25/10/2008 - 12:00h Recessão no Reino Unido derruba bolsas européias

Economia britânica recuou 0,5% no 3º trimestre, o pior índice desde 1992, o que deixa o país à beira da recessão; resultado teve impacto no mercado

Jamil Chade, GENEBRA - O Estado SP

http://clabedan.typepad.com/photos/uncategorized/euronextmeta_b20041220124939_1.jpgA constatação de que a recessão não é mais uma ameaça para alguns países europeus, mas sim uma realidade, derrubou as bolsas da Europa. Ontem, o Reino Unido revelou que sua economia encolheu 0,5% no 3º trimestre e o país está à beira da recessão. Outro temor é de que os emergentes não servirão de colchão para evitar uma recessão mundial e também vão sofrer uma desaceleração. Como conseqüência, as empresas européias com investimentos nesses mercados também recuaram ontem nas bolsas.

Na Europa, o índice Dow Jones Stoxx 600 caiu 4,7%. Depois de baterem quedas de mais de 8%, as bolsas conseguiram uma leve recuperação. Mesmo assim, fecharam com fortes quedas. Em Londres, o índice FTSE perdeu 5%; o índice francês Cac cedeu 3,53%, enquanto o Dax, da bolsa alemã, caiu 4,95%. Em Moscou, a queda foi de 14% e o pregão foi suspenso até a semana que vem. Já a FTSEurofirst 300 caiu 5,4%, a pior taxa desde maio de 2003.

Enquanto isso, o desemprego não pára de subir na Espanha e a atividade industrial despenca na Alemanha. Na França, as principais empresas do setor automotivo revelaram que estão cortando produção.

No total, US$ 10 trilhões desapareceram do mercado desde o início do ano. As perdas no mês foram equivalentes a um terço de todo o prejuízo do ano nas bolsas. Com a queda na Ásia, o índice MSCI atingiu o ponto mais baixo desde 2003. No ano, já soma perdas de 48%.

O dia de ontem foi ainda marcada pelo resgate de US$ 2 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a Islândia, além de um pacote de US$ 40 bilhões criado pelos noruegueses para salvar seus bancos.

Mais uma vez, foram os bancos que tiveram as maiores quedas nas ações. O HSBC teve redução de 17,7% diante da possibilidade da desaceleração nos mercados emergentes. O Standard Chartered, também com ampla exposição nos emergentes, somou perdas de 15,8%.

Outro temor do mercado europeu ontem era de que os países emergentes não fiquem mesmo imunes à recessão, principalmente depois da crise na Argentina e do fato de a Coréia ter anunciado ontem sua pior taxa do PIB em quatro anos.

Nesse caso, quem mais sofreu foi a bolsa espanhola, onde estão cotadas muitas das empresas com investimentos na América Latina. A queda ontem foi de 5,2%, com média abaixo de 2004. O Santander perdeu 10,43% e o BBV, 8%. No total, a bolsa de Madri teve sua segundo pior semana da história. No ano, já perdeu 44,9%.

Mas o que mais assustou investidores e analistas foi a constatação de que a economia britânica sofreu uma contração de 0,5% no terceiro trimestre, o pior índice desde 1992. Isso coloca o país à beira da primeira recessão desde 1991. Irlanda e França já estão tecnicamente em recessão. O chanceler britânico, Alistair Darling, admitiu: “Esse é o dia em que a recessão se tranformou em realidade”.

O mercado já esperava dados negativos dos ingleses, mas a taxa de 0,5% foi considerada surpresa. O resultado provocou a primeira queda na libra esterlina em 37 anos, assim como uma redução do valor das ações de todas as empresas britânicas.

Se a economia do Reino Unido cair no quarto trimestre, o país tecnicamente entra em recessão. Segundo a Ernst & Young, já está desde julho. ParaEm 2009, a previsão de queda é de 1%.

Para o vice-governador do Banco da Inglaterra, Charles Bean, a crise financeira “é a maior na história da humanidade”. Ele ainda alerta que o impacto na economia real está apenas começando.

Já sabendo que os dados seriam negativos, o primeiro-ministro Gordon Brown já ousou pronunciar a palavra “recessão” nesta semana, alertando que praticamente seria inevitável. Politicamente, a recessão pode ser um fardo para o atual governo, que prometia estabilidade.

O maior sindicato de trabalhadores do Reino Unido - o Trade Union Congress - apelou para que o governo comece a pensar em um plano para salvar empregos e empresas, e não apenas os bancos. “O governo precisa mostrar o mesmo compromisso que teve em salvar os bancos agora, na luta contra a recessão”, diz a entidade.

Na Espanha, mais dados preocupantes. O desemprego, que já era o maior da Europa, continua em alta. O Instituto Nacional de Estatísticas apontou que o desemprego já chega a 11,3%, ante 10,4% no segundo trimestre. Em apenas três meses, 217 mil perderam o emprego. No total, já são 2,5 milhões de desempregados no país.

10/10/2008 - 07:51h Procura-se uma solução global e abrangente


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Dominique Strauss-Kahn * - O Estado de São Paulo

Há algumas semanas, publiquei um apelo por uma solução de medidas abrangentes que englobassem os problemas centrais do setor financeiro (a falta de liquidez nos mercados, as dúvidas acerca do valor dos ativos problemáticos e uma clara falta de capital) e os mercados financeiros de todo o mundo (e não apenas alguns centros de circulação monetária). Apesar de terem sido tomadas muitas medidas desde então, elas não foram abrangentes nem globais. De fato, as abordagens feitas foram tão variadas e inconsistentes, especialmente em relação às garantias dos depósitos, que estão intensificando os problemas para outros países. Não é surpresa alguma o fato de os mercados não terem recuperado a confiança.

Qual é o problema subjacente? Em resumo, as instituições financeiras detêm um grande volume de títulos cujo valor é duvidoso e está diminuindo, os quais implicam em imensas perdas para elas. Há também o potencial de perdas adicionais decorrentes da garantia do valor dos ativos feita por meio de trocas de garantias contra calotes e outros instrumentos derivativos negociados em mercados menos transparentes e mais irregulares. Mas, mesmo que um banco saiba que o seu balanço patrimonial está intacto, ele não pode se certificar de que a sua contraparte esteja limpa (ou de alguma maneira exposta a uma terceira parte problemática). Nesse ambiente febril de falta de confiança e escassez de capital, os instrumentos comuns de administração macroeconômica se descobrem ineficazes, e uma estratégia que aposta principalmente na provisão de liquidez por parte dos bancos centrais - apesar de crucial - não será suficiente.

O que mais precisa ser feito? Eu destacaria cinco conjuntos de medidas.

Em primeiro lugar, como concluíram alguns governos, a fragilidade da confiança pública chegou agora em um ponto em que se torna inevitável algum tipo de garantia pública explícita sobre os passivos do sistema financeiro. Isso significa não apenas os depósitos em bancos comerciais, mas, provavelmente, também os depósitos interbancários e do mercado monetário, de modo que nesses mercados-chave a atividade possa recomeçar. É claro que tal medida teria de ser temporária e incluir salvaguardas contra os riscos que acompanham tais garantias, como uma maior supervisão e limites sobre as taxas cobradas em cima dos depósitos.

Em segundo lugar, o Estado precisa eliminar os ativos problemáticos e obrigar as instituições financeiras a reconhecer suas perdas. A compra de ativos deve ser feita de maneira transparente e a um preço de mercado justo.

Os motivos para tanto não são moralistas, apesar de isso ser imperativo, mas pragmáticos. Se os preços forem inflados, então os bancos terão de arcar com as perdas que recaírem sobre os contribuintes - no caso dos Estados Unidos, os bancos teriam de emitir ações para o governo, diluindo assim a participação patrimonial dos outros acionistas. Mas as perdas postergadas para o futuro impedem o fluxo de novo capital particular em direção aos cofres dos bancos. Para atrair tal capital, é melhor pagar um preço menor agora, reconhecer as perdas e dar aos bancos alguma boa notícia no caso de as perdas imaginadas serem, afinal, menores do que se supunha.

Em terceiro lugar, o dinheiro particular é escasso no ambiente atual e o reconhecimento das perdas por si só pode não ser suficiente para induzir a uma injeção de novo capital particular. Uma estratégia que funcionou em crises anteriores é equilibrar as infusões de novo capital particular com quantidade equivalente de capital estatal, o que impõe um teste de mercado para o uso de fundos públicos.

Em quarto lugar, tornou-se urgente um alto grau de cooperação internacional. Infelizmente, as medidas recentes foram tomadas tendo em mente o interesse nacional e não se fez o bastante para evitar conseqüências não intencionais do tipo “transforme-seu-vizinho-em-mendigo”, que apenas exacerbam os problemas para os outros. Se um país oferece com credibilidade uma garantia abrangente (a Irlanda, por exemplo), os investidores podem sair de países que não fizerem a mesma oferta (a Grã-Bretanha, por exemplo). Se o procedimento de compra de ativos for muito diferente, as instituições procurarão o comprador mais generoso. As instituições financeiras agora abrangem muitos países e planos de resgate críveis precisam apresentar consistência entre as muitas jurisdições dentro das quais as mesmas operariam.

Ainda mais fundamental, e olhando para além da crise atual, tornou-se claro que a comunidade internacional precisa trabalhar no sentido de fechar as muitas lacunas na arquitetura regulatória global que permitiram às instituições financeiras minimizar o capital ao mesmo tempo em que concentravam o risco.

Em quinto lugar, agora está se tornando claro que os países de mercados emergentes provavelmente serão atingidos com força pela turbulência financeira, apesar de seus fundamentos serem hoje mais sólidos e de suas robustas estruturas para a formulação de medidas. A não ser que uma súbita interrupção no fluxo de capital obrigue esses países a paralisar seu progresso ou, pior, derrube os seus sistemas financeiros, alguma forma de financiamento rápido e de grandes proporções deve ser mantida a postos.

Não pode haver dúvida de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) esteja preparado para empregar seus procedimentos de emergência e flexibilização para aprovar com rapidez programas de alto acesso ao financiamento, com base numa condicionalidade de mínima resistência que se concentre nas prioridades de resposta à crise.

Apesar de a situação parecer sombria agora, estou convencido de que há uma maneira de escapar do nosso apuro coletivo. O truque é fazer com que os formuladores de medidas de todo o mundo remem na mesma direção.

*O autor é diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional