do imóvel) - se o valor da casa cai abaixo do valor da hipoteca, você pode devolver a chave ao banco e ir embora. Na Europa, a casa é a garantia, mas o mutuário continua pendurado pela quantia que tomou emprestado, seja qual for. É esse o perigo da globalização: o conhecimento é local porque você está muito mais a par do que ocorre em sua sociedade do que nas outras.

Então, qual é o impacto da crise de Wall Street para a globalização impulsionada pelo mercado?

O programa da globalização está estreitamente vinculado aos fundamentalistas do mercado - a ideologia dos mercados livres e da liberação do comércio. Nesta crise, vemos que instituições mais voltadas para os mercados nas economias mais orientadas para o mercado quebram e pedem o socorro do governo. Todo mundo dirá agora que esse é o fim do fundamentalismo do mercado. Assim, a queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o comunismo: ela diz que essa forma de organização econômica não funciona. A conjuntura mostra que a liberação do mercado financeiro não existiu. A maneira hipócrita com a qual o Tesouro americano, o FMI e o Banco Mundial lidaram com a crise asiática de 1997 e a maneira como a atual está sendo tratada enfatizou essa reação intelectual. Agora, os asiáticos dizem: Espera aí, vocês disseram que deveríamos imitá-los nos EUA. Se tivéssemos seguido o exemplo, também estaríamos no caos. Talvez vocês possam se permitir isso; nós, não.”

17/09/2008 - 12:52h 1929 pode acontecer de novo?

José Luis Oreiro e Gabriel Coelho Squeff - VALOR

“O evento econômico mais importante do período Pós-Segunda Guerra mundial foi algo que não aconteceu: não houve uma grande e prolongada depressão”. Essa frase do economista pós-keynesiano americano Hyman Minsky abre o capítulo introdutório do seu livro clássico: “Pode ‘aquilo’ acontecer de novo?”, publicado em 1982. Por “aquilo”, Minsky se referia à Grande Depressão de 1929, o evento mais traumático da história econômica dos Estados Unidos no século XX. Nesse livro, Minsky procura responder a uma questão fundamental, a saber: que ou quais razões têm impedido que a instabilidade crônica das economias de mercado se traduza numa queda profunda e prolongada do nível de atividade econômica, tal como ocorreu nos EUA e demais países desenvolvidos na década de 1930?

Essas questões ganham uma importância redobrada no atual cenário econômico internacional. Em apenas sete dias observou-se: 1) o anúncio de que o Tesouro americano assumiu o controle das gigantes do mercado hipotecário, Fannie Mae e Freddie Mac, conjuntamente a um aporte de US$ 200 bilhões nessas instituições; 2) o pedido de concordata do quarto maior banco do país, o Lehman Brothers; e 3) a solicitação de empréstimo da ordem de US$ 40 bilhões da seguradora AIG ao Federal Reserve (Fed). Como resultado, as principais bolsas de valores caíram: o Ibovespa teve o pior resultado dos últimos sete anos (-7,59%), o índice Dow Jones perdeu 4,42% e o Nasdaq 3,6%; comportamento similar foi observado nas bolsas de valores do Leste Asiático e na Europa Ocidental. Ao que tudo indica, a crise internacional, iniciada em meados do ano passado como decorrência do colapso do mercado de crédito subprime nos Estados Unidos, não só está bem longe do fim, como ainda parece ser muito mais grave do que a maior parte dos analistas acreditava até então. Nesse contexto, coloca-se mais uma vez a pergunta de Minsky: “Pode acontecer de novo?”.

De acordo com Minsky, foram duas as razões pelas quais uma Grande Depressão não surgiu no mundo capitalista desenvolvido, principalmente nos Estados Unidos, no período Pós-Segunda Guerra mundial. Em primeiro lugar, os bancos centrais do mundo inteiro, particularmente o Fed, aprenderam com a crise de 1929 que a sua função primordial é garantir o funcionamento adequado do sistema financeiro, fornecendo a liquidez necessária para a realização de suas operações. Quando a estabilidade do sistema financeiro está ameaçada devido a uma crise de liquidez, os bancos centrais devem deixar de lado quaisquer outros objetivos de política monetária, em especial o de controle da inflação. Se não o fizerem, tal como o Fed não fez na década de 1930, o resultado será o um “colapso do crédito”, com efeitos devastadores sobre o nível de produção e de emprego. Nesse cenário, é preferível “salvar alguns pecadores” (ou seja, impedir que bancos que se arriscaram demais na fase de expansão quebrem) do que permitir, em nome do combate ao “risco moral”, que os inocentes venham a perecer (ou seja, todos os demais indivíduos que não tiveram nenhuma participação direta na euforia especulativa).

A segunda razão é que o orçamento e os gastos do governo passaram a responder por um percentual muito maior do PIB no período Pós-Segunda Guerra mundial do que na década de 1930. O orçamento público funciona como uma espécie de estabilizador automático do nível de atividade econômica. Quando a produção e o emprego se contraem em função de uma diminuição da demanda agregada induzida, por exemplo, pela queda do consumo do setor privado, a arrecadação de impostos diminui e os gastos do governo aumentam (em função, por exemplo, do pagamento de seguro desemprego). O aumento do déficit fiscal do governo atua no sentido de sustentar o volume agregado de lucros, permitindo assim às empresas obterem um fluxo de caixa suficiente para fazer frente às suas obrigações com os bancos. A sustentação dos lucros por intermédio do aumento do déficit público impede que a economia entre num processo de “deflação de ativos”, no qual as firmas são obrigadas a vender seus ativos com maior liquidez para fazer frente às suas obrigações com os bancos comerciais, o que induziria uma queda dos preços dos ativos de capital, a qual teria efeitos negativos sobre as decisões de investimento das empresas e, portanto, sobre a demanda agregada, aprofundando a queda do nível de atividade econômica.

Em resumo, para Minsky uma grande depressão pode ser evitada se duas condições forem atendidas: 1) os bancos centrais devem atuar como “emprestadores de última instância” para impedir o aprofundamento de uma crise de liquidez; 2) o Tesouro deve sustentar os lucros a nível agregado por intermédio de uma política deliberada de aumento do déficit público.

Essas duas condições têm sido atendidas pelo Fed e pelo Tesouro dos EUA. O primeiro tem atuado intensamente por meio de suas linhas de redesconto para proporcionar a liquidez necessária ao funcionamento “normal” do sistema financeiro. Mais precisamente, o banco central dos EUA já emprestou centenas de bilhões de dólares a instituições financeiras em dificuldades para evitar o colapso das mesmas. O Tesouro americano, por sua vez, não só adotou uma política fiscal expansionista por intermédio de uma redução temporária do imposto de renda das pessoas físicas, como ainda socorreu com títulos públicos as operações das duas maiores empresas de hipoteca americanas.

Então podemos dormir tranqüilos, confiantes de que nada parecido com a crise de 1929 pode ocorrer outra vez? Não necessariamente. Somente a absorção das operações da Fannie Mae e da Freddie Mac no orçamento do governo americano aumenta o problema fiscal dos EUA. Sem contar as operações dessas empresas, o endividamento público dos EUA é superior a US$ 5 trilhões. O passivo dessas empresas é de um montante igual a esse valor. Se somarmos os dois valores, então teremos um passivo exigível do governo americano de cerca de US$ 10 trilhões, ou cerca de 80% do PIB dos EUA. O déficit fiscal para o ano fiscal de 2008 está estimado em mais de US$ 400 bilhões. Esses números indicam que o instrumento fiscal está bastante sobrecarregado. E se for necessário um novo pacote de estímulo fiscal para impedir que a economia entre em recessão, o Tesouro americano terá condições, nesse cenário, de aumentar o seu déficit? Até quando os mercados financeiros estarão dispostos a comprar títulos do governo americano num contexto de endividamento alto e crescente?

Não existem respostas prontas para essas perguntas. A única coisa que podemos fazer é torcer para que a resposta a elas seja “sim”. Do contrário, a pergunta lançada por Minsky há aproximadamente 25 anos poderá ser respondida de maneira afirmativa.

José Luis Oreiro é professor do Departamento de Economia da UNB e pesquisador do CNPq. E-mail: jlcoreiro@terra.com.br. Página pessoal: www.joseluisoreiro.en.br .

Gabriel Coelho Squeff é economista da Finep. E-mail: gabriel@finep.gov.br.

16/09/2008 - 09:18h Mantega: ”Situação está sob controle”

 

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Ministro recomenda a investidores manter suas posições no mercado

Celia Froufe, Ricardo Leopoldo e Fabio Graner - O Estado de São Paulo

“O Brasil já estaria de quatro” em outras circunstâncias de uma crise internacional como a atual, na avaliação do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Mas, segundo ele, o mercado brasileiro continua forte e, temporariamente, deve substituir o mercado externo pelo interno.

“Não é que isso seja bom, mas é conjuntural”, explicou durante palestra no 5º Fórum de Economia realizado pela Escola de Economia de São Paulo e a Fundação Getúlio Vargas. De acordo com o ministro, o Brasil tem hoje melhores fundamentos fiscais e monetários e a inflação deve terminar o ano dentro do intervalo de tolerância da meta de 4,5% (com teto de 6,5%). “Talvez, sejamos o único País a realizar a proeza.”

De acordo com Mantega, não é possível afirmar com certeza a extensão da atual crise, mas ele acredita que a situação no mercado hoje será de nervosismo, em função de problemas com os bancos de investimentos Lehman Brothers e Merrill Lynch. Mesmo assim, manifestou tranqüilidade com o quadro econômico e financeiro do Brasil. “Não devemos nos precipitar. Estou tranqüilo, seguro de que poderemos enfrentar uma crise de mais longa duração e mais profunda do que imaginávamos. Hoje, o Brasil é um outro País, bem mais desenvolvido que no passado, com fundamentos macroeconômicos mais sólidos, com US$ 200 bilhões de reservas cambiais. Não devemos nos impressionar com um ou dois dias (de tensão no mercado). O problema é lá, e não aqui. Não devemos tomar nenhuma medida precipitada porque a situação no Brasil está sob controle.”

Mantega recomendou aos investidores que não se desfaçam de suas posições no mercado neste momento. “A economia brasileira está sólida e há muita flutuação em período de crise, depois volta ao normal. Para o investidor, para o correntista, minha recomendação é que nada deve ser feito.” Para ele, o Brasil é um porto seguro no meio da crise e, ao contrário de outros países, sairá fortalecido do período de volatilidade. O ministro manteve a projeção de 4,5% de crescimento para o ano que vem e de 5% a 5,5% para este ano.

11/09/2008 - 10:18h O Brasil continua bombando

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.



É possível cuidar da inflação e das contas externas sem paralisar o desenvolvimento econômico do país

O IBGE divulgou ontem o PIB do segundo trimestre. Mais uma vez, os resultados foram animadores. Com o passar do tempo, vai ficando mais claro que o Brasil está finalmente conseguindo deixar para trás o quadro de estagnação ou crescimento medíocre que marcou a maior parte das décadas de 1980 e 1990 e o início da atual.
No primeiro semestre, o PIB aumentou 6% em relação ao primeiro semestre de 2007. Desde o ano passado, vem ocorrendo uma aceleração gradual da economia. Todos os macrossetores estão crescendo de forma respeitável. A indústria cresceu 6,3% em relação ao primeiro semestre de 2007; a agropecuária, 5,2%; o setor de serviços, 5,3%. Brasileiro desconfia de boa notícia.
E com razão. Ficamos todos mais ou menos traumatizados pelos choques e frustrações que o país experimentou durante quase 25 anos.
Muitos podem estar se perguntando: será que estamos crescendo demais? A economia brasileira corre o risco de bater em algum teto?
A preocupação é pertinente. Se a expansão da demanda ultrapassa a capacidade produtiva, pode haver pressão inflacionária e/ou aumento exagerado das importações e desequilíbrio nas contas externas.
Os dados mostram, contudo, que o investimento produtivo vem apresentando desempenho excepcional.
A formação bruta de capital fixo está aumentando há oito trimestres consecutivos. No segundo trimestre deste ano, o investimento fixo foi nada menos que 16,2% mais alto do que em igual período de 2007.
Ora, a formação bruta de capital é o componente da demanda agregada que, deduzida a depreciação do estoque de capital existente, cria capacidade produtiva adicional na economia. O comportamento vigoroso do investimento talvez explique o fato de que não se tenha notado, no passado recente, uma elevação expressiva do grau de utilização da capacidade no setor industrial. As séries dessazonalizadas, baseadas em levantamentos da Fiesp e da CNI, indicam estabilização do nível de aproveitamento da capacidade industrial instalada. De outubro de 2007 a junho de 2008, o grau de utilização vem variando entre 83% e 84%. Segundo a FGV, o grau de utilização do potencial de produção da indústria chegou a 86,1% em julho, contra 85,2% em julho de 2007.
Em outras palavras, estima-se uma ociosidade média da ordem de 14% a 17% no setor industrial. Podem existir, é claro, pontos de estrangulamento em alguns subsetores, com efeitos sobre preços e/ou a balança comercial. Por outro lado é bem provável que os dados de capacidade instalada subestimem o potencial da indústria. Muitas