27/08/2012 - 10:01h Regras para aeroportos opõem grupos no governo

Por Daniel Rittner | VALOR

De Brasília

A elaboração do pacote de novas concessões de aeroportos jogou o governo em uma zona de atrito constante entre dois grupos que guardam divergências ideológicas. Ao contrário do que vinha ocorrendo no desenho das medidas para rodovias e ferrovias, áreas nas quais a presidente Dilma Rousseff formou convicção rapidamente do caminho a seguir e seus principais auxiliares falavam a mesma língua, o mal estar entre essas duas alas se acentuou com a hesitação dela em torno do futuro dos aeroportos. Nada está fechado até agora.

O primeiro grupo é chamado de “privatista” no Palácio do Planalto. Estão nele o ministro Wagner Bittencourt (Secretaria de Aviação Civil), Luciano Coutinho (presidente do BNDES), Marcelo Guaranys (presidente da Agência Nacional de Aviação Civil) e Antônio Henrique Silveira (secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda).

Todos defendem novas concessões, começando pelo Galeão (Rio) e Confins (Belo Horizonte), mas incluindo pelo menos um aeroporto no Nordeste. Eles também levaram ao gabinete presidencial a ideia de privatizar dois terminais médios – Goiânia e Vitória – que têm um histórico de problemas graves com o Tribunal de Contas da União (TCU) e exigem investimentos em ampliação da capacidade.

No segundo grupo, destaca-se o secretário do Tesouro, Arno Augustin. Ele chegou ao ápice de sua força no governo Dilma e hoje é considerado o “cérebro” da ala que combate novas privatizações e defende o fortalecimento da Infraero. Nenhuma reunião sobre aeroportos é feita sem a sua presença. O grupo tem ainda a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e o secretário-executivo dela, Beto Vasconcelos, uma espécie de “pupilo” de Dilma.

O grau de divergências e a incerteza da presidente podem levar ao adiamento do anúncio de novas medidas. “Vamos deixar isso para outubro”, sugeriu Arno, na última reunião. Foi uma das poucas vezes em que Dilma demonstrou discordância com ele, na frente dos demais auxiliares, e cobrou empenho para fechar o restante do pacote em setembro.

Arno mexeu no plano de aviação regional, elaborado durante meses pela Secretaria de Aviação Civil, para incluir o ressurgimento de um subsídio do governo às companhias aéreas para viabilizar novas rotas entre pequenos municípios do interior. E foi pai da ideia de fazer parcerias público-privadas (PPPs) para atrair um sócio estrangeiro à Infraero, que continuaria como majoritária na gestão dos aeroportos.

Os ministros Guido Mantega (Fazenda) e Miriam Belchior (Planejamento) chegaram a participar de algumas reuniões, mas se manifestaram de forma tímida e não são considerados protagonistas no debate. O comportamento do presidente da Infraero, Gustavo do Vale, intriga os dois lados. Ele chegou à estatal como um entusiasta das concessões, mas hoje acredita que tem condições de tocar obras no Galeão e em Confins com recursos públicos, além de ressaltar o fato de que pode comprometer sua capacidade financeira caso perca mais aeroportos lucrativos para a administração da iniciativa privado. Nas palavras de um conhecedor do que se passa nessas reuniões, Vale tem “coração privatista” e “cabeça estatizante”, mas manifesta apoio à ideia das PPPs.

Inclinada a favor do segundo grupo, Dilma determinou uma ida de Gleisi e de Bittencourt à Europa, para conversas pessoais com grandes operadores de aeroportos. Quatro gigantes serão sondadas e receberão explicações detalhadas sobre o modelo alternativo que ela pensa em aplicar: a alemã Fraport (Frankfurt), a francesa Aéroports de Paris (Charles de Gaulle), a britânica BAA (Heathrow) e a holandesa Schipol (Amsterdã).

Todas essas operadoras participaram do leilão de fevereiro, em associação com grupos nacionais, mas perderam a disputa por Guarulhos, Viracopos e Brasília. Em contatos informais com empreiteiras brasileiras, disseram não ter interesse em uma associação com a Infraero nos moldes das PPPs propostas agora pelo governo. A missão de Gleisi e Bittencourt à Europa estava sendo programada para esta semana e pode ser confirmada hoje.

Dilma, agora disposta a levar adiante as PPPs, tem demonstrado irritação nas últimas reuniões e seus auxiliares estão convencidos de que sua decisão ainda pode tomar um rumo diferente. No ano passado, quando os assessores presidenciais entraram em sua sala para uma reunião conclusiva sobre a proposta de privatizar o aeroporto de Guarulhos, ela surpreendeu a todos: “Quero incluir Viracopos e Brasília”. Ninguém tinha sido avisado e os dois outros aeroportos sequer constavam da pauta. Para um auxiliar de Dilma, é um sinal de que “às vezes ela decide com o fígado”.

Se vingar o modelo de PPPs com participação majoritária da Infraero, é provável que ela ganhe mais flexibilidade nas contratações, saindo definitivamente das amarras da Lei 8.666/93 (Lei de Licitações). Se as dificuldades levarem Dilma a optar pela continuidade das privatizações, é certo que haverá mudanças.

Nesse caso, a tendência mais forte é que não haja obrigatoriedade de os consórcios incluírem uma operadora estrangeira no grupo, como ocorreu no leilão de fevereiro. Uma vez definidos os vencedores da disputa, haveria a exigência de, aí sim, encaixar uma grande operadora no negócio. A outra hipótese é aumentar o requisito de movimentação mínima de passageiros em um aeroporto estrangeiro. Esse número foi de 5 milhões por ano no primeiro e pode subir a níveis próximos de 30 milhões por ano, limitando a concorrência às maiores operadoras mundiais.

Hoje, o retrato é de pouca força política do grupo a favor das privatizações. Bittencourt e Guaranys foram apontados como responsáveis pela ausência dos grupos mais robustos na lista de vencedores do primeiro leilão. Antônio Henrique Silveira tem estudado profundamente o assunto, mas tem evitado entrar em conflito, nas reuniões. Apesar de Gleisi e Beto Vasconcelos estarem a poucos metros do gabinete de Dilma, os assessores da presidente avaliam que o futuro dos aeroportos hoje depende, em boa parte, das propostas que apenas duas pessoas lhe levarem: Luciano Coutinho e Arno Augustin.

Enquanto isso, o desencontro das informações veiculadas recentemente sobre as concessões de aeroportos, que reflete a indefinição dentro do próprio governo, constrange o Palácio do Planalto e tem levado o gabinete presidencial a disparar telefonemas que buscam identificar, entre os participantes das reuniões, quem está na origem dos vazamentos.


Governo emite sinais contraditórios sobre próximos passos

Por Cristiano Romero | VALOR

De Brasília

São contraditórios os sinais emitidos pelo governo nas últimas semanas sobre os próximos passos da reestruturação dos aeroportos. A controvérsia ocorre justamente no setor de infraestrutura onde a presidente Dilma Rousseff iniciou as privatizações.

A presidente se irritou profundamente com o resultado dos três primeiros leilões, vencidos por pequenas empreiteiras e operadoras de aeroportos de pequeno porte. Por causa disso, representantes da Anac, do BNDES, da SAC (Secretaria de Aviação Civil) e do Decea trabalharam nos bastidores, desde o leilão, para convencer os consórcios a reforçarem suas estruturas. Isso foi feito com êxito, mas, mesmo assim, o Palácio do Planalto parece não estar convencido de que o “problema” tenha sido resolvido.

A rejeição da presidente abriu espaço para uma disputa ideológica e de poder dentro da esplanada dos ministérios. Há uma fritura em curso e ela atinge o grupo dos assessores técnicos, sem vínculos político-partidários. Como não é de seu feitio admitir divergências públicas em sua equipe, o silêncio de Dilma está dando combustível aos opositores das privatizações.

Os argumentos usados no bombardeio são frágeis. Difundiu-se na semana passada, por exemplo, a ideia de que a desistência da concessão dos aeroportos do Galeão, no Rio, e de Confins, em Belo Horizonte, não tem caráter ideológico, mas financeiro. Se o governo licitasse os dois terminais, a Infraero perderia receitas e não teria recursos para gerir os outros 63 aeroportos, a maioria deles deficitária.

Essa é uma falsa questão porque, desde o início das discussões, estava claro que a Infraero deixaria de gerir os grandes aeroportos por uma razão muito simples: ela não possui recursos, nem muito menos o Tesouro Nacional, para bancar os investimentos necessários. A privatização, assim como no caso de rodovias e ferrovias anunciado pela presidente, não tem motivação ideológica. É uma necessidade.

Para dar alguma musculatura à Infraero, o governo estabeleceu que, nas sociedades de propósito específico (SPE) criadas para tocar os três aeroportos privatizados, ela terá 49% do capital. Com isso, a empresa receberá quase metade dos resultados dos três maiores terminais do país e ganhará expertise na gestão de grandes aeroportos.

A Infraero é uma empresa 100% estatal, sem patrimônio. Os aeroportos que administra pertencem à União. A estatal não tem como ir ao mercado buscar recursos e, assim, bancar o bilionário investimento demandado pelos grandes terminais. Abrir seu capital é uma tarefa tão complexa que o próprio governo já desistiu dela.

Em 2008, a então ministra Dilma Rousseff ouviu de um grupo de empresários, reunidos na Casa Civil, que o mercado não teria interesse em se tornar sócio minoritário da Infraero. É por isso que também não faz sentido a proposta de se criar uma empresa à parte, a Infrapar, que se associe a operadores de renome internacional para gerir Galeão e Confins.

Não faz sentido, igualmente, a ideia de se instituir uma Parceria Público-Privada (PPP) em que o Estado é o acionista majoritário. No regime de PPP, o Estado contrata e remunera uma empresa para cuidar de um negócio que não desperta o interesse do setor privado.

27/08/2012 - 09:29h Múltis brasileiras mais globais

Desde o início da crise, em agosto de 2007, companhias nacionais investiram US$ 99 bilhões na compra de empresas no exterior
27 de agosto de 2012

Naiana Oscar e Marina Gazzoni – O Estado de S.Paulo

Gurus da autoajuda empresarial gostam de citar o ex-presidente americano John Kennedy em momentos difíceis. Em 1959, ele fez uma declaração que, apesar de equivocada, popularizou uma máxima sobre “crises”. Em chinês, disse o presidente, essa palavra é formada por dois caracteres – um representa “perigo” e o outro “oportunidade”.

Na prática, essa não é uma afirmação que vale para todos os casos em tempos de recessão. Mas, para as multinacionais brasileiras, até que é bem apropriada. Apesar das dificuldades, elas conseguiram se tornar mais globais, aproveitando o momento em que os empresários estrangeiros estavam com a corda no pescoço por causa da crise para acelerar as aquisições.

De 2007 até junho deste ano, as multinacionais verde-amarelas investiram US$ 99 bilhões na compra (total ou parcial) de empresas no exterior. Esse valor é quase o dobro do que foi investido nas duas décadas que antecederam a crise. “Não podemos dizer que foi um período fácil para as empresas brasileiras. Não foi”, diz Sherban Leonardo Cretoiu, coordenador do Núcleo de Negócios Internacionais da Fundação Dom Cabral. “Mas, apesar das incertezas do mercado externo, as companhias conseguiram manter a expansão iniciada em 2005 e se tornaram mais internacionalizadas.”

Um exemplo emblemático do que foram esses cinco anos para as múltis brasileiras é o da fabricante de equipamentos Romi, sediada em Santa Bárbara D’Oeste, a 140 km de São Paulo. Em agosto de 2007, ela já se preparava para fazer sua primeira aquisição no exterior quando veio o primeiro soluço da crise: o banco francês BNP Paribas congelou os resgates em três fundos de investimento baseados em títulos hipotecários – era o “subprime”. “Nossa bola de cristal da época não mostrava que o mundo ia afundar”, diz o presidente da Romi, Livaldo Aguiar.

Mesmo assim, em maio de 2008, a companhia comprou a fabricante italiana de equipamentos Sandretto, por 5,5 milhões. “A Romi estava com ótimos resultados e a aquisição seria a porta de entrada para a Europa a um preço atraente”, conta Aguiar. Mas a crise derrubou o volume de pedidos e o alto custo trabalhista fez com que a primeira fábrica da Romi no exterior desse prejuízo (as perdas ainda não foram calculadas). Apesar do revés, Aguiar não desistiu do plano de expansão internacional, que visava reduzir a dependência da empresa do mercado brasileiro, onde está 75% da receita atual.

No fim de 2011, a Romi comprou também a alemã Burkhardt + Weber e já tem pedidos firmes para usar toda a capacidade da fábrica por um ano e meio. “Queríamos ter acesso a uma tecnologia mais avançada, e não apenas a um mercado”, afirma Aguiar. Hoje, a Romi já faz planos de equipar a fábrica do Brasil com as máquinas feitas pela subsidiária da Alemanha.

Desempenho. A Romi não foi a única a ter perdas no exterior. Levantamento recente da USP e da FGV com 95 multinacionais mostra que 80% delas não atingiram suas metas de faturamento e margem de lucro nos últimos anos. “É natural que empresas que estão no início do processo de internacionalização tenham um desempenho baixo”, diz Maria Tereza Leme Fleury, uma das autoras da pesquisa. “Mas a crise também influenciou.”

O momento de maior retração da expansão internacional foi 2009, quando mercados de todo o mundo entraram em compasso de espera até saber quanto faltava para chegar ao fundo do poço. No ano seguinte, os investimentos foram retomados. Agora, com mais turbulências na Europa, as multinacionais brasileiras fizeram nova parada técnica.

A compra de participações de empresas no exterior, que no primeiro semestre de 2010 movimentou US$ 14 bilhões, caiu para US$ 8,3 bilhões em 2012. “O medo do desconhecido fez com que elas colocassem novamente o pé no freio”, diz Luis Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais (Sobeet).

Além disso, com o mercado ruim lá fora, as múltis estrangeiras têm apostado ainda mais fichas no Brasil. “É hora, portanto, de as brasileiras reservarem uma atenção maior para o mercado nacional”, afirma Luis Motta, sócio-líder de fusões e aquisições da KPMG.

A Petrobrás, que iniciou sua expansão fora do País nos anos 70 junto com gigantes como Odebrecht e Embraer, anunciou no ano passado que venderá ativos no exterior, como blocos de exploração e refinarias, para priorizar o pré-sal. “Essa, no entanto, é uma situação momentânea para boa parte das empresas brasileiras, porque a internacionalização é um caminho inevitável”, diz Lima, da Sobeet.

A última pesquisa da Fundação Dom Cabral sobre multinacionais brasileiras mostra que, embora 28% delas não queiram iniciar uma nova operação internacional no curto prazo, 60% planejam expandir atividades nos mercados em que já atuam.

Alguns fatores explicam por que é tão importante para as grandes companhias nacionais explorar o mercado externo. Primeiro: as empresas que querem crescer em seus segmentos precisam buscar novos mercados. “O Brasil é grande, mas o mundo é maior”, diz Alberto Mondelli, presidente da consultoria Mercer.

Para quem já é líder no mercado nacional, aumentar 1% ou 2% de participação custa mais do que começar do zero em outro país. Foi o que a fabricante de tubos e conexões Tigre, detentora de 50% do mercado no Brasil, pensou ao ir para os EUA em 2007. “Só agora tivemos um pequeno lucro, mas não vamos arredar o pé de lá, porque é o mercado onde podemos crescer”, diz Evaldo Dreher, presidente da companhia catarinense.

Para sobreviver à competição global, as multinacionais brasileiras não podem ignorar que suas principais concorrentes também são internacionais. É preciso olhar o mundo inteiro, para saber explorar as vantagens de cada país – como está fazendo a fabricante de motores elétricos WEG. Neste ano, a companhia passou a comprar componentes de fornecedores indianos para abastecer suas outras fábricas, incluindo a brasileira. Em 2011, também fez uma aquisição nos Estados Unidos para ter acesso a tecnologias para o setor de óleo e gás, com o objetivo de atender clientes como a Petrobrás e empresas do Oriente Médio.

Motivações. Ao mesmo tempo em que se tornam mais competitivas, as múltis conseguem reduzir os danos de uma possível recessão interna diversificando suas operações mundo a fora. Num período de crise como o dos últimos cinco anos, fica mais fácil fazer aquisições, já que o preço dos ativos no exterior despenca. Para quem precisa de escala para sobreviver é um bom impulso ao crescimento.

O caso do JBS, maior produtor de carne do mundo, é o que mais se destaca. Com nove aquisições em sequência a partir de 2007, a empresa viu o peso do mercado externo em seu faturamento saltar de 10% para 75% hoje.

Na mesma linha do JBS e com a mesma motivação de ganhar escala, a Stefanini, que atua na área de tecnologia de informação, chegou ao fim desses cinco anos com 71 escritórios em 29 países, responsáveis atualmente por 40% da receita do grupo. “Aproveitamos para assumir contratos de concorrentes com problemas financeiros”, conta o presidente da empresa, Marco Stefanini.

A estimativa da Sobeet é de que 900 empresas brasileiras estejam atuando no exterior – três vezes mais que há dez anos. A crise nos países desenvolvidos não é lá uma novidade para elas, já que por anos viveram num Brasil desfavorável aos negócios. A experiência aqui dentro ensinou que estar em vários mercados é uma proteção natural. “A capacidade de resistência é um ativo que a crise nos dá”, diz Stefanini. “O empresário sangra, mas vira o jogo.”

A fabricante de motores elétricos WEG vendeu mais no exterior do que no Brasil pela primeira vez no segundo trimestre deste ano. O real valorizado ajudou, mas a receita em dólar cresceu 17% ante o mesmo período de 2011. No mercado interno, a alta foi de 0,8%. A WEG está colhendo os frutos de uma estratégia de internacionalização que a tornou menos vulnerável à retração da indústria brasileira.

A empresa atende a maior parte do mercado externo via exportações – só 12% da produção está nas suas nove fábricas no exterior. Mas, aos poucos, o cenário deve mudar: a WEG quer produzir 25% no exterior até 2020.

A empresa é líder no mercado brasileiro de motores, mas estima ter cerca de 7% de participação na Europa e EUA. “Mesmo na crise, dá para crescer nessas regiões”, diz o presidente da WEG, Harry Schmelzer Junior. No Brasil, a empresa aposta na ampliação do portfólio. Em junho, comprou a paulista Stardur para reforçar a atuação de sua divisão de tintas industriais.

24/08/2012 - 08:41h Eletrosul vê geração solar viável em 5 anos

Por Rodrigo Polito | VALOR

Do Rio

A Eletrosul prevê que a energia solar será competitiva no Brasil em até cinco anos. Segundo o presidente da estatal, Eurides Mescolotto, o governo brasileiro deverá realizar leilões para a fonte energética nos próximos anos. “Obviamente, os preços dos equipamentos [de geração de energia solar] tendem a cair”, afirmou ao Valor.

O executivo assina hoje a ordem de serviço com a portuguesa Efacec para a implantação de uma usina de energia solar fotovoltaica na sede da Eletrosul, em Florianópolis. A usina terá 1 megawatt-pico (MWp) de capacidade instalada e produzirá 1,2 gigawatts-hora (GWh) por ano (o suficiente para atender o consumo anual de 570 residências). Os painéis serão instalados no teto do prédio e do estacionamento da sede da estatal, numa área de 10 mil metros quadrados.

A Efacec venceu em julho a licitação para a implantação do projeto, desde a compra e montagem dos equipamentos até a construção da usina, oferecendo R$ 8,1 milhões pelo pacote, com deságio de 15% em relação ao edital da concorrência. A expectativa da companhia brasileira é que as obras sejam iniciadas em até 45 dias e estejam concluídas até março de 2013.

Quando estiver em operação, o projeto será o maior de energia solar do Brasil, junto com a cearense MPX Tauá, também de 1 MWp. A usina pertence à MPX, empresa de energia do grupo EBX.

Segundo Mescolotto, 85% do valor do empreendimento serão financiados pelo banco de fomento alemão KfW, a fundo perdido. Os recursos serão repassados conforme o andamento das obras. Com o incentivo, o executivo acredita que seja possível comercializar a energia produzida pela usina no mercado livre a preços competitivos.

Para atrair interessados, a Eletrosul também planeja associar a venda da energia a um “selo solar”, com o qual o comprador poderá relacionar a sua imagem com o desenvolvimento sustentável.

23/08/2012 - 09:25h Aker investe para atender Petrobras


Fabricante norueguesa de equipamentos para petróleo aplica US$ 100 milhões na terceira fábrica em Macaé para fornecer ao pré-sal

Luciana Whitaker/Valor / Luciana Whitaker/Valor
Luis Araújo, presidente da Aker Solutions: “Aqui está o maior mercado do mundo para perfuração de petróleo”


Por Cláudia Schüffner | Do Rio

Com investimento de US$ 100 milhões em andamento para construir sua terceira fábrica no Brasil, em Macaé (RJ), a Aker Solutions vai dobrar os atuais 1.400 funcionários no Brasil até 2016. A empresa tem uma carteira de encomendas de R$ 1 bilhão no país, sendo a maior, no valor de US$ 300 milhões, destinada ao pré-sal de Santos. A Petrobras encomendou 40 árvores de natal molhadas – um conjunto de válvulas gigantescas que controlam a vazão dos poços que ficam no fundo do mar -, as quais serão instaladas nos campos de Lula e Sapinhoá. A encomenda, que será entregue para a estatal petrolífera com atraso, está sendo produzida na fábrica de Curitiba (PR).

A empresa norueguesa é presidida desde novembro do ano passado por Luis Araújo, que deixou outra fabricante de equipamentos, a Wellstream. Além da fábrica no Paraná, a Aker tem uma base em Rio das Ostras, cidade vizinha a Macaé, onde a nova unidade ficará pronta em 2014.

Na nova unidade industrial vai ser responsável pela produção, montagem e testes de equipamentos de perfuração e vai ocupar uma área de 335 mil quilômetros quadrados, espaço quase oito vezes maior que a da vizinha e onde são produzidos equipamentos juntos equipamentos submarinos e de perfuração. A empresa também tem um navio no Brasil, o Aker Santos, que está alugado para a Petrobras. E escritório de engenharia e gerência de projetos e vendas no Rio.

A nova fábrica, frisa Araújo, é a prova de comprometimento da companhia com o Brasil. “Aqui está o maior mercado do mundo para perfuração. Hoje, existem trinta sondas de perfuração no Brasil que tem equipamento nosso, sendo 14 com pacotes inteiros de equipamentos construídos no exterior e temos que prestar serviços para eles”, diz o executivo.

Ele se refere a equipamentos complexos usados para perfurar poços em águas profundas como risers de perfuração (tubos que fazem a ligação entre o poço no fundo do mar e a plataforma ou navio), blowout preventers (BOPs) e top drives (dispositivos mecânicos que são instalados na sonda que dá força rotacional durante a perfuração). Esses equipamentos estão em sondas próprias ou alugadas para clientes como Odebrecht, Statoil, Shell, Chevron. Entre as que tem equipamento completo da Aker estão as unidades de empresas especializadas em perfuração, como a Seadrill e a Sevan.

Luis Araújo diz que o compromisso da Aker com o Brasil é definitivo, imune a problemas como o aumento do custo-Brasil que vem afetando tanto as companhias estrangeiras que aportaram no Brasil para atender ao crescimento das encomendas e as exigências de conteúdo local nos equipamentos e serviços. “Hoje é difícil estimar o custo- Brasil. Ninguém sabe. Temos nossa fábrica de risers em Rio das Ostras, a única do Brasil, de perfuração e me pergunto porque os outros não vierem. Conseguimos uma excelência naquela fábrica, até pela qualidade e produtividade do pessoal, que se equivale à da Malásia”, responde.

Segundo o executivo, a companhia está acompanhando o custo de mão de obra e ela está cara. “Um executivo aqui está ganhando mais do que na Noruega, o que é difícil de explicar”. Para minimizar isso a Aker está treinando brasileiros no exterior e repatriando aqueles que moravam fora.

Sobre o atraso na entrega de árvores de natal para o pré-sal que custou o equivalente a R$ 171,5 milhões em multas cobradas pela Petrobras, Araujo diz que é passado. “Isso foi lançado como prejuízo [em 2011] por motivos claros. A Aker falou antes da Petrobras o que todo mundo já sabia mas que ninguém queria falar, que estava tudo atrasado. Agora não vamos atrasar. Estamos dentro dos que eles querem”, garante Araújo.

21/08/2012 - 10:45h Infraero: Investimentos somam R$ 7,3 bi

VALOR

Por Do Rio

Os investimentos da Infraero na ampliação e modernização dos treze aeroportos das doze cidades-sede da Copa do Mundo de 2014 somam R$ 7,35 bilhões – R$ 3,73 bilhões em recursos próprios da empresa e R$ 3,62 bilhões das concessões. A obra com maior volume de dinheiro é a da construção do Aeroporto de São Gonçalo do Amarante, em Natal, que entra na segunda fase. A primeira, executada pela Infraero e concluída no ano passado, custou R$ 98 milhões. A segunda fase, que prevê a construção do terminal de passageiros, do sistema viário de acesso e obras complementares, será executada por R$ 576,9 milhões. O aeroporto terá capacidade para 5,9 milhões de passageiros por ano.

As obras de reforma e a ampliação do terminal de passageiros e do pátio de manobra, além da pista de pouso e decolagem e a implantação de módulo operacional do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, terão investimentos de mais de R$ 579 milhões. A capacidade vai aumentar de 13 milhões de passageiros por ano para 18,8 milhões. No Aeroporto Tancredo Neves, em Confins, Belo Horizonte, as obras estão orçadas em R$ 508,6 milhões e preveem a reforma do terminal de passageiros, a adequação do sistema viário, a ampliação da pista e dos pátios e a construção do Terminal 3 e do estacionamento de veículos, com aumento da capacidade de 10,2 milhões para 16,5 milhões de passageiros/ano.

O Aeroporto Marechal Rondon, em Cuiabá, passará por obras de reforma e ampliação do terminal de passageiros, além de adequação do sistema viário e do estacionamento estimadas em R$ 87,5 milhões e que vão ampliar a capacidade de 2,4 milhões para 5,7 milhões de passageiros/ano. As obras no Aeroporto Brigadeiro Eduardo Gomes, em Manaus, são orçadas em R$ 327,4 milhões e vão aumentar a capacidade de 6,4 milhões de passageiros/ano para 13,5 milhões.

No Aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba, a previsão é de investimentos de R$ 116 milhões. A capacidade passará de 7,8 milhões para 14,6 milhões.

A capacidade do Aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza, vai passar de 6,2 milhões para 8,6 milhões por ano, com investimentos de mais de R$ 347,78 milhões. O Aeroporto Luis Eduardo Magalhães, em Salvador, tem investimentos de R$ 30 milhões e contempla uma torre de controle por R$ 15,1 milhões. Em Recife, o Aeroporto Gilberto Freyre terá um conector de passageiros e pontes de embarque por R$ 6,3 milhões. Outros cinco aeroportos, além dos de Macaé, Campos e Jacarepaguá, no Rio, se encontram em obras ou têm projetos de reformas, como em Foz do Iguaçu (PR), Macapá (AP), Parnaíba (PI), Florianópolis (SC), Vitória (ES), Goiânia (GO), Joinville (SC), Santarém (PA) e Teresina (PI). (PV)

21/08/2012 - 09:47h Aeroportos: Passageiros reclamam e “Projeto Eficiência” promete mais qualidade

Regis Filho/Valor / Regis Filho/Valor
Andrea Uchôa: “São Paulo e Rio estão longe de ter aeroportos que merecem”


Por Rosangela Capozoli | Para o Valor, de São Paulo

O cenário nos grandes aeroportos brasileiros é conhecido: de um lado, arrastando malas ou esperando por elas, cumprindo filas no check-in, sem um encosto de banco para reduzir o estresse das esperas e sujeito ao turbilhão da alfândega, o passageiro ainda agradece quando chega a seu destino. De outro lado, autoridades e empresas se esforçam para mostrar que os serviços estão melhorando e que o passageiro já não sofre tanto.

“São Paulo e Rio estão longe de ter os aeroportos que mereciam ter”, desabafa Andrea Uchôa, gerente regional de uma multinacional farmacêutica que nos últimos três meses fez 20 viagens entre nacionais e internacionais. Cansada de atrasos e desconfortos, a executiva vem se adaptando: limita-se a uma bagagem de mão nas viagens domésticas, desistiu de utilizar o wi-fi – porque não encontra onde se sentar – e deixa o carro em casa para não pagar estacionamento VIP – onde há vaga -, mas não escapa da fila dos taxis.

As queixas da executiva, repetidas com frequência por tantos outros passageiros, não chegam sequer a ser refutadas pelos órgãos competentes. A resposta das autoridades é informar o que está fazendo para mudar: desde o final do ano passado, a Infraero, junto com a Secretaria de Aviação Civil (SAC), costuram e colocam em ação o “Projeto Eficiência”, garantindo que em 2014 todos os aeroportos estarão alinhados com os serviços prestados nos principais centros europeus.

No ano que passou, foram desembolsados R$ 60 milhões em equipamentos destinados à área de segurança. “Até 2014 serão R$ 400 milhões e outros R$ 5,6 bilhões estão sendo investidos em obras de ampliação”, afirma João Marcio Jordão, diretor de Aeroportos da Infraero.

Os primeiros resultados palpáveis do projeto, que teve início no final do ano passado, não exigiram recursos financeiros. “Adotamos uma série de medidas operacionais reduzindo o tempo do passageiro nas filas de check in em 30%”, afirma. O projeto, acrescenta, é desenvolvido em parceria entre a Infraero, companhias aéreas, Polícia Federal e Receita Federal. Esse ganho em eficiência começou pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. “O que fizemos foi, basicamente, mudar o layout de entrada, treinar o pessoal, elevar o número de tótens para que o próprio passageiro faça seu check in”, diz. Outra medida foi difundir a informação para aqueles passageiros que possuem apenas bagagem de mão de forma que façam o seu check in em casa. Outra estratégia foi aumentar o número de máquinas de raio X.

21/08/2012 - 09:30h O aumento do investimento

Apenas uma ação decidida e forte do Estado, como a que estamos vendo, pode pôr em marcha o setor privado e a economia

Por Antonio Delfim Netto – VALOR

Gostemos ou não, a organização social (”simplisticamente” chamada de capitalismo) que o homem encontrou no desenrolar de sua história através de uma seleção quase natural é, até agora, a única que permitiu conciliar, numa medida imperfeita, a liberdade de iniciativa dos indivíduos com uma relativa eficiência produtiva. Ela dá resposta aos crescentes desejos de consumo criados pelo aumento constante da própria liberdade.

Trata-se de um movimento que depende basicamente da construção de um Estado forte, constitucionalmente controlado, capaz de assegurar o bom funcionamento de quantos mercados forem necessários para a manifestação da liberdade de iniciativa e assegurar que os benefícios dela decorrentes possam ser apropriados pelos agentes que a promovem. É por isso que a propriedade privada e a segurança jurídica são condições necessárias, mas não suficientes, para que o ciclo se complete continuamente, cada vez num nível produtivo mais elevado.

Nos casos dos países emergentes com contingente demográfico significativo, que pretendem ser repúblicas e democracias, o processo se repete: começam importando os padrões de consumo e a tecnologia dos mais avançados antes de criarem a sua. Diante desse quadro, é evidente que a antinomia Estado versus mercado é imprópria e prejudicial: não há administração estatal eficiente sem utilizar os mecanismos de mercado, e não há mecanismo de mercado que possa funcionar sem as garantias de um Estado suficientemente forte para controlá-lo.

Ambicioso, programa revela nova postura do governo federal

Neste momento, o excesso de pessimismo que se abateu sobre a economia nacional – em parte consequência da mundial, e em parte resultado de entendimento defeituoso do mercado financeiro com relação aos objetivos da política econômica do governo -, parece começar a ceder e dar lugar a uma pequena recuperação da atividade. Nada mais oportuno e importante para acelerá-la do que o amplo programa de cooptação do setor privado anunciado pela presidenta Dilma Rousseff para a ampliação dos investimentos em infraestrutura.

Trata-se de um programa ambicioso, que revela uma nova postura do governo federal: 1) declara definitivamente superada a desconfiança mútua (sempre negada explicitamente) entre ele e o setor privado, mais dinâmico e melhor apetrechado de técnica e recursos; e 2) devolve aos programas do governo uma visão logística estratégica, que incorpora e integra as rodovias com as ferrovias, com os portos e a geração de energia.

A criação da Empresa de Planejamento Logístico (EPL) recupera e amplia o velho Grupo Executivo de Integração da Política de Transporte (Geipot) criado em 1965, transformado em empresa em 1973, extinta pela irresponsável “reforma” do Estado de 1990. A partir daí, destruiu-se a coordenação logística do governo. Lentamente ela foi sendo entregue à sanha dos partidos que apoiam o “presidencialismo de coalizão de plantão”.

O resultado foi o caos temperado com uma boa dose de corrupção, como mostra, exemplarmente, o caso da Valec. Um ponto importante é que a EPL será dirigida por um técnico de reconhecida probidade e competência, Bernardo Figueiredo.

Outro aspecto significativo do novo programa foi a autorização para o aumento das dívidas de 17 Estados, cujas condições financeiras e administrativas são adequadas para acelerar suas próprias obras de infraestrutura: mobilidade urbana em suas capitais, estradas, saneamento básico e habitação, importante não apenas para ajudar a estimular o crescimento econômico mas, também, melhorar as condições objetivas de vida de suas populações.

O papel do governo federal é de integrador do território nacional, mas a vida de cada cidadão depende de condições locais, dos Estados e municípios. O montante de endividamento autorizado é razoável: da ordem de R$ 42 bilhões. Depois dos imensos abusos que destruíram a credibilidade de Estados e municípios e foram corrigidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, é saudável a mudança do entendimento (até agora vigente), que todo e qualquer endividamento é um pecado capital.

Entre o programa e o começo da sua efetiva execução será preciso pelo menos 12 meses, se houver a colaboração dos órgãos de controle ambiental e entendimento adequado do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União, sem esquecer o apoio rápido e decisivo do BNDES pelo seu departamento de infraestrutura, hoje dirigido pelo excelente economista Guilherme Lacerda.

Certamente haverá um efeito antecipado sobre o ânimo da sociedade, que começa a ver uma pequena retomada econômica em resposta às medidas fiscais, monetárias e cambiais executadas até agora. A redução da desconfiança mútua entre o setor privado e o governo vai melhorar o ambiente de negócios em todos os setores. O primeiro não quer e não precisa de benesses ou subsídios. Precisa: 1) de condições isonômicas para competir; e 2) de leilões bem projetados, não apenas para atender o presente, mas, principalmente, sustentar investimentos futuros que garantam a melhoria permanente da qualidade dos serviços.

Caiu a ficha! Quando a incerteza sobre o futuro é absoluta, quando o passado não contém informação sobre o futuro, só uma ação decidida e forte do Estado, como a que estamos vendo, pode pôr em marcha o setor privado e a economia. Essa ação, correta e crível, é capaz de antecipar a esperança…

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

06/08/2012 - 09:14h Queiroz Galvão investe em eólicas

Regis Filho/Valor / Regis Filho/Valor
Max Xavier Lins assumiu há três meses a Queiroz Galvão Energias Renováveis, que já nasce com carteira de 800 MW


Por Claudia Facchini | VALOR

De São Paulo

O grupo Queiroz Galvão, que atua nos setores de engenharia, petróleo e gás, concessões de rodovias e siderurgia, vai investir cerca de R$ 3 bilhões em complexos de energia eólica no Nordeste até 2016. O primeiro parque da recém-criada Queiroz Galvão Energia Renováveis (QQER) entra em operação no fim deste ano no Ceará, com capacidade de 122 MW.

Mas a empresa já possui em carteira contratos futuros de fornecimento de 800 MW de energia, o que a colocará entre as cinco maiores geradoras eólicas independentes do país, afirma Max Xavier Lins. Ex-diretor da Elektro e com passagens pela Eletropaulo e Neoenergia, o executivo assumiu há três meses a presidência da nova companhia do conglomerado, que tem sede no Rio de Janeiro.

Originária de Pernambuco, a família Queiroz Galvão segue os passos de outros empresários brasileiros, que também enxergam na geração de energia a partir do vento um negócio rentável, de baixo risco, à medida que os contratos de fornecimento são de longo prazo, e ao mesmo tempo sustentável. Somam-se a esses atrativos os desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que financia mais de 50% do total investido pelos empreendedores, a juros baixos.

A capacidade de geração de energia eólica do país, que era de 340 MW em 2008, deve superar 7 mil MW a partir de 2014, quando vários parques entram em produção, de acordo com a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). A participação do setor na matriz energética, hoje em torno de 1,3%, deve saltar para 5,3% dentro de quatro anos.

Muitos dos empreendimentos estão sendo construídos no país por empresários que fizeram fortuna em outros segmentos, como a família mineira Pentagna Guimarães, dona do banco BMG.

Entre os empresários que já investiram em parques eólicos estão a família Weege, dona da indústria têxtil Malwee, e o fundo Pragma Patrimônio, ligado aos fundadores da Natura. Ambos são sócios na Desa, que acabou de inaugurar o parque Morro dos Ventos, no Rio Grande do Norte. A família Seibel, acionista da Telhanorte e Duratex, associou-se à Servtec na Bons Ventos, que possui parques no Ceará e que foi vendida à CPFL por mais de R$ 1 bilhão neste ano.

Apesar de novata, a Queiroz Galvão Energia Renováveis já comercializou a energia que será gerada por parques eólicos que ainda serão construídos. A energia foi vendida tanto nos últimos leilões do governo quanto no mercado livre, em acordos bilaterais com empresas, cujos nomes não são revelados. Segundo Lins, a QGER também reforçou sua carteira com a aquisição de contratos vendidos por terceiros nos leilões de energia eólica realizados nos últimos anos.

Sobre a participação da companhia no próximo leilão de energia, marcado para outubro, Lins responde que essa é uma questão em aberto. “Vamos aguardar para ver quais serão as condições”, afirma. O governo não realizou nenhum leilão neste ano por falta de demanda, já que, após a desaceleração da economia, muitas distribuidoras possuem energia contratada em excesso. No último leilão, realizado no ano passado, a energia foi vendida por R$ 112 o MWh. “Mas, nesse meio tempo, o câmbio mudou e houve inflação”, afirma Lins.

03/08/2012 - 08:56h Economia faz mineradoras enxugarem grandes projetos

Por Liam Pleven e John W. Miller | The Wall Street Journal | VALOR

As mineradoras estão cortando os gastos, desacelerando planos de investir bilhões de dólares em novos projetos e, em alguns casos, reduzindo a produção, num esforço para acompanhar o declínio na demanda e nos preços, enquanto enfrentam maiores custos de mão de obra.

“Não podemos simplesmente ficar sentados esperando que as coisas melhorem amanhã”, disse Cynthia Carroll, diretora-presidente da Anglo American PLC, grande mineradora sediada em Londres, sexta-feira, depois que a empresa anunciou que estava cortando os gastos de capital este ano em 21%, ou US$ 1,5 bilhão.

O mesmo estão fazendo Vale SA, BHP Billiton e Barrick Gold Corp., a maior produtora mundial de ouro em volume de produção.

Murilo Ferreira, diretor-presidente da Vale, disse na semana passada que a empresa carioca, a maior produtora mundial de minério de ferro e pelotas de alto-forno, está revisando seus planos de investimento para 2012 “com base no fluxo de caixa”, depois de amargar queda de quase 60% no lucro líquido no segundo trimestre. “Estamos trabalhando com um cenário de preços mais baixos do que os esperados para este ano”, disse ele.

A fraca economia global está atingindo muitos metais, incluindo ouro, platina, níquel, aço e alumínio. A crise da dívida soberana na Europa está reduzindo o consumo no continente, e o crescimento econômico dos Estados Unidos continua anêmico. A China, que representa a demanda de maior crescimento para uma série de matérias-primas industriais, também está enfraquecendo.

Tudo isso contribui para baixar os preços. O Subíndice Dow Jones-UBS de Metais Industriais, que acompanha uma cesta de metais de alumínio a zinco, caiu 8% este ano, depois de perder 24% em 2011. Os futuros de carvão já caíram 11%, após um declínio de 13% no ano passado.

Os investidores temem que as quedas indiquem uma pausa – ou até mesmo o fim – do chamado “superciclo das commodities”, que começou há cerca de dez anos. O superciclo tem sido impulsionado pelo apetite crescente da China e de outros países emergentes por matérias-primas, para atender ao aumento do padrão de vida de sua população.

“Cerca de metade dos investidores institucionais pararam de aplicar em recursos minerais e cíclicos”, disse o consultor de investimentos americano John Tumazos.

Com os investidores se desfazendo de ações do setor, os produtores de commodities precisam procurar maneiras de proteger as margens de lucro e conservar capital para acalmar os acionistas.

Mas dar ré em grandes projetos e reduzir a produção traz riscos para a economia em geral. No curto prazo, os cortes podem frear a atividade em um dos poucos setores de bom desempenho na economia mundial, ao reduzir os investimentos em projetos de grande porte que muitas vezes criam empregos estáveis. Mais adiante também podem causar escassez de matérias-primas quando a economia melhorar, o que, por sua vez, pode gerar alta de preços.

Na semana passada a ArcelorMittal, sediada em Luxemburgo, a maior siderúrgica mundial em volume de produção, disse que nove de seus 25 alto-fornos na Europa estavam ociosos. Ontem, a Standard & Poor’s cortou a nota de crédito da siderúrgica para o nível especulativo.

Este ano, a BHP fechou uma fábrica de carvão e a produtora norueguesa de alumínio Norsk Hydro ASA anunciou planos de fechar uma fundição, ambas na Austrália. Em junho a Aquarius Platinum Ltd. de Perth, na Austrália, disse que ia colocar sua mina na província de Mpumalanga, na África do Sul, “em regime de manutenção”, pois os problemas de mão de obra e a queda nos preços “tornaram a mina economicamente inviável”.

Investirdores estão esperando pela divulgação de balanço da BHP dia 22 de agosto, quando se espera que a companhia vá revelar detalhes de seus planos de investimento de capital, que podem incluir US$ 30 bilhões para a expansào de sua mina Olympic Dam no sul da Austrália. O projeto de cobre e urânio é considerado um dos mais importantes projetos de mineração do mundo. É capaz que a companhia o reduza, em vez de matá-lo de vez, dizem executivos da BHP.

Até mesmo as commodities de maior demanda estão enfraquecendo. As mineradoras de ouro, que se beneficiaram quando o preço do metal aumentou mais de seis vezes desde 2001, estão reduzindo os investimentos, agora que os preços estão 14% abaixo do pico de agosto, que foi um recorde histórico.

Muitas mineradoras também estão reagindo à mensagem dos investidores, que vêm puxando para baixo as ações dos produtores de commodities. Nos últimos seis meses, a anglo-australiana BHP e a Rio Tinto viram suas ações caírem cerca de 20%. O fundo Market Vectors Gold Miners ETF, que detém ações da Barrick e de mais de vinte outras mineradoras de ouro, caiu 20% este ano.

“Há um claro sinal dos acionistas para não se jogar dinheiro fora nessa série interminável de projetos”, disse de Sidney Mike Elliott, diretor mundial para metais e mineração da consultora Ernst & Young.

A mineradora anglo-australiana Rio Tinto está fechando um escritório em Sidney e cortando empregos em Melbourne, segundo pessoas a par do assunto. As iniciativas não afetarão as atividades de mineração, mas são outra forma de conter custos quando a demanda diminui.

Sem dúvida, as mineradoras continuam planejando investir dezenas de bilhões de dólares nos próximos anos para garantir que possam atender à demanda futura, refletindo a convicção generalizada de que a oferta de commodities está apertada, de modo geral, e pode escassear quando a economia estiver mais forte.

Além disso, a produção de muitos materiais continua elevada em termos históricos. E os preços também: há quatro anos, o minério de ferro custava, em média, US$ 60,80 por tonelada, mas agora está na casa dos US$ 120.

(Colaboraram Alex MacDonald, Jeff Fick e Robb M. Stewart.)

18/07/2012 - 10:00h Investimentos em geração solar quadruplicam

Leonardo Rodrigues/Valor / Leonardo Rodrigues/Valor
Alexandre Borin, gerente da coreana LG, que vai fornecer painéis solares para Biblioteca Pública do Rio de Janeiro


Por Rodrigo Polito e Claudia Facchini | VALOR

Do Rio e de São Paulo

Os fabricantes mundiais de equipamentos solares, que passam por maus momentos nos EUA, na Europa e até na China, depositam suas esperanças no mercado brasileiro, onde os investimentos em energia solar deverão quadruplicar neste ano. Por ser até três vezes mais cara que as energias eólica e hidráulica, a geração solar não decolou no país até hoje. No entanto, os incentivos concedidos pela Agência Nacional de Energia (Aneel), além da queda de 70% nos preços dos painéis ao longo dos últimos anos, viabilizam o investimento em novos projetos.

O setor contará ainda com uma poderosa vitrine, a Copa Mundo de 2014. Entre os estádios que terão painéis solares estão o Maracanã (RJ), Mané Garrincha (DF), Arena Pernambuco (PE) e Itaquerão (SP), cujos contratos começam a ser disputados pelos fornecedores.

Com os novos investimentos, o Brasil deve chegar até o fim de 2012 com uma capacidade de geração solar de 20 a 30 MW, prevê Alexandre Borin, gerente da subsidiária brasileira do grupo LG, que importa painéis da Coreia. Hoje, o Brasil possui só 7 MW instalados desse tipo de energia. Mas o grande salto deve ocorrer em 2013, quando os sistemas das distribuidoras e as licitações dos estádios estiverem concluídos, diz Borin.

A Bioenergy, que possui parques eólicos no Rio Grande Norte, testará o mercado no dia 7 de agosto, quando fará o primeiro leilão do país de energia solar no mercado livre. A energia será vendida por R$ 250 por MWh, um dos mais baixos preços já oferecidos. Nos últimos leilões do governo, porém, a energia eólica foi comercializada em torno de R$ 100 o MWh.

“Muitas companhias dizem que são verdes, mas se recusam a pagar um centavo a mais por uma energia mais limpa”, diz Sérgio Marques, presidente da Bioenergy. Segundo ele, a energia solar não deveria ser comparada à eólica e hidráulica, mas à térmica a diesel, que chega a custar R$ 600 o MWh.

Um dos grandes atrativos para o leilão da Bioenergy foi o desconto concedido pela Aneel de 80% na tarifa cobrada pelo uso do sistema de distribuição (Tusd) para a energia solar. Com esse incentivo, a energia sairá para os consumidores por R$ 480 ou R$ 500 o MWh, preço semelhante ao da energia convencional, diz Marques.


Custos dos painéis caíram 70% nos últimos anos com os ganhos de escala, avanço na China e crise na Europa


O custo normal da Tusd varia de R$ 120 a R$ 70 o MWh e depende de cada distribuidora. A resolução da Aneel foi publicada há cerca de 60 dias e não é válida para a energia eólica, diz Marques. A energia vendida no leilão virá de um parque solar que está sendo construído pela Bioenergy na Bahia e que ficará pronto em 2013. A capacidade de geração do parque, que foi projetado em lotes de 0,5 MW, vai depender da demanda no leilão, diz Marques, mas a expectativa do executivo é vender entre 1 e 3 MW.

O “boom” da energia solar está atraindo novos fornecedores para o país, como a belga Windeo, que faturou € 50 milhões no ano passado. A empresa fornece sistemas de pequeno porte de geração de energia solar e prevê um forte crescimento na demanda por parte de hotéis, resorts, restaurantes, shoppings e lojas, afirma Alexandre Bretzner, diretor operacional da Windeo no Brasil.

O preço dos painéis solares, contudo, ainda são proibitivos para um consumidor comum. O kit de 1 KW da Windeo custa R$ 15 mil. Ainda assim, diz Bretzner, o preço é “altamente competitivo”. “O Brasil ainda não oferece linhas de crédito acessíveis para a instalação de sistemas solares. E financiamento será crucial”, diz o executivo.

Apesar dos obstáculos que ainda existem para a massificação da energia solar, as resoluções publicadas neste ano pela Aneel são consideradas um avanço. “O desenvolvimento de energias renováveis dependem de um tripé: marco regulatório, incentivos fiscais/subsídios e financiamento”, afirma o consultor da Ernst & Young, Luiz Claudio Campos. Segundo um estudo da E&Y, a energia solar será a bola da vez no Brasil, enquanto a energia eólica terá desafios pela frente.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), os painéis solares fotovoltaicos custavam € 4,2 por watt-pico (Wp), unidade que mede a potência de equipamentos, no ano 2000. Esse preço caiu para € 1,2 o Wp no ano passado. No Brasil, o custo da instalação do painel é de R$ 15/Wp. “O custo dos painéis deve cair entre 10% e 15% este ano e entre 30% e 40% nos próximos anos. Além da redução do custo, a eficiência está aumentando. O painel tem hoje cerca de 15% de eficiência, mas, na Alemanha, já há registros da ordem de 40%”, afirma Carlos Faria Café, diretor da Metasolar, integradora de sistemas fotovoltaicos.

A empresa inicia nesta semana a instalação de painéis solares no teto da Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro. O projeto, contratado pela Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro e a Light, contará com R$ 550 milhões provenientes da lei de incentivo à cultura e do programa de eficiência energética da distribuidora fluminense. Os painéis serão fornecidos pela LG.

09/07/2012 - 09:46h ‘Reação do governo evitou a recessão’


Ele diz que é preciso olhar o lado positivo: ‘economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer’

09 de julho de 2012

IURI DANTAS / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Principal formulador do Plano Brasil Maior, a política industrial do governo, o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mauro Borges Lemos, avalia que o País “provavelmente estaria à beira da recessão”, não fossem os pacotes de estímulo ao consumo. Ele aposta em crescimento “pequeno” da indústria neste ano, apesar da queda da produção industrial nos primeiros seis meses de 2012.

Amigo de longa data de Dilma e do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, a quem é subordinado, o economista afirma que “o governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo”. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao Estado:

Por que a indústria está patinando?

Porque estamos no meio de uma crise internacional de grandes proporções. A forma mais visível de mensurar isso é a grande agressividade das importações. Há excedente de bens manufaturados no mundo e a estratégia, em geral, é desová-los em mercados que ainda estão em crescimento.

O dólar a R$ 2 demorou?

O dólar a R$ 2 é insuficiente para impedir a desova.

O endividamento das famílias e a cautela dos bancos em emprestar limitam o impacto das medidas de estímulo ao consumo anunciadas pelo governo?

O maior economista do século 20, o John Maynard Keynes, denominou a economia capitalista de uma economia monetária, regida por relações mediadas pelo dinheiro, pela moeda. Hoje, no Brasil, como somos uma economia monetária em pleno funcionamento, é absolutamente normal que, frente a um quadro totalmente adverso, você aumente o que Keynes chamava de preferência pela liquidez. Nestes momentos, você tem contração do consumo das famílias e dos empresários, que é o investimento. Eles tendem a reagir com uma contração relativa perante grande incerteza.

Medo de a crise piorar?

Claro que há uma aversão à incerteza. Não é aversão ao risco, é mais do que isso. É uma aversão a um cenário econômico futuro que não conhecemos. Obviamente o governo está tentando, com todos os instrumentos à sua disposição, mitigar isso e eventualmente retomar o crescimento no segundo semestre. O governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo, que é a questão fundamental.

A presidente Dilma apelou ao espírito animal dos empresários, mas o investimento não deslanchou. Por que não deu certo?

Primeiro, eu diria que está dando certo. Vamos ter um crescimento positivo neste ano. Se pegar o analista mais pessimista, ele não projeta recessão. A economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer. Que seja 2%, 2,5% ou 3%, não interessa.

O governo deixou de arrecadar R$ 100 bilhões da indústria, mas a tributação continua alta. O que falta para a indústria reagir?

O problema central não é, em si, da desoneração tributária, mas fatores estruturais e heranças regulatórias e tributárias, que fazem com que capital e trabalho e os insumos básicos da economia estejam relativamente caros. A questão é como caminhar na agenda de redução destes fatores e insumos. Quando você inicia uma trajetória de política econômica com redução da taxa real de juros, está reduzindo o custo do crédito, do dinheiro. Quando desonera a folha de pagamentos de setores intensivos de trabalho está reduzindo custos que, por razões históricas, têm uma tributação muito grande. A grande estratégia do governo é um programa de redução desses custos no longo prazo. Há um conjunto de medidas que vão além de pura desoneração para aumentar o consumo, como vem sendo propalado.

Por exemplo?

Os regimes especiais de tributação. O esforço pela redução do custo da energia. Essa é uma agenda que tem impacto nos custos da indústria muito grande. Se desonerar o custo da energia, ou reduzi-lo através de mecanismos regulatórios, está aumentando a competitividade da indústria. Ao contrário da chamada agenda do puxadinho, é uma agenda de longo prazo.

A produção industrial cai há nove meses, cadê os resultados? Vamos fazer um raciocínio contra-factual: se o governo não estivesse tomando nenhuma medida, como estaria a economia brasileira hoje? Possivelmente, já estaria à beira da recessão. A reação do governo está contribuindo decisivamente para não entrarmos em recessão

Economistas defendem reformas estruturais. O País consegue superar a crise sem isso?

O Brasil vai continuar fazendo reformas e já fez muitas. Não vamos parar o País, fazer reformas durante um determinado número de anos e depois voltar a funcionar. Nessas reformas, você troca o pneu furado com a bicicleta andando. Estamos num processo permanente. Por exemplo: criar um sistema privado de financiamento do longo prazo, do investimento, é um grande desafio hoje. Temos condições de implementar essa reforma e isso está no radar do Banco Central e da Fazenda. Outro exemplo é a mudança do sistema previdenciário público, que está em plena implantação e é um dos projetos mais importantes da Presidência da República.

A indústria encerra o ano com crescimento? De quanto?

Estamos torcendo fortemente para um crescimento. Vai ser um número positivo, mas pequeno.

06/07/2012 - 09:20h Brasil sobe em ranking de investimento


País ganhou três posições e se tornou o quinto principal destino de investimentos produtivos em 2011, mas caiu nas projeções de 2012

06 de julho de 2012

FRANCISCO CARLOS DE ASSIS, BEATRIZ BULLA – O Estado de S.Paulo

O Brasil subiu três posições, do oitavo para o quinto lugar, no ranking dos principais destinos de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED), voltados para a produção, na passagem de 2010 para 2011, segundo o World Investiment Report 2012 (WIR 2012), da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad) e divulgado no Brasil pela Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet).

Em 2009, o País ocupava o 14.º lugar entre os 20 maiores destinos de investimentos estrangeiros produtivos no mundo.

Salto. De acordo com o documento, o Brasil recebeu no ano passado o equivalente a US$ 66,7 bilhões a título de investimento estrangeiro. O valor é 37,4% maior que os US$ 48,5 bilhões que ingressaram no País em 2010. Na frente do Brasil se mantiveram, pela ordem, Estados Unidos, China, Bélgica e Hong Kong. Para chegar ao quinto lugar, o Brasil deixou para trás Cingapura, Reino Unido e Ilhas Virgens, que estavam à sua frente em 2010.

Com o salto no ranking das economias que mais receberam investimentos estrangeiros, o Brasil passou a responder por 4,4% de todo o fluxo de investimentos mundiais em 2011, ante participação de 3,7% no fluxo global em 2010. Em 2006, período pré-crise, o Brasil recebia apenas 1,3% de todos os investimentos estrangeiros no mundo.

Na análise por região, a América Latina – na qual o Brasil é o destaque – foi a que teve maior crescimento no ingresso de investimentos estrangeiros, com alta de 15,8%. No ano passado, a região recebeu US$ 217 bilhões em IED. O destaque ficou por conta dos investimentos voltados a atender ao mercado consumidor dos países da região.

Ainda de acordo com o levantamento, as economias que pertencem ao bloco do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) receberam, no total, US$ 280,9 bilhões em investimentos estrangeiros em 2011, com crescimento de 21,1% em relação a 2010. Os Brics responderam por 18,4% de todo o fluxo de investimentos no mundo, em 2011.

Destinos preferenciais. A má notícia é que, quando se considera as expectativas de investimento entre 2012 e 2014, o Brasil caiu uma posição no ranking dos destinos preferenciais de investimentos estrangeiros na produção, segundo a pesquisa feita pela Unctad.

Pelo levantamento, o Brasil deixou o quarto lugar para ocupar a quinta posição. O estudo foi feito com investidores em economias estrangeiras.

Segundo a Unctad, houve um recuo no volume de investimentos feitos pelas economias emergentes no exterior. Isso ocorreu, de acordo com a organização, por causa de mudanças nos fatores econômicos e financeiros no mundo, como diferencial de crescimento entre regiões, taxas de juro e câmbio.

Com isso, a participação de investimentos provenientes de empresas sediadas em países em desenvolvimento no fluxo global de IED caiu de 27,6% para 22,6%, na passagem de 2010 para 2011.

No movimento de desinvestimento, o Brasil ficou em segundo lugar na lista dos países que mais repatriaram recursos investidos no exterior. As empresas brasileiras desinvestiram US$ 12,6 bilhões, ficando atrás apenas de Hong Kong.

05/07/2012 - 09:11h Será que o Mercosul bateu no teto?

Por Humberto Saccomandi – VALOR

Quando o Mercosul suspendeu o Paraguai, muitos paraguaios reagiram com ameaças de deixar o bloco, acusando-o de contribuir pouco ao desenvolvimento do país. E eles têm razão. O Mercosul, como está hoje, é principalmente uma reserva de mercado para a indústria local. Mas só o Brasil e, em escala muito menor, a Argentina têm indústria a proteger. Isso aliena os demais países da América do Sul e ameaça deixar o bloco menos atraente e menos dinâmico que a embrionária Aliança do Pacífico.

O Mercosul “não trouxe os resultados esperados ao Paraguai”, disse na semana passada Hugo Saguier, o embaixador paraguaio na OEA, acrescentando que “90% da população paraguaia optaria pela saída do Mercosul”.

Em blocos regionais com grandes assimetrias entre os sócios, países pequenos vão se integrando à estrutura produtiva dos grandes, formando assim uma única área econômica maior. Isso aconteceu na União Europeia (UE), onde Áustria ou República Tcheca, por exemplo, gravitam em torno da poderosa Alemanha. Mas, após mais de 20 anos, pouco, quase nada, disso aconteceu no Mercosul.

“O Mercosul não funciona para países pequenos”

E por que uma empresa se instalaria num país pequeno, distante dos grandes mercados consumidores? Em geral, esses países oferecem vantagens, como benefícios fiscais, impostos menores, uma administração pública mais ágil, menos burocracia, custo de vida menor do que nas grandes metrópoles e, portanto, salários mais baixos.

Nesse sentido, pode-se dizer que o Paraguai é vítima de si mesmo. O processo relâmpago que levou ao impeachment do presidente Fernando Lugo, afastado há duas semanas, escancarou a fragilidade institucional do país. Com insegurança jurídica, corrupção elevada, baixa escolaridade e infraestrutura ruim, o Paraguai não é um lugar convidativo para fazer negócios.

Mas, no caso do Uruguai, é bem diferente. O país é estável e seguro, tem instituições sólidas, população com boa formação escolar, boa infraestrutura e uma política ativa de atração de investimentos. E, ainda assim, é possível contar nos dedos o número de empresas que lá se instalaram visando os mercados de Brasil e Argentina.

“Não houve a entrada de indústrias. Pensávamos que isso iria ocorrer, mas não aconteceu, pois tanto o Brasil como a Argentina adotam uma série de barreiras não tarifárias. Por que uma empresa vai vir para o Uruguai? Para ter dor de cabeça para exportar?”, disse María Dolores Benavente, economista da Câmara Nacional de Comércio e Serviço do Uruguai e presidente da Academia Nacional de Economia do país.

Um caso emblemático é o da chinesa Chery, que monta um veículo utilitário no Uruguai com peças importadas da China. A empresa já ameaçou várias vezes deixar o país devido às barreiras às suas exportações. Segundo a Câmara das Indústrias Automotivas do Uruguai, a Argentina não respeita o acordo automotivo bilateral e restringe a entrada de veículos. A Chery optou por abrir uma fábrica no Brasil, que deve estar pronta em 2013. A empresa diz que manterá a operação no Uruguai, mas os uruguaios estão pessimistas.

“O Mercosul não funciona para países pequenos. Nós não conseguimos atrair investimento de terceiros países. É muito diferente da UE, onde os países grandes se preocuparam com os pequenos”, disse Benavente. “As exportações do Uruguai se multiplicaram por cinco desde a criação do Mercosul. As da Argentina e do Brasil se multiplicaram por sete ou oito. Já as exportações do Chile, parâmetro para quem está fora do bloco, se multiplicaram por nove nesse período. Isso quer dizer que o Mercosul desviou comércio do Uruguai, mas não criou comércio novo.”

Segundo ela, as empresas brasileiras e argentinas que se instalaram ou compraram operações no Uruguai o fizeram não por causa do Mercosul, mas de olho no mercado global, pois atuam em geral em setores nos quais o país é tradicionalmente competitivo, como soja e carne.

“Abrir-se para a região é bom, mas só se a região não se fechar para o mundo, senão estaremos importando ineficiência”, conclui Benavente.

O Chile percebeu há tempos essa armadilha, decidiu ficar de fora do Mercosul e abrir a sua economia ao mundo, em vez de se fechar para proteger uma indústria que não tinha, beneficiando os vizinhos.

O raciocínio é simples: o Chile sabe que nunca vai produzir automóveis, pois não tem escala, mercado nem cadeia de fornecedores. Veículos, porém, são um insumo importante para a economia. Por que, então, entrar numa associação comercial que obrigaria o país a taxar veículos asiáticos, mais baratos e sofisticados, ou a comprar veículos brasileiros, mais caros e menos sofisticados? É melhor permitir a entrada de veículos asiáticos e, com isso, favorecer assim o investimento das empresas locais, buscando estimular o desenvolvimento de setores não tradicionais da economia, como o de laticínios, que vem crescendo bastante.

O Peru há dez anos começou a emular o modelo chileno, de abertura agressiva da economia, e hoje é o país que mais cresce na América Latina. A Colômbia, que tem um setor industrial relativamente importante, já fechou tratados comerciais com os EUA e a UE. Esses três países, junto com o México, criaram a Aliança do Pacífico, que pretende ser um bloco regional alternativo ao Mercosul, caracterizado por suas economias abertas.

Ainda é incerto o impacto que esse bloco terá para o comércio dos países-membros. Mas, para os países menores do Mercosul, o bloco tem tido peso declinante. No ano passado, as exportações uruguaias cresceram 18,1%. Mas as vendas para os principais sócios do Mercosul subiram menos (11,9% para o Brasil e 16,7% para a Argentina).

É discutível se a estratégia de abertura comercial agressiva favoreceria o Brasil. Mas parece cada vez mais evidente que ela beneficia os países sem base industrial forte. Isso deixa o Mercosul num dilema. A falta de competitividade da indústria brasileira e argentina inibe a abertura do bloco, que acaba atraindo apenas países como a Venezuela, cujo presidente prioriza seus interesses políticos ao interesse econômico do país. E, mesmo assim, não atrai nem todos os aliados políticos da região, já que a Bolívia e o Equador cortejam, mas ainda não aderiram. Com a Venezuela, o Mercosul, como está, pode ter atingido o seu teto.

Humberto Saccomandi é editor de Internacional. Escreve mensalmente às quintas-feiras

E-mail – humberto.saccomandi@valor.com.br

25/06/2012 - 13:40h Perú y Brasil: una relación con fuerte potencial de crecimiento

lunes 25 de junio del 2012 - economia

El intercambio comercial y las inversiones se han multiplicado, pero la lentitud para lograr una plena interconexión puede frenar el avance

El Comercio

Agroexportaciones
Las exportaciones locales al país vecino se han triplicado desde el 2009. (Foto: Archivo El Comercio)


Ser una economía en franco crecimiento, a pesar de las angustias financieras que viven los poderosos, fue el factor decisivo que animó a Digitro, brasileños expertos en servicios informáticos, a comprar a su socio peruano en el 2012 y montar aquí un centro de operaciones (‘hub’) para atender al resto de países de habla hispana del continente. “Teníamos acá un cliente grande, Petro-Perú, pero nos animamos porque, además de tener buenos ingenieros a bajo costo, su PBI es el que más crecerá esta década”, sustenta Rodrigo Rolon, gerente general de la empresa.

Y no son los únicos, ni mucho menos. La ola de empresarios del Este interesados en entrar a nuestro país es enorme. Prueba de ello es que hemos pasado de menos de US$50 millones invertidos por brasileños a principios de siglo a cerca de US$5 mil millones proyectados para este año y más de US$20 mil millones para dentro de cinco años, revela Antonio Castillo, consejero comercial de la Embajada del Perú en el Brasil. Incluso podríamos hablar de US$36 mil millones si consideramos los US$16 mil millones que implicará montar el polo petroquímico con industrias derivadas de fertilizantes y plásticos que se proyecta al sur del país, añade Miguel Vega Alvear, presidente de Capebras (Cámara de Comercio Peruano Brasileña).

Este esperado crecimiento en las inversiones (500% para este año) no es gratuito e incluye tanto la llegada de nuevos gigantes cariocas como renovaciones de esfuerzos de jugadores ya antiguos, como Odebrecht. Si miramos el número de actores, confiesa Eduardo Pereira e Ferreira, jefe del sector económico de la Embajada de Brasil en Lima, hemos pasado de 20 a más de 40 empresas brasileñas invirtiendo en el Perú en la última década. Pero lo mejor es que las más antiguas no dejan de invertir. Jorge Barata, director superintendente de Odebrecht en el país, cuenta que se han comprometido a aportar US$9 mil millones en carreteras, obras de irrigación, de energía y en el Gasoducto Andino del Sur. “Estamos contentos aquí. Nosotros creemos en una política sin fronteras con un país como el Perú, que se encuentra en una situación de privilegio y se ha convertido en un punto de referencia mundial, logrando la atención de muchos de nuestros compatriotas”, recalca.

OTRA MIRADA
Como bien explica Marcos Lélis, el representante de APEX Brasil, los empresarios de su país desean dejar de depender de Argentina (su socio principal) para orientar sus planes de expansión a los dos punteros de la región: Colombia y el Perú. Además de concentrarse en tener fábricas de calzado en República Dominicana o grandes industrias en Argentina y Bolivia, ahora miran estos dos países con atención porque son una puerta más cercana –y económica– para llegar a los mercados del Asia. “La diferencia es que nosotros no vamos para extraer recursos naturales sino para montar industrias y exportar”, precisa Lélis.

En este grupo de nuevos actores, podemos incluir a los proyectos de una decena de hidroeléctricas en la selva peruana, revela Liliana Espinosa, del estudio Echecopar, que se calcula superarán los US$5 mil millones. Por lo pronto, asegura, en febrero la empresa Latin América Power Perú, subsidiaria de la brasilera GMR Energía, adquirió una participación mayoritaria en Hidroeléctrica Santa Cruz (HSC), que construye y opera centrales hidroeléctricas en Áncash. Hacia el norte, en Piura, también hay proyectos importantes como el de la empresa Vale en los fosfatos de Bayóvar.

A este grupo hay que sumarle a Votorantim Metais (Milpo), Camil Alimentos (arroz Costeño) y una decena de medianos y grandes postores del sector construcción, añade Mauricio Olaya, del Estudio Muñiz.

Incluso se puede hablar de interesados por ingresar al rubro telecomunicaciones, tal como comprobó el Ministerio de Transportes y Comunicaciones esta semana, cuando se reunió con OI, operador brasileño que desea participar en licitaciones móviles o la implementación de la red dorsal.

Pero, en sentido contrario, habría que mencionar a los peruanos que están yendo a Brasil e invertirán cerca de US$1.000 millones. En ese grupo están desde la embotelladora de Industrias San Miguel hasta un textilero que abrirá una tienda en pleno BRAS, el equivalente de nuestro Gamarra. También está el grupo Brescia con importantes inversiones mineras allá.

CONTRASENTIDOS
El ‘boom’ brasileño que estamos viviendo y se tiene soñado a futuro, pasa por otro 
‘boom’ del comercio bilateral (las exportaciones a nuestro vecino se han triplicado desde el 2009) y tiene sus orígenes en anhelos profundos.

Miguel Vega Alvear, recuerda que siempre fuimos buenos amigos pero vivíamos de espaldas, porque a ellos el Atlántico les era más que suficiente para llegar al mercado estadounidense o europeo, donde estaban los grandes compradores. Hoy, con el despertar asiático y la crisis financiera, el Pacífico cobró importancia y también lo hicimos los pequeños países de sus costas.

La historia de la creación del eje interoceánico que conecta las costas de ambos países ya ha sido contada varias veces y no vamos a repetirla. El problema, explica Eduardo Pereira e Ferreira, es que aun cuando las pistas están casi completas, no pueden ser totalmente utilizadas o, peor aún, sigue siendo más barato darse toda la vuelta vía Panamá en lugar de hacer el trayecto por tierra. Y eso no solo dificulta que el comercio crezca en todo su potencial, sino que aleja (o retrasa) la concreción de varias de las citadas promesas de inversión.

Franz Thun, gerente de exportaciones de Corporación Rey, refiere que hasta la fecha no ha encontrado compañía de transporte alguna que le brinde el servicio del despacho vía terrestre desde Lima a Brasil, porque la Interoceánica no está habilitada al 100%. “Para nosotros es un problema muy grave porque el envío marítimo demora entre 40 a 50 días y en camión podría demorar 10 días. En nuestro negocio la logística es un instrumento de venta muy importante y este inconveniente nos genera sobrecostos”, relata.

Una parte del problema, aclara Carlos García, gerente del Centro de Comercio Exterior de la CCL, es que los camiones locales no quieren hacer el recorrido porque se regresarían vacíos, razón por la cual cobran tres o cuatro veces más (por encima de US$2,5 mil) de lo que cuesta ir por tierra. Y la otra parte del problema, agrega Vega Alvear, es que no hay puertos idóneos en Yurimaguas y Pucallpa que permitan, al final de la carretera, tomar el río para cruzar la carga al Brasil.

José Vicente Silva, presidente de ASPPOR (Asociación Peruana de Operadores Portuarios), asegura que ya hay un grupo ecuatoriano a cargo de reflotar el puerto de Yurimaguas, el cual en dos años estará listo para llevar la carga a Manaos. Mientras tanto, opinó, debería operar parcialmente a cargo de Enapu para no perjudicar el tráfico.

En Pucallpa la situación es más complicada, refiere Silva, porque esta zona no ofrece las condiciones logísticas requeridas. “Nosotros esperamos que entreguen en concesión el puerto de Atalaya, el cual está ubicado a solo 400 kilómetros de Lima y goza de un excelente calado natural en aguas tranquilas.

ESCASA OFERTA
Con relación a los altos costos que desaniman a los inversionistas interesados en poner fábricas para luego exportar, Antonio Castillo acepta que, a pesar de que el tiempo es tres veces superior en barco (18 días en vez de 6, en promedio), los costos son excesivos debido a una falta de oferta, lo cual están tratando de revertir. Aun así, confía en que el comercio agrícola entre las zonas fronterizas, pase de casi US$50 millones a US$100 millones en dos años. Sin embargo, Pereira e Ferreira aclara que los grandes volúmenes de hidrocarburos, plásticos, madera o textiles que buscan producir y llevar los brasileños a gran escala, se quedarán en lista de espera hasta que el 100% de la vía sea realmente competitiva.

Pero eso no es todo. Vega Alvear va más allá en sus críticas y lamenta la lentitud burocrática del Estado para hacer realidad este eje de comunicación, lo que incluye puertos y un ferrocarril. Finalmente, lanza una advertencia: “todas las fábricas e hidroeléctricas pueden dejar de venir si no aceleramos el paso”.

19/06/2012 - 09:30h Novas ferrovias reforçam peso estatal no setor

VALOR

A decisão do governo de se apoiar no investimento público para ampliar a malha ferroviária do país não é uma unanimidade no setor. Parte das empresas defende a tese de que muitos projetos andariam bem mais rápido e seriam menos onerosos aos cofres públicos se a União decidisse abrir mão dos empreendimentos e os concedesse à iniciativa privada.

O histórico da gestão pública nas ferrovias, de fato, não é muito favorável. Por 40 anos, a União foi dona da extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA), estatal que foi privatizada na década de 1990, depois de se transformar em um dos maiores escândalos de descaso com o dinheiro público do país. Até hoje ainda há bilhões de reais em dívidas não quitadas, boa parte delas decorrente de milhares de processos trabalhistas que não foram concluídos.

Com a Valec, no entanto, o governo aposta numa situação diferente. O plano é que, assim que esses novos trechos de malha estiverem prontos, a estatal ofereça-os para diferentes empresas de logística. Trata-se de uma mudança em relação ao modelo atual de concessão, que privilegia um único operador em cada ferrovia. É o que acontece, por exemplo, nos 719 quilômetros já construídos e em operação da Ferrovia Norte-Sul, entre as cidades de Palmas (TO) e Açailândia (MA). Desde 2007, a mineradora Vale tem exclusividade para utilizar esse percurso. Para isso, a empresa arrematou, com lance de R$ 1,478 bilhão, a exploração comercial pelo período de 30 anos.

O novo modelo de concessão – que é criticado pela Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), que representa as empresas de transporte de cargas do setor – quer acabar com esse monopólio, uma situação que, de acordo com o governo, tem dificultado a operação de outras empresas interessadas no mesmo trecho. As regras, que ainda não entraram em vigor, preveem o direito de passagem e tráfego mútuo, além de metas de produção por trecho e de segurança para as concessionárias.

As novas ferrovias terão impacto direto no transporte de cargas que é direcionado, principalmente, a quatro grandes portos da região: Paranaguá (PR), São Francisco do Sul (SC), Itajaí (SC) e Rio Grande (RS). Uma das preocupações do governo é fazer com que as novas linhas não tragam impacto negativo às malhas já construídas na região Sul.

No Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, quase todas as ferrovias foram concedidas para a empresa América Latina Logística (ALL). Um bom trecho dessas linhas, segundo José Eduardo Castello, presidente da Valec, está com o tráfego suspenso há anos. Outra parte estaria com capacidade ociosa.

De acordo com dados da ANTF, a ALL investe anualmente entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões só no Rio Grande do Sul para ampliar a capacidade da malha local. No ano passado, esse trecho da ferrovia foi responsável por 70% do volume movimentado no porto de Rio Grande.

“Estamos analisando diversas formas de interligação com a malha existente e vamos trabalhar de forma articulada, sem olhar as necessidades de um único Estado. A ideia não é prejudicar ninguém, mas melhorar aquilo que já existe”, diz Castello. “Os estudos técnicos vão mostrar aquilo que pode ser utilizado como interligação e aquilo que precisa ser feito para apoiar o plano traçado. Não haverá sobreposição de malha, nem desperdício de dinheiro”, complementa.

Desperdício de recursos é algo que já entrou para o currículo da Valec. Na Ferrovia Norte-Sul, revelou o Valor na semana passada, terá de ser gasto cerca de R$ 400 milhões a mais para consertar estruturas e trilhos que foram mal instalados. Trata-se de injetar dinheiro para arrumar algo que nunca foi utilizado. Além disso, a estatal terá que erguer uma série de pátios logísticos que constavam dos contratos firmados com empreiteiras, mas que não foram entregues.

Para evitar que os problemas se repitam nos novos projetos, diz Castello, a Valec vai firmar acordos de cooperação técnica com as universidades federais do Paraná e Santa Catarina. As parcerias têm o propósito de definir, especificamente, qual será o traçado da chamada “Ferrovia do Frango”, planejada para ligar as cidades catarinenses de Chapecó e Itajaí. A participação da universidade paranaense deve-se à possibilidade de o traçado da ferrovia se ligar à linha férrea que hoje corta os Estados e que foi concedida a ALL. Com essa interligação, a carga transportada pela nova ferrovia ganharia a opção de chegar até o porto de Paranaguá, além dos terminais de Itajaí. “Não vamos privilegiar nenhum Estado, em específico, mas aquilo que é melhor para a logística nacional”, comenta Castello, da Valec. Ontem, foi publicado no Diário Oficial da União o edital para contratação dos estudos técnicos da Ferrovia do Frango.

No ano passado, a movimentação de carga transportada pelos 29 mil quilômetros de ferrovias do país atingiu 475,1 milhões de toneladas. Para este ano, a previsão é chegar a 522 milhões, segundo estimativa da ANTF.

05/06/2012 - 09:43h Apesar de incertezas sobre Chávez, Venezuela vem atraindo investidores

Por Matthew Walter | The Wall Street Journal | Valor

Enquanto investidores fogem de bolsas de valores ao redor do mundo, alguns estão ancorando num porto inusitado: a Venezuela.

Títulos de dívida emitidos pelo país dispararam este ano em valor, reduzindo os juros. O índice de ações venezuelano já dobrou este ano, fazendo da bolsa de valores local de longe a de melhor desempenho no mundo, segundo a corretora nova-iorquina Auerbach Grayson, que monitora mais de 120 mercados de ações.

Os títulos de dívida do país estão entre os de melhor performance nos mercados emergentes neste ano, sendo que um índice do J.P. Morgan para os títulos em dólar da Venezuela subiu 9,5% desde dezembro, mais de duas vezes o retorno de 3,67% de um índice de títulos mais amplo de mercados emergentes do banco.

Investidores têm abraçado a Venezuela apesar de crescentes incertezas quanto ao futuro da liderança nacional. O presidente Hugo Chávez está se tratando de um câncer e, pela primeira vez em seus 13 anos no poder, há uma chance razoável de que não seja reeleito em outubro, dizem analistas.

Russell Dallen, sócio-gerente da Caracas Capital Markets, na capital venezuelana, diz que já recebeu dezenas de perguntas de investidores estrangeiros sobre como investir no mercado acionário do país.

“Investidores internacionais estão vendo que poderiam ter dobrado seu dinheiro”, diz Dallen. A Venezuela tem “ótimas companhias, mesmo que estejam numa vizinhança ruim.”

Claro que o valor de mercado da Bolsa de Caracas é relativamente pequeno: US$ 2,5 bilhões, comparado com US$ 1,1 trilhão da bolsa brasileira.

Ainda assim, a Venezuela contrasta acentuadamente com a maneira como muitos investidores estão vendo o resto do mundo. A Europa está em crise, e as economias da China e dos EUA estão dando sinais de desaceleração. Como resultado, investidores estão fugindo das bolsas em geral, e de mercados emergentes em particular.

Investidores globais já tiraram US$ 7,8 bilhões de fundos de ações voltados para mercados emergentes desde o início de abril, segundo a firma de monitoramento de dados EPFR Global. O mês passado teve a quarta maior saída líquida do ano.

E mesmo vizinhos da Venezuela estão em declínio. A bolsa brasileira já caiu quase 6% este ano, e a da Argentina, mais de 10%.

A crise na Europa mostrou como países – tais como a Grécia, que reestruturou bilhões de uma dívida que antes era uma aposta preferida por investidores – podem cair em desgraça rapidamente. Alguns investidores dizem que, no caso da Venezuela, o inverso também pode ser verdadeiro. Qualquer melhora no panorama econômico do país poderia elevar o valor de ativos, que têm sofrido sob o rígido controle de Chávez.

“O mercado vê uma mudança de governo muito favoravelmente”, disse Francisco Ghersi, um sócio da firma de administração de recursos Knossos Asset Management, de Caracas, que administra US$ 25 milhões investidos em ativos venezuelanos em dólares.

Atraída por rendimentos altos, a Knossos tem aumentado a sua carteira de títulos de dívida emitidos pela petrolífera estatal PDVSA (Petróleos de Venezuela SA), que são vistos essencialmente como dívida do governo.

A Venezuela terá uma eleição presidencial em 7 de outubro. O principal oponente de Chávez é Henrique Capriles Radonski, governador do Estado de Miranda.

Muitos investidores acreditam que o vencedor, quem quer que ele seja, será pressionado a desvalorizar a moeda para ajudar a reforçar a economia. A taxa de câmbio oficial é de 4,30 e 5,30 bolívares – o país tem um sistema de taxa dupla – para cada dólar. Alguns investidores dizem que a taxa precisa ficar mais perto dos 8,50 que agora prevalecem no mercado negro.

Uma moeda mais fraca poderia ajudar exportadores de petróleo, que negociam em dólares, e possivelmente ajudar a economia. O lado ruim é que uma desvalorização provavelmente também aumentaria as pressões inflacionárias, à medida que o custo de bens importados aumentar.

Apesar da alta das ações e da dívida, alguns investidores temem que uma transição desordenada para um novo governo poderia provocar uma reação na base de suporte do governo entre militares, e entre os milhões de venezuelanos pobres que dependem de programas sociais. Além disso, há receios de que um novo regime poderia questionar direitos de propriedade, um ponto sensível entre investidores estrangeiros na Venezuela.

“Nós somos vendedores na alta venezuelana”, disse Bryan Carter, um vice-presidente da Acadian Asset Management em Boston, que administra um fundo de US$ 65 milhões que investe em mercados emergentes. “Capriles simplesmente não terá o apoio popular para tomar decisões difíceis, como deixar a taxa de câmbio flutuar.”

A dívida do país com credores estrangeiros já quase dobrou nos últimos três anos, para US$ 96,7 bilhões no fim de 2011, incluindo US$ 74 bilhões em títulos de dívida. A dívida total como porcentagem da produção econômica disparou de 15,6% em 2008 para 31% no ano passado.

11/05/2012 - 20:12h Confecções brasileiras levam produção para o Peru

11 de maio de 2012

ESTEBAN ISRAEL – REUTERS – Agência Estado

“Hecho en Perú” é uma etiqueta cada vez mais comum nas roupas brasileiras. E isso poderá aumentar muito se, como está previsto, peças confeccionadas no país vizinho em algodão de alta qualidade começarem a chegar às prateleiras de grandes redes de varejo, como Pão de Açúcar, Walmart e Carrefour.

As projeções indicam que o negócio poderá crescer 400 por cento nos próximos quatro anos, alcançando meio bilhão de dólares, apesar das medidas protecionistas do Brasil, cuja indústria perdeu em 2011 cerca de 13 mil postos de trabalho por causa da concorrência com os produtos chineses.

Dezenas de marcas brasileiras estão atravessando os Andes atrás do algodão peruano de fibra extra-longa, e de um acordo comercial que permite importá-lo sem impostos.

Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), as importações de confecções peruanas cresceram 57,5 por cento em 2011, alcançando 102 milhões de dólares.

“Estamos simplesmente acompanhando o crescimento da demanda brasileira”, disse o adido comercial do Peru em São Paulo, Antonio Castillo. “Nossa meta é chegar a 500 milhões em 2016.”

O Peru não tira o sono da indústria têxtil brasileira como a China, Bangladesh ou o Vietnã, porque seus preços são o dobro dos concorrentes asiáticos, e o volume do comércio é relativamente pequeno.

“O dano que o comércio com o Peru está causando à indústria nacional é marginal em comparação à China”, disse à Reuters Fernando Pimentel, diretor da Abit. “Ele nos preocupa porque cresceu de forma marcante. Mas o volume ainda não faz com que haja uma destruição bestial da cadeia produtiva brasileira.”

Ele descartou a possibilidade de rever o acordo comercial com o Peru, a exemplo do que aconteceu neste ano com um acordo semelhante que levou a uma disparada nas importações de veículos mexicanos.

A demanda pelo produto do Peru se concentra até agora em marcas mais sofisticadas, como Richards, Ellus ou Brooksfield, dispostas a pagar mais pelo algodão “pima” peruano, único da América Latina com fibra extra-longa.

“Além de oferecer algodão e lã de alpaca de alta qualidade, o Peru tem essa grande vantagem comercial de entrar no Brasil sem alíquotas”, disse Luis Melo, gerente comercial da Richards. “São produtos caros, mas não têm impostos.”

A indústria têxtil peruana produz roupas para marcas internacionais como Lacoste, Armani Exchange, Calvin Klein, Donna Karan ou Guess. A demanda brasileira contribuiu para que o Peru aumentasse em 27 por cento suas exportações têxteis em 2011, alcançando quase 2 bilhões de dólares, apesar da redução nas exportações para os EUA, o maior mercado.

Embora o Brasil ocupe hoje o quarto lugar entre os destinos das confecções peruanas, autoridades e analistas preveem que em breve substituirá a Venezuela como segundo maior comprador.

04/05/2012 - 10:37h Investimento externo é recorde na AL, mas prioriza países seguros

Por Fabio Murakawa | VALOR

De São Paulo

O investimento estrangeiro direto (IED) na América Latina bateu recorde em 2011, atingindo US$ 153,4 bilhões, segundo relatório divulgado ontem pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), órgão das Nações Unidas. O grande volume de ativos multinacionais na região, a boa rentabilidade e o bom desempenho da economia explicam a alta, mas os dados sugerem que os investidores preferem aplicar seu dinheiro em países que, além do dinamismo da economia e de recursos naturais, oferecem estabilidade jurídica e macroeconômica.

Com US$ 66,6 bilhões, o Brasil segue na ponta do ranking, sendo responsável 43,4% do IED na região em 2011. O México (US$ 19,4 bilhões) vêm em seguida. A Europa foi a maior fonte de investimentos, respondendo por quase 40% do IED total em 2011. Empresas dos EUA (18%) e do Japão (8%) são outros grandes investidores.

“Países que mostram dinamismo econômico, oferta de recurso e estabilidade atraem mais investidores, de acordo com a aversão ao risco do investidor”, disse ao Valor o diretor do escritório da Cepal no Brasil, Carlos Mussi.

Isso explica, em parte, o desempenho relativamente ruim de países como a Venezuela e a Argentina, em que estatizações, forte intervenção do Estado e mudanças bruscas na política econômica têm reflexos diretos no IED. A Argentina, terceira maior economia da região, vem atraindo menos investimentos do que os países andinos. O IED do Chile chegou a US$ 17,3 bilhões em 2011 e o da Colômbia, a US$ 13,23 bilhões. O Peru atraiu US$ 7,66 bilhões de IED, contra US$ 7,24 bilhões da Argentina.

O país vem adotando nos últimos anos políticas de controle de preço, substituição de importações e, recentemente, expropriou ativos da petroleira YPF pertencentes à espanhola Repsol, o que deve afugentar investidores.

No caso da Venezuela, onde também há uma forte intervenção do governo, o IED aumentou 339% em 2011, para US$ 5,302 bilhões. Segundo técnicos da Cepal, o setor petroleiro respondeu por 65% desse montante. O país, dizem eles, passou por vários anos de investimento muito baixo, inclusive negativos por duas razões. A primeira foi a política de nacionalização em alguns setores importantes, que significou a saída de empresas. A segunda foi a mudança nas condições de exploração das concessões petroleiras, que por alguns anos diminuíram a IED no setor.

De acordo com os técnicos, a maioria das nacionalizações já foi executada, e as empresas se ajustaram às novas condições para o setor, que requerem uma associação com a estatal PDVSA, que detém nelas a maioria dos ativos. Mas o fluxo de investimento em outras áreas ainda é negativo porque empresas de setores que vêm sendo estatizados estão deixando o país.

Apesar da crise na Europa, maior investidor na região (40% do IED), o cenário continua favorável. “Há um risco de a crise contagiar os investimentos na América Latina. Mas as empresas europeias encontram aqui disponibilidade de recursos e financiamento atraente para o seu capital”, disse Mussi.

27/04/2012 - 10:35h Integração regional: Financiamento de projetos requer novo instrumento

VALOR

A adoção de novos mecanismos financeiros que permitam a participação do setor privado no desenvolvimento de projetos com iniciativa majoritariamente pública é fundamental para viabilizar e consolidar os programas de integração regional na América do Sul, defende Rômulo Ribeiro, economista e assessor especial da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

“É necessário avançar na direção de firmar instrumentos de financiamento que abram a possibilidade de co-financiamento, como é o caso do Banco do Sul, criado recentemente com a adesão de sete dos 12 países sul-americanos, que poderá atuar de forma complementar para viabilizar projetos de integração e oferecer garantias aos financiamentos”, explica Ribeiro.

Segundo o economista, o BNDES tem prestado consultoria técnica para a conformação e formatação do Banco do Sul, que aguarda apenas a ratificação pelo Congresso Nacional da adesão brasileira. O novo banco será sediado na Venezuela e pelo acordo dos sócios (Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai e Uruguai) terá US$ 7 bilhões para operações iniciais. O banco vai operar como uma espécie de BNDES continental e financiará, principalmente, projetos de governos e empresas em infraestrutura e de integração regional.

Do ponto de vista do Brasil, será um apoio complementar ao BNDES, que atualmente não pode emprestar para sócio estrangeiro de empresa brasileira que está investindo em outros países da América do Sul. “Eventualmente, qualquer problema localizado em qualquer país do continente, que seja do seu interesse do desenvolvimento econômico e social, poderá ser atendido pela operação do Banco do Sul. O Brasil é um defensor da priorização de projetos que tenham sempre desenvolvimento em termos de integração. Mas a ideia é buscar um equilíbrio constante entre intervenção regional, através de um organismo multilateral, com o fortalecimento da região, como ente econômico, vivo, porém, sem retirar dos países as suas decisões estratégicas”, diz Ribeiro.

Não se trata, claro, de acordo com o assessor especial do BNDES, de criar ferramentas de financiamento novas, a partir do zero. “Normalmente, essa não é a melhor opção”, comenta. O objetivo é de complementaridade à atuação dos vários organismos que já operaram na região.

O próprio BNDES é um dos maiores destaques. Entre 1998 e 2002, por exemplo, a média de volume desembolsado para exportações no setor de bens e serviços destinados a projetos de infraestrutura passou de menos de US$ 66 milhões ao ano, para US$ 202 milhões ao ano entre 2003 e 2006. Atingiu a cifra anual de US$ 1,1 bilhão no período entre 2007 e 2011.

O metrô de Caracas e Los Teques, na Venezuela, o Estaleiro Astialba e a Siderúrgica Nacional, na Colômbia, o Transmilênio, transporte urbano, no Equador, a Usina Hidrelétrica de São Francisco, no Peru, e a ampliação dos gasodutos TGS e TGN, no Uruguai, são alguns projetos de infraestrutura financiados pelo BNDES na América do Sul.

Outro organismo que vem tendo seu trabalho resgatado, no momento em que se abre discussão para consolidação de uma instituição multilateral, regional, é a Corporação Andina de Fomento (CAF), que nasceu há 40 anos como braço financeiro para apoiar o processo de integração do grupo andino, dentro do portfólio de projetos definidos pelo Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento (Cosiplan), da União das Nações Sul-Americanas (Unasul).

“Nossa tarefa tem sido a de apoiar o desenvolvimento econômico sustentável e do meio ambiente, combinando e aprofundando os processos de integração”, assinala Rolando Terrazas, diretor de projetos do Cone Sul da CAF/Banco de Desenvolvimento da América Latina.

Nos últimos anos, com recursos canalizados dos vários países membros, informa Terrazas, a CAF tem apoiado o trabalho da iniciativa privada nos setores de infraestrutura de transporte e energia, em especial. “Mas, adicionalmente, podemos financiar o setor privado produtivo por meio da outorga de créditos de longo prazo às empresas para a construção e compra de ativos, bem como por meio de linhas de crédito e capital de giro”, indica.

“Nosso objetivo agora é maximizar o financiamento na figura dos co-financiamentos, num esquema de cooperação com várias entidades de financiamento”, diz Rolando Terrazas.

Para Juan Pablo Rodrigues, assessor da presidência da CAF, a instituição vive um momento especial com a elaboração de um conjunto de produtos e programas visando aumentar a produtividade e estimular a competitividade no comércio nas regiões de fronteiras de vários países sul-americanos, como Argentina e Bolívia, Brasil e Peru, Uruguai e Argentina. Já está em andamento, por exemplo, o programa de suporte financeiro, no valor de US$ 1 milhão, para apoiar os governos da Colômbia e Venezuela na condução do projeto de ponte internacional Tienditas, no Tachira River (Venezuela), e o estudo de otimização da ligação Silvania Villa (Colômbia) -Tienditas (Venezuela). “São projetos desenvolvidos com fundos reembolsáveis e programas de cooperação técnica”, diz Rodrigues.

A atuação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como um parceiro adicional do setor privado nos projetos de integração da América do Sul é inquestionável, avalia Ricardo Carciofi, diretor do Instituto para a Integração da América Latina e do Caribe (Intal), do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Criado em 1950, o banco reforçou, a partir do ano 2000, seu foco na identificação de oportunidades e desafios de integração regional e hoje detém elevada capacidade para apoiar os programas de infraestrutura na região, destaca o executivo.

Há dois anos, os governadores do BID elevaram o capital social da instituição de US$ 7 bilhões para US$ 12 bilhões e decidiram que, até 2015, pelo menos 15% do financiamento total serão destinados a iniciativas de investimentos de integração regional e global, que deverão atingir US$ 1,8 bilhão. “Nós entendemos que os projetos de infraestrutura não funcionam por si só, mas precisam estar envolvidos por investimentos que criem facilidades de comércio e por acordos que promovam a cooperação entre os países”, afirma Carciofi.

Atualmente, informa ele, o BID trabalha com três linhas principais de financiamentos: empréstimos com garantia soberana ao setor público; uma janela exclusiva para o setor privado por meio do Departamento de Financiamento Estruturado e Corporativo, para financiar, sem garantia soberana, empresas privadas com faturamento superior a US$ 100 milhões; investimentos de menor escala (até US$ 100 milhões), para empresas privadas, pequenas e médias. Não é pura abstração ou teoria, reforça Carciofi. “Hoje, o BID opera com 28 projetos dentro da agenda de integração regional e tem 16 projetos operando com fundos não reembolsáveis, em ações complementares com outros organismos de financiamento”, destaca.

25/04/2012 - 11:32h Plano para integrar América do Sul tem custo de R$ 21 bi

Cecilio Pérez Bordon, da Unasul, diz que obras de integração são complementares e não vê risco de financiamento


VALOR

A América do Sul tem a possibilidade de chegar em 2022 com os mercados mais integrados fisicamente e em um novo patamar de cooperação multilateral entre os países. Essa é a oportunidade deixada em aberta pelo plano de integração da infraestrutura do continente, debatido ontem pela União das Nações Sul-Americanas (Unasul) em evento em São Paulo.

O estudo, que começou a ser desenvolvido em novembro do ano passado, apresenta 88 projetos ligados às áreas de transporte, energia e integração fronteiriça, como a ampliação de posto de fronteira, com previsão de conclusão em até dez anos. Dessas obras, 31 foram consideradas prioritárias e estruturantes – que dão suporte a outras em um segundo momento – divididas em oito eixos, visando o desenvolvimento regional. A estimativa é que os projetos necessitem de US$ 21 bilhões para que saiam do papel.

Alguns deles, contudo, já estão previstos por governos do continente. Dos projetos estruturantes, 11 estão em território brasileiro, como a ligação bimodal entre Manaus e Lima, no Peru, e a interligação entre os portos de Paranaguá e Antofagasta, no Chile.

De acordo com o embaixador e subsecretário para a América do Sul, Central e do Caribe do Ministério das Relações Exteriores, Antônio Simões, presente na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em São Paulo, dez projetos estão contemplados no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “Antes, a visão era crescer para fora, exportando commodities. Agora temos o desafio de criar condições dentro do continente para criar um mercado hoje inexistente, integrando regiões isoladas.”

As fontes de financiamento e o modelo das obras não estão definidos. Cada país será responsável pelos trabalhos em seus territórios, com esse tipo de investimento sendo maioria. Ele ficará na casa dos US$ 18 bilhões segundo estudo da Fiesp. Nos projetos binacionais (US$ 2,5 bilhões) e trinacionais (US$ 500 milhões), os países farão seus próprios acordos.

“Cada um dos 12 membros apresentou seus projetos, que somaram 531. Fomos filtrando até chegar em 31. O importante é que eles se complementam e cada país sabe seu compromisso. Creio que não haverá problemas de financiamento”, afirmou Cecilio Pérez Bordón, ministro de Obras Públicas e Comunicação do Paraguai e presidente Pro Tempore da Unasul. O plano deverá ser assinado na próxima reunião do Conselho de Infraestrutura e Planejamento (Cosiplan) da entidade, em julho.

Para as obras entrarem em operação, serão necessários acordos entre os países, como na hidrovia que liga a amazônia brasileira à peruana. Isso abre um novo problema, mas inevitável ao se pensar na integração do continente, de acordo com Carlos Cavalcanti, da Fiesp. “Os mercados vão se integrar mais, abrindo um novo precedente nas relações bilaterais”, disse.

A expectativa da Unasul é que até o fim deste ano os estudos das obras e a viabilidade financeira dos projetos estejam prontos. A entidade quer união entre governos e setor privado para as obras. “Estamos em um patamar diferente de desenvolvimento. Vivemos uma espécie de renascimento da região e temos que usar isso em prol da integração física da América do Sul. Com força política, vamos vencer o desafio”, disse a secretária-geral Maria Emma Meíja.

23/04/2012 - 16:27h Pleitos y protestas nublan las inversiones en los países de América Latina

GESTIÓN

Lunes, 23 de abril del 2012

Los inversores podrían buscar nuevos destinos para su dinero, según análisis de Reuters. Perú y Chile, considerados amigables con la inversión extranjera, mo escapan de estos problemas.

El intento de privatización de YPF en Argentina podría asustar a los inversores en ese país. (Foto: Reuters)
El intento de privatización de YPF en Argentina podría asustar a los inversores en ese país. (Foto: Reuters)

México DF (Reuters).- Cuando Argentina rompió las reglas de juego y ordenó la expropiación de la mayor petrolera del país, dejó al desnudo un camino que se pone cada vez más cuesta arriba para los inversores en algunas zonas de América Latina.

Nacionalizaciones a mansalva en Venezuela, rescisiones de proyectos de infraestructura en Bolivia, pleitos por contratos en Ecuador y protestas sociales que paralizan planes mineros en Perú dibujan un complejo panorama regional.

Argentina ya atemorizaba al capital extranjero con sus políticas intervencionistas, como las trabas a las importaciones y un heterodoxo control de cambios cuando aún los mercados tienen fresco la cesación de pagos por más de 100,000 millones de dólares del 2001-2002.

Dos décadas después de que Argentina privatizara desde servicios públicos hasta su aerolínea, la presidenta Cristina Fernández terminó de poner los pelos de punta de los inversores la semana pasada con el anuncio de que expropiará la filial de la española Repsol-YPF .

“Yo creo que genera un retroceso en una región que avanzó resueltamente las últimas décadas hacia a una integración a nivel mundial siendo muy respetuosa de la inversión y el capital extranjero”, dijo Pablo Longueira, ministro chileno de Economía, durante una reunión ministerial del G20 en Puerto Vallarta.

América Latina, con un crecimiento económico mucho mayor al del mundo desarrollado y el sostenido consumo de una creciente clase media, se convirtió en la última década en uno de los destinos favoritos para los inversionistas, después de superar años de crisis económicas e institucionales recurrentes.

Pero al patear el tablero, Argentina mostró que los inversores que buscan apostar en la región pero quieren dormir tranquilos tienen solo un puñado de opciones disponibles, lo que podría llevarlos a buscar nuevos horizontes .

“Con este tipo de medidas si bien es cierto que va a haber una reestructuración (de las inversiones) al interior de la región (…), también es cierto que puede beneficiar a otros países emergentes, específicamente a los asiáticos”, dijo Alfredo Coutiño, economista jefe para América Latina de Moody’s.com.

Algunos creen incluso que el capital extranjero podría temer que la actitud de Argentina comience a contagiar a otros vecinos generando un efecto dominó en una región dividida ideológicamente entre mandatarios de izquierda y conservadores.

Argentina justificó la medida en que necesita recuperar su autoabastecimiento de hidrocarburos porque las importaciones de combustible han lastimado su superávit comercial y Repsol-YPF no escuchó su demanda por más inversiones para incrementar la producción.

“El problema es que muchos inversores internacionales pueden pensar que lo que ha hecho el Gobierno de Argentina pueden adoptarlo otros gobiernos latinoamericanos en el futuro. Y esto va a ser un factor de disuasión de la inversión internacional en América Latina”, dijo el secretario de Estado de Comercio español, Jaime García-Legaz, en Puerto Vallarta.

Pero la realidad no es tan simple como eso. Latinoamérica tiene dos caras.

Las dos Latinoaméricas
La región quedó dividida entre los países que tienden la alfombra roja a la inversión extranjera directa y los que son más proteccionistas.

Venezuela lidera el último grupo junto con sus aliados Bolivia, Ecuador y la ahora fustigada Argentina. Del otro lado del paisaje se alinean México, Brasil, Chile, Colombia y Perú.

Desde que asumió el poder en 1999, el presidente venezolano Hugo Chávez ha nacionalizado vastos sectores del país, como las empresas de cemento internacionales Lafarge o Cemex, multimillonarios proyectos petroleros y hasta supermercados y frigoríficos.

Bolivia anunció hace menos de dos semanas la rescisión de un contrato con la empresa brasileña OAS para construir una carretera en la selva amazónica por supuesto incumplimiento de la compañía, en medio de protestas de grupos de indígenas.

Ya otra empresa de Brasil que construía una carretera troncal ya se había marchado del país sin concluir la obra.

En Ecuador, las condiciones impuestas por el presidente Rafael Correa -un aliado de Chávez y del mandatario boliviano Evo Morales- llevaron a la petrolera brasileña Petrobras y a la francesa Perenco a abandonar sus operaciones en el país andino.

“Los puestos de trabajo requieren inversión, no obtienes nuevos trabajos sin inversión asociada”, dijo el ministro de Comercio de Nueva Zelanda, Tim Groser, en Puerto Vallarta. “Y si la gente quiere poner su dinero, quieren asegurarse que hay un marco estable para ellos durante un número de años”, agregó.

Incluso en Perú y Chile, considerados amigables con la inversión extranjera, han surgido problemas.

Perú lucha por conciliar los intereses de las grandes empresas extranjeras con las protestas sociales por la explotación de recursos, que han dejado en pausa a Minas Conga, el mayor proyecto minero en la historia peruana.

En otro dolor de cabeza para el Gobierno, unos 36 operarios de la firma sueca Skanska y de la peruana Ramsa que trabajaban en un campo de gas natural fueron secuestrados por la guerrilla Sendero Luminoso en una localidad remota de Cusco, para ser liberados sanos y salvos después de cinco días.

En Chile, en tanto, un pueblo de artesanos y pescadores frenó la construcción de la mayor termoeléctrica de Sudamérica, un plan del millonario brasileño Eike Batista, por temores de daños al medioambiente.

Pero cuando llegan los grandes anuncios de inversiones quedan al desnudo las diferencias.

Volkswagen anunció esta semana que construirá una planta en México para ensamblar camionetas deportivas de su marca de lujo Audi a partir del 2016, con una inversión calculada en poco menos de 2,000 millones de dólares según el Gobierno.

En un intento por dejar en claro las diferencias dentro de la región -y retener las inversiones- algunos mandatarios de los países más abiertos no tuvieron pelos en la lengua para criticar la medida, aunque en sus propias naciones el sector petrolero está controlado por el Estado.

El presidente colombiano, Juan Manuel Santos, se apuró a aclarar que su país continuará respetando las reglas del juego para los inversores y no expropiará ningún activo, al igual que lo hizo el ministro de Economía de Perú, Luis Castilla, durante un evento con inversores en Londres.

Y el mexicano Felipe Calderon, que recientemente apostó a elevar su exposición en Argentina al doblar la participación de la petrolera estatal Pemex en Repsol, no pudo ser más directo.

“Nadie en sus cinco sentidos invierte en un país que expropia las inversiones, es una cuestión de comportamiento racional”, dijo el mexicano Felipe Calderón la semana pasada en referencia a la medida de Argentina.

23/04/2012 - 13:28h Indígenas desafiam fronteiras e se unem contra grandes obras na América Latina


Grupos buscam trocar experiências bem-sucedidas e unificar posição em organizações internacionais.

23 de abril de 2012

BBC Brasil – Agência Estado

Desafiando as fronteiras nacionais, indígenas de países latino-americanos estão se articulando de forma inédita na oposição a obras que afetam seus territórios e a políticas transnacionais de integração.

Com o auxílio de tecnologias modernas e de conexões históricas, índios de diferentes grupos têm buscado unificar posições em organizações internacionais como ONU e a OEA (Organização dos Estados Americanos). Experiências bem-sucedidas por toda a América Latina em disputas com governos e empresas também vêm sendo compartilhadas.

“Estamos mapeando todas as conquistas dos nossos parentes (povos indígenas) no continente para aproveitarmos as experiências deles aqui no Brasil”, afirma Marcos Apurinã, coordenador-geral da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira).

“Nossos problemas são praticamente idênticos aos dos indígenas dos outros países”, diz ele à BBC Brasil.

Essa aproximação tem sido liderada pelas grandes organizações indígenas nacionais e por movimentos regionais, como a Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), que agrega grupos do Equador, Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela.

Além de manter as organizações filiadas informadas sobre disputas envolvendo indígenas nos países membros, a Coica tem promovido encontros entre seus integrantes.

Nas reuniões, discutem-se, entre outros temas, formas de pressionar os governos a demarcar territórios, como recorrer a organismos internacionais para fazer valer os direitos indígenas e o impacto de grandes obras nas comunidades tradicionais.

“Nos preocupa a nova forma de desenvolvimento conhecida como economia verde. Entendemos isso como um esforço para a exploração dos recursos naturais nos territórios indígenas”, diz à BBC Brasil Rodrigo de la Cruz, coordenador técnico da Coica.

Cruz cita algumas obras que considera dramáticas para indígenas na América Latina: no Brasil, a hidrelétrica de Belo Monte; na Bolívia, a construção de estrada que atravessaria o parque nacional Tipnis; no Equador, a exploração petrolífera na Reserva Faunística Yasuní; no México, a estrada Bolaños-Huejuquilla; e na América Central, o Projeto Mesoamérica (integração de redes elétrica e de transporte do México à Colômbia).

Todas as obras acima são ou foram objeto de protestos de indígenas. E, como parte delas afeta povos tradicionais em mais de um país, também entraram na pauta dos encontros entre índios de regiões fronteiriças.

Obras transnacionais

A reportagem da BBC Brasil esteve na divisa com o Peru, onde índios dos dois lados têm se reunido para tratar dos efeitos de uma série de obras destinadas a ampliar a integração binacional nos próximos anos.

A primeira delas – a rodovia Interoceânica, que liga o noroeste brasileiro a portos peruanos no Pacífico – saiu do papel em 2011 e trouxe, segundo os indígenas, vários problemas à região, como desmatamento e mineração ilegal.

Jaime Corisepa, presidente da Federação Nativa do Rio Madre de Dios e Afluentes (Fenamad), principal movimento indígena do Departamento (Estado) peruano de Madre de Dios, diz temer um agravamento das condições caso os próximos projetos de integração saiam do papel. Um deles é o acordo energético que prevê a construção de seis hidrelétricas no Peru para abastecer o mercado brasileiro.

Protestos de índios contra o acordo fizeram o governo peruano suspendê-lo e anunciar que ele só vigorará após as comunidades tradicionais serem consultadas, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Laços históricos

A articulação entre povos indígenas dos países amazônicos também é facilitada por fatores históricos. Marcela Vecchione, consultora da Comissão Pró-Índio (CPI) do Acre, diz que as fronteiras na região foram definidas conforme critérios econômicos e não levaram em conta as comunidades presentes, que, em muitos casos, foram divididas pelos limites nacionais.

Ao longo de várias décadas, segundo ela, esses povos mantiveram relação intensa com os dos países vizinhos, cruzando as fronteiras livremente. Com a demarcação de terras indígenas pelos governos nacionais nas últimas décadas, porém, esse fluxo migratório foi reduzido, embora muitos povos binacionais (ou até trinacionais, em alguns casos) mantenham alianças por meio de casamentos e relações de parentesco com índios de países vizinhos.

É o caso dos manchineri, que vivem na região da divisa Brasil-Peru. São comuns os casos de índios desse grupo que passam parte do ano em um país e o resto, no outro.

Geraldo Manchineri, que vive em uma aldeia indígena no Peru, sempre visita os parentes do lado brasileiro – a reportagem da BBC Brasil o encontrou numa praça em Brasileia (AC).

Segundo Ricardo Verdum, doutor em Antropologia pela Universidade de Brasília, os povos indígenas começaram a se articular em encontros internacionais nas décadas de 1960 e 1970, quando países africanos e asiáticos lutavam para se livrar do jugo europeu. A evolução do diálogo resultou na Convenção 169 da OIT, de 1989, e na Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, de 2007.

Ele diz, porém, que o grande desafio dos movimentos é fazer com que os países que subscreveram os documentos os respeitem.

Para isso, segundo Verdum, nos últimos anos, a articulação entre indígenas (especialmente na América Latina) tem se intensificado e ganhado contornos mais institucionais, com a criação de órgãos para fazer frente às políticas dos Estados nacionais.

“Hoje, eles estão bem mais atentos, buscando se organizar de forma politicamente autônoma”, afirma à BBC Brasil.

Verdum diz esperar que, em alguns países, esse processo enseje a criação de Parlamentos dos Povos Indígenas, órgãos que seriam vinculados ao Poderes Legislativos nacionais e serviriam para a elaboração de políticas específicas para os índios.

Conferências virtuais

Além de dialogar sobre desafios comuns em reuniões internacionais, indígenas latino-americanos têm usado a internet para alinhar posições sobre temas que não necessariamente envolvam grandes obras ou conflitos com governos.

Tashka Yawanawá, líder da Associação Sociocultural Yawanawá, que atua no Acre, mantém um blog (awavena.blog.uol.com.br) e usa a internet para fazer videoconferências com povos de países vizinhos.

Nos últimos dias, ele diz ter conversado pelo Skype com índios peruanos sobre como as comunidades tradicionais podem se beneficiar dos “serviços ambientais” que prestam (como o plantio de ervas medicinais ou a preservação ambiental em seus territórios). O tema foi debatido em encontro recente nas Filipinas.

Segundo Tashka, a humanidade hoje vive “numa aldeia global em que tudo está conectado”.

“Hoje os povos indígenas não podem mais fugir do homem branco, da tecnologia. Temos que nos atualizar, nos preparar para encarar esse novo mundo.”

Na fronteira Brasil-Peru, índios se mobilizam contra obras binacionais

Indígenas temem efeitos de empreendimentos em uma das áreas mais isoladas da América do Sul, ainda largamente coberta pela floresta amazônica.
23 de abril de 2012

A anexação do Acre pelo Brasil em 1904 deixou em países distintos povos que habitavam uma mesma região. Mas a exploração econômica da área tem estimulado a aproximação entre esses grupos indígenas, em prol de uma estratégia comum na defesa de seus direitos.

Inaugurada em 2011 e batizada de Interoceânica, a rodovia que liga o noroeste brasileiro a portos peruanos no Pacífico foi construída com a promessa de desenvolver a região e é o carro-chefe de uma série de obras destinadas a ampliar a integração entre Brasil e Peru nos próximos anos.

Índios peruanos e brasileiros, porém, temem os efeitos que esses empreendimentos possam ter numa das áreas mais isoladas da América do Sul, em território ainda largamente coberto pela floresta amazônica.

Eles também se dizem preocupados com os projetos de exploração de petróleo e gás natural nos dois lados da fronteira e com as ameaças aos índios isolados da região.

Segundo o Censo de 2010, há 15.921 índios no Acre. A maioria vive nas cerca de 30 Terras Indígenas (TI) no Estado, quase todas na região de fronteira.

No lado peruano, faltam dados precisos sobre a quantidade de índios, mas, segundo o Censo de 2007, há cerca de 270 comunidades indígenas nos Departamentos (Estados) de Uyacali e Madre de Dios, que fazem fronteira com o Acre.

Migração massiva

Jaime Corisepa, presidente da Federação Nativa do Rio Madre de Dios e Afluentes (Fenamad), principal movimento indígena de Madre de Dios, diz que a Interoceânica causou um grande impacto na região, ao permitir a migração massiva de moradores da cordilheira dos Andes para a Amazônia peruana.

Atraídos pelo ouro em Madre de Dios, milhares desses migrantes têm se instalado em acampamentos à beira da rodovia, desmatando a floresta e poluindo os rios com o garimpo.

“Essa superpopulação destrói o meio ambiente, que é nossa fonte de comida”, afirma. A BBC Brasil visitou alguns desses acampamentos, repletos de bares e casas de prostituição.

Corisepa defende, no entanto, que os índios possam explorar ouro em seus territórios, como já têm feito, para compensar a falta de atenção governamental. “As comunidades indígenas têm direito a uma melhor qualidade de vida. O Estado nunca vai investir em educação indígena, então temos que ganhar dinheiro para investir.”

Corisepa diz temer um agravamento das condições na região caso os próximos projetos de integração binacional saiam do papel, como um acordo energético que prevê a construção de seis hidrelétricas no Peru para abastecer o mercado brasileiro.

“As pessoas desalojadas pelas hidrelétricas entrarão nas comunidades indígenas. Não fomos consultados sobre as obras nem informados sobre como elas vão nos beneficiar”, afirma.

Nos últimos meses, protestos de indígenas fizeram o governo suspender o acordo e anunciar que ele só vigorará após as comunidades tradicionais serem consultadas, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Alcoolismo e prostituição

Em seu trecho brasileiro, a Interoceânica também impactou indígenas.

Segundo Juan Scalia, coordenador-substituto da Funai (Fundação Nacional do Índio) em Rio Branco, em duas comunidades no Amazonas cortadas pela estrada houve incremento nos casos de alcoolismo entre índios (há bares a menos de 500 metros das aldeias), de caça e pesca ilegal e na ação de madeireiros.

Ele também afirma que, em obras como essa, é comum que índias sejam assediadas por operários e, não raro, acabem se prostituindo.

Nem todos, porém, condenam a estrada. Moradores de aldeias cortadas pela Interoceânica dizem que ela barateou produtos nos mercados locais e rompeu o isolamento da região.

“Antes a estrada era só barro e dava várias voltas. Levávamos dois dias e uma noite para percorrê-la a pé até a cidade mais próxima, porque raramente havia transporte”, diz Emilda Yanarico, comerciante e moradora de Iñapari, cidade peruana na fronteira com o Brasil.

Se os planos de governantes locais forem concretizados, Iñapari ganhará outra estrada nos próximos anos. A obra a ligaria a Puerto Esperanza, cidade peruana também na fronteira com o Brasil, só que mais ao norte.

Embora a estrada só vá cortar o território peruano, índios brasileiros da região fronteiriça têm se mobilizado contra a obra.

Tráfico de drogas

Lucas Manchineri, morador da Terra Índigena (TI) Mamoadate, no Acre, diz que a estrada intensificará a ação de madeireiros e o tráfico de drogas na fronteira, problemas que já afetam sua comunidade, segundo ele.

Manchineri afirma que, nos últimos dez anos, cerca de 50 traficantes foram detidos por índios enquanto atravessavam sua TI, tendo sido posteriormente entregues a autoridades brasileiras. “Estamos fazendo o trabalho da Polícia Federal e do Exército.”

Ele também se diz preocupado com as consequências da nova estrada para os índios não contatados que habitam a região, estimados em algumas centenas pela Funai. Para Manchineri, com a estrada, essa população buscará refúgio em áreas ocupadas por outros indígenas, o que pode desencadear conflitos.

Pelas mesmas razões, outra obra planejada na região fronteiriça preocupa índios dos dois lados: a construção de uma estrada ou de uma ferrovia entre Cruzeiro do Sul (AC) e Pucallpa, no Peru.

Há ainda temores quanto à exploração de petróleo e gás natural na região. No lado peruano, vários lotes já foram cedidos a empresas privadas para a prospecção dos bens. No brasileiro, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) deve concluir neste ano testes sísmicos para avaliar a viabilidade da exploração dos recursos.

“Para o governo, progresso é extrair petróleo, abrir estrada, plantar soja, derrubar madeira. A região vai se tornar um paraíso para empresas sujas”, diz o líder indígena brasileiro Tashka Yawanawá.

Reuniões

A articulação entre índios brasileiros e peruanos da região fronteiriça é facilitada por fatores históricos. Marcela Vecchione, consultora da Comissão Pró-Índio (CPI) do Acre, diz que as fronteiras amazônicas foram definidas conforme critérios econômicos e não levaram em conta as comunidades indígenas presentes, que em muitos casos foram divididas pelos limites nacionais.

Ao longo de várias décadas, segundo Vecchione, esses povos mantiveram relação intensa com os do país vizinho, cruzando a fronteira livremente.

Com a demarcação de terras indígenas pelos governos do Brasil e do Peru nas últimas décadas, porém, esse fluxo foi em larga medida interrompido, embora muitos povos “binacionais” (ou até “trinacionais”, nos casos em que também possuam integrantes na Bolívia) mantenham alianças por meio de casamentos e relações de parentesco com índios do país vizinho.

As ameaças comuns sofridas nos dois lados da fronteira, no entanto, têm encorajado uma aproximação maior entre esses povos, que promoveram numerosas reuniões nos últimos anos.

Parte desses encontros tratou da migração de índios peruanos para o Brasil. Em 2004, segundo a CPI-Acre, a extração de madeira em território indígena ashaninka no Peru (atividade permitida naquele país, desde que aprovada pela comunidade indígena local) desestabilizou as aldeias e fez muitas famílias se mudarem para um território ashaninka do lado brasileiro.

Temendo os efeitos dessa migração, os ashaninka brasileiros procuram a Funai. Estabeleceu-se, então, um grupo de trabalho transfronteiriço para tratar do assunto, que já se reuniu 13 vezes desde então.

Com as reuniões, diz Marcela Vecchione, a migração cessou. Além disso, ela diz que os ashaninka peruanos hoje se mostram dispostos a gerir o território como os índios no Brasil, onde a legislação impede exploração de recursos em terras indígenas.

Eles também passaram a alertar os ashaninka brasileiros sobre violações da fronteira por madeireiros, o que, segundo ela, já gerou uma operação da PF.

Obstáculos e estranhamentos

A disposição em frear a exploração de madeira, porém, não parece ser unânime entre índios peruanos, o que dificulta um maior entendimento com os indígenas brasileiros.

Em reunião recente na Bolívia, Letícia Yawanawá, vice-coordenadora de uma organização de mulheres indígenas brasileiras, disse ter sido questionada por índios peruanos por que os “parentes” do Brasil não recorriam à venda de madeira para amenizar a pobreza.

“Eu respondi que hoje eles podem vender, mas e daqui a 50 anos? A floresta acaba. Saí triste do encontro, fiquei com dó dos parentes.”

Já índios peruanos afirmam que, no Brasil, o movimento indígena parece estar fragmentado e ter menos força do que ONGs ambientalistas.

Líderes indígenas dos dois países dizem desejar, contudo, que haja mais diálogo entre os povos, para afinar o discurso e resolver as diferenças.

A relação deverá ser facilitada com a inauguração, neste ano, de um prédio na Universidade Federal do Acre que terá como uma de suas funções alojar indígenas durante reuniões internacionais

23/04/2012 - 10:31h Infraestrutura na América do Sul atiça setor privado

Por Sergio Leo – VALOR

Enquanto o terreno político anda meio acidentado para o setor privado em muitos dos países do continente sul-americano, os projetos de infraestrutura acendem o interesse privado, a ponto de animar uma das mais influentes associações empresariais da região, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a embarcar no plano de integração da União das Nações da América do Sul (Unasul), de “projetos prioritários de integração”. Até agora, a única resistência manifestada contra o setor privado nessa agenda prioritária veio, não surpreendentemente, da Argentina.

Calculados inicialmente pela Unasul em quase US$ 14 bilhões, os 31 projetos, com quase 90 obras, de transportes, energia e telecomunicações, escolhidos por 12 governos da região, superam, na verdade, US$ 21 bilhões, pelos cálculos da Fiesp, que vê a possibilidade de “mudar a cara do continente” em matéria de produtividade e competitividade, segundo descreve o diretor do departamento de infraestrutura da Fiesp, Carlos Cavalcanti.

Cavalcanti liderou uma equipe, nos últimos dias, encarregada de levantar detalhes sobre os projetos identificados pela Unasul, e avaliar suas perspectivas de financiamento e execução. São projetos como os três corredores bioceânicos, que permitirão escoar a soja do centro do Brasil diretamente por portos no Pacífico, sem o passeio hoje obrigatório, até o litoral atlântico, de onde o produto é embarcado para a Ásia, seu principal consumidor.

Empresas se animam com os projetos de integração da Unasul

É um velho plano, o de integrar a infraestrutura da América do Sul; no governo de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil foi um dos principais impulsionadores do projeto abrigado no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), conhecido pela sigla IIRSA, criticado, no entanto pelos governos seguintes, que viram nele uma excessiva concentração de investimentos planejados sob a ótica de corredores de exportação. O BID, sob a Unasul, tem dado suporte técnico, mas aumentou o número de projetos voltados ao desenvolvimento baseado nos mercados domésticos e distribuição de renda.

Hoje, a coordenação dessas obras, que exigirão sintonia entre os diversos governos da região, está com a Cosiplan, o conselho da Unasul para infraestrutura e planejamento. A Fiesp levantou informações sobre as fontes de financiamento, em instituições como o BID, a Corporación Andina de Fomento e o Fonplata, e marcos regulatórios nos países, para os investimentos eleitos como prioridade, que deverão estar totalmente concluídos nos próximos dez anos. “Existe dinheiro à vontade para essas obras”, garante Cavalcanti.

As decisões dos governos sobre algumas delas ainda são uma incógnita, porém. Esse foi um dos pontos em que os enviados da Fiesp encontraram resistências na Argentina, onde foi difícil o contato com funcionários da secretaria do Planejamento – chefiada pelo mesmo Julio de Vido que esteve recentemente no Brasil sugerindo mais investimentos da Petrobras na Argentina. “Nos disseram que o diálogo com o setor privado atrapalha”, relatou, desalentado, o diretor da Fiesp.

Não é um cenário cor-de-rosa o que atrai os empresários. Há falta de estudos ambientais em boa parte das obras, e incertezas sobre a viabilidade dos projetos de integração, que exigirão um nível de coordenação entre os governos até hoje inexistente: a construção de estradas por quatro países ligando os dois oceanos, por exemplo, exigirá acordos inéditos de transporte e alfândegas, para permitir a passagem de cargas e passageiros por essas vias sem engarrafamento na burocracia. O mercado de energia também demandará regras plurinacionais de compra e venda desse insumo.

Para Cavalcanti, essa é exatamente um dos atrativos dos projetos: com a viabilidade da construção de infra-estrutura integrando os países, os governos terão de discutir seriamente uma maior integração também em suas legislações e regulamentações nacionais. A Fiesp reunirá, nesta semana, em São Paulo, cerca de 180 executivos, de empresas de todo o continente, com representantes de governo como a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, ministros ligados à área de infraestrutura do Peru e Colômbia e altos funcionários de outros países, para discutir a viabilidade dessas obras prioritárias e esclarecer as dúvidas do setor privado.

Cavalcanti é otimista, lembra como ganhou apoio em toda a vizinhança o projeto brasileiro de um anel de fibra ótica que dispensará as comunicações na região de passar por outros continentes. O aproveitamento do gás boliviano permitirá geração de pelo menos 2 mil megawatts de energia a serem vendidos no continente, sugere. “Nunca se tentou levar projetos como esses à frente de maneira tão articulada”, crê o diretor da Fiesp, com base nas reuniões técnicas regulares do conselho técnico da Cosiplan. “A Unasul nos cria uma realidade política diferente.”

Um certo ceticismo deve acompanhar essas expectativas, e os rompantes estatizantes da Argentina são só a demonstração mais recente da imprevisibilidade que cerca investimentos em alguns países da região. Mas a adesão entusiasmada da Fiesp à Unasul acrescenta um ingrediente novo à velha receita sul-americana de integração.

Sergio Leo é repórter especial e escrever às segundas-feiras.

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

04/04/2012 - 09:58h ‘Após crise, emergentes são os mais atrativos’, diz O’Neill

Por Silvia Rosa | VALOR

De São Paulo

A valorização da moeda brasileira nos últimos anos, que tem levado o governo a adotar medidas de controle cambial, não é a única razão para a falta de competitividade da indústria brasileira. É o que afirma o economista Jim O’Neill, presidente da Goldman Sachs Asset Management e conhecido por ter criado o termo Bric para o grupo de países que inclui Brasil, Rússia, Índia e Chica, em 2001.

O’Neill está no Brasil nesta semana para lançar seu livro “The Growth Map” (O mapa do crescimento). Dez anos depois, os países do Bric passaram de potenciais economias emergentes para os mercados mais atrativos após a crise financeira nos Estados Unidos e da dívida soberana na Europa.

Na última década o PIB desses países quadruplicou, passando de US$ 3 trilhões para US$ 12 trilhões, superando até mesmo as previsões mais otimistas do economista.

No seu livro, O’ Neill aponta que o Brasil tem capacidade para atingir um PIB de US$ 10 trilhões. Para isso, o país tem um longo caminho pela frente para criar condições para um crescimento sustentado.

O maior desafio do Brasil, na visão do economista, é reduzir a taxa básica de juros em termos reais para diminuir a pressão para valorização do real, e ao mesmo tempo manter os indicadores de custo de vida sob controle. “É muito importante que o juro caia, mas o problema é o risco de alta da inflação no curto e médio prazo”, diz.

Para O’Neill, as ações para aumentar a competitividade da indústria brasileira deveriam focar a flexibilização do mercado de trabalho e o ajuste fiscal. O economista avalia como positivas as medidas de desoneração fiscal anunciadas ontem pelo governo. O governo também reforçou que continuará adotando medidas para conter a valorização do real em relação ao dólar.

O fortalecimento da divisa brasileira, segundo O’Neill, não é necessariamente ruim, uma vez que a exposição à economia internacional contribui para elevar a produtividade. “A Alemanha é um exemplo de que a competição é boa.”

Apesar de ser a sexta maior economia do mundo, a participação do Brasil no comércio mundial é de apenas 1,4%.

As ações para ampliar a liquidez adotadas pelos bancos centrais da Europa e Estados Unidos, que injetaram mais US$ 8,8 trilhões em seus sistemas financeiros, têm provocado a valorização das moedas de vários países atrelados às commodities, incluindo o Brasil.

No caso da China, a própria desaceleração econômica esperada para este ano está sendo conduzida pelo governo para ajudar a conter a inflação e a alta dos preços no mercado imobiliário.

O governo chinês anunciou uma meta de crescimento do PIB de 8,5% para este ano. O economista não acredita, no entanto, que isso signifique uma aterrissagem forçada ou suave da economia chinesa. “A China não deve pousar tão cedo, deve continuar voando”, diz.

O grupo Bric deve liderar o crescimento mundial. A gestora do Goldman Sachs, que tem atualmente US$ 705,8 bilhões sob gestão, prevê uma expansão média para o bloco de 7% para 2012 e de 7,4% para 2013.

A previsão para o Brasil é de um crescimento de 3,6% em 2012. O’Neill acredita que o país tem condições para crescer a uma taxa de 4% nos próximos cinco anos.

Os países do Bric, juntamente com Indonésia, Turquia, Coreia do Sul e México, são a nova aposta de O’Neill, que intitulou esse grupo como “mercados de crescimento”.

Em seu livro, o economista prevê que esses oito mercados adicionarão na atual década US$ 16 trilhões para economia global, quase o dobro do crescimento conjunto dos Estados Unidos e Europa.

02/04/2012 - 12:45h Grandes obras obtêm R$ 30 bi em recursos

Anbima mudou os critérios para a inclusão de projetos e agora considera apenas os que não contam com garantias dos acionistas, afirma Heumann


Por Vinícius Pinheiro | VALOR

De São Paulo

Os investimentos nos estádios que abrigarão os jogos da Copa de 2014 contribuíram para ampliar os recursos direcionados ao financiamento de projetos (”project finance”) no país. O volume destinado a obras de longo prazo somou R$ 28,2 bilhões no ano passado, um crescimento de 46,9% em relação a 2010, em 74 novos projetos. Incluindo os empréstimos-ponte, o valor sobe para R$ 30,2 bilhões, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Pela primeira vez, os estádios aparecem entre os setores que mais receberam financiamento, com 7,4% dos recursos destinados a project finance. No ano passado, foram fechados os desembolsos para o Mineirão, Arena Pernambuco e Fonte Nova (Bahia). A expectativa é de que neste ano surjam novos financiamentos para obras da Copa, entre elas a do Beira Rio, em Porto Alegre, e a do Maracanã, diz o coordenador da subcomissão de financiamento de projetos da Anbima e sócio-diretor da Rio Bravo Infraestrutura, Sergio Heumann.

A maioria dos projetos para a Copa foi viabilizada por meio de parcerias público-privadas (PPP), na qual os governos asseguram o financiamento caso a arrecadação da bilheteria não seja suficiente para o pagamento. As obras com previsão de investimento unicamente público, como a Arena Pantanal, em Cuiabá (MT), ou instrumentos de renúncia fiscal, caso do Itaquerão, o futuro estádio do Corinthians, não devem entrar nas estatísticas da Anbima.

A associação mudou os critérios para a inclusão e considera apenas os que não contam com garantias dos acionistas. “A ideia do project finance é que o fluxo de caixa seja suficiente para garantir o empréstimo, liberando o capital dos acionistas para outros projetos”, diz Heumann. A Anbima inclui, porém, os empréstimos que possuem garantia na fase de construção dos empreendimentos, durante a qual os riscos são maiores.

A dívida nos projetos financiados alcançou R$ 19,9 bilhões, uma participação de 70%, enquanto o capital próprio dos acionistas privados representou R$ 8,3 bilhões.

Além das obras para a Copa, os investimentos em transporte e logística foram destaque no ano passado e pela primeira vez lideraram os financiamentos de projetos, à frente da indústria de energia e do segmento de óleo e gás. O executivo da Anbima afirma que os números não apontam uma tendência para os próximos anos, mas diz que os três setores devem se manter entre os que mais demandarão recursos de project finance.

A construção dos navios sondas ODN I e II, da Odebrecht Óleo e Gás, foi o projeto com o maior volume de financiamento no ano passado, com R$ 1,8 bilhão. Em seguida, aparece a construção da Empresa Brasileira de Terminais Portuários (Embraport) – maior complexo portuário do Brasil, em Santos (SP) -, com R$ 1,5 bilhão.

O BNDES deve se manter como principal fonte de recursos para os projetos de infraestrutura, tanto em empréstimos diretos como via repasses por bancos, que assumem o risco da operação. Mas a expectativa é de que o mercado de capitais comece a ganhar importância na composição dos financiamentos, principalmente com a decisão do governo de reduzir para zero a alíquota de imposto de renda no investimento de pessoas físicas e estrangeiros em debêntures de projetos de infraestrutura.

Na semana passada, a concessionária Rodovias do Tietê, que administra 406 quilômetros de estradas no interior de São Paulo, recebeu a primeira autorização para uma emissão que será beneficiada pela desoneração. Mas ao contrário dos financiamentos de projetos, houve uma redução no ritmo de concessões. O investimento estimado ficou em R$ 7,6 bilhões, em 24 operações, uma queda de 41%. Neste ano, porém, o volume deve aumentar, puxado pelo leilão de aeroportos, ocorrido em fevereiro.

O Santander mais uma vez liderou o ranking de assessoria financeira de project finance em 2011, tanto em volume como em número de projetos. Os dados da Anbima mostram, porém, uma evolução das casas independentes, como Upside e Rio Bravo. Se somados os volumes das operações de curto e longo prazo, a Rio Bravo aparece na segunda posição, graças ao empréstimo-ponte de R$ 1,8 bilhão para o alcoolduto da Logum.