28/08/2008 - 09:04h Transformação total

Técnica altera células para tratar diabetes, derrame e infarto
Rob Stein Do Washington Post – O Globo
Cientistas transformaram um tipo de célula adulta diretamente em outro dentro de um animal vivo, num avanço que pode levar à cura de numerosas doenças. Por meio de uma complexa série de experiências em camundongos, pesquisadores da Universidade de Harvard descobriram etapas fundamentais que, quando combinadas, transformam células comuns do pâncreas nas muito mais importantes células produtoras de insulina, necessárias para tratar o diabetes.
O estudo, publicado na edição online da revista “Nature”, levanta a possibilidade de que não só diabéticos, mas também pacientes que sofreram derrames, ataques cardíacos ou outras complicações tenham suas próprias células reprogramadas e sejam curados, sem necessidade de remédios, transplantes ou outras terapias.
— É um tipo de plástica extrema nas células. A meta é criar células para substituir aquelas que são defeituosas ou inexistentes nos pacientes — disse Douglas A. Melton, co-diretor do Instituto de Células-Tronco de Harvard e líder do grupo de pesquisa.
O estudo impressionou os especialistas na chamada engenharia de tecidos, área que envolve o estudo de células-tronco.
— Estou impressionado. Essa pesquisa apresenta um novo paradigma para tratar doenças — disse Robert Lanza, diretor científico da empresa de biotecnologia Advanced Cell Technology (ACT), pioneira na pesquisa de células-tronco.
Opinião parecida tem George Q. Daley, do Hospital Infantil de Boston: — Os resultados preliminares são realmente espetaculares.
Melton e seus colegas, porém, advertiram que serão necessários anos de pesquisa até que sua técnica possa ser usada em seres humanos.
A equipe já começou a fazer experiências com células humanas e espera começar os primeiros estudos com pacientes diabéticos dentro de um ano.
— Em cinco anos podemos estar prontos para iniciar testes em escala maior — afirmou Melton
Vírus para alterar o destino das células
Outros grupos de estudo começaram a usar a mesma tecnologia para alterar tipos diferentes de células.
Um dos alvos é tratar lesões na medula óssea que causam paralisia.
Também há pesquisas com doenças neurodegenerativas, como o mal de Lou Gehrig.
— A idéia de transformar um tipo de neurônio em outro e com isso consertar o sistema nervoso é muito empolgante — salientou Paola Arlotta, do Centro de Medicina Regenerativa do Hospital Geral de Massachusetts.
A pesquisa é o desenvolvimento mais recente do promissor campo da chamada medicina regenerativa, iniciado com o estudo das células-tronco.
No entanto, a pesquisa de células-tronco tem sido atrasada por debates políticos e éticos.
O novo estudo é um desdobramento da tecnologia para produzir “células pluripotentes induzidas” ou IPS (na sigla em inglês), baseada na manipulação genética das células adultas, que são induzidas a se comportar como células embrionárias.
As células IPS podem ser cultivadas e estimuladas a originar certos tipos de tecido do corpo.
O grupo de Harvard conseguiu pular uma etapa, a das IPS, e transformar diretamente uma célula em outra. Para isso, os pesquisadores usaram vírus para levar genes de uma célula a outra. Ao ligar e desligar os genes corretos na hora certa, os cientistas conseguiram fazer com que uma célula assumisse totalmente a função de outra.
Melton frisou, todavia, que as pesquisas com células-tronco embrionárias continuam a ser essenciais.
— As células-tronco embrionárias oferecem uma janela única para compreender doenças humanas — declarou Melton.