20/05/2009 - 17:15h Comissão revela milhares de casos de pedofilia em escolas católicas da Irlanda

Irmão de vítima de abuso recebe´exemplar do relatório; camiseta diz 'Menino do Braço Quebrado'

AP Irmão de vítima de abuso recebe´exemplar do relatório; camiseta diz ‘Menino do Braço Quebrado’

da Folha Online

Milhares de crianças sofreram abusos sexuais sistemáticos em orfanatos, escolas e reformatórios dirigidos pela Igreja Católica na Irlanda, revela uma investigação de nove anos divulgada nesta quarta-feira em Dublin. A investigação afirma que os abusos sexuais em instituições católicas para crianças irlandesas foram “endêmicos” entre 1930 e 1990.

A Igreja Católica tentou repetidamente impedir a publicação do relatório elaborado por uma comissão independente irlandesa de inquérito sobre abuso infantil. A comissão ouviu os depoimentos de milhares de pessoas, atualmente com idades entre 50 e 70 anos, que estudaram em mais de 250 instituições dirigidas pela igreja.

O relatório final de 2.600 páginas foi divulgado pelo juiz da Alta Corte Sean Ryan. Segundo o texto, mais de 30 mil crianças consideradas criminosas ou vindas de famílias não funcionais –o que inclui mães solteiras– foram enviadas para a rede de escolas, reformatórios, orfanatos e abrigos da década de 1930 até os anos 1990, quando a última destas instituições foi fechada.

O relatório afirma que as crianças eram molestadas e estupradas de maneira endêmica nas escolas para garotos, dirigidas pela ordem dos Irmãos Cristãos, e que os supervisores aplicavam regras que aumentavam o risco deste tipo de crime.

As instituições para garotas, chefiadas pelas Irmãs da Misericórdia, registraram menos casos de abusos sexuais, mas foram frequentes os casos de humilhação para que se sentissem sem valor.

“Em algumas escolas, um ritual de espancamento das garotas era rotineiro. As garotas apanhavam com equipamentos desenhados para maximizar a dor e eram atingidas em todas as partes do corpo”, diz o relatório. “Denegrir a pessoa e a família era um hábito amplamente difundido.”

Verdade

As vítimas deste sistema pediram por anos que suas experiências fossem reveladas, documentadas para que as crianças irlandesas não sofressem mais com tal tratamento. As autoridades religiosas rejeitaram contudo as alegações como exageros e mentiras e testemunharam à comissão dizendo que a responsabilidade pelos abusos é de pessoas falecidas há anos.

O relatório propõem 21 formas do governo reconhecer os erros do passado, incluindo a construção de um memorial permanente, fornecer aconselhamento e educação às vítimas e melhorar o atual serviço de proteção às crianças da Irlanda.

Mas as descobertas do relatório não serão usadas para processos criminais –em parte porque os Irmãos Cristãos conseguiram processar a comissão em 2004 para que mantivesse a identidade de seus membros em sigilo.

Assim, nenhum nome real, seja de vítimas ou de perpetradores dos abusos, aparece no documento.

O governo irlandês já criou um sistema de compensação no qual pagou a 12 mil vítimas de abuso uma média de US$ 90 mil. Cerca de 2.000 reclamações continuam em aberto.

As vítimas apenas recebem o pagamento se abrirem mão do direito de processar a igreja e o Estado. Centenas rejeitaram esta condição e levaram seus carrascos e os funcionários da igreja à corte.

O relatório divulgado nesta quarta-feira afirma ainda que as crianças que sofriam os abusos não tinham como relatar o fato de maneira segura às autoridades, principalmente os abusos sexuais de funcionários da igreja e outros colegas de instituições para garotos.

“O gerente não ouvia ou acreditava nas crianças quando reclamavam das atividades de alguns dos homens que tinham responsabilidade sobre sua criação”, diz o texto da comissão. “Na melhor das hipóteses, os acusados eram trocados, mas nada era feito para compensar o mal às crianças. Na pior, a criança era acusada e vista como corrompida pela atividade sexual –o que garantia punição severa.”

Com agências internacionais

17/03/2009 - 14:21h Crise convulsiona classe média no bloco europeu

Segmento social é a principal vítima da recessão econômica em quase todos os países

Inquietação política pode se agravar, caso programas de estímulo não sejam vistos como favoráveis ao cidadão comum, diz diretor da OIT

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JOHN THORNHILL – “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

A economia está causando convulsões políticas na Europa. Na Islândia e na Letônia, os governos caíram; greves ou protestos irromperam na Grécia, na Irlanda, na França, na Alemanha, no Reino Unido, na Ucrânia e na Bulgária. Os tumultos financeiros abalaram até mesmo os baluartes mais distantes do continente: a ilha francesa de Guadalupe, no Caribe, sofreu greves violentas, enquanto a Rússia teve de enviar policiais de avião para a distante e gélida Vladivostok, a fim de conter protestos de rua.
O surto de inquietação não era esperado no continente. Muitos europeus imaginavam que seriam poupados dos piores efeitos de um desastre gerado nos subúrbios dos EUA.
Mas a crise se espalhou. Na semana passada, os ministros das Finanças da União Europeia revisaram para baixo projeções já desanimadoras para o PIB do bloco e estimaram que a recessão vá perdurar até 2010.
À medida que os governos fazem ações muitas vezes impopulares para salvar suas economias, cresce a raiva, como resultado do desemprego cada vez mais alto, das restrições aos aumentos de salários, dos resgates aos bancos devastados e das quedas nos valores das residências e dos fundos de pensão.
Juan Somavia, diretor-geral da OIT (Organização Internacional do Trabalho), diz que a inquietação social pode se agravar caso os planos de estímulo não sejam vistos como benéficos aos cidadãos comuns, alegando que “há uma sensação de que banqueiros recebem bilhões, e o povo, trocados”.
Por enquanto, é impossível prever os efeitos políticos do terremoto econômico em curso.
A esquerda deveria ser a beneficiária natural. Porém, líderes sindicais recordam, em tom pressago, que foi a extrema direita, e não a esquerda moderada, que ganhou o poder em boa parte da Europa nos anos 30, na última catástrofe capitalista.
Observadores como o sociólogo francês Emmanuel Todd preveem o fim da democracia, ou ao menos sua erosão significativa, com os líderes da direita populista, como o premiê italiano, Silvio Berlusconi, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, tornando-se mais demagógicos e autoritários. Outros preveem uma reversão ao nacionalismo e ao protecionismo.

Maior vítima
Países diferentes estão respondendo de formas diferentes à crise. Mas um traço comum a quase todos é que a classe média é a principal vítima da recessão. Mesmo antes da crise, sociólogos falavam sobre o surgimento de “sociedades-ampulheta” na Europa -a globalização afastando mais e mais vencedores de perdedores.
“A classe média está encolhendo agora, ao menos na Alemanha. Essa é uma situação completamente nova para o país”, afirma Stefan Hradil, sociólogo alemão. A análise também vale para o Reino Unido, onde a mídia destacou os problemas da “classe calada”, formada por profissionais antes seguros de si que agora enfrentam dificuldades financeiras.
O momento político mais explosivo talvez surja quando os europeus tiverem de pagar a conta pelos pacotes de resgate atuais. Os governos só conseguirão reequilibrar as finanças públicas caso cortem os gastos e aumentem os impostos sobre a classe média já sufocada.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

01/02/2009 - 15:26h Governo britânico adverte contra greves ‘protecionistas’

Miles de trabajadores británicos se manifiestan contra los trabajadores extranjeros

AE-AP – Agencia Estado

LONDRES – Diante de uma onda de greves e protestos, o governo da Grã-Bretanha afirmou hoje que entende a frustração dos trabalhadores do setor de energia com a contratação de estrangeiros, mas advertiu contra o protecionismo. O secretário (ministro) dos Negócios, Peter Mandelson, disse que compreende a preocupação dos trabalhadores quanto a seus empregos num momento de recessão, mas ressalvou que o protecionismo “seria uma maneira certa de transformar uma recessão numa depressão”. “Seria um grave erro recuar de uma política na qual, pelas normas, as companhias britânicas podem operar na Europa e empresas europeias podem operar aqui.”

Dezenas de milhares de trabalhadores britânicos do setor de energia fizeram greves-relâmpago e manifestações em vários lugares da Grã-Bretanha nos últimos dias, em protesto contra a contratação de trabalhadores portugueses e italianos para a construção de uma refinaria de US$ 280 milhões, da empresa petrolífera francesa Total, no nordeste da Inglaterra.

Os protestos começaram quando foi anunciado que a construtora Irem, da Itália, estava contratando apenas trabalhadores italianos e portugueses, num momento em que a taxa de desemprego no Reino Unido alcançou 6,1%. “Não se deveria permitir que nenhuma empresa discriminasse contra qualquer um com base em onde as pessoas nasceram. Não se pode simplesmente dizer que somente italianos e portugueses podem se inscrever para empregos, como aconteceu neste caso”, disse Paul Kenny, secretário-geral do sindicato GMB, dos petroleiros britânicos.

Ontem, cerca de 700 funcionários da refinaria de Grangemouth, na Escócia, fizeram uma paralisação de protesto. Cerca de 400 trabalhadores e simpatizantes fizeram uma manifestação do lado de fora da refinaria da empresa suíça Petroplus em Wilton, no norte da Inglaterra. Na usina de energia elétrica de Aberthaw, em Gales, cerca de 50 pessoas fizeram um ato de protesto. Também houve manifestação na usina de energia de Kilroot, em Carrickfergus, na Irlanda do Norte.

Em Londres, um porta-voz do primeiro-ministro Gordon Brown disse que o contrato com a construtora Irem foi feito “há algum tempo, quando havia falta de trabalhadores especializados no setor de construção no Reino Unido”. “Obviamente esse não é o caso agora e nós vamos falar com a indústria nos próximos dias para assegurar que ela está fazendo tudo o que pode para apoiar a economia britânica”, disse.

27/01/2009 - 15:28h O economista que previu a crise continua pessimista

 

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Emma Brockes, THE GUARDIAN* – O Estado SP

O escritório em Nova York da empresa de consultoria de Nouriel Roubini é tão austero como a situação atual: uma escrivaninha, um telefone, alguns blocos de anotações e 134 páginas impressas de uma lista da Wikipédia de todos os bancos do mundo.

Há três anos, Roubini foi repudiado, tachado de fatalista enganador, quando detectou uma enorme vulnerabilidade do sistema bancário dos Estados Unidos, prevendo o seu colapso. Agora, Roubini converteu-se num guru, atraindo o interesse de governos, diretores de bancos, mas e até de sites de fofocas de Nova York.

Foi o The New York Times que o apelidou asperamente de Dr.Doom (Dr. Catástrofe) ao fazer um perfil do economista no ano passado, identificando-o como um herói insólito da crise. Em 2006, Roubini fez um discurso no Fundo Monetário Internacional, quando, entre outras coisas, previu que a economia americana corria o risco de um colapso imobiliário e uma profunda recessão, com consequências tenebrosas para o resto do mundo.

Hoje, ele sorri timidamente e diz que outras pessoas também previram esse cenário, mas ninguém foi tão preciso como ele, nem tão grave, nem foi tão ridicularizado como ele pelo sóbrio mundo da economia. Na época, seu discurso foi recebido como uma idiossincrasia de alguém que gostava de fazer teatro. Mesmo hoje alguns dizem que ele só teve sorte. É o caso do economista Anirvan Banerjee, que, indagado pelo The New York Times sobre Roubini, respondeu que “até um relógio parado acerta a hora duas vezes por dia”.

Esse tipo de menção faz Roubini rapidamente esquecer a modéstia. Acusa de ingênuo o economista, que previu um crescimento quando a crise já se intensificava. “Dizer que foi apenas sorte da minha parte é um absurdo. Fiz previsões concretas que acabaram sendo certas. Exatamente.”

Ele cita um estudo elaborado em fevereiro do ano passado intitulado “Doze passos para o desastre financeiro”, onde “cada passo foi exatamente como a crise se desenvolveu nos últimos seis meses”. “Eu disse que as duas maiores corretoras do país (EUA) iriam à falência e não haveria nenhuma grande corretora independente nos próximos dois anos. Ora, bastaram sete meses para o Bear Stearns e o Lehman (Brothers) quebrarem. Não foi uma análise imprecisa da minha parte quando declarei que ocorreria uma crise financeira. Fui bem explícito. E acertei.” Ele encolhe os ombros e sorri ante o peso de estar certo em meio à estupidez generalizada.

As razões pelas quais Roubini foi o primeiro a prever a crise têm a ver, talvez, com seus antecedentes profissionais e pessoais, e com o que ele chama de abordagem “holística” na interpretação de dados econômicos. Roubini nasceu em Istambul, a família transferiu-se para o Irã quando ele ainda era bebê e depois para a Itália, onde cresceu.

Ele fala quatro línguas fluentemente (farsi, inglês, hebreu e italiano) e trabalhou em todo o mundo, incluindo dois anos como assessor político no Tesouro dos EUA. Segundo ele, o primeiro sinal de alerta foram as similaridades que observou entre regiões em desenvolvimento e o comportamento da economia dos EUA. Para sua surpresa, viu um padrão de movimento econômico nos EUA que, em 2005, parecia muito com a “economia de mercados emergentes”, com a mesma “exuberância irracional” que, na sua opinião, só poderia ser seguida de um enorme colapso.

“Você examina a história, os dados políticos, os modelos, e faz comparações”, diz. “Esta crise não é um evento totalmente extraordinário, uma consequência aleatória de uma distribuição aleatória. Foi um acúmulo de vulnerabilidades que aumentaram com o tempo”, diz. “Tivemos dezenas de sinais distintos de que tudo acabaria num ponto de não retorno. A ocorrência de uma crise era algo totalmente óbvio para mim.”

É tentador fazer perguntas a Roubini como se ele fosse um oráculo. Mas seu histórico recente faz com que seja irresistível. Para começar, ele acha que 2009 deve ser apagado completamente. Do ponto de vista financeiro, diz ele, está perdido. No “Jogo do Pior Cenário”, Roubini olha para o mundo avançado e considera que muitas economias estão sob o risco de seguir o caminho da Islândia e se tornarem insolventes. A maior parte é de pequenas nações da Europa Ocidental.

“Se uma grande instituição (financeira) na Suíça, na Holanda, na Bélgica ou na Irlanda enfrentar um problema, o país não tem recursos suficientes para resgatá-la”, avisa.

A Grã-Bretanha está em um estado tão ruim quanto os Estados Unidos do ponto de vista fiscal. Segundo ele, a necessidade de as decisões na zona do euro serem aprovadas por consenso faz com que resgates de instituições financeiras sejam mais difíceis de implementar.

Roubini diz que mais fundos hedge (os mais arriscados do mercado) vão quebrar, mas o efeito em cascata nem sequer começou a ser sentido. “As perdas agora estão concentradas nas hipotecas. Espere até que atinjam os imóveis comerciais, as companhias de cartão de crédito, os empréstimos automotivos, o crédito estudantil e os bônus corporativos. Há uma pilha de coisas. O sistema financeiro está insolvente. Está tecnicamente falido.”

*Emma Brockers é articulista

25/10/2008 - 12:00h Recessão no Reino Unido derruba bolsas européias

Economia britânica recuou 0,5% no 3º trimestre, o pior índice desde 1992, o que deixa o país à beira da recessão; resultado teve impacto no mercado

Jamil Chade, GENEBRA – O Estado SP

http://clabedan.typepad.com/photos/uncategorized/euronextmeta_b20041220124939_1.jpgA constatação de que a recessão não é mais uma ameaça para alguns países europeus, mas sim uma realidade, derrubou as bolsas da Europa. Ontem, o Reino Unido revelou que sua economia encolheu 0,5% no 3º trimestre e o país está à beira da recessão. Outro temor é de que os emergentes não servirão de colchão para evitar uma recessão mundial e também vão sofrer uma desaceleração. Como conseqüência, as empresas européias com investimentos nesses mercados também recuaram ontem nas bolsas.

Na Europa, o índice Dow Jones Stoxx 600 caiu 4,7%. Depois de baterem quedas de mais de 8%, as bolsas conseguiram uma leve recuperação. Mesmo assim, fecharam com fortes quedas. Em Londres, o índice FTSE perdeu 5%; o índice francês Cac cedeu 3,53%, enquanto o Dax, da bolsa alemã, caiu 4,95%. Em Moscou, a queda foi de 14% e o pregão foi suspenso até a semana que vem. Já a FTSEurofirst 300 caiu 5,4%, a pior taxa desde maio de 2003.

Enquanto isso, o desemprego não pára de subir na Espanha e a atividade industrial despenca na Alemanha. Na França, as principais empresas do setor automotivo revelaram que estão cortando produção.

No total, US$ 10 trilhões desapareceram do mercado desde o início do ano. As perdas no mês foram equivalentes a um terço de todo o prejuízo do ano nas bolsas. Com a queda na Ásia, o índice MSCI atingiu o ponto mais baixo desde 2003. No ano, já soma perdas de 48%.

O dia de ontem foi ainda marcada pelo resgate de US$ 2 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a Islândia, além de um pacote de US$ 40 bilhões criado pelos noruegueses para salvar seus bancos.

Mais uma vez, foram os bancos que tiveram as maiores quedas nas ações. O HSBC teve redução de 17,7% diante da possibilidade da desaceleração nos mercados emergentes. O Standard Chartered, também com ampla exposição nos emergentes, somou perdas de 15,8%.

Outro temor do mercado europeu ontem era de que os países emergentes não fiquem mesmo imunes à recessão, principalmente depois da crise na Argentina e do fato de a Coréia ter anunciado ontem sua pior taxa do PIB em quatro anos.

Nesse caso, quem mais sofreu foi a bolsa espanhola, onde estão cotadas muitas das empresas com investimentos na América Latina. A queda ontem foi de 5,2%, com média abaixo de 2004. O Santander perdeu 10,43% e o BBV, 8%. No total, a bolsa de Madri teve sua segundo pior semana da história. No ano, já perdeu 44,9%.

Mas o que mais assustou investidores e analistas foi a constatação de que a economia britânica sofreu uma contração de 0,5% no terceiro trimestre, o pior índice desde 1992. Isso coloca o país à beira da primeira recessão desde 1991. Irlanda e França já estão tecnicamente em recessão. O chanceler britânico, Alistair Darling, admitiu: “Esse é o dia em que a recessão se tranformou em realidade”.

O mercado já esperava dados negativos dos ingleses, mas a taxa de 0,5% foi considerada surpresa. O resultado provocou a primeira queda na libra esterlina em 37 anos, assim como uma redução do valor das ações de todas as empresas britânicas.

Se a economia do Reino Unido cair no quarto trimestre, o país tecnicamente entra em recessão. Segundo a Ernst & Young, já está desde julho. ParaEm 2009, a previsão de queda é de 1%.

Para o vice-governador do Banco da Inglaterra, Charles Bean, a crise financeira “é a maior na história da humanidade”. Ele ainda alerta que o impacto na economia real está apenas começando.

Já sabendo que os dados seriam negativos, o primeiro-ministro Gordon Brown já ousou pronunciar a palavra “recessão” nesta semana, alertando que praticamente seria inevitável. Politicamente, a recessão pode ser um fardo para o atual governo, que prometia estabilidade.

O maior sindicato de trabalhadores do Reino Unido – o Trade Union Congress – apelou para que o governo comece a pensar em um plano para salvar empregos e empresas, e não apenas os bancos. “O governo precisa mostrar o mesmo compromisso que teve em salvar os bancos agora, na luta contra a recessão”, diz a entidade.

Na Espanha, mais dados preocupantes. O desemprego, que já era o maior da Europa, continua em alta. O Instituto Nacional de Estatísticas apontou que o desemprego já chega a 11,3%, ante 10,4% no segundo trimestre. Em apenas três meses, 217 mil perderam o emprego. No total, já são 2,5 milhões de desempregados no país.

10/10/2008 - 07:51h Procura-se uma solução global e abrangente


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Dominique Strauss-Kahn * – O Estado de São Paulo

Há algumas semanas, publiquei um apelo por uma solução de medidas abrangentes que englobassem os problemas centrais do setor financeiro (a falta de liquidez nos mercados, as dúvidas acerca do valor dos ativos problemáticos e uma clara falta de capital) e os mercados financeiros de todo o mundo (e não apenas alguns centros de circulação monetária). Apesar de terem sido tomadas muitas medidas desde então, elas não foram abrangentes nem globais. De fato, as abordagens feitas foram tão variadas e inconsistentes, especialmente em relação às garantias dos depósitos, que estão intensificando os problemas para outros países. Não é surpresa alguma o fato de os mercados não terem recuperado a confiança.

Qual é o problema subjacente? Em resumo, as instituições financeiras detêm um grande volume de títulos cujo valor é duvidoso e está diminuindo, os quais implicam em imensas perdas para elas. Há também o potencial de perdas adicionais decorrentes da garantia do valor dos ativos feita por meio de trocas de garantias contra calotes e outros instrumentos derivativos negociados em mercados menos transparentes e mais irregulares. Mas, mesmo que um banco saiba que o seu balanço patrimonial está intacto, ele não pode se certificar de que a sua contraparte esteja limpa (ou de alguma maneira exposta a uma terceira parte problemática). Nesse ambiente febril de falta de confiança e escassez de capital, os instrumentos comuns de administração macroeconômica se descobrem ineficazes, e uma estratégia que aposta principalmente na provisão de liquidez por parte dos bancos centrais – apesar de crucial – não será suficiente.

O que mais precisa ser feito? Eu destacaria cinco conjuntos de medidas.

Em primeiro lugar, como concluíram alguns governos, a fragilidade da confiança pública chegou agora em um ponto em que se torna inevitável algum tipo de garantia pública explícita sobre os passivos do sistema financeiro. Isso significa não apenas os depósitos em bancos comerciais, mas, provavelmente, também os depósitos interbancários e do mercado monetário, de modo que nesses mercados-chave a atividade possa recomeçar. É claro que tal medida teria de ser temporária e incluir salvaguardas contra os riscos que acompanham tais garantias, como uma maior supervisão e limites sobre as taxas cobradas em cima dos depósitos.

Em segundo lugar, o Estado precisa eliminar os ativos problemáticos e obrigar as instituições financeiras a reconhecer suas perdas. A compra de ativos deve ser feita de maneira transparente e a um preço de mercado justo.

Os motivos para tanto não são moralistas, apesar de isso ser imperativo, mas pragmáticos. Se os preços forem inflados, então os bancos terão de arcar com as perdas que recaírem sobre os contribuintes – no caso dos Estados Unidos, os bancos teriam de emitir ações para o governo, diluindo assim a participação patrimonial dos outros acionistas. Mas as perdas postergadas para o futuro impedem o fluxo de novo capital particular em direção aos cofres dos bancos. Para atrair tal capital, é melhor pagar um preço menor agora, reconhecer as perdas e dar aos bancos alguma boa notícia no caso de as perdas imaginadas serem, afinal, menores do que se supunha.

Em terceiro lugar, o dinheiro particular é escasso no ambiente atual e o reconhecimento das perdas por si só pode não ser suficiente para induzir a uma injeção de novo capital particular. Uma estratégia que funcionou em crises anteriores é equilibrar as infusões de novo capital particular com quantidade equivalente de capital estatal, o que impõe um teste de mercado para o uso de fundos públicos.

Em quarto lugar, tornou-se urgente um alto grau de cooperação internacional. Infelizmente, as medidas recentes foram tomadas tendo em mente o interesse nacional e não se fez o bastante para evitar conseqüências não intencionais do tipo “transforme-seu-vizinho-em-mendigo”, que apenas exacerbam os problemas para os outros. Se um país oferece com credibilidade uma garantia abrangente (a Irlanda, por exemplo), os investidores podem sair de países que não fizerem a mesma oferta (a Grã-Bretanha, por exemplo). Se o procedimento de compra de ativos for muito diferente, as instituições procurarão o comprador mais generoso. As instituições financeiras agora abrangem muitos países e planos de resgate críveis precisam apresentar consistência entre as muitas jurisdições dentro das quais as mesmas operariam.

Ainda mais fundamental, e olhando para além da crise atual, tornou-se claro que a comunidade internacional precisa trabalhar no sentido de fechar as muitas lacunas na arquitetura regulatória global que permitiram às instituições financeiras minimizar o capital ao mesmo tempo em que concentravam o risco.

Em quinto lugar, agora está se tornando claro que os países de mercados emergentes provavelmente serão atingidos com força pela turbulência financeira, apesar de seus fundamentos serem hoje mais sólidos e de suas robustas estruturas para a formulação de medidas. A não ser que uma súbita interrupção no fluxo de capital obrigue esses países a paralisar seu progresso ou, pior, derrube os seus sistemas financeiros, alguma forma de financiamento rápido e de grandes proporções deve ser mantida a postos.

Não pode haver dúvida de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) esteja preparado para empregar seus procedimentos de emergência e flexibilização para aprovar com rapidez programas de alto acesso ao financiamento, com base numa condicionalidade de mínima resistência que se concentre nas prioridades de resposta à crise.

Apesar de a situação parecer sombria agora, estou convencido de que há uma maneira de escapar do nosso apuro coletivo. O truque é fazer com que os formuladores de medidas de todo o mundo remem na mesma direção.

*O autor é diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional