20/11/2009 - 14:27h Abbas quer que Lula dê recado a Teerã


Líder palestino pedirá ao Brasil que interceda junto ao presidente do Irã por fim de apoio ao grupo radical islâmico Hamas

À Folha presidente da ANP diz que país pode agir mais pela paz no Oriente Médio; em Salvador, ele se reúne com o colega brasileiro hoje


Ricardo Stucker/PR

Presidente Lula come acarajé em jantar em Salvador com o líder da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas (esq.), e um tradutor


SAMY ADGHIRNI – FOLHA SP

ENVIADO ESPECIAL A SALVADOR

O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, quer que Luiz Inácio Lula da Silva use suas boas relações com o iraniano Mahmoud Ahmadinejad para pedir que Teerã pare de apoiar o grupo radical Hamas, seu maior rival interno.
A declaração de Abbas foi feita ontem em entrevista exclusiva à Folha na véspera de seu encontro oficial com Lula (os dois líderes tiveram um jantar privado ontem) e quatro dias antes da visita de Ahmadinejad ao Brasil. Em conversa com a reportagem, o presidente da ANP acusou Israel de alimentar as divisões entre palestinos e disse que o atual governo israelense é o primeiro da história a não querer a paz.
Abbas, que viaja em avião cedido pelo governo do Marrocos, defendeu que o projeto de proclamação da independência palestina seja levado à ONU.

FOLHA – O que o sr. dirá ao presidente Lula?
MAHMOUD ABBAS -
Há muito tempo que temos relações com Lula. Acreditamos que o Brasil deveria ter um papel no processo de paz e pediremos que ele tome a oportunidade de assumir esse papel. Sei que é respeitado por israelenses e árabes, palestinos em particular. Não estamos falando de coisas específicas, mas de aspectos gerais.
O Brasil, como país importante, e o presidente Lula, como líder respeitado, podem ter um papel importante. Há muitas maneiras de atuar pela paz.

FOLHA – O sr. quer o apoio do Brasil a uma declaração unilateral de independência palestina?
ABBAS -
Não dizemos que proclamaremos independência unilateralmente. O que planejamos é que a Liga Árabe leve a questão de um Estado palestino ao Conselho de Segurança [da ONU]. Trabalharemos com os países árabes para chegar a um projeto concreto. Mas não agora, nem unilateralmente.

FOLHA – É coincidência o sr. vir ao Brasil poucos dias após a visita do presidente de Israel, Shimon Peres?
ABBAS -
Sim. Perguntamos ao governo brasileiro qual data seria mais conveniente para nossa visita e foi essa que eles ofereceram. Não planejamos nada.

FOLHA – O Brasil gostaria que o sr. recuasse da decisão de não tentar a reeleição. Existe essa chance?
ABBAS -
Não serei candidato. A decisão que tomei é definitiva. Temos instituições, governo, autoridade, gabinete, aparato policial e estabilidade. Não acho que minha decisão levará ao fim da Autoridade Palestina [como sugerido por analistas].

FOLHA – O sr. crê que o Irã apoia o Hamas? Gostaria que o Brasil intercedesse sobre a questão junto ao presidente Ahmadinejad?
ABBAS -
Sim. O Irã apoia o Hamas com dinheiro. As decisões do Hamas estão nas mãos de Teerã. Espero que ele [Lula] possa lhe dizer [a Ahmadinejad] algumas coisas a respeito de tudo o que acontece no Oriente Médio. Acho que o presidente o fará.

FOLHA – As divisões entre palestinos servem aos interesses de Israel?
ABBAS -
Isso é claro. As divisões entre palestinos são um pretexto que serve para reforçar o argumento de Israel de que não se sabe quem são os interlocutores do nosso lado. Não acho que os israelenses o tenham provocado [o racha], mas eles o estimulam e o mantêm para benefício próprio.

FOLHA – O que mudou após a posse do atual governo israelense?
ABBAS -
Este governo não acredita na paz. Os anteriores, especialmente o de Ehud Olmert, conversavam com a gente sobre todos os temas da negociação. Estivemos muito perto de alcançar uma solução final, mas isso não foi possível devido a problemas internos em Israel [acusações de corrupção contra o governo]. Olmert caiu, e sua sucessora [a então chanceler Tzipi Livni] não conseguiu formar um governo, e perderam as eleições. Hoje há no poder uma coalizão que não crê na paz.

FOLHA – Israel alega que são os palestinos que travam o diálogo ao exigir o congelamento das assentamentos na Cisjordânia sem considerar seu crescimento natural.
ABBAS -
Israel deveria cumprir com o que está determinado no Mapa do Caminho, que diz claramente: Israel deve cessar a expansão de todo tipo de assentamento, incluindo a expansão natural. É obrigação dos israelenses. Aliás, nós cumprimos com todas as nossas obrigações, os americanos e israelenses reconhecem isso. Israel não cumpriu nenhuma das suas.

FOLHA – Quando o sr. voltará a se encontrar com o atual premiê israelense, Binyamin Netanyahu?
ABBAS -
Quando ele aceitar dois princípios: o fim dos assentamentos e a retirada israelense até as fronteiras de 1967. Voltaremos a conversar no mesmo dia em que ele concordar com isso. Antes disso não há razão alguma para vê-lo. Estive com ele nos EUA, não passou de uma formalidade.

FOLHA – Como o sr. vê a política de Barack Obama no Oriente Médio?
ABBAS -
No início ele chegou a dizer que Israel deveria pôr fim à expansão dos assentamentos, mas infelizmente mudou de ideia. Mesmo assim, ainda cremos que ele acredita na paz e tem boas intenções para resolver os problemas na região.

FOLHA – Cresce o coro dos que advogam pela solução de um Estado para dois povos. O que sr. acha?
ABBAS -
Acreditamos na solução de dois Estados. Também não acreditamos na solução das fronteiras provisórias. Nosso Estado deveria ser criado dentro dos limites anteriores à guerra de 1967, com Jerusalém sendo a capital. São essas as fronteiras do Estado palestino. É a única maneira de podermos conviver com os israelenses em paz e segurança.

16/11/2009 - 09:34h Novas ameaças às exportações brasileiras nos maiores mercados do mundo

Americanos e europeus estudam regulação mais dura com base em problemas climáticos, trabalhistas e de segurança

Raquel Landim – O Estado SP

Estão surgindo novas ameaças às exportações brasileiras nos maiores mercados do mundo, Estados Unidos e União Europeia. Três grupos de barreiras preocupam: ambientais, trabalhistas e de segurança. Deputados americanos e europeus debatem novas legislações sobre esses temas, que são foco da agenda comercial.

Estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) aponta que por ano 15,4% das exportações brasileiras para os EUA – o equivalente a US$ 5 bilhões – estão na mira da nova legislação americana de mudanças climáticas. A lei pode atingir as vendas brasileiras de aço, celulose, papel e alumínio.

O aquecimento global tornou o tema ambiental urgente. O presidente Barack Obama deu sinais de que está disposto a assumir compromissos na reunião de Copenhague. Preocupadas em ficar em desvantagem com outros países, as empresas americanas exigem compensações.

Existem dois projetos sobre o tema no Congresso americano. O mais provável é que sejam aprovadas medidas que obriguem os importadores a comprar licenças para emissão de carbono. “Isso joga o ônus da adaptação nos países em desenvolvimento”, disse o diretor de relações internacionais da Fiesp, Mário Marconini.

A União Europeia também estuda a adoção de uma “taxa de carbono” contra produtos importados, caso os países emergentes não se disponham a assumir compromissos equiparáveis aos ricos de redução de emissões em Copenhague.

Segundo a consultora da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Sandra Rios, essas tarifas distorcem a negociação climática, que reconhece que os países ricos e em desenvolvimento têm responsabilidades diferentes pelo aquecimento global. “O problema é que essas tarifas vão equiparar os esforços. As nações emergentes têm de manter seu crescimento.”

Nas discussões trabalhistas, os sindicatos ganharam força para defender regras rígidas em acordos comerciais, depois do desemprego causado pela crise e do apoio decisivo a Obama. A maior preocupação é com o trabalho escravo e infantil.

Tramita no Congresso dos EUA um projeto para reformar a lei de aduanas. Segundo o diretor executivo da Coalização das Indústrias Brasileiras, com sede em Washington, Diego Bonomo, pode entrar em vigor uma nova lista de produtos feitos com trabalho escravo e infantil, que ficariam impedidos de entrar no país. A lista inclui 13 itens brasileiros, como algodão, calçados e tabaco.

A segurança também ganhou relevância desde os ataques de 11 de setembro de 2001. O Congresso concedeu um mandato para o Executivo americano escanear 100% dos contêineres que chegam ao país. Existe um projeto-piloto, mas a administração federal argumenta que não há condições de colocar a lei em prática.

Barreira ambiental vai afetar mais os setores intensivos de energia

Estudo da Fiesp mostra que maiores prejuízos recairão na venda de ferro e aço, celulose, argila, papel e alumínio

Raquel Landim – O Estado SP


As exportações brasileiras dos setores intensivos em energia serão as mais afetadas pelas novas barreiras ambientais dos Estados Unidos. Os prejuízos podem ser maiores nas vendas de ferro e aço, celulose, argila, papel e alumínio, conforme estudo elaborado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou no mês de junho a Lei Waxman-Markey, que estabelece metas de redução de emissões para os Estados Unidos pela primeira vez. Segundo cálculos do Departamento Governamental de Contabilidade americano, os setores que terão mais gastos para se adaptar às novas regras serão metais primários, metais não-metálicos e químicos.

Ainda não foi definido pelo Congresso, mas crescem as chances de que, para compensar os fabricantes locais e evitar a fuga de empresas para países com padrões ambientais menos rígidos, os americanos estabeleçam medidas de fronteira, como exigir que os importadores comprem licenças de emissões de carbono.

No caso do Brasil, o setor siderúrgico deve ser o mais prejudicado, já que quase 27% das exportações de ferro e aço são destinadas ao mercado americano, o que significou US$ 3,4 bilhões em 2008.

“A Conferência de Copenhague é essencialmente econômica. Não podemos ter a ingenuidade de chegar a essa discussão como se fosse apenas ambiental”, argumenta o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes.

“Se a indústria siderúrgica americana vai fazer investimentos, é legítimo que queiram compensações. O problema é que, depois da crise, o mercado está sobre ofertado. As questões ambientais podem ser um pretexto para o protecionismo”, observa. Ele afirma que existe um excedente de aço de 600 milhões de toneladas no mundo.

A indústria siderúrgica brasileira defende que as metas de redução de emissões sejam diferentes para países com consumo per capita inferior e superior a 300 quilos de aço por habitante por ano. Na avaliação do setor, o consumo de aço é um indicador de crescimento econômico e as metas ambientais não podem brecar o desenvolvimento. O Brasil consome 100 quilos por habitante/ano, enquanto a China chega a 340.

Para o presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), Adjarma Azevedo, “as barreiras ambientais são inevitáveis”. O executivo afirma que o Brasil tem de se empenhar para influenciar na implementação dessas leis. Ele diz que, dependendo dos critérios, pode ser um benefício para o Brasil, cuja matriz energética é 47% de energia renovável.

Azevedo acredita que as medidas de fronteira dos Estados Unidos vão acabar levando em consideração o conteúdo de emissão de carbono de cada país. Segundo ele, a indústria brasileira de alumínio contribui com 0,2% das emissões do País, que, por sua vez, representa apenas 4% das emissões globais.

Já a fabricação mundial de alumínio equivale a 1% das emissões do planeta.

QUÍMICO

A maior preocupação do setor químico hoje não está nos Estados Unidos, mas na Europa. A União Europeia implementou no ano passado um novo registro para as substâncias químicas que entram no bloco, conhecido pela sigla Reach. O objetivo é garantir a qualidade dos produtos químicos para não afetar a saúde da população e o meio ambiente.

Por enquanto, a regulamentação ainda não está sendo rigidamente implementada. “Mas pode ser utilizado como uma barreira se os europeus quiserem, porque impõe uma série de dificuldades para as empresas”, explica o diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Nelson Pereira dos Reis.

OUTRO LADO DA MOEDA

Para alguns setores, novas barreiras comerciais podem se transformar em oportunidades. O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Aguinaldo Diniz Filho, disse que é “absolutamente favorável” a cláusulas sociais no comércio internacional. “É uma evolução natural da globalização.”

Para o setor têxtil brasileiro, que já opera com uma legislação trabalhista forte, novas regras são vantajosas, porque prejudicariam seu principal concorrente, a China.

Os novos temas do comércio internacional, como meio ambiente e trabalho, são causas defensáveis e não chegam a ir diretamente contra a Organização Mundial de Comércio (OMC), que prevê que os países abram exceções para proteger os recursos naturais ou para fins sociais.

A questão, alertam os especialistas, é que esses temas podem ser utilizados como barreiras protecionistas.

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Discussão sobre o etanol ganha novas proporções

Raquel Landim – O Estado SP

Símbolo do sucesso brasileiro em energia renovável, o etanol também pode ser alvo de barreiras ambientais. O setor enfrenta um momento crítico nos próximos meses, que é a regulamentação dos combustíveis de baixo carbono.

“É a nossa maior preocupação”, disse o presidente da União da Indústria Canavieira de São Paulo (Unica), Marcos Jank. O assunto está sendo debatido nos Estados Unidos e na União Europeia. Nos Estados Unidos, a discussão não é apenas federal, mas também estadual.

Não existem dúvidas de que o etanol polui menos que a gasolina. Também está claro que o etanol brasileiro, produzido com cana-de-açúcar, é menos poluente que produto americano, feito a partir do milho. A questão é qual é o tamanho da vantagem.

Segundo Jank, as discussões nos Estados Unidos e na União Europeia consideram o uso indireto da terra. Ou seja, o efeito que a expansão da produção de cana tem no desmatamento da Amazônia. A área de cana cresce no Centro-Sul, mas, teoricamente, empurra outras culturas em direção à floresta.

“São cálculos muito difíceis de fazer. E estão sendo utilizadas premissas erradas, porque há desconhecimento do álcool de cana”, disse o presidente da Unica. Jank ressalta que apenas 1% da expansão da cana-de-açúcar ocorre por meio de desmatamento, enquanto 60% é feito em áreas de pastagens.

Para as usinas, a discussão sobre o padrão do combustível se tornou mais importante que a queda da tarifa cobrada pelos Estados Unidos para a importação de etanol, de US$ 0,54 por galão, que vence em 2010.

Segundo Jank, a indústria vai fazer um forte lobby para o Congresso Nacional não renovar a tarifa. “Mas se garantirmos uma boa qualificação para o etanol brasileiro como combustível avançado ganharemos aliados nessa briga.”

12/11/2009 - 14:17h Oriente Médio: Imprensa vê disputa pelo apoio do Brasil

País começa a ganhar destaque como ator importante na política da região

Os dois presidentes conversam no Itamaraty: Lula dá sinais de que aceitará o convite de Peres para visitar Israel em 2010 - (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )

Gustavo Chacra, CORRESPONDENTE, NOVA YORK – O Estado SP

O Brasil consegue aos poucos se destacar como um ator importante na política do Oriente Médio, e o apoio brasileiro passou a ser disputado pelos países envolvidos em conflitos na região. Esta é a avaliação de órgãos de imprensa de Israel que cobrem a visita do presidente Shimon Peres a Brasília, São Paulo e Rio.

Nos Estados Unidos, o peso brasileiro também é sentido, com críticas a Luiz Inácio Lula da Silva por receber o líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad ainda neste mês e por ter uma viagem agendada a Teerã no início do próximo ano. Outros veem a iniciativa do presidente como positiva pela neutralidade do país, ajudando em um difícil acordo para a questão nuclear iraniana, prioridade da administração de Barack Obama.

O governo brasileiro também tem sido ativo no conflito envolvendo israelenses e palestinos. No mês passado, o Brasil liderou, sem obter sucesso, uma proposta no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, para encontrar uma saída para a questão do relatório Goldstone, que acusa Israel e o Hamas de terem cometido crimes durante a guerra em Gaza no início deste ano.

A embaixadora brasileira nas Nações Unidas em Nova York, Maria Luiz Viotti, foi, na semana passada, uma das vozes mais fortes no debate sobre o tema. A posição brasileira, nos dois casos, teve destaque nos principais jornais americanos e europeus, algo impensável desde quando o diplomata Osvaldo Aranha presidiu a Assembleia Geral da ONU na votação que criou o Estado de Israel, em 1948.

Em análise, o diário israelense Haaretz afirma que “as visitas dos presidentes do Irã e de Israel ao Brasil demonstram o crescimento da potência sul-americana no Oriente Médio”. Na avaliação do jornal, considerado de centro-esquerda em Israel, um apoio do Brasil ao Irã poderia dar credibilidade ao programa nuclear iraniano, e os israelenses visam impedir justamente que isso aconteça.

Neste envolvimento na política do Oriente Médio, o Brasil é visto como anti-Israel. Em primeiro lugar, pela forma como Lula trata Ahmadinejad, considerado o principal inimigo israelense no mundo. O presidente brasileiro também já esteve em uma série de países árabes e visitará o Irã, mas não foi a Israel. Para completar, a posição brasileira em relação ao relatório Goldstone foi vista como dura pelos israelenses. Na ONU, Viotti afirmou que “Israel precisa respeitar as leis internacionais ao se defender, especialmente em áreas densamente populosas”.

22/10/2009 - 18:50h No Irã, ponto para Obama, e para Lula

Clovis Rossi – Folha Online

Recupero o essencial de um diálogo entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama sobre o Irã, travado em Pittsburgh, à margem da recente cúpula do G20, conforme reprodução do próprio Lula. Dá para acreditar na versão do presidente brasileiro a partir da versão do porta-voz de Obama, Robert Gibbs, para conversa anterior entre os dois presidentes sobre o mesmo assunto, esta na Itália.

Vamos lá, então. Segundo Lula, Obama aprovou a intenção de Lula de manter diálogo com o Irã (em torno da questão nuclear), concordando em que nem todo o mundo deveria colocar o regime dos aiatolás contra a parede, porque acabaria sendo contraproducente.

Detalhe: o diálogo deu-se no mesmo dia em que Obama, ao lado do presidente Nicolas Sarkozy, da França, e do primeiro-ministro Gordon Brown, do Reino Unido, fazia uma dura crítica ao Irã, acompanhada de ameaças, pelo fato de ter revelado só naquele momento a existência de uma usina nuclear nas imediações da cidade de Qom, considerada o Vaticano do xiismo.

Bem feitas as contas, Lula parece estar mais certo do que os “duros”, a julgar pelo acordo entre o Irã e as grandes potências nucleares pelo qual boa parte do urânio iraniano será enriquecido na Rússia e talvez na França, o que reduz a possibilidade/velocidade da fabricação da bomba.

É claro que sempre cabe qualificar o acordo: primeiro porque ele terá que ser submetido às supremas autoridades iranianas. Segundo, porque o urânio restante sempre pode ser desviado para enriquecimento para fins militares.

Feitas essas ressalvas, anote agora o comentário para o jornal britânico “Guardian” de Abbas Barzegar, candidato a PhD em estudos religiosos pela Emory University, de Atlanta, Geórgia.

“O astuto Juan Cole apontou [depois do início das conversas em Genebra que acabaram no pré-acordo agora anunciado] que Obama conseguiu mais do Irã em sete horas e meia do que Cheney [Dick Cheney, vice-presidente de George Walker Bush, duro entre os duros] em sete anos e meio”. Juan Cole vem a ser presidente do Global Americana Institute, um centro de estudos obviamente norte-americana.

A partir dessa interessante comparação, Barzegar acrescenta que se trata de “uma demonstração de que o engajamento diplomático quase sempre funciona”.

Não é, na essência, o mesmo que Lula disse a Obama e que Obama comprou?

Mas é bom notar também que a avaliação sobre o pré-acordo entre os especialistas está longe de ser linear ou consensual. Depende muito de quem o analisa.

Do lado israelense, por exemplo, Yossi Melman escreve no “Haaretz”, talvez o melhor jornal israelense, que, confirmado o acordo, “ele remove qualquer justificativa para um ataque aos locais nucleares iranianos”.

A hipótese de um ataque por parte de Israel era o cenário de pesadelo para todo o mundo – menos, claro, para os próprios israelenses, para os quais o pesadelo é a aquisição da bomba pelo Irã.

De todo modo, convém notar que diferentes círculos diplomáticos dizem que o problema com o Irã não é a confirmação ou não do pré-acordo mas a confiabilidade do regime dos aiatolás.

É uma opinião muito parecida com a que Richard Haass, do Council on Foreign Relations, deu ao “Financial Times”: segundo ele, é o caráter político do regime iraniano, não apenas a sua capacitação para fabricar a bomba, que deveria definir a resposta da comunidade internacional às ambições nucleares do país.

Tudo somado, parece claro que o “engajamento”, princípio essencial da política externa de Obama, marcou um belo ponto. Mas o jogo ainda não está inteiramente jogado.

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de “Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e “O Que é Jornalismo”.

E-mail: crossi@uol.com.br

09/10/2009 - 12:39h Foreign Policy: Amorim, “o melhor chanceler do mundo”

Fonte VIOMUNDO

http://noticiasdachina.files.wordpress.com/2009/01/celsoamorim.jpeg

The world’s best foreign minister, Wed, 10/07/2009 – 12:35pm,

David Rothkofp, no blog da revista Foreign Policy

Esse pode ter sido o melhor mês do Brasil desde cerca de junho de 1494. Foi quando o Tratado de Tordesilhas foi assinado, dando a Portugal tudo no mundo a leste de uma linha imaginária que foi declarada existir 379 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Isso garantiu que o que viria a se tornar Brasil seria português e, portanto, desenvolveria uma cultura e identidade diferentes do resto da América Latina hispânica. Isso garantiu que o mundo teria samba, churrasco, Garota de Ipanema e, através de uma incrível e tortuosa corrente de eventos, a Gisele Bundchen.
Embora o Brasil tenha levado algum tempo dando razão à máxima de que “é o país do futuro e sempre será”, há poucas dúvidas de que o amanhã chegou para o país, ainda que muito tenha de ser feito para superar sérios desafios sociais e aproveitar o extraordinário potencial econômico do país.
A prova de que algo novo e importante está acontecendo no Brasil começou alguns anos atrás, quando o presidente [Fernando Henrique] Cardoso gerenciou uma mudança para a ortodoxia econômica que estabilizou o país-vítima de ciclos de crescimento e crise e inflação de tirar do sério. Ganhou força, no entanto, durante o extraordinário governo do atual presidente, Luis Inacio “Lula” da Silva.
Algum desse impulso se deve ao compromisso de Lula de preservar as fundações econômicas assentadas por Cardoso, uma decisão política corajosa para um líder sindical de oposição do Partido dos Trabalhadores. Parte do impulso se deve a sorte, uma mudança do paradigma energético que ajudou o investimento de 30 anos do Brasil em biocombustíveis dar retorno importante, as descobertas maciças de petróleo na costa do Brasil e a crescente demanda da Ásia que permitiu ao Brasil se tornar o líder exportador da agricultura mundial, assumindo o papel de “celeiro da Ásia”. Mas muito do impulso se deve à grande capacidade dos líderes brasileiros de aproveitar o momento que muitos dos predecessores provavelmente teriam perdido.
Desses líderes, muito do crédito vai para o presidente Lula, que se tornou uma espécie de estrela de rock na cena internacional, juntando a energia, a disposição, o carisma, a intuição e o senso comum tão eficazmente que a falta de educação formal não se tornou empecilho. Algum crédito vai para outros membros de sua equipe, como a chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, a ex-ministra da Energia que se tornou uma ministra dura e possível sucessora de Lula. Mas eu acredito que uma grande parte do crédito deve ir para Celso Amorim, que planejou a transformação do papel mundial do Brasil de forma sem precedentes na história moderna. Ele é o ministro das Relações Exteriores de Lula desde 2003 (também serviu nos anos 90), mas penso que se pode argumentar que é atualmente o chanceler mais bem sucedido do mundo.

É impossível apontar um único momento de mudança nas tentativas de Amorim de transformar o Brasil de um poder regional com influência int ernacional duvidosa em um dos países mais importantes no mundo, reconhecido por consenso global para jogar um papel de liderança sem precedentes.
Pode ter sido quando ele teve um papel central na engenharia do “empurrão” dado pelos países emergentes contra o “poder-de-sempre” dos Estados Unidos e da Europa durante as negociações comerciais de Cancun em 2003.
Pode ter sido o jeito que o Brasil adotou para usar questões como a dos biocombustíveis para forjar novos diálogos e influência, com os Estados Unidos ou com outros poderes emergentes.
Com certeza envolveu a decisão de Amorim de abraçar a idéia de transformar os BRICs de uma sigla em uma importante colaboração geopolítica, trabalhando com seus colegas da Rússia, da Índia e da China para institucionalizar o diálogo entre os países e coordenar sua mensagens. (Dos BRICs quem se deu melhor nesse arranjo foi o Brasil. Rússia, China e Índia todos conquistaram seus lugares na mesa através de capacidade militar, tamanho de população, influência econômica ou recursos naturais. O Brasil tem tudo isso, mas menos que os outros).
Também envolveu muitas outras coisas, como o aprofundamento das relações com países como a China, a promoção do Brasil como destino de investimentos, a reputação do Brasil como comparativamente seguro diante de problemas econômicos globais, o conforto que o presidente dos Estados Unidos sente em relação a seu colega brasileiro — a ponto de encorajar o Brasil a jogar um papel como intermediário junto, por exemplo, aos iranianos. Concorde ou não com todas as decisões de Amorim, como em Honduras ou em relação a Cuba na Organização dos Estados Americanos, o Brasil tem continuado a jogar um papel regional importante ainda que seu foco tenha claramente mudado para o palco global.

Nada ilustra quanto evoluiu o Brasil ou quão eficaz é o time Lula-Amorim quanto os eventos das últimas semanas. Primeiro, os países do mundo largaram o G8 e abraçaram o G20, garantindo ao Brasil um lugar permanente na mesa mais importante do mundo. Em seguida, o Brasil se tornou o primeiro país da América Latina a ganhar o direito de sediar as Olimpíadas. Ontem o Financial Times noticiou que a “Ásia e o Brasil lideram na confiança do consumidor”, um reflexo da reputação que o governo vendeu eficazmente (com a maior parte do crédito indo para o ressurgente setor privado brasileiro). E nesta semana as notícias sobre o encontro do FMI-Banco Mundial em Istambul mostraram a institucionalização do novo papel do Brasil com um acordo para mudar a estrutura do FMI. De acordo com o Washington Post de hoje: “As nações também concordaram preliminarmente em reestruturar a estrutura de votação do Fundo, prometendo dar mais poder aos gigantes emergentes como o Brasil e a China até janeiro de 2011″.

Nada mal para alguns dias de trabalho. E embora seja o ministro da Fazenda que representa o Brasil nos encontros do FMI-Banco Mundial, o arquiteto dessa marcante transformação no papel do Brasil foi Amorim.
Muito ainda precisa ser feito, com certeza. Parte tem a ver com o novo papel desejado. O Brasil quer uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU e mais liderança nas instituições internacionais. Pode conquistar isso, mas terá de manter o crescimento e a estabilidade para chegar lá. Além disso, o Brasil parece inclinado a minimizar ameaças regionais como a representada pela Venezuela (Os brasileiros tendem a olhar com desprezo para seus vizinhos do norte tanto quanto o fazem para os argentinos, vizinhos do sul… e, portanto, subestimam a habilidade de homens como Hugo Chávez de causar danos). E o Brasil tem diante de si uma eleição que pode mudar o elenco de jogadores e, naturalmente, pode mudar a atual trajetória de uma série de maneiras — boas e ruins.
Mas é difícil pensar em outro chanceler que tenha tão eficazmente orquestrado uma mudança tão significativa no papel internacional de seu país. E se alguem pedisse hoje que eu votasse no melhor chanceler do mundo, meu voto provavelmente iria para o filho de Santos, Celso Amorim.

David Rothkopf é autor de Superclass: The Global Power Elite and the World They are Making (Superclasse: A elite do poder global e o mundo que ela está construindo) e Running the World: The Inside Story of the National Security Council and the Architects of American Power (Governando o Mundo: A história do Conselho de Segurança Nacional e os Arquitetos do Poder Americano).

30/09/2009 - 16:26h Constituição hondurenha não justifica o golpe

*PEDRO ESTEVAM SERRANO ESPECIAL PARA A FOLHA

O golpe em Honduras, que destituiu do exercício de seu mandato pelas armas um presidente eleito pelo voto, tem sido duramente repudiado pela comunidade internacional. Os golpistas usaram como justificativa o apoio da Corte Suprema e do Legislativo à deposição de Manuel Zelaya, fundando-se no artigo 374 da Constituição, que torna inválido qualquer plebiscito ou referendo que possibilite a renovação do mandato presidencial.
A partir dessa justificativa, alguns articulistas têm adotado como verdade uma suposta juridicidade do golpe, que teria, assim, um caráter universal de defesa da Constituição.
Tal conclusão, contudo, não resiste a uma leitura minimamente sistemática do texto constitucional de Honduras. O artigo 374 da Carta Magna hondurenha efetivamente impossibilita reforma constitucional que altere o mandato presidencial ou possibilite a reeleição do titular do respectivo mandato. Em verdade, tal dispositivo é clausula pétrea da Carta.
A clausula torna inválida qualquer alteração constitucional com tal objeto, mas não tem por si o condão de gerar a perda de mandato do presidente e muito menos dispensa o devido processo legal para tal sanção. O artigo 5º da Constituição impossibilita referendos ou plebiscitos que tenham por objeto a recondução do presidente ao mesmo mandato, sendo que o artigo 4º considera como obrigatória a alternância do exercício da Presidência, tornando crime de traição contra a pátria sua não observância.
Ora, a simples proposta de reeleição por um mandato do presidente da República não implica atentado contra o princípio da alternância, apenas altera o lapso de tempo pelo qual se dará tal alternância.
O único dispositivo no texto que poderia servir de fundamento à possível perda do mandato do presidente seria, provavelmente, a alínea 5 do artigo 42 da Carta, que torna passível da perda dos direitos de cidadania, entendida como a capacidade de votar e ser votado, a pessoa que “incitar, promover ou apoiar o continuísmo ou a reeleição do presidente”.
Primeiro, a afirmação que a proposta de reforma constitucional de Zelaya implica inobservância de tal dispositivo merece algum reparo. O dispositivo pretende evitar o apoio e o incitamento ao continuísmo do detentor do mandato de presidente na época dos fatos. Zelaya tem afirmado que sua proposta é de possibilitar a reeleição de futuros presidentes, e não dele próprio. Assim, ele não teria apoiado, promovido ou incitado o continuísmo do atual presidente -ele próprio.
E, de qualquer forma, a alínea 6 do artigo 42 e diversos outros dispositivos da Constituição hondurenha determinam que a perda da cidadania deve ser aplicada em processo judicial contencioso e com direito a ampla defesa, observado o devido processo legal, o que não ocorreu de modo algum no procedimento adotado pelos golpistas e seus apoiadores.
Ainda que se considerasse que Zelaya cometeu crime ao ter formulado uma proposta de consulta popular contrariamente à Constituição, que o devido processo legal seria desnecessário por não previsão de procedimento específico de cassação de seu mandato na Carta hondurenha, que a Corte maior daquele país sancionou a decisão golpista de detê-lo, a forma de execução dessa decisão foi integralmente atentatória a dispositivos expressos da Constituição de Honduras.
O artigo 102 estabelece expressamente que nenhum hondurenho pode ser expatriado nem entregue pelas autoridades a um Estado estrangeiro. Ter detido Zelaya ainda de pijamas e tê-lo posto para fora do país de imediato atenta gravemente contra tal dispositivo.
A conduta golpista tratou-se de um cipoal de inconstitucionalidades, ao contrário do que postularam articulistas apressados, mais animados pela simpatia ao golpe de direita que por qualquer avaliação mais precisa e sistemática da Constituição hondurenha. Os atos praticados formam um atentado grave a diversos dispositivos da Carta Magna daquele país.
Em verdade, a conduta dos golpistas e dos que os apoiaram é que, clara e cristalinamente, constitui crime conforme o disposto no artigo 2º da Carta hondurenha, que tipifica como delito de traição da pátria a usurpação da soberania popular e dos poderes constituídos.
Podem querer alegar que, mesmo inconstitucional, toda a conduta golpista foi sustentada pela Corte maior. À Corte constitucional cabe o papel de interpretar a Constituição e não de usurpá-la às abertas. Sua autoridade é exercida não em nome próprio, mas como intérprete da Constituição, cabendo-lhe defendê-la, não destruí-la.
Ao agir como agiu, a Corte hondurenha realizou o que no âmbito jurídico tem-se como “poder constituinte originário”, ou seja, uma conduta política e não jurídica, originária, de fundação de uma nova ordem constitucional. Uma ordem imposta, de polícia e não democrática. Na ciência política, o mesmo fenômeno tem outro nome: golpe de Estado.

*PEDRO ESTEVAM SERRANO, mestre e doutor em direito do Estado, é professor de direito constitucional da PUC-SP

30/09/2009 - 15:43h O Brasil de Lula é inimigo do golpismo

ELIO GASPARI – FOLHA SP


Nosso Guia fez o certo, a praga das 300 quarteladas do século passado precisa de uma vacina


LULA DISSE bem: “O Brasil não acata ultimato de governo golpista. E nem o reconheço como um governo interino (…) O Brasil não tem o que conversar com esses senhores que usurparam o poder”.
Os golpistas hondurenhos depuseram um presidente remetendo-o, de pijama, para outro país, preservam-se à custa de choques de toque de recolher e invadiram emissoras. Eles encarnam praga golpista que infelicitou a América Latina por quase um século. Foram mais de 300 as quarteladas, uma dúzia das quais no Brasil, que resultaram em 29 anos de ditaduras. Na essência, destinaram-se a colocar no poder interesses políticos e econômicos que não tinham votos nem disposição para respeitar o jogo democrático.
Decide-se em Honduras se a praga ressurge ou se foi para o lixo da história. Nesse sentido, o governo de Nosso Guia tem sido um fator de estabilidade para governos eleitos democraticamente. Se o Brasil deixasse, os secessionistas de Santa Cruz de La Sierra já teriam defenestrado Evo Morales. Lula inibiu a ação do lobby golpista venezuelano em Washington. Se o Planalto soprasse ventos de contrariedade, o mandato do presidente paraguaio Fernando Lugo estaria a perigo.
Para quem acredita que a intervenção diplomática é uma heresia, no Paraguai persiste a gratidão a Fernando Henrique Cardoso por ter conjurado um golpe contra Juan Carlos Wasmosy em 1996. Em todos os casos, a ação do Brasil buscou a preservação de governos eleitos pela vontade popular.
No século do golpismo dava-se o contrário. Em 1964, o governo brasileiro impediu o retorno de Juan Perón a Buenos Aires obrigando-o a voltar para a Europa quando seu avião pousou para uma escala no Galeão.
A ditadura militar ajudou generais uruguaios, bolivianos e chilenos a sufocar as liberdades públicas em seus países. (Fazendo-se justiça, em 1982 o general João Figueiredo meteu-se nos assuntos do Suriname, evitando uma invasão americana. Ele convenceu o presidente Ronald Reagan a botar o revólver no coldre. Nas suas memórias, Reagan registrou a sabedoria da diplomacia brasileira.)
O “abrigo” dado ao presidente Manuel Zelaya pelo governo brasileiro ofende as normas do direito de asilo. Pior: a transformação da Embaixada do Brasil em palanque é um ato de desrespeito explícito. Já o cerco militar de uma representação diplomática é um ato de hostilidade. Fechar a fronteira para impedir a entrada no país de uma delegação da OEA é coisa de aloprados. A essência do problema continua a mesma: o presidente de Honduras, deportado no meio da noite, deve retornar ao cargo, como pedem a ONU e a OEA.
Lula não deve ter azia com os ataques que sofre por conta de sua ação.
Juscelino Kubitschek comeu o pão que Asmodeu amassou porque deu asilo ao general português Humberto Delgado. Amaciou sua relação com a ditadura salazarista e, com isso, o Brasil tornou-se um baluarte do fascismo português. Ernesto Geisel foi acusado de ter um viés socialista porque restabeleceu as relações do Brasil com a China e reconheceu o governo do MPLA em Angola.
As cartas que estão na mesa são duas: o Brasil pode ser um elemento ativo para a dissuasão de golpismo, ou não. Nosso Guia escolheu a carta certa.

23/09/2009 - 09:13h Honduras: Governo golpista atacou território brasileiro

ANÁLISE

Governo golpista atacou território brasileiro

CLÓVIS ROSSI – FOLHA SP

ENVIADO ESPECIAL A PITTSBURGH

Quando o chanceler Celso Amorim diz que o Brasil não tolerará nenhuma ação contra a sua embaixada em Tegucigalpa está apenas dizendo o óbvio. País algum tolera violações de sua soberania -e não custa lembrar que a embaixada é tecnicamente território brasileiro.
Portanto, quando o governo de Roberto Micheletti cortou água, telefones e luz da embaixada atacou território brasileiro. Quando as suas forças repressivas jogaram bombas de gás lacrimogêneo no território da representação brasileira, igualmente atacaram território brasileiro.
É claro que invadir a embaixada (para prender o presidente constitucional Manuel Zelaya) seria infinitamente mais grave, mas violações de soberania não podem -ou não devem- ser medidas a quilo.
O problema com a frase de Amorim é que o governo brasileiro não tem como reagir. Pelo menos não fisicamente. É inimaginável mandar tropas para retaliar um eventual ataque. No máximo, pode-se pensar em um reforço na segurança da embaixada, mas parece evidente que o governo golpista não o deixaria entrar.
Resta o recurso à legislação internacional, inevitavelmente demorado demais para uma situação de emergência. É bom lembrar que nem a condenação unânime do golpe pelo mundo todo nem as sanções ou ameaças de sanções adotadas por quase todos os países latino-americanos, pelos Estados Unidos e pela União Europeia -nada disso comoveu os golpistas.
Golpistas em geral só entendem uma linguagem, a da força. Violações de territórios estrangeiros, como o são as embaixadas, só ocorreram, na América Latina, em regimes tirânicos, caso por exemplo do Chile de Augusto Pinochet.
Que os golpistas hondurenhos agora repitam a violência desmente, se ainda preciso fosse, qualquer hipótese de que não deram um golpe, apenas restauraram a democracia que Manuel Zelaya supostamente ameaçava.

17/09/2009 - 16:13h Alguns jamais aceitarão um presidente negro

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Maureen Dowd, THE NEW YORK TIMES

O presidente Barack Obama, que em geral tem uma atitude de grande desenvoltura, ficou estupefato. Cercado de brancos de meia idade, Joe Wilson berrou “você mente!” para o presidente, que não estava mentindo.

Mas, certo ou não, o que eu ouvi foi uma afirmação implícita: Você mente, rapaz! (o termo rapaz era usado aos negros pelos brancos do sul). Foi uma explosão inesperada, por se tratar de um parlamentar republicano de segundo escalão da Carolina do Sul, que até então mal havia chamado a atenção da imprensa.

Agora, graças ao episódio ele se transformou, da noite para o dia, num herói da direita. O deputado pertence aos Filhos dos Veteranos Confederados. Em 2000, ele liderou uma campanha para que a bandeira dos Confederados tremulasse no topo da Câmara dos Representantes da Carolina do Sul, e denunciou como uma “calúnia” a declaração de uma mulher negra, cuja veracidade foi posteriormente confirmada, que se dizia filha de Strom Thurmond, o candidato segregacionista à presidência em 1948.

Hesitei em admitir que a loucura histérica – os esforços frenéticos para pintar nosso primeiro presidente negro como o outro, o estrangeiro, socialista, fascista, marxista, racista, comunista, nazista; uma pessoa de moral duvidosa que deixará os velhos morrer; uma víbora que envenenará as crianças com sua doutrina – tinha a ver com raça.

Eu tendia a concordar com alguns assessores de Obama, segundo os quais os presidentes democratas sempre provocaram uma reação raivosa em pessoas paranoicas. Mas a chocante falta de respeito de Wilson pela pessoa do presidente – nenhum democrata jamais gritou “mentiroso” para Bush quando ele nos impingiu a falsa justificativa da guerra no Iraque – me convenceu: algumas pessoas não conseguem acreditar que um negro é o presidente, e jamais acreditarão.

“Essas explosões, em grande parte, têm a ver com a vontade de tirar de Obama a legitimidade de seu cargo”, disse o deputado democrata Jim Clyburn, um dos mais representativos da Carolina do Sul. “Estas questões devem ser tratadas com rigor. Meu pai costumava dizer: “Filho, lembre sempre de que quem cala consente.”"

Obama, da geração pós-60, vivendo no longínquo Havaí, não participou das importantes lutas racistas da história dos EUA. Agora, ele está bem no meio de um período de turbulência racial provocada por sua ascensão. Mesmo que ele e seus assessores brancos prefiram não reconhecer abertamente o fato, este presidente é a figura do defensor dos direitos humanos por excelência – um negro cuja legitimidade é continuamente contestada por um setor radical de malucos.

Durante dois séculos, o Sul temeu que os negros ou os federados tomassem o poder. Com Obama, agora eles se defrontam com ambos. O Estado que disparou o primeiro tiro na Guerra Civil nos EUA nos presenteou com o senador Jim DeMint, que exortou os conservadores a “quebrar” o presidente derrubando seu plano de reforma da saúde; com Rusty DePass, um ativista republicano que afirmou que um gorila que fugiu do zoológico é “apenas um dos antepassados de Michelle”; com Mark Sanford, que tentou recusar o dinheiro do pacote de ajuda do presidente. E agora temos Joe Wilson.

“Muitas pessoas na Carolina do Sul repudiam a ideia de que fazemos parte da união”, afirmou Don Fowler, o ex-presidente nacional do Partido Democrata, que leciona Política na Universidade da Carolina do Sul. Ele observou que quando a escravidão foi destruída por forças externas e a segregação foi abolida pelos líderes do movimento pelos direitos humanos e pelo Congresso, isso provocou uma verdadeira xenofobia.

Clyburn alertou os assessores de Obama, que querem perdoar Wilson, a ignorar os repentes ignorantes e ir em frente: “O pessoal da Casa Branca terá de descobrir como lidar com esse tipo de coisa e não deixar a situação degenerar. Caso contrário, o apoio que Obama tem recebido irá para a direção errada.”

*Maureen Dowd é cronista política

30/08/2009 - 16:12h Um ano depois, Brasil passa no teste e sai da crise maior do que entrou

Para especialistas, avanço do País e de outros emergentes é uma das características do mundo pós-crise

Fernando Dantas – O Estado SP


O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O’Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ‘esse cara é bom’”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O’Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.

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”Não foi o fim do mundo que se prenunciava em dezembro”

Reação global de governos impede crise pior; papel da China se torna vital para retomada

Fernando Dantas – O Estado SP

A crise global não foi tão ruim quanto parecia no pior momento, entre o fim do último trimestre de 2008 e o primeiro de 2009. “Não foi o fim do mundo que se prenunciava em janeiro e dezembro, porque a reação dos governos foi do tamanho da crise”, diz Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA, comentando os maciços pacotes fiscais e a política monetária expansionista convencional (corte de juros) e não convencional (injeção de dinheiro na economia pela compra de títulos em poder do mercado) das principais economias do mundo.

Hoje, mesmo um observador relativamente pessimista, como Kenneth Rogoff, de Harvard, prevê que o mundo deve se estabilizar num crescimento em torno 4%, menos que o ritmo próximo de 5% dos anos anteriores à crise, mas já claramente fora da recessão. Ele ressalva que a atual recuperação “não é normal, com o sistema todo na UTI, o sistema bancário bancado pelo governo, e o mercado residencial se estabilizando apenas por causa dos grandes subsídios às hipotecas.”

Barry Eichengreen, da Universidade Berkeley, é outro que mostra ceticismo quanto ao vigor da recuperação mundial. “A mudança mais importante na economia pós-crise é o grande endividamento nos países industriais avançados, que tornará as finanças públicas restritivas, criando um ambiente inamistoso para o investimento, e que não é bom para o crescimento.” Ele se refere à necessidade que os governos dos países ricos terão de aumentar impostos e cortar gastos para contrabalançar o enorme crescimento da dívida pública na esteira dos grandes déficits fiscais da política contracíclica.

Um ponto crucial para sustentar a recuperação global é a capacidade da China de insuflar a demanda global. Para Rogoff, “a mudança número um do mundo pós-crise é que o consumidor americano, o combustível da economia mundial no último quarto de século, provavelmente será menos energético nos próximos cinco a dez anos.”

A grande questão, hoje, é saber se o recuo do superendividado consumidor americano pode ser compensado pelo avanço do consumo na China e em outros países emergentes asiáticos, e até no Brasil.

Para Rogoff, “a demanda dos mercados emergentes vai substituir a dos EUA, mas isso não acontecerá de um dia para o outro.” Essa mudança, ele continua, exige uma grande reestruturação da economia chinesa, que ainda está voltada para as exportações, e não para expandir o consumo interno.

Jim O’Neill, do Goldman Sachs, discorda: “Essa crise talvez tenha sido necessária, porque forçou a China a fazer uma transição para o crescimento puxada pela demanda interna. Isso era exatamente o que o mundo precisava para evitar a crise, e é o que mundo precisa para sair da crise.”

Para O’Neill, os dados da expansão de consumo da China são muito claros. As vendas de varejo saltaram 15,2% em julho e, nos últimos dois anos, convertidas em dólares, apresentam um avanço maior do que o recuo no consumo americano. Em relação ao setor externo, o economista inglês diz que tentou apostar recentemente, com membros da equipe econômica do governo britânico, que a China terá déficit comercial nos próximos dois anos. “Mas agora nós achamos que é possível que isso aconteça nos próximos 12 meses. Desde abril, o crescimento das importações chinesas é muito mais forte que o das exportações.”

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Crise mudou mapa da globalização

Mudança ocorreu tanto no comércio quanto nos investimentos e nas relações de poder de órgãos internacionais

Jamil Chade – O Estado SP

Os fluxos de investimentos mudaram de direção, a China se transformou no maior exportador do planeta e organizações consideradas como pilares das decisões internacionais hoje são questionadas e até substituídas. Em 12 meses, a crise acelerou processos de profunda mudança na geografia da globalização e uma incipiente nova relação de poder entre países.

No campo comercial, a maior novidade foi a transformação da China na maior exportadora do mundo. Por uma margem mínima, superou a Alemanha, que liderava desde 2003. A China exportou US$ 521,7 bilhões em seis meses, ante US$ 521,6 bilhões da Alemanha. Os americanos estão na terceira colocação.

A China já vinha subindo no ranking mundial. Mas a crise na Europa acelerou sua nova posição. Em 2002, a China era a quinta maior exportadora, com vendas anuais de US$ 325 bilhões, US$ 200 bilhões abaixo do que o país vendeu apenas nos últimos seis meses. Em 1997, a China era apenas a 16ª maior exportadora, com US$ 24,5 bilhões em vendas.

Nos últimos anos, dezenas de medidas foram adotadas contra os produtos chineses, que são hoje os mais afetados por medidas restritivas. Uma delas foi adotada pelo Brasil no início do ano para barrar a entrada de produtos siderúrgicos.

A crise ainda redesenhou o mapa dos principais destinos das exportações de vários países, inclusive o do Brasil. Neste ano, a China superou os EUA como o principal comprador de bens brasileiros. Além disso, passou a ser o maior fornecedor de produtos à Europa, acabando com 50 anos de relação comercial privilegiada entre europeus e americanos.

Em junho, as importações americanas estavam 34,5% abaixo dos níveis de junho de 2008. No ano passado, os Estados Unidos foram os maiores importadores do planeta, consumindo mais de 12% de tudo o que o mundo exporta.

No setor de investimentos, a crise também mudou a estratégia de multinacionais e coloca os países emergentes no centro da internacionalização. Levantamento com mais de 240 multinacionais elaborado pela ONU deixou claro que não há um risco de “desglobalização” da produção. O processo de internacionalização será retomado, mesmo mais lentamente. E será direcionado de forma cada vez mais clara aos emergentes.

A pesquisa mostrou que as multinacionais continuarão a investir no exterior para a internacionalização de suas vendas, produção e compra de ativos. Tanto em países emergentes como nos ricos, o levantamento indica que a crise está dando um incentivo extra para as empresas buscarem novos mercados, além de novos locais de produção para reduzir custos.

A tendência de uma maior atenção aos emergentes já vinha ocorrendo nos últimos dez anos. Em 1998, os países em desenvolvimento tinham 8% dos fluxos de investimentos, ante 13% em 2007. A tendência é de que a taxa aumente até 2011.

A preferência será pela Ásia, pelo tamanho do mercado e acesso a trabalhadores mais baratos. Cinco dos 15 maiores destinos de investimentos estarão na Ásia até 2011. Os países que formam o Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – ocupam agora quatro dos cinco primeiros lugares preferidos para investimentos até 2011 e dividem as preferências com os americanos.

Em termos gerais, porém, o mundo ainda verá uma queda de investimentos em 2009 de cerca de 50%, ante 2008. Os mais afetados serão os países ricos, com redução de 60%. Mas os emergentes mostrarão certa resistência, com queda de apenas 25%. Em 2008, o mundo já sofreu queda de 15% nos investimentos, depois de atingir recorde de US$ 1,9 trilhão em 2007.

Outro sinal de mudança no mapa da globalização é a iniciativa de alguns países de reduzir sua dependência em relação ao dólar e acelerar a compra de papéis emitidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A decisão de Brasil, China e Rússia de se tornarem credores do FMI promove uma pequena revolução no mercado. Parte da estratégia dos emergentes é mostrar que têm como ser credores e, portanto, têm direito a uma maior voz em entidades como o FMI e o Banco Mundial.

O debate sobre os grupos e instituições financeiras ainda deixa alguns na defensiva. É o caso de Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países ricos e por anos tentou atrair os emergentes. Para Gurría, o mundo passará a viver em nova relação entre instituições e diferentes grupos de países, como o G-8 ou o G-20. “Cada grupo precisa de seu espaço. Hoje, o mundo é das redes, do network. E assim é que podemos imaginar uma nova configuração de países.”

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29/08/2009 - 12:12h Deficit salvou o mundo de cair em crise econômica pior

Nos EUA, dívida pública preocupa a longo prazo, mas cenário não chega a ser catastrófico; problema maior é político e diz respeito à qualidade dos gastos

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PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

Temos novas projeções orçamentárias que mostram um deficit cumulativo de US$ 9 trilhões ao longo dos próximos 10 anos. De acordo com muitos comentaristas, é um número apavorante e requer medidas drásticas que envolvem, especialmente, o cancelamento dos esforços de estímulo à economia e o abandono da proposta de reforma do sistema de saúde no país.
A verdade é mais complicada e menos assustadora. No momento, o deficit está na verdade ajudando a economia, já que salvou os Estados Unidos e outras grandes economias do mundo de uma queda ainda mais profunda. A perspectiva de longo prazo é preocupante, mas não se pode dizer catastrófica.
A única causa real de preocupação é política. Os Estados Unidos serão capazes de enfrentar suas dívidas se os políticos de ambos os partidos se provarem dispostos a demonstrar um mínimo de maturidade. Será que preciso dizer mais?
Comecemos pelos efeitos do deficit deste ano.
Existem dois motivos principais para a disparada do deficit. O primeiro é que a recessão gerou tanto queda acentuada na receita tributária quanto elevação nos gastos com seguro-desemprego e outros programas de proteção aos cidadãos. Segundo, houve pesados desembolsos no resgate às instituições financeiras. Estes são computados como parte do deficit, embora o governo esteja adquirindo ativos no processo e, no futuro, deva receber de volta ao menos uma parte do que gastou.
O que isso nos informa é que no momento é bom manter um deficit. Considerem o que teria acontecido caso o governo dos Estados Unidos e os de outras nações do mundo tivessem tentando equilibrar seus orçamentos, como fizeram no início dos anos 30. É uma ideia assustadora. Caso os governos tivessem elevado os impostos ou cortado os gastos diante da crise, caso tivessem se recusado a resgatar as instituições financeiras, poderíamos facilmente ter assistido a uma versão renovada da Grande Depressão.
Como eu afirmei, o deficit salvou o mundo.

Gastos maiores
Na verdade, seria melhor para nós que os governos se dispusessem a aumentar seus gastos ainda mais pelos próximos dois anos. A projeção oficial da Casa Branca mostra uma nação condenada a um longo purgatório, com a persistência de desemprego alto por anos. Se tudo isso se provar correto e temo que seja inevitável, deveríamos estar fazendo mais, e não menos, para sustentar a atividade da economia.
Mas e quanto a todas essas dívidas que estamos acumulando? Elas são um problema, mas é necessário manter a perspectiva. Os economistas normalmente avaliam a sustentabilidade das dívidas nacionais observando a relação entre seu valor e o PIB (Produto Interno Bruto). E embora US$ 9 trilhões sejam uma soma imensa, nós também temos uma economia imensa, o que significa que as coisas são menos assustadoras do que seria de imaginar.
Eis uma maneira de considerar: estamos diante de uma alta de cerca de 40% na relação entre a dívida e o PIB. Os juros reais sobre essas dívidas adicionais (é necessário subtrair a inflação) serão de provavelmente 1% do PIB, ou 5% da receita federal. Não parece um fardo esmagador.
É claro que isso presume que o crédito do governo dos Estados Unidos continuará a ser bom, de modo a que o país possa continuar captando recursos a taxas de juros relativamente baixas. Até agora, isso continua verdade. A despeito da perspectiva de grande deficit, o governo continua capaz de captar fundos a uma taxa de juros de menos de 3,5%, baixa sob os padrões históricos. As pessoas que fazem apostas com dinheiro real não parecem preocupadas com a solvência dos Estados Unidos.

Administrável
Os números explicam o motivo. De acordo com as projeções da Casa Branca, em 2019 a dívida federal líquida dos Estados Unidos será de cerca de 70% do PIB. Não é um bom número, mas fica em uma faixa que se provou historicamente administrável para os países avançados, mesmo aqueles que tenham governos relativamente fracos. No começo dos anos 90, a Bélgica país profundamente dividido em linhas idiomáticas, tinha dívida de 118% do PIB, enquanto a Itália, que afinal de contas é a Itália, tinha dívida líquida de 114% do PIB. Nenhum dos dois países enfrentou uma crise financeira.
Assim, será que existe algo com que devamos nos preocupar? Sim, mas os perigos são políticos e não econômicos.
Como afirmei, essas projeções para os próximos 10 anos não são tão más quanto algumas pessoas vêm dizendo. Em prazo realmente longo, porém, o governo dos Estados Unidos enfrentará grandes problemas a menos que realize algumas mudanças importantes. É preciso, especialmente, conter o crescimento dos gastos com os programas federais de saúde Medicare e Medicaid.
Isso não deveria ser difícil no contexto de uma reforma geral da saúde. Afinal, os Estados Unidos gastam muito mais com a saúde do que outros países avançados, sem apresentar resultados melhores, de modo que deveríamos ser capazes de obter melhor custo benefício em nosso sistema.
Mas isso não acontecerá, é claro, se até mesmo as mais modestas tentativas de melhorar o sistema forem objeto de esforços demagógicos de parte dos conservadores, para retratá-las como uma forma de “desligar os aparelhos da vovó”.
Assim, não se incomode com o deficit deste ano; na verdade precisamos elevar a dívida federal no momento, e precisaremos continuar a fazê-lo até que a economia esteja solidamente a caminho da recuperação. E as dívidas adicionais devem ser administráveis. Se estamos enfrentando a possibilidade de um problema, não é porque a economia seja incapaz de aceitar dívidas adicionais. Em lugar disso, é a política, estúpido.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

24/08/2009 - 09:27h A crise financeira um ano depois

O problema agora é que o desemprego continua em alta tanto nos EUA como na Europa.

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Por Jeffrey D. Sachs – VALOR

Um ano depois do início da crise, ela parece estar sanada. Mas o desemprego continua em alta

Já transcorreu quase um ano desde que a economia mundial balançou à beira da calamidade. No espaço de três dias, de 15 a 18 de setembro de 2008, o Lehman Brothers apresentou seu pedido de falência, o controle da mega-seguradora AIG foi assumido pelo governo dos EUA e o Merrill Lynch, ícone falido de Wall Street, foi absorvido pelo Bank of America numa transação intermediada e financiada pelo governo dos EUA. Sobreveio o pânico e o crédito parou de circular. Companhias não conseguiam capital de giro, quanto mais recursos para investimentos de longo prazo. Uma depressão parecia possível.

Hoje, a tempestade foi domada. Meses de ações emergenciais promovidas pelos principais bancos centrais do mundo impediram o colapso dos mercados financeiros. Quando os bancos pararam de fornecer liquidez de curto prazo a outros bancos e companhias industriais, os bancos centrais preencheram a lacuna. Consequentemente, as principais economias evitaram um colapso do crédito e da produção. A sensação de pânico diminuiu. Os bancos estão mais uma vez emprestando uns aos outros.

Apesar de o pior ter sido evitado, muitas aflições persistem. A crise culminou no colapso dos preços dos ativos no fim de 2008. Famílias ricas e de classe média em todo o mundo se sentiram mais pobres e, portanto, reduziram suas despesas radicalmente. Os preços de alimentos e de petróleo nas alturas se somaram às aflições e, por conseguinte, à depressão econômica. Empresas não conseguiam vender a sua produção, o que acarretou cortes de produção e demissões. O desemprego crescente agravou a perda de riqueza familiar, arremessando famílias em profundo perigo econômico e levando a reduções adicionais nos gastos dos consumidores.

O grande problema agora é que o desemprego continua aumentando nos EUA e na Europa, já que o crescimento é lento demais para gerar suficientes postos de trabalho novos. Deslocamentos continuam sendo sentidos por todo o mundo.

Seguiu-se um enorme debate em torno do chamado “gasto de estímulo” nos EUA, Europa e China. Esse gasto tem como objetivo usar os maiores gastos ou incentivos fiscais do governo para compensar a queda no consumo das famílias e no investimento empresarial. Nos EUA, por exemplo, praticamente um terço do pacote de estímulo de US$ 800 bilhões consiste em redução de impostos (para estimular gastos de consumidores); um terço é composto por despesas públicas em estradas, escolas, energia elétrica e outros tipos de infraestrutura; e um terço assume a forma de transferências federais a governos locais e estaduais para serviços de saúde, seguro-desemprego, salários para escolas.

Os pacotes de estímulo são controversos, pois aumentam o déficit orçamentário e, consequentemente, implicam na necessidade de reduzir gastos ou elevar impostos no futuro próximo. A pergunta é se eles estimulam a produção e a geração de empregos com êxito no curto prazo, e, caso afirmativo, se fazem o suficiente para compensar os inevitáveis problemas orçamentários que virão.

A real eficácia desses pacotes não está clara. Suponhamos que o governo conceda uma redução de imposto para aumentar o salário líquido dos consumidores. Se os consumidores decidirem poupar essa redução em vez de estimular o consumo. Nesse caso, o estímulo terá pouco efeito positivo sobre o gasto da família, mas agravará o déficit orçamentário.

Uma avaliação inicial dos pacotes de estímulo sugere que o programa da China funcionou bem. A queda acentuada nas exportações da China para os EUA tem sido compensada por uma queda expressiva nos gastos do governo chinês com infraestrutura, digamos, na construção de metrôs nas maiores cidades da China.

Nos EUA, o veredicto é menos claro. O corte de impostos foi mais provavelmente economizado que gasto. O componente de infraestrutura ainda não foi gasto devido a longas demoras para transformar o pacote de estímulo dos EUA em projetos de construção reais. A terceira parte – a transferência para governos locais e estaduais- quase certamente tem sido bem sucedida, na manutenção das despesas com escolas, saúde e desempregados.

Em suma, os efeitos do estímulo sobre os gastos nos EUA provavelmente têm sido positivos, mas reduzidos, e sem um efeito decisivo sobre a economia. Além disso, temores em torno do enorme déficit orçamentário dos EUA, agora na casa dos US$ 1,8 trilhão (12% do PIB) por ano, tendem a aumentar, não só gerando enormes incertezas no meio político e nos mercados financeiros, mas também diminuindo a confiança dos consumidores.

Quando a crise se aprofundou há um ano, Barack Obama inseriu na campanha presidencial o tema de uma “recuperação verde”, baseada num surto de investimentos em energias renováveis, novos veículos elétricos, edifícios “verdes” ambientalmente eficientes e agricultura ecologicamente segura. No calor da batalha contra o pânico financeiro, a atenção das políticas públicas se afastou daquela recuperação verde. Agora, os EUA precisam retornar a essa ideia importante.

As políticas públicas do governo nos EUA e em outros países ricos deveriam estimular aqueles investimentos por meio de incentivos especiais. Esses incentivos incluem um sistema de teto e mercado para emissões de gás estufa, subsídios para pesquisa e desenvolvimento em tecnologias sustentáveis, tarifas do tipo “feed-in” (que visam estimular tecnologias de geração de energia limpa alternativa) e incentivos reguladores para energia renovável e outros atrativos para a absorção de tecnologias. “verdes”.

O mundo rico também deveria fornecer aos países mais pobres subsídios e empréstimos a juros baixos para comprar tecnologias energéticas sustentáveis, como energia solar e geotérmica. Fazê-lo se somaria à recuperação global, melhoraria a sustentabilidade ambiental de longo prazo e aceleraria o desenvolvimento econômico. A crise ainda pode ser uma oportunidade para sair de uma rota de bolhas financeiras e consumo excessivo rumo a uma rota de desenvolvimento sustentável. Na verdade, aproveitar essa oportunidade é a única receita para crescimento genuíno que nos resta.

Jeffrey D. Sachs é professor de Economia na Universidade Columbia e consultor especial do secretário-geral das Nações Unidas para as Metas de Desenvolvimento do Milênio. Copyright: Project Syndicate, 2009.

23/08/2009 - 11:55h EUA, China e a ordem econômica emergente

 

Henry Kissinger*, TRIBUNE MEDIA SERVICES – O Estado SP

 


http://www.thewashingtonnote.com/archives/kissinger.jpgNum recente jantar de encerramento anual de seu diálogo estratégico e econômico em nível ministerial em Washington, dirigentes dos Estados Unidos e da China expressaram seu compromisso com uma atitude cooperativa com um entusiasmo maior que nos quase 40 anos desde que os dois países retomaram contato em 1971. É bom que seja assim, pois a próxima década testemunhará desafios radicais à sua adaptabilidade e visão.

O diálogo anual, tal como é, se concentra inevitavelmente nos problemas do momento. Por mais proveitoso que seja, o desafio mais profundo para uma relação descrita pelo presidente Barack Obama como tão importante quanto qualquer outra no mundo, é alcançar uma visão com respeito à ordem mundial emergente.

A suposição de que o fim da recessão vai restaurar o sistema econômico global familiar, ignora a subversão psicológica e política que ocorreu.

Uma vasta maré de liquidez combinada com o apetite americano por bens de consumo enviou quantidades imensas de dólares para a China que, por sua vez, a China nos emprestou de volta para um consumo ainda maior.

Antes da crise, a China enviou legiões de especialistas aos Estados Unidos e investiu em grandes instituições financeiras americanas para aprender os segredos do sistema que parecia produzir um crescimento global permanente com pouco risco.

A crise econômica abalou essa convicção. Os dirigentes econômicos chineses perceberam que o sistema financeiro americano submeteu uma década de suas poupanças a flutuações potencialmente catastróficas.

Para proteger o valor de seu investimento em títulos do Tesouro e para sustentar sua própria economia movida a exportações, a China se vê obrigada a continuar aumentando a posse desses títulos para perto de US$ 1 trilhão.

A ambiguidade é a consequência inevitável tanto na China como nos Estados Unidos.

Por outro lado, as duas economias se tornaram cada vez mais dependentes uma da outra. A China tem grande interesse numa economia americana estável – e de preferência em crescimento. Mas a China também tem um interesse crescente em reduzir sua dependência das decisões americanas.

Como tanto a inflação como a deflação americanas se tornaram pesadelos tão graves para a China quanto são para os Estados Unidos, os dois países se defrontam com o imperativo de coordenar suas políticas econômicas.

Como maior credora dos EUA, a China tem um grau de alavancagem econômica sem precedentes na experiência americana. Ao mesmo tempo, a busca pela ampliação do escopo de decisão independente existe numa combinação ambivalente em ambos os lados.

Algumas iniciativas chinesas refletem essa tendência. Autoridades chinesas se sentem mais livres para oferecer conselhos públicos e privados aos Estados Unidos do que antes. A China começou a fazer comércio com Índia, Rússia e Brasil em suas próprias moedas.

A proposta do presidente do banco central chinês de criar gradualmente uma moeda de reserva alternativa é outro ponto em questão. Muitos economistas americanos fazem pouco dessa ideia. Mas ela aflora em tantos fóruns, e a China tem um histórico tão consistente de perseguir seus projetos com grande paciência, que deveria ser levada a sério.

Para evitar uma deriva gradual para políticas antagônicas, a influência chinesa nos mecanismos globais de tomada de decisões econômicas precisa ser reforçada.

A sabedoria convencional de uma nova ordem econômica mundial cria outro imperativo de coordenação de políticas econômicas de longo alcance. Segundo ela, a economia mundial recuperará sua vitalidade assim que a China consumir mais e os EUA consumirem menos. Mas à medida que ambos os países aplicarem essa prescrição, isso inevitavelmente alterará a estrutura política.

Uma América que consome menos importará menos da China. À medida que as exportações chinesas para os EUA diminuírem e a China mudar a ênfase de sua economia para um maior consumo e um aumento nos gastos com infraestrutura, uma ordem econômica diferente surgirá. A China será menos dependente do mercado americano e seu padrão de mudanças comerciais, enquanto a crescente dependência de países vizinhos de mercados chineses aumentará a influência política da China. Até certo ponto, a cooperação política terá de compensar essa mudança.

Uma definição cooperativa para um futuro longo não será fácil.

Historicamente, China e Estados Unidos têm sido potências hegemônicas capazes de estabelecer suas próprias agendas de forma essencialmente unilateral.

Elas não estão acostumadas a alianças estreitas ou a processos consultivos que restrinjam sua liberdade de ação numa base de igualdade. Quando estiveram em alianças, elas tenderam a dar como certo que o manto de liderança lhes pertencia e exibiram um grau de dominação inconcebível numa emergente parceria sino-americana.

Para fazer esse esforço funcionar, os líderes americanos precisam resistir ao canto de sereia de uma política de contenção extraída do manual de estratégia da Guerra Fria. A China precisa evitar uma política voltada para reduzir alegados desígnios hegemônicos americanos e a tentação de criar um bloco asiático para esse fim. No fim das contas, um confronto esgotará as duas sociedades em detrimento do bem-estar global como a 2ª Guerra fez com a Europa. Questões que só podem ser tratadas numa base global, como energia, meio ambiente, proliferação nuclear e mudança climática, requererão uma visão comum do futuro.

No outro extremo, alguns argumentam que Estados Unidos e China deviam se constituir num G-2. Um órgão governante global sino-americano tácito não é, porém, do interesse de nenhum dos dois países ou do mundo. Os países que se sentirem excluídos poderiam derivar para um nacionalismo rígido no preciso momento em que se requer uma perspectiva universal.

A grande contribuição dos Estados Unidos nos anos 50 foi tomar a frente no desenvolvimento de um conjunto de instituições pelas quais a região atlântica pudesse lidar com sublevações sem precedente. Uma região até então dilacerada por rivalidades nacionais encontrou mecanismos para institucionalizar um destino comum, reduzindo, em grande medida, as perspectivas de guerra, e levando, com o tempo, a uma ordem mundial muito mais benigna.

O século 21 hoje requer uma estrutura institucional apropriada para este tempo. As nações que margeiam o Pacífico têm um senso de identidade nacional mais forte que o dos países europeus que saíram da 2ª Guerra. Elas não devem derivar para uma versão do século 21 da clássica política de equilíbrio de poder. Será particularmente pernicioso se blocos antagônicos se formarem em cada lado do Pacífico.

Enquanto o centro de gravidade dos assuntos internacionais pende para a Ásia, e os Estados Unidos descobrem um novo papel diferente da hegemonia, mas compatível com a liderança, precisamos de uma visão de estrutura do Pacífico baseada numa cooperação estreita entre os Estados Unidos e a China, mas também suficientemente ampla para permitir que outros países que margeiam o Pacífico concretizem suas aspirações.

*Henry Kissinger é ex-secretário de Estado dos Estados Unidos

20/08/2009 - 11:44h Bancos centrais temem deflação crônica

Na Alemanha, produtos têm hoje o mesmo valor de maio de 2007

http://img.timeinc.net/time/daily/2009/0901/deflation_0116.jpg

Gustavo Chacra – O Estado SP

Os bancos centrais de países desenvolvidos começam a enfrentar o risco de a deflação se intensificar nos próximos meses, com recordes sendo anunciados nos Estados Unidos e na Europa. Na sua maior queda em seis décadas, o índice de preços ao consumidor da Alemanha despencou 7,8% em julho em relação ao mesmo mês no ano passado. Na variação mensal, a diminuição foi de 1,5%.

Segundo o Escritório Federal de Estatísticas, os produtos alemães têm hoje o mesmo valor de maio de 2007. Os preços para o consumidor na Alemanha registraram a sua primeira baixa desde a reunificação do país, em 1990, ao caírem 0,5%. A redução é dois décimos menor do que a média da zona do euro.

Do outro lado do Atlântico, o índice de preços ao consumidor americano também atingiu o seu menor nível desde 1950, ao se reduzirem 2,1% em julho, quando comparado ao mesmo mês no ano passado – em relação a junho, a inflação se manteve estável -, de acordo com dados do Departamento do Trabalho divulgados na semana passada. Assim como na Alemanha, os piores números vieram do setor produtivo, com uma redução de 6,8% nos preços desde julho de 2008, e 0,9% em junho .

A deflação tem como principal causa a redução nos preços da área energética, especialmente do barril do petróleo – apesar da elevação de ontem, que não está embutida no índice -, ao longo do último ano. Na Alemanha, a deflação anual é de 3,6% quando não se leva em conta os preços deste setor.

O Fed (banco central dos EUA) indicou que não existe risco de inflação por enquanto, o que eliminaria a necessidade de elevar os juros, evitando uma possível estagflação (inflação e recessão simultaneamente). O problema, segundo dizem alguns economistas, é que, com a deflação, há pouca margem de manobra para o Fed. Os juros já estão próximos de zero e o risco seria de um círculo vicioso como no Japão dos anos 1990.

A saída seria o aumento da demanda para o fim da deflação. Por enquanto, os sinais não indicam que isso venha ocorrendo. Ao contrário, o índice de confiança dos consumidores está em queda nos Estados Unidos por três motivos – elevado desemprego (9,4%), endividamento e maior propensão a poupar em vez de consumir.

15/08/2009 - 14:17h ”O PT só tem boas lições a dar”

A primeira-dama de El Salvador conta como o governo de seu marido se inspira no de Lula

Por Luiza Villaméa – Revista Istoé

Fotos: Jo Carval hal /AFG; esteban felix/ap; josé
FILTRO “Não estamos simplesmente importando acriticamente as experiências brasileiras”, diz Vanda

Nascida e criada na zona leste paulistana, a advogada Vanda Pignato, 46 anos, jamais sonhou com a vida em palácios. Agora, no entanto, ela só aguarda o término de uma reforma para se mudar, com o marido, o presidente Mauricio Funes, e o filho Gabriel, a quem chama de Bibi, para a residência presidencial, em San Salvador, a capital de El Salvador. Como se não bastasse o papel de primeira-dama, Vanda também assumiu a Secretaria de Inclusão Social do país, que tem sete milhões de habitantes, 10% deles abaixo da linha da pobreza. O tempo livre, dedica ao filho, que ainda não completou dois anos, e teve de ser tirado de El Salvador durante a campanha eleitoral, devido às ameaças que a família sofria. Foi o começo da cota de sacrifício que, acredita Vanda, o filho está pagando em favor do país. O garoto já se adaptou à nova realidade. “O Bibi gosta da ritualística do poder. Desde a festa da posse, em toda solenidade de que participa, ele lança acenos, todo compenetrado, para as pessoas”, conta.

Petista de carteirinha, Vanda representou o partido na América Central até junho, quando Funes, antigo correspondente da CNN em espanhol e âncora do Canal 12, foi empossado na Presidência. Há cerca de 13 anos, ela apresentou o marido a Luiz Inácio Lula da Silva, cujos programas agora inspiram o governo Funes. Não se trata, porém, de uma simples clonagem. “A esquerda salvadorenha, mesmo quando estava longe do poder, soube pensar o país”, diz Vanda.

“Temos a chance, agora, de colocar isso em prática, somando nossos esforços com a experiência de países amigos, em especial o Brasil.”

ISTOÉ - Como a sra. define seu estilo de primeira-dama?
Vanda Pignato - Sou o que sempre fui: uma mulher de ação política e compromisso social. Virei primeira-dama por uma feliz coincidência do amor e da luta política. E não vou trair, jamais, o meu destino. Ser primeira-dama me orgulha e me abre portas dentro e fora do meu país. Mas quero ser mais conhecida por meu trabalho na Secretaria de Inclusão Social.

ISTOÉ – A sra. não corre o risco de cair no clientelismo?
Vanda – Não. A secretaria, aliás, é um símbolo do estilo que queremos implantar. Ela foi criada para substituir a antiga Secretaria de Família e da Juventude, de característica clientelista. A Secretaria Nacional da Família era ocupada, tradicionalmente, pelas primeiras-damas salvadorenhas.

ISTOÉ - É possível exercer o poder sem se afastar das bases?
Vanda - Impossível mesmo é governar longe das bases. Em apenas dois meses de governo, o presidente já se reuniu mais vezes com os movimentos sociais do que em vários anos do antigo regime. O presidente quer ampliar cada vez mais sua base social e política, num trabalho de articulação com os movimentos sociais e os partidos. Ele acaba de criar, inclusive, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

ISTOÉ - Um de seus principais projetos na campanha eleitoral foi o Cidade Mulher. Ele já foi colocado em prática?
Vanda - Já temos o projeto da primeira unidade, que, aliás, é de um dos gênios da arquitetura brasileira, João Filgueiras Lima, o Lelé. Um dos arquitetos de mais sensibilidade social que conheço.

ISTOÉ - Como vai funcionar?
Vanda - O Cidade Mulher é um grande centro de apoio e atendimento às mulheres e seus filhos de até cinco anos. É um misto de espaço de convivência e de formação profissional e cultural. Em cada unidade vão funcionar creche, serviços de atendimento médico e odontológico, oficinas de formação de mão de obra, agências de microcrédito e apoio jurídico, centro de inclusão digital, biblioteca e teatro.

ISTOÉ – Quantos centros como esse El Salvador precisa?
Vanda - A ideia é construir 14 unidades em todo o país, nas capitais administrativas. Estamos buscando financiamento internacional para isso e a receptividade tem sido muito boa. Meu sonho é inaugurar a primeira Cidade Mulher no início do próximo ano.

Fotos: Jo Carval hal /AFG; esteban felix/ap; josé
“Maus exemplos antidemocráticos, como o golpe em Honduras, não prosperam mais na América Latina. Causam nojo e vergonha”

ISTOÉ - A sra. tem um filho, Gabriel, de pouco mais de um ano. Como é conciliar a maternidade com as atividades de primeira-dama?
Vanda - Às vezes é duro. Mas o Mauricio é um grande pai e isso ajuda muito. Minha família toda também é muito presente. O Bibi, como salvadorenho, está pagando a sua cota de sacrifício em favor de um país melhor para os adultos de hoje e para a geração dele, dos seus filhos e netos. E o Bibi gosta da ritualística do poder. Desde a festa da posse, em toda solenidade de que participa, ele lança acenos, todo compenetrado, para as pessoas.

ISTOÉ - Foi a sra. quem apresentou seu marido ao presidente Lula?
Vanda – Sim. Isso aconteceu há uns 13 anos. Desde o primeiro momento, rolou uma boa química e simpatia entre os dois. Além disso, eles têm uma visão de mundo bem parecida.

ISTOÉ - Como se dá o intercâmbio com o governo Lula?
Vanda - Da forma mais madura e solidária possível. O presidente Lula elevou o Brasil a um novo patamar no mundo, e feliz do país que tenha a colaboração do Brasil. Eu e Mauricio temos a felicidade de ser amigos, de muitos anos, do presidente Lula e de vários membros da sua equipe. Estamos ainda estudando as formas mais efetivas de troca de experiências e ações conjuntas em várias áreas.

ISTOÉ - O presidente, o ministro Patrus Ananias e o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, estiveram recentemente em El Salvador. Qual a contribuição deles ao governo Funes? Vanda – Eles são amigos pessoais e velhos companheiros de luta. Todos, agora, com ampla experiência em um dos governos mais exitosos do mundo. As sugestões deles têm sido valiosas para nós. Porém, o melhor é que eles estão opinando em cima de propostas nossas. Não estamos simplesmente importando acriticamente as experiências brasileiras, por melhor que elas sejam. A esquerda salvadorenha, mesmo longe do poder, soube pensar o país. Temos a chance, agora, de colocar isso em prática, somando nossos esforços com a experiência de países amigos, em especial o Brasil.

ISTOÉ - O presidente Funes pretende implantar o Bolsa Família?
Vanda - Na verdade, o governo passado, mesmo sendo de direita, já havia feito uma primeira experiência, fazendo uma cópia malfeita e diminuta do Bolsa Família. Mauricio ampliou o programa e fez modificações. É um começo. Nossa ideia é fazer um programa mais amplo e diversificado.

ISTOÉ – A sra. é filiada ao PT desde 1981 e durante muitos anos representou o partido na América Central. Como vê o PT hoje?
Vanda - O PT está num grande momento de amadurecimento e crescimento. É hoje um dos maiores partidos de massa do mundo e sabe se comportar, muito bem, como partido governante. Vi, recentemente, uma pesquisa em que ele aparece como o partido de maior preferência entre os brasileiros. Isso não é pouco.

ISTOÉ – Na crise que assola o Senado, boa parte do PT defende o presidente da Casa, José Sarney. A sra. apoia esta postura?
Vanda - Sou brasileira, mas sou também primeira-dama de um país estrangeiro. Não me compete comentar particularidades da vida política brasileira. Mas tenho experiência política suficiente para saber que o partido de um presidente deve buscar sempre dar governabilidade ao seu governo. Toda vez que apoiar o presidente e a governabilidade, o PT, na minha opinião, está agindo bem.

ISTOÉ - Quais lições a sra. leva do PT para aplicar em El Salvador?
Vanda - A principal eu posso dizer numa frase: compromisso prioritário com os mais pobres.

ISTOÉ - E quais lições a sra. leva para não aplicar?
Vanda - Acho que o PT, como partido, só tem boas lições a dar. Um ou outro problema individual não significa posição partidária.

ISTOÉ - Honduras faz fronteira com El Salvador. Como a instabilidade política daquele país afeta El Salvador?
Vanda - O caso de Honduras não afeta apenas El Salvador, mas a democracia em todo o mundo. Não é por acaso que os golpistas estão recebendo a desaprovação unânime de todos os países. Mas a democracia em El Salvador é sólida e a transição tem se dado com muito equilíbrio. Maus exemplos não influenciam mais o povo salvadorenho. Até porque tenho certeza de que no desfecho final a democracia vai vencer em Honduras.

Fotos: Jo Carval hal /AFG; esteban felix/ap; josé
“Dona Marisa não gosta de protagonismo, mas trabalha no bastidor. Ela continua sendo a principal conselheira do presidente Lula”

ISTOÉ - Mas a instabilidade política em Honduras pode favorecer a volta de golpes militares na América Latina?
Vanda - Ao contrário. Acho que vai servir para consolidar ainda mais o sentimento e a prática da democracia. Na América Latina vai ficar o sentimento de repulsa a atitudes arbitrárias e criminosas. Repito: é um mau exemplo. E maus exemplos antidemocráticos não prosperam mais na região. Causam nojo e vergonha.

ISTOÉ - O que a sra. acha da atuação de dona Marisa como primeiradama?
Vanda - Tenho o privilégio de conhecer dona Marisa e o presidente Lula há décadas. Dona Marisa é uma petista histórica, das mais apaixonadas. É uma mulher que não gosta de protagonismo, mas que trabalha, com constância e firmeza, no bastidor. É uma pessoa muito sensível e atenta às questões sociais. Ela continua sendo a principal conselheira do presidente Lula.

ISTOÉ - Dona Marisa conheceu Lula no sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Como a sra. conheceu Funes?
Vanda - Fui chamada ao Canal 12, para opinar, como diretora do Centro de Estudos Brasileiros da embaixada do Brasil, sobre a compra de um pacote de novelas. Isso foi há mais de 15 anos. Pedi na ocasião para conhecer o Mauricio, de quem eu era fã de carteirinha, por causa de seu estilo destemido e independente. Foi paixão à primeira vista.

21/07/2009 - 10:19h Lula defende expansão do BB para outros países

Presidente cobrou que o banco facilite o comércio exterior brasileiro

Fernando Nakagawa – O Estado SP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer que o Banco do Brasil seja uma multinacional financeira. Em reunião ontem com o conselho diretor da instituição, Lula pediu que o banco tenha presença expressiva nos principais parceiros comerciais do Brasil e citou América Latina, China e África. Elogiou a recente ação do BB que aumentou a oferta de crédito e adquiriu outras instituições. Ele pediu ainda que a diretoria continue com essa estratégia para ajudar na reação da economia.

A uma plateia lotada com dezenas de executivos do BB de todo o País, Lula cobrou que o banco seja um instrumento para facilitar o comércio exterior brasileiro. Deu como exemplo a China. No país asiático, que desbancou os EUA como maior parceiro comercial do Brasil, o BB tem só um escritório de representação. Para Lula, é preciso ampliar as frentes de atuação naquele mercado com a instalação de agências.

O mesmo se aplica à Venezuela e Uruguai. “Não queremos apenas um Banco do Brasil, mas um banco do nosso continente, com a alma brasileira, mas com a forma latino-americana. Por que só os bancos estrangeiros podem ser grandes e a gente não?”, provocou.

A cobrança de Lula deve acelerar os planos de internacionalização do banco. Hoje, o BB trabalha para transformar escritórios que mantém no México, Uruguai e Venezuela em agências. Nos três casos, a transformação deve acontecer ainda este ano. Na China, a abertura de uma agência é mais difícil.

Lula elogiou a aquisição de outras instituições financeiras, como o Banco Votorantim, que permitiu a entrada em um nicho ainda inexplorado: o financiamento de carros. Agora, a nova frente é o crédito imobiliário. “Só a Caixa Econômica não vai dar conta do que vai acontecer nos próximos anos. Vamos ser sócios, o BB e a Caixa, porque senão não acompanharemos o crescimento (do mercado).”

Para Lula, se o BB não atua em segmento importante, o caminho é adquirir a concorrência. “Vamos comprar a expertise”, sugeriu. Ao deixar o encontro, o presidente do BB, Aldemir Bendine, disse que continua atento. “Mas, no momento, não vemos nenhuma boa oportunidade.”

Lula aproveitou para criticar as privatizações no setor ocorridas na década passada.

“Bancos tão importantes foram praticamente doados, como o Banespa que foi vendido a preço de nada. Jogou-se em cima dos bancos a irresponsabilidade dos governantes que gerenciavam ou, muitas vezes, usavam esses bancos para fazer caixa 2.” Em novembro de 2000, o espanhol Santander pagou R$ 7 bilhões pelo banco paulista, com ágio de 281% sobre o preço mínimo.

Em linha com as indicações do presidente da República, Bendine anunciou que o BB vai começar a operar um Fundo Garantidor de Operações de crédito em agosto. O fundo vai funcionar como um seguro, com o objetivo de reduzir juros para pequenas e médias empresas. Nos novos empréstimos, clientes pagam uma taxa que será revertida ao fundo. Em caso de inadimplência, os recursos serão usados para pagar a dívida Inicialmente, o fundo opera com R$ 650 milhões, sendo R$ 500 milhões do Tesouro e R$ 150 milhões do próprio BB.

Durante a reunião, Lula foi presenteado com um crachá de funcionário do BB. Ao agradecer, perguntou à plateia quais executivos presentes ingressaram como office boys no banco. Vários levantaram a mão.

“Se eu soubesse, não seria torneiro mecânico, seria office boy do BB. Inclusive, estou com vontade até de tomar um crédito consignado”, disse, tirando gargalhadas da plateia.

Instituições como o Banespa foram “praticamente doadas, vendidas a troco de nada”, diz presidente

Lula afirma que caixa dois quebrou bancos públicos

Instituições como o Banespa foram “praticamente doadas, vendidas a troco de nada”, diz presidente

SIMONE IGLESIAS – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Ao discursar ontem em encontro do Conselho Diretor do Banco do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva culpou a irresponsabilidade gerencial pela venda de bancos públicos. Sem citar nomes, afirmou que alguns políticos usaram essas instituições para fazer caixa dois em campanhas e deu o exemplo do Banespa.
“Talvez [se sinta] arrependimento no Brasil porque bancos importantes como o Banespa foram praticamente doados, vendidos a troco de nada. Jogou-se em cima dos bancos a irresponsabilidade dos governantes que gerenciavam esses bancos ou que muitas vezes usavam esses bancos para fazer os caixas dois da vida em época de campanha eleitoral. Por isso que todos os bancos públicos estavam quebrados.”
Apontado como um dos responsáveis pela quebra do Banespa, o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia é hoje um dos maiores aliados dentro do PMDB do governador José Serra (PSDB), pré-candidato a presidente em 2010. Quércia sempre negou responsabilidade pela crise do banco.
O Banespa foi vendido para o Santander por R$ 7 bilhões em 2000, seis anos depois de sofrer intervenção do Banco Central. Sua venda foi cercada de suspeitas, a ponto de levar à criação de uma CPI na Câmara dos Deputados, em 2001. A comissão indiciou diretores e funcionários do Banco Central pela manipulação contábil do balanço de 1994 com “motivação exclusivamente política”.
Em 2007, 20 ex-gestores do Banespa foram condenados à prisão pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região sob acusação de gestão temerária no Banespa nos anos 90.
Lula criticou as tentativas de privatização do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal e disse que só agora o país tem a dimensão da importância da manutenção de bancos estatais fortes. Afirmou que parte dos problemas enfrentados pelo presidente norte-americano, Barack Obama, dá-se pelo fato de não ter um banco público.
“Tenho participado de G14, G20 e sei a diferença de presidentes que têm bancos públicos e os que não têm e que se deixaram levar pelas teorias da década de 90 de que o mercado resolveria os problemas.”

Choque de gestão
Lula criticou ainda o chamado “choque de gestão”, marca de governos tucanos. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), é um dos que assumiram em 2003 propondo e, depois, colocando em prática o mecanismo.
“Costumam dizer que o Estado é um mau gerente, que empresa pública está mal administrada e falam que precisa de choque de gestão. Choque de gestão no Brasil é mandar gente embora, é reduzir o custo da folha de pagamento”, disse o presidente.

09/06/2009 - 08:54h Copa, turismo e emprego

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José Pastore* – O Estado SP

O IBGE acaba de publicar novos dados sobre as atividades características do turismo (ACT). Em 2006, cerca de 5,7 milhões de pessoas trabalhavam nessas atividades – 6,7% da população economicamente ativa.

Com quase 7% da nossa população trabalhando nas ACT o Brasil não estaria mal, porque a média mundial é de 10%. Ocorre que a classificação utilizada pelo IBGE é demasiadamente ampla. Por exemplo, cerca de 50% dos trabalhadores das ACT estão na alimentação, que inclui todos os bares, lanchonetes e restaurantes, não necessariamente turísticos.

Quando se consideram apenas as atividades propriamente turísticas (alojamento, agências de viagem, cultura, lazer e transporte), o número de trabalhadores cai para menos de 2 milhões. Destes, apenas 900 mil trabalham no mercado formal – apenas 1% da nossa força de trabalho. Mesmo quando se considera o pessoal ocupado em atividades indiretas que sustentam as do turismo – cerca de 800 mil pessoas -, o montante de emprego formal nesse setor não chega a 2% (Alfonso R. Arias e Maria Alice C. Barbosa, Caracterização da mão de obra do mercado formal do turismo, Brasília: Ipea, 2007).

Por aí se vê o quanto estamos longe da média mundial dos campeões do turismo, que têm muito mais de 10% da população economicamente ativa empregada nesse setor, como é o caso de França, Espanha e EUA. Em 2006, a França, que ocupa o primeiro lugar, atraiu 82 milhões de turistas estrangeiros; a Espanha (2º lugar), 60 milhões; os EUA (3º lugar), 56 milhões; enquanto o Brasil ficou com um tímido 41º lugar, com apenas 5 milhões de turistas do exterior.

Não há a menor razão para ser assim. É verdade que não dispomos dos belíssimos museus do Louvre (Paris) e do Prado (Madri) ou de uma Disneyworld (Orlando), mas o Brasil possui uma imensidão de belezas naturais e expressões culturais sedutoras para o turismo de lazer e de negócios (convenções e congressos). A própria rede hoteleira cresceu e melhorou muito nos últimos anos.

Será que a Copa do Mundo terá força para virar o quadro atual? Penso que sim, mas há condições.

O certame em si promoverá o Brasil no planeta, podendo atrair muitos estrangeiros. Ficando mais conhecido, mais turistas virão, mesmo depois da Copa. Para eles, o câmbio é um fator importante, embora para a Copa o seu peso diminua. Além do câmbio, o turista só voltará ao Brasil se encontrar limpeza, segurança, bons serviços e facilidade de locomoção.

Para os brasileiros, a Copa será um motivo a mais para viajar, lembrando que, até o momento o grosso da receita do turismo vem dos turistas nacionais (Wilson A. Rabay e colaboradores, Impacto Econômico do Turismo, Fipe, 2002). Com a Copa, é claro, a movimentação aumentará. Além dos fatores acima, o preço dos hotéis e dos ingressos terão um grande peso.

Tanto para estrangeiros como para brasileiros, as obras de infraestrutura serão cruciais para a alavancagem do turismo. Essas obras têm um efeito muito positivo para gerar empregos durante a construção e depois de concluídas.

Imaginem o que será necessário para transformar São Paulo numa cidade em que possam se mover, em poucas horas, mil jogadores, 20 mil jornalistas, 50 mil auxiliares e técnicos e 80 mil torcedores – sem contar as avalanches de profissionais da segurança, do transporte, do alojamento e da alimentação e ainda os milhares de espectadores que farão as comemorações. Há que se preparar o equipamento urbano e o quadro de serviços para tudo isso.

Os investimentos em infraestrutura têm um colossal impacto na geração de empregos. A construção de uma linha férrea, a duplicação de um aeroporto, a melhoria de rodovias, a expansão das telecomunicações e outros criam enormes quantidades de postos de trabalho diretos e indiretos. As estimativas do Banco Mundial indicam que, para cada 1% de crescimento nessas áreas, corresponde, em média, um crescimento de 1% do PIB e 0,5% do emprego. Para cada R$ 1 milhão investido em infraestrutura, geram-se, em média, 163 postos de trabalho! Trata-se de um resultado muito expressivo.

O Brasil tem em 2014 a oportunidade de se fixar como um polo turístico vigoroso no mapa mundial e de estimular ainda mais o turismo doméstico. Tudo dependerá de uma lição de casa feita com eficiência e baixo endividamento. Quem viver verá.

*José Pastore é professor de relações do trabalho da Universidade de São Paulo Site: www.josepastore.com.br

07/06/2009 - 14:47h O fim da classe média

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Gilles Lapouge*

De tempos em tempos, anunciam a morte da classe média. Ramon Muñoz o fez recentemente num belo artigo do jornal espanhol El País. Muitos outros “avisos de falecimento” o haviam precedido. Alguns anos atrás, o francês Louis Chauvel falava das “classes médias à deriva”, e o sociólogo Jean Lopkine anunciava que as classes médias haviam desaparecido, que elas continuavam a funcionar como “mito”.

O ponto comum entre todos esses veredictos é o pessimismo, o medo e a inquietação. Eles parecem elogios fúnebres. Consideram que o declínio da classe média provocará grandes desordens sociais e políticas. E têm razão. Então, a classe média não constitui a coluna vertebral da economia de mercado, um penhor de estabilidade e o motor das mudanças? Se ela desaparecer, a sociedade entrará em parafuso. Aristóteles, este velho grego que viveu cinco séculos antes de nossa era, nos havia prevenido: “A classe média é a fonte da estabilidade democrática”.

No entanto, embora todo o mundo esteja de acordo sobre essa agonia silenciosa da classe média, um ponto continua obscuro: ninguém sabe exatamente o que é a classe média. Mesmo a sua data de nascimento é desconhecida. Alguns a situam após 1945, durante os 30 anos de grande enriquecimento dos países avançados. Outros a remontam ao século 19, o século da máquina a vapor da burguesia. E Aristóteles já a conhecia!

Há incerteza até no que concerne a seus contornos. Ela tem uma geometria variável. Ela não é a mesma, não tem nem a mesma periferia, nem o mesmo conteúdo na primeira revolução industrial, ou em 1960, no tempo dos colarinhos brancos, ou em 2000, após a revolução informática.

Essa classe média muda também segundo o olhar dos observadores. Para uns, ela é formada pelos que ganham 1 mil (R$ 2.755) por mês. Para outros, engloba também os que têm uma receita mensal de 3 mil. É por isso, aliás, que durante muito tempo se falou não “da” classe média, mas “das” classes médias, a superior e a inferior.

Trata-se, portanto, de um objeto delicado, tão escorregadio como um sabonete molhado.

Vamos ao mais simples, portanto: esse conceito designa simplesmente a classe intermediária que se estende entre a classe rica e a classe pobre. Essa classe, outrora abastada, honrada, respeitada, tornou-se quase indigente. Ela sobrevive com 1 mil mensais, talvez.

De 1950 a 1975, essa classe intermediária cresceu bastante, pois era alimentada pelo fluxo dos antigos operários, empregados, camponeses que asce ndiam graças ao milagre econômico do pós-guerra.

Em compensação, de 1975 a 2000, assistiu-se ao movimento inverso: a classe média se esvaziou. O número de ricos e de muito ricos aumentou incrivelmente, enquanto uma grande parcela da classe média foi puxada para baixo e para a precariedade.

A classe média sofreu então duas mudanças: de uma parte, sua quantidade diminuiu, e de outra, sua renda baixou. Em 2008, 48% das pessoas pertencentes à classe média francesa não puderam tirar férias.

FENÔMENO ESTRUTURAL

E hoje? O declínio prossegue e se acentua. A pauperização também.

Hoje, os que ontem pertenciam à classe média estão, com frequência, pobres, pessoas que recebem por mês, na Europa, apenas o suficiente para sobreviver: 700 por mês na Grécia, 1 mil na Espanha e 1.400 na Alemanha ou na França (aqueles a quem chamam de “mileuristas”, palavra forjada na Espanha há alguns anos para designar os escombros dessa antiga classe média, em geral jovens ou estudantes que não dispõem de mais de 1 mil por mês).

Será o caso esperar que essa regressão seja um fenômeno temporário, uma síncope em vez de uma morte? Podemos supor que esse desastre esteja ligado à crise econômica e financeira que, partindo dos Estados Unidos, devasta o globo há um ano, essa espécie de morte cuja grande foice ceifa as fábricas, os bancos e as vidas? Infelizmente, não temos nenhuma razão para acreditar nisso.

Trata-se de um fenômeno profundo, lento e pesado. Ele opera no longo prazo, como um movimento de placa tectônica. Foi acelerado pela crise, mas não nasceu com ela. Já estava em ação antes dela. Ele começou bem antes da atual recessão. Isso significa que ele não é conjuntural, mas estrutural, não é aleatório, é fatal.

A prova? Ele é observado na totalidade dos países desenvolvidos, tanto na Polônia como na França, tanto na Alemanha como em Portugal, ou nos Estados Unidos. Acrescente-se a isso que ele progride mais ou menos com a mesma velocidade, seja qual for a ideologia, o talento ou a prática dos governos que estejam no comando. Direita, esquerda, centro, os governos podem mudar, mas o encolhimento da classe média persiste. O processo se desenvolve segundo seus ritmos e regras próprias. Ele prossegue seu curso imperturbável sejam quais forem as armas que os poderes utilizam para sustá-lo ou desacelerá-lo.

Eu me pergunto se esse declínio das classes médias, longe de ser uma consequência da crise financeira do ano passado, não seria, ao contrário, sua causa. O que se passou? A classe média americana, reduzida e necrosada há anos, havia conseguido maquiar sua própria agonia, mascará-la, apelando de maneira irrefletida e delirante ao crédito, que os bancos aliás forneciam de bom grado. A verdade é que “o rei estava nu”, mas os bancos lhe emprestavam roupas para camuflar sua nudez.

Um dia, porém, o sistema bancário, solicitado insensatamente por essa classe média ávida por luxo e distinção, mas em via de pauperização, explodiu. Desde então, a classe média se encontrou tal como ela era de fato havia já muitos anos: nua, pobre e tiritando.

Se essa análise está certa, isso significaria que o fim eventual da crise (em 2010, 2011?) não teria por efeito ressuscitar, como por um golpe de vara de condão, essa classe média naufragada? Não. Uma vez extinta a crise, as sociedades retornarão à situação que prevalecia pouco antes dela, com, de um lado, uma enorme classe indigente, de outro, uma classe de pessoas cada vez mais ricas, mais indecentes, e entre as duas, os resíduos da antiga classe média.

Essa extinção progressiva das classes médias terá efeitos devastadores sobre o equilíbrio das sociedades. Uma coisa é importante: os novos pobres, cujo número aumenta de maneira exponencial, são antigos homens e mulheres da classe média. E eles conservam dela a lembrança, a nostalgia e os hábitos.

Pior ainda: esses novos pobres, provenientes das antigas classes médias, são educados. Entre os “mileuristas”, encontram-se jovens formados em matemática, em ciências jurídicas, em letras, em belas artes. Espíritos brilhantes, formados e refinados. Ora, após concluir seus estudos, eles ganham, supondo que consigam emprego, 1 mil ou 2 mil. Portanto, amargura, desejo de revanche, desestabilização social, revolta ou revolução. Quem fez a Revolução Francesa de 1789? Os servos, os camponeses, os mendigos? Absolutamente. Esses estavam acostumados demais ao sofrimento para se revoltar. Os verdadeiros revolucionários foram os advogados sem causa, os intelectuais sem emprego, os curas desdenhados pelo alto clero.

Esse desequilíbrio entre os diplomas e os empregos (ou as rendas) longe de se reduzir só pode crescer. Hoje, em toda a Europa, os jovens aos quais não se oferece alguma ocupação não têm outra escolha senão continuar seus estudos. Temos, portanto, estudantes eternos, como nos romances de Dostoievski na véspera de uma outra revolução igualmente radical. Um estudante de 30 anos de idade é coisa corrente. E a cada ano chegam ao mercado novas multidões desvairadas, carregadas dos mais sólidos diplomas, aos quais a sociedade oferece situações grotescas, sombras de ofícios.

Ora, também aí, uma espécie de véu de ilusão é jogado sobre suas misérias. A sociedade técnica é de fato capaz de oferecer a esses jovens de alto nível intelectual, mas privados de todos os meios financeiros, ilusões, engodos. Por exemplo, todo o mundo dispõe de serviços gratuitos de internet, um verdadeiro luxo. E seria possível citar também outros engodos, outras ilusões, como as viagens a baixo custo que permitem ir até o fim do mundo quando as pessoas mal conseguem se alimentar. Não é raro um rapaz que vai e vem entre dois continentes ser constrangido, quando volta a seu país, a se alojar em pardieiros ou locais improvisados, com amigos, com outros decaídos da classe média.

Muitas vezes é a família que permite a esses jovens/velhos estudantes sobreviver e manter uma aparência de dignidade. É usual em cidades como Paris, Londres ou Praga, que um rapaz fique na casa de seus pais até os 30 anos de idade ou mais. Mas o sistema não é eterno. Aliás, os próprios pais estão sendo pouco a pouco vitimados pela pauperização. As aposentadorias diminuem, de sorte que os pais não podem mais ajudar seus filhos a sobreviver decentemente.

Contudo, embora os pais sejam também vítimas do declínio da classe média, eles continuam a desfrutar de uma vida mais digna e confortável que seus filhos. O desaparecimento, ou ao menos o esgotamento da classe média, produziu essa consequência perversa: hoje, os filhos sabem que não atingirão na sociedade um bem-estar igual ao de seus pais.

Até recentemente, o esquema era inverso: o filho vivia com a perspectiva, a promessa, de viver uma vida mais brilhante, mais bela, mais expansiva que seus pais. Essa perspectiva era um dos incentivos que impeliam os jovens a trabalhar para superar seus pais. Hoje, em lugar dessa esperança, ocorre um desestímulo, uma resignação, que estende sua sombra sobre qualquer um, como a asa da morte.

Uma regressão real e durável da classe média provocaria outros desequilíbrios na sociedade e, talvez, na civilização. Aristóteles falou corretamente quando viu nessa classe média uma ferramenta de estabilidade democrática. Se essa ferramenta se quebra, a sociedade corre o risco de ceder a todas as aventuras, a todos os perigos, a todos os suicídios. Isso já se evidencia num país como a França: a ampliação contínua do desemprego provoca reações epidérmicas muito perigosas. As greves viram enfrentamentos. Podem-se temer uma conflagração e revoltas selvagens.

Os sindicatos, essas “velhas raposas políticas”, conseguiram até aqui evitar a passagem à violência cega. Mas eles são a cada dia ultrapassados pelas tropas que atingem tamanho grau de cólera que são tentadas pelo pior, brutalidades, agressões, depredações, etc.

Será possível evitar convulsões? Nada o garante. No passado, os mineiros, os operários metalúrgicos, os trabalhadores braçais menosprezados por seus chefes, travaram lutas sangrentas. O perigo hoje é ainda mais grave, contudo. As futuras revoltas poderão efetivamente nascer não dos que nunca tiveram acesso à “mesa do banquete” (como foi o caso dos grandes movimentos populares do século 19), mas dos jovens cujos pais tinham uma vida confortável, jovens que trabalharam para atingir os altos escalões da sociedade e que vegetam no submundo.

Esses jovens, massacrados pelo fim da classe média, veem a pequena camada dos ricos, dos riquíssimos, engordar às suas custas, habitar mansões das “mil e uma noites”, levar uma vida de um luxo exagerado, exibicionista e vulgar em meio a uma profusão de ouro e caviar. Seu rancor aumenta em proporção à sua decadência. E algum dia, quem sabe, eles poderão optar pela revolta.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

19/05/2009 - 12:23h Faleceu Guillermo Lora

del Diário La Razón, de Bolivia

Maestro de juventudes

Ha muerto Guillermo Lora, el formador de generaciones no sólo en el marxismo y el trotskismo sino en la manera de ver la realidad e interpretarla, un signo que marcó de por vida a personalidades.

La consecuencia y coherencia, la distancia que siempre guardó respecto al poder y su posición de cómo alcanzarlo, permiten destacar a Lora, más allá de consideraciones ideológicas.

Por eso muchos personajes influyentes de la política nacional se acercaron a él y a sus postulados ideológicos, pero muy pocos se mantuvieron con él, porque asumieron posturas más mesuradas o dieron un giro de 180 grados.

Más que una posición ideológica, el trotskismo se convirtió en parada obligada de las juventudes hambrientas de política desde los años 40, década en la que surgió la tesis de Pulacayo, de la cual Lora fue autor. El formador de generaciones descansa.

El largo camino del último bolchevique boliviano

PERFIL• Lora fue autor de la Tesis de Pulacayo y de la Historia del Movimiento Obrero.

GUILLERMO LORA • El hombre consecuente con sus ideales, como pocos.

Guillermo Lora Escóbar nació el 31 de octubre de 1922 en Uncía, población colindante con los distritos mineros de Siglo XX y Catavi, en Potosí. De padre chuquisaqueño, en sus 87 años de existencia realizó un trabajo político e intelectual influyendo a más de una generación, con el legado bibliográfico que deja para quienes aprendieron de él: “Obras Completas de 67 tomos”. “Fue un hombre muy importante para el país, más en el sentido intelectual que en el político”, afirma Jimmy Iturri, quien fue militante del trotsksimo y fue cercano a Lora.

Lora fue el militante trotskista más importante del país, haciendo suya las banderas de la revolución permanente planteada por el disidente ruso León Trotsky a principios del siglo XX, tras la revolución bolchevique de 1917. Se incorporó al Partido Obrero Revolucionario (POR) a sus 18 años. Desde entonces “mantuvo un línea de pensamiento tan claramente definida desde un principio que fue por un lado su fortaleza, pero a la vez su mayor debilidad; sacrificó la historia real a una cierta idea de la historia que tenía mucho de fatalista”, según define Jorge Lazarte.

Fue un cuestionador de las tesis estalinistas, cuyas murallas finalmente se derrumbaron en 1990, pero también se distanció de procesos revolucionarios como el cubano de 1959, e incluso hasta el final de sus días cuestionó duramente el “proceso de cambio” que lleva adelante en Bolivia el gobierno de Evo Morales.

Quizás Lora haya sido el político más aislado del repertorio nacional, cuyas relaciones apenas se notaban con la denominada IV Internacional, y con el magisterio paceño a través de dirigentes sindicales como Wilma Plata y de su hermano Miguel.

Pero por otro lado, fue uno de los más influyentes en términos de formación política, de ello pueden dar fe quienes se hicieron personalidades en otros ámbitos como Herbert Müller (ex ministro), Erick Rojas (subalcalde de Mallasa), Jimmy Iturri (delegado del Bicentenario), Fernando Molina (director de Pulso), Alfredo Rada (ministro de Gobierno), Pedro Montes (ejecutivo de la COB), Rodrigo Ayala (cineasta), Vidal Márquez (dueño de Yachaywasi), entre otros.

Lora estudió leyes en universidades de La Paz y Cochabamba. En 1947 fue elegido diputado por la provincia Bustillos del departamento potosino. Es el autor de la Tesis de Pulacayo, postulado que fue un referente importante para la revolución de 1952. Compartía sus ideas en textos que ofrecía a la venta en un subterráneo del centro paceño.


Murió el líder del trotskismo

El líder del Partido Obrero Revolucionario (POR) falleció ayer a los 87 años de edad a causa de un cáncer hepático. Políticos e intelectuales lamentan la pérdida del hombre que fue consecuente con sus ideales.

A los 87 años de edad, Guillermo Lora, principal líder trotskista en Bolivia y líder del Partido Obrero Revolucionario (POR) durante seis décadas, murió ayer aquejado por un cáncer hepático, que se le fue diagnosticado hace aproximadamente tres meses.

“Guillermo perteneció a la segunda generación del POR, se incorporó a la organización por los años de 1952 a 1953, incursionó políticamente en el seno del movimiento minero. Murió a los 87 años, él sufrió una corta enfermedad, se le encontró cáncer hepático hace más o menos tres meses y combatió hasta donde pudo contra la muerte, pero en estos casos es inevitable la llegada de un día fatal como éste”, contó ayer a La Razón su hermano, Miguel Lora.

Lora nació en Uncía, en la provincia Bustillos del departamento de Potosí. “Fue autor de la Tesis de Pulacayo (1947), instrumento de lucha del proletariado boliviano antes, durante y después de la revolución de abril de 1952. Guillermo Lora fue un militante profesional que dedicó su existencia total a la causa popular, enmarcada en el paradigma de la revolución permanente y en el imperativo de la toma del poder por la clase trabajadora y sus aliados”, según el periodista Eduardo Ascarrunz, y allegado a la familia Lora.

Asimismo, José Luis Álvarez, secretario de la Federación de Maestros de La Paz y militante del POR, afirmó que la muerte de Lora es una gran pérdida no sólo para sus familiares y allegados, sino también para el país.

“No es una pérdida sólo para el sector, sino para todo el país, para todo el movimiento obrero popular, porque él (Lora) ha sido quien ha elaborado, luchado e impulsado la independencia política de los trabajadores, de los explotados con referencia al Estado y luchó contra la sociedad capitalista. Forjó la Tesis de Pulacayo”, señaló Álvarez.

Miguel contó que Guillermo no tenía hijos, “pero dejó a su compañera de toda la vida, Reina Pérez”. Agregó que también dejó 67 tomos de sus obras completas, que es un compendio de la historia del movimiento obrero.

Tras el anuncio de su deceso, el Comité de Enlace por la Reconstrucción de la IV Internacional (Cerci) emitió un comunicado en el que destacan el trabajo y el liderazgo de Lora.

“El camarada Guillermo ha sido un verdadero ejemplo de militante profesional, que ha dedicado su vida a dar expresión consciente al proletariado revolucionario”, según el documento.

De igual manera, el Comité Central del POR se pronunció y afirmó que “la vida de Guillermo en un ejemplo de consecuencia revolucionaria, de una vida entregada a la causa de los oprimidos de Bolivia y el mundo (…)”.

Dimensiones

El político • Militó desde su juventud en el Partido Obrero Revolucionario, y así falleció. Es autor de la “Tesis de Pulacayo”, que es referente del accionar de los trabajadores sindicalizados del país.

El intelectual
• Sus obras completas suman 76 volúmenes. Destaca su “Historia del Movimiento Obrero”.

18/05/2009 - 09:45h Viagem de Lula ressalta posição da China como fonte de recursos

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John Lyons, The Wall Street Journal, de São Paulo – VALOR

A indústria petrolífera brasileira tem na visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China o mais recente sinal de como a influência daquele país está crescendo em meio à crise econômica mundial.

Lula tem reunião marcada hoje, na China, com o presidente chinês Hu Jintao, que deve liberar bilhões de dólares em crédito para ajudar o Brasil a explorar suas enormes reservas de petróleo.

O Brasil vai retornar o favor garantindo a venda de petróleo para empresas chinesas.

Os países estão sendo jogados nos braços uns dos outros pela crise financeira. A estatal Petróleo Brasileiro SA quer gastar US$ 174 bilhões nos próximos cinco anos para elevar o Brasil ao alto escalão dos países produtores de petróleo. Como o mercado internacional de capitais está na UTI, a China é uma das poucas fontes de dinheiro.

A Petrobras está recorrendo à China numa época em que a presença chinesa na América Latina está em alta. O apetite do país por matérias-primas melhorou várias economias na região, que é rica em commodities. Isso aliviou o impacto da crise mundial nesses países. Em março, a China ultrapassou os Estados Unidos como maior parceiro comercial do Brasil.

Os termos do acordo ainda não tinham sido finalizados na semana passada, antes de o presidente partir, disse um alto executivo da Petrobras. O que está na mesa é um empréstimo de US$ 10 bilhões em troca de 200.000 barris de petróleo por dia, segundo um anúncio da Petrobras sobre as negociações este ano. O principal objetivo da China, porém, é usar os empréstimos para conquistar contratos para fornecer serviços e equipamentos numa época em que o Brasil está se tornando mais duro na negociação com firmas estrangeiras, disseram especialistas do setor.

Mesmo antes de um negócio ser fechado, os meses de negociações entre autoridades chinesas e brasileiras ilustraram a vantagem competitiva das empresas apoiadas pelo governo da China quando os mercados de crédito estão secos. Sublinhando a importância da China como banco de última instância, o Brasil recorreu ao país muito embora iniciativas de investimento com os chineses no passado tenham terminado em decepção.

“Os EUA têm um problema”, disse o presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli, recentemente quando perguntado sobre as negociações do empréstimo. “Não existe ninguém no governo dos EUA com quem possamos sentar e ter o tipo de conversas que estamos tendo com os chineses.”

Gabrielli estava se referindo ao fato de que os bancos do governo chinês estão dispostos a dar empréstimos enormes para tomadores estrangeiros e, assim, aproximar a China de seus objetivos de segurança energética de longo prazo, que são: garantir diversas fontes mundiais de suprimento e obter acesso de suas petrolíferas a regiões competitivas.

Uma recente sequência de empréstimos petrolíferos para a Rússia, o Cazaquistão e outros levou o total de seus compromissos para mais de US$ 45 bilhões.

Esses empréstimos diretos do governo são uma ferramenta cada vez mais poderosa numa era em que três quartos das reservas mundiais de petróleo estão nas mãos de petrolíferas estatais.

Ao lidar diretamente com governos de países produtores, a China pode usar sua riqueza para reduzir o papel de grandes petrolíferas – os intermediários tradicionais entre produtores e consumidores de petróleo.

“O que se está vendo é uma nova geopolítica de petróleo, em que negócios começam com um entendimento político e deixam de lado as petrolíferas multinacionais”, diz Roger Diwan, sócio da PFC Energy, uma consultoria americana do setor.

Certamente, multinacionais do petróleo como a Exxon Mobil Corp. e a Royal Dutch Shell PLC têm importantes vantagens tecnológicas e mais know-how de administração do que muitas estatais, o que as torna essenciais.

Além disso, as reservas mais tentadoras do Brasil são as do pré-sal, que ficam quilômetros no fundo do mar, embaixo de rochas e camadas instáveis de sal – e extrair esse petróleo provavelmente vai exigir a expertise e o poder das líderes do setor.

Por outro lado, a disposição da China de bancar projetos de petróleo deve acabar ajudando consumidores em outros países, segundo especialistas. A maioria do petróleo mundial é vendido no mercado internacional à vista para quem oferecer mais. A perspectiva do investimento chinês deve conter os preços por causa da consequente alta das reservas mundiais.

A Petrobras tem uma posição peculiar, por ser controlada pelo governo mas operar com um caráter de livre mercado e ter ações negociadas em bolsa, inclusive em Nova York. E ainda ganhou uma posição inusitada no setor por ter descoberto grandes reservas de petróleo e gás. A companhia tem muito mais reservas do que pessoal e dinheiro para extrair.

O Brasil está disposto a tornar realidade seus ambiciosos planos para o setor, mesmo em meio à recessão global.

“A Petrobras é uma companhia de ação”, diz Matthew Shaw, analista sênior de América Latina da consultoria petrolífera Wood Mackenzie, da Escócia. “Ela está disposta a fazer acordos onde for necessário.”

13/05/2009 - 11:31h Os bons ventos vindos da China

Cristiano Romero – VALOR

Nos primeiros quatro meses do ano, a Ásia se tornou o principal mercado das exportações brasileiras, desbancando a União Europeia (UE), a América Latina (AL) e os Estados Unidos. Mais importante do que a diversificação do comércio do Brasil com o mundo, a mudança mostra que há sinais promissores de recuperação na China, principal responsável pelo aumento das vendas brasileiras para aquele continente. Se a boa suspeita se confirmar, o país, favorecido pela demanda asiática, poderá experimentar um relativo descolamento e sair mais cedo da crise atual.

O setor exportador é o que mais tem sofrido com a turbulência mundial. De janeiro a abril, as exportações do Brasil, calculadas pela média diária, caíram 16,5% em relação ao mesmo período de 2008. A corrente de comércio – a soma de exportações e importações – recuou 19,5%. A boa notícia é que a China, no mesmo período, aumentou de 6,5% para 12,9% a sua participação nas exportações brasileiras – o salto de todo o continente asiático foi de 16,1% para 24,8%.

Na contramão desse movimento, a participação das outras regiões nas exportações nacionais encolheu no primeiro quadrimestre – na UE, de 25,1% para 23,1%; na AL, de 26,6% para 21,3%; e nos EUA, de 14,4% para 11,3%. Essa reviravolta poderia não significar muita coisa, apenas uma acomodação das participações relativas de cada mercado em função da crise, mas o fato é que as vendas do Brasil para a China estão crescendo, em plena crise, a uma taxa acelerada – 62,66% de janeiro a março.

“O que os números do comércio exterior brasileiro e os próprios indicadores chineses parecem sugerir é que, de fato, a Ásia está voltando a respirar”, diz o economista Luiz Guilherme Schymura, diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. “Se isso é verdade, esse sopro de vida deve paulatinamente insuflar a atividade econômica também nos grandes fornecedores de matérias-primas e produtos básicos para os asiáticos, como o Brasil e outros países da AL.”

O PMI da China (sigla em inglês para Índice de Compra dos Gerentes, um indicador que mede o nível de atividade industrial baseado em cinco itens – novas encomendas, níveis de estoque, produção, entregas do fornecedor e mercado de trabalho) superou em março a marca dos 50 pontos, o que indica expansão. Na prática, voltou aos níveis de meados de 2008, ou seja, aos patamares anteriores ao início da fase mais aguda da crise .

A economista Mônica de Bolle, da Galanto Consultoria, calcula que o PMI global também está se recuperando – o fundo do poço foi registrado em dezembro de 2008, quando o índice caiu abaixo de 35 pontos -, mas continua longe dos 50 pontos. “A reação chinesa parece estar liderando a reação global. Mesmo que a autossustentação chinesa não seja capaz de gerar a resposta global que todos gostariam, alguns países poderão ser mais beneficiados do que outros”, diz ela.

Quando colocaram em prática um megapacote fiscal para atenuar os efeitos da crise, os chineses mudaram a composição de sua demanda, diminuindo a participação do investimento em bens manufaturados, que utiliza bens de capital importados de outras nações asiáticas, como a Coreia. Em compensação, eles aumentaram a importância do investimento público, que demanda insumos, como o aço, para obras de infraestrutura. Isso beneficia o Brasil. “É mais uma razão para o momento auspicioso brasileiro”, comenta a economista da Galanto.

Embora o governo tenha adotado inúmeras medidas também para apoiar as exportações, a China está tentando reduzir a dependência do mercado externo para crescer. As exportações estão sofrendo os efeitos da crise. Em abril, caíram 22,6% em relação ao mesmo mês de 2008, a sexta queda consecutiva – as importações recuaram 23%. Por outro lado, a taxa de investimento da economia cresceu 30,5% de janeiro a abril.

Na próxima Carta do Ibre, Schymura tratará da possibilidade de descolamento do Brasil na fase seguinte da crise mundial. Ele lembra que havia, antes da quebra do banco Lehman Brothers, em setembro, um certo descolamento das principais economias emergentes em relação aos países ricos. A razão para isso é que o recente boom global foi puxado em grande medida pelos emergentes.

Os emergentes foram responsáveis, de 2000 a 2007, por 85% do aumento do consumo mundial de petróleo. A área mais dinâmica dessa expansão foi a Ásia – a China respondeu, sozinha, por 37% do crescimento. Quando se observa o avanço do comércio mundial no mesmo período, constata-se que os países da OCDE – o clube das economias mais ricas – foram responsáveis por 56% do seu incremento. Parte desse número, no entanto, explica Schymura, é explicada pela intensificação das transações internas na UE. A China contribuiu, no período observado, com 13% da alta do comércio e os EUA, com 5%.

Houve também mudanças na forma como o mundo cresceu. Enquanto nas décadas anteriores, os países desenvolvidos, representados pela OCDE, respondiam por até 80% do produto mundial, entre 2000 e 2007 a participação foi bem menor – 47%. Na crise, a OCDE começou a desacelerar bem antes da quebra do Lehman, enquanto os países emergentes, embora já estivessem começando a tirar o pé do acelerador, por causa das pressões inflacionárias, só sentiram o fardo da turbulência depois de setembro de 2008, quando houve grande perturbação no mercado financeiro internacional.

“Não parece haver dúvida, portanto, que havia um descolamento relativo do mundo emergente em relação aos países ricos no período pré-Lehman”, observa Schymura. No momento seguinte, como se sabe, não houve mais descolamento. A grande questão agora, diz Schymura, é saber se, passado o momento mais agudo da crise, os emergentes retornarão ao padrão anterior ou seguirão amarrados ao desempenho da OCDE.

Talvez, seja cedo para apostar no cenário mais otimista, mas os sinais vindos do comércio exterior e de alguns indicadores da economia chinesa justificam uma esperança cautelosa.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

E-mail cristiano.romero@valor.com.br

13/05/2009 - 11:09h Exportação cai e China se apoia em demanda interna

Crise global: Sobe importação de cobre e ferro para obras de infraestrutura

Bloomberg – VALOR

O plano de estímulo do governo chinês, de US$ 585 bilhões, está mostrando resultados, fomentando a demanda interna do país. As importações de cobre e alumínio pela China subiram a níveis recordes em abril. Além disso, os investimentos da China em ativos fixos dispararam, superando a estimativa de economistas.

Mas esses resultados se contrapõem a dados divulgados ontem que mostram contínua deterioração das exportações chinesas.

Os embarques de cobre para a China tiveram alta de 7% em relação a março, para 399,8 mil toneladas, disse a Alfândega chinesa. As compras de alumínio também saltaram para um nível recorde.

As importações de cobre e derivados dispararam pois a oferta de sucata desabou e o Departamento de Reservas Governamentais provavelmente elevou seus estoques.

“A quantidade recorde está dentro das previsões do mercado e foi, de modo geral, incorporada nos preços”, disse Grace Qu, analista da CBI China, empresa de pesquisa de commodities de Xangai.

As importações de alumínio e derivados pela China quase triplicaram, para 439,9 mil toneladas, uma quantidade recorde segundo Wan Ling, analista da CRU International, em Pequim. O volume “é maior que a nossa previsão”, afirmou Wan. “As importações podem ainda pesar no mercado em maio.”

Os investimentos em ativos fixos na China tiveram uma alta de 30,5% nos primeiros quatro meses deste ano, em relação ao mesmo período de 2008, uma vez que o governo injetou recursos na construção de ferrovias, oleodutos e moradias populares. Essa alta contrabalançou a crescente crise nas exportações. Nos três primeiros meses do ano, a alta foi de 28,6%.

O relatório sobre investimentos mostra que o número de novos projetos iniciados no primeiro quadrimestre subiu 45% em relação ao mesmo período de 2008.

Já as exportações tiveram queda de 22,6% em abril, em relação ao mesmo mês de 2008, informou a Alfândega chinesa. As importações caíram 23%, deixando um superávit comercial de US$ 13,14 bilhões, menor que o de março deste ano e que o de abril de 2008.

Os novos empréstimos estão disparando, a atividade da indústria de transformação aumentou no mês passado e um outro relatório mostrou que a venda de imóveis residenciais cresceu 35,4% nos primeiros quatro meses.

A deterioração do comércio externo eleva a dependência chinesa dos gastos puxados pelo governo para propiciar uma revitalização da economia.

“Sem dúvida a economia está reagindo, mas a melhora está sendo puxada pela demanda interna e pelas políticas monetária e fiscal internas”, afirmou Isaac Meng, economista-sênior do BNP Paribas em Pequim. “Ainda é muito cedo para se prever uma virada acentuada na demanda global.”

O colapso do comércio mundial devido à recessão global arrastou o crescimento da China no primeiro trimestre para o ritmo mais fraco desde 1999. O Ministério do Comércio alertou que, se a queda das exportações continuar, o consumo e os investimentos internos serão prejudicados no longo prazo.

Alguns economistas e analistas, como Stephen Roach, presidente do Morgan Stanley Asia, acham que o governo chinês está confiando demais em uma recuperação da economia global no curto prazo.

(Com agências internacionais)

13/05/2009 - 10:44h Gasto público consegue impulsionar a economia da China

Dexter Roberts, BusinessWeek, de Tianquim, China – VALOR

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Para vislumbrar o plano de estímulo econômico chinês em ação, dê uma volta pelo terreno da Tianjin Baocheng Group. A venda de suas gigantescas caldeiras para edifícios comerciais e pequenas centrais elétricas deverá crescer 40% neste ano, para mais de US$ 25 milhões, devido à expansão acelerada da construção civil alimentada por recursos governamentais. Com a disparada na demanda, a Baocheng está construindo uma enorme nova fábrica, mais que dobrarando a produção anual. “A economia chinesa bateu no fundo do poço”, diz Chai Baocheng, um ex-soldado que fundou a empresa 25 anos atrás. Graças ao estímulo, diz ele, “daqui para a frente continuaremos só crescendo”.

O dinheiro do governo está fluindo por essa extensa cidade industrial de 12 milhões de habitantes. Porto histórico a 130 km a leste de Pequim, a área de Tianquim é hoje a região chinesa de mais rápido crescimento. Não distante dos bancos centenários construídos por franceses e britânicos, uma cavernosa nova estação serve como terminal para um trem-bala que leva só 30 minutos para chegar a Pequim. O dinheiro de estímulo ajudará a pagar a construção de uma estação ainda maior e a extensão da linha ferroviária de alta velocidade até Xangai, prevista para 2012. Há também um novo porto e uma segunda pista no aeroporto, bem como tratamento de esgotos, indústrias e hospitais – tudo construído com ajuda do dinheiro de Pequim. “Empresas estatais, privadas e estrangeiras – todos estão se beneficiando do pacote de estímulo”, diz Yang Weidong, vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Tianquim.

É uma história similar em toda a China. Apesar de três décadas de quase capitalismo, as maiores empresas e bancos continuam sob controle estatal, fazendo com que seja relativamente fácil para Pequim despejar dinheiro na economia. A febre de construções provocou um surto de 29% em investimentos em ativos fixos no primeiro trimestre, contra 25% no ano passado. E mesmo com as exportações em queda, a atividade industrial cresceu em abril pela primeira vez em nove meses. Economistas agora acreditam que a China pode atingir sua meta de crescimento de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, apesar de um PIB de 6,1% no primeiro trimestre, o menor em uma década. “A rápida reação chinesa na implementação do pacote de estímulo solucionou alguns importantes problemas na economia, fortaleceu a confiança no mercado e estabilizou as expectativas das população”, disse o premiê Wen Jiabao em abril.

Embora o pacote de US$ 586 bilhões tenha ganho as manchetes em novembro por sua notável escala, os investimentos efetivos já são muito maiores. No primeiro trimestre, os novos empréstimos bancários atingiram US$ 676 bilhões, próximo da meta do governo para o ano todo e mais que o total de empréstimos de 2007. Embora parte desses empréstimos também seja computada no pacote de estímulo, o restante significa uma grande injeção em novas obras de infraestrutura não incluídas no plano oficial. “Milhares de projetos [adicionais] estão sendo empreendidos por governos locais, e isso é estímulo também”, diz Stephen Green, diretor de pesquisas sobre a China no Standard Chartered Bank. A Baocheng, por exemplo, obteve um grande empréstimo do Banco Agrícola da China para financiar a expansão.

Alguns analistas alertam criticamente para a velocidade com que a China liberou os gastos. Temem que o dinheiro seja enterrado em projetos discutíveis de governos locais ou usados em especulação com ações e imóveis. Outros críticos dizem que o êxito inicial do pacote de estímulo pode convencer as autoridades de que a benevolência do governo é cura para todos os males econômicos. Isso poderia frear reformas, como a abertura do setor de serviços, dominado pelo Estado, a mais competição. “Enquanto o governo estiver alocando recursos, haverá desperdício e corrupção”, diz o economista Xu Xiaonian, da China Europe International Business School, de Xangai. “O que precisamos é aprofundar a abertura da economia, e não mais gasto governamental”.

13/05/2009 - 10:25h Dados indicam que recuperação chinesa será fraca

Se os dados forem ajustados sazonalmente, as exportações de abril subiram 7%

Os investimentos avançaram 30,5% nos primeiros quatro meses do ano, em comparação a 2008.

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Financial Times – VALOR

O governo chinês ainda não percebeu que há uma recuperação em andamento? As exportações chinesas caíram 23% em abril, em comparação com o mesmo mês de 2008. Foi pior do que o declínio de 17% verificado em março e do que as previsões dos economistas. Ainda assim, para os mais otimistas, ainda há espaço para certo consolo. O feriado prolongado do Ano Novo chinês poderia ter adiado parte da produção e das remessas, inflando os números de março.

De fato, se os dados forem ajustados sazonalmente, as exportações de abril subiram 7% (economistas do setor privado opõem-se e calculam queda entre 1% e 3%). Embora os dados oficiais sejam só uma fração do crescimento de 33% observado de fevereiro para março, ainda são um sinal positivo.

Além disso, os dados sobre investimento interno, divulgados ontem, animaram os mais otimistas. Com o governo despejando dinheiro na economia, especificamente em projetos de infraestrutura, os investimentos avançaram 30,5% nos primeiros quatro meses do ano, em comparação a 2008.

Ainda há, contudo, riscos consideráveis. O consumo mundial não se recuperou. Até que o faça, a China estará com uma turbina a menos. As exportações para a União Europeia, maior mercado da China, caíram 27,5% em abril, na comparação com abril de 2008. É verdade que houve alguns dados animadores sobre consumo vindos dos EUA. Do ponto de vista da China, porém, a queda nos preços embotou o brilho; os preços de importação dos EUA caíram 0,6% em março, quarta queda consecutiva.

Mesmo se o modelo da China estiver mudando para um menos dependente das exportações, essa enorme mudança estrutural inevitavelmente terá sobressaltos. Nem todo trabalhador de fábrica pode ser empregado na construção civil, nem todo industrial pode encontrar novos mercados em casa.

Como em outros lugares, desemprego e queda nos lucros não contribuirão para elevar o consumo na China. A mensagem da segunda economia global pode estar divergindo da conspiração de otimismo hoje em plena disseminação, mas se combina com a maioria dos dados entrecortados de outros lugares. Recuperação em forma de V, ao menos na China, está fora de cogitação.

12/05/2009 - 09:46h BCs estão otimistas com Brasil

Presidentes fizeram na Suíça o encontro mais ”otimista em um ano”

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Andrei Netto – O Estado SP

Os países emergentes, com China e Brasil à frente, foram os destaques da reunião bimestral dos presidentes de bancos centrais, encerrada ontem, na sede do Banco de Compensações Internacionais (BIS), em Basileia, na Suíça. O encontro, descrito como “o mais otimista em um ano”, sobre o futuro do crescimento mundial, foi marcado pelos elogios aos dois países, que já teriam superado o “ponto de inflexão” da crise econômica.

As constatações foram feitas por diferentes autoridades monetárias que participaram das reuniões de domingo e ontem e confirmadas pelo presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles. Para os banqueiros, o estado da economia mundial ainda inspira cuidados, mas os chamados “sinais antecipados” – indicadores econômicos parciais – da China e do Brasil despertaram o clima positivo nas análises.

O primeiro a ressaltar que a economia global pode estar iniciando o período pós-crise foi Jean-Claude Trichet, presidente do BC Europeu (BCE). Falando na condição de presidente do comitê de autoridades monetárias do BIS, ele afirmou que há um consenso de que a crise começa a ser revertida.

“No que se refere ao crescimento, estamos próximos do ponto de inflexão”, disse, referindo-se à queda do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre de 2008 e no primeiro trimestre deste ano. “Em alguns casos, já se vê a retomada; em outros, a queda continua, mas em ritmo mais lento.”

Indagado sobre a situação de países emergentes, como China e Brasil, Trichet argumentou que, como de praxe, não comentaria a situação específica de nenhum país, mas a seguir afirmou: “Eu diria, sobre o conjunto das economias emergentes, que algumas estão muito perto do ponto de inflexão e outras já estão além do ponto de inflexão”. Ele lembrou ainda que esses países já haviam provado a grande capacidade de resistir à crise.

O presidente do BC saudita, Mohammed al-Khaser, confirmou que os elogios feitos aos países emergentes no BIS se referiam à China, ao Brasil, à Índia e ao seu próprio país. “Esses são os países emergentes que já começaram a inverter a curva do crescimento do PIB”, afirmou al-Khaser. “Foi a reunião mais otimista em um ano.”

MEIRELLES CONCORDA

Henrique Meirelles confirmou a avaliação positiva das autoridades monetárias sobre Brasil e China, mas ressaltou que o momento ainda é de incertezas. “Não há dúvidas de que há sinais de que as economias dos países industrializados começam a desacelerar as quedas e o ponto de inflexão pode estar chegando”, disse, resumindo o teor das discussões no BIS. “Brasil e China são considerados os grandes sinais de que o mundo pode estar se aproximando da inflexão.”

Meirelles não quis mencionar os sinais da tendência de aquecimento da economia brasileira, mas acabou citando o consumo de energia e a venda de veículos. “O que foi enfatizado (aqui) é que o Brasil dá sinais antecipados, na margem (desempenho de um mês ante o mês anterior), mas ainda não são dados consolidados.”

Quatro medidas adotadas por Brasília após o início da crise teriam sido avaliadas positivamente pelas autoridades monetárias: empréstimos de reservas para empresas privadas, que totalizam até aqui US$ 23 bilhões; liberação de depósitos compulsórios para pequenos e médios bancos; redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis; e a injeção de US$ 33 bilhões pelo BC no mercado de derivativos (contratos de swap). “Esses foram casos de sucesso analisados pelos presidentes de BCs”, disse Meirelles.