23/09/2008 - 08:28h Dinheiro por lixo

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Se o plano do governo Bush for aprovado como está, teremos muito a lamentar

PAUL KRUGMAN - FOLHA SP

DO “NEW YORK TIMES”

ALGUNS CÉTICOS estão classificando o plano de US$ 700 bilhões que o secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, propôs para resgatar o sistema financeiros americano de “dinheiro por lixo”. Outros chamam o pacote de “Lei de Autorização do Uso de Força Financeira”, parodiando a “Lei de Autorização de Uso da Força Militar”, o infame projeto que deu luz verde ao governo Bush para a invasão do Iraque. As duas ironias são justas.

Todos concordam em que é preciso fazer alguma coisa grande. Mas Paulson está exigindo para ele mesmo e para seu sucessor poderes extraordinários quanto a usar o dinheiro dos contribuintes em apoio a um plano que, no meu entender, não faz sentido. Há quem diga que deveríamos simplesmente confiar em Paulson, porque ele é um cara inteligente que sabe o que está fazendo. Mas isso é apenas parcialmente verdade: ele é mesmo um cara inteligente, mas o que, exatamente, na experiência dos últimos 18 meses -período em que Paulson repetidamente declarou que a crise financeira estava “sob controle” e ofereceu uma série de soluções frustradas- justifica a crença de que ele sabe o que está fazendo?

Paulson está agindo de improviso, como todos nós. Assim, vamos tentar refletir sobre o assunto por nossa conta.

Tenho uma visão em quatro passos sobre a crise financeira.

1. O estouro da bolha da habitação levou a uma alta nas inadimplências e na execução de hipotecas, o que por sua vez resultou em queda nos preços dos títulos lastreados por hipotecas -ativos cujo valor deriva em última análise dos pagamentos de hipotecas.

2. Esses prejuízos financeiros deixaram muitas instituições financeiras com falta de capital -uma escassez de ativos em comparação com suas dívidas. O problema é especialmente severo porque todo mundo assumiu dívidas pesadas durante os anos da bolha.

3. Porque as instituições financeiras apresentam capital insuficiente com relação à sua dívida, elas não vêm podendo ou querendo oferecer o crédito de que a economia necessita.

4. As instituições financeiras vêm tentando pagar suas dívidas por meio da venda de ativos, incluindo aqueles títulos lastreados por hipotecas, mas isso vem forçando uma queda nos preços dos ativos e agrava ainda mais sua posição financeira. O círculo vicioso que temos é conhecido como “paradoxo da desalavancagem”.

O plano de Paulson dispõe que o governo adquira até US$ 700 bilhões em ativos problemáticos, principalmente títulos lastreados por hipotecas.

Como isso resolveria a crise? Bem, a medida poderia -vejam bem, poderia- deter o círculo vicioso da desalavancagem, o passo quatro de minha descrição sumária. Mas nem isso fica claro: os preços de muitos ativos, não só aqueles que o Tesouro propõe adquirir, estão sob pressão. E mesmo que o círculo vicioso seja limitado, o sistema financeiro ainda continuará paralisado por capital insuficiente. Ou melhor, ficará paralisado por capitalização insuficiente a não ser que o governo federal pague um ágio absurdo pelos ativos que adquirir -o que daria às companhias financeiras, seus acionistas e dirigentes- um imenso lucro extraordinário à custa do contribuinte.

Eu cheguei a dizer que o plano não me satisfaz? A lógica da crise parece requerer intervenção não no passo 4, mas no passo 2: o sistema financeiro necessita de mais capital. E, se o governo vai fornecer capital a companhias financeiras, deveria receber aquilo a que as pessoas que fornecem capital têm direito: uma participação acionária, de modo que todos os ganhos, caso o plano de resgate funcione, não beneficiem aqueles que causaram a confusão, para começar. Foi isso que aconteceu na crise das instituições de poupança e empréstimo, no final dos anos 1990: as autoridades federais tomaram o controle dos bancos problemáticos, não apenas de seus ativos. Também foi isso o que aconteceu com a Fannie Mae e a Freddie Mac. (E, aliás, aquele resgate cumpriu a missão pretendida. As taxas de juros hipotecários caíram acentuadamente desde que o governo federal tomou o controle das instituições.)

Mas Paulson insiste em que deseja um plano “limpo”. “Limpo”, no contexto, quer dizer um resgate financiado pelo contribuinte, mas sem precondições -os resgatados não precisarão retribuir. Por que isso seria vantagem? Acrescentemos a isso que Paulson também exige autoridade ditatorial e imunidade contra revisões “por qualquer tribunal judicial ou agência administrativa”, e eis uma proposta inaceitável.

Estou ciente de que o Congresso está sob imensa pressão para aprovar o plano de Paulson nos próximos dias, com no máximo algumas poucas modificações que o tornem menos ruim. Basicamente, depois de passar um ano e meio dizendo a todo mundo que as coisas estavam sob controle, o governo Bush agora afirma que o céu está caindo e que, para salvar o mundo, temos de fazer exatamente o que eles estão dizendo, e já! Mas eu aconselharia o Congresso a parar um minuto, respirar fundo e tentar redefinir seriamente a estrutura do plano, para que ele trate dos problemas reais. O Legislativo não deveria se curvar à pressão -caso o plano seja aprovado em forma semelhante à atual, teremos todos muito a lamentar, em um futuro não muito distante.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

22/09/2008 - 17:28h Professor e banqueiro jogam por terra dogmas do mercado

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Ben S. Bernanke, do Fed, e Henry M. Paulson, do Tesouro, são autores da maior intervenção governamental da história dos EUA, que envolve US$ 700 bilhões

PETER BAKER - FOLHA SP

DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON

http://resistir.info/financas/imagens/paulson_bernanke.jpgNos últimos 12 meses, enquanto a economia dos EUA vem tropeçando de crise em crise, o presidente do Federal Reserve, Ben S. Bernanke, vinha avisando o secretário do Tesouro, Henry M. Paulson, Jr, que o agravamento da situação poderia acabar por obrigar a uma intervenção federal abrangente.

Estudioso de longa data da Grande Depressão, Bernanke tinha consciência aguda do que poderia acontecer se não fossem tomadas medidas decisivas. O momento em que essa ação se tornou inevitável chegou na noite de quarta-feira. Menos de 24 horas depois de o Fed ter socorrido a gigantesca seguradora American International Group, ficou claro que a turbulência que agitava Wall Street só estava se agravando e que as soluções pontuais não estavam funcionando.

Falando ao telefone de sua sala de trabalho, Bernanke disse a Paulson que era chegada a hora de se adotar uma estratégia abrangente que o Congresso teria que aprovar. Paulson entendeu. Relutante, nos últimos dias, em submeter ao Congresso um plano que os legisladores tinham avisado que teria poucas chances de ser aprovado rapidamente, ele temera que uma possível rejeição tivesse efeito negativo ainda maior sobre os mercados. Mas, em dois telefonemas, na noite de quarta e na manhã de quinta-feira, ele concordou que não havia escolha.

“Aconteceu de maneira dramática”, disse Paulson em entrevista na sexta-feira. “Só havia um jeito de tranqüilizar os mercados e fazer frente a um congelamento muito grande e amplo do mercado de crédito. Não houve cálculos políticos. A necessidade da ação ficou avassaladoramente evidente.” E foi assim, simplesmente, que o reservado Bernanke, ex-professor de uma das mais respeitadas universidades americanas, e Paulson, ex-operador arrojado de Wall Street, lançaram aquela que seria a maior operação de resgate econômico governamental dos tempos modernos, que rivaliza com a guerra do Iraque em custos e que, ao mesmo tempo, pode redefinir o papel de Washington no mercado nos anos por vir.

Parceria

O plano de comprar US$ 700 bilhões em ativos problemáticos com dinheiro dos contribuintes foi traçado por dois homens que até dois anos atrás não se conheciam e não se movimentavam nos mesmos círculos, mas que a história aproximou. Se Bernanke é a força intelectual dessa dupla improvável, e Paulson, seu homem de ação, o fato é que eles conseguiram criar uma parceria ímpar em sua corrida para sustar a turbulência financeira e impedir a economia de afundar.

Como convém a seus papéis e personalidades, Paulson tornou-se o rosto público da equipe -ele pretende aparecer em quatro “talk shows” no domingo-, enquanto o menos visível Bernanke fornece as bases históricas da estratégia forjada.

Nesse caminho, eles deixaram de lado as posições defendidas por muito tempo pela administração em relação à regulamentação e ao envolvimento do governo nas empresas privadas, chegando a reverter decisões no prazo de 24 horas e a justificá-las como soluções práticas a ameaças graves. “Em tempos de crises financeiras, não há lugar para ideólogos”, disse Bernanke a colegas na semana passada, segundo testemunha de uma reunião.

A natureza pontual e improvisada de seu esforço converteu o presidente Bush e os democratas no Congresso em virtuais espectadores, às vezes incertos sobre o que virá a seguir, reagindo com assombro à nova dinâmica do poder na capital. A cada vez que os legisladores tentavam entender o que estava acontecendo e que papel poderiam exercer, com as eleições cada vez mais próximas, Paulson e Bernanke apareciam no Capitólio para mais uma reunião noturna e os surpreendiam com mais uma novidade.

Os dois homens vêm trabalhando desde cedo e até tarde, acompanhando os mercados asiáticos e atendendo a telefonemas com seus colegas europeus, depois falando ao telefone um com o outro, oito ou nove vezes por dia. Para ajudá-lo a suportar os longos dias de trabalho, Paulson recorre a inúmeras Diet Coke. Chamado pelo Senado a testemunhar duas vezes na semana passada, ele pediu para ser liberado.

“Ele me falou que tinha dormido apenas quatro horas”, disse o senador democrata Christopher J. Dodd, presidente do Comitê de Bancos. Mas a boa vontade de Dodd tem limites. Ele contou que respondeu: “O público quer saber o que está acontecendo.” Bernanke (cuja bebida preferida é a Dr. Pepper Diet) faz questão de deixar seu gabinete até a meia-noite para dormir pelo menos um pouco, mas seus amigos dizem que os sinais de cansaço são evidentes nele.

Alan S. Blinder, seu amigo de longa data e ex-vice-presidente do Federal Reserve, recorda-se de ter visto Bernanke em uma conferência no mês passado em Jackson Hole, Wyoming. “Sua aparência era de alguém que carregava o peso do mundo nos ombros.”. E isso foi antes da semana passada.


Personalidades

Bernanke assumiu seu cargo em fevereiro de 2006, e Paulson cinco meses mais tarde. Ambos são republicanos e ambos foram nomeados por Bush, mas suas origens são muito diferentes. Bernanke, 54, administrava a política acadêmica do departamento de economia da Universidade Princeton, da qual foi presidente, desenvolvendo um estilo conciliador. Paulson, 62, chegou à presidência do Goldman Sachs falando duramente ao telefone e ocasionalmente dando socos na mesa.

“Hank é um sujeito hiperativo, do tipo que sempre tenta resolver o problema e seguir adiante”, disse Allan B. Hubbard, ex-assessor de economia nacional de Bush. “Ele está sempre impaciente para resolver as coisas. Já Ben age de maneira muito mais discreta. Ele reflete muito. É um pensador incrível, alguém que sabe ouvir, que sabe analisar e que não se deixa intimidar por ninguém. Acho que eles fazem uma ótima parceria.”
Bernanke fala em termos grandiosos e Paulson despeja o jargão contundente de Wall Street, mas o que uniu os membros da nova dupla dinâmica de Washington foi em parte o beisebol. O secretário do Tesouro é torcedor dos Chicago Cubs, e o presidente do Fed torce pelos Boston Red Sox, mas em Washington passou a torcer pelos Nationals e a dividir ingressos de temporada com o chefe do Estado-Maior da Casa Branca, Joshua B. Bolten.

Nem Paulson nem Bernanke, porém, haviam tido envolvimento profundo no processo político. Em seus esforços para trabalhar juntos em Washington, eles se cercaram respectivamente de assessores vindos do Goldman e de profissionais de carreira do Fed. Paulson recusou o primeiro convite para entrar para o gabinete. Ele mudou de idéia apenas depois de um trabalho extenso de lobby e convencimento feito por Bolten, antigo executivo do Goldman, e de Bush ter se comprometido a deixá-lo dirigir de fato a economia política, diferentemente de seus predecessores.

O Martelo, como Paulson é apelidado desde seus tempos de jogador no time de futebol americano de Dartmouth, levou a Washington a intensidade que é sua característica. “Ele é um furacão. Está acostumado a viver num mundo turbulento”, disse John H. Bryan Jr., amigo íntimo de Paulson e ex-executivo-chefe da Sara Lee Corporation. “Está acostumado a viver num mundo de “deadlines”, decisões e muita pressão.”
Paulson, que é membro da igreja Cientista Cristã, não fuma nem bebe. Uma vez, num coquetel em que estava fazendo um discurso, recordou um de seus ex-colegas do Goldman, Andrew W. Alper, Paulson acidentalmente tomou um gole de vodca de um copo, pensando tratar-se de água.

Seu rosto ficou vermelho e seus olhos lacrimejaram por uma hora. “Mas ele continuou firme”, disse Alper. Bernanke tem um apelido menos evidente, “Helicopter Ben”, que lhe foi dado depois de um discurso que proferiu em 2002, falando sobre as injeções emergenciais de dinheiro do Fed para manter a liquidez do sistema, como alimentos despejados de helicópteros para ajudar vítimas de enchentes ou outras catástrofes.

Para Bernanke, a crise atual é o ponto culminante de toda uma vida passada tentando entender como o sistema funciona desde o ponto de vista teórico. Bernanke deixou claro muito tempo atrás que ele sabia que algum dia poderia ser convocado a pôr em prática os frutos de seus estudos.

Vincent R. Reinhart, um ex-funcionário do Fed, disse que as pesquisas de Bernanke sobre a crise financeira do Japão na década de 1990 reforçaram sua opinião de que crises do mercado requerem intervenções governamentais agressivas. Numa festa que promoveu em 2002 para o 90º aniversário do famoso economista Milton Friedman, Bernanke, então um dos diretores do Federal Reserve, falou sobre os erros cometidos pelo país diante da Grande Depressão e prometeu não repeti-los. “Não o faremos de novo”, disse ele.

Aviso prévio

Na entrevista da sexta-feira, Paulson disse que Bernanke já vinha avisando havia muito tempo da possibilidade de chegada de um momento como o da semana passada.

“Muito tempo atrás, talvez há um ano já, Ben, que é um economista de primeiro nível, me disse: “Quando se olha para a bolha imobiliária e a correção, se a queda nos preços for suficientemente grande, a única solução pode ser uma intervenção governamental em grande escala’”, contou Paulson. “Ele falou sobre o que aconteceu quando houve outras situações históricas semelhantes.” Paulson disse que concordara, mas que esperava que a situação não chegasse a isso. “Eu sabia que ele tinha razão, teoricamente”, disse ele. “Mas eu tinha alguma esperança, e ele também, de que, com toda a liquidez que havia dos investidores, depois de uma certa queda chegaríamos ao fundo, e que a queda terminaria.”
Ainda na segunda-feira passada, Paulson estava ouvindo de legisladores democratas e republicanos sêniores, incluindo o líder da maioria na Câmara, Steny H. Hoyer, e o deputado de Ohio John A. Boehner, líder republicano da Câmara, que não havia chances de o Congresso aprovar qualquer legislação antes de seus membros deixarem a cidade, em setembro. Mesmo o deputado Barney Frank, proponente de um papel mais ativo do governo no mercado, disse na segunda que a questão teria que ser resolvida pelo próximo presidente e pelo novo Congresso, em setembro.

Na terça, porém, os problemas só estavam se agravando. O Lehman Brothers entrara com pedido de concordata. O Merril Lynch concordara em ser comprado pelo Bank of América, e a AIG estava à beira do colapso. Paulson e Bernanke montaram uma operação de US$ 85 bilhões de socorro à AIG e a apresentaram a Bush.

Mas os dois avisaram ao presidente que a operação talvez não fosse o suficiente para estabilizar a crise mais ampla. Um alto funcionário da administração, que pediu anonimato para comentar deliberações internas, parafraseou nos seguintes termos a mensagem que Bernanke e Paulson transmitiram a Bush: “É possível que depois disto ainda haja problemas, e, se houver, vamos procurá-lo outra vez”.

Eles o fizeram dois dias mais tarde, quando a queda vertiginosa de ações e o congelamento do mercado de crédito deixaram claro que a estratégia caso por caso não estava funcionando. Paulson tinha conversado com Bush ao telefone ao longo de toda a quarta e a manhã da quinta. A decisão de tomar uma medida radical, que abrangesse o sistema inteiro, foi finalmente tomada apenas após uma seqüência interminável de teleconferências envolvendo funcionários do Fed, do Tesouro e da “Securities and Exchange Commission” (órgão que regula o mercado de capitais), recordou um participante, quando Bernanke declarou: “Temos que ir ao Congresso”. Paulson concordou.

Na tarde de quinta-feira, Bernanke e Paulson, acompanhados do presidente do SEC, Christopher Cox, foram à Casa Branca explicar seu plano. “O presidente disse “vamos fazer’”, contou um funcionário. “Não houve hesitação.” Em questão de horas, Paulson e Bernanke estavam no gabinete da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, fazendo um resumo para transmitir aos líderes do Congresso a plena gravidade da situação. Os parlamentares ficaram abalados, mas ofereceram apoio hesitante. Divididos entre os imperativos conflitantes de entrar em ação ou de voltar a seus Estados para fazer campanha, eles pareciam alternar-se entre gratidão e ressentimento com relação à nova dupla poderosa de Washington. Alguns falavam do “presidente Paulson”, e outros reclamavam de um presidente não eleito do banco central prestando socorro de centenas de bilhões de dólares.

Paulson e Bernanke foram criticados por agirem com agressividade excessiva e também por não serem agressivos o suficiente. O senador republicano Jim Bunning, do Kentucky, disse que eles estavam matando o livre mercado. R. Glen Hubbard, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Bush, achou que eles deveriam ter agido antes.

“A oportunidade para uma ação ousada obviamente teria sido melhor se tivessem agido meses atrás”, disse ele. “Mas antes tarde que nunca.” No final, o que deixou frustrados tantos parlamentares e economistas foi a percepção de que ninguém tinha uma idéia melhor a propor. Então eles esperaram Paulson e Bernanke lhes darem mais detalhes sobre o que queriam fazer.

Tradução de CLARA ALLAIN

20/09/2008 - 20:16h Crise financeira está apenas começando, diz Nobel de economia

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da Efe, em Washington - Folha Online

O pacote de intervenção em grande escala nos mercados, anunciado pelo governo dos Estados Unidos, está errado porque a raiz do problema não está diretamente na crise imobiliária, segundo o Nobel de economia Joseph Stiglitz, para quem “isto é só o começo”.

Os mercados receberam com entusiasmo o anúncio de uma intervenção de centenas de bilhões de dólares, mas Stiglitz disse em entrevista à Agência Efe que o cidadão comum deveria estar muito preocupado, pois o país está à beira de uma recessão.

Em lugar de comprar a dívida “tóxica” dos bancos, que ninguém quer, o governo deveria conseguir a renegociação das hipotecas das pessoas que estão com a corda no pescoço, disse.

Stiglitz acredita que a crise é uma conseqüência da “má gestão” da Administração republicana e do Federal Reserve (Fed, o BC americano), que não supervisionou corretamente o sistema financeiro e injetou em Wall Street liquidez antes da crise.

O economista também vincula o problema ao Iraque, que é “A Guerra dos Três Trilhões de Dólares” (”The Three Trillion Dollar War”, no original), segundo diz o título de seu último livro, no qual exibe uma estimativa “conservadora” do custo do conflito para os Estados Unidos.

Stiglitz, que recebeu o Nobel de economia em 2001 e que agora é professor na Universidade de Columbia, fala dos democratas com conhecimento do governo, pois foi o principal conselheiro econômico de Bill Clinton quando este foi presidente.

Atualmente, é assessor de Barack Obama, candidato presidencial democrata, mas na entrevista disse falar em nome próprio.

http://www.themorningsidepost.com/images/2007/09/27/stiglitz.jpgEFE: Qual a sua opinião sobre o programa de intervenção nos mercados financeiros anunciado pelo governo dos EUA?

Stiglitz: Acho que não é suficiente, nem foi feito de forma correta, nem aborda o problema fundamental, que é a grande quantidade de execuções de hipotecas. O sistema está debilitado pelo peso da dívida, e parte desta se deve à guerra do Iraque.

EFE: O senhor vê um vínculo direto entre este conflito e a crise financeira?

Stiglitz: A guerra contribuiu para o enfraquecimento da economia. Em 2008-2009 está previsto que tenhamos o maior déficit fiscal de nossa história.

A guerra também contribuiu para a alta do preço do petróleo. Drenamos nossa economia para comprar petróleo. Isso foi o motivo da ampla liquidez (fornecida pelo Fed antes da crise): diminuir os efeitos de uma despesa tão alta no Iraque. Mas certamente se criou um problema para o futuro com isso.

EFE: É surpreendente que a economia americana continue crescendo, embora lentamente, apesar da crise financeira. Como o senhor vê suas perspectivas?

Stiglitz: O desemprego subiu para 6,1% e provavelmente crescerá mais. Essa é uma das razões pelas quais isto é só o princípio da crise.

Dirigimo-nos lentamente rumo a um descarrilamento econômico que intensificará os problemas financeiros. À medida que as receitas caírem, os preços da moradia descerão mais e haverá mais despejos de inquilinos. Portanto, estamos dentro de uma espiral e ninguém faz nada para interrompê-la.

Há uma probabilidade significativa de recessão nos próximos trimestres.

EFE: Como avalia a situação atual dos mercados?

Stiglitz: A situação é muito pior do que o senhor imagina. Isso já foi demonstrado quando o mercado monetário quase entrou em colapso na quinta-feira.

Inclusive gigantes industriais podem enfrentar problemas de liquidez agora. Os problemas são muito graves. É lógico que após oito anos de má gestão econômica (o mandato de George W. Bush) há esta falta de confiança.

EFE: O que o Governo deveria fazer para frear a crise?

Stiglitz: Podemos incentivar a renegociação das hipotecas para que menos pessoas tenham de declarar a falência. Não ajuda ninguém o fato de as pessoas serem obrigadas a sair de suas casas.

02/07/2008 - 12:06h Petróleo vermelho-sangue

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Bob Herbert* - The New York Times e O Estado de São Paulo

É cada vez mais difícil que continuemos sendo enganados. Há duas semanas, The New York Times noticiou que quatro das maiores petrolíferas do Ocidente estavam prestes a assinar contratos sem licitação que lhes permitirão regressar ao Iraque, onde está a terceira reserva de petróleo mais abundante do planeta. Os acordos, que deverão ser finalizados nos próximos 30 dias, são o tipo de notícia pela qual as grandes petrolíferas vivem.

Podia-se até ouvir executivos cantando Oh, Happy Day (”Oh, Dia Feliz”) nos escritórios da Exxon Mobil, Shell, Total e BP, excluídas do Iraque há 35 anos. Nesta semana, ouvimos falar que um grupo de assessores americanos, orientados por uma equipe do Departamento de Estado, teve atuação importante na elaboração desses contratos entre as companhias e o governo iraquiano. A Chevron e outras empresas também estão prestes a concluir acordos.

Durante muito tempo, o presidente George W. Bush e o vice-presidente Dick Cheney, ambos ex-executivos de petrolíferas, tentaram nos convencer de que a guerra no Iraque foi provocada pelo terrorismo, por armas de destruição em massa, e teria como objetivo levar a liberdade e a democracia ao povo iraquiano - enfim, por causa de tudo, menos do petróleo.

Não se levou em conta o fato de que Saddam Hussein não representava ameaça iminente para os EUA. Nem o fato de que o Iraque não tinha nada a ver com os ataques de 11 de setembro de 2001. No início de 2003, as tropas foram mandadas para a batalha e lá continuam, depois da morte de mais de 4 mil americanos, sem que haja previsão de fim do conflito.

As verdadeiras prioridades dos EUA ficaram evidentes quando começaram as pilhagens, após a queda de Bagdá. No meio da violência e do caos, os soldados americanos receberam a ordem de proteger um alvo particularmente precioso: o Ministério do Petróleo do Iraque. Agora, é muito conveniente a perspectiva de que o governo Bush, obcecado por petróleo, assessore o governo iraquiano na conclusão dos contratos com as petrolíferas!

Os contratos em si não são muito expressivos. Eles são, isto sim, a chave cobiçada que começará a abrir as portas das imensas reservas de petróleo do Iraque. É um prêmio para as petrolíferas. Mas a que custo? Além do preço terrível em termos de soldados americanos e de iraquianos mortos e feridos, a guerra desviou as atenções e os recursos necessários para sanar problemas cruciais nos EUA, onde o mercado da habitação entrou em colapso, a Bolsa de Valores enlouqueceu, a gasolina chegou a custar mais de US$ 4 o galão (3,8 litros), o desemprego aumenta e um número extraordinário de famílias de trabalhadores cheias de dívidas vê à frente o abismo financeiro.

E há ainda a guerra ao terror. As notícias mais recentes informam que a Al-Qaeda se reagrupou nas áreas tribais do Paquistão e recuperou a capacidade de lançar ataques terroristas a partir dali. Para um governo ligado umbilicalmente à indústria petrolífera, o fascínio das enormes reservas do Iraque foi maior até mesmo do que o impulso de aniquilar um inimigo que, no 11/9, assassinou mais de 2.700 civis.

Quem sabe quanto tempo os EUA levarão para desvincular-se de forma significativa do Iraque? O que se pode imaginar é que os EUA não farão grandes avanços em política energética, na cobertura de saúde para todos, na melhoria das escolas públicas ou na redução da dívida pública e privada enquanto não puserem fim ao compromisso ilimitado com uma guerra catastrófica que já consumiu trilhões de dólares. Quanto tempo levará para que os EUA se convençam disso?

*Bob Herbert é colunista do jornal “The New York Times”

02/07/2008 - 11:51h Petrolíferas comemoram abertura de reservas no Iraque

Empresas estrangeiras participam de licitação para explorar campos de petróleo e gás natural no país

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AP, Efe e NYT, Bagdá - O Estado de São Paulo

As empresas petrolíferas Total, da França, e Exxon Mobil, dos EUA, comemoraram ontem a abertura das reservas de petróleo do Iraque a estrangeiros, anunciada na segunda-feira pelo governo do país. As duas empresas se mostraram otimistas em relação à recuperação da estrutura de gás e petróleo do país e manifestaram seu desejo de participar do processo. “Teremos uma produção de seis milhões de barris diários no Iraque, mas não sei quando”, afirmou Christophe de Margerie, conselheiro da Total.

O Iraque anunciou na segunda-feira que abriria licitações de longo prazo para empresas estrangeiras explorarem seis de seus principais campos de extração de petróleo e para dois de seus campos de extração de gás natural. O governo iraquiano, porém, atrasou o anúncio de uma série de contratos de curto prazo sem licitação firmados com cinco empresas ocidentais do setor energético.

O ministro do Petróleo do Iraque, Hussain al-Shahristani, disse que 35 empresas foram aprovadas para participar do processo de licitação, que terá seus vencedores anunciados no ano que vem. Os contratos têm como objetivo dobrar a produção do Iraque, indo dos atuais 2,5 milhões de barris de petróleo por dia para 4,5 milhões ao longo dos próximos cinco anos.

O país árabe dispõe de algumas das maiores reservas de petróleo do planeta, mas elas permanecem em grande parte inexploradas porque o Iraque precisa de recursos para desenvolvê-las. As empresas estrangeiras entrariam com equipamento e conhecimento para reformar a infra-estrutura obsoleta do país. Segundo Shahristani, os seis campos estão em produção, mas há necessidade de desenvolvimento, pois foram abertos há muito tempo.

No entanto, uma grande polêmica legal paira sobre o processo: o país ainda não aprovou uma legislação referente ao petróleo, cujos lucros devem ser distribuídos proporcionalmente entre suas regiões.

CURTO PRAZO

O governo iraquiano ainda está negociando os primeiros cinco contratos com empresas de petróleo, que disponibilizariam suporte técnico para ajudar o país a aumentar a produção antes de serem contempladas com contratos de longo prazo, informou uma fonte que não quis ser identificada.

O processo de negociação dos contratos com a Exxon Mobil, Shell, Total, BP e Chevron deve ser concluído no próximo mês. Ontem, a Total confirmou que está perto de fechar um contrato com o governo iraquiano. A Chevron afirmou, em nota, que também está “em negociações”.

Shahristani defendeu a maneira com a qual o Iraque administrou os contratos do petróleo - que recebeu duras críticas das nações vizinhas, onde suspeita-se de que a invasão liderada pelos EUA, em 2003, estaria, pelo menos em parte, relacionada ao acesso às reservas naturais do país árabe.

NÚMEROS

35 empresas
foram aprovadas para participar do processo de licitação, que terá seus vencedores anunciados no ano que vem

2,5 milhões
de barris de petróleo são produzidos diariamente no Iraque

4,5 milhões
de barris produzidos por dia é a meta que o país quer atingir nos próximos cinco anos

05/06/2008 - 14:14h Colaboradores

VERISSIMO - O Estado de São Paulo

http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/img/luis_sax.jpgA imprensa americana está comentando o recém-lançado livro de Scott McClellan, que foi porta-voz da presidência durante três anos e agora conta tudo sobre a campanha mentirosa para justificar a invasão do Iraque e outras sujeiras do governo Bush. A única novidade do relato é ser feito por alguém que estava dentro da Casa Branca e participou - muitas vezes enganado também, diz ele agora - do logro que resultou na guerra mais longa em que o país já se meteu, e cujo custo em vidas humanas continua a subir. A imprensa americana está comentado menos outra coisa que já se sabia mas ninguém com as credenciais de McClellan tinha dito antes: a sua cumplicidade na campanha mentirosa. Com a autoridade de quem se encontrava com ela quase todos os dias, McClellan descreve uma imprensa subserviente que raramente questionava as mentiras do governo e, com poucas exceções, aceitava todas as razões da direita guerreira.

O próprio New York Times, besta negra dos conservadores americanos com sua linha pró-democratas e internacionalista, forneceu os exemplos mais notórios de colaboração com o engodo nas matérias de primeira página em que sua super-repórter Judith Miller transmitia as alarmantes ficções do escroque iraquiano no exílio Ahmad Chalabi sobre armas de destruição em massa do Saddam. O Times depois pediu desculpas aos seus leitores mas nenhum outro grande jornal americano que ajudou a promover a guerra teve o mesmo escrúpulo. McClellan chama a atitude da maior parte da imprensa com relação a Bush, antes e depois da invasão do Iraque, de “reverencial”.

Apesar de persistir nos Estados Unidos o mito de uma imprensa dominada por “liberais”, o fato é que - de novo, com exceções - a direita não tem do que se queixar dos jornais americanos. Mesmo os não abertamente reacionários como o Wall Street Journal preferem um centrismo não muito bem equilibrado. Agora mesmo, com as eleições presidenciais se aproximando, o desequilíbrio aparece.

Não fizeram metade do barulho com as ligações do republicano McCain com religiosos malucos mas brancos, como o que disse que Deus castigou Nova Orleans pelos seus pecados com o furacão, que fizeram com a ligação de Obama com aquele pastor radical negro. “Double standards” é o termo em inglês para dois pesos e duas medidas.

Como diria o Ancelmo Góis, deve ser horrível viver num país em que a imprensa age assim.

Dois belos livros novos. Caminhos da Conquista - A Formação do Espaço Brasileiro, da Editora Terceiro Nome, sobre o que só pode ser descrito como a história da nossa geografia, com ótimo texto de Ricardo Maranhão e ilustrações primorosas de Vallandro Keating. E A Mão Devota - Santeiros Populares das Minas Gerais nos Séculos 18 e 19, do artista plástico José Alberto Nemer, publicado pela Editora Bem-Te-Vi. Fantásticos.

17/05/2008 - 10:22h Toda unanimidade é burra

A quem servem analistas unânimes

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Ricardo Kauffman - Terra Magazine

De São Paulo

Reportagem maiúscula publicada pelo New York Times (NYT) semanas atrás denunciou estratégia do Pentágono para manipular a opinião pública norte-americana a seu favor na questão da guerra do Iraque.

Desde 2002 até o estouro do escândalo o Departamento de Defesa dos EUA beneficiava com informação privilegiada analistas militares com grande espaço na mídia, em troca de opiniões favoráveis às suas posições.

Além disso, a vasta lista de comentaristas aliciados é formada por ex-militares hoje ligados à indústria bélica, grande interessada no recrudescimento da situação.

O ponto grave da questão é que estes especialistas sempre foram apresentados como observadores independentes do conflito, por grandes emissoras como NBC, ABC, CBS, CNN e Fox. Eles dominaram a maior parte das análises nos últimos anos.

Também a Internet, rádio e mídia impressa deram vasto espaço a eles, diz o NYT (o próprio jornal afirma, com dignidade, que publicou ao menos 9 artigos destes analistas).

A reportagem ouviu vários comentaristas implicados entre os quais muitos confirmam o esquema do Pentágono. Alguns deles, inclusive, confessaram arrependimento por participar da manipulação.

A base da denúncia do jornal são 8 mil páginas de documentos internos do Pentágono que flagram a operação. O NYT entrou na Justiça para ter acesso a elas. O seu pedido foi acolhido.

Perplexo, o Congresso abriu investigações e passou a exercer forte pressão contra o governo. Primeiro resultado, dias depois o Departamento de Defesa anunciou que não vai mais passar informações privilegiadas a analistas militares.

Nota de coluna desta semana de Nelson de Sá, da Folha de S. Paulo, intitulada “O silêncio da televisão” dá conta de que, apesar do barulho no Congresso, o noticiário das emissoras de TV envolvidas ignora o escândalo.

Vale ressaltar que a cobertura da mídia brasileira ao episódio também é tímida, sobretudo na imprensa convencional.

O assunto é delicado. A reportagem do NYT demonstra que houve situações em que as emissoras não tinham ciência do estratagema.

Elas também teriam sido manipuladas ou permitiram a sua manipulação, neste caso. Em outros, teriam participado dela. Em todos, a situação é constrangedora.

Seja como for, o atual contexto midiático favorece tal infiltração nos meios de comunicação. Afinal, há hoje muito mais canais de propagação de notícias e análises do que havia até recentemente. E menos cuidado no trato delas.

De um lado, a mídia tem 24 horas de informação e faturamento. Do outro, fontes poderosas - como o Pentágono - usam farta munição (com o perdão do trocadilho) para ocupar os espaços na programação.

O problema se agrava em circunstâncias favoráveis à formação da idéia única, como no pós-11 de Setembro. A sociedade norte-americana parecia, naquele momento, suscetível a engolir um discurso maciço que dispensa o contraditório.

Há outras menos claras, mas não menos agudas. No Brasil, em vários segmentos do noticiário não basta mudar de canal para encontrar visões diversas entre si.

De forma geral, a análise política na grande mídia é muito uniforme e bebe das mesmas fontes. A econômica talvez seja ainda mais unânime.

É muito comum ver matérias de telejornais sobre consumo, inflação, juros, aplicações, etc, que ouve a opinião de um “especialista”. Não raro, tal “voz do mercado” é identificada pelo gerador de caracteres apenas como “economista”.

Curioso notar que muitos são parecidos inclusive fisicamente entre si. São jovens executivos de bancos, escalados para exercer o papel de especialista de determinado mercado. A mídia compra de olhos fechados - ou abertos.

É fato que os interesses de um agente de mercado como um banco não necessariamente coincidem com o interesse da população.

Mesmo assim, a imprensa muitas vezes não identifica o seu posicionamento como a de um determinado setor da economia, uma ponta legítima da tensão estabelecida em cada história, em cada conflito - sim, porque se não há tensão, qual é a notícia?

Ao contrário, o “especialista” é apresentado como um observador externo, cujo único interesse é fazer uma análise independente do fenômeno abordado.

O mesmo ocorre com as empresas de consultoria econômica, cada vez mais presentes na mídia. De fácil acesso e dispostas a falar sobre tudo, tais fontes ocupam boa parte do espaço para “reflexão”.

Esta “reflexão’ constrói diversas unanimidades: “Brasil, o país dos impostos”; “É preciso juros altos para conter a inflação”; “O governo tem que cortar gastos”, etc.

Trata-se de uma situação favorável para escritórios de advocacia ocuparem o noticiário com novos estudos reveladores do aumento da carga tributária e, assim, divulgarem seu novo produto de “planejamento tributário”.

Para as tais consultorias, formadas por ex-funcionários do alto escalão do Banco Central e Ministério da Fazenda, também divulgarem sua ciência e serviços.

Mas nenhum deles gosta de entrar no contraditório. No fato do setor exportador não querer a mesma reforma tributária que o financeiro. Que muitos estados não querem as mesmas mudanças que São Paulo. Que os bancos adoram juros altos.

Jorge da Cunha Lima, presidente do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, afirma que há cerca de 100 fontes que dominam o noticiário no Brasil, e “elas servem ao sistema financeiro”.

O fato da nossa mídia - como a norte-americana e muitas outras, nos últimos anos - ter adquirido o costume de não identificar bem suas fontes e fugir do contraditório fortalece este tipo de afirmação.

Ricardo Kauffman é jornalista e roteirista.

Fale com Ricardo Kauffman: rikauffman@terra.com.br

13/04/2008 - 06:33h USA: O boom econômico que poucos viram

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O Estado de São Paulo - David Leonhardt *

Como foi que a economia americana chegou a este ponto? Não é apenas a aparente recessão. Recessões acontecem. O maior problema é que o boom agora encerrado não foi, para a maioria dos americanos, um boom.

Em 2000, ao fim da expansão econômica anterior, a família americana média ganhava em torno de U$ 61 mil. Em 2007, no que parece ter sido o ano final da expansão mais recente, a família americana, surpreendentemente, parece ter ganhado menos - cerca de U$ 60,5 mil. Isso nunca aconteceu antes, pelo menos desde que o governo começou a compilar os dados.

Em todas as outras expansões, desde a 2ª Guerra Mundial, o poder de compra da maioria das famílias americanas cresceu junto com a economia. Pode-se pensar nisso como o teste mais básico da saúde de uma economia: será que ela faz com que o padrão de vida de seus cidadões seja sempre crescente?

Na segunda metade do século 20, os Estados Unidos passaram no teste de uma maneira que nenhum outro país passou, provavelmente. Eles se tornaram, como diz o clichê, o país mais rico do globo. A maioria das famílias, porém, já não está enriquecendo.

“Tivemos expansões antes em que os de baixo não se saíram bem”, disse Lawrence F. Katz, um economista de Harvard que estuda o mercado de emprego. “Mas nunca tivemos uma expansão em que a faixa intermediária da distribuição de renda não teve nenhum crescimento salarial.” Mais do que tudo - mais até do que a guerra no Iraque -, a estagnação da grande máquina da classe média americana explica o desalento nacional vigente.

Como parte de uma pesquisa divulgada esta semana, o Pew Research Center perguntou a pessoas como elas se saíram nos últimos cinco anos. Vale lembrar que nesse período a economia em geral cresceu todos os anos, freqüentemente, num ritmo acelerado. Mas a maioria dos entrevistados respondeu que permaneceu no lugar ou regrediu. O Pew diz que essa é a avaliação de curto prazo do progresso pessoal, mais pessimista do que em quase meio século de sondagens.

As causas da desaceleração salarial vêm se formando faz tempo. Elas têm relativamente pouco a ver com o presidente George W. Bush ou qualquer outro político individual (embora seja fato que a administração Bush mostrou pouco interesse pelo problema).

A desaceleração começou nos anos 70, com o choque do petróleo. Depois vieram a revolução tecnológica e a expansão do comércio global, reduzindo o poder de barganha de uma grande parte da força de trabalho. Nos últimos anos, o custo da assistência à saúde agravou o problema, abocanhando uma parte enorme do salário da maioria dos trabalhadores.

A renda familiar média real mais que dobrou do fim dos anos 40 ao fim dos anos 70. Ela subiu menos de 25% nas três décadas seguintes. Estatísticas como essas são hoje tão familiares que não impressionam mais. Mas a questão maior ainda é crucial: a economia americana moderna distribui os frutos de seu crescimento a uma fatia relativamente estreita da população. Não é preciso mais uma década de evidências para se chegar a essa conclusão.

A angústia com a estagnação da renda eclodiu em vários momentos das três últimas décadas. Ela parecia estar crescendo na primeira metade dos anos 90, quando os eleitores não reelegeram George H. W. Bush, e em seguida, dois anos depois, quando fizeram o mesmo com os líderes democratas do Congresso.

Aí veio a bolha de tecnologia que fez tudo parecer melhor durante algum tempo. Os preços do petróleo em baixa nos anos 90 também ajudaram. O mesmo fez a bolha imobiliária permitindo que famílias complementassem suas rendas usando o capital de suas casas.

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Agora, porém, as bolhas parecem ter acabado. É difícil perceber como a economia voltará aos trilhos sem algumas mudanças fundamentais. Penso que isso pode ser considerado o principal projeto econômico à espera do próximo presidente.

Felizmente, existe um modelo óbvio esperando para ser espanado. Os ganhos da renda no período pós-guerra não aconteceram simplesmente. Eles foram produto de um programa deliberado para aumentar a classe média, com o sistema de rodovias interestaduais, a GI Bill (lei de assistência a veteranos da 2ª Guerra) e outras medidas.

É fácil imaginar uma nova versão desse programa, com investimentos na criação de empregos em pesquisa biomédica, energia alternativa, rodovias e educação. Hillary Clinton, John McCain e Barack Obama mencionaram idéias nesse sentido.

Mas ainda existe uma falta de seriedade estratégica na discussão, como observa Bruce Katz, da Brookings Institution. Afinal, os EUA já gastaram uma fortuna em educação, mas mesmo assim perderam sua posição de país com a maior taxa de graduação universitária do mundo. (Coréia do Sul e alguns outros países nos passaram, enquanto Japão, Grã-Bretanha e Canadá estão na cola.)

O mesmo acontece com obras públicas. Os gastos em infra-estrutura estão no seu ponto mais alto em 20 anos como proporção do Produto Interno Bruto, mas uma parte excessiva do dinheiro é gasta em programas ineficientes. Gastos para beneficiar correligionários não contribuem para uma estratégia econômica nacional.

A assistência à saúde e os impostos terão de fazer parte da discussão também. O dr. Ezekiel Emanuel dos Institutos Nacionais de Saúde assinalou que um esforço sério para reduzir os gastos médicos supérfluos ajudaria os trabalhadores. Isso os pouparia de pagar prêmios de seguro e taxas que hoje cobrem essa assistência.

O código fiscal, por sua vez, se tornou bem mais favorável aos trabalhadores de alta renda ao mesmo tempo em que eles - e apenas eles - receberam grandes aumentos antes de impostos. Isso não faz muito sentido, faz? É uma lista e tanto de coisas a fazer. Mas temos um problema e tanto também. Como a economia parece estar em recessão, e como as recessões trazem seus próprios cortes salariais, minha idéia é que o problema parecerá ainda maior quando o próximo presidente tomar posse.

*David Leonhardt escreve para o ‘The New York Times’

25/03/2008 - 04:41h Domando a fera

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Paul Krugman - O Globo

 Estamos, agora, no meio de uma épica crise financeira, que deveria ser o centro do debate eleitoral. Mas não é.
Na verdade, não espero muito de John McCain, que admitiu ter pouco conhecimento sobre economia e negou ter dito isso depois.
Do lado dos democratas, é decepcionante que Barack Obama — em cuja campanha foi destacada sua oposição à guerra do Iraque em contraste com o apoio inicial de Hillary — tenha tentado ganhar alguns pontos sugerindo que a guerra, além de todos seus outros custos, tenha sido responsável por nossos problemas econômicos.
Hillary Clinton não fez, até onde posso dizer, qualquer comentário comparável.
Mas, assim como o senhor Obama, tem permanecido em silêncio sobre a questão chave: a necessidade de reformar nosso sistema financeiro sem controle.
Deixe-me explicar.
Os Estados Unidos saíram da Grande Depressão com uma rede de segurança financeira bastante efetiva, baseada no princípio quid pro quo (isto por aquilo, em português): o governo estava pronto para salvar os bancos se eles enfrentassem problemas, desde que aceitassem uma regulação dos riscos que assumiriam.
Com o tempo, no entanto, boa parte do papel que os bancos tradicionalmente exerciam foi assumido por instituições que não estavam sob regulação — “a sombra do sistema bancário”, que se apóia em arranjos financeiros complexos desenhados para burlar aquela regulação.
Agora, a sombra do sistema bancário está enfrentando o equivalente à onda de corridas bancárias que varreu os Estados Unidos no início dos anos 30. E o governo está correndo para ajudar, com centenas de bilhões.
Diante dos riscos para a economia se o sistema financeiro derreter, essa missão de resgate é justificada. Mas você não precisa ser um economista radical para perceber que o que está acontecendo agora é o quid sem o quo.
Essa lógica vai prevalecer politicamente? Não se o senhor McCain chegar à Casa Branca. Seu principal assessor econômico, o senador Phil Gramm, é um fervoroso defensor da desregulamentação.
Quanto aos democratas, nenhum deles se comprometeu com qualquer reforma financeira.
Agora, a indústria de seguros e de investimentos está colocando dinheiro tanto nas campanhas do senhor Obama quanto da senhora Clinton. E certamente acreditam que terão algo em troca.
Vamos esperar que eles estejam errados.

21/03/2008 - 02:06h Hillary ultrapassa Obama em pesquisa Gallup

Reuters O Globo Online

hillary_quebra_nozes.jpgWASHINGTON - A pré-candidata democrata à Casa Branca Hillary Clinton assumiu pela primeira vez em várias semanas uma vantagem significativa sobre Barack Obama na disputa pela indicação partidária, segundo uma nova pesquisa Gallup. No entanto, o levantamento, que ouviu 1.209 pessoas entre os dias 14 e 18 de março em todo o país, foi realizado antes do discurso histórico sobre a questão racial nos EUA proferido pelo senador de Illinois na terça-feira. A pesquisa, que tem margem de erro de três pontos percentuais, indicou que Hillary lidera com uma vantagem de 49% a 42%. Uma outra pesquisa, sobre as primárias na Pensilvânia, no dia 22 de abril, revelou uma vantagem de 51% a 35% de Hillary.

Segundo o Gallup, é a primeira vez que a ex-primeira-dama assume uma liderança estatisticamente significativa desde a pesquisa feita entre 7 e 9 de fevereiro, logo depois da chamada “Superterça”, quando mais de 20 Estados realizaram prévias partidárias. Desde então, os dois candidatos apareciam consistentemente em empate técnico, mas no levantamento de 11 a 13 de março Obama liderava.

Na simulação para a eleição geral de novembro, o republicano John McCain aparece à frente de Obama com 47% a 43% no levantamento junto a 4.367 eleitores registrados. A margem de erro para o levantamento sobre a eleição geral é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Com relação a Hillary, a situação é de empate técnico -48% a 45% em favor do republicano.

A pesquisa do Gallup, segundo analistas, já indicaria os estragos que a posição radical e irascível do pastor Jeremiah Wright teria provocando na campanha de Obama, mas não captou a reação do senador, num discurso considerado paradigmático por analistas políticos.

” Quando a Guarda Nacional está no Iraque e não pode ajudar as vítimas do furacão em Louisiana ou das enchentes aqui na Virgínia Ocidental, nossas comunidades estão pagando um preço por essa guerra “

Na quinta-feira, dois dias após o discurso na Filadélfia, o senador mudou o foco da questão racial para economia e guerra no Iraque.

- Quando você está pagando mais de US$ 50 para encher o tanque de seu carro, você está pagando o preço dessa guerra - disse Obama em Charleston, na Virgínia Ocidental. - Quando a Guarda Nacional está no Iraque e não pode ajudar as vítimas do furacão em Louisiana ou das enchentes aqui na Virgínia Ocidental, nossas comunidades estão pagando um preço por essa guerra.

Já a campanha do republicano John McCain afastou o funcionário Soren Dayton, depois que se descobriu que foi ele quem distribuiu um vídeo do pastor Jeremiah Wright, ligado a Obama, com opiniões polêmicas sobre racismo no país, na tentativa de provar que o senador democrata não é patriota.

27/02/2008 - 12:48h Obama e Hillary: Nafta, saúde e Iraque no último debate, antes de voto crucial

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da Folha Online

Atualizado às 11h09

Os pré-candidatos democratas à Casa Branca Barack Obama e Hillary Clinton trocaram acusações sobre a saúde, a Guerra no Iraque e a economia –principalmente sobre o Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) no debate desta terça-feira.

Foi o debate final entre os dois rivais antes das prévias em Ohio, no Texas, em Rhode Island e em Vermont na semana que vem, quando um total de 370 delegados estarão em jogo.

Os dois pré-candidatos devem fazer campanha em Ohio nesta quarta-feira. Hillary terminará seu dia em Virgínia Ocidental, e Obama deve terminar os atos de campanha no Texas.

Ela precisa vencer nas prévias da próxima semana, depois de 11 derrotas consecutivas para Obama desde a Superterça –as principais prévias da corrida, realizadas em 5 de fevereiro.

Segundo contagem da Associated Press, Obama possui 1.372 delegados contra 1.264 de Hillary. Um total de 2.025 são necessários para assegurar a indicação do Partido Democrata.

(more…)

04/11/2007 - 10:10h Botero Sees the World’s True Heavies at Abu Ghraib

In a series of paintings and drawings, artist Fernando Botero reflects on the 2004 prisoner abuse scandal at Iraq's Abu Ghraib prison.
In a series of paintings and drawings,
artist Fernando Botero reflects on the 2004
prisoner abuse scandal at Iraq’s Abu Ghraib prison.

 

By Erica Jong

Special to The Washington Post
Sunday, November 4, 2007

When we think about the Colombian artist Fernando Botero, most of us visualize his roly-poly people flaunting their fat, their fashionable headgear, their cigarettes and cigarette holders, their excess. I never thought of these as political images until I saw Botero’s Abu Ghraib series in which hooded men dangle, upside down, and hideous dogs claw and growl at manacled prisoners arranged into pyramids and bleeding on each other.

Held by their hair, their hands, their manacles, the prisoners seldom come face-to-face with their torturers. They are beaten by hands outside the picture frame, urinated on by men whose faces rarely appear. A bound prisoner wears red panties and a bra — obviously against his will. The torture is anonymous and masked. Even the prisoners are masked so the torturers cannot be identified. But Botero knows who they are. They are the same fat people whose antics he has previously appeared to delight in.

As a result of this astonishing series of drawings and paintings, we know he was not celebrating these people, only waiting for an opportunity to show their true nature. They are cannibals who feed off their brothers. They deal in the anguish of human flesh.

Fernando Botero, whose Abu Ghraib pictures will be on view at American University starting this week, read about the torturers of Abu Ghraib in the New Yorker, and made his own record of the horrors. He did not invent anything that was not described, but because he is an artist, we feel the terror of the tortured rather than the gloating of the torturers — so present in the photographs they took of themselves at play in the blood of others.

Botero calls art “a permanent accusation,” but his Abu Ghraib series seems to me more than an accusation. Rather, it constitutes a complete revision of whatever we have previously thought of Botero’s work. (He refuses to sell these works because he doesn’t want to profit from the pain of others. He plans to donate them to museums.)

What is this need people have to abuse each other, then boast about it? What is this need to make others powerless before them, to see them bleed and scream and beg for mercy? Psychologists theorize that torturers are repeating their infantile impotence by inflicting it on others. That seems glib to me. Empathy is a rare human quality, but it is essential to our humanity.

But American torture is different from other tortures because of the high opinion we have of our country and ourselves. Torture is something others do. We are above that. We are reasonable people governed by a great Enlightenment document we call The Constitution. We help, not hurt people all over the world. It is the incongruity of our image of ourselves versus the reality of our behavior that stings most.

Botero’s Abu Ghraib series has been shown before, but never in Washington. It is a moment: The people who got us into Abu Ghraib can contemplate what went on there.

I dare them to look at these images and be unmoved.

The series’s entry into the visual world has not been easy. In the Bay Area, they were shown not in a museum, but in a library at the University of California at Berkeley. Still 15,000 people saw them.

Susan Sontag wrote that the Abu Ghraib photographs showed “the reigning admiration for unapologetic brutality.” Is this true?

I doubt it. I think that most of the people who see these Botero images will be as horrified as I am. Complicity in torture is invisible to most people. They do not know what they can do to prevent it — hence their passivity.

Botero, inspired by Picasso’s “Guernica,” broke through his passivity by making these works. Many people have contrasted them with his supposedly “happy” fat people. I don’t think Botero’s fat people are happy at all. I think they are also political — the haves fattening on the invisible have-nots.

“The whole world and myself were very shocked that the Americans were torturing prisoners in the same prison as the tyrant they came to remove,” Botero said to the San Francisco Chronicle. “The United States presents itself as a defender of human rights and of course as an artist I was very shocked with this and angry. The more I read, the more I was motivated. . . . I think Seymour Hersh’s article was the first one I read. I was on a plane and I took a pencil and paper and started drawing. Then I got to my studio and continued with oil paintings. I studied all the material I could. It didn’t make sense to copy, I was just trying to visualize what was really happening there.”

What will be our reaction to his visualization? Will we continue in passivity? Will we deny that such horrors still take place? Or will Botero’s art have the power to change us?

We might also ask what power art can have in general. Did Goya stop cruelty in his time, or Picasso in his? No. But the role of the artist in raising our consciousness and bearing witness is essential. The artist makes us open our eyes to our own cruelty, our own passivity, our own indifference.

For that alone, his witnessing matters.

I am looking at another recent work by Botero in which a roly-poly woman is stuffing her face with an apple as if she were a Christmas pig. Before the Abu Ghraib series I would have shrugged off this image. Now I see all Botero’s work as a record of the brutality of the haves against the have-nots. I would be surprised if the Abu Ghraib series of images did not completely change our view of Botero as an artist.

Novelist, poet and nonfiction writer Erica Jong wrote a catalogue essay for the Milan exhibition of Botero’s Abu Ghraib pictures and has a Botero sculpture of Eve with a snake and an apple in her apartment in New York. Her most recent book is “Seducing the Demon: Writing for My Life.”

If you go: “Fernando Botero: Abu Ghraib” opens Tuesday at the American University Museum at the Katzen Arts Center, at the intersection of Massachusetts and Nebraska avenues NW. Through Dec. 30. Open Tuesday-Sunday 11 a.m.-4 p.m. Free. 202-885-1300.

25/10/2007 - 13:08h Terceirização

por Luiz Fernando Verissimo

Quem diz que nunca houve matança sistematizada de judeus, ciganos e incapazes na Alemanha tem razão: Auschwitz, Treblinka, Sobibor e os outros campos de extermínio nazistas ficavam na Polônia. A Polônia anexada pelo Reich era uma extensão do solo alemão e os campos eram construídos e geridos por alemães, mas isto é detalhe para quem pretende a inocência pelo distanciamento formal. Os americanos que hoje levam suspeitos de terrorismo para serem interrogados em países onde a tortura é comum, longe dos Estados Unidos, também pretendem a absolvição pela geografia.

Tem-se discutido muito no Congresso, na imprensa e nos tribunais americanos os limites do permitido na busca da informação antiterrorista depois do 11/9, mas os escrúpulos quanto à tortura chegam atrasados. Torturar pela mão dos outros é uma prática antiga dos Estados Unidos, mais notoriamente — no que nos diz respeito — nas atividades da “School of the Americas” onde policiais e militares latino-americanos iam aprender métodos de interrogatório e contra-insurgência para combater o comunismo no continente.

A Escola das Américas chegou a ser chamada ironicamente de anexo da Escola de Chicago, produzindo técnicos em repressão para garantir os teóricos do neoliberalismo que saíam do Departamento de Economia da universidade onde o Milton Friedman era a estrela, para nos catequizar. É bom lembrar, nestes tempos de entusiasmo das platéias pelo fascismo contra o crime e de reacionarismo ostensivo e festejado, no que deu tudo aquilo.

Coisas como a “Operação Bandeirantes”, a aliança de empresários paulistas com policiais e militares na caça, literalmente, à esquerda, que deixou mortos e mutilados por toda parte — menos, aparentemente, na consciência dos responsáveis, ou, presumivelmente, no livro de realizações dos formandos da Escola das Américas. Que continua no mesmo lugar, Fort Benning, na Geórgia, agora com o nome mais específico de Instituto de Cooperação para a Segurança do Hemisfério Ocidental. Não se sabe se o currículo ainda é o mesmo.

Do Iraque chega a notícia de outro exemplo de distanciamento remissor.

Neste caso, uma novidade — a terceirização da guerra. A ocupação do país está sendo um grande negócio não só para a Halliburton e outras empreiteiras superfaturadoras mas para empresas paramilitares, exércitos privados que substituem a tropa normal em certas tarefas e que já têm quase tanta gente no Iraque quanto o exército regular, com contratos milionários.

Há dias uma dessas empresas, a Blackwater, que pertence a um conhecido financiador das campanhas do Bush e do Cheney, se viu envolvida na morte de civis iraquianos.

A Blackwater não está sujeita nem às leis do Iraque, nem às leis dos Estados Unidos e nem aos estatutos militares americanos. Só precisou pedir desculpas.

05/10/2007 - 12:22h Foreign Policy, Privatized

The New York Times

WHILE most Americans are aware of the controversy over the role of the private security company Blackwater in Iraq, probably few understand that armed contractors in Iraq are just the tip of an iceberg. Across the globe, in everything from diplomacy to development to intelligence, contractors are a major American presence, and only a small fraction of them carry weapons. American foreign policy, to a great extent, has been privatized.


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Omnivore

 

The charts below, based on figures from the Federal Procurement Data System, tell the story. In 2005, federally financed contractors were working in every United Nations-recognized country except Bhutan, Nauru and San Marino.

It has become conventional wisdom to blame the Bush administration for the “hollowing out” of government, but this misses the mark. While contract spending has more than doubled since 2001, serious federal efforts to outsource began under President Bill Clinton.

Nor is contracting necessarily bad: United States money creates jobs for the local population, and humanitarian organizations like Save the Children, CARE and Catholic Relief Services have relied heavily on dollars from Washington. Outsourcing can play to America’s strengths, exploiting our capacity for innovation, flexibility and efficiency.

Yes, as we have seen in Iraq, hiring contractors can lead to severe problems with accountability and fraud. And while steps like making contractors liable for civil penalties may manage some symptoms, they will not cure the disease. We need to devise far better ways of overseeing contractors worldwide.

Some are tempted to turn back the clock and reassert traditional government authority, denouncing private-sector greed and the “coalition of the billing.” But that would be a terrible mistake, for outsourcing is in part a rational response to the new possibilities of the information age. The challenge will be to manage creative forms of collaboration between government and the private sector in ways that serve the public interest.

Allison Stanger, a professor of political science at Middlebury College, is writing a book on the privatization of American power. Omnivore is a graphic design firm in New York City.

27/09/2007 - 19:39h Big Pictures, Blog de Corine Lesnes

Corine Lesnes est correspondante du “Monde” aux Etats-Unis depuis août 2002.

Swastika-shaped

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La marine américaine va dépenser 600.000 dollars pour camoufler ce qui ressemble à une swastika.
La configuration est invisible de la terre, sauf à s’asseoir derrière son ordinateur et à focaliser Google Earth sur le toit des baraquements de la base de Coronado, en Californie.
Mais depuis deux ans, la chose dérange un animateur de radio du Missouri.
Les architectes vont mettre des fleurs et des panneaux solaires.

Partition irakienne: l’embryon

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L’idée de partition de l’Irak ne cesse de gagner du chemin.
Aujourd’hui, 75 Sénateurs ont voté un texte recommandant la création de trois régions semi-autonomes en Irak (le plan Gelb-Biden: Plan for Iraq).
C’est la première fois qu’une idée rassemble autant de démocrates et de républicains (et aussi bien Krauthammer que David Brooks).