08/06/2008 - 14:43h O futuro dos jornais
FOLHA SP

Blog de política mais popular dos EUA, Huffington Post radicaliza a noção de interatividade, mas ainda depende das reportagens dos grandes diários; para sua fundadora, falar da morte dos jornais é “ridículo”
ERIC ALTERMAN
O jornal norte-americano está na praça há mais ou menos 300 anos. A folha veemente de Benjamin Harris “Publick Occurrences, Both Foreign and Domestick” [Ocorrências Públicas Estrangeiras e Domésticas], só conseguiu tirar um número, em 1690, antes de ser fechada pelas autoridades de Massachusetts.
Harris sugerira uma linha dura e politicamente incorreta quanto à remoção dos indígenas e chocara as suscetibilidades locais ao informar que o rei da França tomava liberdades com a mulher do príncipe.
Mas foi apenas em 1721, quando o impressor James Franklin lançou o “New England Courant”, que as colônias britânicas na América do Norte viram surgir algo semelhante aos jornais de hoje.
Irmão mais velho de Benjamin, Franklin se recusava a aderir às praticas costumeiras de direitos autorais e atacava os poderes estabelecidos na Nova Inglaterra, logrando assim tanto independência editorial como sucesso comercial.
Preenchia seu jornal com cruzadas (contra tudo, dos piratas ao poder dos pastores puritanos Cotton e Increase Mather), ensaios literários, vinhetas e ruminações filosóficas.
Três séculos depois do “Courant”, já não é preciso ter uma imaginação distópica para cogitar quem terá a honra ambígua de publicar o último jornal de verdade nos EUA.
Pouca gente acredita que os jornais, na forma impressa de hoje, tenham chance de sobreviver. Eles estão perdendo anunciantes, leitores, valor de mercado e, em alguns casos, o próprio senso de missão, num ritmo que teria sido difícil imaginar meros quatro anos atrás.
Num discurso recente em Londres, Bill Keller, editor-executivo do “New York Times”, declarou: “Onde quer que editores e publishers se encontrem, a atmosfera é funérea. Os editores perguntam “como você está?” naquele tom que se usa com um amigo que acaba de sair de uma desintoxicação ou um divórcio”.
Seu discurso foi publicado no site de seu anfitrião, o “Guardian”, sob a manchete “Vivo ainda”. Ainda. Mas as tendências de circulação e publicidade, a ascensão da web, que faz o jornal diário parecer lento e lerdo, e o advento da Craigslist, que está extinguindo os classificados, criaram uma sensação palpável de fim iminente.
Nos últimos três anos, os jornais americanos independentes perderam 42% de seu valor de mercado, segundo o empresário de mídia Alan Mutter.
Poucas companhias foram tão punidas em Wall Street quanto aquelas que ousaram investir no ramo jornalístico. A McClatchy Company, a única a dar um lance pela cadeia Knight Ridder quando ela foi a leilão em 2005, perdeu 80% de seu valor acionário desde que concluiu a aquisição de US$ 6,5 bilhões. As ações da Lee Enterprises caíram 75% desde que ela adquiriu a cadeia Pulitzer, naquele mesmo ano.
As companhias jornalísticas mais prezadas começaram, de repente, a parecer um fardo empresarial. Em vez de competir numa era de transformação, as famílias que controlavam o “Los Angeles Times” e o “Wall Street Journal” venderam a maior parte de suas ações.
A New York Times Company viu suas ações caírem 54% desde 2004, em especial no último ano; em fevereiro, o Deutsche Bank recomendou que seus clientes vendessem ações do “New Tork Times”. A Washington Post Company só evitou o mesmo destino ao se apresentar como “empresa de educação e comunicação”; seu braço didático, a Kaplan, agora responde por pelo menos metade do faturamento total.
