28/07/2009 - 15:54h De médicos e gripes

JANIO DE FREITAS – FOLHA SP

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Provavelmente é a 1ª vez que o país se vê ante situação crítica de saúde sem sucumbir à falta de medicamento

MÉDICOS ENVOLVIDOS no combate direto à gripe A, dita suína, começam a fazer críticas públicas ao jornalismo que se ocupa do problema. Além de reconhecer a razão dos médicos, é preciso admitir também que estão sendo vítimas de uma injustiça. As providências médicas e o trabalho psicológico-informativo feitos no Brasil a partir do Ministério da Saúde, desde os primeiros sinais externos de uma gripe incomum, têm sido sucessos na sua competência e, a despeito das más influências do contravapor sensacionalista, nos seus efeitos.
Ressalta logo, nesse quadro, ser provavelmente a primeira vez que o Brasil se vê ante uma situação crítica de saúde pública sem sucumbir, em pouco tempo, à falta de medicamento específico e à distribuição caótica do estoque insuficiente. É a máquina pública em ação, no entanto, a máquina dada como inútil e que, apenas recebe comando competente, comprova seu papel insubstituível e comprova-se capaz de exercê-lo.
Não fomos postos diante de um problema secundário, mas do risco de sermos invadidos por uma epidemia depressa elevada, por sua rapidez mundial, a pandemia. Risco agravado pela vizinhança com Uruguai, atual recordista relativo em número de vítimas, e Argentina, que ultrapassou o México e nem sabe ao certo, ou não diz, a quanto somam os seus vitimados; e ainda a proximidade com o Chile, outro país de números muito altos. Consideradas as ameaças geográficas de contaminação e a concentração demográfica dos Estados brasileiros mais expostos a ela, no Sul e no Sudeste, nem caberia dar nome de epidemia ao que ocorre no Brasil. Ainda mais se comparadas as mortes provocadas pela gripe comum em 2008 (Folha de sábado) e nos iguais meses deste ano, pela gripe A: só em julho, e só na cidade de São Paulo, 629 mortes em 2008, e, em todo o Brasil, 45 mortes provocadas até ontem pela gripe A.
Mas cinco mortes mais, ou cem doentes sob tratamento em UTI no Rio Grande do Sul, levam a um noticiário de espaço, de tempo e de termos alarmistas. A queixa médica é correta: não adianta que o ministro José Gomes Temporão fale aos meios de comunicação todos os dias, desde o primeiro momento do problema, dando informações claras e calmas contra o alarmismo, e sobre as condutas convenientes na população. E, como Temporão, à vista do alarmismo tantos outros médicos se ocupem com esclarecimentos e orientação acalmante. Não adianta: hospitais e demais centros de atendimento já são levados ao tumulto e à incapacidade de dar vazão à procura tão aflita quanto equivocada. Há um relato médico de que mais de metade dos atendidos nem a gripe comum tinham, quando muito passavam por um resfriado ou uma dor de garganta.
Na fase inicial da ação contra a gripe A, houve uma tentativa política de aproveitar o problema contra o ministro Temporão, que não ocupa o cargo como ponta de lança, ou “laranja”, de nenhum grupo político. Chegou a haver a publicação de que “o corpo técnico da saúde não gostou da recomendação do ministro José Temporão para que os brasileiros evitem viagens à Argentina, devido ao risco da gripe suína”. Os “técnicos” do Ministério da Saúde preocupados com as perdas do turismo na Argentina – a mediocridade de lobismo político não tem cura.
Não é demais repetir o dado do Ministério da Saúde: a gripe comum provocou 70.142 mortes registradas no Brasil em 2008. Ou 192 por dia. As mortes pela gripe A não são menos deploráveis, mas seu número é um atestado de êxito do que foi feito para enfrentá-la aqui.

17/07/2009 - 13:53h País está preparado para gripe. O novo vírus é menos mortal que o sarampo e semelhante à gripe tradicional

Ontem na CBN um especialista fazia notar que a nova gripe tinha um índice 10 vezes menor de mortandade que por exemplo o sarampo. Por enquanto ela não supera os índices anuais de falecimentos provocados pelas gripes que assolam o mundo à cada ano. No caso do Brasil os especialistas e médicos destacam o melhor preparo do país para enfrentar a epidemia, que deve ser tratada como uma gripe normal, com descanso, muita água e líquidos, analgésicos e cinco dias ela depois vai embora. Para lactantes, mulheres grávidas, pessoas com deficiências imunológicas ou pulmonares, ou idosas, o cuidado exige acompanhamento médico. Eles receberão, se o médico considerar necessário, o medicamento específico.

Esqueci, se seu marido passou o vírus para você, isso não significa necessariamente que ele seja um porco. O animal pode ser comido sem problema… estou falando do porco! LF (resumindo o que eu entendi do assunto)

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Sem preparo, quadro poderia ser muito pior

CELSO GRANATOESPECIAL PARA A FOLHA

O MUNDO TODO , incluindo nós, temos vivido um misto de temor e curiosidade a respeito da popularmente chamada gripe suína. A tão propalada epidemia, esperada há 40 anos, teria finalmente chegado? Teria as terríveis consequências da pandemia de 1918? Seria o final dos tempos?
Países do hemisfério Norte vivem periodicamente seu inferno invernal. Todo ano sofrem com a gripe sazonal e se preparam, com maior ou menor cuidado, para aquela que seria a pandemia recorrente que nos assola a cada 35 ou 40 anos.
Se a gripe sazonal traz mortalidade elevada, ou se o vírus é realmente novo, as atenções se voltam para o problema, disparam-se procedimentos para contenção, mobiliza-se pessoal da saúde, medicamentos e insumos diagnósticos. Se a mortalidade é a esperada, os cuidados habituais são mantidos e a vida segue.
Nós, brasileiros, vivendo abaixo do equador, por razões não muito claras nem justificadas estamos tomando atitudes como se, realmente, tivesse sido anunciado o final dos tempos. Ora, se a mortalidade dessa doença é inferior àquela observada na gripe sazonal, o fato do vírus se originar no porco (ainda que não se transmita pela ingestão da carne desse animal), na galinha ou do animal que seja, passa a ser mera curiosidade veterinária.
Frequento desde 1997 congressos sobre gripe, nos quais são apresentadas as medidas que cada país toma para se preparar para a “grande pandemia”. Ficávamos preocupados ao perceber que nossa preparação estava bastante distante daquela dos países desenvolvidos. Entretanto, o aparecimento da Síndrome Respiratória Aguda Grave e da gripe aviária fizeram com que nossas autoridade de saúde se movimentassem e, felizmente, estamos tendo um desempenho razoável nesta epidemia de 2009.
Poderíamos ter um preparo melhor? Certamente. Poderíamos ter hospitais mais equipados, laboratórios mais bem aparelhados, mais pessoal treinado, estoques de medicamentos maiores? Com certeza. Porém, embora tenhamos a lamentar até o momento 11 mortes, o quadro poderia ser muito pior se o preparo dos últimos anos não tivesse ocorrido.
O que esperar ainda para este ano? Particularmente nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, o frio deve continuar por mais algumas semanas. Dentro de duas a três semanas, as escolas reabrirão, as crianças voltarão a se reunir, os meios de transporte ficarão mais lotados e os vírus se transmitirão com maior facilidade. A epidemia local, que já é evidente, tende a se expandir, mas não há evidências de que, percentualmente, haverá maior letalidade. Que lições podemos tirar desse episódio?
Preparar-se para uma epidemia é trabalho do dia a dia, quando ninguém sabe ainda se vai ou não ocorrer um novo surto. É um investimento para salvar vidas no futuro, ainda que com um gasto importante hoje.
Será que chegará o dia em que nós passaremos a usar máscaras quando estivermos gripados para não contaminar as pessoas que viajem no metrô, nos ônibus ou nos trens ao nosso lado, como vemos nos filmes japoneses e coreanos? Tomara que fique pelo menos essa lição…

CELSO GRANATO, médico, é assessor para infectologia do Fleury Medicina e Saúde

17/07/2009 - 12:46h Gripe suína: sem motivo para pânico

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CLÉLIA ARANDA ESPECIAL PARA A FOLHA

A INFLUENZA A H1N1 , conhecida como gripe suína, é uma nova gripe com a diferença de ser causada por um vírus recombinado para o qual não há vacina disponível.
O sistema de monitoramento de doenças respiratórias que vigora hoje em todo o mundo rapidamente detectou este novo subtipo viral, o que é importante para as ações de vigilância epidemiológica e controle.
No Brasil e no Estado de São Paulo, a gripe suína causou óbitos, assim como a chamada gripe sazonal, que mata milhares de pessoas no mundo todos os anos. Mas as mortes em decorrência da infecção pelo novo vírus têm maior visibilidade apenas e tão somente por ser um problema de saúde recente, que gera dúvidas, preocupações e incertezas na população. Nada mais natural.
O anúncio de transmissão sustentada da nova gripe no país, em decorrência da morte de um paciente em Osasco, ocorrida em 30 de junho, e dos casos confirmados entre seus familiares, sem relato de viagens ao exterior nem de contato com pessoas que tiveram a doença, não deve ser, em nenhuma hipótese, motivo para pânico.
Esta nova situação já era esperada pelas autoridades sanitárias e há muito o Brasil e o Estado de São Paulo já adotaram as medidas de prevenção e controle. Na prática, a política de combate à doença já vinha sendo conduzida na perspectiva da circulação do vírus A H1N1 em território nacional, com uma rede de referência absolutamente capacitada para atender pacientes suspeitos, monitoramento laboratorial e vigilâncias em saúde atuando firmemente nas investigações de todos os casos confirmados.
A orientação para a população continua a mesma, especialmente nesta época de frio, quando a transmissão de doenças respiratórias é mais intensa. Havendo sintomas como febre, tosse, dor de garganta, coriza, dores no corpo ou desconforto respiratório, procure uma unidade de saúde. Se houver necessidade, a pessoa será encaminhada pelo médico para um hospital de referência ou orientada para permanecer em isolamento domiciliar por alguns dias. O medicamento Oseltamivir só será ministrado em pacientes graves ou com potencial para desenvolvimento de complicações, tais como crianças menores de dois anos de idade, idosos a partir de 60 anos, gestantes e pacientes imunodeprimidos.
Se você receber um diagnóstico de gripe, não importa se ela é suína ou não. O fundamental é adotar as medidas de higiene, como usar lenços para espirrar ou tossir e lavar as mãos, além de repousar, beber bastante líquido e manter uma alimentação saudável. Em sete dias o seu organismo irá se recuperar. A partir daí, vida normal.
CLÉLIA ARANDA , médica, é coordenadora de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo

24/05/2009 - 15:24h Se espirrar, saúde

Cientistas correm para desenvolver uma vacina universal contra a gripe, mas esbarram na “criatividade” do vírus

Kirill Sirotyuk – 13.mai.09/France Presse
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Funcionária de laboratório segura amostra de vírus de gripe suína para produção de vacina em São Petersburgo, Rússia

 

ANDREW POLLACK DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

Duas injeções de vacina contra sarampo durante a infância protegem uma pessoa pela vida toda. Quatro doses de vacina contra poliomielite também. Mas vacinas contra a gripe precisam ser tomadas todos os anos. E, mesmo assim, fornecem proteção incompleta.
A razão é que o vírus influenza sofre mutações muito mais rapidamente do que outros vírus. Uma pessoa que desenvolve imunidade a uma linhagem do vírus não está protegida de uma linhagem diferente.
Isso promete ser um dos principais problemas à medida que o mundo se prepara para uma possível pandemia de gripe suína no segundo semestre. É impossível saber quantas pessoas podem morrer antes de uma vacina adequada a essa linhagem ser manufaturada.
Mas cientistas e fabricantes de vacina estão trabalhando duro em uma vacina “universal” contra a gripe, que poderia proteger contra todas as linhagens da doença.
“A “universal” mudaria complemente a maneira com que a vacinação contra a gripe seria feita”, diz Sarah Gilbert, especialista em vacinas da Universidade de Oxford (Reino Unido). “Quanto mais cedo tivermos uma vacina universal, melhor, porque poderemos parar de nos preocupar sobre quando será a próxima pandemia.”
Uma vacina assim acabaria com os chutes que ocorrem hoje todo início de ano quando cientistas decidem quais linhagens devem ser incluídas na vacina sazonal para o inverno seguinte. Se o chute está errado, a vacina é menos eficaz.
E isso também tornaria a imunização viável em países que hoje não têm como bancar programas anuais. A gripe sazonal contribui para a morte 500 mil pessoas todos os anos.
Infelizmente, a vacina universal não estará pronta a tempo de combater a pandemia da nova gripe suína. As vacinas mais avançadas passaram apenas por pequenos testes.
Na verdade, as vacinas universais desenvolvidas até agora não previnem as infecções totalmente. Elas só limitam a gravidade e a dispersão da doença. Alguns especialistas dizem que isso basta, mas outros têm dúvidas.
“Isso não vai substituir a vacina sazonal de gripe”, disse Robert Belshe, do centro de desenvolvimento de vacinas da Universidade de Saint Louis.
Alguns pesquisadores dizem que reforço da vacina ainda seria necessário a cada dez anos. Também não está claro se ela seria capaz de proporcionar proteção contra todas as cepas, incluindo as de origem animal.
Quando alguém é vacinado ou infectado, o sistema imunológico cria anticorpos que atacam principalmente uma proteína na superfície do vírus chamada hemaglutinina. Mas essa proteína é a parte que muda mais rápido no vírus, então os anticorpos de uma cepa podem não reconhecer outra.
Uma vacina universal teria de estimular um ataque do sistema imunológico a uma parte do vírus influenza que não varia de cepa para cepa.

Escondidas

O problema é que a maioria das proteínas que não variam muito estão no interior do vírus, fora do alcance de anticorpos. Mas há uma proteína interna, chamada M2, que desponta um pouco. Esse pedaço externo não é um grande alvo para anticorpos, mas é o foco da pesquisa de vacina universal.
“O truque é que você precisa ter um sistema que produzirá uma resposta imunológica robusta contra esse nadinha de proteína”, disse Alan Shaw, presidente da VaxInnate, empresa que tenta desenvolver uma vacina universal que combine a parte externa da M2 com uma proteína bacteriana que estimule o sistema imune.
A VaxInnate, a Merck e a Acambis, de propriedade da Sanofi-Aventis, fizeram cada uma delas um pequeno teste das suas vacinas de M2 em voluntários saudáveis. As pessoas vacinadas produzem anticorpos contra a M2. Mas estes não evitam totalmente a infecção. Será preciso fazer testes muito mais amplos para ver se essas vacinas realmente amenizam a doença durante uma temporada de gripe real.
Outra questão é que a proteína M2 dos vírus animais pode ser um pouco diferente da dos vírus humanos. Isso levanta questões sobre o quão bem uma vacina de M2 funcionaria contra a nova gripe suína.
Neste ano, duas equipes de pesquisadores relataram ao mesmo tempo que poderia haver uma outra região não-variante do vírus. Ela está no “palito” da proteína hemaglutinina, que tem forma de pirulito.
Um dos grupos mostrou que anticorpos isolados a partir de sangue humano que se ligaram a essa parte da proteína protegiam camundongos contra muitas cepas de gripe, incluindo a gripe espanhola de 1918.
Mas especialistas dizem que será muito difícil isolar essa parte da proteína para fabricar uma vacina, ou fabricá-la por meio de engenharia genética.
Uma alternativa poderia ser a utilização dos próprios anticorpos como medicamento, apesar de anticorpos serem caros para fazer e consumirem muito tempo para serem administrados aos pacientes.
As nucleoproteínas do vírus podem ser um alvo potencial para futuras vacinas. Porém, anticorpos não podem chegar até essa proteína para evitar a infecção. Então, a ideia é estimular outros soldados do sistema imunológico, as células T, para que eles rapidamente matem as células infectadas antes que elas façam novos vírus.
Finalmente, os melhores resultados poderão surgir da combinação de técnicas. A Dynavax, empresa de biotecnologia da Califórnia, espera iniciar um teste em 2010 com uma vacina desenhada para estimular anticorpos contra M2 e células T contra nucleoproteínas.