25/12/2008 - 12:20h Melhora o tratamento da questão das enchentes em São Paulo

Passageiros saem pela escotilha de emergência de ônibus na zona sul de São Paulo para fugir da inundação causada pelo temporal que atingiu a cidade na tarde de ontem e provocou 44 alagamentos

Falando dos problemas das enchentes na cidade de São Paulo, o editorial do Estadão de ontem (ver aqui no blog Euforia natalina) -mesmo inteiramente favorável a administração Kassab- reconhecia que “o mapa de riscos, com áreas sujeitas a enchentes ou desabamentos, em períodos de chuvas na capital, é de 2003 – portanto, é preciso atualizá-lo. 

Pelo levantamento feito pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) cerca de 5.500 famílias moram em 562 pontos de risco, em encostas e margens de córregos. Desse total, 315 pontos são considerados de muito alto e alto riscos. Nas áreas mais perigosas há cerca de 11.500 moradias, onde habitam 57.500 pessoas. Considerando-se, porém, que os locais de risco com o correr do tempo vão se tornando ainda mais arriscados, é preciso que se faça, a respeito, uma rigorosa atualização de dados.”

Além de atualizar o mapa de risco, “com as áreas sujeitas a enchentes ou desabamentos”, é importante saber o que foi feito durante estes 4 anos nessas áreas e quais os projetos em andamento para reduzir o drama deste flagelo.

O jornal Folha de São Paulo disse ter recebido, já em 2007, um mapa mais recente . Segundo a Folha, Kassab tomo conhecimento do mapa há pelo menos dois anos (Kassab e a Folha aparentemente desconhecem o mapa de 2003). Mas independentemente de saber se o mapa de 2003 é o último mapeamento existente ou se outro foi realizado, atualizando os dados do precedente, o importante é saber o que foi feito até agora, após 4 anos de administração demo-tucana e às vésperas de iniciar Kassab um novo mandato de mais 4 anos. Mesmo se nos últimos 4 anos -com muito mais recursos- foram construidos muito menos piscinões que nos 4 anos precedentes, devemos supor -perante as informações coincidentes do Estadão e da Folha- que a situação nessa área está bem melhor.

A Folha está constatando hoje, com muita ironia, um “progresso” no tratamento do problema:

“A Prefeitura de São Paulo diz ter projetos para solucionar 14 dos 30 pontos crônicos de alagamentos na cidade, entre obras realizadas, em licitação ou estudos concluídos. Para um deles não existe uma solução técnica viável. E para os outros 15 não há projetos prontos, apenas estudos.
Essa lista dos trechos mais problemáticas -aqueles que nas chuvas ficam parcial ou totalmente intransitáveis- é conhecida pela administração Gilberto Kassab (DEM) há pelo menos dois anos. A situação é pouco melhor do que no início de 2007, quando a prefeitura informou à Folha os pontos principais. Na época, não havia previsão para 16 deles.
Conforme a Folha revelou ontem, 22 desses locais voltaram a causar transtornos neste ano, como aqueles vividos pelos paulistanos na última terça-feira, quando veículos e pessoas ficaram ilhados em várias partes da cidade.
Houve melhora também no número de obras realizadas ou em andamento neste ano em relação a fevereiro de 2007. Há quase dois anos, a prefeitura informava estar só com uma obra em andamento. Agora, são seis trechos com trabalhos em andamento ou concluídos.
Entre os trabalhos realizados está, por exemplo, o trecho da marginal Tietê sob a ponte das Bandeiras. Segundo o município, “o reservatório existente foi reformado com ampliação do número de bombas. O novo sistema já está em operação e, desde então, não foram registrados novos alagamentos”.
Esse trecho, segundo o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências), ficou parcialmente interditado das 15h40 às 18h18 da terça. Outros dois pontos onde a prefeitura diz ter feito obras ou serviços -avenida Dr. Ricardo Jafet com viaduto Saioá e avenida Professor Abraão de Morais com avenida Bosque da Saúde-, também ficaram alagados na terça.
Segundo a prefeitura, neste ano foram investidos R$ 321,3 milhões em ações antienchentes -94,75% da verba orçada.”

Ou seja, após 4 anos, a administração Kassab tem projetos para tentar resolver o problema em 14 pontos, dos 30 mapeados, e para o resto nem projeto tem. Dois anos atrás, segundo a prefeitura, tinha uma obra em andamento ou concluída, agora são seis. Segundo a Folha, em três dos seis o alagamento continua.

A ironia da Folha é mordaz. O descaso e abandono é posto em evidência, sem crítica ao prefeito, nem agressividade desmedida. O leitor atento percebe a incompetência e o jornal cumpre sua função de informar, com objetividade. Em relação ao editorial do jornal rival, o artigo da Folha mostra uma melhora no tratamento da questão das enchentes na cidade de São Paulo. Uma pequena melhora… do tratamento dado pela Folha. LF

24/12/2008 - 10:10h Moradores calculam o prejuízo

Chuva levou o carro e o salário, mas não o Natal
Marcio Ximenez/AE
O Uno 89 de João Inácio (branco, acima) foi um dos três carros arrastados pela chuva para o piscinão da Água Espraiada. Além do carro, as águas levaram o salário (R$ 610)

Jornal da Tarde

Na Rua João de Léry, na zona sul, três carros foram arrastados para o Piscinão Água Espraiada

MARIA REHDER, maria.rehder@grupoestado.com.br

A cada puxada do guindaste, uma lágrima de desespero. Nem cheiro ruim nem o sol forte no rosto fizeram o mecânico Luiz Claudio Brasil, de 36 anos, perder a esperança de ver o seu Astra 95 sair inteiro do fundo do piscinão da Água Espraiada na manhã de ontem. Esse foi um dos três veículos – que não tinham seguro – arrastados para o piscinão pela enchente na tarde de anteontem . E, para o desespero dos proprietários, estavam totalmente destruídos.

Da mesma angústia compartilham o autônomo Hélio Araújo, de 41 anos, dono de uma Kombi 82, e o técnico em desentupimento Olavo Geraldo, de 34, primo de João Inácio, que sobreviveu ao escapar pelo porta-malas do Uno 89, minutos antes de o carro afundar. “Não sei o que fazer, minha Kombi está toda destruída. Trabalho com sucata, tinha reformado (o veículo) fazia dois meses”, disse, enquanto chorava ao ver a lataria do automóvel destruída.

Anteontem à tarde, os três veículos estavam estacionados na Rua João de Léry, na zona sul, que termina no córrego Água Espraiada. Por volta das 15 horas, começou a chuva de granizo. “A minha preocupação era que o granizo ia riscar o meu Astra, mas a chuva estava tão forte que não deu para tirar o carro dali. Quando me dei conta, estava sendo arrastado pela água”, disse Brasil.

As férias de fim de ano para a Praia Grande com a família foram canceladas e, segundo a mulher de Brasil, Alexandra, o prazer de ter conseguido pagar o carro após três anos de financiamento foi por água abaixo. “Esse carro era o nosso xodó, meu marido trabalhou muito para comprar o Astra. Tínhamos alugado casa na praia, mas agora vamos ficar aqui. Nem sei como vamos conseguir comprar um carro de novo.”

Apesar de ver o Uno branco totalmente destruído, Olavo comemorava o fato de seu primo ter sobrevivido. “Podia ter sido pior.”

Promessa não cumprida

Os moradores da Rua João Léry afirmaram que o problema com enchentes “não é de hoje”. “A Prefeitura promete colocar uma grade de proteção na cratera, mas não fez nada até agora. Perdemos a esperança”, disse Hélio, o dono da Kombi arrastada.

A Rua João Léry termina no córrego Água Espraiada, cuja margem não possui nenhuma proteção, o que dá a impressão de ser uma cratera, conforme descreveram os moradores. “A água arrastou os carros para o córrego, que, com a correnteza, foram para o piscinão. Se tivesse uma grade nada teria acontecido. Até criança já caiu ali”, contou o auxiliar de manutenção Claudio Dias, de 35 anos, que mora na rua há 20 anos.

Por meio da assessoria de imprensa, a Prefeitura explicou que a cratera citada pelos moradores se trata de uma erosão. Para evitar deslizamentos, hoje serão colocados terra e restos de entulho. Posteriormente, será construído um muro de proteção, embora a Subprefeitura de Santo Amaro tenha informado que não recebeu solicitação dos moradores sobre isso.

O final da Rua João Léry, às margens do córrego, segundo a Prefeitura, era uma área invadida. Recentemente, as famílias foram retiradas do local e, por essa razão, o problema da erosão ainda não foi solucionado.

Sobre os prejuízos dos proprietários dos automóveis, a orientação é que entrem com requerimento na Secretaria Municipal de Negócios Jurídicos.

24/12/2008 - 09:15h Áreas crônicas voltam a sofrer alagamento

 Dos 30 principais pontos de enchentes de SP mapeados pela prefeitura para a execução de obras, 22 alagaram neste ano

Locais identificados pela prefeitura em 2007 por terem inundações freqüentes voltam a ser interditados por causa de temporais

 

 

Guilherme Lara Campos / Folha Imagem
Proprietária examina Uno retirado de piscinão no Brooklin; 3 carros foram arrastados pela enxurrada

ROGÉRIO PAGNAN – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Dos 30 principais pontos de alagamentos da cidade de São Paulo, endereços que constam de um mapeamento feito pelo próprio município há pelo menos dois anos, 22 deles voltaram a causar transtornos à população paulistana em 2008.
Dos alagamentos ocorridos anteontem, que causaram transtornos em toda a cidade, nove deles estão nessa relação, como a praça das Bandeiras, na região central da cidade (veja quadro nesta página).
Essa relação, feita no final de 2006 e publicada pela Folha em fevereiro de 2007, foi elaborada pelo CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências), órgão da prefeitura responsável pelo monitoramento das interdições. Foram considerados no levantamento trechos com problemas “históricos”, que provocavam interdições parciais ou totais das vias.
Ontem, a pedido da Folha, os técnicos do CGE atualizaram esses dados. Apesar de uma melhora, a maioria dos locais com alagamentos freqüentes -”figurinhas carimbadas”, como são chamados pelos técnicos- continua lá.
Em novembro de 2006, cerca de quatro meses antes da publicação da reportagem, Kassab disse considerar insolúveis os problemas de enchente na cidade. “Desde a época de Anchieta, nos seus escritos, há relatos de áreas da cidade inundadas”, afirmou o prefeito à época, que depois tentou amenizar a declaração.
No início de 2007, a prefeitura enviou uma relação das obras e intervenções que estavam sendo feitas nesses locais. Dos 30 pontos, 12 não tinham nem projetos previstos.
A prefeitura informava ter apenas um local com obras em andamento, no cruzamento das avenidas Celso Garcia e Dr. Costa Valente (zona leste). Para o CGE, o local ainda continua com alagamentos. Três dos locais onde o município dizia ter “projeto executado” ficaram alagados anteontem, como na avenida Eusébio Matoso.

Prefeitura não comenta o assunto

DA REPORTAGEM LOCAL

A Folha solicitou à Secretaria de Infra-Estrutura Urbana e Obras de São Paulo uma explicação sobre as áreas crônicas de enchentes, mas ninguém atendeu a reportagem até as 22h de ontem.
Em 2007, o secretário Marcelo Cardinale Branco afirmou que trabalhava para tentar amenizar o problema em vez de ficar discutindo se os problemas têm solução ou não. Disse também que a solução era priorizar os locais onde existe risco de mortes e os mais nevrálgicos para o trânsito da capital.
A prefeitura enviou uma relação de obras que serão feitas na cidade neste ano.

24/12/2008 - 08:45h Piscinão transbordou por falha em bomba, diz subprefeitura

TALITA BEDINELLI – COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Um dia depois da chuva que causou inundações em vários pontos da cidade, a rua Francisco Dias Velho, no Brooklin (zona sul), ainda estava cheia de lama. Ela foi uma das mais afetadas pelas enchentes.
A rua fica perto da avenida Jornalista Roberto Marinho, onde um piscinão transbordou devido à falha de um sistema de drenagem, diz a Subprefeitura de Pinheiros.
O excesso de água da chuva, que deveria ter sido despejado no rio Pinheiros, tomou as ruas rapidamente, invadindo automóveis e casas na redondeza.
Com a força da água, três automóveis foram parar dentro do piscinão e só foram localizados ontem pela manhã. Também foram registrados pontos de alagamento intransitáveis, com mais de um metro de água, em áreas próximas ao piscinão.
Na rua Francisco Dias Velho, a água chegou a um metro de altura e entrou em todas as casas dos dois primeiros quarteirões. O mesmo aconteceu nas casas da rua Afrânio Junqueira, travessa da Francisco Dias Velho.
“Em cinco minutos a água subiu. Só consegui levar a televisão”, conta a professora Elisabeth Darcy Stocco, 44.
Nas ruas, sofás secavam nas calçadas, ao lado de bancos de carros. Nas esquinas, sacos de lixo, com objetos arruinados pela água, se empilhavam.
Segundo a Emae, empresa do governo do Estado responsável pela operação do sistema de drenagem do piscinão, uma falha de energia por volta das 16h causou o desligamento das quatro bombas que retiram o excesso de água. Minutos depois, duas foram religadas -as outras permaneceram inoperantes por 20 minutos.
A empresa diz que o volume de chuva foi muito grande e que a falha temporária das bombas não foi a única responsável pelas enchentes.

24/12/2008 - 08:35h Euforia natalina

 

Passageiros saem pela escotilha de emergência de ônibus na zona sul de São Paulo para fugir da inundação causada pelo temporal que atingiu a cidade na tarde de ontem e provocou 44 alagamentos

Passageiros saem pela escotilha de emergência de ônibus na zona sul de São Paulo para fugir da inundação causada pelo temporal que atingiu a cidade na tarde de ontem e provocou 44 alagamentos(Foto Folha SP)

 

 

O ESTADO DE SÃO PAULO
EDITORIAL
Prever alagamentos

Sobre o fato de em duas horas, nessa segunda-feira, ter caído um terço das chuvas do mês, na maior precipitação do ano na capital paulista, e que resultou em enormes transtornos para a cidade, é preciso registrar, já de início, a nota mais importante e mais feliz: não ter havido vítimas fatais. Apesar dos 45 pontos de alagamento – 37 deles intransitáveis -, dos congestionamentos de 174 quilômetros, de trechos de avenidas importantes como Ibirapuera, Santo Amaro, 23 de Maio, Interlagos, além das Marginais do Tietê e do Pinheiros, ficarem inteiramente intransitáveis; de pessoas ficarem ilhadas em suas casas; de crianças e idosos terem de ser resgatados pelos bombeiros; de muitas árvores (pelo menos 15) terem caído; de pessoas terem sido arrastadas por enxurradas, o esforço de salvamento e a solidariedade evitaram que em São Paulo ocorresse uma tragédia.

Mas é preciso insistir em que, dada a impermeabilização do solo da capital paulista, irreversível e irremediável – pois não é possível recuperar a porosidade do solo como nos tempos do chão de terra e do paralelepípedo -, o fundamental tem que ser a desobstrução dos canais de vazão: bueiros e córregos canalizados, os sistemas de depósito de excedente de água, do tipo “piscinões”, e o desassoreamento (e/ou rebaixamento de calhas) dos dois principais rios da capital. Em certa medida, a razoável rapidez com que as águas se escoaram, a despeito do extraordinário volume, mostrou os resultados positivos do que se tem feito em termos de saneamento básico e limpeza pública na capital.

O fundamental, agora, parece ser sem dúvida o trabalho nos principais pontos de alagamento, claramente demarcados por esta enchente, a partir dos quais se pode encetar obras públicas que contribuam para eliminá-los – ou reduzir seus efeitos – tanto quanto as mobilizações de socorro em situações de emergência.

Em precipitações pluviométricas de grande intensidade os desabamentos são o maior perigo, especialmente de moradias construídas ou instaladas em áreas de risco. Nisto São Paulo teve muita sorte desta vez. A Defesa Civil tem plano para retirar moradores de áreas de alto risco de desabamento quando chover 60 milímetros por três dias consecutivos numa mesma região da cidade. É o alerta máximo para se colocar em prática o plano emergencial de evacuação. No entanto, o mapa de riscos, com áreas sujeitas a enchentes ou desabamentos, em períodos de chuvas na capital, é de 2003 – portanto, é preciso atualizá-lo.

Pelo levantamento feito pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) cerca de 5.500 famílias moram em 562 pontos de risco, em encostas e margens de córregos. Desse total, 315 pontos são considerados de muito alto e alto riscos. Nas áreas mais perigosas há cerca de 11.500 moradias, onde habitam 57.500 pessoas. Considerando-se, porém, que os locais de risco com o correr do tempo vão se tornando ainda mais arriscados, é preciso que se faça, a respeito, uma rigorosa atualização de dados.

Segundo o coordenador de áreas de risco da Secretaria das Subprefeituras, Marcel Sanches, a Secretaria estima que metade dos 562 pontos de risco foi eliminada nos últimos quatro anos porque a administração municipal investiu R$ 28,5 milhões em intervenções, realizando – até 31 de outubro – 57 obras, das 108 previstas, beneficiando 6.200 famílias. Seria importante, no entanto, a Secretaria dar pormenores sobre a situação dos pontos de risco que continuam perigosos. Em se tratando de segurança para vidas humanas, a informação precisa é absolutamente essencial.

Disse o secretário municipal de Transportes, Alexandre de Moraes, que na própria segunda-feira foram mapeados 43 pontos de alagamento da capital paulista e que já no dia seguinte a Prefeitura realizaria ações preventivas nesses locais. Por sua vez, o prefeito Gilberto Kassab afirmou que “São Paulo pode esperar uma presença firme da Prefeitura para evitar transtornos”.

É claro que é isso que a população de São Paulo espera tanto da Prefeitura quanto do Estado, na parte que cabe a este.

24/12/2008 - 08:27h Falta espírito natalino

PAINEL DO LEITOR – FOLHA SP

Enchentes
“O prefeito Gilberto Kassab garantiu na campanha que a cidade não sofreria com as enchentes e que os piscinões eram limpos regularmente. Bastou chover dois dias e vimos até ônibus presos nas inundações, os piscinões inundados, com lixo de todo tipo boiando. Lembro da gritaria quando Marta Suplicy enfrentou sua primeira dificuldade com as enchentes. Agora parece que nada aconteceu, e o prefeito pode dormir em paz que não será incomodado pela imprensa.”
ORLANDO F. FILHO (São Paulo, SP)

13/06/2008 - 10:23h Governo tucano, metrô e empreiteiras: “Pressa, imperícia e imprudência”, diz o Estadão

Promotoria vai convocar ex-presidente do Metrô

Decisão se deve a declarações de secretário de que companhia fiscalizou menos a obra

metro_acidente.jpg

Bruno Tavares – O Estado de São Paulo

O Ministério Público Estadual (MPE) vai intimar o ex-presidente da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) Luiz Carlos Frayse David a prestar esclarecimentos sobre a fiscalização das obras da Linha 4 – Amarela. A decisão foi tomada depois das declarações feitas pelo secretário dos Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, ao Estado. Na edição de domingo, ele afirmou que a companhia havia “optado por fiscalizar menos”.

Agora, o promotor Arnaldo Hossepian Júnior quer saber de que forma o Metrô acompanhava o andamento das obras. Ele não descarta ouvir também o secretário dos Transportes Metropolitanos. Depois de receber o laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) na semana passada, Hossepian adiantou que vai responsabilizar técnicos e engenheiros pelo acidente que matou sete pessoas em janeiro de 2007, sejam eles do Metrô ou do Consórcio Via Amarela. Segundo o IPT, a decisão dos engenheiros do Via Amarela de continuar a escavação dos túneis enquanto providenciavam a colocação de tirantes tornou o colapso da futura Estação Pinheiros inevitável.

A denúncia (acusação formal à Justiça) só será oferecida depois que o Instituto de Criminalística (IC) emitir o laudo oficial sobre o acidente. O Núcleo de Engenharia do IC ainda tem 90 dias para dar seu parecer.

EDITORIAL DO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO

Pressa, imperícia e imprudência

Falhas de engenharia, de fiscalização e a inexistência de um sistema de gerenciamento de riscos, segundo laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), resultaram no acidente que deixou 7 mortos, 230 desabrigados e 55 imóveis interditados, em 12 de janeiro de 2007, durante a construção da Estação Pinheiros da Linha 4 – Amarela do Metrô de São Paulo. A investigação técnica constatou que os responsáveis pela obra desconsideraram os estudos geológicos, apesar de o terreno, vizinho ao Rio Pinheiros, ter características críticas.

A isso, somaram-se a pressa com que foi empreendida a escavação, que naquele mês de janeiro avançou 70% mais do que no mês anterior, e a demora na execução de medidas que eram necessárias, como a instalação de parafusos gigantes (tirantes), para conter o rebaixamento do túnel que se mostrava incompatível com o planejado. No dia do acidente os tirantes ainda não haviam sido colocados, mas as detonações – embora de baixa intensidade, elas deveriam ter sido evitadas, segundo o IPT – prosseguiam, fazendo vibrar as paredes que já estavam comprometidas. Uma gestão de risco pouco rigorosa e discutíveis planos de contingência e de emergência levaram o Consórcio Via Amarela a desconsiderar a possibilidade da tragédia, que acabou ocorrendo.

O secretário dos Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, confirmou que havia tempo para evitar o acidente, pois os problemas com o túnel começaram a ser notados um mês antes. Mais do que apontar as falhas de engenharia e gestão cometidas pelo consórcio, o secretário admitiu a responsabilidade da Companhia do Metropolitano (Metrô) que, segundo ele, fez fiscalização a distância.

No ano passado, um mês após o acidente na futura Estação Pinheiros, reportagem do Jornal Nacional divulgava inspeção realizada na estrutura metálica de sustentação da Estação Fradique Coutinho, em construção na mesma Linha 4. Foram encontradas pelo menos 15 irregularidades na obra, como problemas graves na aplicação de soldas, além do uso de materiais em discordância com as normas técnicas. O secretário José Luís Portella não se conteve: “Passou dos limites. Quero que o Metrô me explique de que forma está fazendo a fiscalização.”

Ao que tudo indica, o secretário tinha motivos para se irritar com a fiscalização feita pela Companhia do Metrô. Tanto que na Estação Pinheiros, a investigação do IPT apontou a existência de paredes de concreto com dimensão menor do que a prevista, além de quantidade de fibras de aço inferior ao recomendável e até a ausência delas. O túnel deveria ser escavado depois do processo de drenagem, e não foi. A escavação seguiu em direção contrária à recomendada em projeto e o nível da escavação não era o mesmo declarado pelos engenheiros do consórcio. O Metrô ficou alheio a tudo isso.

Para o secretário, houve imperícia – comprovada pela não colocação dos tirantes – somada à imprudência. “É o caso das explosões. Se fez mais do que era preciso.” Muita pressa por parte do consórcio e muita lentidão no trabalho de fiscalização resultaram no acidente.

O promotor Arnaldo Hossepian, do Ministério Público Estadual, deve denunciar por homicídio culposo os responsáveis pelo poço da futura Estação Pinheiros. O Metrô, o governo estadual e o Consórcio Via Amarela deverão ser denunciados na esfera cível.

A Linha 4 – Amarela é um dos maiores projetos de transporte público em desenvolvimento no País. Nela se está investindo mais de R$ 3,1 bilhões. O empreendimento é uma Parceria Público-Privada, na qual o concessionário investirá US$ 340 milhões para a compra de trens e sistemas operacionais, ficando responsável pela operação e manutenção da linha.

O contrato assinado pelo Metrô e pelo Consórcio Via Amarela – formado pelas empresas Andrade Gutierrez, Odebrecht, OAS, Alstom, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa – determina que haja dupla fiscalização, do Metrô e do consórcio. Portanto, é difícil compreender como puderam ser tão negligentes as empresas responsáveis por um sistema que deverá transportar 900 mil passageiros por dia.

11/06/2008 - 16:56h Notas de Brickman

Carlos Brickman para o Observatório da Imprensa

mordaca2.jpgA Censura, mais uma vez

O jornal Agosto, de Ribeirão Bonito, SP, teve uma edição censurada por ordem judicial. Motivo: o jornal, pertencente à Associação Amarribo (Amigos Associados de Ribeirão Bonito), publicou entrevista com um dos candidatos a prefeito da cidade, escolhido por sorteio. O promotor da cidade considerou a reportagem um tipo de propaganda eleitoral antecipada, interpretação aceita pela Justiça. Não apenas a edição foi recolhida, como teve de ser retirada da Internet.

Acontece que, na mesma edição em que foi publicada a entrevista, Agosto anunciava que todos os candidatos à Prefeitura seriam entrevistados, recebendo o mesmo espaço, um por edição, sempre definidos por sorteio. Ou seja, não havia propaganda eleitoral: apenas informação, e informação do interesse da cidade.

As leis eleitorais existem e têm de ser cumpridas. Mas não podem se sobrepor à Constituição, que veda explicitamente a censura à imprensa.

trem_456.gifA imprensa boazinha 1

Um ministro quase foi crucificado pela imprensa porque comeu uma tapioca e pagou com o cartão corporativo. Outra ministra foi crucificada porque comprou um pouco menos de R$ 500,00 em produtos importados, num duty-free, e pagou com cartão corporativo. Os dois ministros mereceram as críticas: não tinham o direito de considerar o cartão corporativo governamental, criado para cobrir despesas efetuadas a serviço, como uma espécie de salário complementar.

No entanto, coisas muito mais graves estão merecendo tratamento bem mais ameno de nós, jornalistas. Investigações conduzidas pela Suíça e pela França apontam uma multinacional, a Alstom, como pagadora de uma propina de US$ 7 milhões, que lhe valeu boas vantagens nas encomendas do Metrô de São Paulo. Na época da distribuição da propina, os governadores foram Mário Covas e Geraldo Alckmin, ambos do PSDB. Alckmin, até o momento em que esta coluna foi redigida, havia escapado tranquilamente de dar entrevistas, e continuava se dedicando à luta para ser candidato à Prefeitura de São Paulo.

A atriz Kate Lyra celebrizou um bordão, há alguns anos, para definir a generosidade com que os homens, encantados com seu visual, costumavam tratá-la: “Brasileiro é tão bonzinho!” Nossa imprensa também é boazinha. Agora, o IPT, Instituto de Pesquisas Tecnológicas órgão de reputação impecável ligado ao Governo de São Paulo, informa que a famosa cratera do Metrô paulistano, que matou sete pessoas, surgiu por uma combinação de fatores, entre os quais a indevida economia de materiais, por parte das construtoras, e a falta de fiscalização do Metrô. Com exceção de alguns dias, após a posse do governador José Serra, o Metrô paulista foi comandado durante toda a construção da linha que caiu pelo governador Geraldo Alckmin.

Será que agora a imprensa buscará explicações com Alckmin, em vez de contentar-se com notícias sobre suas pretensões à Prefeitura paulistana?

tv_digital.jpgA imprensa boazinha 2

Quando o Brasil adotou o sistema japonês de TV Digital, foi-nos dito que o Japão montaria no Brasil uma grande fábrica de semicondutores, transferiria tecnologia de última geração, aproveitaria o trabalho brasileiro em seu sistema. E haveria caixas de adaptação a preço bem baixo, por volta de R$ 150.

Não houve qualquer transferência de tecnologia, até agora; a fábrica de semicondutores já foi desmentida pela indústria que a instalaria, a Toshiba; o sistema japonês continua centrado exclusivamente no Japão, sem aproveitamento de qualquer experiência brasileira; e a caixa de adaptação é caríssima.

Tudo bem, o ministro Hélio Costa foi nosso colega, é simpático, bem-falante, mas tem de explicar direitinho por que o sistema japonês até agora não funcionou no Brasil. Aliás, o presidente Lula, cuja decisão em favor do sistema japonês foi firme e rápida, também poderia nos dizer quando é que haverá TV digital no Brasil e quando é que o Japão vai entregar as compensações por ter levado tudo.

08/06/2008 - 13:45h Tragédia do metrô deixou 7 mortos: Alckmin se recusa a dar explicações

IPT aponta baixa qualidade na obra do metrô

Laudo sobre a cratera indica falhas de projeto, de execução, de monitoramento de riscos e falta de plano de emergência

Análise indica que a tragédia seria evitável caso tivessem sido feitos ajustes na obra quando surgiram os indícios de problemas

DA REPORTAGEM LOCAL – FOLHA DE SÃO PAULO

Na seqüência de erros em diversos estágios da obra apontados entre as causas da abertura da cratera na linha 4-amarela do metrô de São Paulo, técnicos do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) responsáveis pela investigação do acidente -que deixou sete mortos no dia 12 de janeiro do ano passado- incluíram a baixa qualidade do túnel na estação Pinheiros.
O relatório sobre a tragédia, entregue anteontem pelo instituto, cita uma série de desconformidades da construção, ignoradas pela fiscalização do Metrô e pelos registros oficiais das empreiteiras, e que ajudaram a comprometer a qualidade de execução do túnel.
Entre elas, a falta de ensaios no concreto (teste que ajuda a assegurar a resistência do material), a ausência ou quantidade inferior à necessidade de fibras de aço e a presença de placas de concreto de apoio às cambotas (arcos) de sustentação do túnel com dimensão menor do que o previsto.
Embora essa interpretação não conste do resumo do laudo do IPT divulgado por meio de um vídeo, essas constatações retomam questionamentos feitos logo após a tragédia sobre a economia de material ou serviços feita pelas construtoras.
O contrato firmado pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB) para construir a linha 4 seguiu um modelo inédito para obras do metrô, conhecido como “turn key” -chave na mão, numa tradução livre, por fixar um preço fechado e dar maior autonomia às empreiteiras.
O relatório do IPT, conforme adiantou a Folha ontem, listou 11 fatores contribuintes para a cratera, que vão da elaboração do projeto ao descumprimento dele pelas construtoras.
Embora as principais falhas sejam atribuídas ao Consórcio Via Amarela, formado por Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, a investigação responsabiliza ainda a fiscalização deficiente do Metrô, além de citar que a obra não tinha plano de emergência adequado.
O laudo do IPT conclui em sentido contrário ao do britânico Nick Barton, pago e divulgado pelo consórcio e que atribuía a cratera a uma “fatalidade” (uma “anomalia geológica”). O bloco de rocha com mais de 15 mil toneladas citado por Barton como determinante para a tragédia -e que seria desconhecido do mapeamento geológico- não é nem citado pelo resumo do instituto.
O geólogo Alvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor do IPT, avalia que as falhas ocorreram por deficiência de gestão, pressa e redução de custos. “Entraram outras prioridades que atropelaram os cuidados com a boa técnica e a segurança.”
Manoel Xavier Lemos Filho, diretor do sindicato dos metroviários, afirmou que alguns dos 11 fatores apontados pelo IPT inclusive já tinham sido denunciados pela entidade.
“Fizemos denúncia ao Ministério Público em maio de 2006 sobre as negligências da obra. Já sabíamos do uso de material inadequado”, disse.
O Metrô e a assessoria do ex-governador Geraldo Alckmin não comentaram ontem os resultados do laudo do IPT.
(ALENCAR IZIDORO, RICARDO SANGIOVANNI, CINTHIA RODRIGUES e TALITA BEDINELLI)

08/06/2008 - 11:43h Tragédia do metrô deixou 7 mortos: Secretário de Serra disse que Metrô de Alckmin optou por fiscalizar menos

O título acima não é o do jornal, vocês já perceberam, porém é com esse tipo de manchetes que a mídia procurava e procura desconstruir os seus desafetos. Quando o túnel alagava era o túnel da Marta, quando a obra do metrô desabou, era acidente. Quando a ponte estaiada era iniciada era ponte da Marta dispendiosa e suspeita, quando é inaugurada por Serra e Kassab a ponte Octávio Frias de Oliveira é o novo cartão postal que vai permitir ganhar 45 minutos nos congestionamentos (e silêncio sobre o fato que o preço acabou sendo o dobro).

Mas quero deixar claro que o título que escolhi não visa só a destacar este tipo de tratamento partidário da mídia. Procuro destacar que o arroubo de sinceridade do Secretário de Transportes metropolitano do governador Serra faz parte, na minha opinião, da guerra declarada dos serristas contra Alckmin. Não que o laudo do IPT e as ponderações de Portella sejam infundadas ou manipuladas, mas basta observar a reação dos mesmos serristas quando os contratos assinados por eles, sem licitação, com Alstom são julgados irregulares e com sobre preço, a reação é de rejeitar a evidencia. A Folha de São Paulo teve mesmo que chamar a atenção do governador Serra por julgar inaceitável sua hipocrisia no caso da corrupção e propina da Alstom com o PSDB.

Essa “guerra das rosas” tucanas está permitindo que algumas coisas, antes guardas no segredo e preservadas pela atitude obsequiosa da mídia, venham a luz. Isso é bom para a democracia e suas instituições. LF

Metrô optou por fiscalizar menos, diz secretário

Eduardo Reina e Bruno Tavares – O Estado de São Paulo

http://www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/album/images/20070112-cratera1.jpg

O secretário dos Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, admitiu ontem, em entrevista ao Estado, que a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) optou por fazer uma “fiscalização mais distante” da construção da Linha 4 -Amarela, antes do acidente que deixou 7 mortos e 230 desabrigados em 12 de janeiro de 2007. Portella disse que assistiu três vezes ao vídeo que acompanha o laudo entregue anteontem pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) aos responsáveis pela investigação da tragédia. O documento, segundo ele, responsabiliza o Metrô por falha na fiscalização.Nos 29 volumes do relatório, o IPT aponta 11 fatores que contribuíram para a tragédia. São desde erros e desconformidades na execução da obra até a inexistência de um plano de gerenciamento de contingências e riscos – o que o Consórcio Via Amarela sempre negou. “Os problemas na Estação Pinheiros começaram no dia 15 de dezembro”, afirmou Portella.

Além das falhas de engenharia, o IPT detectou sinais claros de que o Consórcio Via Amarela tinha pressa em concluir a obra. Durante a investigação, os peritos encontraram placas de concreto com dimensão menor do que o previsto no projeto, concreto sem fibras de aço ou com quantidade inferior ao recomendado e falta de ensaios no cimento. “O ritmo da obra estava tão acelerado naquele mês que o consórcio não podia esperar a chegada dos materiais mais adequados”, afirmou o promotor Arnaldo Hossepian Júnior, um dos responsáveis pela investigação criminal do caso. Em janeiro de 2007, segundo o IPT, as escavações avançaram 70% a mais do que o registrado no mês anterior.

O modelo do contrato firmado entre o Metrô e o consórcio composto pelas empresas Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Alstom é do tipo “preço fechado” (turn key, na expressão em inglês) – mais eficaz no controle dos gastos e menos aberto a interferências por parte do contratante.

O IPT termina fazendo seis recomendações aos responsáveis pelas obras da Linha 4, incluindo justificar as alterações no projeto, realizar mapeamento das escavações e implementar um sistema de gestão de risco eficiente, que contemple não apenas os trabalhadores nas frentes de obra, mas a vizinhança do canteiro. Procurado, o Via Amarela informou que só vai se pronunciar sobre o laudo a partir de segunda-feira.

A fiscalização não marcou em cima, diz Portella

Secretário afirma que problemas já foram detectados antes do Natal: ‘a obra parou e voltou errado depois’

Eduardo Reina


Em entrevista ontem, ao Estado, o secretário dos Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, confirmou que havia tempo para se prevenir a maior tragédia da história do Metrô. “Os problemas na Estação Pinheiros começaram no dia 15 de dezembro. Houve um mês de problemas com vários erros.” Ele considera ainda que a companhia “tem culpa no processo de fiscalização”.

Houve decisões equivocadas?

Numa obra de engenharia, há decisões tomadas a todos os momentos. O IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) mostrou 11 motivos para o colapso. Vi o filme (elaborado pelo instituto) três vezes. O primeiro motivo é que não seguiram exatamente o projeto geológico. Esse projeto é exatamente o que o IPT e o Metrô haviam mostrado inicialmente.

Então não há relação com uma rocha de 15 mil toneladas e uma surpresa geológica na obra, como foi defendido em um laudo independente divulgado pelo Via Amarela em março?

O problema foi não respeitar o projeto geológico. O IPT reafirma que é o mesmo processo geológico que ele já havia detectado. O relatório sobre o acidente na construção do Aeroporto Heathrow também revela uma surpresa geológica, como esse. Esse relatório do consórcio (feito pelo engenheiro norueguês Nick Barton) não tem pé nem cabeça.

O Metrô tem culpa?

Pelo relatório do IPT, a companhia tem culpa no processo de fiscalização. Usando uma metáfora de futebol, a fiscalização não marcou em cima, marcou à distância. Pegava cada etapa que o consórcio fazia. Tem de pegar o evento todo. O consórcio entregava uma etapa toda e justificava aquilo. Nada impedia que o Metrô acompanhasse o evento.

Mas houve negligência?

Não diria que houve negligência. Na hora de escolher o que vai fiscalizar, o Metrô optou por fazer a fiscalização mais distante. Ali está o erro. Um erro sistemático. Houve a opção de fiscalizar menos. O Metrô deveria fiscalizar de perto.

Então, o que ocorreu?

Na engenharia, há cinco erros, geralmente combinados: sabotagem e fatalidade não são o caso nesse acidente. Há os erros mais comuns: negligência, imperícia e imprudência. Aqui não houve negligência. A combinação do que deveria se fazer foi fraca. Neste fim de semana tem mais de 50 pessoas no Metrô lendo o relatório. O segundo erro, imperícia, ocorre quando se faz a coisa certa de modo errado. É o caso dos tirantes. Furou-se o maciço e não se pôs nada dentro. Há imprudência quando se faz mais do que o preciso. É o caso das explosões. Se fez mais do que era preciso.

O sr. tem idéia de quando os problemas começaram?

A obra parou no Natal e voltou errado depois. Não podia fazer explosões. Precisa ver se (essa ordem) veio da área técnica ou da direção do Metrô (a ordem para fiscalizar à distância). Vamos ver quais as partes do relatório que têm a ver com o Metrô e chamar os responsáveis. Vamos abrir uma sindicância. Está em jogo a contratação da forma de fiscalização. Também se pegou o Metrô no plano de emergência. Se fosse checado o plano, seria mostrado que ele não tinha funcionalidade.

O Metrô foi conivente com esse plano ou só viu por alto?

Tem também o problema da água. O túnel deveria ser drenado. E não foi. Havia água no túnel.

A obra foi acelerada?

Pode-se acelerar qualquer obra. Isso não significa que ela vai cair. Mas a aceleração deve ser feita de acordo com o projeto.

29/04/2008 - 09:33h Metrô ignorou conselhos técnicos

Relatórios sugeriam escavações mais profundas, o que reduziria a possibilidade de desabamentos no local

metro_acidente.jpg

Eduardo Reina e Bruno Tavares – O Estado de São Paulo

A Companhia do Metrô desconsiderou recomendações técnicas que dariam mais segurança às escavações da Estação Pinheiros da Linha 4-Amarela. Por causa de problemas no solo na região, dois relatórios obtidos pelo Estado indicavam necessidade de obras mais profundas que as realizadas. Isso, porém, atrasaria a inauguração em seis meses e demandaria novos gastos, não só durante a obra como também após a abertura da estação, incluindo mais lances de escadas rolantes e maior uso de energia elétrica. A estação foi escavada a 30 metros de profundidade, quando o ideal, conforme especialistas, seria de 35 a 45 metros. Isso reduziria a possibilidade de desabamentos no local, como o ocorrido em 12 de janeiro de 2007, que deixou sete mortos.



O Metrô alega que a elaboração do projeto que poderia rebaixar a cota é de responsabilidade do Consórcio Via Amarela – formado pela OAS, Odebrecht, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e Alstom (leia texto ao lado). Segundo a companhia, a determinação final sobre a construção caberia aos empreiteiros.

“O projeto teve várias etapas e mudaram as cotas (a profundidade). Na última mudança, ela subiu, deixando a linha e a estação mais rasas”, explicou o engenheiro Roberto Kochen. Diretor do Departamento de Engenharia Civil do Instituto de Engenharia, ele participou entre 1993 e 2002 da elaboração dos projetos da Linha 4. Segundo ele, a tendência hoje no mundo é trabalhar com escavações mais profundas, que afetam menos a superfície – incluindo edificações e galerias de água e esgoto – e evitam problemas com surpresas geológicas. “A execução fica mais segura. Mas também amplia os gastos”, explica.

Em 2001, após reelaboração do projeto básico e da análise das seções geológicas do trajeto da Linha 4, feita pelas empresas Figueiredo Ferraz, Maubertec e Noronha, foram alterados não só o traçado como também o chamado greide – projeto em perfil longitudinal – da Estação Pinheiros. A modificação tomou como base a revisão dos estudos geológicos e geotécnicos feita pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), contratado pelo Metrô em 1997. Engenheiros explicam que calcular o greide significa definir qual deve ser a profundidade da obra.

Num relatório feito pela Themag Engenharia em 21 de maio de 2005, sobre as condições geológicas do lote 2 e implicações para a escavação, Luiz Ferreira Vaz, responsável técnico, e Tarcísio Barreto Celestino, engenheiro responsável, ressaltaram que a avaliação do comportamento do maciço de rocha sob a Linha 4 e bibliografia especializada apontavam que as condições geológicas do lote 2 poderiam resultar em “colapsos da frente de escavação”.

Um parágrafo adiante, recomendavam que a escavação fosse mais profunda e indicavam “avaliação de métodos alternativos de escavação, mais adaptados às novas condições geológicas do lote 2, reveladas pelos estudos adicionais”.

“No caso da Linha 4-Amarela, uma profundidade ideal do ponto de vista da construção dos túneis e das estações poderia ter sido cerca de 35 a 45 metros abaixo da superfície”, explicou Nick Barton, autor de outro estudo. “Isso não removeria a possibilidade de encontrar argilas, mas teria reduzido bastante a freqüência de tal ocorrência. Em tal profundidade, a construção dos túneis e das estações seria a partir de cotas subterrâneas e as escadas rolantes teriam de ser maiores.’

03/11/2007 - 12:22h Governo Serra estuda vender toda a participação na Cesp

Proposta anterior era vender só ações excedentes

DA REPORTAGEM LOCAL – FOLHA DE SÃO PAULO

Com o aval do governador José Serra (PSDB), a Secretaria de Fazenda elabora um modelo de privatização para se desfazer integralmente da participação do Estado na Cesp (Companhia Energética de São Paulo), avaliada em cerca de R$ 5 bilhões. Para conduzir o processo, a secretaria contratou o Citibank.
Pela proposta anteriormente em discussão, o governo venderia apenas as ações que excedessem o controle do Estado, como fez o governo federal com o Banco do Brasil e a Petrobras.
Mas, convencido por integrantes da equipe econômica – a começar pelo próprio secretário de Fazenda, Mauro Ricardo Costa -, Serra autorizou o desenho de um modelo de venda de todas as suas ações. O argumento é que não há necessidade o Estado ter uma empresa de geração de energia.
Em meio à ameaça de apagão, este é considerado pelo governo um bom momento para a venda. Mas só quando for concluído o projeto – provavelmente no início do ano que vem- Serra tomará a decisão política sobre a venda.
Como a operação já está autorizada pela Assembléia Legislativa, a idéia é deixar tudo pronto para vender as ações na melhor oportunidade. Segundo tucanos com trânsito no Palácio dos Bandeirantes, a intenção é que a Cesp seja vendida no primeiro semestre de 2008.
Os recursos seriam destinados a obras de infra-estrutura, possivelmente nos trechos Norte e Leste do Rodoanel.
O governo paulista tem 93,68% das ações com direito a voto da Cesp, totalizando 33,37% do capital total da companhia. Outros 35,9% já estão pulverizados no mercado.
Segundo a corretora Brascan, a Cesp tem um valor de mercado superior a R$ 11 bilhões, sendo que a parte do governo está avaliada entre R$ 4,8 bilhões e R$ 5 bilhões. Para a corretora, a privatização da Cesp não depende de qualquer alteração no arcabouço legal, diferentemente do que acontece com a Sabesp, em que há discussão jurídica sobre o poder concedente dos serviços de água e esgoto.
Em outubro, a Cesp teve seu rating (nota) elevado pela agência de classificação de riscos Standard & Poor”s por conta da melhora na estrutura de sua dívida, embora a classificação -que passou de “B-” para “B”- ainda seja de grau especulativo.
O governo de São Paulo implementou nos últimos anos uma completa reestruturação da dívida da Cesp, iniciada com o aumento de capital de R$ 3,2 bilhões com a emissão de novas ações, além de R$ 1,193 bilhão provenientes da privatização da Cteep (Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista), em junho do ano passado. Outros R$ 1,2 bilhão foram obtidos com a emissão de bônus e R$ 1,9 bilhão com fundos de recebíveis.
Com a privatização da Cesp, o governo paulista retoma seu antigo programa de desestatização, cujo primeiro passo foi dado em setembro, quando a Secretaria de Fazenda abriu uma licitação para contratar empresas para avaliar o valor e propor um modelo de negócio para 18 empresas estatais.
Entre as estatais objeto de avaliação estão o Metrô, a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), a Dersa, a Imprensa Oficial e a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental).
No final dos anos 1990, o governo paulista vendeu as distribuidoras de energia Eletropaulo, CPFL, Bandeirantes e Elektro, que passaram integralmente ao controle privado. A modelagem de privatização foi desenhada pelo BNDES com o objetivo de levantar recursos para abater a dívida pública.
Depois, foram vendidas as geradoras Parananema e Tietê, antigos braços da Cesp. A última privatização foi a da Cteep, que aconteceu em junho do ano passado. Os recursos obtidos foram utilizados para ajudar no processo de saneamento da própria Cesp.
(CATIA SEABRA E TONI SCIARRETTA)

03/10/2007 - 10:00h Governo Serra: privatização já esta no edital de estudos e no orçamento


Governo paulista pré-seleciona três bancos

Vanessa Adachi – jornal Valor

O governo do Estado de São Paulo pré-qualificou três bancos para fazer a avaliação de 18 estatais que, potencialmente, poderão ser privatizadas. De sete instituições que apresentaram suas propostas para participar da concorrência, continuam no páreo apenas Citi, Merrill Lynch e o consórcio formado por JP Morgan e Banco Fator.

Na próxima segunda-feira, o governo abrirá as propostas de preço dos três grupos. Na primeira etapa de qualificação foram eliminados UBS, Banco Espírito Santo, Morgan Stanley e Itaú. Aparentemente, a desclassificação decorreu de problemas formais na apresentação das propostas. UBS e Morgan Stanley detinham um mandato antigo, ainda da época do governo de Mário Covas, para vender a Cesp, mas esse mandato perdeu a validade. No mercado financeiro, comenta-se que o Citi tende a ser mais agressivo, cobrando comissão mais baixa. O mesmo era esperado do UBS, que foi desclassificado.

A idéia do governo é avaliar 18 empresas, entre elas, Nossa Caixa, Sabesp, Metrô, Cesp, Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e Dersa. Um banco contratado também deverá estudar as modelagens de venda das empresas. Pode haver privatização, venda de participação minoritária, cisão e as operações podem ser em bolsa ou não.

Por enquanto, o governador José Serra e o secretário de Finanças, Mauro Ricardo, têm sido cautelosos ao comentar o tema, limitando-se a dizer que o objetivo é reavaliar os ativos estaduais e que nenhuma decisão foi tomada ainda. Mas o edital de contratação dos bancos prevê a venda de até seis empresas por ano. Além disso, o orçamento de 2008 já prevê receita com a venda de ações da Cesp.

28/09/2007 - 11:12h Privatizar: Serra estuda vender participações em estatais

Rogério Lorenzoni/Terra

Estado faz licitação para avaliar valor de mercado e o modelo de negócios de 18 empresas, entre as quais o Metrô e a Dersa

Modelo mais provável é o de venda parcial, em que o governo fica com o controle da empresa, mas vende as ações excedentes

DA REPORTAGEM LOCAL

Folha de São Paulo (para assinantes)

O governo do Estado de São Paulo decidiu avaliar o valor de mercado e o modelo de negócios de 18 estatais com o objetivo de vender participações ou capitalizá-las a partir de operações no mercado financeiro, como a abertura de capital.

Entre as empresas que serão alvo da avaliação, estão o Metrô, a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), a Dersa, a Imprensa Oficial, o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e a Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental).

Hoje, no entanto, só a geradora de energia Cesp e a Nossa Caixa são consideradas mais atraentes no mercado. A Cesp deverá ter ações vendidas em leilão no ano que vem, segundo a Folha apurou. O governo paulista já conta no Orçamento de 2008 com uma receita de R$ 800 milhões com a venda das ações da Cesp.

Apesar da autorização legal para a venda, o governador de São Paulo, José Serra, não está convencido que este seja um momento oportuno para a venda das ações da Nossa Caixa. Ele teme, por exemplo, pressão do mercado para desvalorização das ações do banco.

Além disso, o banco espera o retorno do investimento superior a R$ 2 bilhões com a “compra” da exclusividade sobre as contas dos servidores públicos do Estado.

Integrantes do governo insistiram que, num primeiro momento, essa é apenas uma avaliação do patrimônio do Estado. “É só um levantamento”, afirmou Serra.

Embora a idéia de alienação de bens não seja rechaçada, negaram que exista um pacote de privatização.

Com forte ônus político, o modelo mais provável de venda a ser adotado no Estado é o parcial, aquele em que o governo fica com o controle da empresa, mas vende as ações excedentes, como aconteceu com a Petrobras e o Banco do Brasil.

Para fazer a avaliação, o governo abriu uma licitação, que terá seu resultado divulgado nos próximos dias, da qual participam os principais bancos de investimento que atuam na área de estruturação e recuperação de empresas, como o UBS Pactual, o JP Morgan e o Fator.

O edital de licitação prevê a realização de dois serviços: avaliação e estruturação de operações, sejam de abertura de capital na Bolsa, aumento de capital, venda de ações, terceirização, cisão, entre outros. Segundo integrantes do governo, nada está descartado.

Pela proposta, duas empresas serão contratadas. As duas farão avaliação dos ativos, dando dois diferentes pareceres para comparação. Uma das contratadas fará avaliação e modelagem de venda. Vence a licitação o banco que fizer a menor proposta de comissão.

Sabesp
Uma das empresas com modelagem de negócio mais complexo é a Sabesp, estatal de águas e esgoto, que poderá ser dividida. No Brasil, a privatização das empresas de saneamento não vingou por conta de um entendimento jurídico falho sobre a concessão de serviços de interesse da saúde pública, que desde a Constituição de 1998 ficou a cargo dos municípios. Acontece que a maioria das concessionárias é estadual, daí a dificuldade em fazer um modelo de venda que atenda interesse dos Estados e dos municípios.
A decisão política sobre o futuro de cada empresa ficará a cargo do PED (Programa Estadual de Desestatização), responsável pelas privatizações da Eletropaulo, CPFL e Elektro, no final dos anos 90.
Por enquanto, a única decisão tomada é a venda das ações da Cesp excedentes ao controle do Estado.
Ainda de acordo com integrantes do governo do Estado, o secretário da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, é favorável à participação da iniciativa privada nas estatais paulistas. Em reuniões, defende a medida como instrumento de transparência e de eficiência na administração pública.
(TONI SCIARRETTA E CATIA SEABRA)