18/11/2009 - 11:55h Relatório preliminar do apagão mantém meteorologia adversa como causa

Chico Santos e Rafael Rosas, do Rio – VALOR

Um relatório inconcluso feito durante o dia de ontem por cerca de 70 técnicos de empresas e órgãos envolvidos com o blecaute ocorrido no sistema elétrico brasileiro na semana passada não esclareceu definitivamente as causas do evento, mantendo duas hipóteses, ambas decorrentes de condições meteorológicas desfavoráveis: as três linhas que ligam a hidrelétrica de Itaipu, no Paraná, ao Sudeste do país, foram desligadas simultaneamente na subestação de Itaberá (SP) ou por “descargas atmosféricas” (raios) ou pela perda de capacidade de isolamento de uma das linhas provocada por acúmulo de água da chuva nos isoladores.

As informações foram dadas no começo da noite de ontem pelo diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp. O ONS é o órgão encarregado de fazer funcionar o Sistema Interligado Nacional (SIN) de abastecimento elétrico e a reunião foi realizada na sua sede (centro do Rio). Chipp disse que o documento, denominado Relatório de Análise de Perturbação, estará concluído na sexta-feira ou, no máximo, na segunda-feira, para ser encaminhado ao Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) e, em seguida, à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), órgão fiscalizador do sistema.

Chipp disse que as conclusões a que se chegou até agora resultaram da análise dos registros feitos pelos equipamentos instalados nas principais subestações do SIN. Em linguagem bastante técnica, ele buscou explicar que o apagão, que atingiu 18 Estados e reduziu em mais de 52% a carga elétrica do país no dia 10 deste mês não tinha como ser evitado nas condições em que ocorreu, com intervalo de milésimos de segundo entre o desligamento de uma linha e outra.

Segundo os dados, um curto-circuito, provocado por raio ou por perda de capacidade de isolamento, desligou primeiro a fase B da linha nº 1 (cada linha tem três fases). Apenas 13,5 milésimos de segundo depois, houve outro curto na fase A da segunda linha e 3,2 milésimos de segundo depois, outro curto atingiu a terceira linha. O desligamento da primeira linha, naquelas condições, pode ter causado sobrecarga nas demais, gerando o desligamento em cadeia. Chipp disse que de 2000 a 2009 foram registradas nove ocorrências triplas e dez duplas de curtos-circuitos nas mesmas linhas sem provocar blecautes porque, naqueles casos, houve intervalos de três a cinco segundos entre cada curto.

O diretor do ONS, assessorado por técnicos, disse que, nas condições em que ocorreu, o blecaute não tinha como ser evitado. Segundo ele, o desligamento de uma das linhas, para reduzir a carga por medida de segurança, feito às 13h31 da tarde do mesmo dia foi apoiado nas informações meteorológicas recebidas permanentemente do Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), acrescentando que as informações recebidas à noite não justificavam novos desligamentos, embora o tempo continuasse ruim. O blecaute começou às 22h13.

Segundo informações do setor obtidos pelo Valor, à tarde a chuva e o vento chegaram a caracterizar situação de ciclone na área de Foz do Iguaçu, o que não teria ocorrido à noite. Ante a insistência de jornalistas para saber se as informações meteorológicas recebidas pelo ONS poderiam ter subestimado a intensidade das chuvas, ventos e raios, Chipp, irritado, disse que a pergunta deveria ser feita aos órgãos meteorológico. Ele mostrou também irritação quando foi lembrado de que o Inpe soltou um aviso de que as condições de tempo em Itaberá não eram ruins na hora do blecaute. “Acho que o Inpe deve cuidar das condições climáticas. Do efeito disso quem cuida somos nós. As consequências para o setor elétrico são da responsabilidade do setor elétrico.”

Chipp concordou que o fato das ocorrências terem acontecido perto da subestação de Itaberá, para onde as três linhas convergem, pode ter facilitado o blecaute, mas disse que seria antieconômico fazer uma outra linha (redundância) por outro caminho, como sugeriram especialistas. “É antieconômico construir um sistema para suportar esse tipo de contingência. Presido um grupo que congrega as 12 maiores operadoras de sistemas do mundo. Ninguém tem esse nível de redundância.”

17/11/2009 - 13:25h Energia: Para Mário Veiga, da PSR Consultoria, modelo é eficiente

Sistema do Brasil não é frágil, diz especialista


Nelson Perez/Valor
Foto Destaque
Engenheiro Mário Veiga, da PSR Consultoria: discurso de que faltou investimento pode representar, se vitorioso, custo adicional para o consumidor

Josette Goulart, de São Paulo – VALOR

O apagão que afetou 18 Estados, retirou a maior usina hidrelétrica do país do sistema e deixou São Paulo completamente às escuras foi forte o bastante para que as culpas pudessem ser atribuídas ao governo, no clima pré-eleitoral em que o país já vive. Especialistas independentes negam que o sistema elétrico brasileiro seja frágil. O engenheiro eletricista Mário Veiga é um deles. Ele preside uma das consultorias mais prestigiadas no setor elétrico, a PSR Consultoria.

Com mestrado e doutorado na área de pesquisa operacional, Veiga diz que o Brasil tem um sistema complexo como complexa é qualquer rede elétrica, de qualquer país, e com equipamentos sujeitos a falhas. Ele acredita que apesar da pressão política, a diretoria do Operador Nacional do Sistema (ONS) está blindada e deve divulgar ainda hoje exatamente os fatores do apagão da semana passada. Com isso será possível consertar os erros e seguir em frente na gestão do sistema. E alerta que o discurso de que o que faltou foi investimento esconde um passivo futuro para o consumidor. O Valor chegou ao nome de Veiga após consultar mais de 10 especialistas e executivos do setor pedindo a indicação de um profundo – e isento – conhecedor do sistema elétrico nacional.

Valor: O sistema elétrico no Brasil é frágil?

Mário Veiga: Não, o sistema elétrico brasileiro não é frágil. O que temos que fazer é separar o que é oferta de geração, que está associada ao risco de racionamento de energia, a oferta de transmissão, que é a infraestrutura que transporta essa geração até os centros de consumo, e a infraestrutura de gestão, quer dizer, a operação segundo a segundo nesse sistema. Na parte de geração estamos até com excesso de oferta, o que permite que Brasil absorva com facilidade taxas altas de crescimento do PIB. A parte de transmissão acompanha a parte de geração. Os leilões de construção de linhas são feitos para que as linhas necessárias e reforços estejam prontos quando entrarem novos geradores no sistema. Nos últimos nove anos, foram licitados – e a maior parte construídos -, cerca de 32 mil quilômetros de linha de alta tensão. Comparado ao comprimento total hoje, de 80 mil quilômetros, nota-se que os investimentos foram significativos em transmissão. Então, estamos bem na parte de geração e de infraestrutura de transmissão.

Valor: E na parte de gestão de infraestrutura, que tem recebido tantas críticas?

Veiga: Na parte de gestão, as medidas que foram tomadas quando houve a reforma do setor foram de, primeiramente, centralizar a autoridade da operação no ONS. O ONS tem total autonomia e autoridade para operar o sistema minuto a minuto, da maneira mais eficiente possível. Esse é um desafio para qualquer operador do mundo, porque a cada segundo o total de energia produzida tem que ser exatamente igual ao de energia consumida. Essa operação é feita em três horizontes. Num olhar para os próximos três a cinco anos é que, estrategicamente, se decide como usar os reservatórios do país. Isso é feito por um processo de otimização bastante sofisticado, que leva em consideração literalmente bilhões de combinações de cenários futuros. Depois, essa decisão é detalhada na programação para as próximas 24 horas, em que o ONS, em coordenação com os centros regionais, determina o cronograma de produção de cada usina. Depois vai para o tempo real, em que, de segundo a segundo, a operação do sistema é ajustada para ficar sempre igual à demanda.

Valor: Parece um processo simples…

Veiga: A rede elétrica foi considerada há alguns anos pela academia americana de engenharia como o sistema mais complexo jamais feito pelo ser humano. É a máquina mais complexa já feita. Isso porque existem centenas de milhares de componentes que têm que funcionar, segundo a segundo, como o programado. A vantagem desse sistema é permitir que geração barata chegue à casa dos consumidores. Quando a energia elétrica foi produzida e distribuída em escala comercial pela primeira vez, com a descoberta de Thomas Edison, cada quarteirão tinha seu próprio gerador, porque não havia capacidade de transmitir energia a distancias muito longas. Isso teria a vantagem de nunca haver um blecaute, porque é como se cada quarteirão fosse um sistema isolado. A desvantagem é que esses geradores funcionavam a óleo e eram caríssimos. Quando foi inventado o sistema de corrente alternada, isso permitiu que fossem construídas linhas de transmissão de longas distâncias. Se poderia, assim, construir mais longe um gerador maior e, portanto, mais barato, por causa da economia de escala. Então rapidamente, no mundo inteiro, os sistemas deixaram de ser isolados para se integrarem. Foi um processo que beneficiou os consumidores, porque contribuiu para reduzir o custo de energia.

Valor: Não foi diferente no caso do Brasil, certo?

Veiga: No caso do Brasil, isso era fundamental por causa das usinas hidrelétricas. Se você pega o exemplo do Equador ou Peru, que são países de tamanho menor, um evento meteorológico pode causar uma seca simultânea em todo o país. O Brasil, por ter área muito grande, tem várias regiões climáticas. A vantagem de termos uma rede interligada é que pode funcionar como se fosse um portfólio. Igualzinho quando a pessoa tem varias ações na bolsa de valores para poder diversificar o risco. Quando chove na região Norte, não chove no Nordeste, quando chove no Sudeste, não chove no Sul. Então eu posso aproveitar muito melhor essa diversidade de produção hidrelétrica e ter um sistema com muita participação hidráulica, mas que seja seguro. O que o operador nacional faz permanentemente é, atraves do modelo de otimização, buscar energia de onde está chovendo, onde os reservatórios estão melhores, e transferir para regiões onde está chovendo menos e os reservatórios estão mais vazios. Isso permitiu ao longo do tempo que a produção de energia fosse muito eficiente e transferiu o benefício da energia mais barata possível para o consumidor.

Valor: Mas também traz o risco de apagões maiores?

Veiga: O fato de as hidrelétricas estarem localizadas a milhares de quilômetros dos centros de consumo torna a operação mais complexa do que naturalmente já é. Você tem cada vez mais a possibilidade do sistema entrar no que se chama de oscilação e que pode se traduzir em um apagão.

Valor: Como acontece essa oscilação?

Veiga: A cada segundo você tem fluxo de energia passando em todas as linhas de transmissão do sistema. Evidente que uma linha pode falhar. Pode cair um raio, pode haver uma falha nos componentes. Quando a linha falha é preciso tirá-la de operação e desligá-la. Isso é feito porque, se ela se danificar, vai levar meses para consertá-la e colocá-la de volta no sistema. Se essa linha é desligada, a energia que estava passando por ali, automaticamente, numa fração de segundo, vai por um outro caminho, porque a energia não pode desaparecer. Se der azar de que nesse outro caminho já estava passando quantidade grande de energia, ele vai ficar sobrecarregado. Nesse caso, equipamentos chamados relés identificam que aquele caminho está transferindo mais energia do que aguenta e a segunda linha também é desligada. A energia associada ao primeiro caminho, mais a energia do segundo, vai por um terceiro caminho, que por sua vez pode dar o azar de ser sobrecarregado e assim por diante. Aí se tem o efeito cascata e o apagão.

Valor: O senhor usou muito a expressão “se der o azar”. Então é azar mesmo?

Veiga: É um pouco de azar sim, pelo seguinte: o operador do sistema não tem, em nenhum país, o controle de quanto fluxo está passando em cada linha, porque os fluxos se distribuem de acordo com as chamadas leis de Kirchhoff. Se eu tenho duas linhas em paralelo, eu não posso forçar que em uma linha passe uma quantidade de energia, e em outra linha, outra quantidade. A natureza automaticamente distribui a energia entre as duas linhas em função das características elétricas das linhas.

Valor: Não há tecnologia para se medir esse fluxo?

Veiga: Poderia se fazer por meio de links de corrente contínua. Mas seria caríssimo.

Valor: Então ficamos à mercê das leis de Kirchhoff?

Veiga: Quando se planeja a transmissão, é feita uma série de simulações com milhões de cenários, que permitem que seja possível levar em consideração que os fluxos se distribuem de determinada maneira. É simulada a retirada de cada linha, uma a uma, para verificar por onde passariam os fluxos e garantir que, tirando uma linha, esses fluxos ainda passariam por uma outra linha e não teriam problemas. O sistema é planejado para levar em consideração que os equipamentos falham. Porque eles falham mesmo. Então o sistema é desenhado levando em consideração que linhas podem falhar e é colocado um reforço no sistema, isto é, se criam caminhos alternativos de transporte de energia.

Valor: Aparentemente não havia esse caminho alternativo na semana passada.

Veiga: Existe um problema particular quando se tem uma usina como Itaipu. Ela é muito grande, responde por 20% da geração do país, e está a 900 quilômetros do centro de carga. Então é como se todos os caminhos andassem juntos. Mas o sistema de Itaipu é protegido e não é qualquer raio que o derruba. Se pode perder uma linha, até duas linhas, que não dá problema. Mas ninguém desenhou ou projetou o sistema para a saída de três linhas de operação, como disse o ONS. E não é uma questão de colocar mais reforços, pois custariam centenas de milhões de reais, que onerariam a conta do consumidor.

Valor: Não há margem de manobra, então, quando caem as três linhas que ligam Itaipu ao Sudeste?

Veiga: O que torna a operação ainda mais complicada é que, como estes fenômenos ocorrem em frações de segundos, o ser humano não tem tempo de agir. É por isso que se faz uma pré-programação e o sistema está preparado para, quando determinada linha receber fluxo maior, que ela seja desligada. Mas algumas vezes pode acontecer de o equipamento falhar e não acionar a instrução dada para se desligar a linha. Aí aquilo que devia estar desligado continua ligado e se começa a ter problemas, porque toda a coreografia previamente ensaiada pode começar a falhar.

Valor: O sr. não acha que a explicação da causa do apagão está demorando?

Veiga: Amanhã (hoje) vai sair a análise do ONS do que aconteceu. A demora é justificável, porque o sistema possui registros segundo a segundo do que aconteceu, como se fossem caixas pretas. O que os técnicos estão fazendo é olhando essas caixas pretas e verificando cada relé, cada chave, cada disjuntor para saber o que aconteceu.

Valor: Por essa complexidade, parece que não é fora do normal ter demorado para voltar a luz…

Veiga: Sim e não. Porque você também se prepara para a falha. Imagine que houve um blecaute num país e toda a demanda desapareceu. A linha pode ser religada em frações de segundo, mas isso não é feito, porque quando existe uma falha do país inteiro o operador sabe qual era o consumo um segundo antes de dar o problema, só que quando falta a luz, as pessoas desligam seus equipamentos. O operador tem um problema complicado, porque ele não sabe qual a demanda que vai ter no sistema quando ele religar. Vamos imaginar que o sistema estava consumindo 50 mil MW na hora que caiu a energia, mas pessoas desligaram seus aparelhos e a carga, se fosse religada, seria de 30 mil MW. Mas operador estimou 40 mil MW e se ele religar haverá novo desequilíbrio e o sistema cai de novo. Por isso é feita uma divisão no sistema, já pré-programada, que se chama de ilhamento. Se o ilhamento funcionar você continua tendo o sistema que caiu, mas sabe que ele foi isolado. Agora existem vários megaquarteirões e se começa a recuperar a geração para cada um separadamente. O ideal, que qualquer centro de controle busca, é que as falhas não ocorram, mas se ocorrerem que se consiga fazer o desligamento de maneira organizada. No relatório do ONS, um dos assuntos que vai ser discutido é se esse esquema de desligamento funcionou 100% como esperado ou, se pela magnitude da falha, não teria condições físicas de esse esquema funcionar. O que significa que caiu mais energia do que se esperava. Se pode usar o script mas também é preciso usar a experiência do operador.

Valor: Nunca se cogitou a possibilidade de Itaipu sair do sistema?

Veiga: Não posso falar pelo ONS, mas em nenhum lugar do mundo se planeja o sistema para falharem três linhas de transmissão como aconteceu na semana passada. Certamente foi um evento absolutamente inesperado. O importante é saber se as três linhas falharam por um azar imenso, ou se houve uma causa comum, um megarraio nas três linhas, ou se na verdade quando uma falhou, houve algum problema na proteção que, de alguma maneira – isso certamente o ONS vai esclarecer -, teria levado à falha das outras duas. Então é o seguinte: se deu um azar cósmico e falharam as três ao mesmo tempo por razões independentes, aí realmente é um azar gigantesco e é muito pouco provável mesmo. O que é mais provável é terem falhado uma ou duas das linhas e ter havido mais um incidente que levou à falha da terceira. Em geral, as falhas que causam problemas nunca são espetaculares. São uma combinação inesperada de fatores que, cada um isoladamente, não traria problemas.

Valor: Poderia ter sido evitado este apagão?

Veiga: Prevenir-se do conjunto de pequenas causas é um grande desafio, porque estamos falando de milhares e milhares de componentes, e quando você pensa em todas as combinações de pequenos acidentes que podem no conjunto dar errado, você estaria analisando bilhões ou trilhões de possíveis causas. Tenta-se da melhor maneira possível se prevenir, com reforços, com caminhos duplicados, mas sempre é possível acontecer um problema.

Valor: O fato de Itaipu naquele momento estar gerando a plena capacidade pode ter contribuído?

Veiga: Claro que se tivesse gerando pouco, e as três linhas falhassem, a energia poderia passar pelas outras. Mas se durante seis anos, que foi o tempo entre o último blecaute e agora, se tivesse criado um procedimento para Itaipu nunca gerar a plena capacidade, se estaria deixando de utilizar a energia hidrelétrica barata de Itaipu para utilizar algo mais caro. Quando se faz a conta, se vê que isso possivelmente não era uma solução razoável. O fundamental é que causas sejam explicadas, identificadas e erros corrigidos. Se foi algo imprevisto, paciência, tem que melhorar.

Valor: De certa forma o sistema formou um ilhamento, mas que abrangeu todo o Sudeste..

Veiga: Quando se perde toda a energia de Itaipu, não tem jeito, lembre que a cada segundo o total de geração tem que ser o total de demanda, então se toda a energia de Itaipu sai do ar tenho que cortar essa demanda, e nas áreas que são mais afetadas pela energia que foi embora. Então não tem jeito, que o Sudeste ia ser cortado, ninguém tem dúvidas. A questão que o ONS vai esclarecer é se pelo fato de ter havido falha mais severa é que foi necessário cortar mais demanda do que a oferta de Itaipu.

Valor: Então o Sudeste sempre vai ser afetado pela saída de Itaipu?

Veiga: A gente fica traumatizado, mas é bom lembrar que é a primeira vez na história que houve a saída de Itaipu. Se Tucuruí falhar, vai afetar o Nordeste. Não tem almoço grátis. São os riscos que traz uma energia limpa, barata. Mesmo com todos os esforços para evitar que ocorram acidentes, nunca é impossível de se ter apagão. O importante sempre é que as recomendações e aperfeiçoamentos sejam implementados.

Valor: O sr. acredita que o ONS tem liberdade para divulgar exatamente tudo o que aconteceu, ou vai existir pressão política?

Veiga: Não imagino que haja pressão política e uma das razões é que na lei do modelo do setor elétrico foi dada total blindagem política para a diretoria do ONS. Embora o ONS seja empresa privada, as empresas que contribuem não tem qualquer ingerência no ONS, nem o governo. Essa blindagem existe para dar todas as condições de o operador fazer um trabalho técnico, que sempre tem feito.

Valor: A experiência vivida em outros apagões foi aproveitada?

Veiga: Várias recomendações da análise dos apagões de 1999 e 2003 foram aproveitadas. Não sei se todas, mas várias delas com certeza foram. Mas este é um processo que tem que ser constante. E não se é obrigado a implementar todas as propostas, porque alguma delas têm que comparar custo e benefício para saber se vale à pena. O fato de não ser implementada não significa que houve descuido ou descaso.

13/11/2009 - 16:57h Resposta séria ao blecaute da inteligência serro-tucana

Blecaute

LUIZ PINGUELLI ROSAFOLHA SP


Não há sistema tecnológico sem falhas. Mas o sistema interligado é inteligente, pois otimiza o uso da geração hidrelétrica

AINDA PAIRAM algumas dúvidas sobre o blecaute que atingiu vários Estados brasileiros, mais drasticamente São Paulo e Rio de Janeiro.
É preciso esclarecer, porém, que o ocorrido na terça-feira foi totalmente diferente do chamado apagão de 2001, quando o governo decretou um racionamento obrigatório de energia elétrica para toda a população, sob pena de desligamento de residência ou empresa por alguns dias caso não fosse cumprido o corte no consumo.
Naquela ocasião, havia falta de energia para atender a demanda, pois esta vinha crescendo mais rapidamente do que a capacidade instalada no país. Enquanto houve chuvas suficientes para a geração hidrelétrica, o sistema funcionou e o problema foi adiado. Quando as chuvas se reduziram, os reservatórios estavam vazios e faltou energia no sistema.
Alertei o então presidente Fernando Henrique Cardoso por uma carta, como coordenador do Instituto Virtual da Coppe/UFRJ, e cheguei a conversar com José Jorge, à época ministro de Minas e Energia.
Naquele caso, houve falta de investimento. As estatais elétricas, a começar pela Eletrobrás, reduziram seus investimentos, pois aguardavam a privatização. Já as empresas privatizadas, a maioria delas distribuidoras nos Estados, pouco investiram.
O problema da última terça-feira tem mais semelhança com o blecaute de 1999, que também desligou São Paulo e muitas outras cidades, algumas por muito mais horas do que o recente incidente. Aquele problema se originou em uma subestação de transformadores em Bauru (SP), causado por uma sobretensão elétrica supostamente devida a um raio que atingiu a linha de transmissão a muitos quilômetros de distância e se propagou até a subestação -que deveria estar protegida. Como não estava, o sistema falhou.
O que ocorreu nesta semana foi a interrupção de três linhas que trazem a energia de Itaipu ao Sudeste, acarretando o desligamento de todas as turbinas da usina e causando o desligamento de várias outras linhas em cascata. Daí a propagação do blecaute ter atingido tantas cidades. O efeito é como uma série de pedras de dominó que caem uma por cima da outra.
O desligamento das linhas em sobretensão é correto, pois as protege e evita danos a equipamentos e perdas de transformadores por sobrecarga. Portanto, o desligamento automático das linhas de transmissão é inevitável em certos casos críticos como o de agora. Os efeitos seriam muito piores se o desligamento não ocorresse.
No entanto, algumas questões ainda precisam ser respondias. A primeira delas é o que causou a sobrecarga. Uma hipótese aventada é que raios tenham causado tudo isso. Três linhas sofreram colapso, embora todas sejam protegidas por para-raios, que são fios paralelos ao longo das linhas.
Talvez uma delas tenha sido atingida, a sobretensão tenha se propagado indevidamente para dentro da subestação em que as outras também tenham sido afetadas. É uma hipótese.
Como evitar a repetição de blecautes? Não há sistema tecnológico com 0% de falhas. O que pode ser feito é minimizá-las, tanto na frequência de ocorrências desse tipo como na gravidade delas.
Eliminar o uso da transmissão de longa distância seria uma bobagem, pois o Brasil é uma Arábia Saudita hidrelétrica. Integrando em um longo tempo a energia que se pode obter do potencial hidrelétrico brasileiro, o resultado é maior que a energia do petróleo do pré-sal. O sistema interligado é inteligente, pois otimiza o uso da geração hidrelétrica, complementada por outras fontes.
Uma proposta que tem sido recentemente estudada em todo o mundo é o de redes elétricas inteligentes, ou seja, fazer uma gestão melhor das redes para diminuir incertezas, evitar problemas de pico de tensão e falhas, com um sistema de controle ponto a ponto ao longo das redes.
Nos Estados Unidos, Nova York sofreu um blecaute em 2003 que, sob certos aspectos, foi mais grave.
Há poucos meses, o professor Pravin Varaiya, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, esteve no Programa de Planejamento Energético da Coppe para participar de um seminário sobre essas redes inteligentes de energia elétrica. Mas os estudos ainda precisam avançar, inclusive para prevenir vulnerabilidades como o acesso indevido à rede por hackers.
O que se mostrou vulnerável aqui no nosso caso foi a enorme extensão da área atingida e a grande população que sofreu as consequências, pois não se conseguiu ilhar a propagação do efeito para circunscrever suas consequências a uma região menor. É necessário apurar os fatos para corrigir as falhas e aperfeiçoar o sistema.


LUIZ PINGUELLI ROSA , 67, físico, é diretor da Coppe-UFRJ (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e secretário do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Foi presidente da Eletrobrás (2003-04).

13/11/2009 - 09:08h Blecaute teve erro humano ou falha de equipamento

http://oglobo.globo.com/fotos/2007/03/31/31_PHG_MUNDO_BLECAUTE.JPG

Chico Santos, do Rio – VALOR

Erro humano ou falha de equipamento (computador) ao fazer as compensações geradas pelo desligamento automático de uma das linhas de Itaipu são as causas mais prováveis para o apagão de terça-feira, na avaliação de dois professores da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), Roberto Schaeffer e Carlos Portela. Portela disse ao Valor não entender por que a causa do acidente ainda não foi apurada, uma vez que, segundo ele, está, com certeza, registrada nos computadores das subestações envolvidas.

Nascido em Portugal, Portela é especialista na construção de grandes linhas de transmissão, como a de Itaipu. Na década de 1960, foi um dos responsáveis pela construção da linha de 1.450 quilômetros que leva energia da hidrelétrica de Cahora Bassa, em Moçambique, para a África do Sul. Ele disse que teriam sido necessárias três descargas atmosféricas (raios) simultâneas, com intensidade capaz de desligar uma linha de 765 kilovolts (kV), para que houvesse o desligamento das três linhas de corrente alternada de Itaipu. Sem contar as de corrente contínua, que têm quatro polos e podem funcionar com apenas um polo. “Acho improvável que isso tenha ocorrido. O normal seria que a carga da linha atingida fosse transferida para outra. Falta alguma coisa a ser revelada”, afirmou.

Na avaliação de Portela, que leciona engenharia elétrica na Coppe, a partir da falha, humana ou de equipamento, que gerou o desligamento de Itaipu, a sequência que se seguiu não chega a ser anormal, dados os mecanismos de proteção do sistema, que vão provocando desligamentos em cadeia.

Ele acha que a hipótese de Itaipu estar gerando energia acima do necessário é “improvável”, seja porque as variações de carga no Brasil não são elevadas, seja porque Itaipu já foi mais sobrecarregada, quando respondia por 34% da energia consumida no país. Para Portela, tudo pode ser esclarecido consultando-se os registros dos computadores das subestações.

Para Schaeffer, que é professor de planejamento energético da Coppe, “o governo quis rapidamente dar uma explicação para um problema, cuja resposta, na realidade, ainda não se sabia”. Na opinião do especialista, o evento inicial, a parada da linha de Itaipu, pode ter sido provocada por um evento meteorológico, como afirma o governo, ou por falha de um equipamento, mas “o mais sério foi a propagação do problema”.

Shaeffer disse não haver dúvidas de que as linhas de transmissão brasileira evoluíram nos últimos anos, e que a propagação do apagão só pode ser justificada por falha humana ou de equipamento. “Por ser parte muito importante do sistema elétrico brasileiro, o problema tem que ser rapidamente corrigido”, disse o especialista, para quem o apagão “acende uma luz amarela para que se trabalhe na melhoria da gestão”.

Para Schaeffer, o setor elétrico brasileiro tem muitos “caciques” dando ordens, o que pode gerar perturbações. Mas ele discorda de que, neste caso, a superposição de órgãos tenha tido alguma interferência no ocorrido. “Na operação, a atribuição é clara: o responsável é o ONS (a sigla do Operador Nacional do Sistema Elétrico)”, afirmou. Na avaliação de Schaeffer, ou falhou algum equipamento de Furnas (dona das linhas de transmissão) ou a gestão do ONS.

12/11/2009 - 08:42h Blecaute: Especialistas consideram que sistema é seguro

http://mybelojardim.com/wp-content/uploads/2009/08/Linhas-de-alta-Tensao-de-Transmissao-de-Energia-450-338.jpg

Colapso energético: Desligamentos são frequentes, afirmam técnicos

Josette Goulart, de São Paulo – VALOR

Mesmo diante de um blecaute que deixou os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul completamente às escuras por horas durante a noite de terça-feira e a madrugada de ontem, especialistas importantes do setor elétrico são enfáticos ao dizer que o Brasil tem um sistema seguro.

Dezenas de ocorrências de desligamentos automáticos de linhas de transmissão e unidades geradoras são registradas frequentemente nos boletins do Operador Nacional do Sistema, mas os sistemas são rapidamente ajustados e eventuais cortes de energia duram minutos. Não são sequer noticiados. Neste ano, por exemplo, duas linhas de Itaipu já tinham saído do sistema sem causar blecautes.

Na terça-feira passada foi diferente porque as cinco linhas de transmissão que transportam a energia de Itaipu deixaram de funcionar por um evento considerado atípico. Duas dessas linhas são de corrente contínua e operam na mesma frequência que a energia transmitida ao Paraguai. Saíram de operação por sobrecarga dos sistemas, que por proteção se autodesligam. O problema ocorreu nos outros três circuitos que sofreram um curto por descargas elétricas atmosféricas, segundo a informação oficial do governo .

Ocorre que, sem as três linhas em operação, toda a usina hidrelétrica de Itaipu saiu do sistema. Como ela é a usina responsável por fornecer 25% da energia do país, principalmente ao Sudeste, ao sair de operação ela tem poder de deixar a região às escuras. Sorte que foi durante a madrugada.

A preocupação do ONS com Itaipu vem aumentando nos últimos anos. Mas o operador já verificou que mesmo com duas das principais linhas de Itaipu desligadas é possível evitar blecautes no Sudeste. O ONS tem até mesmo um esquema especial de proteção para Itaipu que foi colocado em teste em 4 de julho desse ano. Está registrado nos boletins do ONS que nesse dia houve a queda de duas das linhas da usina e para proteger o sistema e evitar a sobrecarga foram tiradas de operação turbinas de Itaipu e de Tucuruí, distante 3.500 quilômetros de Foz do Iguaçu. A necessidade de reduzir a geração também em Tucuruí é para evitar que as linhas que ligam o Norte ao Sul sofram sobrecarga e causem um apagão em série nestas regiões.

O ex-presidente da Companhia de Transmissão Paulista e professor da Universidade de São Paulo, Sidnei Martini, lembra que no ano passado quando ainda estava na presidência da Cteep, também aconteceu de duas linhas de transmissão que ligam Itaipu ao Sudeste terem sido desligadas automaticamente por problemas meteorológicos. “Lembro que pensamos: nosso sistema é mesmo seguro pois conseguimos segurar a energia de Itaipu só com uma linha operando”, disse Martini. “Se fosse um sistema frágil teríamos tido muitos apagões nestes dez anos.”

No boletim interno do ONS (o jornal Ligação) de julho deste ano, um técnico do ONS reportava que o órgão estava se empenhando em um esquema especial de proteção para Itaipu e que todo esse empenho era necessário pela frequência com que ocorrem desligamentos desses dois circuitos próximos a usina. Isso preocupa uma importante fonte do setor, mas que lembra que são com apagões como o que ocorreu essa semana que os sistemas são aprimorados.

É por causa de seu poder de causar um blecaute caso saia de operação que a usina de Itaipu é vista como a infraestrutura mais crítica do país. Mas foi somente no ano passado que as autoridades brasileiras começaram a elaborar um plano nacional de segurança de suas infraestruturas para evitar ataques ou ter um plano de contingências que possa resolver rapidamente a situação e dar segurança a população que fica desprotegida.

O vice-presidente da Rede Energia, Sidney Simonaggio, destaca que apesar de uma grande parte do Brasil ter sido atingida, rapidamente os sistemas do Nordeste, Norte e Sul foram retirados do sistema interligado e a energia rapidamente foi restabelecida. Se fosse um sistema frágil, segundo Simonaggio, todo o país teria ficado no escuro.

Ao todo 18 estados foram atingidos. O apagão teve início às 22h13. Mas as 22h29, o Sul do país já estava religado. Em menos de meia hora, os estados do Norte e Centro-Oeste também. Antes das onze da noite, o Nordeste também teve sua situação regularizada. “Nosso sistema não é frágil”, diz José Cláudio Cardoso, presidente da Associação das Transmissoras.

A mesma frase foi usada pelo ex-diretor geral da Aneel, Jerson Kelman. Lembrou ainda Kelman que nenhum sistema é infalível e que o Brasil tem sim o risco do sistema interligado, ou seja, de uma queda em série. Mas ao mesmo tempo é esse sistema que impede que a falta de água nas hidrelétricas em alguma região reflita em falta de energia em outra. O professor da USP Ildo Sauer diz que o problema não é falta de investimento, mas que o apagão reflete uma fragilidade na gestão do sistema. Alguns especialistas lembram que o fato de termos um sistema completamente automatizado também é muito suscetível a hackers.

11/11/2009 - 18:07h Especialistas criticam politização do apagão

http://1.bp.blogspot.com/_Cnlp-CZMM8g/So6pWeR_EQI/AAAAAAAAAXY/H--l5IMQgYE/s400/AARTHUR+VIRGK%C3%8DLIO+iii.jpgAndrea Matarazzo

Vírgilio e Matarazzo (PSDB), tentando lucrar com o acidente que provocou o blecaute ontem

ELIZABETH LOPES – Agencia Estado

SÃO PAULO – O embate político que está sendo travado pela oposição e governo em torno do apagão é um sinal de que o debate eleitoral que já permeia o cenário sucessório de 2010 precisa ser mais qualificado. Para o cientista político Humberto Dantas, é preciso que as discussões deixem de se pautar apenas em tiroteios, críticas e ataques mútuos sobre eventos ocorridos. Já para o cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, o uso político do blecaute pela oposição é um sinal de que o PSDB, principal adversário político do PT, ainda não encontrou um discurso capaz de polarizar com o governo Lula.

“Eu creio que questões como o blecaute de ontem, que trouxe transtornos e problemas a milhões de brasileiros de diversos Estados do País, não deveriam ser usadas apenas como instrumento de ataque político. Precisamos elevar o debate eleitoral, debater ideias e propostas que mudem a cara do Brasil, e não continuar na mesmice de um debate empobrecido, sem perspectivas práticas”, avalia Humberto Dantas, conselheiro do Movimento Voto Consciente.

A falta de robustez e qualificação no debate político-eleitoral também é criticada por Marco Antônio Carvalho Teixeira, pesquisador da PUC e da FGV de São Paulo. “A oposição, sobretudo o PSDB, ainda não conseguiu polarizar com o governo Lula em termos de propostas e projetos para o País, por isso fica pegando carona em eventos, como o apagão.” O cientista concorda que é fundamental discutir essa questão, mas não simplesmente como tema de manobra política. “Infelizmente não se está discutindo no País soluções e saídas para os problemas, mesmo que o objetivo seja desqualificar um adversário (político)”, reitera.

Independentemente da falta de conteúdo em determinados embates eleitorais, Carvalho Teixeira acredita que o governo do presidente Lula está levando vantagem nas discussões do campo político. “Se para 2009 os analistas previam um cenário ruim e a economia melhorou, provavelmente iremos chegar às vésperas das eleições 2010 com excelentes indicadores econômicos”, diz o pesquisador. “Vale lembrar que a despeito das discussões políticas e ideológicas, a grande massa de eleitores acaba votando mais com ”o bolso”. Ou seja, se um governo está propiciando comida na mesa e dinheiro no bolso, a tendência é de continuidade.”

11/11/2009 - 15:19h Blecaute afetou 18 Estados do Brasil, mostra relatório

SOFIA FERNANDES colaboração para a Folha Online, em Brasília

Relatório de segurança operacional do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), fechado às 10h45 de hoje, indica que o blecaute ocorrido entre a noite de terça e a madrugada desta quarta-feira afetou 18 Estados do país.

Veja fotos do apagão que atingiu grande parte do país
PM registra o dobro de ligações para 190 durante apagão
Após apagão, CET suspende rodízio no período da manhã
Itaipu diz operar em condições normais, mas não informa causa

O número é maior do que o governo havia confirmado, de 12. Segundo o relatório, foram afetados totalmente São Paulo, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Parcialmente houve impacto nos Estados de Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Acre, Rondônia, Bahia, Sergipe, Paraíba, Alagoas, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Ainda de acordo com o relatório, foram desligados 28,8 mil MW (megawatts) de carga no SIN (Sistema Integrado Nacional) nesses 18 Estados, o equivalente ao dobro da potência instalada de Itaipu. No Paraguai, houve interrupção de 980 MW de carga.

O problema começou às 22h13, quando ocorreu perturbação geral, envolvendo diretamente a região Sudeste e Centro-Oeste, desencadeando desligamentos automáticos.

O ONS informa ainda que, primeiro, foi desligada a linha de transmissão de Foz do Iguaçu (PR) até Tijuco Preto (SP). Depois, outras usinas hidrelétricas de São Paulo, com capacidade de 5,6 mil MW foram interrompidas. A geração de Angra 1 e Angra 2 também cessou na sequência.

O SIN abrange todo território nacional, exceto Amazonas, Roraima e Amapá. Segundo o relatório, o restabelecimento dos equipamentos e linhas de transmissão teve início imediato após o apagão.

Os dados do operador apontam que às 22h29 a carga da região Sul já estava restabelecida, da região Centro-Oeste às 22h50 e da região Nordeste às 22h55. Às 23h50 foi restabelecida a carga de Minas Gerais.

O restabelecimento gradativo de energia em São Paulo começou à 0h04 e no Rio de Janeiro e Espírito Santo à 0h40. À 1h44 foi restabelecido o SIN. Mas o problema todo foi sanado às 3h15 de hoje.

Caio Guatelli – 10.nov.2009/Folha Imagem
apagão
Imagem mostra avenida Nove de Julho, em São Paulo, durante o apagão que atingiu parte do país

Apagão

O secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, afirmou nesta quarta-feira que a origem do apagão aconteceu em três linhas de transmissão nos Estados do Paraná e de São Paulo, o que acabou forçando o desligamento da usina de Itaipu.

Duas das linhas ligam o município de Ivaiporã (PR) a Itaberá (SP), e a outra fica entre Itaberá (SP) a Tijuco Preto (SP) –as três linhas são de Furnas.

Segundo o secretário, as três linhas não chegaram a cair, foram desligadas por conta de condições meteorológicas adversas na região de Itaberá. Todo o sistema já voltou, e o apagão durou cerca de quatro horas, segundo os cálculos do ministério.

Os ventos e chuvas fortes não causaram danos a equipamentos, afirmou Zimmermann. O apagão começou às 22h14 e durou cerca de quatro horas.

Estados

Na cidade de São Paulo, o apagão causou pânico nas ruas, paralisou trens e o metrô, prejudicou o trânsito, e deixou diversas pessoas presas em elevadores. A Polícia Militar informou, porém, que não houve registros de ocorrências graves. Diversas cidades da Grande São Paulo e do Estado também foram afetadas.

Devido ao blecaute, a Prefeitura de São Paulo suspendeu o rodízio de veículos na manhã desta quarta-feira (11). Ainda não se sabe, porém, quantos municípios do Estado foram afetados.

Segundo o governo federal, o Estado do Rio foi o mais afetado do país e chegou a ficar totalmente às escuras. Por isso, o governador Sérgio Cabral (PMDB) determinou que o Bope (Batalhão de Operações Especiais), da Polícia Militar, reforçasse o policiamento na cidade do Rio. Houve caos no trânsito e nos transportes públicos.

Em Minas Gerais, o apagão deixou às escuras dezenas de cidades da região metropolitana de Belo Horizonte e do interior do Estado. Houve queda de energia em várias partes do Espírito Santo, inclusive em Vitória.

No Rio Grande do Sul, houve interrupção no fornecimento de energia por cinco minutos em cidades da região metropolitana de Porto Alegre. Segundo a AES Sul, 70 mil imóveis ficaram sem luz em São Leopoldo e Sapucaia do Sul.

Em Santa Catarina, houve interrupção no fornecimento de energia em Joinville, Blumenau, Lages, Concórdia e Videira. Segundo a Celesc (Companhia de Energia Elétrica de Santa Catarina), houve oscilação no abastecimento de suas subestações.

No Paraná, o apagão foi sentido em ruas do centro de Curitiba. Enquanto em parte da área central as luzes permaneciam acesas, em outras houve queda de energia nos postes e em edificações. Após cerca de dois minutos, a energia foi retomada nos locais onde o abastecimento foi interrompido.

O apagão também atingiu parte das regiões extremo sul, norte e sertão da Bahia, segundo a Coelba (Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia). O apagão durou poucos minutos no Estado.

Com Agência Folha

11/11/2009 - 12:06h Explicações para o apagão e o tucano ridículo

Blog de Nassif

Por Henrique

Para Paraguai problema foi na CESP:

Descartan que sabotaje al sistema eléctrico nacional haya provocado el apagón

La Nacion, Py

La Administración Nacional de Electricidad (ANDE), descarta que el apagón generalizado producido anoche en nuestro país y el Brasil haya sido consecuencia de un sabotaje al sistema eléctrico. “Hasta el momento las informaciones recabadas desde el Centro Nacional de Operaciones de la Ande y del sector de Operaciones de la Itaipú Binacional, a las 21:13 hs. de ayer se registró la desconexión total de las unidades generadoras de Itaipú de 50 y 60 Hz, en principio como consecuencia de una falla en una línea de 440.000 Voltios perteneciente a la empresa brasileña CESP, que atiende la región de la ciudad de Sao Paulo”, según la ANDE.

Esta desconexión provocó en primer lugar un colapso eléctrico en el Brasil en la región sur – sudeste y centro oeste con un corte de carga en el Brasil del orden de 17.000 MW.

La generación total perdida en Itaipú fue de 10.900 MW, posteriormente y como consecuencia de lo detallado se produce un apagón general en el Paraguay, afectando a todo el país, a raíz de la desconexión de las unidades generadoras de Itaipú y de las líneas de interconexión con la central Yacyretá ocurrido 2 minutos más tarde.

La carga total interrumpida en el Paraguay fue de 1.401 MW. La recomposición total del sistema eléctrico – pese a la gravedad del hecho – en el territorio paraguayo demoro solo entre 15 y 20 minutos.

Cabe resaltar que se descarta totalmente toda posibilidad de sabotaje en el sistema, visto que el origen del colapso eléctrico que afecto a ambos países tuvo su origen en una perturbación en el sistema eléctrico brasileño.

Por Marco Aurélio

Notícia mais recente segundo a Folha on-line

O secretário executivo do Ministro de Energia, Márcio Zimmermann, afirmou nesta quarta-feira que a origem do apagão aconteceu em três linhas de transmissão nos Estados do Paraná e de São Paulo. Entre as linhas, duas ligam o município de Ivaiporã (PR) a Itaberá (SP) e a outra fica entre Itaberá (SP) a Tijuco Preto (SP).

Segundo o secretário, as três linhas foram desligadas por conta de “condições meteorológicas diversas”. Todo o sistema já voltou e o apagão durou cerca de quatro horas, segundo os cálculos do ministério.

Por paulo frança

A BBC Brasil está publicando uma entrevista com engenheiro de Itaipu pelo lado do Paraguai, na qual ele afirma que o problema começou realmente em São Paulo, num curto-circuito. Abaixo, o trecho inicial:

Marcia Carmo

De Buenos Aires para a BBC Brasil

O Rio de Janeiro também foi afetado pelo apagão

O chefe da divisão de operações do sistema elétrico do Paraguai, na Administradora Nacional de Eletricidade (Ande, equivalente à Eletrobrás), engenheiro Luis Alberto Villordo, disse à BBC Brasil que um “curto circuito” no estado de São Paulo teria desencadeado a falta de energia no Brasil e no país vizinho.

“Houve um curto circuito numa linha de transmissão que atende a região de São Paulo. Esta falha não foi contida e foi se alastrando, contaminando outras linhas de transmissão de energia até chegar à hidrelétrica de Itaipu”, disse Villordo, por telefone, falando de Assunção.

Segundo ele, um temporal teria provocado o curto circuito arrastando o problema até Itaipu, de onde parte a energia para vários Estados brasileiros e para o Paraguai.

http://1.bp.blogspot.com/_Cnlp-CZMM8g/So6pWeR_EQI/AAAAAAAAAXY/H--l5IMQgYE/s400/AARTHUR+VIRGK%C3%8DLIO+iii.jpg
”Eles criticaram FHC, mas não resolveram”, diz líder do PSDB

Clarissa Oliveira – O Estado SP

Em Brasília, o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), não tardou ontem para devolver as críticas que seu partido recebeu do PT na época da crise energética que atingiu o governo Fernando Henrique Cardoso (veja a memória dos grandes apagões e as declarações a respeito do ministro Edison Lobão, na página C3). “No passado, eles não aceitaram as explicações do governo de que havia uma causa climática para o problema. E a verdade é que, depois de todo esse tempo, eles não resolveram o que eles próprios diziam ser o problema”, afirmou ontem o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, que jantava com alguns amigos em um restaurante em Brasília quando foi avisado num telefonema sobre a falta de energia em pelo menos 12 Estados, além de parte do Distrito Federal e do Paraguai.

Ao afirmar que os blecautes são comuns em seu Estado, ele disse não aceitar as explicações iniciais do governo. “Se eu descer em Nova York no inverno vestindo uma camisa polo, vou ficar resfriado”, ironizou. Virgílio disse que não seria “leviano” de utilizar o termo “apagão”, como ficou conhecida a crise energética sob o governo tucano. Mas não economizou nas críticas ao governo petista. “O fato é que as mesmas pessoas que tanto nos criticaram agora estão sentadas em Brasília, protegidas pelo fato de não estarem sujeitas ao sistema de fornecimento de Itaipu”, continuou.

RÉPLICA

O líder do PT, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), encarregou-se de devolver os ataques. Disse que não há comparação entre a crise que atingiu o governo FHC e o problema ocorrido na noite de ontem na rede. “Esta foi uma questão climática. O apagão deles foi um problema de falta de planejamento, um problema sistemático que prejudicou o Brasil por um ano”, reagiu o petista. “A oposição, mais uma vez, demonstra que não tem discurso”, completou Vaccarezza. Segundo o líder petista, o governo federal tomou imediatamente todas as providências para contornar a questão, assim que foi avisado sobre o problema na rede energética.

26/11/2008 - 11:40h PT: reflexões de Gleisi Hoffman

Por onde o PT se renova

http://ptcuritiba.org.br/files/2008/07/gleisi7.jpg

Rosângela Bittar – VALOR

Aguerrido, como se sabe, no presente, mesmo sem muitas opções à escolha, o PT, ao contrário de seus principais adversários, preocupa-se, sim, com o futuro, e tem permitido que novas lideranças, insinuadas nas duas últimas eleições majoritárias, desenvolvam suas chances. Exemplo puro desta situação é o da paranaense Gleisi Hoffman, 43 anos, dois filhos, duas campanhas eleitorais – candidata a senadora, teve 2,3 milhões de votos (começou com 2%) quando o vencedor ganhou com 2,5 milhões, e candidata a prefeita de Curitiba, recebeu 18% porcento dos votos – é atualmente presidente do PT do Paraná.

Vestida com elegância clássica, bastante articulada e pensamento organizado para o perfil do meio em que vem galgando degraus, Gleisi, depois de transitar dois dias em Brasília para contatos no governo e no partido, exibiu, docemente mas firme, uma avaliação resumida e realista sobre a política, tal como praticada no seu Estado e no seu partido, mostrando como vê o futuro e as tarefas mais urgentes.

“Não estou pensando em mim ou em 2012, o foco é 2010, para construirmos um bom palanque para a Dilma no Paraná”, afirma, referindo-se ao objetivo imediato, a candidatura da ministra chefe da Casa Civil a presidente da República, com apoio do presidente Lula. Neste palanque a que se refere há, para governador do Estado, dois nomes também em processo de construção. Um, Jorge Samek, presidente de Itaipu Binacional, e o outro o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, seu marido. Não está definido qual deles será o candidato do PT nem as alianças que serão firmadas com outros partidos para as demais candidaturas, mas é o trabalho a partir de agora

“Vamos fortalecer o projeto local com a consciência de que precisamos dar muita atenção ao projeto nacional”, assinala, indicando qual é a sua expectativa política, no momento: “Ter feito o Presidente da República, ter mudado tanto o país, e não conseguir manter isto”…Não pode, subentende-se de suas reticências.

Há algo com que Gleisi convivia mal, uma estranheza imposta a uma técnica formada na política pela prática eleitoral, mas que agora, como presidente do partido, terá que enfrentar, além de procurar formas de mudar as regras não escritas de que não gosta: a articulação política, interna, no PT, e com partidos aliados. “Estas articulações são conversações sem nenhum resultado concreto, articulações abstratas, e a vida está correndo”, traduz. Se há algo que a mobiliza é o desejo de levar a vida real para a política, interferir de forma direta no seu conteúdo. Destaca, por exemplo, que recentemente o Paraná registrou o assassinato brutal de cinco meninas, e o assunto ficou confinado à segurança. “Temos que trazer isso para a política, não adianta ficar só na polícia”.

Outro exemplo de quem reconhece ser a articulação política seu papel, mas pretende reinventá-la, é a questão agrícola. “O Paraná é um estado agrícola, o futuro da economia e da solução da crise está no agronegócio. Enfrentamos problemas sérios, como a crise do álcool, temos grandes produtores no Paraná, precisamos dar respostas”.

Gleisi se volta também para seu partido, o PT, que, segundo identifica, sofre um vácuo no planejamento do futuro. “Éramos um partido de esquerda, ganhamos as eleições em um país continental, passamos a administrar com uma coalizão de forças que não tinham a mesma visão dos problemas, isto gerou uma crise no partido. Quando nos preparávamos para viver este debate, veio outra crise, a do mensalão, e gastamos nossa energia nisto em vez de discutir os grandes temas. Chegou a reeleição do presidente, e nós não paramos para pensar”.

Afastando o conformismo com o que está posto, Gleisi dá indicações de que vai mudar, a começar do discurso. Política substantiva, não usa adjetivos para o governo, para a oposição, nem mesmo para os adversários locais. A análise é objetiva: “Beto (Richa) fez mais que (Cássio) Tanigushi, capitalizou bem os investimentos federais e nós não conseguimos capitalizar para o PT”. Ou: “As pessoas estavam indiferentes, não estavam querendo discutir política e não conseguimos politizar a campanha”. Richa, do PSDB, foi reeleito com quase 80% dos votos no primeiro turno, e Gleisi diz que, quem via a campanha de perto, imaginava que a disputa estava equilibrada. As pessoas me cercavam e diziam: ‘Estou em dúvida, gosto muito de você, mas gosto muito do Beto, por que te colocaram nisso logo agora?’ Na campanha para o Senado, Gleisi viajou todo o Estado, saiu mais conhecida mas com idéias mais diluídas. Na campanha municipal acredita ter sido possível expor melhor as idéias e explicar quem é, de onde veio e para onde quer ir.

Militante do PT desde 1989, Gleisi, formada em Direito, Administração Financeira e Gestão Pública, fez sua carreira, em alguns momentos, de forma paralela à de Paulo Bernardo. Foi Secretária de Reforma do Estado no Mato Grosso do Sul quando ele assumiu lá a Secretaria da Fazenda. Em outra fase, transferiram-se para Londrina, onde Paulo Bernardo foi Secretário de Fazenda e, ao deixar o governo para ser candidato a deputado, Gleisi se viu compatibilizada a assumir a Secretaria de Administração e Gestão. No Congresso, em Brasília, onde viveram outro período, trabalhou com Orçamento, área em que permaneceu quando integrou a equipe de transição para o governo Lula. Foi, no primeiro mandato do presidente, Diretora Financeira de Itaipu, de onde saiu para as recentes candidaturas.

Hoje, é presidente do PT no Paraná, e tem muitos planos. “Estamos fazendo uma intervenção política conjuntural. Isto nunca foi do PT”. Seu desafio é levar o partido à reflexão sobre seu papel meio a campanhas, eleições e sucessão. “Esta análise é que aproximará o partido da sociedade”. O que acha mais que necessário, principalmente em se tratando de um estado conservador, berço do MST onde, até por isto, o PT ainda inspira alta rejeição e onde, em 2006, o popularíssimo Lula foi derrotado no primeiro turno e só conseguiu empatar com seu adversário no segundo.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

E-mail rosangela.bittar@valor.com.br

16/08/2008 - 16:08h Lugo promete um Paraguai sem corrupção

Ex-bispo toma posse encerrando 61 anos de hegemonia do Partido Colorado, e diz que tentará negociar acordo de Itaipu

http://www.somosparaguay.com.py/imgnoticias/18006_2342008_lugo%20presidente.jpg

Janaína Figueiredo – O Globo

Enviada especial

ASSUNÇÃO. Duas semanas depois de ter obtido uma dispensa do Papa Bento XVI, o ex-bispo Fernando Lugo assumiu ontem a Presidência do Paraguai, numa cerimônia histórica para o país, após 61 anos de hegemonia do Partido Colorado. Num palco montado em frente ao Congresso Nacional, e diante de uma multidão que invadiu uma das principais praças de Assunção, Lugo, que venceu a eleição de abril, prometeu acabar com a corrupção e com a desigualdade social, defendeu os direitos das comunidades indígenas e aproveitou a presença dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Cristina Kirchner, da Argentina, para reiterar suas demandas em relação a Itaipu e Yaciretá.
O novo presidente paraguaio pediu “um maior impacto socioeconômico dos empreendimentos energéticos compartilhados com os povos irmãos do Brasil e da Argentina”.

— Iremos a nossos pares com o desejo de que estas causas nacionais se transformem em causas binacionais — enfatizou Lugo, que ontem não teve a oportunidade de conversar sobre o assunto com Lula. A negociação, disseram fontes paraguaias, começará numa futura visita do presidente paraguaio a Brasília.
Num gesto simbólico, que buscou reforçar o perfil austero que pretende impor em sua administração, Lugo confirmou sua decisão de renunciar ao salário, estimado em US$ 4 mil. O presidente assegurou: “Não preciso de dinheiro, não entrei na política para enriquecer.” — Hoje (ontem) se inicia a história de um Paraguai cujas autoridades e habitantes serão implacáveis com os ladrões de seus povos — declarou o presidente, que assumiu o poder vestindo uma camisa estilo clerical branca e sandálias.
A escolha foi bastante oportuna, já que ontem a capital paraguaia viveu um dia de calor sufocante, que provocou bastante mal-estar entre os chefes de Estado.
Durante a missa realizada na catedral metropolitana, as presidentes Cristina Kirchner e Michelle Bachelet, do Chile, mal conseguiam respirar e apelaram para leques e lencinhos para suportar a elevada umidade paraguaia.
Numa posse sem pompa e um pouco atrapalhada (o microfone falhou no momento em que Lugo devia prestar juramento), o novo presidente disse renunciar “a viver num país no qual alguns não dormem porque têm medo e outros não dormem porque têm fome”. Membro de uma família perseguida pela ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), Lugo questionou os caudilhismos e pregou um governo de consenso. O combate à corrupção será um dos eixos de sua gestão.

— Não existem instituições corruptas e sim funcionários que se corrompem — frisou, citando de forma oblíqua a indústria de produtos falsificados no país. — Gostaríamos que Rafael Barret com sua “dor paraguaia” e Augusto Roa Bastos com sua “ilha rodeada de terra” descansem com a certeza de uma herança recuperada. Queremos que saibam Barret e Roa Bastos que Juan, Maria, Felipe, Roberto um dia decidiram virar as páginas de um Paraguai irreal e farsante e despertar um Paraguai real e histórico.

Clima de alegria nas ruas da capital paraguaia

Nas ruas do centro de Assunção, o clima era de alegria. Famílias passaram horas observando os eventos organizados pelo governo e esperando a passagem do novo presidente, que, ao contrário de seus antecessores, optou por um jipe para ser levado do Palácio de López (sede do governo) até a catedral.
— Esta é uma posse histórica, só o fato de não ter ocorrido uma tragédia, um assassinato, já é inédito. Houve uma mudança de governo e de partido, sem violência — disse o vice-presidente Federico Franco.

16/06/2008 - 12:49h Ótimo programa: pasear no sitio de Leo

Sérgio Leo é jornalista do Valor. No seu blog, Sitio do Sergio Leo, ele proclama seu objetivo com o blog: “Notícias irrelevantes para quem tem mais o que fazer com o próprio tempo”.
Eu “leo” Sergio entre outras coisas porque resulta relevante para minha própria vida ter o tempo de visitar o sitio dele. Vejam três pérolas que roubei na última visita, para compartilhar o butim com vocês.

Ex-mulher é para sempre

Existe denúncia e existe udenismo, aquele falso moralismo que serve só para fins políticos. Os jornais, às vezes, fazem denúncias (e há uma certa esquerda que chama a imprensa de golpista por isso, como se denúncia fosse coisa a se fazer só contra a oposição). Jornalistas, às vezes, embarcam em denúncias de araque, ou campanhas moralistas só na casca, que dão impressão de combatividade mas só reforçam aquela noção geral de que as pessoas normais não devem se envolver na política, porque é coisa podre, desaconselhável ao homem comum.

O udenismo, às vezes, aponta o alvo certo com a arma errada, como na matéria que leio hoje nos jornais, sobre a nomeação de Teresa Jucá , ex-mulher do líder do governo, Romero Jucá, para a secretaria nacional de Programas urbanos no Ministério das Cidades. A matéria, segue o roteiro denúncia-de-nepotismo, e, como é regra nesses casos, conta que a Jucá vai ter cargo em comissão, DAS-6, e vai receber salário bruto de US$ 10.448.Ora, ora, acho pouco pagar R$ 10 mil a alguém com a responsabildiade de secretário, cargo de segundo escalão, em algum ministério importante. E não se pode dizer que a Jucá faz o gênero ex-mulher de político nomeada para garantir uma pensãozinha. Assim como o ex-marido, é pessoa experimentada, com conhecimento profundo sobre o uso de verbas públicas. E foi aí que a reportagem que podia ser de denúncia atolou no udenismo. Procurei, mas não achei, informações sobre quanto dinheiro movimenta essa tal secretaria de Programas Urbanos.

Antes de perguntar ao tio Google, já desconfiava que era bem mais que R$ 10 mil mensais. Em vez de ficar de olho no contra-cheque na nova secretária, convém acompanhar de perto as liberações de verbas que sairão com assinatura da moça.

posted by Sergio Leo

Uma senhora corajosa

“Eu nunca quis fazer parte do aparato estatal. Para os que vêm do mundo acadêmico ou do setor privado, tomar essa decisão é algo difícil. Mas não pude tirar o meu da reta em um momento tão emblemático para o Paraguai”

Essa, segundo a agência Estado, é a nova ministra de Relações Exteriores do Paraguai, escolhendo uma perigosa metáfora para dizer que o governo Fernando Lugo não vai, hum, abrir as pernas na questão de Itaipu. “Ficar de quatro para o Brasil, jamais”, concluiu Oliveira, que sempre achou Solano Lopez um injustiçado.

Falo disso lá no Ralações Internacionais.

posted by Sergio Leo

Tutti buena gente

Um vice-governador, em briga com a governadora, grava conversas com o chefe da Casa Civil e faz explodir denúncias pesadas de corrupção sobre o governo. Só quem não lê jornal não sabe que é o que acontece no Rio Grande do Sul.O vice-governador que revelou o escãndalo é de um partido eficiente, o DEM. Hoje, a Executiva do DEM já se reuniu, não tomou posição em relação ao envolvimento de aliados no escãndalo de corrupção, mas discutiu o pedido do senador Heráclito Fortes, para expulsar o dedo-duro do partido. O pessoal achou que não é para tanto, mas, pelo menos chegou a um consenso: o político que denunciou a corrupção no governo do Rio Grande do Sul não vai sair sem levar ao menos uma advertênciazinha. Afinal, imagina se os políticos do DEM saírem por aí revelando os podres dos aliados?Lendo a notícia por cima do ombro, Oliveira, o canalha da redação, aproveitou para mostrar sua tarimba de cidadão do mundo: “isso aí, na Itália tem até nome. É omertà.

posted by Sergio Leo

11/05/2008 - 13:35h A bomba da mala da Alstom tem mais de dez anos

Elio Gaspari – O Globo e Folha SP

Pelo rastro, essa carruagem francesa pernoitou numa cocheira amiga dos grão-tucanos

http://blogdojoao.blog.lemonde.fr/files/tucanos.thumbnail.jpg

EM 2005, O PT foi acusado de ter recebido US$ 3 milhões de Cuba. O dinheiro teria sido entregue dentro de três caixas de bebida (duas de uísque e uma de rum), engordando a campanha de Lula em 2002. A denúncia teve enorme repercussão, mas, com todas as suas mirabolâncias, foi para o arquivo morto das maledicências.
Agora a bola da caixa dois multinacional está de volta, em outros cofres. Uma investigação conduzida na Suíça dá conta de que a Alstom, grande fornecedora de equipamentos pesados, pagou pelo menos uma comissão de US$ 8,6 milhões ao lubrificador de uma compra de trens para o metrô de São Paulo. Os suíços encontraram propinas pagas pela empresa em diversos países entre 1993 e 2003. Noutro caso, revelado pelo presidente do Grupo Anticorrupção da OCDE ao repórter Assis Moreira, houve outra dentada em São Paulo, em 2005. O dinheiro dessa comissão iria para uma caixa de partido.
As primeiras informações mencionavam “um intermediário de um político” na mordida tomada pela Alstom. É mais que isso. Um ervanário de US$ 8,6 milhões é dinheiro federal e não dá sopa para qualquer roedor de metrô. Tendo fornecido turbinas para Tucuruí e Itaipu, a Alstom é parceira de todas as grandes empreiteiras nacionais e não tomaria uma tunga tão rudimentar. Pelo rastro dessa carruagem, ela partiu de uma cocheira muito amiga dos grão-tucanos federais dos anos 90. Era aí que circulavam os mandarins da fornecedora, algumas vezes conduzidos pelo empresário José Américo Pinto Ramos. Ele chegou a ser identificado pela revista “U.S. News & World Report” como “assessor do presidente Fernando Henrique Cardoso”. Mentira, Pinto Ramos era amigo fraterno de Sergio Motta, chefe da campanha de FHC e seu ministro das Comunicações até morrer, em 1998.
A mala da Alstom tem mais densidade que a das fantásticas caixas de bebidas cubanas, pois o caso repousa em processo formal, com investigadores conhecidos, depoimentos, certidões e fé pública.

08/05/2008 - 09:53h Alstom pagou políticos via offshore, diz PF


Extratos mostram que filial suíça fez transferência de US$ 550 mil para o Uruguai; dono diz ter cobrado 5% por conta

Empresa, investigada na França e na Suíça, é também suspeita de pagar propina para ganhar licitação do Metrô paulista de US$ 45 mi

http://www.pleinlabobine.com/images/FILM2007_Biotope4.jpg

MARIO CESAR CARVALHO – FOLHA DE SÃO PAULO

DA REPORTAGEM LOCAL

A Polícia Federal apreendeu em 2006 dois comprovantes de transferência bancária que apontam, segundo interpretação de delegados, que a Alstom teria pago comissão a políticos brasileiros. Os extratos bancários mostram que a filial da Alstom na Suíça transferiu US$ 550 mil (R$ 930 mil em valores atuais) e 220 mil (R$ 573 mil) para uma empresa do Uruguai chamada Aranza, de acordo com documentos sigilosos da PF obtidos pela Folha.

Um dos sócios da Aranza, Luiz Geraldo Tourinho Costa, contou em depoimento à PF que nunca fez negócios com a Alstom. Disse que havia cedido a conta em troca de um percentual de 5% sobre os valores transferidos. O dinheiro, segundo ele, foi usado pela Alstom para pagar “comissão” a políticos. Em conversas com os policiais, Tourinho Neto disse que as obras pelas quais a Alstom pagara comissão seriam licitadas pela Eletronorte e por Furnas. Os comprovantes das transferências estavam na casa dele, em São Paulo.

A Alstom, uma das maiores empresas da França, está sob investigação naquele país e na Suíça sob suspeita de pagamento de propinas e lavagem de dinheiro. A investigação foi iniciada em 2004, quando auditores descobriram a transferência de perto de 20 milhões das contas da Alstom para empresas fantasmas da Suíça e de Lichtenstein.

As empresas fantasmas seriam encarregadas de distribuir a propina em países nos quais a Alstom tocava obras, como Brasil, Venezuela, Cingapura e Indonésia.

Reportagem publicada anteontem pelo “Wall Street Journal” revelou que a Promotoria daqueles dois países têm documentos segundo os quais a Alstom teria pago US$ 6,8 milhões a políticos para ganhar uma licitação de US$ 45 milhões do Metrô de São Paulo.


O sumiço

Os comprovantes da transferência da Alstom da Suíça para a empresa uruguaia foram apreendidos durante a Operação Castores da PF, que investigava em Curitiba um golpe contra a Itaipu Binacional e outras companhias de energia. À época, um diretor da Alstom, Osvaldo Panzarini, foi preso e a PF fez buscas na sede da empresa em São Paulo.

O sócio da empresa uruguaia que recebeu os dois depósitos contou à PF ter cedido a conta a pedido de José Reis, vice-presidente da Alstom entre 1999 e 2004 e responsável pelos negócios da empresa na área energética. Em depoimento à PF, Reis disse que não tinha conhecimento dos depósitos.

Segundo o advogado de Reis, Eduardo Muylaert, o nome do vice-presidente da Alstom foi citado “para despistar a investigação”.

Logo depois do depoimento do ex-vice-presidente da Alstom, a Justiça do Paraná julgou que era melhor desmembrar a investigação e remeter a parte em que a Eletronorte era citada para Brasília -a sede da empresa é naquela cidade.

A Folha, porém, não conseguiu localizar o eventual inquérito. Dois advogados consultados pela reportagem disseram que não conseguiram encontrar as peças da investigação.

O golpe

Tourinho Costa, que tinha os comprovantes dos depósitos da Alstom da Suíça, foi investigado pela PF sob a suspeita de que aplicava um golpe contra as maiores empresas hidrelétricas do país (Itaipu, Eletrobrás, Eletronorte e Furnas).

Ele e seu sócio, Laércio Pedroso, tinham uma empresa de consultoria que dizia a fornecedoras dessas companhias que elas tinham valores a receber que não haviam sido contabilizados -seriam restos a pagar. Alegavam também que conseguiam obter esses dados porque tinham acesso a informações confidenciais de Itaipu. Foi a diretoria da Itaipu Binacional que pediu a investigação.

À época, os dois sócios foram presos pela PF, mas o inquérito concluiu que não houve prejuízos para Itaipu.

Outros dois inquéritos sugeridos pelos policiais do Paraná, sobre os recursos enviados pela Alstom da Suíça e sobre a Eletronorte e Furnas, não ficaram prontos até agora.

07/05/2008 - 09:17h “No início da decada Alstom não perdia licitação no Brasil”, informa Estadão

Empresa nega estar envolvida em corrupção

Eduardo Reina e Andrei Netto – O Estado de São Paulo

Em Paris, o porta-voz da Alstom, Stéphane Farhi, disse ao Estado que a empresa não se manifestaria sobre as suspeitas de irregularidade além da nota oficial distribuída à imprensa. No comunicado, a Alstom sustenta que “nenhuma investigação judiciária envolve a empresa por corrupção”.

“Os depoimentos, na condição de testemunhas (etapa anterior à acusação, pela legislação francesa), de responsáveis atualmente pela empresa fazem parte de práticas usuais da Justiça e se inscrevem em um procedimento iniciado na Suíça, que não visa a Alstom. Os depoimentos não significam envolvimento dessas pessoas”, diz nota da empresa. Representantes da Alstom na Suiça não quiseram se manifestar.

Questionado sobre o caso, o ex-governador Geraldo Alckmin disse não se lembrar de quando foi assinado o contrato sob suspeita entre a Alstom e o Metrô. “Não tenho conhecimento, mas, se tiver que investigar, que investigue. Não tem nenhum problema”, disse. “Se foi na gestão do governador Mario Covas, ele não está presente, mas pode ter certeza de que o pensamento dele seria o mesmo. Apure-se.”

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“Não tenho conhecimento, mas, se tiver que investigar, que investigue. Não tem nenhum problema” disse o ex-governador Geraldo Alckmin. Na foto Serra, Alckmin e Kassab no mesmo metrô, durante inauguração da estação Alto de Ipiranga

O Metrô informou que tomou conhecimento da investigação conduzida por França e Suíça por meio da imprensa e que está “averiguando os contratos realizados com a empresa” entre 1993 e 2003. “Seguindo as suas normas de transparência, tão logo haja informações relevantes a respeito do assunto, estas serão tornadas públicas”, afirma a nota divulgada pela empresa.

ANTECEDENTES

No início da década, a Alstom não perdia licitação no País. Fabricou as turbinas de Itaipu e Tucuruí, construiu usinas termelétricas em São Paulo, no Rio de Janeiro, na Bahia e no Paraná.

No ano 2000, a empresa venceu uma licitação internacional promovida pelo governo de São Paulo para a construção da Linha 5 – Lilás do Metrô. Ganhou o Consórcio Sistrem, que era liderado pela Alstom. O custo foi de US$ 646 milhões, ou mais de R$ 1,292 bilhão. À Alstom coube 49% do total do contrato. A companhia fez a integração dos sistemas e o fornecimento de oito vagões, além do sistema de sinalização, do centro de controle operacional e de diversos equipamentos para as estações.

A Linha 5 tem 8,4 quilômetros e vai do Capão Redondo até o Largo 13. Faz a integração com a Linha 7 – Celeste da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). A obra foi custeada com recursos do governo do Estado e financiamento parcial do Banco Interamericano de Desenvolvimento. A linha passa por processo de expansão e deverá chegar até a estação Chácara Klabin, Linha 2 – Verde, depois de 2010.

29/04/2008 - 09:07h FT Interview: Celso Amorim, Brazil’s foreign minister

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By Jonathan Wheatley and Richard Lapper, FT.com site

Published: Feb 21, 2007

Jonathan Wheatley and Richard Lapper, speak to Brazil’s foreign minister Celso Amorim who insists Brazil is not about to adopt 21st century socialism.

(mais…)

23/04/2008 - 10:38h Negociação difere da disputa com Bolívia

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DA SUCURSAL DE BRASÍLIA – FOLHA DE SÃO PAULO

A disputa com o Paraguai em torno da tarifa de Itaipu é diferente da enfrentada com a Bolívia por conta do preço do gás natural boliviano.

As diferenças começam com a propriedade da riqueza. No caso do gás, o recurso natural fica em território boliviano e é, portanto, uma propriedade do país vizinho explorada por uma empresa brasileira (Petrobras). No caso da hidrelétrica de Itaipu, a energia é gerada na fronteira por uma empresa que pertence ao Brasil e ao Paraguai.

Na Bolívia, o governo modificou regras internas sobre tributação e propriedade dos recursos naturais. As novas regras diminuiriam a rentabilidade da Petrobras, que tinha contratos para a exploração de gás com a YPFB, estatal boliviana. Na ocasião, além da negociação política, havia uma negociação contratual entre as duas empresas estatais.

Não chegou a haver rompimento de contrato, o fornecimento de gás ao Brasil não foi suspenso, e a Petrobras concordou em mudar a forma como calculava o pagamento pelo gás, com o objetivo de repassar mais recursos à Bolívia.

Além disso, no caso da usina hidrelétrica de Itaipu, as regras estão definidas em um tratado internacional assinado pelos governos dos dois países e ratificado pelos respectivos Congressos. Para alterá-lo, só com a concordância de ambos e a posterior aprovação do Legislativo de cada país.

23/04/2008 - 10:13h “Se o Brasil ceder, será como ato de generosidade”

Mercado Aberto

GUILHERME BARROS – guilherme.barros@uol.com.br

Para Barbosa, não há hipótese de contrapartida do Paraguai

rubens_barbosa.jpg A revisão dos contratos de Itaipu está longe de ser a única pendência entre Brasil e Paraguai, cuja solução poderá ser desfavorável ao país.

“A agenda entre os dois países é muito pesada”, afirma o embaixador Rubens Barbosa, presidente do conselho de comércio exterior da Fiesp. “Se o Brasil ceder, será como ato de generosidade. O que poderemos exigir em contrapartida do Paraguai?”

Além do tratado de Assunção, há na pauta a questão agrária, que pode colocar em risco os negócios de 300 mil a 400 mil agricultores brasilguaios. Eles produzem 98% da soja plantada naquele país.

Entram na agenda ainda os ilícitos da fronteira, como são chamados os contrabandistas. Projeto de lei em tramitação no Senado, que prevê a cobrança de 42,25% de imposto sobre todos os produtos importados do Paraguai, é encarado como formalização da pirataria por diversas entidades empresariais.

“Tais produtos, principalmente os industrializados, competem diretamente com os brasileiros”, diz Barbosa. “Já estamos fazendo uma grande concessão nesse sentido, atendendo ao governo paraguaio.”

Segundo o embaixador, que foi embaixador em Washington durante o governo Fernando Henrique Cardoso, a questão energética é o tema mais delicado na relação entre os países. Isso porque há ameaças para os consumidores brasileiros: aumento das tarifas e o possível início da venda de energia a outros países latinos, em época de escassez do insumo.

“Durante as negociações sobre o gás boliviano, o discurso era que não haveria aumentos e o consumidor acabou pagando a conta”, diz ele. “O Brasil já cedeu a pressões do Paraguai para rever parâmetros financeiros do tratado, no fator de conversão. Precisamos pensar no interesse nacional.”

Outra questão levantada por Barbosa diz respeito ao preço pago pelo Brasil pela energia gerada em Itaipu. Somados royalties, compensações financeiras e outros custos, a energia que o Paraguai não consome comprada pelo Brasil custa US$ 41,32, e não US$ 2,70, como foi alardeado na campanha presidencial daquele país.

“O maior problema é que o governo brasileiro tem uma posição ambígua sobre o assunto”, diz Barbosa. “Só que temos toda a nossa fronteira feita na base de tratados e, se um for refeito, haverá uma avenida para demandas por mudanças.”

Fonte Folha de São Paulo

23/04/2008 - 09:53h Governo já fala em mudar tarifa

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Celso Amorim diz que país não deve ser imperialista com Paraguai, mas Lobão discorda de aumento

Soraya Aggege*, Ricardo Galhardo*, Mônica Tavares e Chico de Gois – O Globo

ACRA, ASSUNÇÃO e BRASÍLIA.

O ministro do Exterior, Celso Amorim, esclareceu ontem em Gana, na África, que o governo brasileiro não modificará o tratado de Itaipu, mas poderá negociar alterações nas tarifas da energia elétrica excedente repassada ao país pelo Paraguai, pelas brechas do próprio tratado. Um dia depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter dito que o tratado — que estipula o preço destinado à dívida do Paraguai pela construção da usina e o que é diretamente entregue ao país — não será renegociado, o chanceler declarou que o Brasil precisa ser “generoso”, e não “imperialista”, na sua relação com seus vizinhos.

Uma possível negociação com o Paraguai, com aumento da tarifa para o Brasil, foi tema de uma reunião da coordenação política do governo ontem, com a presença do presidente Lula. Essa possibilidade, no entanto, enfrenta resistência dentro do próprio governo, como no Ministério de Minas e Energia.

Amorim considera que as negociações com o Paraguai não prejudicarão os interesses nacionais, mas podem manter a paz na América do Sul: — Passamos da era de pensar: “Somos grandes e o resto da América do Sul que se adapte a nós.” Não podemos ser assim. O presidente Lula sabe que não pode ser assim. Temos que ter uma visão generosa. E quando falamos em generosidade, não é só ser bonzinho. Generosidade é também ver seu próprio interesse de longo prazo, que é o de uma região pacífica. O Brasil não quer ser visto como um país imperialista, que só quer tirar vantagem. Quer o progresso do conjunto.

Lugo reafirma que preço é injusto

Segundo o chanceler, não houve contradição entre suas declarações e as do presidente.
— Na verdade, nós declaramos a mesma coisa, com palavras diferentes.
Às vezes, a gente diz (o mesmo) com outras palavras. Mas a maneira como acabou publicado dá a impressão de que são duas linhas diferentes.
Eu acho que conversar a gente deve, para entender qual é o problema do outro. O fato é que o tratado não pode ser mudado — disse o ministro do Exterior ontem, em Acra, onde participa da 12ª Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad).
A questão está sendo analisada pelo governo brasileiro, que não descarta sequer um pequeno reajuste da tarifa paga pelo país ao Paraguai.
Isso foi discutido ontem numa reunião da coordenação política.

A postura, porém, não agrada a setores do governo. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, afirmou ontem que o preço da energia pago pelo Brasil ao Paraguai é justo e que uma elevação de tarifa não está, hoje, nos horizontes brasileiros. Segundo ele, a energia produzida por Itaipu custa cerca de US$ 46 (R$ 77 em valores de ontem) o megawatt (MW), “mais ou menos” o valor da energia a ser produzida pela hidrelétrica de Santo Antonio, no rio Madeira, que foi licitada no final do ano passada com preço de R$ 78 o MW.

— O que o Paraguai tem falado é uma revisão de tarifas, achando que a que se pratica não é justa. E posso dizer que esta é uma tarifa justa. É a tarifa que se pratica no mercado brasileiro.
O ministro Celso Amorim entende que o preço deve ser um preço justo.
E o preço é justo — afirmou o ministro, apontado nos bastidores como um defensor dos critérios puramente técnicos na negociação.

Segundo Lobão, se o Paraguai tiver reivindicações a fazer, o governo brasileiro poderá examinar, “com todo o cuidado como sempre fizemos”. Mas o ministro afirmou que o Brasil já faz muitas concessões ao Paraguai. Em 2007 o vizinho vendeu toda a energia a que tinha direito ao Brasil — e não apenas os 95% tradicionais — a US$ 45 e usou para consumo próprio o que Itaipu gerou a mais do que o previsto pela metade do preço. Ganhou US$ 100 milhões com esta operação.

O presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, reafirmou ontem que não abre mão da revisão do preço da energia comprada do país, mas se mostrou disposto ao diálogo com o Brasil sobre o tema: — Consideramos o tratado injusto.
Independentemente de não podermos renegociar o tratado em si, porque teria que haver vontade de ambas as partes, cremos que o preço da energia tem que ser um preço justo.
A proposta de Lugo é criar uma comissão técnica binacional para debater o tema. Ontem ele revelou que pretende indicar os representantes na segunda semana de governo.
— Seguramente começaremos na segunda semana depois da posse (em 15 de agosto), indicando as equipes técnicas para podermos iniciar as conversas — afirmou.

Reunião de líderes antes da posse

Embora não abra mão de reajustar os preços e de cobrar uma relação “racional”, Lugo se mostrou disposto ao diálogo e a rejeitar a possibilidade de medidas radicais.
— Ninguém pode se negar a manter relações justas, equitativas, no marco da racionalidade. É o que pedimos aos nossos irmãos dos países vizinhos. O próprio presidente Lula nos disse que inclusive os técnicos não concordam sobre os números (de Itaipu).

Lula e Lugo devem se encontrar antes da posse do presidente eleito do Paraguai. aO presidente brasileiro foi convidado ontem por Lugo para a posse. Lula ainda não confirmou se comparecerá, mas disse a Lugo que pretende conversar com o paraguaio antes de ele assumir o governo.

23/04/2008 - 09:11h Itaipu não é o problema, é a solução

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ELIO GASPARI – Folha de São Paulo e O Globo

O que menos importa na eleição de Fernando Lugo para a Presidência do Paraguai é o seu interesse em renegociar o Tratado de Itaipu. Mesmo que por algumas semanas esse tema seja transformado num circo, ele amadurecerá num nível em que se juntam presidentes, diplomatas e técnicos. De boa-fé, nenhum dos dois governos transformará Itaipu num contencioso de 14 mil megawatts. A vitória de Fernando Lugo é uma boa nova porque sua melhor promessa é “fazer com que o Paraguai seja conhecido por sua honestidade e não por sua corrupção”.

Lugo derrotou a cleptocracia do Partido Colorado. Em 1949, quando o novo presidente nasceu, os Colorados estavam no poder havia três anos. De seus 58 anos de vida, Lugo passou 35 na ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989, com sete reeleições sucessivas).

A cleptocracia colorada se aninhou nas fímbrias de Itaipu, no contrabando de Ciudad del Este, nas lavanderias financeiras e na bandidagem da região da Tríplice Fronteira.
Lastimavelmente, a cada malfeitoria de paraguaio corresponde outra, de brasileiro. Em alguns casos, a origem da delinqüência esteve ou está do lado de cá.

Por mais de meio século, 16 presidentes brasileiros deram uma mãozinha aos colorados. De todos os empreendimentos binacionais do período, o melhor, de longe, foi a construção de Itaipu. Em outras iniciativas, o governo brasileiro entrou com aquilo que Maradona chamou de “a mão de Deus”. Em 1996, Fernando Henrique Cardoso apoiou o presidente Juan Carlos Wasmosy quando ele viajou secretamente a Brasília e avisou que demitiria o general Lino Oviedo. Três anos depois, FFHH ajudou a convencer o Raul Cubas a deixar o palácio, evitando um conflito armado em Assunção.

Em outros episódios o governo brasileiro entrou com a pata do Ti Tinhoso.
Entre os anos 60 e 70 as relações das duas ditaduras estiveram no nível das confrarias mafiosas. Antes que se falasse em Operação Condor, o governo brasileiro repassava ao general Stroessner planos de exilados que pretendiam depô-lo. Em alguns casos, seqüestrou e deportou dissidentes. Numa época em que os generais falavam em nome da moralidade, uma das mais influentes incentivadoras da amizade brasileiroparaguaia era uma peça que tinha uma perna no serviço público de Pindorama e outra nos serviços de cafetinagem.

A promiscuidade fez mal ao Brasil e ao Paraguai. Os dois países compartilham um grande empreendimento (Itaipu) e um problema que precisa do compromisso dos dois governos com o predomínio da lei e da ordem na região da Tríplice Fronteira.

lugo_fernando.jpgEm 2006 ela foi listada pelo Departamento de Estado americano um dos quatro pontos cegos do mundo, onde a debilidade do Estado faz a força da delinqüência (Os outros são a fronteira do Afeganistão, a Somália e o Mar de Celebes, no Pacífico.).

Ex-bispo, Fernando Lugo é o segundo religioso americano levado à Presidência de seu país. Infelizmente, o primeiro foi o haitiano Jean-Bertrand Aristide, duas vezes eleito e duas vezes deposto (1996 e 2004).
Como Lugo, orgulhava-se da origem nas prédicas da Teologia da Libertação.

Ambos chegaram ao palácio do governo pelo caminho dos pobres.

Aristide acobertou assassinatos e roubalheiras. Quando os americanos o mandaram para o exílio não teve quem o defendesse.

23/04/2008 - 09:04h ‘O tratado foi violado diversas vezes, sempre em benefício do Brasil’

Mentor do presidente eleito Fernando Lugo para energia diz que governo brasileiro pode pagar mais por excedente de Itaipu sem rever o tratado que expira em 2023

ENTREVISTA Ricardo Canese – O Globo

ASSUNÇÃO. Considerado o mentor do presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, no tema energia e cotado para integrar o futuro ministério, o engenheiro Ricardo Canese disse que não é preciso rever o Tratado de Itaipu para que os preços da energia excedente sejam revistos. De acordo com ele — que é um dos autores do livro “O direito do Paraguai à soberania” — o Brasil paga US$ 300 milhões por ano ao Paraguai e gastaria US$ 8 bilhões para substituir a energia paraguaia por petróleo, por exemplo. Para Canese, o aumento de US$ 2 bilhões nos valores seria suficiente para o Paraguai.

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Ricardo Galhardo Enviado especial

O GLOBO: Como o senhor interpreta a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a revisão do Tratado de Itaipu?

RICARDO CANESE: O ministro Celso Amorim deu declarações posteriores dizendo que o Brasil vai buscar uma relação justa com o Paraguai. O mais importante para mim é o compromisso que Lula firmou conosco quando o visitamos em Brasília.

Ele nos disse que poderemos tratar de todos os temas sobre Itaipu. Este foi o compromisso que Lula assumiu conosco e tenho certeza de que vai cumprir. Não há dúvida de que a declaração de Lula foi em função da repercussão interna que isso poderia ter no Brasil. O presidente Lula é uma pessoa de nossa inteira confiança.

É possível reajustar os preços da energia sem alterar o tratado?

CANESE: Para nós, o fundamental é o preço da energia. O problema é que o preço está no tratado, o que é um absurdo. Deve ser o único caso na História de um acordo de 50 anos que determina o preço. Mas existe uma série de saídas, que prefiro não citar agora, para que o preço seja revisado mesmo que fique tudo igual no tratado. Na verdade, o tratado foi violado diversas vezes ao longo de 30 anos, sempre em benefício do Brasil. Bastaria cumprir o tratado para que os preços ficassem mais justos.

O que o governo paraguaio pode fazer caso o Brasil se recuse a aumentar o preço?

CANESE: Estou convencido que haverá um acordo. Não especularia sobre outras alternativas.

Não queremos fazer como o Uruguai fez em relação à Argentina e ir à Corte de Haia.

Não queremos isso.

Qual seria o preço justo?

CANESE: Existem muitos cálculos e é possível usar muitos critérios.

Por exemplo: se a energia elétrica paraguaia fosse substituída por gás natural ou petróleo seriam necessários 80 milhões de barris ao ano. Quem disse isso foi Jorge Samek (presidente da Itaipu Binacional). Com o petróleo a US$ 100 o barril (ontem chegou a US$ 119) o Brasil gastaria US$ 8 bilhões ao ano. E o Brasil paga ao Paraguai US$ 300 milhões, líquidos. O que propomos é um acordo entre estes dois números.

Para dar uma cifra, o mínimo seriam US$ 2 bilhões.

Qual o impacto disso nas finanças paraguaias?

CANESE: Enorme. É o equivalente a toda nossa dívida externa. O PIB do Paraguai é de US$ 12 bilhões.

E este dinheiro extra teria reflexos positivos também no Brasil.

Os casos de crianças paraguaias que hoje passam a fronteira para estudar ou ir a hospitais no Brasil acabariam. Além disso, o governo paraguaio teria melhores condições para reduzir o narcotráfico e o tráfico de armas que têm reflexo direto na violência das grandes cidades brasileiras.

Quais as outras propostas para a área energética em relação ao Brasil?

CANESE: Gostaríamos de transformar o Paraguai no centro de distribuição de energia elétrica da região. Isso pode gerar até US$ 4 bilhões ao ano e beneficiaria a todos.

Argentina ficaria com US$ 1,3 bilhão, Brasil com US$ 1,3 bilhão e Paraguai com US$ 1,3 bilhão.

23/04/2008 - 00:04h Marta Suplicy: agindo com responsabilidade social no turismo

Discurso ministra Marta Suplicy

Evento: Entrega Prêmio Responsabilidade Social no Turismo
(destaques)

foto Gloria Flugel
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Boa tarde!

Obrigada pela presença e por prestigiarem aqueles que lutam contra os que exploram sexualmente as crianças e adolescentes brasileiras se autodefinindo como turistas. Nós sabemos que não são. São criminosos. Infelizmente, brasileiros e estrangeiros estão envolvidos direta e indiretamente nessa prática criminosa no nosso país. Nós não podemos – e nem queremos – fechar os olhos a essa realidade.

O Ministério do Turismo se associou aos que combatem esse crime e buscam alternativas de vida para essas crianças. Em 2004, o Presidente Lula lançou o Programa Turismo Sustentável & Infância, o TSI, como uma das engrenagens do Governo Federal para o combate a todas as formas de exploração e de violência contra crianças e adolescentes.

Meninas e meninos são sujeitos de direitos e assim devem ser respeitados. Cabe ao Ministério do Turismo promover o desenvolvimento sustentável do turismo. Entre nossas ações, estão as de sensibilizar e conscientizar empresários e profissionais, que atuam na cadeia produtiva, sobre o papel que crianças e adolescentes ocupam no cenário da sustentabilidade do turismo.

Infelizmente, é nessa cadeia que se organizam os aliciadores, os exploradores, os violentadores. Mas nós acreditamos que, com redes de proteção, nós teremos condições de combater as redes de exploração.

O Prêmio de Responsabilidade Social em Turismo é uma ação do TSI. Ainda na gestão do meu antecessor, o ministro Walfrido dos Mares Guia, em 2006, o MTur procurou a FGV com a proposta de se criar um observatório para avaliar e auxiliar nas suas ações. Em 2007, começamos o projeto numa tríplice parceria: MTur, FGV e Childhood Brasil. Foram criados grupos de estudos, formados por professores de universidades federais, no Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Amazonas e Brasília.

Nas discussões do Observatório, acabou surgindo a idéia de se criar o prêmio, que lançamos em julho, a fim de dar reconhecimento público a empresas e instituições que desenvolvessem projetos de enfrentamento da exploração sexual.

Nós sabemos que o tema da criança e do adolescente é objeto de ação de inúmeras empresas e organizações não governamentais no país desde o ECA. Mas o foco da exploração sexual ligada ao turismo é novo. Acredito mesmo, verificando o histórico da luta dos premiados hoje, que surgiu neste novo século. Ao criar o prêmio, fizemos o recorte do turismo para empresas e instituições se inscreverem. Tivemos 16 inscrições.

E hoje estamos aqui, premiando iniciativas pioneiras. O CIAF – Centro Integrado de Apoio Familiar, de Recife, em Pernambuco. A RESPOSTA – Responsabilidade Social Posta em Prática, de Natal, no Rio Grande do Norte. E a Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu, no Paraná, com extensão para cidades das demais fronteiras da Argentina e do Paraguai. Essas três instituições – duas do terceiro setor e uma do setor público – comprovam que o público, o privado e o terceiro setor podem direcionar o olhar para onde há situações de vulnerabilidade de crianças e adolescentes em atividades turísticas. A sociedade brasileira terá a oportunidade de conhecer, em detalhes, como essas instituições premiadas criaram e desenvolveram o trabalho. A expectativa do Ministério do Turismo é que essas experiências sejam replicadas de acordo com cada destino.

O programa Turismo Sustentável & Infância é o braço do Ministério do Turismo para essa luta. Por meio dele, o Ministério do Turismo, junto com parceiros, tem direcionado esforços para sensibilizar a cadeia produtiva sobre o mal que fazem a seus próprios negócios quando abrem as portas para os exploradores. Nos últimos três anos, o MTur somou investimentos nessas ações da ordem de 15 milhões e 200 mil reais. Só para este ano de 2008, os recursos previstos para o TSI somam oito milhões e 259 mil reais. No ano passado, foram firmados 28 convênios, totalizando mais de quatro milhões e 300 mil reais. Em 2006, o programa recebeu dois milhões e 560 mil reais. O que vale aqui não são só os recursos, mas os resultados.

Nestes anos, foram realizadas campanhas de sensibilização e seminários de capacitação. Em festas populares que atraem muitos turistas, o TSI se mostra às pessoas em materiais como banners, leques, desivos, cartazes, camisetas. E redes de hotéis filiadas à ABIH, Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, e os Convention and Visitors Bureaux são parceiros firmes em muitos estados, como Pernambuco e Rio Grande do Norte. Nos anos de 2006 e 2007 foram realizados seminários em todos os estados e no Distrito Federal, para capacitação direta de mais de 30 mil pessoas.

A partir do ano passado, logo que entrei – gosto muito de coisa concreta – procuramos tentar algo diferente. E agora, em Fortaleza, já temos uma experiência (parceria com a ABIH, as Secretarias de Turismo do Estado e da capital e organizações não governamentais) que foi levada a meninos e meninas em situação de risco. De 700 famílias, fizemos uma triagem e, dentre estas, 360 com jovens com idade entre 16 e 26 anos, vão ser capacitados com o objetivo de atuarem no mercado de trabalho. E o interessante é que eles escolheram em que querem atuar: Cumin de Garçom – precisamos ensinar o que é um Cumim – Camareira; Assistente de Produção Para Eventos; Promotor de Vendas para Hotelaria; Recepcionista dos Meios de Hospedagem; e Ajudante de Cozinha. As famílias estão sendo colocadas no Bolsa Família. A gente tenta, nessa ação, alavancar a família inteira. Em um ano, saberemos resultados. De outra forma, sem incluir a família, continuaríamos enxugando gelo.

O Ministério do Turismo também continuará sensibilizando a cadeia produtiva a adotar o Código de Conduta Ética, conforme orientação da Organização Mundial do Turismo, de cujas reuniões temos participado ativamente para debater o tema. Apresentamos à OMT o novo projeto de enfrentamento da situação. Estamos em Florença, Itália, em consultas sobre tráfico e turismo sexual e na reunião do comitê organizador internacional para a realização do 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes que será realizado, entre 25 e 28 de novembro de 2008, no Rio Centro, no Rio de Janeiro.

Em relação à América Latina, realizaremos um encontro com os países membros do Grupo Ação, em junho próximo, preparatório ao 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

O MTUr também apoiará e participará da 1ª Conferência Regional contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes na Região da Costa da Mata Atlântica, em consulta ao 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Participamos da organização do 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Apoiamos a agência organizadora do congresso nas negociações com o SindRio e ABIH/RJ, a fim de facilitar hospedagem aos participantes do evento. O apoio financeiro a este evento será de 280 mil reais.

O Ministério do Turismo não tem dúvida de que o enfrentamento desse problema que, infelizmente, existe em nosso país, precisa da união entre Governo Federal, governos estaduais, governos municipais, empresários do turismo e sociedade organizada. É bom destacar, contudo, que não temos carimbado a marca de destino de “turismo sexual”. Temos foco. Temos pobreza. E o que fazemos é deixar claro que “turismo sexual” destrói o lugar.

Por isso, o CIAF, em Recife; a RESPOSTA, em Natal; e a Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu, são exemplos, primeiro, de que as parcerias são possíveis, e, segundo, de que elas podem dar resultados para a vida de crianças e de adolescentes e de suas famílias e para os negócios do turismo.

A questão é complexa. Mas, com vontade política e persistência, continuaremos combatendo essa perversidade e acenando com um futuro de dignidade e respeito para os verdadeiros turistas, profissionais e empresários do turismo no Brasil.”

Fonte MinTur

22/04/2008 - 09:25h Eqüidade beneficia Paraguai e Brasil

Folha de São Paulo, 02/04/2008 – Fernando Lugo Méndez * (hoje Presidente eleito do Paraguai)

lugo_fernando.jpgCom freqüência procura-se retratar o projeto político que lidero no Paraguai como sendo “antibrasileiro”. Nada poderia estar mais distante da verdade. Todos os que integramos a Aliança Patriótica para a Mudança (APC, na sigla em espanhol) temos profundo respeito pelo povo, pelas instituições e pelo governo brasileiros. Nosso objetivo é avançar em direção a uma cooperação maior sobre bases justas.

Os povos do Paraguai e do Brasil herdamos problemas cujas raízes estão nas ditaduras militares. Estamos certos de que devemos enfrentar esses problemas e encontrar soluções para eles.

Durante a ditadura de Alfredo Stroessner, foram gerados negócios de fronteira, em muitos casos ilícitos.

Hoje, muitos paraguaios e brasileiros vivem dessa atividade. Precisamos acabar com a doença, mas sem matar o doente (os postos de trabalho) -pelo contrário, curando-o (com mais empregos dignos). Precisamos avançar juntos num processo de legalização e intensificação da produção em toda a região da fronteira.

Foi também na época das ditaduras que ocorreu uma forte migração de colonos brasileiros a território paraguaio virgem. Hoje, o meio ambiente está devastado, e a população camponesa paraguaia se vê encurralada pelos grandes produtores de soja (que não são apenas “brasiguaios”, mas também paraguaios ou de outras nacionalidades), que empregam agrotóxicos com pouco controle.

A maioria dos antigos colonos brasileiros hoje já tem filhos paraguaios e respeita as leis. Os que assim procedem não terão dificuldade com nosso governo. Em contrapartida, aqueles -seja qual for sua nacionalidade- que não obedecem às leis deverão começar a fazê-lo.

Nunca, por convicção própria, vamos discriminar ninguém por sua nacionalidade, raça, religião ou simpatia política. Esse é um compromisso de todos os integrantes da APC, avalizado por nossa trajetória de luta pelos direitos humanos.

Estamos convencidos de que -sob condições de eqüidade- Itaipu será o principal instrumento de integração dos povos paraguaio e brasileiro.

Alguns afirmam que, mesmo quando for muito injusto com o povo paraguaio, o tratado de Itaipu deve continuar em vigor até 2023 tal como foi firmado em 1973, sob as ditaduras militares do Brasil e do Paraguai.

Não existe fundamento para a manutenção dessa atitude. Queremos dialogar com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva partindo da própria base do tratado de Itaipu: a ata de Foz do Iguaçu (1966), firmada e ratificada pelo Brasil. Ela está em vigor e assinala que o Paraguai deve receber um “preço justo” pela energia que exporta ao Brasil. Queremos dialogar sobre esse ponto aceito pelas duas partes.

Quando foi assinado o tratado de Itaipu (em 26 de abril de 1973), o petróleo custava pouco mais de US$ 2 por barril. Hoje, seu preço está em torno de US$ 100 por barril.

O Paraguai recebe hoje por sua energia muito menos, em termos reais, que em 1973. Hoje podemos comprar muito menos petróleo que há 35 anos. E consta que, naquele ano, toda a opinião pública paraguaia viu como irrisórios os benefícios fixados no tratado. Não pretendemos cobrar o que não nos pertence. Aspiramos só a um “preço justo”, como o Brasil concordou em nos pagar em 1966.

Chegar a um acordo justo em Itaipu vai possibilitar o melhor desenvolvimento dos dois países. Quando não existe um “preço justo” entre um país mais poderoso e outro mais fraco, predomina o conflito, mais que a cooperação. As duas nações saem perdendo. Por isso, quando propomos chegar a um “preço justo”, estamos contribuindo para o desenvolvimento melhor de ambas as partes.

Assim se entendeu na Europa quando foram mantidas as assimetrias entre as nações e regiões menos desenvolvidas e as mais desenvolvidas. Assim entendemos nós, que desejamos um Paraguai soberano e integrado ao Mercosul, fortalecendo vínculos com o Brasil e seu povo sobre bases justas.

Nas eleições de 20 de abril, existem duas opções: o desenvolvimento harmônico dos dois países ou o desenvolvimento excludente do Brasil e a ruína do Paraguai, caso em que nosso país será mais uma vez pólo de tensões e problemas na região.

Não temos dúvida de que a primeira é a opção correta. Como dizemos em nossa língua indígena, “oñondive mante jajapóta” (”só juntos é que vamos poder fazer”). Nesse “juntos” incluímos não apenas o Paraguai, mas também o Brasil.

*FERNANDO LUGO MÉNDEZ, 56, licenciado em ciências religiosas, ex-bispo da Diocese de San Pedro (1994-2005), é candidato à presidência do Paraguai pela APC (Aliança Patriótica para a Mudança, na sigla em espanhol).


Publicado na Folha de São Paulo, 02/04/2008. Tradução de Clara Allain

22/04/2008 - 08:51h É uma questão de justiça com Paraguai: Brasil admite negociar tarifa de Itaipu

Segundo o ministro Celso Amorim, governos brasileiro e paraguaio vão discutir ‘a maneira de fazer’ o reajuste

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Itaipu é propriedade binacional (Brasil-Paraguai)

Tânia Monteiro – O Estado de São Paulo

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, confirmou ontem que o Brasil vai mesmo abrir negociações formais para reajustar o preço da energia elétrica de Itaipu comprada do Paraguai. A decisão política está tomada, e, segundo o ministro, o que o governo vai discutir agora com o presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, “é a maneira de fazer (o reajuste)”.

Em entrevista concedida em Acra, capital de Gana, antes de embarcar para o Brasil, Amorim deixou claro que o objetivo das negociações é saber como o Paraguai “pode obter uma remuneração adequada para a sua energia.” “Isso é justo”, afirmou. O Brasil quer fazer isso, como disseram Amorim e o presidente Lula, sem reescrever o Tratado de Itaipu: “Não muda o contrato”, disse Lula. “Em Itaipu, temos um tratado e ele vai se manter.”

O Tratado de Itaipu formalizou a sociedade entre Brasil e Paraguai, com a inauguração da usina, em novembro de 1982. Pelo acordo, os dois países dividem igualmente o que é produzido, mas o Paraguai, que só consome 5% da energia, é obrigado a vender ao Brasil os 95% restantes da sua cota. Ano passado, o Brasil pagou US$ 307 milhões pela energia paraguaia de Itaipu, mas Fernando Lugo chegou a falar, durante a campanha eleitoral, em um valor anual “justo” em torno de US$ 2 bilhões.

“Devemos fazer com que o Paraguai obtenha o máximo de benefício em função da sociedade que eles têm conosco em Itaipu”, disse Amorim. O ministro fez questão de lembrar um precedente, que não exigiu nenhuma mexida no tratado: “Há uns anos, houve um reajuste numa parcela de compensação pela energia do Paraguai porque estava defasada.”

Fazendo coro a uma entrevista dada minutos antes pelo presidente Lula, que defendeu que o Brasil, “como maior economia da América Latina”, ajude os vizinhos mais pobres, Amorim disse considerar “um absurdo que o Paraguai, sendo sócio da maior hidrelétrica do mundo” tenha uma fornecimento de energia “tão ruim em Assunção” e não possa investir em linhas de transmissão que façam o fornecimento regular de energia.

Questionado sobre a possibilidade de o Brasil enfrentar no Paraguai os problemas que enfrentou na Bolívia com a exploração, produção, distribuição e exportação de gás pela Petrobrás, Lula minimizou: “Não aconteceu nada com a Bolívia, gente. Aconteceu aquilo que eles entenderam que era importante para eles.”

Amorim também abordou a possibilidade de eventuais prejuízos brasileiros, disse que o governo não se comporta assim nem por ser “paternalista” nem “bonzinho” e acrescentou: “A paz na região não é em detrimento do nosso País. Ninguém vai ceder a chantagem.”