25/05/2009 - 11:19h ”Poupador terá de buscar aplicação de longo prazo”

Entrevista – Gustavo Loyola: ex-presidente do Banco Central; Para o consultor, os aplicadores precisarão aprender a conviver num ambiente com juros civilizados


Leandro Modé – O Estado SP

http://www.interjornal.com.br/fotos/2069937m.jpgO ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Loyola acredita que o Brasil ainda não está preparado para conviver com uma taxa básica de juros estruturalmente menor, basicamente em razão da cultura de taxas estratosféricas desenvolvida nas décadas de inflação muito elevada. Em compensação, não acredita que os problemas existentes representem entrave à tendência de redução. “O que vai acontecer é que, se não forem resolvidas, as dores serão muito maiores, haverá mais sofrimento”, disse ao Estado. Entre os problemas à vista, ele cita a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), a tributação do mercado financeiro, a remuneração dos fundos de pensão e a correção dos depósitos judiciais.

O Brasil está preparado para uma taxa básica estruturalmente mais baixa?

Sim e não. Sim no sentido macroeconômico. Há condições de praticar uma política de juros mais baixos no País. Em outro sentido, não está. Ainda temos gravada em nossas instituições econômicas, nas regras de funcionamento da economia e até nos hábitos e costumes, essa herança dos tempos de alta inflação e de juros nominais também altos. São coisas do passado que precisam ser removidas para que os juros possam, de fato, cair sem maiores traumas. O episódio da poupança é emblemático, mas há outros. Por exemplo, a remuneração da aposentadoria. Outro ponto é a tributação do mercado financeiro, que não está arrumada para juro baixo. As alíquotas foram calculadas para determinados níveis de juro nominal. Quando esse cai, algumas alíquotas ficam proporcionalmente muito mais altas. Serão necessárias adaptações. Há também os compulsórios e o custo administrativo dos bancos.

Do ponto de vista de quem já presidiu o BC, onde o sr. vê as maiores complicações em potencial?

Justamente nessas áreas em que há direcionamento obrigatório de crédito e fixação de juros mínimos. O caso da poupança é um. Temos outros casos, como os depósitos judiciais (corrigidos pela poupança) e os tabelamentos existentes no SFH (Sistema Financeiro da Habitação). Além da questão regulatória, a queda do juro traz um desafio que é remunerar o capital em um ambiente de juros mais baixos. Os poupadores terão de utilizar mais ativamente a estrutura da taxa de juros. Ou seja, buscar aplicações de prazo mais longo para ter maior rentabilidade. Também terão de assumir mais riscos. É um grande desafio para pessoas e gestores.

Essas questões representam entrave à queda maior do juro?

Não. O que vai acontecer é que, se não forem resolvidas, as dores serão muito maiores, haverá mais sofrimento. No caso da poupança, o risco apontado pelo BC foi evitar uma avalanche de recursos de um lugar para outro rapidamente. Isso pode gerar instabilidade no sistema financeiro. Em outros casos, há simplesmente a necessidade de uma mudança de atitudes, estratégias. O fato é que toda essa estrutura do Brasil que tem fixação da taxa de juros tem de ser repensada.

Por exemplo?

A TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), da forma como é fixada hoje, vai ser necessária? O argumento básico da TJLP é que havia necessidade de uma taxa de longo prazo para não ficar à mercê dos juros de curto prazo. Foi uma criação meio artificial porque praticamente não há crédito de longo prazo no Brasil, exceto via BNDES. Com o juro caindo, esse crédito de longo prazo começará a surgir e virá a pergunta: para quê continuar com a TJLP?

As autoridades têm demonstrado estar cientes dessa realidade que está chegando?

Esse debate da poupança chamou a atenção para a questão. O BC teve o mérito de ter levantado o tema. A consciência de que o problema tem de ser visto já existe, mas há uma certa dificuldade em antecipá-lo, o que é típico no Brasil. O lado técnico do governo tem consciência, mas há dificuldade para colocar o tema na agenda política.

Com o juro menor, não vai ficar mais evidente o tamanho do spread bancário no Brasil?

Sim. Mas também é verdade que, se o spread fica proporcionalmente mais gordo com a queda do juro, há possibilidade de o spread cair por causa dos benefícios do juro menor (como alongamentos de prazo de financiamento).

24/03/2009 - 10:06h Pacote de Obama é alternativa à estatização

Detalhes do plano de Geithner afastam por enquanto o temor de soluções radicais temidas pelos investidores

http://cinie.files.wordpress.com/2009/02/data-geithner.jpg
Secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner

Fernando Dantas – O Estado SP

O mercado respirou aliviado ontem, com o sinal de que o governo americano finalmente fez uma opção firme sobre a direção a tomar para superar a gravíssima crise financeira, optando por uma solução de mercado e não estatizante para lidar com o problema trilionário dos ativos tóxicos.

“Havia uma crítica de que faltava diagnóstico, ação e consenso político, e hoje nós começamos a ver algum movimento, o que é positivo”, analisou Beny Parnes, diretor-executivo do Banco BBM e ex-diretor do Banco Central (BC). Ele ressalva, porém, que “o problema é complexo e de solução muito demorada”. Para Parnes, ainda não está claro se a velocidade de execução do plano, se ele tiver de fato a adesão do setor privado, será suficiente para conter a queda na economia real.

Há quase um consenso entre economistas e participantes do mercado de que o problema dos ativos tóxicos – rebatizados como ativos “legados” ou “herdados” (o que significa o rescaldo ruim do passado recente) – é o principal nó da crise global. “Este plano revela os preços (dos ativos) e injeta liquidez nos bancos, com um pouco de incentivo aos investidores (privados)”, diz o economista Otaviano Canuto, que está em transição de uma vice-presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para uma do Banco Mundial.

O plano de Geithner é criar vários fundos que disputarão as carteiras de crédito e os títulos de securitização de crédito considerados tóxicos. Esses fundos serão parcerias público-privadas, em que o investidor e o Tesouro dividem o capital em 50%. O detalhe crucial, porém, é que, para comprar os ativos tóxicos, no caso das carteiras de crédito, o investidor recebe empréstimos do governo garantidos pela Corporação de Seguro de Depósito Federal (FDIC, na sigla em inglês).

No exemplo do próprio Tesouro, o investidor que arriscar US$ 6 poderia alavancar, em parceria com o Tesouro, US$ 84. Mas perderá, no máximo, os US$ 6 iniciais. “Se o fundo perder tudo, US$ 72 serão prejuízo do contribuinte”, explica um analista de banco.

Essa abordagem, em que o governo estimula o próprio setor privado a comprar os ativos tóxicos, tira de cena – pelo menos por enquanto – as hipóteses de nacionalização ou da formação do chamado “banco ruim” ou “agregador”, onde seriam jogados todos os ativos podres. Tanto num caso como no outro, é provável que os credores dos bancos tivessem perdas ou fossem forçados a converter os créditos em capital (o que também prejudica os acionistas atuais, pela diluição).

A circulação dessas hipóteses de uma abordagem mais traumática da crise bancária pelo governo Obama, nos últimos meses, é um dos fatores que explicam a queda das ações dos bancos a níveis ínfimos.

17/03/2009 - 09:41h Brasil capta recursos, mas América Latina tem saques

http://4.bp.blogspot.com/_zDDkR-k-0xg/SS1OZv6aXJI/AAAAAAAAAN0/Mn0k9KUaPUQ/s320/aprenda_investir_bovespa2.jpg

Por Eduardo Campos, Valor Online, de São Paulo

Os fundos de ações voltados para a América Latina marcaram a segunda semana seguida de perda de recursos. No acumulado do ano até a o dia 11 de março, no entanto, essas carteiras ainda registram captação líquida de US$ 773 milhões. O total pode não parecer muito, mas, quando comparado a igual período do ano passado, a cifra ganha outra proporção. Naquele período, o resultado era negativo em US$ 1,4 bilhão.

Ainda entre os emergentes, segundo números da EPFR Global, consultoria que acompanha a movimentação dos fundos globalmente, houve ingresso de US$ 92 milhões nos fundos de ações dedicados à Ásia (sem contar com o Japão) na semana encerrada no dia 11. Já a categoria dos diversificados Mercados Emergentes Globais (GEM, na sigla em inglês) registraram captação de US$ 340 milhões no período. No acumulado do ano, os fundos da Ásia marcam saques líquidos de US$ 1,74 bilhão, enquanto os GEMs apresentam entradas de US$ 1,62 bilhão.

Os mercados emergentes da Europa, Oriente Médio e África (EMEA, na sigla em inglês) voltaram a ser alvo de saques dos investidores na semana encerrada no dia 11. No ano, a categoria já perdeu US$ 1,26 bilhão.

Na avaliação por país, os fundos de ações voltados ao Brasil e para o México receberam dinheiro novo, assim como as aplicações destinadas à China. Já as carteiras que apostam na Rússia marcaram a quarta semana consecutiva de retiradas.

Segundo o diretor-gerente da consultoria, Brad Durham, os mercados emergentes têm mostrado maior resistência em termos de fluxo de recursos desde o começo do ano se comparados a seus pares desenvolvidos. Uma explicação seria a crença de que esses países apresentam um melhor perfil fiscal quando comparados aos países de centro.

Embora os resgates tenham predominado em fundos de ações durante a segunda semana de março, a EPFR Global afirma que já foi possível perceber alguma melhora no apetite por risco. Isso porque os “money market funds”, categoria que reúne carteiras de curto prazo e de baixo risco, registraram saídas de US$ 381 milhões.

Pela quarta semana seguida, todos os grandes grupo voltados aos países desenvolvidos perderam dinheiro. Os fundos de ações voltados para os Estados Unidos registraram resgates pela sexta semana consecutiva. Mas esse quadro já pode ter mudado, pois o Dow Jones, principal índice de ações do país fechou a semana encerrada no dia 11 com valorização de 9%.

Na Europa, a retirada de recursos continuou em meio às perspectivas de piora adicional no quadro econômico e maior dificuldade em arquitetar um trabalho de recuperação envolvendo todas as nações da região. No Japão, a saída de dinheiro somou US$ 456 milhões, elevando o total perdido no ano para cima dos US$ 2 bilhões.

Entre os fundos setoriais, o grupo finanças teve a melhor performance semanal entre as nove categorias acompanhadas. No período, as carteiras receberam mais de US$ 200 milhões.

Dinheiro novo também foi enviado na semana do dia 11 para os fundos de tecnologia e energia, de acordo com os dados da consultoria. Commodities e imóveis/construção também receberam aportes. “Isso pode ser interpretado como um posicionamento para uma retomada no crescimento ou uma forma de proteção contra um cenário de inflação”, disse o analista-sênior da EPFR Global, Cameron Brandt, em comunicado.

11/03/2009 - 10:47h Perto do alívio do Citi, o PIB vira fichinha

Daniele Camba – VALOR

O desempenho da economia brasileira ladeira abaixo no último trimestre do ano passado surpreendeu até os mais pessimistas. O Produto Interno Bruto (PIB) caiu 3,6% no quarto trimestre de 2008 na série com ajuste sazonal ante o terceiro trimestre do ano passado. Essa é a maior retração desde 1996, quando o levantamento começou a ser feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Era uma notícia mais do que suficiente para que a bolsa fosse ladeira abaixo. Mas para a felicidade dos investidores, a divulgação ocorreu exatamente no mesmo dia que, em carta enviada a funcionários, o presidente mundial do Citigroup, Vikram Pandit, informou que a instituição teve lucro no primeiro bimestre deste ano. Com uma informação tão alvissareira, de um dos bancos com as piores sequelas da crise de crédito internacional, o PIB brasileiro horrendo virou fichinha.

A Bovespa ignorou terminantemente a notícia local e, junto com as principais bolsas do mundo, subiu de forma acentuada. O Índice Bovespa passou o dia com alta significativa e fechou com valorização 5,59%, aos 38.794 pontos. Para se ter ideia de como o bom humor foi generalizado, dos 66 papéis que fazem parte do índice, apenas três caíram: as preferenciais (PN, sem direito a voto) da Gol, TAM e Votorantim Celulose e Papel (VCP). Faz todo sentido o mercado ignorar o desempenho ruim do PIB brasileiro num dia em que o cenário externo parece um pouco melhor. Essa crise é internacional e, à medida que ela se dissipar, aumentam as chances do mundo voltar aos trilhos com cada país refletindo seus próprios fundamentos. E nesse quesito, o Brasil vai bem, obrigada. Até o quadro internacional ficar feio, o PIB vinha crescendo de forma consistente e a estabilidade econômica se mostrava cada vez mais consolidada.

Em vez de o mercado olhar a retração do PIB como um copo meio vazio, resolveu olhá-lo como meio cheio. Com uma queda da economia nesta magnitude, cresceram as apostas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) pode cortar em até dois pontos percentuais a taxa básica Selic na reunião de hoje

.

“Até o começo da semana, os mais otimistas acreditavam numa redução de um ponto e meio de uma vez só, hoje (ontem) esses mesmos profissionais já defendem que o Copom pode, e deve, cortar dois pontos nesta reunião”, diz o gerente para pessoa física da Corretora Gradual, Evandro Soeiro Campos. Ele acredita que, com a alta de ontem, uma boa parte dessa expectativa de um corte mais generoso da Selic já está embutida nos preços das ações. No entanto, se isso de fato se consumar hoje, é possível que a Bovespa continue surfando na onda de valorização, pelo menos pelos próximos dias. Vale lembrar que todas essas possibilidades dependem do cenário externo, que continua sendo a variável mais importante. E o pregão de ontem é a maior prova disso. “Se as notícias internacionais voltarem a ser negativas, todas essas hipóteses vão por água abaixo e a bolsa retoma a toada de queda”, alerta o gerente da Gradual.

Em condições normais de temperatura e pressão, quedas de juros sempre favorecem a bolsa, tanto pelo lado da economia quanto pelo fluxo de investidores. Pelo lado da economia porque, entre outros motivos, as empresas passam a ter crédito mais barato e a roda da economia volta a funcionar melhor. Já pelo aspecto financeiro, ganhando menos na renda fixa, os investidores levam seus recursos para a renda variável. O volume financeiro da bolsa ontem, de R$ 4,5 bilhões, pode ser um sinal interessante de uma queda gradual de aversão ao risco. Nos últimos meses, com a deterioração da crise, o giro diário da bolsa tem oscilado entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões.

Leia a integra da coluna no jornal VALOR

18/12/2008 - 12:23h Na bolsa: estrangeiro volta e pode ser para ficar

http://unipmarques.files.wordpress.com/2008/06/pregao_bovespa.jpg

Daniele Camba – VALOR

Desde o início do mês, mas com mais intensidade da semana passada para cá, o mercado brasileiro vem se recuperando. Alguns dizem que é pela melhora do cenário internacional, enquanto outros atribuem o movimento ao rali de alta que tradicionalmente costuma ocorrer no fim do ano. Seja por um motivo ou por outro, o que se sabe é que essa valorização está sendo patrocinada pela volta do investidor estrangeiro. Os mais pessimistas acham que ele está retornando apenas para se aproveitar de um ganho ali outro acolá e que irá bater em retirada assim que estiver com os bolsos cheios. O que se diz nas mesas de operações é que a maior parte é formada por investidores institucionais de longo prazo, como gestores de fundos de ações de grandes gestoras de recursos, que costumam fazer aplicações vislumbrando pelo menos os próximos 12 meses. Caso isso seja verdade, é bem possível que a alta das ações neste mês seja mais do que um simples rali de fim de ano.

Os números comprovam o interesse crescente desses investidores. No mês, até o dia 12, o saldo líquido (diferença entre compras e vendas) de estrangeiros na Bovespa está negativo em R$ 483 milhões, sendo que até o dia 5 essa cifra estava negativa em R$ 3 bilhões. Isso significa que nos cinco pregões da semana passada (de 8 a 12 de dezembro), as compras de ações dos estrangeiros superaram as vendas em cerca de R$ 2,5 bilhões. Nada mau considerando que nos últimos meses, com o agravamento da crise financeira internacional, o que mais se viu foram grandes saídas de recursos.

O saldo deve ser mais animador levando-se em conta que o volume de compras de papéis brasileiros via American Depositary Receipt (ADR, recibo de ações negociados nos Estados Unidos) é ainda maior, dado o câmbio favorável. “Se considerarmos as aplicações nos ADRs, o saldo líquido positivo da última semana deve no mínimo dobrar, ultrapassando a casa dos R$ 5 bilhões”, diz o gestor de uma administradora de recursos independente.

Ele lembra que esse fluxo de investimentos se concentra nos papéis de maior liquidez da Bovespa. Entre eles, Petrobras, Vale e as siderúrgicas. Não é à toa que tais ações vêm se valorizando desde a semana passada, a despeito de todas as perspectivas negativas para a economia global, e conseqüentemente, para os preços das principais commodities. As ações ordinárias (ON, com voto) da Petrobras, por exemplo, sobem no mês 24,80%, enquanto o Índice Bovespa registra uma alta de 9,16%. Dentro do índice, os papéis da estatal só se valorizam menos que as preferenciais (PN, sem voto) da Votorantim Celulose e Papel (VCP) e da TAM. Já as PN série A da Usiminas no mês têm alta de 21,95% e as ON da CSN de 21,82%.

Graças ao fluxo de estrangeiro, ontem, as PN da Petrobras subiram 2,31% e as ON, 2,73%, mesmo com a queda de 8,1% do petróleo tipo WTI, negociado em Nova York, fechando aos US$ 40,06, a menor cotação dos últimos quatro anos e meio. A alta dos papéis da estatal e de outras ações de commodities amorteceram a baixa do Ibovespa que ontem foi de apenas 0,12% aos 39.947 pontos.

Na linha oposta, os papéis considerados defensivos num cenário de crise, como as teles, as elétricas e os setores voltados ao mercado interno (varejo, consumo e bebidas), registram quedas nos últimos pregões. “Essa é uma típica movimentação de investidores que resolveram deixar de se proteger para começar a colocar pelo menos um pé em operações mais arriscadas”, diz o gestor.


Medo de perder a festa

Mas o que de tão positivo os estrangeiros estão vendo no cenário econômico a ponto de quererem retomar as aplicações? Nada. Na realidade, eles estão voltando na expectativa de que a economia melhore a partir de 2010 e que o mercado, como sempre, antecipe esse quadro. Sem contar com o fato de que aparentemente a bolsa já refletiu tudo que deveria da crise atual. “Ninguém quer perder nem um instante da festa de recuperação que os mercados devem ter”, diz o gestor. Para ajudar, a queda da taxa de juros nos países desenvolvidos torna ainda mais atraente os investidores aportarem por aqui o mais cedo possível. “O custo de oportunidade de ficar na Bovespa hoje é insignificante.”

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br

09/12/2008 - 11:18h Fatos

Os EUA destruíram mais de 2 milhões de empregos em apenas um ano.

O Brasil criou, em 2008, cerca de 2,5 milhões de empregos novos.

Ou seja, no mesmo ano de 2008, a crise não teve o mesmo efeito nos Estados-Unidos e no Brasil.

Em 2009 muito dependerá da ação do governo Obama, mas independentemente disto, se acreditarmos no que todos os analistas internacionais afirmam, o efeito da crise continuará com impacto diferente nos Estados-Unidos e no Brasil. Claro, o dinamismo atual não será atingido em 2009 na medida em que a crise do crédito e a recessão afetarão as exportações e o fluxo dos investimentos; mas nada indica que Brasil entrará em recessão como os Estados-Unidos, a Inglaterra, o Japão e a Alemanha.

Na oposição há os que torcem para o Brasil entrar no primeiro mundo da recessão, fazendo como eles e despencando violentamente.

Na mídia ninguém leva a sério, agora, o que dizem os analistas internacionais. Para a mídia também o Brasil vai despencar violentamente.

“Confiança é um ingrediente fundamental para a ação do consumidor… e do investidor”, diz o professor José Pastore no Estadão de hoje.

Ainda bem que o povo brasileiro faz pouco caso da pregação “catastrofista” da mídia e da oposição. Aparentemente a sua confiança vai para os analistas internacionais e para o governo Lula. Melhor, com isto o povo contribui para fazer menos grave o impacto da crise econômica externa sobre o Brasil.

Ele – o povo de trabalhadores e empresários-, como o presidente, não quer “sifu”.

O IBGE, agora pouco deu os números aos fatos:

PIB cresce 6,8% no terceiro trimestre, aponta IBGE

No acumulado do ano, o incremento do PIB chega a 6,4% em relação ao período de janeiro a setembro de 2007.

LF

08/12/2008 - 08:34h Esse redemoinho trouxe um saci-pererê…

saci_perere.jpg

Marco Antonio Rocha* – O Estado SP

A bruxa está solta – dizem os tripulantes de aeronaves quando o tempo se mostra ameaçador. A vantagem deles é que a bruxa, quando se solta, não é por muito tempo. E com a ajuda dos meteorologistas é sempre possível fazer alguma previsão dos seus movimentos e evitá-los.

Já para os tripulantes e comandantes das finanças mundiais não é a bruxa que está solta, é o saci-pererê – coisa muito pior, endiabrada e imprevisível. Eles não têm noção realmente do que está acontecendo nem sabem o que fazer, ao contrário dos pilotos, e não dispõem de meteorologistas para assuntos econômico-financeiros, já que eles mesmos deveriam ter previsto o mau tempo, e foram incapazes. Só conseguem pensar na mais inútil das medidas: despejar mais dinheiro no mercado.

A entrevista do co-presidente do Goldman Sachs, Gary Cohn, no Estado de sexta-feira, corrobora o que dissemos acima sobre o desnorteado e desconcertante estado de espírito dos homens do colarinho-branco. Esse senhor, que recebeu, no final do ano passado, US$ 68 milhões (sic!) em bônus do banco em que trabalha, como prêmio por seu atilado tirocínio e exímia corporate guidance, confessa candidamente que “todos, inclusive eu, calculamos mal a extensão do problema do crédito”. E mais adiante: “… vimos o problema do subprime (…), mas não vimos, assim como ninguém viu, a total evaporação do crédito corporativo (…), vimos grandes empresas e oferecemos crédito a essas grandes empresas, mas por causa do desaparecimento do crédito ninguém quer comprar ativos, ao preço que for.”

O interessante é que depois dessa confissão de falta de visão e de erros de cálculo, os entrevistadores, Ricardo Grinbaum e Leandro Modé – certamente com boa dose de ironia não confessada -, perguntaram: “E agora, o que o senhor acha que vai acontecer com a economia?”

O entrevistado não se constrange em responder que teremos, no ano que vem, “dois trimestres (muito difíceis) para digerir o que aconteceu neste fim de ano” e “começaremos a ver melhoras e entraremos numa seqüência de ciclos de melhoras” (na segunda metade de 2009).

Quem quiser, pode acreditar. Seria mais instrutivo saber o que ele fez com os US$ 68 milhões (ele diz que abriu mão dos bônus de 2009… bom homem!).

É engraçado rever o que alguns senhores da mesma estirpe, classe social e acurado grau de instrução de Mr. Cohn diziam em seus boletins e informes tempos atrás. O jornal El País deu-se a este trabalho e Clovis Rossi, da Folha de S.Paulo, aproveitou alguns dados na sua coluna de sexta-feira: há um ano, 15 corretoras espanholas palpitavam que a Bolsa de Madri estaria, neste mês de dezembro, em 17,3 mil pontos – está em 9 mil pontos. Um grupo de famosas corretoras internacionais davam, no último mês de junho, conselhos sobre ações de empresas – só 13% dos seus conselhos eram para vender ações. O FMI previa que a economia americana cresceria 3% em 2008 – a última estimativa é de 1,4% e, provavelmente, os dados retificados darão muito menos.

Infelizmente, não estamos com tempo suficiente, antes da entrega deste artigo, para pesquisar o que os gurus brasileiros diziam há seis meses ou há um ano. Basta lembrar que o governo brasileiro vaticinava crescimento de 5% do nosso PIB no ano que vem. Se conseguirmos 2% já será lucro, mas não se inquietem, este prognóstico é tão fútil e pode ser tão equivocado quanto os acima mencionados.

O fundamental, a nosso ver, é tentarmos captar alguns possíveis ensinamentos, ancorados na crença de que se aprende com crises, desde que elas não matem os aprendizes!

Um desses ensinamentos é que as sondagens de expectativas deveriam ser abandonadas. A razão é que são viciosas, no sentido de que se auto-alimentam. Quando os negócios marcham favoravelmente, elas se tornam também favoráveis e positivas. E, quanto melhor e mais estimulante é a marcha dos negócios, mais otimistas e positivas são as expectativas. O bêbado ao volante de uma Ferrari alimenta uma expectativa extremamente favorável sobre a capacidade do carro de obedecer ao comando do seu pé no acelerador, não é mesmo?

Outro ensinamento é que não existem gurus desinteressados. Nem desinteressados, nem isentos. Todos os palpiteiros que você lê ou ouve têm o rabo preso, seja num interesse financeiro, material mesmo, como acionista, empregado ou consultor de algum grande grupo ou empresa, seja num propósito político ou ideológico; é o caso dos palpiteiros que se consideram puros do ponto de vista ético. De qualquer forma, são interessados.

Um terceiro, é que esta dinheirama que está sendo despejada pelos governos no pântano da incerteza não evitará que empresas fechem, empregos desapareçam, patrimônios juntados ao longo da vida se esfumacem, pois o que falta não é dinheiro nem crédito. O que falta é confiança: investidores não investem, bancos não emprestam, consumidores não se endividam, a economia empaca.

Mas a crise de confiança tem um efeito mais perverso do que a própria crise financeira e pouco mencionado: ela rouba o futuro das pessoas. Contribuição importante trazida pelo capitalismo moderno foi a dos mecanismos para assegurar o futuro. Planos de aposentadoria, seguros contra desemprego, planos educacionais, poupança para casa própria, planos de saúde, fundos de previdência, fundos de ações – uma parafernália de meios, inexistentes no mundo antigo, permitem que boa parcela da humanidade, infelizmente ainda a menor parcela, exorcize o sobressalto quanto ao futuro que sempre a atormentou e possa planejar com critério a vida familiar. A crise é uma ameaça ominosa à paz de espírito de milhões de chefes de famílias no mundo inteiro e entreabre a porta de um mundo indesejável: o do salve-se quem puder!

*Marco Antonio Rocha é jornalista.
E-mail: marcoantonio.rocha@grupoestado.com.br

29/10/2008 - 16:30h Onde buscar sinais de duração da crise

unemployment.jpghouses.jpg

Justin Lahart e Kelly Evans, The Wall Street Journal – VALOR

Em meio ao tumulto financeiro mundial, economistas estão se debatendo para estimar por quanto tempo a economia ficará fraca. Medidas habituais, como o produto interno bruto e dados trabalhistas, dão idéia do que tem ocorrido, mas não dizem muito sobre o que ainda está para acontecer. Economistas estão usando outras medidas menos óbvias para ter indicações de quando a economia vai sair do buraco.

Nos Estados Unidos, os bancos estão reduzindo empréstimos, os consumidores gastando menos, as empresas cortando empregos por causa do naufrágio dos lucros e a crise no mercado imobiliário, que provocou a desaceleração, persiste. Aqui, uma visão das cinco áreas que os economistas estão observando e os indicadores que estão acompanhando.

Bancos

O plano do governo americano de injetar US$ 250 bilhões nas instituições financeiras, assim como a garantia que ele deu aos empréstimos interbancários, diminuíram parte do estresse que dilacerava os mercados de crédito no início deste trimestre.

Num sinal de que os bancos estão menos desconfiados de emprestar dinheiro uns aos outros, a Libor, a taxa do interbancário de Londres, referência para muitos empréstimos em dólar, caiu bastante nas duas últimas semanas. Contudo, ela ainda está mais alta do que o habitual em relação à taxa do Federal Reserve, o banco central americano.

As taxas interbancárias são uma condição importante para a recuperação dos mercados de crédito, mas elas não vão causar uma retomada automática dos empréstimos. “Não importa se um banco vai emprestar para outro banco”, diz o economista paul Kasriel, do Northern Trust. “Interessa se o banco vai emprestar” para o homem comum.

Os bancos estão cautelosos para conceder crédito, em parte porque foram atingidos fortemente pela queda do mercado imobiliário e pela bagunça do mercado financeiro, mas também porque é mais arriscado emprestar num período de desaceleração. Na pesquisa trimestral do Fed em julho com diretores de crédito, uma grande porcentagem dos bancos relatou que está aumentando as exigências para conceder empréstimos. Um primeiro sinal de que a economia está a caminho da recuperação, segundo Kasriel, será quando mais bancos as estiverem diminuindo e não aumentando.

Residências

O mercado imobiliário terá um papel importante na flexibilização dos empréstimos. Enquanto o preço dos imóveis residenciais continuar caindo, mais mutuários vão se ver devendo mais em suas hipotecas do que suas casas valem. Isso abre caminho para que haja mais inadimplência e que os credores continuem cautelosos. No segundo trimestre, o índice de preços de imóveis residenciais da S&P ficou 18% abaixo de seu ponto mais alto, em 2006.

Para saber quanto os imóveis ainda vão cair, diz o economista Jan Hatzius, da Goldman Sachs, a chave é a velocidade de absorção do excesso de oferta de imóveis.

No início de 2005, 1,8% dos imóveis residenciais americanos, excluídos os destinados a locação, estavam vazios e esperando ser vendidos. Ontem, o Censo informou que o índice de vacância no terceiro trimestre de 2008 foi de 2,8% – igual ao do segundo trimestre e quase o mesmo do primeiro, que foi de 2,9%. Com tantos imóveis no mercado, os proprietários têm baixado os preços para atrair compradores.

“Se você vir o excesso de oferta diminuir, é elementar que os preços vão acabar se estabilizando”, diz Hatzius.

Consumidores

A preocupação com a economia tem feito os consumidores fechar a carteira. O consumo move mais de dois terços da economia dos EUA e não diminuía trimestralmente desde o fim de 1991. Aquele espasmo de quase 20 anos de crescimento no consumo acabou no período entre julho e setembro, avaliam os economistas, arrastando com ele o crescimento econômico.

Um sinal de atitude positiva dos consumidores será a intenção que eles tenham de comprar coisas caras, como carros, móveis, eletrodomésticos e eletrônicos – categorias que foram atingidas duramente nos últimos meses porque aumentaram os requisitos para financiamento e o consumidor se afastou de grandes compras.

Empregos

Os americanos provavelmente não estarão a fim de tais compromissos até vislumbrarem melhora no mercado de trabalho. Os números sobre folhas de pagamento e índice de desemprego são indicadores que mostram mudanças no setor de empregos muito depois dos fatos.

Muitos economistas monitoram mais de perto o relatório semanal do Departamento de Trabalho sobre pedidos iniciais de auxílio-desemprego, que calcula o número de pessoas que se inscrevem para receber o benefício pela primeira vez. Por experiência, quando os pedidos ficam acima de 400.000, a economia está entrando em recessão. Isso começou a acontecer em julho. O número mais recente foi 478.000.

Bolsas

As empresas têm o papel principal no panorama de empregos: se elas estão preocupadas com prejuízos, é mais provável que cortem força de trabalho do que contratem. Apesar de todas as suas imperfeições, o mercado acionário é um dos melhores indicadores da saúde das empresas. Milhões de investidores se dedicam a calcular onde vão ter lucro e a opinião deles se reflete nas cotações da bolsa.

Mas, numa época em que a saúde das empresas depende altamente do clima econômico global, observar a Média Industrial Dow Jones pode não dar a melhor idéia. Em vez disso, o estrategista Richard Bernstein, da Merrill Lynch, segue o Índice Composto de Ações da Coréia, mais conhecido como Kospi. As empresas sul-coreanas são exportadoras por excelência, o que as deixa muito sensíveis ao crescimento mundial. O Kospi registrou seu ponto mais alto no ano passado. Ontem, ele estava 52% abaixo daquele nível.

24/10/2008 - 09:09h Do Brasil à Hungria, crise ameaça conquistas de países emergentes

http://img.photobucket.com/albums/v85/jumento/018/globo.jpg

Joanna Slater, The Wall Street Journal – VALOR

Numa questão de semanas, a tempestade nos mercados mundiais desfez anos de ganhos duramente conquistado pelas economias emergentes.

Ao longo do último mês, o custo de financiamento para governos de países emergentes inflou a níveis que não se viam há seis anos, e continuou a subir ontem.

Os investidores temem principalmente os países com necessidades financeiras e fundamentos econômicos enfraquecidos que podem levar a uma crise mais profunda, como alguns do Leste Europeu. Mas mesmo países com finanças relativamente sólidas estão vendo suas perspectivas escurecer, à medida que diminuem o acesso ao crédito e o crescimento econômico global.

Segundo um índice do J.P. Morgan, os investidores agora exigem um rendimento 8 pontos porcentuais maior que o dos títulos do Tesouro americano para pôr seu dinheiro em dívida de mercados emergentes. Um mês atrás, a diferença estava abaixo de 4. Isso torna muito mais difícil para os governos obter os financiamentos de que necessitam ou aumentar gastos para combater a desaceleração econômica.

O ágio exigido para dívida de empresas desses países subiu ainda mais. Elas foram menos disciplinadas que os governos em termos de empréstimos estrangeiros nos últimos anos, com dívidas que são muito mais difíceis de pagar ou rolar.

Sinais ainda maiores da crescente preocupação foram dados ontem, quando a agência de classificação de risco Standard & Poor’s alertou sobre um possível rebaixamento da Bulgária e da Rússia. A Bulgária depende de capital estrangeiro para diminuir a imensa diferença entre suas importações e exportações. Agora ela encara “o risco de um declínio abrupto em financiamento externo”, escreveu a S&P. A Rússia, por sua vez, enfrenta custos crescentes para resgatar seu sistema bancário, afirmou a agência.

Muitos desses países evitaram os erros que cometeram no fim dos anos 90, quando grandes empréstimos em moeda estrangeira feitos por seus governos ajudaram a provocar crises cambiais ou moratórias. Isso os deixa mais bem preparados do que já foram para enfrentar a tempestade de hoje.

No entanto, a atual combinação de fatores representa um “coquetel relativamente explosivo”, diz Michael Gomez, um dos responsáveis por mercados emergentes na Pacific Investment Management Co. Entre esses fatores estão o êxodo de investidores; queda nos preços de commodities; novos pontos fracos como a aposta ruins de empresas em moedas, o que semeou ainda mais pânico; e, em países como a Argentina, decisões políticas altamente heterodoxas como a proposta de nacionalizar planos privados de aposentadoria.

Países numa posição mais forte – com menos dependência de financiamento estrangeiro e com grandes reservas – estão trabalhando para aliviar a pressão no mercado doméstico de crédito e têm usado suas reservas internacionais para defender suas moedas. Ontem, o Brasil interveio pesado no mercado cambial para segurar o deslizamento do real, que teve desvalorização de 15% desde o começo deste mês. O país também anunciou que vai dar até US$ 50 bilhões em swaps cambiais.

Os países com grandes déficits que requerem financiamento estrangeiro estão numa posição muito mais difícil. Vários já procuraram o Fundo Monetário Internacional para discutir suas necessidades de financiamento, entre eles o Paquistão, a Hungria, a Ucrânia e a Belorússia.

Na quarta-feira, a Hungria aumentou sua taxa de juros em 3 pontos porcentuais para ajudar sua combalida moeda, o florim, uma medida grave numa economia que enfrenta possível recessão. Altas como esta são “uma pílula perigosa que têm o risco de matar o paciente”, escreveram analistas do Danske Bank.

Para muitos países da Europa Central e do Leste Europeu, o custo do seguro contra moratória da dívida pública saltou ontem para o maior nível da história, segundo a firma de informação de crédito Markit. Mas também subiu para mercados emergentes em outras regiões, independentemente da qualidade do crédito do país, provavelmente uma indicação de venda indiscriminada dos investidortes.

“Alguns investidores querem pular fora para garantir lucro e outros estão sendo forçados a fazer saques”, diz Kevin Colglazier, diretor de investimentos da Standard Asset Management em Londres, especializada em dívida de mercados emergentes. “Eles construíram essas posições ao longo de meses ou anos e querem sair no espaço de horas ou dias.”

Os investidores não estão limitando sua busca por possíveis vulnerabilidades a mercados emergentes. A aversão ao risco também ampliou distorções no mercado de dívida soberana da zona do euro ontem. (Colaboraram Christopher Emsden e Giada Cardoletti-Litner)

24/10/2008 - 08:53h Roubini: ‘Atingimos uma situação de puro pânico’

http://cache.daylife.com/imageserve/0gEg39odby8JE/340x.jpgEconomista vê caos para emergentes

Da Bloomberg News – O Globo

LONDRES. Centenas de fundos hedge vão falir, e as autoridades monetárias terão de fechar os mercados financeiros por uma semana ou mais, à medida que a crise obrigar os investidores a se desfazerem de ativos.

Essa é a visão — decididamente pessimista — do professor da Universidade de Nova York Nouriel Roubini.

— Atingimos uma situação de puro pânico — disse Roubini, que previu a crise financeira há dois anos, em conferência Hedge 2008 ontem em Londres. — Haverá uma maciça liquidação de posições em ativos e centenas de fundos hedge vão quebrar.

As autoridades monetárias do G-7, o grupo dos sete países mais industrializados do mundo, quase suspenderam os pregões dos mercados, depois de realizar uma redução coordenada de suas taxas básicas de juros. Essa proposta foi defendida pelo primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, no último dia 10.

— O risco sistêmico ficou cada vez maior — disse Roubini. — Estamos assistindo ao início de uma corrida sobre uma grande fatia de fundos hedge. Não se surpreendam se as autoridades monetárias precisarem fechar as bolsas por uma ou duas semanas daqui a alguns dias.

Roubini, ex-conselheiro do Tesouro americano, não mostrou otimismo com as economias emergentes: — As coisas estão ficando muito feias também nos mercados emergentes. Dizia-se que, quando os Estados Unidos espirram, o resto do mundo pega um resfriado.

Bom, os Estados Unidos estão atualmente com uma crônica e persistente pneumonia.

As coisas estão caminhando para o caos nos mercados emergentes.

O custo da tomada de empréstimos pelos países emergentes saltou para seu patamar mais alto dos últimos seis anos. A Argentina corre o risco de deixar de honrar suas dívidas pela segunda vez nesta década.

— Há cerca de uma dezena de mercados emergentes que enfrentam atualmente graves problemas financeiros.

Mesmo um país pequeno pode ter um efeito sistêmico sobre a economia mundial. Não haverá dinheiro suficiente do FMI para respaldar (esses países).

22/10/2008 - 08:57h Governos europeus mudam foco de ajuda para estimular a economia

http://www.debom.blogger.com.br/europa_mundo.JPG

VALOR – David Gauthier-Villars, Leila Abboud, Sara Schaefer Muñoz e Mike Esterl, The Wall Street Journal, de Paris, Londres e Frankfurt

Cada vez mais receosos de que uma queda brusca no crédito bancário possa prejudicar ainda mais suas economias, governos europeus estão apresentando novas propostas para diminuir as conseqüências de uma provável recessão.

Ontem, o governo italiano informou que está elaborando um pacote de medidas para estimular a economia. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, propôs a criação de fundos soberanos para evitar que grandes empresas do continente sejam adquiridas por não-europeus a preço de pechincha e chegou a esboçar proposta de um “governo econômico” para a zona do euro.

As sugestões de Sarkozy foram feitas depois que o governo da França anunciou que vai injetar 10,5 bilhões de euros (US$ 14 bilhões) nos seis maiores bancos do país. A medida, tomada com a intenção de promover a retomada dos empréstimos bancários, demonstra a clara mudança do foco do governo, passando das instituições financeiras doentes para a economia real. O temor é que, se os bancos emprestarem menos, empresas e pessoas não vão gastar dinheiro, reduzindo a atividade econômica num período em que a maior parte das grandes economias européias parece estar rumando para a recessão.

Em outra medida para facilitar o crédito, bancos centrais europeus inundaram os mercados, ontem, com dinheiro por meio de leilões de fundos ilimitados, ajudando a baixar as taxas de juros. Leilões feitos pelo Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra e o Banco Nacional da Suíça ajudaram a baixar a Libor, a taxa de Londres que serve de parâmetro para empréstimos entre bancos.

Há sinais de que está cada vez mais difícil para as empresas obter financiamento. A empresa francesa de serviços públicos Veolia Environnement SA, por exemplo, havia garantido o financiamento de investidores externos para um projeto de infra-estrutura de abastecimento de água em Abu Dhabi de 400 milhões de euros. Ela foi depois informada que teria de pagar juros mais altos sobre o empréstimo. A empresa desistiu e, em vez daquele grupo, pegou financiamento do seu cliente, o emir de Abu Dhabi.

Na França, onde os bancos ficaram relativamente incólumes à crise, o financiamento para mutuários da casa própria caiu 26% no terceiro trimestre, segundo pesquisa do instituto de pesquisa Observatoire Crédit Logement e da agência CSA. A inadimplência está cada vez maior. Na Espanha, a venda de carros está em queda porque há mais requisitos para se conseguir financiamento.

Ao mesmo tempo, os bancos estão procurando ajuda direta. Ontem, no fim do dia, o Bayerische Landesbank informou que vai pedir uma injeção de capital de 5,4 bilhões de euros do fundo de resgate de 500 bilhões de euros do governo alemão, tornando-se o primeiro banco do país a levantar a mão para pedir socorro desde que o pacote de resgate foi aprovado pelo Legislativo federal, na sexta-feira.

Na Islândia, representantes do governo estão “atando pontas soltas” num pacote de resgate liderado pelo Fundo Monetário Internacional, segundo uma porta-voz informou ontem, na esperança de salvar uma economia estilhaçada pelo colapso do seu sistema bancário.

O plano francês para bancos foi uma surpresa. Na semana passada, quando governos da União Européia concordaram com um cardápio de medidas para restaurar confiança no setor financeiro, a maioria dos bancos franceses afirmou ter fundos suficientes. Mas o governo argumentou que quer que os bancos concedam mais empréstimos, a fim de que mais dinheiro flua para as empresas e famílias. A França está fazendo sua injeção de capital na condição de que os bancos se comprometam a aumentar, em 2009, o volume de crédito em 3% a 4% do total atual, de 1,85 trilhão de euros.

Autoridades francesas disseram que as injeções de capital não são um pacote de resgate. O presidente do Banco da França, Christian Noyer, disse que, em vez disso, o governo “está fornecendo o capital de que os bancos precisam para expandir sua atividade de crédito”.

Diferentemente do Reino Unido, onde o governo nacionalizou vários bancos agonizantes, o governo francês não vai receber ações das instituições financeiras que aceitarem sua ajuda. “De forma nenhuma este é um plano de resgate”, disse Baudouin Prot, diretor-presidente do BNP Paribas SA, que pretende aceitar a oferta do governo. “Assim que os mercados melhorem, devemos pagar a dívida.”

No Reino Unido já surgem diferenças entre bancos que concordaram em ceder uma fatia ao governo e outros que não. O Royal Bank of Scotland Group PLC, o Lloyds TSB Group PLC e o HBOS PLC devem receber 37 bilhões de libras esterlinas (US$ 63,5 bilhões) como parte do pacote de resgate anunciado na semana passada, enquanto o HSBC Holdings PLC e o Barclays PLC informaram que vão levantar capital por conta própria.

O plano britânico colocará membros aprovados pelo governo no conselho dos bancos e os proibirá de distribuir dividendos aos acionistas até que o governo resgate suas ações, o que analistas dizem que pode levar até cinco anos. Isso deixou alguns investidores receosos: as ações do RBS, Lloyds e HBOS caíram logo depois da notícia do plano de capitalização britânico, enquanto ações do Barclays e do HSBC subiram.

Ao longo do mês, a França anunciou uma série de medidas para apoiar sua economia. Ela também fez uma série de apelos por um plano pan-europeu de recuperação – sem muito sucesso. Ontem, Sarkozy disse a legisladores europeus, em Estrasburgo, que os 15 países que usam o euro deveriam criar um “governo econômico” para coordenar melhor suas políticas.

10/10/2008 - 07:51h Procura-se uma solução global e abrangente


http://cache.daylife.com/imageserve/03v0d7H4yl4uv/610x.jpg

Dominique Strauss-Kahn * – O Estado de São Paulo

Há algumas semanas, publiquei um apelo por uma solução de medidas abrangentes que englobassem os problemas centrais do setor financeiro (a falta de liquidez nos mercados, as dúvidas acerca do valor dos ativos problemáticos e uma clara falta de capital) e os mercados financeiros de todo o mundo (e não apenas alguns centros de circulação monetária). Apesar de terem sido tomadas muitas medidas desde então, elas não foram abrangentes nem globais. De fato, as abordagens feitas foram tão variadas e inconsistentes, especialmente em relação às garantias dos depósitos, que estão intensificando os problemas para outros países. Não é surpresa alguma o fato de os mercados não terem recuperado a confiança.

Qual é o problema subjacente? Em resumo, as instituições financeiras detêm um grande volume de títulos cujo valor é duvidoso e está diminuindo, os quais implicam em imensas perdas para elas. Há também o potencial de perdas adicionais decorrentes da garantia do valor dos ativos feita por meio de trocas de garantias contra calotes e outros instrumentos derivativos negociados em mercados menos transparentes e mais irregulares. Mas, mesmo que um banco saiba que o seu balanço patrimonial está intacto, ele não pode se certificar de que a sua contraparte esteja limpa (ou de alguma maneira exposta a uma terceira parte problemática). Nesse ambiente febril de falta de confiança e escassez de capital, os instrumentos comuns de administração macroeconômica se descobrem ineficazes, e uma estratégia que aposta principalmente na provisão de liquidez por parte dos bancos centrais – apesar de crucial – não será suficiente.

O que mais precisa ser feito? Eu destacaria cinco conjuntos de medidas.

Em primeiro lugar, como concluíram alguns governos, a fragilidade da confiança pública chegou agora em um ponto em que se torna inevitável algum tipo de garantia pública explícita sobre os passivos do sistema financeiro. Isso significa não apenas os depósitos em bancos comerciais, mas, provavelmente, também os depósitos interbancários e do mercado monetário, de modo que nesses mercados-chave a atividade possa recomeçar. É claro que tal medida teria de ser temporária e incluir salvaguardas contra os riscos que acompanham tais garantias, como uma maior supervisão e limites sobre as taxas cobradas em cima dos depósitos.

Em segundo lugar, o Estado precisa eliminar os ativos problemáticos e obrigar as instituições financeiras a reconhecer suas perdas. A compra de ativos deve ser feita de maneira transparente e a um preço de mercado justo.

Os motivos para tanto não são moralistas, apesar de isso ser imperativo, mas pragmáticos. Se os preços forem inflados, então os bancos terão de arcar com as perdas que recaírem sobre os contribuintes – no caso dos Estados Unidos, os bancos teriam de emitir ações para o governo, diluindo assim a participação patrimonial dos outros acionistas. Mas as perdas postergadas para o futuro impedem o fluxo de novo capital particular em direção aos cofres dos bancos. Para atrair tal capital, é melhor pagar um preço menor agora, reconhecer as perdas e dar aos bancos alguma boa notícia no caso de as perdas imaginadas serem, afinal, menores do que se supunha.

Em terceiro lugar, o dinheiro particular é escasso no ambiente atual e o reconhecimento das perdas por si só pode não ser suficiente para induzir a uma injeção de novo capital particular. Uma estratégia que funcionou em crises anteriores é equilibrar as infusões de novo capital particular com quantidade equivalente de capital estatal, o que impõe um teste de mercado para o uso de fundos públicos.

Em quarto lugar, tornou-se urgente um alto grau de cooperação internacional. Infelizmente, as medidas recentes foram tomadas tendo em mente o interesse nacional e não se fez o bastante para evitar conseqüências não intencionais do tipo “transforme-seu-vizinho-em-mendigo”, que apenas exacerbam os problemas para os outros. Se um país oferece com credibilidade uma garantia abrangente (a Irlanda, por exemplo), os investidores podem sair de países que não fizerem a mesma oferta (a Grã-Bretanha, por exemplo). Se o procedimento de compra de ativos for muito diferente, as instituições procurarão o comprador mais generoso. As instituições financeiras agora abrangem muitos países e planos de resgate críveis precisam apresentar consistência entre as muitas jurisdições dentro das quais as mesmas operariam.

Ainda mais fundamental, e olhando para além da crise atual, tornou-se claro que a comunidade internacional precisa trabalhar no sentido de fechar as muitas lacunas na arquitetura regulatória global que permitiram às instituições financeiras minimizar o capital ao mesmo tempo em que concentravam o risco.

Em quinto lugar, agora está se tornando claro que os países de mercados emergentes provavelmente serão atingidos com força pela turbulência financeira, apesar de seus fundamentos serem hoje mais sólidos e de suas robustas estruturas para a formulação de medidas. A não ser que uma súbita interrupção no fluxo de capital obrigue esses países a paralisar seu progresso ou, pior, derrube os seus sistemas financeiros, alguma forma de financiamento rápido e de grandes proporções deve ser mantida a postos.

Não pode haver dúvida de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) esteja preparado para empregar seus procedimentos de emergência e flexibilização para aprovar com rapidez programas de alto acesso ao financiamento, com base numa condicionalidade de mínima resistência que se concentre nas prioridades de resposta à crise.

Apesar de a situação parecer sombria agora, estou convencido de que há uma maneira de escapar do nosso apuro coletivo. O truque é fazer com que os formuladores de medidas de todo o mundo remem na mesma direção.

*O autor é diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional

29/09/2008 - 16:44h Mundo financeiro passa da embriaguez à ressaca moral

ENTREVISTA – EDUARDO GIANNETTI

eduardogiannetti.jpg

Economista aponta “colapso da confiança” e prevê período de forte regulamentação

O economista Eduardo Giannetti vê uma ressaca moral nos mercados, que segue a embriaguez que estimulou a tomada de risco sem precedentes pelos investidores. Diz que há um problema ético na “arrumação da casa” porque a euforia trouxe lucros privados para poucos, mas a conta será socializada para todos. Ele não acredita que, mais pobres, as pessoas fiquem menos felizes e afirma que a “angústia” maior é não saber o tamanho dos prejuízos e das privações que virão.

 TONI SCIARRETTA – FOLHA SP

Giannetti diz que o mundo financeiro ganhou uma “musculatura irreal” na economia e passa hoje por um “colapso da confiança”. Ele prevê um período de forte regulamentação, até que, mais uma vez, a criatividade do mercado crie novos produtos, que traga riscos maiores e desconhecidos. Leia trechos de entrevista.
Economista aponta “colapso da confiança” e prevê período de forte regulamentação

O economista Eduardo Giannetti vê uma ressaca moral nos mercados, que segue a embriaguez que estimulou a tomada de risco sem precedentes pelos investidores. Diz que há um problema ético na “arrumação da casa” porque a euforia trouxe lucros privados para poucos, mas a conta será socializada para todos. Ele não acredita que, mais pobres, as pessoas fiquem menos felizes e afirma que a “angústia” maior é não saber o tamanho dos prejuízos e das privações que virão.

TONI SCIARRETTA
DA REPORTAGEM LOCAL

Giannetti diz que o mundo financeiro ganhou uma “musculatura irreal” na economia e passa hoje por um “colapso da confiança”. Ele prevê um período de forte regulamentação, até que, mais uma vez, a criatividade do mercado crie novos produtos, que traga riscos maiores e desconhecidos. Leia trechos de entrevista.
FOLHA – Os bancos perderam a confiança e pararam de emprestar entre si. A confiança é muito tênue?
EDUARDO GIANNETTI -
Todo o sistema financeiro do mundo hoje está baseado em crenças e confiança. A nota de real que eu e você temos no bolso não passa de uma promessa sem lastro. Se a gente perder a confiança nesse papel, ele desaparece. Tudo está baseado em crenças, promessas e expectativas. A confiança custa para ser construída, mas é muito rápida de ser destruída, principalmente quando se vê o colapso sucessivo de bancos.

FOLHA – Os bancos e os investidores tinham consciência dos riscos que estavam correndo?
GIANNETTI - Às vezes, você está em uma situação perigosa sem saber o risco que está correndo. No momento em que as pessoas se tornam cientes, elas entram em pânico. Avicena [filósofo islâmico], lá no século 11, já descreveu essa experiência. Disse que o homem não sente dificuldade em caminhar por uma tábua enquanto acredita que ela está apoiada no chão, mas vacila e depois despenca ao se dar conta de que estava suspensa sobre um abismo.

FOLHA – Como o mundo sai tão rápido do excesso de segurança para uma crise de confiança?
GIANNETTI -
O que aconteceu no mundo foi um coquetel muito perigoso. Tivemos um período muito longo de juros baixos, uma expansão enorme da liquidez, um crescimento econômico sem pressão inflacionária, uma criatividade espantosa para inventar novos produtos financeiros, e a tecnologia da informação acelerou o ritmo de acontecimento das coisas. Com a desregulamentação do mercado, gerou uma situação de complexidade e de interdependência que ninguém compreende bem sua dinâmica.

FOLHA – As pessoas se iludiram?
GIANNETTI -
Quando tudo está indo bem, o apetite pelo risco aumenta. As pessoas vão ficando mais confiantes e fazendo apostas maiores. Tinha uma falácia de que esses novos produtos financeiros permitiam precificar e distribuir melhor o risco no sistema -coisa que se mostrou complemente furada; era exatamente o contrário. Quando se começa a ter os indícios de que a rentabilidade não ocorrerá e surge um problema como foi no mercado de crédito de alto risco nos EUA, você tem uma percepção de que foi longe demais, que as perdas vão ocorrer e serão grandes. Aí a psicologia gira na direção contrária e acontece uma terrível aversão ao risco. Você vê risco em tudo.

FOLHA – O modelo de banco de investimento está condenado?
GIANNETTI -
O Goldman Sachs tinha US$ 25 aplicados para cada US$ 1 de caixa. Houve uma hipertrofia das finanças. No início da década de 80, o lucro dos bancos representava 10% do lucro total da economia americana. Agora, é 40%. É muito difícil imaginar que haja valor criado por traz dessa lucratividade. É uma coisa artificial. É muita gente tentando ganhar manipulando dinheiro.

FOLHA – Mas isso estourou…
GIANNETTI -
Sim, foi algo que resultou de um certo delírio coletivo, ganhou vida própria e se abateu sobre as pessoas. Não é novidade. Desde a febre das tulipas, no século 16, vem se repetindo indefinidamente. O que muda agora é o grau de complexidade e de interdependência.

FOLHA – O que vem depois? Um período de forte regulação?
GIANNETTI -
Sim. O [Henry] Paulson [secretário do Tesouro] foi chamado para fazer um movimento de liberalização. Ele está implementando uma das ações mais intervencionistas do Estado. Não é a primeira vez, o Nixon chamou os economistas de Chicago, Milton Friedman entre eles. Quando a coisa apertou, implantou um controle de preços e salários. E ainda declarou: Somos todos keynesianos agora.

FOLHA – Por que a maioria dos economistas errou suas previsões?
GIANNETTI -
No momento de incertezas, o espectro dos prognósticos se expande. A dispersão de previsões e de opiniões se torna muito maior do que no período de normalidade, em que as previsões convergem. Como trabalhar isso? Há dois limites: o otimista e o pessimista. Nós estamos vivendo uma coisa parecida com 2001, no estouro da bolha da internet, que foi a menor recessão nos EUA. Foi [em forma de] um “V”. A coisa caiu, teve uma certa vertigem e depois voltou. No limite de pessimismo, vem o “L”. Cai e se arrasta, como na Depressão de 1929 e na recessão no Japão, nos anos 90. O cenário intermediário é o “U”, que não é tão simples como foi em 2001, mas não é tão crônico quanto o “L”.

FOLHA – E qual o cenário desta vez?
GIANNETTI -
Estamos passando por algo bem mais sério que o “V”, mas também duvido que se transforme num “L”. Nos anos 30, no momento em que deveria expandir a liquidez, o Fed contraiu e gerou uma forte desconfiança que levou a uma depressão crônica. No Japão, duas coisas aconteceram que não tendem a se repetir. Primeiro, a política monetária ficou impotente porque houve deflação. O cidadão guardava o dinheiro debaixo do colchão e, quando ia gastar, valia mais porque os preços caíram. E o governo, em conluio com os bancos, em vez de explicitar as perdas, jogou para baixo do tapete. Em vez da dor curta e aguda, preferiram uma dor crônica suave, mas que se arrastou por anos. Nesse aspecto, os americanos são corajosos. Quando quebram, fazem dispensas, tomam medida drástica e limpam rapidamente o passado. É uma cultura quase filosófica dos americanos com o desassombro do recomeço, que não tem na cultura oriental.

FOLHA – Essa crise ameaça a hegemonia americana?
GIANNETTI -
Tem muita gente torcendo para isso. Não vejo os EUA em processo de declínio, mas o mundo é dinâmico e está mudando. Os EUA continuam sendo a maior economia do mundo e a força mais inovadora em termos de patentes, tecnologia e criatividade.

FOLHA – O mundo sai pobre dessa crise. As pessoas estão mais tristes?
GIANNETTI -
Não acho. A gente se desfaz de muitas ilusões. Havia quase uma embriaguez de enriquecimento sem trabalho. E isso tira muitos talentos para a especulação. Uma coisa é a crise financeira e outra são as seqüelas no mundo real: desemprego, fome, pobreza. O tamanho das seqüelas dessa crise ainda está em aberto. Nessas horas, ajuda muito pensar no pior cenário. Pode ser que tenhamos uma recessão de dois ou três anos. E daí? Será que o mundo não estava precisando de uma pausa para respirar? Será que não vivemos um frenesi de consumo de recursos naturais e não podemos ter uma trégua para repensar um pouco o lugar do econômico na vida humana? Será que faz tanto sentido concentrar tanto da nossa atenção no sucesso financeiro? Será que não está na hora de isso ocupar um segundo plano?

FOLHA – É justo o socorro aos bancos com dinheiro do contribuinte?
GIANNETTI -
Quando os banqueiros estavam ganhando bilhões de dólares, tudo era privado e particular. No momento em que esses banqueiros e esses grandes aplicadores perdem bilhões, vem o governo e socializa jogando a conta para as gerações futuras. Tem alguma coisa profundamente errada do ponto de vista ético nesse sistema. É uma assimetria inaceitável de tratamento de ganhos e perdas.

FOLHA – O Brasil soube aproveitar essa euforia no mundo financeiro?
GIANNETTI -
O país fez um ajuste muito importante e isso deu uma condição robusta para assimilar o impacto dessa crise. O Brasil tinha um quadro de hipersensibilidade ao mercado internacional. Bastava uma gripe lá fora para virar uma pneumonia aqui. Desta vez, a casa estava arrumada.

24/09/2008 - 08:54h Plano Paulson não é solução

crise_paulson_money.jpg

Proposta prevê aquisição de maus ativos por valor muito superior ao justo

MARTIN WOLF DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

MOMENTOS de desespero requerem medidas desesperadas. Mas lembrem-se, igualmente, de que decisões apressadas podem terminar ditando a forma do sistema financeiro por uma geração. A rapidez é essencial. Mas acertar quanto ao novo regime a ser adotado, também.

Sem dúvida a crise há muito passou do estágio no qual os governos poderiam deixar ao setor privado a responsabilidade por se salvar, com apenas uma pequena ajuda dos bancos centrais. Para os EUA, o resgate ao Bear Stearns foi o momento em que essa opção desapareceu.

Mas os acontecimentos das últimas semanas -o resgate a Fannie Mae e Freddie Mac, a quebra do Lehman Brothers, a venda do Merrill Lynch, o resgate à AIG, a fuga para a segurança e a decisão pelo Morgan Stanley e pelo Goldman Sachs de que se tornarão holdings bancárias sujeitas ao regime regulatório- tornam inevitável uma solução abrangente.


O público dos EUA quer ação

A questão é determinar se receberá a ação correta. Para responder a isso, devemos concordar quanto aos desafios que o sistema financeiro dos EUA enfrenta e aos critérios para julgar a forma de enfrentá-los.

Quais são os desafios? A resposta dada por Hank Paulson, o secretário do Tesouro americano e um dos proponentes mais insistentes de ação imediata, ao anunciar, na sexta-feira, seu “programa de alívio de ativos problemáticos”, é que “a fraqueza inerente do nosso sistema financeiro hoje são os ativos hipotecários sem liquidez que perderam valor à medida que avança a correção no mercado da habitação. Esses ativos estão bloqueando o fluxo de crédito tão vitais para a nossa economia”. O desafio principal, portanto, seria a falta de liquidez, não a insolvência. Ao criar um mercado para esses ativos tóxicos, Paulson espera deter a espiral de quedas de preços e de quebra de empresas.

Sugiro a adoção de uma visão mais ampla. O total agregado de dívidas dos EUA subiu de apenas 163% do PIB, em 1980, para 346%, em 2007. Só dois setores foram responsáveis por essa imensa alta no endividamento: os domicílios, cujas dívidas avançaram de 50% do PIB em 1980 para 71% em 2000 e 100% em 2007; e o setor financeiro, cujo endividamento subiu de 21% do PIB em 1980 a 83% em 2000 e 116% em 2007. Os balanços do setor financeiro explodiram, da mesma forma que sua lucratividade hipotética. Mas alavancagem, infelizmente, funciona nos dois sentidos.

Já que a dívida externa líquida dos EUA era de 39% do PIB pelo final de 2007, virtualmente toda essa dívida representa ativos para outras entidades domésticas, e uma coisa deveria compensar a outra. Mas, quando o estoque de dívida bruta é imenso e as condições econômicas são complicadas, a chance de que muitas entidades quebrem se torna alta.

Quando as pessoas temem insolvência em massa, as instituições de empréstimo suspendem seus empréstimos, e os devedores deixam de gastar. O resultado pode ser uma “deflação de dívidas”, descrita por um economista americano, Irving Fisher, em 1933, e vivida pelo Japão nos anos 1990.

Dada a recente explosão no nível de alavancagem, é improvável que o desafio seja só o de determinar de maneira incorreta o preço dos títulos tóxicos lastreados por hipotecas. Muitas pessoas e instituições fizeram apostas alavancadas que saíram pela culatra. As dívidas dessas pessoas não podem ser pagas. Os credores estão reagindo como esperado.

Agora consideremos os critérios que devem ser usados para avaliar a intervenção. Primeiro, ela deve responder à ameaça sistêmica. Segundo, deve minimizar os danos aos incentivos. Terceiro, precisa apresentar custo e risco mínimo para os contribuintes. E, acima de tudo, precisa ser coerente com a idéia de justiça social.

O problema fundamental com o esquema de Paulson, na forma proposta, é, portanto, o de que não constitui nem a solução necessária e nem uma solução eficiente. Não é necessária porque o Federal Reserve tem capacidade para enfrentar o problema da falta de liquidez por meio de suas muitas opções como emprestador de último recurso. E não é eficiente porque só seria capaz de lidar com a insolvência ao adquirir maus ativos por valor muito superior ao justo, o que garantiria grandes prejuízos para os contribuintes e ofereceria um resgate sem limites claros aos mais irresponsáveis dos investidores.

Além disso, esses ativos sofriam de fala de liquidez exatamente porque estimar seu valor era tão difícil. O governo correria o risco de ver seus cofres recheados de imensas quantias de papéis podres superavaliados, mesmo que tente evitar essa situação. Igualmente reprovável, ainda que mais em termos de forma que de fundamento, era a idéia de poderes ilimitados ao Tesouro.

Um fundo como esse deveria ser operado de maneira profissional e fiscalizado por instituições independentes. Por fim, se o governo dos EUA pretende resgatar os investidores incompetentes, deveria também oferecer assistência aos devedores, pobres e mal informados.

No entanto, acima de tudo, um esquema para enfrentar a crise deveria ser capaz de remediar a descapitalização iminente do sistema financeiro, da maneira mais dirigida possível.

A maneira mais simples de recapitalizar essas instituições seria forçá-las a levantar capital e a suspender seus dividendos.

Caso isso não funcione, poderia haver conversões forçadas de dívida em capital. A atração das conversões de dívidas em capital é que isso criaria prejuízos para os credores, e isso é essencial para a saúde em longo prazo de qualquer sistema financeiro.

A vantagem desses esquemas é que eles não requereriam um centavo em dinheiro público. A desvantagem é que causariam perturbações e seriam altamente impopulares. As instituições bancárias teriam de ter seu valor determinado, e as instituições consideradas como descapitalizadas teriam de adotar um dos métodos sugeridos para melhorar suas posições de capital.

Se, como parece plausível, um esquema que imponha esse tipo de sofrimento ao sistema financeiro, tenha de ser rejeitado de imediato, a segunda melhor escolha seria uma injeção de ações preferenciais pelo governo nas instituições descapitalizadas, como propôs Charles Calomiris, da Universidade Columbia. Isso representaria um resgate, mas determinado pelo comportamento dos beneficiários, em especial quanto pagamento de dividendos. A idéia seria bem melhor do que oferecer benefícios a quem não os merece por meio de aquisições em massa de papéis tóxicos a preços absurdos.

Qual é minha conclusão, portanto? Sim, pode existir espaço para uma intervenção no mercado de títulos tóxicos. Mas essa é uma maneira dispendiosa e ineficiente de enfrentar os mais profundos desafios atuais.

O que precisamos, acima de tudo, é de uma maneira clara e efetiva de promover a redução das dívidas e a recapitalização do sistema financeiro, idealmente sem recurso ao dinheiro dos contribuintes. Caso seja preciso usar o dinheiro deles, as injeções devem ser dirigidas de maneira cuidadosa e controlada. Ação abrangente é essencial, como Paulson decidiu.

Mas os Estados Unidos deveriam dedicar o tempo necessário a adotar a ação abrangente certa.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

22/09/2008 - 17:28h Professor e banqueiro jogam por terra dogmas do mercado

http://www.bloomberg.com/apps/data?pid=avimage&iid=iKxS3iDjh3oQ

Ben S. Bernanke, do Fed, e Henry M. Paulson, do Tesouro, são autores da maior intervenção governamental da história dos EUA, que envolve US$ 700 bilhões

PETER BAKER – FOLHA SP

DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON

http://resistir.info/financas/imagens/paulson_bernanke.jpgNos últimos 12 meses, enquanto a economia dos EUA vem tropeçando de crise em crise, o presidente do Federal Reserve, Ben S. Bernanke, vinha avisando o secretário do Tesouro, Henry M. Paulson, Jr, que o agravamento da situação poderia acabar por obrigar a uma intervenção federal abrangente.

Estudioso de longa data da Grande Depressão, Bernanke tinha consciência aguda do que poderia acontecer se não fossem tomadas medidas decisivas. O momento em que essa ação se tornou inevitável chegou na noite de quarta-feira. Menos de 24 horas depois de o Fed ter socorrido a gigantesca seguradora American International Group, ficou claro que a turbulência que agitava Wall Street só estava se agravando e que as soluções pontuais não estavam funcionando.

Falando ao telefone de sua sala de trabalho, Bernanke disse a Paulson que era chegada a hora de se adotar uma estratégia abrangente que o Congresso teria que aprovar. Paulson entendeu. Relutante, nos últimos dias, em submeter ao Congresso um plano que os legisladores tinham avisado que teria poucas chances de ser aprovado rapidamente, ele temera que uma possível rejeição tivesse efeito negativo ainda maior sobre os mercados. Mas, em dois telefonemas, na noite de quarta e na manhã de quinta-feira, ele concordou que não havia escolha.

“Aconteceu de maneira dramática”, disse Paulson em entrevista na sexta-feira. “Só havia um jeito de tranqüilizar os mercados e fazer frente a um congelamento muito grande e amplo do mercado de crédito. Não houve cálculos políticos. A necessidade da ação ficou avassaladoramente evidente.” E foi assim, simplesmente, que o reservado Bernanke, ex-professor de uma das mais respeitadas universidades americanas, e Paulson, ex-operador arrojado de Wall Street, lançaram aquela que seria a maior operação de resgate econômico governamental dos tempos modernos, que rivaliza com a guerra do Iraque em custos e que, ao mesmo tempo, pode redefinir o papel de Washington no mercado nos anos por vir.

Parceria

O plano de comprar US$ 700 bilhões em ativos problemáticos com dinheiro dos contribuintes foi traçado por dois homens que até dois anos atrás não se conheciam e não se movimentavam nos mesmos círculos, mas que a história aproximou. Se Bernanke é a força intelectual dessa dupla improvável, e Paulson, seu homem de ação, o fato é que eles conseguiram criar uma parceria ímpar em sua corrida para sustar a turbulência financeira e impedir a economia de afundar.

Como convém a seus papéis e personalidades, Paulson tornou-se o rosto público da equipe -ele pretende aparecer em quatro “talk shows” no domingo-, enquanto o menos visível Bernanke fornece as bases históricas da estratégia forjada.

Nesse caminho, eles deixaram de lado as posições defendidas por muito tempo pela administração em relação à regulamentação e ao envolvimento do governo nas empresas privadas, chegando a reverter decisões no prazo de 24 horas e a justificá-las como soluções práticas a ameaças graves. “Em tempos de crises financeiras, não há lugar para ideólogos”, disse Bernanke a colegas na semana passada, segundo testemunha de uma reunião.

A natureza pontual e improvisada de seu esforço converteu o presidente Bush e os democratas no Congresso em virtuais espectadores, às vezes incertos sobre o que virá a seguir, reagindo com assombro à nova dinâmica do poder na capital. A cada vez que os legisladores tentavam entender o que estava acontecendo e que papel poderiam exercer, com as eleições cada vez mais próximas, Paulson e Bernanke apareciam no Capitólio para mais uma reunião noturna e os surpreendiam com mais uma novidade.

Os dois homens vêm trabalhando desde cedo e até tarde, acompanhando os mercados asiáticos e atendendo a telefonemas com seus colegas europeus, depois falando ao telefone um com o outro, oito ou nove vezes por dia. Para ajudá-lo a suportar os longos dias de trabalho, Paulson recorre a inúmeras Diet Coke. Chamado pelo Senado a testemunhar duas vezes na semana passada, ele pediu para ser liberado.

“Ele me falou que tinha dormido apenas quatro horas”, disse o senador democrata Christopher J. Dodd, presidente do Comitê de Bancos. Mas a boa vontade de Dodd tem limites. Ele contou que respondeu: “O público quer saber o que está acontecendo.” Bernanke (cuja bebida preferida é a Dr. Pepper Diet) faz questão de deixar seu gabinete até a meia-noite para dormir pelo menos um pouco, mas seus amigos dizem que os sinais de cansaço são evidentes nele.

Alan S. Blinder, seu amigo de longa data e ex-vice-presidente do Federal Reserve, recorda-se de ter visto Bernanke em uma conferência no mês passado em Jackson Hole, Wyoming. “Sua aparência era de alguém que carregava o peso do mundo nos ombros.”. E isso foi antes da semana passada.


Personalidades

Bernanke assumiu seu cargo em fevereiro de 2006, e Paulson cinco meses mais tarde. Ambos são republicanos e ambos foram nomeados por Bush, mas suas origens são muito diferentes. Bernanke, 54, administrava a política acadêmica do departamento de economia da Universidade Princeton, da qual foi presidente, desenvolvendo um estilo conciliador. Paulson, 62, chegou à presidência do Goldman Sachs falando duramente ao telefone e ocasionalmente dando socos na mesa.

“Hank é um sujeito hiperativo, do tipo que sempre tenta resolver o problema e seguir adiante”, disse Allan B. Hubbard, ex-assessor de economia nacional de Bush. “Ele está sempre impaciente para resolver as coisas. Já Ben age de maneira muito mais discreta. Ele reflete muito. É um pensador incrível, alguém que sabe ouvir, que sabe analisar e que não se deixa intimidar por ninguém. Acho que eles fazem uma ótima parceria.”
Bernanke fala em termos grandiosos e Paulson despeja o jargão contundente de Wall Street, mas o que uniu os membros da nova dupla dinâmica de Washington foi em parte o beisebol. O secretário do Tesouro é torcedor dos Chicago Cubs, e o presidente do Fed torce pelos Boston Red Sox, mas em Washington passou a torcer pelos Nationals e a dividir ingressos de temporada com o chefe do Estado-Maior da Casa Branca, Joshua B. Bolten.

Nem Paulson nem Bernanke, porém, haviam tido envolvimento profundo no processo político. Em seus esforços para trabalhar juntos em Washington, eles se cercaram respectivamente de assessores vindos do Goldman e de profissionais de carreira do Fed. Paulson recusou o primeiro convite para entrar para o gabinete. Ele mudou de idéia apenas depois de um trabalho extenso de lobby e convencimento feito por Bolten, antigo executivo do Goldman, e de Bush ter se comprometido a deixá-lo dirigir de fato a economia política, diferentemente de seus predecessores.

O Martelo, como Paulson é apelidado desde seus tempos de jogador no time de futebol americano de Dartmouth, levou a Washington a intensidade que é sua característica. “Ele é um furacão. Está acostumado a viver num mundo turbulento”, disse John H. Bryan Jr., amigo íntimo de Paulson e ex-executivo-chefe da Sara Lee Corporation. “Está acostumado a viver num mundo de “deadlines”, decisões e muita pressão.”
Paulson, que é membro da igreja Cientista Cristã, não fuma nem bebe. Uma vez, num coquetel em que estava fazendo um discurso, recordou um de seus ex-colegas do Goldman, Andrew W. Alper, Paulson acidentalmente tomou um gole de vodca de um copo, pensando tratar-se de água.

Seu rosto ficou vermelho e seus olhos lacrimejaram por uma hora. “Mas ele continuou firme”, disse Alper. Bernanke tem um apelido menos evidente, “Helicopter Ben”, que lhe foi dado depois de um discurso que proferiu em 2002, falando sobre as injeções emergenciais de dinheiro do Fed para manter a liquidez do sistema, como alimentos despejados de helicópteros para ajudar vítimas de enchentes ou outras catástrofes.

Para Bernanke, a crise atual é o ponto culminante de toda uma vida passada tentando entender como o sistema funciona desde o ponto de vista teórico. Bernanke deixou claro muito tempo atrás que ele sabia que algum dia poderia ser convocado a pôr em prática os frutos de seus estudos.

Vincent R. Reinhart, um ex-funcionário do Fed, disse que as pesquisas de Bernanke sobre a crise financeira do Japão na década de 1990 reforçaram sua opinião de que crises do mercado requerem intervenções governamentais agressivas. Numa festa que promoveu em 2002 para o 90º aniversário do famoso economista Milton Friedman, Bernanke, então um dos diretores do Federal Reserve, falou sobre os erros cometidos pelo país diante da Grande Depressão e prometeu não repeti-los. “Não o faremos de novo”, disse ele.

Aviso prévio

Na entrevista da sexta-feira, Paulson disse que Bernanke já vinha avisando havia muito tempo da possibilidade de chegada de um momento como o da semana passada.

“Muito tempo atrás, talvez há um ano já, Ben, que é um economista de primeiro nível, me disse: “Quando se olha para a bolha imobiliária e a correção, se a queda nos preços for suficientemente grande, a única solução pode ser uma intervenção governamental em grande escala’”, contou Paulson. “Ele falou sobre o que aconteceu quando houve outras situações históricas semelhantes.” Paulson disse que concordara, mas que esperava que a situação não chegasse a isso. “Eu sabia que ele tinha razão, teoricamente”, disse ele. “Mas eu tinha alguma esperança, e ele também, de que, com toda a liquidez que havia dos investidores, depois de uma certa queda chegaríamos ao fundo, e que a queda terminaria.”
Ainda na segunda-feira passada, Paulson estava ouvindo de legisladores democratas e republicanos sêniores, incluindo o líder da maioria na Câmara, Steny H. Hoyer, e o deputado de Ohio John A. Boehner, líder republicano da Câmara, que não havia chances de o Congresso aprovar qualquer legislação antes de seus membros deixarem a cidade, em setembro. Mesmo o deputado Barney Frank, proponente de um papel mais ativo do governo no mercado, disse na segunda que a questão teria que ser resolvida pelo próximo presidente e pelo novo Congresso, em setembro.

Na terça, porém, os problemas só estavam se agravando. O Lehman Brothers entrara com pedido de concordata. O Merril Lynch concordara em ser comprado pelo Bank of América, e a AIG estava à beira do colapso. Paulson e Bernanke montaram uma operação de US$ 85 bilhões de socorro à AIG e a apresentaram a Bush.

Mas os dois avisaram ao presidente que a operação talvez não fosse o suficiente para estabilizar a crise mais ampla. Um alto funcionário da administração, que pediu anonimato para comentar deliberações internas, parafraseou nos seguintes termos a mensagem que Bernanke e Paulson transmitiram a Bush: “É possível que depois disto ainda haja problemas, e, se houver, vamos procurá-lo outra vez”.

Eles o fizeram dois dias mais tarde, quando a queda vertiginosa de ações e o congelamento do mercado de crédito deixaram claro que a estratégia caso por caso não estava funcionando. Paulson tinha conversado com Bush ao telefone ao longo de toda a quarta e a manhã da quinta. A decisão de tomar uma medida radical, que abrangesse o sistema inteiro, foi finalmente tomada apenas após uma seqüência interminável de teleconferências envolvendo funcionários do Fed, do Tesouro e da “Securities and Exchange Commission” (órgão que regula o mercado de capitais), recordou um participante, quando Bernanke declarou: “Temos que ir ao Congresso”. Paulson concordou.

Na tarde de quinta-feira, Bernanke e Paulson, acompanhados do presidente do SEC, Christopher Cox, foram à Casa Branca explicar seu plano. “O presidente disse “vamos fazer’”, contou um funcionário. “Não houve hesitação.” Em questão de horas, Paulson e Bernanke estavam no gabinete da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, fazendo um resumo para transmitir aos líderes do Congresso a plena gravidade da situação. Os parlamentares ficaram abalados, mas ofereceram apoio hesitante. Divididos entre os imperativos conflitantes de entrar em ação ou de voltar a seus Estados para fazer campanha, eles pareciam alternar-se entre gratidão e ressentimento com relação à nova dupla poderosa de Washington. Alguns falavam do “presidente Paulson”, e outros reclamavam de um presidente não eleito do banco central prestando socorro de centenas de bilhões de dólares.

Paulson e Bernanke foram criticados por agirem com agressividade excessiva e também por não serem agressivos o suficiente. O senador republicano Jim Bunning, do Kentucky, disse que eles estavam matando o livre mercado. R. Glen Hubbard, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Bush, achou que eles deveriam ter agido antes.

“A oportunidade para uma ação ousada obviamente teria sido melhor se tivessem agido meses atrás”, disse ele. “Mas antes tarde que nunca.” No final, o que deixou frustrados tantos parlamentares e economistas foi a percepção de que ninguém tinha uma idéia melhor a propor. Então eles esperaram Paulson e Bernanke lhes darem mais detalhes sobre o que queriam fazer.

Tradução de CLARA ALLAIN

18/09/2008 - 15:37h ‘Brasil viveu bolha que agora se esvazia’

http://unipmarques.files.wordpress.com/2008/06/pregao_bovespa.jpg

Responsável pela cobertura da América Latina no site Economy.com, braço de análise da agência classificadora de risco Moody’s, o economista Juan Pablo Fuentes diz que o “Brasil viveu uma pequena bolha, na época de bonança, que agora se esvazia”. Ele prevê um 2009 mais difícil, mas nada como uma crise.

Juliana Rangel – O Globo


O GLOBO: Como o senhor avalia a intervenção do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) na AIG? Os mercados reagiram mal…

JUAN PABLO FUENTES: Sem nenhuma empresa privada disposta a ajudar, o Fed não tinha saída a não ser resgatar a AIG. O problema é que essa ação ressaltou a gravidade da crise.

A Bolsa, no Brasil, já caiu 28% no ano, mais que Dow Jones, Nasdaq e outros mercados americanos e da América Latina. Por quê?

FUENTES: Não há nada de errado com o Brasil.
Este movimento de venda a que estamos assistindo é global. A única razão para a Bovespa estar caindo mais rápido é que, no período de bonança, também subiu mais. A Bovespa ainda tem ganhos de 44% (em dólar) na comparação com o fim de 2005, e o Dow tem alta de apenas 1%. A Bovespa viveu um pequeno período de bolha, agora está se esvaziando.

Em quanto tempo a Bolsa se recupera?

FUENTES: Não esperamos uma correção muito severa, apesar de acharmos que os mercados não chegaram às suas mínimas. Assim que as coisas se estabilizarem, as ações no Brasil irão subir aos poucos, mas não antes de 2009.

Qual é a melhor forma de os brasileiros lidarem com a crise?

FUENTES: Com a alta dos juros no Brasil, os títulos do governo parecem uma boa opção para investidores locais. Eles devem ter em mente que o movimento de venda na Bovespa é causado por investidores estrangeiros que estão fugindo de ativos mais arriscados. Eles não distinguem o Brasil do Chile ou do México. Para eles, todos são emergentes e, conseqüentemente, oferecem maior risco. Já os brasileiros devem lidar com isso de forma diferente, pois entendem melhor a economia do país

O diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn disse que esta crise não tem precedentes…

FUENTES: Essa realmente é uma crise sem precedentes. Em 2001, o que aconteceu, foi uma leve recessão. A crise atual tem características similares à de 1929, mas não deverá provocar uma depressão como a de 1929.

O crescimento dos países da América Latina ficará comprometido?

FUENTES: A região continua com força, em sua maior parte. O crescimento de países como Brasil, Chile e Peru continua surpreendentemente robusto. As más notícias: o cenário externo está se deteriorando muito rápido. Isso vai pôr muita pressão sobre a América Latina, já que os preços das commodities vai cair e a demanda externa também. Adicionalmente, o custo de financiamento para a região vai subir. 2008 será ainda bom ano para a região e para o Brasil, em particular. O de 2009 será mais difícil.Mas não estamos prevendo uma crise.

O ministro Mantega disse que, se fosse alguns anos atrás, o Brasil agora estaria de quatro. O senhor concorda?

FUENTES: Absolutamente. O Brasil está em excelente forma para encarar a turbulência atual dos mercados. Mas o desafio será muito maior nos próximos meses.

18/09/2008 - 09:03h ”Crise é o Muro de Berlim do livre mercado”

crise_dolar.jpg

Instituições voltadas para os mercados nas economias de mercado quebram e pedem socorro ao governo, diz Stiglitz

Nathan Gardels e Global Viewpoint – O Estado de São Paulo

http://blogs.zdnet.com/open-source/images/joseph-stiglitz.jpgCom a profunda crise por que passa o sistema financeiro mundial, puxada pela quebra das principais instituições de crédito dos Estados Unidos, Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001, avalia que a queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o comunismo. A seguir, principais trechos da entrevista ao editor do Global Viewpoint.

Barack Obama disse que a quebradeira de Wall Street é a maior crise desde a Grande Depressão; John McCain afirma que a economia está ameaçada, mas que é fundamentalmente forte. Quem tem razão?

Obama está muito mais próximo da verdade. De fato, os Estados Unidos têm pessoas de talento, grandes universidades e um excelente setor de alta tecnologia. Mas os mercados financeiros desempenharam um papel muito importante e foram responsáveis por 30% dos lucros corporativos dos últimos anos. Os principais operadores dos mercados financeiros colheram esses lucros argumentando que estavam contribuindo para administrar o risco e alocar o capital de modo eficiente e, por isso, afirmam, “merecem” os altos retornos. Ficou claro que nada disso é verdade. Eles administraram pessimamente toda a situação. Agora esta se voltará contra eles e o restante da economia terá de pagar, enquanto as engrenagens da atividade econômica começam a rodar mais devagar em razão do aperto no crédito. Nenhuma economia moderna pode funcionar bem sem um vibrante setor financeiro. Portanto, o diagnóstico de Obama é correto: nosso setor financeiro se encontra numa situação desesperadora. E, se está numa situação desesperadora, significa que a nossa economia está na mesma situação. Mesmo se não analisarmos a turbulência financeira, mas o grau de endividamento nacional, federal e do setor da habitação, veremos que há um grave problema. Nós estamos afogando. Se considerarmos a desigualdade, a mais profunda desde a Grande Depressão, veremos igualmente um grave problema. Se considerarmos os salários estagnados, perceberemos outro grave problema. A maior parte do crescimento econômico nos últimos cinco anos teve base na bolha da habitação, que acaba de estourar. E os frutos desse crescimento não foram amplamente compartilhados. Em suma, os fundamentos não são fortes.

Que medida seria necessária para enfrentar a crise de Wall Street?

Evidentemente, não precisamos só de uma nova regulamentação, mas de uma reformulação do sistema regulador. Durante seu reinado à frente do Federal Reserve (Fed) – no qual a bolha financeira e hipotecária foi crescendo -, Alan Greenspan dispunha de inúmeros instrumentos para contê-la, mas não o fez. Afinal, ele foi escolhido por Ronald Reagan por suas atitudes contrárias à regulamentação. Paul Volcker, o chefe anterior da instituição, conhecido por manter a inflação sob controle, foi demitido porque o governo Reagan julgou que ele não atuava de maneira adequada à desregulamentação. Nosso país sofreu, então, as conseqüências da escolha para o cargo de principal regulador da economia de alguém que não acreditava em regulamentação. Portanto, em primeiro lugar, para corrigir o problema precisamos de líderes políticos e de estrategistas que acreditem em regulamentação. Além disso, precisamos adotar um sistema capaz de lidar com a expansão das finanças e de instrumentos financeiros além dos tradicionais bancos.Por exemplo, precisamos regulamentar os incentivos. É preciso começar a pagar bônus pelo desempenho referente a vários anos, e não só a um ano, porque isso acaba encorajando o jogo. As opções de ações estimulam a contabilidade desonesta e precisam ser limitadas. Em suma, criamos incentivos para um mau comportamento do sistema e foi o que tivemos. Também precisamos de “redutores de velocidade” . Historicamente, toda crise financeira esteve associada a uma expansão muito rápida de determinados tipos de ativos, das tulipas às hipotecas. Se conseguirmos reduzir isso, poderemos impedir que as bolhas escapem do controle. O mundo não teria desaparecido se expandíssemos o setor de hipotecas a 10% ao ano, em lugar de 25%. Conhecemos o esquema tão bem que deveríamos ser capazes de fazer alguma coisa para contê-lo. Acima de tudo, precisamos de uma comissão de segurança para produtos financeiros, assim como temos uma comissão para os bens. Os financistas inventaram produtos que não tinham o objetivo de administrar o risco, mas criar o risco. É claro que acredito totalmente em maior transparência. Entretanto, em termos de normas reguladoras, esses produtos eram transparentes do ponto de vista técnico, mas eram tão complexos que ninguém conseguia entendê-los. Se todas as cláusulas desses contratos tivessem sido divulgadas, não teriam acrescentado nenhuma informação útil sobre o risco para os mortais comuns. O excesso de informações não é informação. Nesse sentido, os que pedem maior transparência como solução do problema não compreendem as informações. Quando você compra um produto, quer conhecer o risco, essa é a questão.

crise_outsource.jpg

Os títulos respaldados em hipotecas, que estão na base da crise, estão espalhados pelo mundo, de bancos a fundos soberanos na China, Japão, Europa e Golfo. Qual o impacto da crise para eles?

É verdade. Os prejuízos das instituições financeiras européias relativos ao crédito hipotecário subprime foram maiores que nos EUA. O fato de os EUA terem diversificado esses títulos para os seus investidores no mundo todo, graças à globalização dos mercados, amorteceu o impacto nos EUA. Se não tivéssemos diluído o risco, o resultado nos EUA teria sido muito pior. Uma coisa que agora todos compreendem como conseqüência dessa crise são as informações assimétricas da globalização. Na Europa, por exemplo, não se entendia muito bem que as hipotecas americanas são non-recourse (o valor do financiamento não pode superar o valor de mercado do imóvel) – se o valor da casa cai abaixo do valor da hipoteca, você pode devolver a chave ao banco e ir embora. Na Europa, a casa é a garantia, mas o mutuário continua pendurado pela quantia que tomou emprestado, seja qual for. É esse o perigo da globalização: o conhecimento é local porque você está muito mais a par do que ocorre em sua sociedade do que nas outras.

Então, qual é o impacto da crise de Wall Street para a globalização impulsionada pelo mercado?

O programa da globalização está estreitamente vinculado aos fundamentalistas do mercado – a ideologia dos mercados livres e da liberação do comércio. Nesta crise, vemos que instituições mais voltadas para os mercados nas economias mais orientadas para o mercado quebram e pedem o socorro do governo. Todo mundo dirá agora que esse é o fim do fundamentalismo do mercado. Assim, a queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o comunismo: ela diz que essa forma de organização econômica não funciona. A conjuntura mostra que a liberação do mercado financeiro não existiu. A maneira hipócrita com a qual o Tesouro americano, o FMI e o Banco Mundial lidaram com a crise asiática de 1997 e a maneira como a atual está sendo tratada enfatizou essa reação intelectual. Agora, os asiáticos dizem: Espera aí, vocês disseram que deveríamos imitá-los nos EUA. Se tivéssemos seguido o exemplo, também estaríamos no caos. Talvez vocês possam se permitir isso; nós, não.”

16/09/2008 - 10:43h Falha “geológica” expõe sistema frágil

crash.jpg

Abalo sísmico no mercado financeiro revela como o setor construi inovações e se expandiu em bases inconsistentes

Operações da banca privada sem fiscalização oficial ruem e dificultam avaliação exata das perdas, necessária para controlar colapso

GILLIAN TETT DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

Nesta década, o sistema financeiro ocidental parece uma cidade do Terceiro Mundo, construída sobre uma falha geológica e crescendo em ritmo acelerado. Em teoria, seus bem remunerados habitantes sempre souberam que um grande terremoto era possível e chegaram até ocasionalmente a olhar através da lama para verificar as fundações dos edifícios.
Mas a maior parte dos financistas estava tão ocupada com a expansão de seus negócios que essas verificações de segurança em geral foram perfunctórias. E as pessoas pagas para monitorar as fundações -as autoridades regulatórias- encontraram dificuldades para realizar a tarefa em meio à neblina que o frenesi de construção e inovação do setor fazia levantar.
Agora, porém, o terremoto chegou, e com uma violência que poucos esperavam. E à medida que nomes como o do Lehman Brothers desabam numa nuvem de poeira, torna-se chocantemente óbvio até que ponto eram frágeis algumas das fundações das finanças modernas, tendo em conta as vastas atividades que sustentavam.
Em retrospecto, por exemplo, hoje parece loucura que as autoridades tenham um dia permitido a uma instituição como o Lehman operar nos últimos anos com nível de alavancagem de 35 vezes ou mais seu capital. Afinal, com tamanhas dívidas empilhadas numa base minúscula de capital, não é necessária uma grande deterioração nos preços dos ativos para causar pânico.
Mas ficou também dolorosamente evidente que a infra-estrutura logística que sustenta o moderno sistema financeiro é preocupantemente instável em parte porque foi montada ao improviso, por diversos protagonistas do setor privado.
Tomem por exemplo o mercado de CDS (”credit default swaps”), que movimenta US$ 62 bilhões. Grupos como a ISDA (Associação Internacional de Swaps e Derivativos) vêm trabalhando incansavelmente nos últimos anos para criar contratos legais que estipulem o que acontece quando a contraparte num contrato de CDS quebra. E nas últimas 48 horas a ISDA vem trabalhando com o Fed de Nova York a fim de implementar esses procedimentos no caso do Lehman.
Mas ainda não está claro, e isso é muito grave, se essas medidas bastarão para compensar o pânico. O mercado de derivativos se baseia em contratos privados e bilaterais que podem variar em termos de detalhes. Muitos bancos não têm recursos para enfrentar as dificuldades logísticas da liquidação de uma montanha de transações.
Na melhor das hipóteses, isso significa que o mundo do crédito poderia agora enfrentar semanas de incerteza; na pior, alguns mercados poderiam se congelar, criando reações em cadeia e tornando ainda mais difícil estabelecer o valor dos ativos de crédito problemáticos, no Lehman e outros.
Não surpreende que siga existindo incerteza quanto ao escopo exato dos ativos tóxicos do Lehman (as estimativas vão de US$ 40 bilhões a US$ 80 bilhões). Nem que as autoridades regulatórias agora lamentem seu fracasso em reforçar as fundações do setor de derivativos negociados privadamente.
É justo apontar que os bancos haviam criado planos, recentemente, para enxugar os contratos CDS e colocar essas atividades em uma Bolsa regulamentada, em lugar de depender de transações privadas bilaterais, sem fiscalização oficial. Mas essas reformas sensatas não se materializaram ainda, e já se tornaram necessárias, o que explica a corrosiva sensação de incerteza.
A boa notícia, claro, é que os acontecimentos estão acelerando o processo de reforma e forçando bancos e corretoras a considerar essas questões seriamente. Caso o sistema de derivativos consiga cambalear até a semana que vem sem congelar, no futuro ele parecerá mais confiável.
Ainda mais importante, as quebras e as fusões estão removendo parte da capacidade excedente e da alavancagem que vinham prejudicando o sistema financeiro. Essa é uma precondição essencial para a recuperação. De fato, existe uma boa chance de que, quando os historiadores narrarem a história, retratem a implosão do Lehman como o ponto mais baixo do grande choque do crédito em 2007/8.
No entanto, antes que uma verdadeira recuperação possa começar, há ainda um desdobramento necessário: os investidores têm de começar a crer que preços genuínos de liquidação surgiram para os ativos tóxicos que residem nas carteiras do Lehman e de outros.
E, embora os acontecimento possam acelerar essa limpeza, o momento crucial ainda não chegou em larga escala. Restam muita incerteza e opacidade.
Aguardem novos choques. Talvez ainda precisemos de muitos meses antes que os destroços de uma década de exageros financeiros sejam removidos.

16/09/2008 - 08:52h Roleta-russa financeira

hipotecas_subprime.jpg

Paul Krugman* – O Estado SP – O Globo – Folha SP

O sistema financeiro dos Estados Unidos entrará em colapso nos próximos dias? Não acredito, mas também não estou muito certo. Ocorre que o Lehman Brothers, um dos maiores bancos de investimento, está ameaçado de colapso. E ninguém sabe o que acontecerá depois.

Para compreender o problema, é preciso saber que o antigo mundo dos bancos, no qual instituições instaladas em enormes edifícios de mármore aceitavam depósitos e emprestavam dinheiro no longo prazo, em grande parte desapareceu e foi substituído por aquilo que se costuma chamar de “sistema bancário sombra”.

Os bancos de depósitos, que ocupam os edifícios de mármore, agora se limitam a desempenhar um papel menor na canalização de recursos dos poupadores para os tomadores; a maior parte dos negócios é feita mediante complexos acordos elaborados por instituições comerciais, como o falecido Bear Stearns e o Lehman.

Acreditava-se que o novo sistema trabalharia melhor, diluindo e reduzindo os riscos. Mas, com a crise da habitação e a conseqüente crise do crédito hipotecário, ficou evidente que o risco não chegou a ser reduzido, mas ocultado: os investidores, em sua maior parte, não tinham idéia do grau de exposição em que se encontravam.

E, como as incógnitas desconhecidas se tornaram incógnitas conhecidas, o sistema presencia corridas pós-modernas aos bancos. Não são as mesmas que se viam na versão antiga: com poucas exceções, não estamos falando de multidões de poupadores desesperados batendo furiosos nas portas fechadas dos bancos. Falamos de telefonemas frenéticos e mouses clicando, enquanto os operadores do mercado financeiro conseguem arrancar linhas de crédito e tentam reduzir o risco dos parceiros. Mas os efeitos econômicos – congelamento do crédito, queda abrupta do valor dos ativos – são os mesmos das grandes corridas aos bancos da década de 30.

Essa é a questão: as linhas de defesa criadas para impedir novas corridas aos bancos, principalmente o seguro dos depósitos e o acesso a linhas de crédito do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), protegem apenas os que ocupam os edifícios de mármore, que não estão no centro da crise atual. O que cria a possibilidade concreta de 2008 tornar-se uma reedição de 1931.

Agora, os estrategistas estão cientes dos riscos. Antes de ser investido da responsabilidade de salvar o mundo, Ben Bernanke era um dos nossos maiores especialistas em economia da Grande Depressão.

Portanto, no ano passado, o Fed e o Tesouro elaboraram uma série de planos de ajuda específicos e foram criadas linhas de crédito especiais, com siglas impronunciáveis, disponíveis para instituições comerciais. O Fed e o Tesouro intermediaram um acordo que protegeu os parceiros do Bear – os que estão do outro lado de seus acordos -, embora não seus acionistas. E ainda na semana passada, o Tesouro assumiu o controle da Fannie Mae e do Freddie Mac, gigantescas instituições hipotecárias patrocinadas pelo governo.

Mas as conseqüências dessas operações de resgate estão deixando as autoridades nervosas. Em primeiro lugar, assumiram grandes riscos com o dinheiro dos contribuintes. Hoje, por exemplo, a maior parte da carteira do Fed está vinculada a empréstimos respaldados por garantias duvidosas. Além disso, as autoridades temem que suas operações de resgate estimulem comportamentos de risco no futuro. De fato, parece que, se a regra for cara, você ganha; se for coroa, os contribuintes perdem.

O que nos leva ao caso do Lehman, que sofreu enormes prejuízos relacionados ao setor da habitação e enfrenta crise de confiança. Como muitas instituições financeiras, o Lehman tem um balanço patrimonial enorme – deve vastas somas, mas lhe são devidas vastas somas. Tentar liquidar rapidamente esse balanço poderia instalar o pânico no sistema financeiro. Por isso, representantes do governo e executivos de bancos privados passaram o fim de semana reunidos no Fed de Nova York, procurando elaborar um acordo para salvar o Lehman, ou, pelo menos, fazer com que sua queda fosse menos violenta.

Mas o secretário do Tesouro, Henry Paulson, foi categórico. Afirmou que não abrandaria o acordo colocando na linha mais recursos públicos. Muitos pensaram que ele estivesse blefando. Eu estava preparado para começar a coluna de hoje do seguinte modo: “Quando a vida lhe dá o Lehman, dê uma ajuda ao Lehman.”

Mas não houve nenhuma ajuda e, ao que tudo indica, nem mesmo acordo. Aparentemente, Paulson está apostando que o sistema financeiro – fortalecido por essas linhas de crédito especiais – possa enfrentar o choque da concordata do Lehman. Logo saberemos se ele foi corajoso ou louco.

Evidentemente, a resposta real ao problema atual teria sido a adoção de uma medida preventiva, antes que a situação chegasse a esse ponto. Mesmo deixando de lado a óbvia necessidade de regulamentar o sistema bancário sombra – se as instituições precisam ser salvas como os bancos, devem ser regulamentadas como os bancos – por que estávamos tão despreparados diante desse último choque?

Quando o Bear afundou, muitos falaram da necessidade de um mecanismo de “liquidação ordenada” dos bancos de investimentos em concordata. Bem, isso ocorreu há seis meses. Onde está esse mecanismo? E então aqui estamos nós, com Paulson achando, aparentemente, que tentar a roleta russa com o sistema financeiro americano foi a sua melhor opção.

*Paul Krugman escreve para o The New York Times

25/08/2008 - 11:19h O centro não é a nova estatal

http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/foto/0,,14724740-EX,00.jpg

Ribamar Oliveira, O Estado de São Paulo

email: ribamar.oliveira@grupoestado.com.br

A partir de 2010, o Brasil se tornará exportador de petróleo – um feito inimaginável uma década atrás. É importante observar que o País alcançará o status de exportador de petróleo antes mesmo de explorar as enormes reservas da camada do pré-sal. Sem contar o pré-sal, a Petrobrás vai produzir cerca de 2,8 milhões de barris de óleo condensado por dia em 2015, segundo estimativa da empresa.

Como a demanda brasileira prevista para 2015 é de 2,3 milhões de barris de óleo ao dia, a estatal poderá vender ao exterior 500 mil barris por dia de petróleo, ou algo como 18% de sua produção total. Estimando que o preço do barril de petróleo de longo prazo fique em torno de US$ 100, o excedente exportável pela Petrobrás permitirá uma receita anual de cerca de US$ 18 bilhões, o que elevará o superávit comercial do País e ajudará a valorizar o real.

Essa realidade será potencializada com o início da exploração comercial da camada do pré-sal, onde os especialistas do mercado estimam existir algo entre 50 bilhões e 70 bilhões de barris de petróleo. Para se ter uma idéia do que isso significa, as reservas atuais do Brasil estão em torno de 14 bilhões de barris equivalentes (óleo e gás). Se as estimativas se confirmarem, o País passará a ocupar uma posição de destaque entre os 10 maiores produtores de petróleo do mundo.

Somente o campo de Tupi, onde a Petrobrás já dimensionou reservas de 5 bilhões a 8 bilhões de barris, produzirá cerca de um milhão de barris de óleo por dia, antes do final da próxima década. Em Tupi, a Petrobrás planeja instalar 11 plataformas com capacidade para produzir 100 mil barris diários cada uma. Por isso, a receita do Brasil com o petróleo poderá ser acrescida em US$ 50 bilhões ao ano ainda na próxima década.

Os economistas costumam falar da “maldição do petróleo” e de “doença holandesa” quando se referem aos efeitos negativos que as receitas dos recursos naturais podem ter sobre toda a economia de um país. Na década de 1970, o preço do gás natural apresentou substancial elevação. Como era um grande produtor de gás, a Holanda viu suas receitas aumentarem muito, o que provocou forte valorização da moeda local (na época, o florim). A valorização cambial afetou as outras exportações holandesas, pois os seus produtos perderam competitividade.

O petróleo também é chamado de “maldito” porque os grandes produtores mundiais nunca conseguiram desenvolver as suas indústrias, nem mesmo aquela relacionada à atividade. O risco que o Brasil corre, portanto, é de que as grandes receitas com o petróleo resultantes da exploração da camada do pré-sal valorizem o real e, com isso, as demais atividades industriais sejam desestimuladas. O medo é que ocorra uma desindustrialização do País.

Mas a “doença holandesa” não é uma fatalidade para os países ricos em recursos naturais. Ela pode ser evitada, como mostrou a Noruega. O governo brasileiro namora o modelo norueguês de exploração de petróleo, que usa uma empresa 100% estatal para administrar os recursos de suas reservas. Aquele país também tem uma empresa de economia mista (a Statoil), nos moldes da Petrobrás. O debate no Brasil passou a ser em torno da criação de uma empresa estatal, quando isso não é o mais importante.

Depois que descobriu as imensas reservas do mar do Norte, a Noruega conseguiu desenvolver sua indústria ligada ao petróleo, com base na proteção governamental aos setores industriais domésticos responsáveis pelo fornecimento de equipamentos, como mostrou a série de reportagens do jornalista Sérgio Gobetti, publicada pelo Estado.

O governo da Noruega obrigou os operadores privados dos campos de petróleo a usar fornecedores noruegueses de equipamentos nas diversas fases de desenvolvimento e produção. Uma pequena ilha habitada por pescadores descendentes de vikings, chamada de Fosnavag, tornou-se um dos principais centros de construção de navios e embarcações usadas na extração de petróleo.

É essa questão que deve estar no centro do debate em torno das reservas de petróleo do pré-sal. O desafio brasileiro é desenvolver a sua indústria ligada ao petróleo. “O Brasil precisa fortalecer sua indústria naval e de equipamentos para a exploração do petróleo, ao mesmo tempo em que amplia a sua capacidade de refino”, sintetizou o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e atual consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

A produção de embarcações, de sondas e demais equipamentos para a exploração e refino de petróleo vai dar um impulso considerável, lembrou Gomes de Almeida, à indústria siderúrgica brasileira e à indústria de bens de capital. Segundo ele, o Iedi vai apresentar sugestões ao governo. “É preciso reabrir a discussão sobre a política industrial, na perspectiva de exploração do pré-sal”, defendeu.

Para ele, o governo precisa oferecer apoio financeiro aos empreendimentos por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e conceder incentivos fiscais, que possam atrair os investidores estrangeiros. “A política para a indústria do petróleo precisa se antecipar a qualquer decisão sobre o pré-sal”, aconselhou.

21/08/2008 - 10:00h Petrobras na berlinda

A imagem “http://stream.agenciabrasil.gov.br/media/imagens/2007/10/26/26102007G00003.image_materia_horizontal.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

 

 

 

Setor privado questiona unificação e concessão de áreas não licitadas à empresa

 

 

Gustavo Paul, Ramona Ordoñez e Cristiane Jungblut – O Globo

O setor privado poderá questionar a entrada da Petrobras nas áreas da União ainda não licitadas no pré-sal caso haja a unitização (termo técnico para unificação) das regiões onde estão os campos já anunciados, na Bacia de Santos. Segundo executivos do setor, se a Petrobras assumir a produção nessas áreas, haverá favorecimento indevido aos acionistas privados da estatal, já que 60% do capital da empresa estão no mercado financeiro.

— O governo não pode conceder à Petrobras a prerrogativa de explorar as áreas que são só da União, pois estaria dando de bandeja um recurso público para sócios privados da empresa, sem licitação pública. Isso vale se a União tiver 40% da empresa ou 60% — diz um empresário do setor.
A solução desse impasse pode ocorrer até o fim do ano, quando a Agência Nacional do Petróleo (ANP) deve indicar as normas para a unitização em todas as bacias do pré-sal.
A idéia é fazer uma audiência pública para discutir as regras, previstas apenas em um artigo da Lei do Petróleo.
Ontem, o GLOBO publicou que a Petrobras vai sugerir ao governo unificar seus campos no pré-sal e as áreas contíguas, caso se crie uma nova estatal para gerir as reservas. Em nota a investidores, a Petrobras disse que não tem informação suficiente que prove que o pré-sal na Bacia de Santos precisará de unificação. Acrescentou que o marco regulatório obriga a unitização quando uma jazida se estende por blocos contíguos, cujos direitos pertencem a concessionários distintos.

— Sabe-se que no caso da unitização de áreas não concedidas com campos licitados, a ANP as assume para negociar a unitização. Mas não diz como isso será feito — diz o executivo de uma multinacional.
Internacionalmente, a unitização implica divisão de investimentos proporcional às reservas dos concessionários.
No caso da entrada da ANP, não se sabe como ela poderia investir, pois não tem dotação. Além disso, ressaltam especialistas, o processo é demorado. Há ainda tecnicalidades como a aplicação da regra do uso de equipamentos fabricados no Brasil na perfuração conjunta de um mesmo poço.
Para o diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, a proposta da Petrobras é bem-vinda. Ele concorda com a tese de que a unificação dos poços é inevitável, mas faz uma ressalva: — Nas reservas já anunciadas, a unitização pode ser uma obrigação, mas nas áreas contíguas é uma decisão política do governo.

Oposição critica nova empresa

Pinguelli diz que o governo deve investir no fortalecimento da Petrobras, opinião semelhante à do senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Segundo este, a discussão da unitização não pode se misturar à da nova estatal, que ele prefere chamar de “escritório de administração de reservas”: — A proposta feita pela Petrobras faz parte da solução, que vai levar à sua capitalização, o que é importante.
Não há melhor parceiro para a União operar o pré-sal do que a Petrobras.
Para o presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo, Wagner Freire, a lei diz que os blocos só sejam concedidos por leilão e que a entrega à Petrobras não teria sustentação jurídica: — Por que conceder à Petrobras, e não a outra petrolífera? Isso é ilegal.
Ele ressalta que a estatal norueguesa Petoro, vista como modelo, nem entra em todas as concessões em parceria com as petrolíferas.
Já o analista de petróleo Luiz Octavio Broad, da Ágora, destaca que as incertezas já afetam as ações da Petrobras — que, no ano, caíram 22%, contra recuo de 13% do Ibovespa: Os principais partidos de oposição resistem à idéia de mudanças na lei do petróleo, mas admitem que a questão da nova estatal precisa ser estudada.
O líder do PSDB na Câmara, deputado José Aníbal (SP), diz que o marco regulatório existente é suficiente para tratar as novas descobertas: — O que está lá embaixo já é do Estado, não da Petrobras. Mas mais uma empresa para substituir a ANP? Não é por aí que vamos avançar.
Em nota, o PSDB afirmou haver “propósitos eleitoreiros” na discussão sobre as reservas. O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), disse que o partido ainda não fechou posição, mas que a maioria é contra a nova estatal. Para o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA), a destinação de recursos a educação e saúde não depende de nova empresa nem de fundo soberano: — Uma nova estatal do príncipe estaria à sanção do príncipe, o que vai ser um desastre.

11/06/2008 - 14:23h PAC e lançamentos imobiliários fazem a festa da construção civil

construcao.jpg

Entidade projeta expansão de 10,2% em 2008

Márcia De Chiara, O Estado de São Paulo

A construção civil vive hoje o melhor momento em duas décadas. A perspectiva é de que o setor mantenha o ritmo acelerado de crescimento neste ano, puxado especialmente pelas grandes obras de infra-estrutura do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Paralelamente, o volume de empreendimentos imobiliários vai continuar em rota ascendente porque as obras já estão contratadas.

A avaliação é do presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), João Claudio Robusti. “O crescimento de 8,8% da construção civil no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre em relação a igual período de 2007, o maior desde o segundo trimestre de 2004, não nos surpreendeu. Nossa expectativa é de que o setor encerre o ano com crescimento ainda maior, de 10,2%”, prevê.

Ele observa que o grande diferencial da construção civil neste ano será a infra-estrutura, isto é, as grandes obras do governo. “Estamos em ano eleitoral”, lembra. Nas suas contas, as obras de infra-estrutura deverão representar 40% do movimento da construção, seguida pela construção civil imobiliária (40%) e a construção voltada para a ampliação da capacidade produção das indústrias (10%).

No ano passado, observa Robusti, quem deu o tom da construção civil foi o mercado imobiliário, responsável por 60% do crescimento do setor, seguido pela obras civis das indústrias para ampliar a capacidade (30%) e a infra-estrutura (10%). “O que vai impulsionar neste ano será o PAC, mas existem grandes obras civis do segmento imobiliário já contratadas.”

A incorporadora Agra, por exemplo, ampliou em 50% o volume de lançamentos imobiliários de 2007 para 2008. Segundo o diretor Financeiro e de Relações com Investidores, Ricardo Setton, em 2007, foram lançados R$ 1,4 bilhão e a previsão para este ano é de R$ 2,1 bilhões. “Temos visto a Selic (taxa básica de juros) subir, mas, como o crédito ainda é farto e os prazos continuam longos e chegam a até 30 anos, estamos otimistas”, diz o diretor.

O otimismo também prevalece na incorporadora JHSF, que mais que triplicou o total de lançamentos no último ano. Em 2007, a incorporadora colocou no mercado imóveis que somaram R$ 720 milhões. Neste ano, o total de lançamentos deverá atingir R$ 2,2 bilhões. “Do total previsto para este ano, R$ 300 milhões se referem a imóveis destinados a consumidores de baixa renda”, revela o vice-presidente e diretor de Relações com Investidores,Eduardo Câmara.

O executivo observa que a demanda está muito aquecida no momento, tanto na área residencial como na comercial, com destaque para os shoppings, onde a empresa tem forte atuação.

“Nós e o setor automobilístico não conseguimos ver desaceleração”, afirma Claudio Conz, presidente da Anamaco, que reúne as lojas de construção espalhadas pelo País. De janeiro a maio, o faturamento do setor cresceu 8,5%. A expectativa das lojas de materiais de construção é fechar o ano com acréscimo de 9% a 9,5% nas vendas.

09/06/2008 - 09:18h Novo status do Brasil conquista admiradores

http://www.btglobalservices.com/business/fr/fr/business/collaboration/images/BRICS_EN100-160x160.jpgbrasil_olho.jpg


Brazil’s new status wins admirers

dinheirocorrendo.gif

By Ruth Sullivan – Financial Times

Institutional investors are likely to take a fresh look at Brazil following ratings upgrades by two big agencies in the past two months. PDF

Standard & Poor’s and Fitch have both upgraded Brazil’s long-term sovereign debt to investment status, which means the country is now considered a safe investment destination unlikely to default on its debts.

It has only gained the lowest rung of the investment grade ladder, a long way from the triple A status of developed economies such as the US, Britain or Germany. But the change will nonetheless make it more attractive to a broader range of international investors such as big US pension funds, which are constrained from investing in countries that have not had their capacity to repay debt positively assessed, say fund managers.

Just six years ago the country was widely seen as being on the brink of bankruptcy and many investors would have found it impossible to see Brazil as an investment-grade country.

“The upgrade opens Brazil to a wider investor audience. A lot of funds will only move into a country when it has investment grade rating,” says Julian Thompson, head of emerging market equities at Threadneedle.

Brazil equity funds have just seen their sixth consecutive week of inflows, totalling $1.4bn (£716m, €901m), compared with net outflows of about $632m before that period, according to Boston-based Emerging Portfolio Fund Research, which tracks global fund flows.

“Investors have been attracted to Brazil based on better than expected recent economic growth and the government’s past commitment to responsible fiscal policies that led to fiscal surpluses and mounting foreign exchange reserves,” says Brad Durham, managing director of EPFR.

The strong flows into Brazil’s equity funds come as emerging markets funds in general have suffered severe outflows. The MSCI Brazil index is up almost 20 per cent since the beginning of January, while the MSCI Emerging Markets index is down more than 3 per cent.

Fund managers see the investment grade more as a seal of approval than dramatically changing fundamentals. “When Mexico gained its first investment grade rating in 2000, North American investors gradually began to add Mexican equities to their portfolio,” says Urban Larson, fund manager of F&C’s Latin American fund. He expects a similar pattern to emerge with Brazil.

Although Brazil is the last of the Bric countries (the others being Russia, India and China) to gain investment grade status, many Latin America and Bric fund managers are overweight in the country’s stocks.

“We’ve been fans of Brazil for a long time . . . and expect to maintain an overweight position. Any increase [in weighting] will depend on new companies coming to market,” Mr Thompson says.

Investor appetite has traditionally focused on commodities in a country with significant natural resources, but domestic stocks are beginning to gain some attention as domestic spending and consumption grows. “Brazil is the place where we see the most exciting opportunities,” says Stefan Herz, Latin American fund manager at Charlemagne Capital, an emerging market fund specialist.

“There have been so many initial public offerings in Brazil in the past few years and the emergence of new sectors.”

The information technology, real estate and healthcare sectors have also made a debut. “It is the only Latin American country where this has happened.”

Brazil makes up more than 67 per cent of the weighting of Charlemagne’s Magna Latin America fund.

Nicholas Morse, Schroders Latin America fund manager, is also positive on Brazil. Schroders’ $1.9bn Luxembourg-listed Latin America fund counts Brazil as the “largest overweight country in the portfolio”. The company’s $14.5bn Bric fund is also overweight in Brazilian equities .

On a short term outlook, Mr Morse says equity and fixed income markets have already discounted Brazil’s investment upgrade. But from a longer term perspective, “the status is good for foreign direct investment, especially for sectors [such as] infrastructure”.

At Threadneedle, where 22 per cent of the Global Equity Markets fund is in Brazil, compared with 18 per cent in Russia, 11 per cent in China and just 4 per cent in India, Mr Thompson also sees the attraction of investing in property. “The demand for middle income residential property is strong and remains relatively good value.”

He emphasises the importance of good stock-picking. “Once an investment grade rating has happened, the country [debt] risk has been reduced so there is not so much improvement to come. Then it is more about stock-picking.”

In the financial sector, the fund is looking outside banks, which are growing their loan books strongly but not their earnings, and at companies such as Redecard, a credit card transaction processor.

Another outcome of the rating change is that investor confidence will be boosted enough to encourage investors to look beyond traditional commodities and move into domestic stocks, says Mr Larson of F&C.

F&C’s Latin American Equity fund has been adding Brazilian domestic companies to its portfolio with AmBev, the brewery, which Mr Larson is expecting to show strong volume growth this year. The fund has also added Unibanco to its bank holding and invested in the stocks of All, a railway company, and Localixa, an auto rental company.

But some concerns still remain in the investment community, particularly the spectre of rising inflation and the question of whether current strong commodity prices can be sustained.