10/02/2009 - 14:24h É hora de romper o círculo vicioso

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Amos Oz, International Herald Tribune* – O Estado SP

Ehud Olmert, premiê israelense, declarou que Israel dará uma resposta “desproporcional” a qualquer novo ataque do Hamas contra seus civis. Acho que uma resposta desproporcional é uma resposta imoral. Uma punição desproporcional é uma punição imoral.

Essa desproporcionalidade fortaleceria os candidatos extremistas nas eleições israelenses e atenderia aos objetivos dos fanáticos na Faixa de Gaza e no mundo árabe.

Operações militares desproporcionais nada mais são do que vingança. E vingança nada mais é do que a satisfação de instintos primitivos básicos.

Vejo o Hamas como um bando de criminosos que, há muito tempo, direciona sua ação contra civis israelenses. Nos últimos anos, nada menos do que 10.000 foguetes foram lançados pelo grupo contra cidades e povoados dentro de Israel.

O Hamas também é um bando de criminosos porque usa civis palestinos como escudos humanos e porque, cinicamente, esconde-se atrás de mulheres e crianças.

Mas matar mais civis palestinos não vai levar a nada, já que os radicais islâmicos não se importam absolutamente com essas mortes.

Como o líder do grupo na Síria, Khaled Meshal, disse recentemente, “a atual geração de palestinos pode ser sacrificada”.

A única resposta eficaz é um ataque bem calculado, proporcional, contra os criminosos do Hamas, que tente ao máximo poupar a vida de palestinos inocentes. O Egito está intermediando um cessar-fogo e Israel tem de dar uma chance a essa mediação.

Não devemos nos esquecer que o maior revés para o Hamas seria um eventual acordo de paz entre o governo de Israel e a Autoridade Palestina do presidente Mahmud Abbas. Um acerto desse tipo entre palestinos e israelenses é possível – e talvez até mesmo iminente.

* Amos Oz é escritor israelense

01/02/2009 - 12:28h ”Solução de dois Estados só depende de Israel”

http://www.chinadaily.com.cn/world/2007-05/21/xin_18050421084960260554.jpghttp://arrastao.org/ficheiros/800px-israel_and_palestine_peace.png

Jimmy Carter: ex-presidente americano; segundo Carter, medida não foi adotada até agora porque israelenses rejeitam se retirar da Cisjordânia

 

Reza Aslan, Global Viewpoint – O Estado SP

 


O ex-presidente dos EUA Jimmy Carter debate as perspectivas para uma solução de dois Estados para a crise palestino-israelense, bem como a política externa americana diante do Irã.

Segundo os argumentos do seu novo livro, “Podemos chegar à paz na Terra Santa: Um plano que vai funcionar”, a imensa maioria dos israelenses e palestinos já aceita os parâmetros de uma solução de dois Estados. Então por que a solução de dois Estados ainda parece tão longe de se tornar realidade?

Até o momento isso se deveu ao fato de os israelenses não estarem dispostos a dar um passo fundamental, que é a retirada da Cisjordânia. Isso é central para a solução do conflito, e Israel não apenas continuou a aumentar o número de assentamentos no território como também construiu uma muralha na área palestina da Cisjordânia. Se os israelenses aceitarem a solução, terão de se retirar da Cisjordânia e eles ainda não demonstraram disposição em fazê-lo.

Parece que durante cerca de 40 anos o status quo beneficiou Israel. Mas agora parece que ocorreu uma virada, em termos demográficos. Não falta muito tempo para que haja mais árabes do que judeus entre o Mediterrâneo e o Rio Jordão. Esta não é a verdadeira ameaça à existência de Israel?

Exato. Logo haverá uma maioria árabe naquele território de um único Estado, o que significa que Israel terá apenas três opções completamente inaceitáveis. Uma delas é o que se pode chamar de limpeza étnica, coisa que ninguém deseja, e isto significa obrigar os palestinos a deixar o território. A segunda opção seria ter um país dentro do qual houvesse duas classes de cidadãos: uma delas seria composta pelos judeus, que teriam direito ao voto; a outra seria formada pelos árabes sem direito ao voto. E isso seria equivalente ao apartheid sul-africano.

A terceira e última opção é deixar que os árabes detenham a maioria dos votos, e com alguma divisão entre os judeus, e os árabes votando em bloco, eles controlariam todo o governo e não haveria mais um Estado judaico. Estas são as opções, excluída a solução de dois Estados.

Parece que a opinião pública e a mídia americanas estão mais dispostas a criticar Israel após a guerra em Gaza.

As pesquisas mostram que isso é verdade. Acho que veremos grandes mudanças, e a demonstração mais concreta é a eleição de Barack Obama. Desde sua primeira semana na presidência, ficou claro que a paz no Oriente Médio será uma de suas prioridades. E o enviado especial escolhido por ele, George Mitchell, é muito mais qualificado do que muitos de seus predecessores.

A maioria dos israelenses está disposta a abrir mão da Cisjordânia em troca da paz, e os palestinos desejam a mesma coisa. A poderosa voz do presidente dos EUA terá um imenso impacto sobre a opinião pública, não somente no seu país, mas também nos territórios palestinos e em Israel.

Qual seria a principal lição que o presidente deveria aprender a partir da sua experiência nas tentativas de encerrar o conflito no Oriente Médio?

Os EUA precisam desempenhar um papel forte desde os primeiros momentos de seu governo, sendo enfáticos nos esforços para conduzir as negociações até a sua conclusão. É necessário agir logo, demonstrar comprometimento profundo e ser persistente.

Este processo começa com o reconhecimento do papel desempenhado pelo Hamas nas negociações?

Ainda é cedo para isto. O Hamas se comprometeu a aceitar qualquer acordo negociado com Israel, desde que seja submetido ao povo palestino em um plebiscito, ou se for eleito um governo de unidade e os representantes do governo aprovarem o acordo. Este é um importante passo a ser dado quando chegar o momento nas negociações com o Hamas.

Talvez agora tenhamos a oportunidade de reconsiderar os últimos 30 anos de política externa americana em relação ao Irã. Que conselho daria a Obama a respeito do melhor modo de tentar uma aproximação com o Irã?

Ele já prometeu, antes e depois de ser eleito presidente, que abrirá todas as formas de comunicação com o Irã. Se você descartar o presidente Mahmud Ahmadinejad e se aproximar de membros mais responsáveis do governo do Irã, penso que, quando Obama enviar alguém para explorar as possibilidades de negociação, acho que essa pessoa será bem recebida. Meu conselho para Obama é simplesmente fazer o que prometeu que faria: abrir um canal de comunicações com o Irã.

O senhor é otimista com relação à situação no Irã e no Oriente Médio daqui a oito anos?

Sim, comparando com as circunstâncias atuais, de onde partimos. O melhor meio de restringir os movimentos potenciais do Irã para aumentar sua capacidade nuclear é conseguir a paz entre israelenses e palestinos, acabar com a guerra oficial entre Israel e Síria, Israel e Líbano. Acho que isso eliminaria, e muito, a ameaça da qual os iranianos sentem que precisam se defender. E de uma maneira mais geral, debilitaria a influência de Teerã e seu prestígio, que cresceu por causa da guerra do Iraque. Assim, o fim da guerra no Iraque e a paz no Oriente Médio seriam duas coisas que colocariam o Irã de volta a uma posição em que sua influência negativa em prol do terrorismo diminuiria, e o país sentiria menos necessidade de ter armas nucleares para se defender.

23/01/2009 - 20:27h Os dois povos devem viver juntos

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Muamar Kadafi*, The New York Times – O Estado de São Paulo


A chocante intensidade da última onda de violência entre israelenses e palestinos nos impele a considerar a extrema urgência de uma solução final para a crise do Oriente Médio. É vital não apenas romper este ciclo de destruição e injustiça, mas também negar aos radicais religiosos que se alimentam do conflito uma desculpa para promover suas próprias causas.

Mas para onde quer que olhemos, entre os discursos e as iniciativas da diplomacia, não há um caminho concreto para um avanço. Uma paz justa e duradoura entre Israel e palestinos é possível, mas deve ser procurada na história do povo dessa terra em constante conflito, e não na desgastada retórica das soluções que apontam para a criação de dois Estados.

Embora seja difícil de perceber, depois dos horrores que acabamos de testemunhar, entre judeus e palestinos nem sempre existiu um estado de guerra. Na realidade, muitas das rupturas ocorridas entre os dois povos são recentes. O próprio nome “Palestina” era usado comumente para definir toda a região, até mesmo pelos judeus que viviam ali, até 1948, quando começou a ser usado o nome “Israel”.

Judeus e muçulmanos são primos e descendem de Abraão. Ao longo dos séculos, ambos sofreram cruéis perseguições e, muitas vezes, se ajudaram mutuamente. Os árabes ofereceram guarida aos judeus e os protegeram quando estes sofriam sob o governo de Roma e quando foram expulsos da Espanha, na Idade Média.

A história da região é marcada por governos transmitidos entre tribos, nações e grupos étnicos, que resistiram a muitas guerras e a ondas migratórias de povos vindos de todas as direções. É por isso que a questão se torna tão complicada quando uma das partes reivindica o direito de ser dona dessa terra.

O cerne do moderno Estado de Israel é a inegável perseguição ao povo judeu, que foi escravizado, massacrado, perseguido por egípcios, romanos, ingleses, babilônios, cananeus e, mais recentemente, pelos nazistas. O povo judeu merece uma pátria, mas os palestinos também têm uma história de perseguições e consideram as cidades de Haifa, Acra, Jafa como a terra de seus ancestrais, transmitida de geração em geração, até pouco tempo atrás.

Portanto, os palestinos acreditam que o que agora se chama Israel é parte de sua nação, mesmo que fiquem com Cisjordânia e Gaza. E os judeus acreditam que a Cisjordânia é a Samaria e a Judeia, parte da sua pátria, mesmo que ali venha a estabelecer-se um Estado palestino.

Com o cessar-fogo em Gaza ressurgiram os apelos para uma solução de dois Estados, que nunca funcionará. Essa solução criará uma ameaça para a segurança de Israel. Um Estado árabe armado na Cisjordânia daria a Israel menos de 16 quilômetros de profundidade estratégica em seu ponto mais estreito. Além disso, um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza não solucionaria o problema dos refugiados. Qualquer situação que mantenha a maioria dos palestinos em campos de refugiados e não ofereça uma solução dentro de suas fronteiras históricas não é uma solução.

Pelas mesmas razões, a divisão da Cisjordânia em áreas judaicas e árabes, com zonas-tampão entre elas, não funcionará. As áreas palestinas não teriam condições de abrigar todos os refugiados e as zonas-tampão simbolizariam a exclusão e alimentariam tensões.

Em termos absolutos, os dois movimentos terão de permanecer em um perpétuo conflito ou chegar a um compromisso: o da criação de um Estado único para todos, uma “Isratina”, que permita que as pessoas de cada lado sintam que podem viver em toda a região.

Um requisito fundamental da paz é o direito dos palestinos refugiados de regressarem para as casas que suas famílias deixaram, em 1948. É uma injustiça que os judeus que não viviam originalmente na Palestina, nem seus antepassados, venham do exterior para se estabelecer ali, enquanto essa permissão é negada aos palestinos que foram obrigados a fugir dali há relativamente pouco tempo.

É um fato incontestável que, até recentemente, os palestinos viviam nessa terra, eram donos de fazendas e casas, mas tiveram de sair com medo da violência dos judeus após 1948. Por isso, somente o território total da Isratina poderá abrigar todos os refugiados e favorecer a justiça, que é o elemento fundamental da paz.

A assimilação é um fato concreto da vida em Israel. Mais de 1 milhão de árabes muçulmanos vivem no país. Eles têm nacionalidade israelense, participam da vida política e constituem partidos. Por outro lado, há assentamentos israelenses na Cisjordânia. As fábricas israelenses dependem da mão-de-obra palestina e há intercâmbio de produtos e serviços. Essa assimilação, por seu sucesso, pode ser um modelo para Isratina.

Se a atual interdependência e o fato histórico da coexistência de judeus e palestinos servirem de orientação a seus líderes, e se, na busca de uma solução de longo prazo, eles olharem além da violência recente e da sede de vingança, perceberão que a coexistência debaixo de um único teto é a única opção para uma paz duradoura.

*Muamar Kadafi é presidente da Líbia

19/01/2009 - 09:48h Nova voz em torno de Gaza

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Fábio Wanderley Reis – VALOR

Menos mal que, no quadro de extrema feiúra do conflito armado entre Israel e Hamas, tenhamos também ações como a do grupo “Other Voice”, em que cidadãos sem conexões político-partidárias de Sderot e outras comunidades israelenses em torno de Gaza, justamente o alvo mais freqüente dos foguetes, se articulam com palestinos de Gaza para clamar pelo fim da violência que atinge a todos e por soluções criativas nesse sentido por parte das lideranças regionais e mundiais. É evidente o caráter extraordinário de iniciativas como essa, que têm de vencer as disposições etnocêntricas “naturais” que o longuíssimo conflito no Oriente Médio agudiza de forma singular. Todos vemos o apego rígido a posições simpáticas ou hostis à ação de Israel nas colunas da imprensa e nos blogs da internet, embora tenhamos também esforços louváveis de avaliação isenta. De todo modo, mesmo no plano modesto de minhas relações pessoais, confesso-me surpreendido pela naturalidade com que as afinidades e simpatias de amigos intelectualmente sofisticados (e distantes, por exemplo, de reles confusões como a que torna o radicalismo islâmico merecedor do apoio de gente “de esquerda”) levam à prevalência da identificação pronta com um dos lados e dificultam a sensibilidade às eventuais razões do outro lado.

Mencionei, na semana passada, o infantilismo moral que tende a caracterizar as relações entre grupos étnicos e nacionais distintos. É conhecido o trabalho de Jean Piaget sobre temas correlatos, em que desenvolvimento intelectual e desenvolvimento moral não são senão duas faces da mesma moeda. Pois o desenvolvimento intelectual se caracteriza pela crescente capacidade de superar o egocentrismo próprio da infância e das fases iniciais do processo, de “descentrar-se” e adotar o ponto de vista dos outros – o que é condição para que se viabilizem as “operações” da razão sobre um objeto passível de ser manipulado, num mundo que deixa de ser a mera extensão ilusória do eu infantil justamente pelo reconhecimento da “objetividade” trazida pelos múltiplos pontos de vista.

Naturalmente, podemos ter “egocentrismo” em escalas mais amplas: o etnocentrismo, na designação genérica usual, ou o “sociocentrismo”, na linguagem do próprio Piaget. Como lembrei aqui há tempos, citando Pizzorno e Leopardi, o egoísmo, ou o “amor próprio”, pode dilatar grandemente o seu objeto, vindo a referir-se a “minha” família, “minha” tribo, “minha” cidade, “meu” país – e o esforço intelectual de reflexão “descentrada” exige a difícil transposição dessas diversas barreiras de identificação sociocêntrica que tendem a apresentar-se como pontos de referência, para o indivíduo, do comportamento virtuoso, patriótico e altruísta.

Do ponto de vista político, a grande dificuldade é que, se o ideal democrático remete, em última análise, à autonomia e à capacidade de descentração do cidadão em relação à coletividade, a organização coletiva não pode abrir mão de conter ou limitar a autonomia individual, ou o simples egoísmo da afirmação exacerbada da autonomia, e de cobrar identificação e lealdade. No nível dos estados nacionais, foi possível expandir os vínculos primordiais de vizinhança (eventualmente parentesco) rumo a um sentimento mais abrangente de comunidade que serve de base ao sentimento pessoal de identidade e promove o patriotismo. Mesmo nesse nível, porém, o problema, na perspectiva da democracia, é que a promoção dessas disposições propícias tende a valer-se justamente da contraposição a outras coletividades do mesmo tipo e periga resultar na pressão indevida ao conformismo e na demanda de lealdade que toma a forma incondicional e quem sabe autoritária. E o desafio é o de equilibrar o componente generoso das virtudes patrióticas com a virtude cívica por excelência da tolerância pluralista.

Mas no plano internacional a tarefa é muito mais difícil. Pois ela envolve construir pluralismo e tolerância justamente nesse contexto não só carente, por definição, de um substrato comunitário, mas constituído por comunidades diversas que com freqüência ao menos em parte se definem pela hostilidade recíproca e em que o sentido da identidade pessoal, para muita gente, tende a nutrir-se dessa hostilidade.

Na história recente, contudo, dispomos pelo menos do grande exemplo positivo da União Européia, erguida penosamente, mas com êxito inegável, sobre a herança de conflitos que se repetiram por longo tempo e em que se construíam e reforçavam identidades antagônicas. Depois, não obstante o que possa parecer respaldar a idéia de um “choque de civilizações” à maneira de Huntington, temos também um mundo que se torna gradualmente multipolar e talvez venha a abrir espaço para influências que ajudem a encaminhar as coisas no rumo de algum tipo de federalismo de grande alcance, em que as tradicionais identidades étnico-nacionais deixem de estar tão pesadamente em jogo. Sem falar, especificamente quanto ao Oriente Médio, do que apontava há alguns dias Barry Rubin aqui mesmo no Valor (”Os Verdadeiros Inimigos do Hamas”): a coexistência problemática do etnocentrismo radical islâmico com variados nacionalismos árabes.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

E-mail: fabiowr@uai.com.br

17/01/2009 - 13:27h Chega de horror. Cessar-fogo já!

Uma TV israelense transmitiu ao vivo o desespero de um médico palestino, Dr. Abu El-Aish, pacifista que trabalhou em Israel e acabara de ter sua casa bombardeada. Era comum sua participação pelo telefone contando a situação em Gaza. Suas três filhas morreram e outras duas foram feridas. O vídeo é do Youtube e está legendado em espanhol. Tem uma versão legendada em ingles.

30/09/2008 - 16:17h Shaná Tová. Começa o ano 5769

Pelo menos para a comunidade judaica, que celebra o Rosh Hashaná, seu ano-novo, entre hoje e amanhã

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/ea/AlphonseL%C3%A9vy_Shofar.jpg/200px-AlphonseL%C3%A9vy_Shofar.jpghttp://newcentrist.files.wordpress.com/2007/09/6x8-shana-tova-dove.jpg

Valéria França – O Estado de São Paulo

http://www.chabad.org.br/receitas/festas/imagem/rosh_Hashana.jpgHigienópolis, Bom Retiro e Jardins estavam ontem em clima de festa judaica. Na vitrine de algumas lojas, lia-se “shaná tová”, um espécie de feliz ano-novo em hebraico. Os judeus comemoram até o final da tarde de quarta-feira o Rosh Hashaná, o ano-novo judaico – que diferente do calendário ocidental-laico, chegou a 5769. Dos 65 mil judeus que escolheram o Estado de São Paulo para morar, 60 mil estão na capital, formando assim a maior colônia no País.

Não por outro motivo, supermercados, restaurantes e lojas estavam cheias de mães judias, que saíam carregadas de pacotes. Dentro deles, havia chocolates, para presentear amigos, pães e pratos típicos, que fariam parte do Rosh Hashaná.

Todas estavam com pressa. As festividades começaram ao anoitecer de ontem e, por volta das seis horas da tarde, os homens , principalmente, já deveriam estar recolhidos nas sinagogas. “E a maioria das mulheres , em casa, arrumando a mesa para a ceia”, diz Helena Goldenstein, de 85 anos, nascida na Polônia. “A esta altura a ceia está pronta em banho-maria, porque nesses dois dias, os mais ortodoxos não trabalham, não andam de elevador, não dirigem, nem apagam e acendem as luzes de casa.” No sábado, Helena foi ao cabeleireiro e comprou R$ 1 mil em chocolates para desejar um ano doce aos amigos.

Mesmo os judeus não ortodoxos tiram esses dias para ficar com a família. “É um período feito para repensar a vida, fazer um balanço do que já passou”, diz Samuel Seibel, de 54 anos, dono da Livraria da Vila, um judeu nada ortodoxo. “Ninguém estoura champanhe. É um período introspectivo.” Pratos de difícil e demorada execução, compõe a tradicional ceia, conhecida por ser rica e cheia de elementos simbólicos (veja quadro ao lado). “Nesta época, a colônia procura o que tem de mais tradicional”, diz a chef Andréa Kaufmann, do AK Delicatessen, representante de uma gastronomia judaica mais moderna. Pensando nisso, Andréa inclui em seu cardápio guefilte fish, espécie de musse de peixe, fornecido por uma mãe judia, especialista na receita típica da época.Entre talentosas cozinheiras de tradição judaicas, destaca-se Rebeca Zakon, de 70 anos, dona do restaurante kosher do Clube Hebraica, no Jardim Paulistano. Num domingo comum, ela serve 400 refeições. Ainda cozinha para hospitais – como Albert Einstein, Pro Matre, Oswaldo Cruz e mais recentemente Alvorada – e para todas as linhas aéreas. “Estou há uma semana trabalhando das cinco horas da manhã às seis da tarde”, diz ela, que coordena uma equipe de 30 pessoas. “Neste Rosh Hashaná tivemos o dobro de encomendas em relação ao ano passado.”

A israelense Shoshana Baruch, de 59 anos, proprietária do Shoshi Delishop, no Bom Retiro, no centro, teve de recusar encomendas. “As pessoas sabem que domino as tradições. Hoje, os mais jovens trabalham e não vão para a cozinha. Antigamente, as avós cozinhavam, as mães ajudavam e as filhas aprendiam”, diz Shoshana, considerada a tradicional mãe judia. “No meu restaurante, ninguém pode deixar comida no prato. “Para Boris Ber, presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo, esse aumento na venda de ceias é sinal da volta dos jovens à religião. ”

A busca da identidade religiosa passa por esse lado gastronômico”, explica.”A comunidade judaica sempre foi unida. Por isso, sobreviveu até os dias de hoje.”

COMIDA KOSHER

É típica entre judeus ortodoxos. O preparo segue as restrições da Bíblia ou Torá:O rabino tem de inspecionar a produção dos alimentosA carne tem de ser de animal ruminante e todo seu sangue é retiradoO peixe com escamas é o único permitidoLeite e carne não se misturam

ALIMENTOS TÍPICOS

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Guefilte Fish é uma espécie de musses de peixe com molho de raiz forte e beterraba. O peixe sempre se desloca para a frente, por isso dá sorteMaçã é obrigatório ter na mesa. É o símbolo do início do mundo, a fruta de EvaHalla é um pão tradicional com passas. É doce (assim como outros alimentos da mesa), para que o ano também seja assim, e redondo, no formato da vida (um ciclo)

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16/05/2008 - 12:52h Rancor por ‘60 anos de opressão’

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Paz – Shalom – Salam

Gilles Lapouge* – O Estado de São Paulo

Israel celebra seu 60º aniversário de fundação. Festas iluminam o país. Personalidades estrangeiras, entre elas o presidente George W. Bush, participam das comemorações. E os palestinos? Para os israelenses, a data é gloriosa. Para os palestinos é de luto, é o “dia da catástrofe”, ou “nakba. Já vimos algum dia um povo celebrar a sua “catástrofe”? O rancor palestino é total.

Até mesmo o moderado e indulgente presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, declarou em Ramallah que não receberia nenhuma delegação. E o premiê palestino, Salam Fayad, também mostrou seu mau humor: “Como vocês podem celebrar esta data enquanto o povo palestino padece sob o jugo de suas colônias e suas ações”, perguntou aos israelenses.

Por toda a parte é o furor. E uma rajada de críticas: a nakba começou em 1948, com a destruição de 400 povoados e o exílio de 760 mil palestinos expulsos de suas terras, enquanto 160 mil ficaram em Israel e se consideram cidadãos de “segunda classe”. Os palestinos forçados ao exílio tornaram-se 5 milhões. Israel proíbe seu retorno a um território que considera seu. Os que permaneceram em Israel, dizem-se vítimas de um apartheid. Mesmo a Corte Suprema de Israel reconheceu que eles eram discriminados.

Quando olhamos para os dois territórios palestinos, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, o quadro é ainda mais terrível. O famoso muro, erguido em 2000, foi sentido pelos palestinos como uma camisa-de-força mortífera com o fim de privá-los de seus campos e poços, para sufocá-los lentamente, matá-los sem muito ruído. Para eles, o objetivo do muro é tornar impossível o retorno dos palestinos às terras das quais foram espoliados.

A isso tudo se juntam os tiroteios, os foguetes, às vezes as bombas. Na quarta-feira, quatro palestinos foram mortos em Gaza. Desde o início das negociações de paz projetadas por Bush em novembro, 467 palestinos foram mortos (bem entendido, a essas acusações os israelenses replicam que foram os palestinos que começaram. Mas hoje fazemos eco das palavras dos palestinos, e não dos israelenses).

Os palestinos são vítimas de uma perseguição similar àquela sofrida pelos judeus nos tempos infames de Hitler. Gaza é “um campo de concentração”. O bloqueio paralisa a região. A vida ali é desumana. Para os palestinos, trata-se de um holocausto cometido pelos antigos mártires judeus.

O estranho é que essas acusações também são feitas por judeus europeus. Em Londres, cem personalidades judaicas assinaram um texto, publicado no jornal The Guardian, em que afirmam: “Nós não celebraremos o aniversário de um Estado criado tendo como base o terrorismo, os massacres e a espoliação das terras de outras pessoas. Um Estado que procede à limpeza étnica e inflige uma monstruosa punição coletiva à população civil de Gaza. É tempo de reconhecer o preço pago por um outro povo pelo anti-semitismo europeu e o genocídio hitlerista.”

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

08/05/2008 - 12:56h Escritor diz que Israel é ‘anormal e sem limites’

Guila Flint

De Tel Aviv para a BBC Brasil

Comemorações dos 60 anos de Israel

Escritor diz que país, que celebra 60 anos, está em conflito permanente

O escritor israelense Sefi Rachlevsky defende em seu livro No Limit (Sem Limites) a idéia de que o Estado de Israel e sua sociedade têm um caráter “anormal”, em comparação com outros países.

“O que aconteceu aqui é uma verdadeira tragédia. A maioria dos imigrantes que vieram para cá, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, queria viver em um país tranqüilo, normal e secular”, disse Rachlevsky, em entrevista à BBC Brasil.

Mas, para o escritor, Israel, que completa 60 anos de existência nesta quinta-feira, está em conflito permanente com seus vizinhos e não é tranqüilo, normal ou secular. Rachlevsky diz que Israel é um país “sem limites”.

“Uma das questões básicas que demonstram a falta de limites é a interferência da religião nas questões do Estado, em muitos aspectos Israel é uma teocracia.”

“Imagine que Israel é o único país do mundo onde um judeu não pode se casar com uma pessoa não judia, aqui não temos casamento civil, só religioso”, afirma. “Não temos uma Constituição que possa traçar os limites entre o Estado e a religião.”

“Problemas de personalidade”

Rachlevsky usa instrumentos da psicologia para analisar o impacto da ausência de limites sobre a sociedade israelense.

“Uma criança criada sem limites terá problemas sérios no desenvolvimento de sua personalidade”, diz. “São os limites que possibilitam o desenvolvimento de uma personalidade saudável e a capacidade de raciocínio e até de memória.”

“Sem limites se cria uma situação cognitiva difusa e dificuldades de desenvolver um pensamento conceitual, uma diferenciação entre a vontade e a realidade, uma lógica organizadora.”

Para Rachlevsky a ausência de limites é a chave para entender Israel, tanto sob o aspecto do conflito com o mundo árabe como fenômenos internos observados na sociedade israelense.

Sefi Rachlevsky nasceu em 1966, um ano antes da Guerra de 1967, quando Israel ocupou os territórios palestinos da Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, as colinas do Golã da Síria e o deserto do Sinai, do Egito.

Embora não tenha lembranças diretas dos primeiros 19 anos de Israel, antes da ocupação de 67, o escritor expressa uma certa nostalgia por aquele período.

“Aquela foi a primavera de Israel”, lembra. “Naquela época a sociedade israelense estava começando a consolidar uma certa normalidade, mas a ocupação destruiu esse processo, desde então não temos mais limites.”

De acordo com a análise do escritor, a falta de limites cria a violência, que se volta tanto para fora como para dentro da própria sociedade israelense.

“Nos primeiros anos do Estado havia uma solidariedade interna, as pessoas podiam deixar as portas de suas casas abertas, se alguém caísse na rua muitos corriam para socorrê-lo.”

Jimmy Carter

Rachlevsky também menciona uma ausência de limites morais e de parâmetros de conduta. “Veja como o governo de Israel tratou o ex-presidente americano Jimmy Carter, em sua última visita (em abril).”

“Nenhum país do mundo trataria Carter com tanta grosseria. Olmert se recusou a encontrá-lo e até os serviços de segurança se negaram a colaborar com os agentes americanos que o acompanhavam.”

O governo israelense criticou o livro que Carter escreveu, no qual acusou Israel de conduzir um regime de apartheid em relação aos palestinos.

Outro tema que despertou a indignação de Israel foram os encontros de Carter com líderes do Hamas, e o resultado foi o boicote do ex-presidente americano durante sua visita ao país.

Mas para Rachlevsky “isso não se faz”. “Não é só uma Constituição que falta em Israel, faltam normas de conduta, uma noção do que se faz e do que não se faz.”

“Carter intermediou o acordo de paz entre Israel e o Egito (em 1979), o maior país árabe, e Israel deveria agradecer e tratá-lo com a gentileza que ele merece, embora não concorde com suas posições atuais.”

Rachlevsky considera a colonização israelense nos territórios ocupados um dos efeitos mais significativos do caráter “sem limites” de Israel.

“Como pode um Estado enviar seus cidadãos para morar fora de suas fronteiras e depois lutar contra o próprio Estado e minar o próprio conceito de Estado?”, pergunta.

O escritor manifesta preocupação com a própria capacidade de Israel de continuar existindo e afirma que a ausência de limites pode destruir Israel “tanto por fora como por dentro”.

“Se Israel quer sobreviver vai ter que começar tudo de novo, realizar uma mudança enorme, como começar do zero. Terá que estabelecer fronteiras físicas e políticas, princípios básicos de conduta para a sociedade e seus líderes, uma Constituição e construir um sistema de valores.”

11/02/2008 - 09:42h “Compartimos una tierra y un destino”

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Por Daniel Barenboim
Para LA NACION, Milán 2008

Con frecuencia he afirmado que los destinos de los pueblos palestino e israelí están indisolublemente unidos, y que no hay solución militar para el conflicto. Mi reciente aceptación de la nacionalidad palestina me ha dado la oportunidad de demostrarlo de manera más tangible. Cuando mi familia se trasladó a Israel desde la Argentina en la década de 1950, una de las intenciones de mis padres era ahorrarme la experiencia de crecer como parte de una minoría… una minoría judía. La tragedia de eso es que mi generación, a pesar de haber sido educada en una sociedad cuyos aspectos positivos y valores humanos han enriquecido enormemente mi pensamiento, ignoró la existencia de una minoría dentro de Israel -una minoría no judía- que había sido la mayoría en toda Palestina hasta la creación del Estado de Israel, en 1948. Parte de la población no judía permaneció en Israel, y el resto se marchó por miedo a ser desalojada por la fuerza.

En el conflicto palestino-israelí ha habido, y aún hay, una incapacidad de admitir la interdependencia de las dos voces. La creación del Estado de Israel fue consecuencia de una idea judeo-europea que, si pretende extender su leitmotiv al futuro, debe aceptar la identidad palestina como leitmotiv igualmente válido. Es imposible ignorar el desarrollo demográfico: en Israel los palestinos son una minoría, pero en rápido crecimiento, y ahora es más necesario que nunca escuchar su voz. Los palestinos hoy constituyen aproximadamente el 22% de la población de Israel. Es un porcentaje mayor que el representado por una minoría judía en cualquier país en cualquier período de la historia. El número total de palestinos que viven en Israel y en los territorios ocupados (es decir, en el Gran Israel para los israelíes o en la Gran Palestina para los palestinos) es mayor que el de la población judía.

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