Discurso ministra Marta Suplicy
Evento: Entrega Prêmio Responsabilidade Social no Turismo
(destaques)
foto Gloria Flugel

Boa tarde!
Obrigada pela presença e por prestigiarem aqueles que lutam contra os que exploram sexualmente as crianças e adolescentes brasileiras se autodefinindo como turistas. Nós sabemos que não são. São criminosos. Infelizmente, brasileiros e estrangeiros estão envolvidos direta e indiretamente nessa prática criminosa no nosso país. Nós não podemos – e nem queremos – fechar os olhos a essa realidade.
O Ministério do Turismo se associou aos que combatem esse crime e buscam alternativas de vida para essas crianças. Em 2004, o Presidente Lula lançou o Programa Turismo Sustentável & Infância, o TSI, como uma das engrenagens do Governo Federal para o combate a todas as formas de exploração e de violência contra crianças e adolescentes.
Meninas e meninos são sujeitos de direitos e assim devem ser respeitados. Cabe ao Ministério do Turismo promover o desenvolvimento sustentável do turismo. Entre nossas ações, estão as de sensibilizar e conscientizar empresários e profissionais, que atuam na cadeia produtiva, sobre o papel que crianças e adolescentes ocupam no cenário da sustentabilidade do turismo.
Infelizmente, é nessa cadeia que se organizam os aliciadores, os exploradores, os violentadores. Mas nós acreditamos que, com redes de proteção, nós teremos condições de combater as redes de exploração.
O Prêmio de Responsabilidade Social em Turismo é uma ação do TSI. Ainda na gestão do meu antecessor, o ministro Walfrido dos Mares Guia, em 2006, o MTur procurou a FGV com a proposta de se criar um observatório para avaliar e auxiliar nas suas ações. Em 2007, começamos o projeto numa tríplice parceria: MTur, FGV e Childhood Brasil. Foram criados grupos de estudos, formados por professores de universidades federais, no Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Amazonas e Brasília.
Nas discussões do Observatório, acabou surgindo a idéia de se criar o prêmio, que lançamos em julho, a fim de dar reconhecimento público a empresas e instituições que desenvolvessem projetos de enfrentamento da exploração sexual.
Nós sabemos que o tema da criança e do adolescente é objeto de ação de inúmeras empresas e organizações não governamentais no país desde o ECA. Mas o foco da exploração sexual ligada ao turismo é novo. Acredito mesmo, verificando o histórico da luta dos premiados hoje, que surgiu neste novo século. Ao criar o prêmio, fizemos o recorte do turismo para empresas e instituições se inscreverem. Tivemos 16 inscrições.
E hoje estamos aqui, premiando iniciativas pioneiras. O CIAF – Centro Integrado de Apoio Familiar, de Recife, em Pernambuco. A RESPOSTA – Responsabilidade Social Posta em Prática, de Natal, no Rio Grande do Norte. E a Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu, no Paraná, com extensão para cidades das demais fronteiras da Argentina e do Paraguai. Essas três instituições – duas do terceiro setor e uma do setor público - comprovam que o público, o privado e o terceiro setor podem direcionar o olhar para onde há situações de vulnerabilidade de crianças e adolescentes em atividades turísticas. A sociedade brasileira terá a oportunidade de conhecer, em detalhes, como essas instituições premiadas criaram e desenvolveram o trabalho. A expectativa do Ministério do Turismo é que essas experiências sejam replicadas de acordo com cada destino.
O programa Turismo Sustentável & Infância é o braço do Ministério do Turismo para essa luta. Por meio dele, o Ministério do Turismo, junto com parceiros, tem direcionado esforços para sensibilizar a cadeia produtiva sobre o mal que fazem a seus próprios negócios quando abrem as portas para os exploradores. Nos últimos três anos, o MTur somou investimentos nessas ações da ordem de 15 milhões e 200 mil reais. Só para este ano de 2008, os recursos previstos para o TSI somam oito milhões e 259 mil reais. No ano passado, foram firmados 28 convênios, totalizando mais de quatro milhões e 300 mil reais. Em 2006, o programa recebeu dois milhões e 560 mil reais. O que vale aqui não são só os recursos, mas os resultados.
Nestes anos, foram realizadas campanhas de sensibilização e seminários de capacitação. Em festas populares que atraem muitos turistas, o TSI se mostra às pessoas em materiais como banners, leques, desivos, cartazes, camisetas. E redes de hotéis filiadas à ABIH, Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, e os Convention and Visitors Bureaux são parceiros firmes em muitos estados, como Pernambuco e Rio Grande do Norte. Nos anos de 2006 e 2007 foram realizados seminários em todos os estados e no Distrito Federal, para capacitação direta de mais de 30 mil pessoas.
A partir do ano passado, logo que entrei – gosto muito de coisa concreta – procuramos tentar algo diferente. E agora, em Fortaleza, já temos uma experiência (parceria com a ABIH, as Secretarias de Turismo do Estado e da capital e organizações não governamentais) que foi levada a meninos e meninas em situação de risco. De 700 famílias, fizemos uma triagem e, dentre estas, 360 com jovens com idade entre 16 e 26 anos, vão ser capacitados com o objetivo de atuarem no mercado de trabalho. E o interessante é que eles escolheram em que querem atuar: Cumin de Garçom – precisamos ensinar o que é um Cumim – Camareira; Assistente de Produção Para Eventos; Promotor de Vendas para Hotelaria; Recepcionista dos Meios de Hospedagem; e Ajudante de Cozinha. As famílias estão sendo colocadas no Bolsa Família. A gente tenta, nessa ação, alavancar a família inteira. Em um ano, saberemos resultados. De outra forma, sem incluir a família, continuaríamos enxugando gelo.
O Ministério do Turismo também continuará sensibilizando a cadeia produtiva a adotar o Código de Conduta Ética, conforme orientação da Organização Mundial do Turismo, de cujas reuniões temos participado ativamente para debater o tema. Apresentamos à OMT o novo projeto de enfrentamento da situação. Estamos em Florença, Itália, em consultas sobre tráfico e turismo sexual e na reunião do comitê organizador internacional para a realização do 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes que será realizado, entre 25 e 28 de novembro de 2008, no Rio Centro, no Rio de Janeiro.
Em relação à América Latina, realizaremos um encontro com os países membros do Grupo Ação, em junho próximo, preparatório ao 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
O MTUr também apoiará e participará da 1ª Conferência Regional contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes na Região da Costa da Mata Atlântica, em consulta ao 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
Participamos da organização do 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Apoiamos a agência organizadora do congresso nas negociações com o SindRio e ABIH/RJ, a fim de facilitar hospedagem aos participantes do evento. O apoio financeiro a este evento será de 280 mil reais.
O Ministério do Turismo não tem dúvida de que o enfrentamento desse problema que, infelizmente, existe em nosso país, precisa da união entre Governo Federal, governos estaduais, governos municipais, empresários do turismo e sociedade organizada. É bom destacar, contudo, que não temos carimbado a marca de destino de “turismo sexual”. Temos foco. Temos pobreza. E o que fazemos é deixar claro que “turismo sexual” destrói o lugar.
Por isso, o CIAF, em Recife; a RESPOSTA, em Natal; e a Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu, são exemplos, primeiro, de que as parcerias são possíveis, e, segundo, de que elas podem dar resultados para a vida de crianças e de adolescentes e de suas famílias e para os negócios do turismo.
A questão é complexa. Mas, com vontade política e persistência, continuaremos combatendo essa perversidade e acenando com um futuro de dignidade e respeito para os verdadeiros turistas, profissionais e empresários do turismo no Brasil.”
Fonte MinTur