20/11/2009 - 16:40h Extradição: ato de soberania

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Cesare Battisti

Dalmo Dallari

RIO – A concessão da extradição de um estrangeiro que se encontre no território brasileiro, para atender a um pedido formulado pelo governo de um Estado estrangeiro, é um ato de soberania do Estado brasileiro, que deve ser praticado com absoluta independência e tendo por base jurídica superior às disposições da Constituição brasileira. Evidentemente, devem ser levados em conta, na decisão do pedido, os compromissos assumidos pelo Brasil, tanto por meio de adesão a documentos internacionais como pela assinatura de tratados, mas o atendimento de tais compromissos não tem prioridade sobre a obrigação jurídica de respeitar e aplicar a Constituição brasileira. Agradar ou desagradar ao governo solicitante da extradição é um dado secundário no exame das disposições constitucionais, não devendo ter qualquer peso na decisão de conceder ou não a extradição.

Tudo isso deve ser levado em conta na decisão que será tomada pelo presidente da República relativamente ao pedido de extradição do italiano Cesare Battisti, formulado pelo governo da Itália. Na última sessão do Supremo Tribunal Federal, que tratou da questão, foram tomadas duas decisões fundamentais. A primeira reconhecendo a legalidade formal do pedido de extradição, ficando assim afastada a hipótese da existência de alguma ilegalidade que impedisse a apreciação do pedido. A Lei número 6.815, de 1980, que dispõe sobre a situação jurídica do estrangeiro no Brasil, diz no artigo 83 que nenhuma extradição será concedida sem prévio pronunciamento do plenário do Supremo Tribunal Federal sobre a legalidade do pedido. Como bem assinalou a eminente ministra Carmen Lúcia, o pedido de extradição começa e termina no Poder Executivo mas passa obrigatoriamente pelo Supremo Tribunal Federal, que, no desempenho de sua função precípua, que é a guarda da Constituição, verifica previamente se estão satisfeitos os requisitos legais. Essa decisão não é terminativa, não resolve se o pedido de extradição será ou não atendido, mas é de extrema importância para salvaguarda da Constituição e dos direitos que ela assegura.

A segunda decisão do Supremo Tribunal Federal foi no sentido de reconhecer que a palavra final sobre o pedido de extradição cabe ao presidente da República. É importante assinalar que o Supremo Tribunal Federal não determinou, nem poderia fazê-lo, que o presidente conceda ou não a extradição. Em termos constitucionais, a decisão sobre essa matéria enquadra-se no âmbito das relações internacionais do Brasil. E a Constituição é bem clara e objetiva quando estabelece, no artigo 84, que “compete privativamente ao presidente da República manter relações com Estados estrangeiros”. Diariamente os jornais brasileiros dão notícia de encontros, negociações e decisões no âmbito internacional, nas mais diversas áreas de atividades, como a economia, o meio ambiente, a proteção da saúde, o respeito aos direitos humanos e muitas outras questões que se colocam no relacionamento entre os Estados. E em todos esses casos o Brasil é representado pelo Poder Executivo, que tem na chefia suprema o presidente da República, a quem compete, privativamente, manter relações com Estados estrangeiros. Assim, pois, já tendo o reconhecimento da inexistência de ilegalidades, por força da decisão do Supremo Tribunal Federal, cabe ao presidente da República fazer a avaliação do conjunto de circunstâncias que cercam o pedido de extradição, levando em conta, sobretudo, as disposições da Constituição brasileira.

No caso em questão, em que o governo italiano pede a extradição de Cesare Batistti, existe um ponto essencial: os crimes de que Battisti foi acusado já foram qualificados anteriormente, pelo governo italiano, como crimes políticos. Com efeito, numa das ações do grupo a que pertencia Battisti foi morto um homem, Torregianni, e seu filho, que se achava no local, foi gravemente ferido, sendo obrigado, desde então, a locomover-se em cadeira de rodas. Um dado fundamental é que, desde então, o governo italiano vem pagando pensão mensal ao jovem Torregianni, por reconhecer que ele foi vítima de crime político. A legislação italiana prevê esse pensionamento somente para vítimas de crime político, excluídas as vítimas de crime comum.

E nos termos expressos do artigo 5º, inciso 52, da Constituição, “não será concedida extradição de estrangeiro por crime político ou de opinião”. Como fica evidente, o Presidente da República deverá decidir se concede ou não a extradição de Cesare Battisti, mas sua decisão não poderá ser arbitrária, devendo ser consideradas, obrigatoriamente, as disposições da Constituição brasileira. O fato de existir um tratado de extradição assinado pelos governos do Brasil e da Itália não se sobrepõe à Constituição, não tendo qualquer fundamento jurídico uma eventual pretensão do governo italiano de fazer prevalescer o tratado sobre a Constituição. Ao que tudo indica, deverá ser essa a decisão do presidente da República, que terá perfeito embasamento constitucional. Obviamente, essa decisão irá desagradar ao governo italiano, podendo-se esperar uma enxurrada de ofensas grosseiras ao Brasil e ao seu governo, como já ocorreu anteriormente, quando se anunciou que o pedido de extradição dependia de exame do Supremo Tribunal Federal e de posterior decisão do chefe do Executivo. Mas a decisão de negar a extradição não terá qualquer consequência jurídica negativa para o Brasil, que, pura e simplesmente, terá tomado uma decisão soberana, no quadro normal das nações civilizadas, regidas pelo direito.

Dalmo Dallari é professor e jurista.

23:29 – 19/11/2009

19/11/2009 - 15:20h Voto decisivo contra Battisti ficou às claras

ColunistaMaria Inês Nassif – VALOR

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em relação ao pedido de extradição do ex-militante da esquerda armada Cesare Battisti, feito pelo governo italiano, marca o auge de uma escalada “autonomista” do tribunal, entendida não como exercício de autonomia na decisão judiciária em relação a pressões externas contra liberdades individuais e coletivas, mas como o exercício de um poder de Justiça que se sobrepõe aos demais poderes constituídos. O voto do ministro Marco Aurélio Mello, que na semana passada empatou a votação do plenário – desempatada ontem, contra Battisti, pelo voto do presidente do tribunal, Gilmar Mendes -, é um alerta sobre essa escalada. Para Mello, a invasão do STF à seara do governo federal, em uma decisão sobre política externa, remete “à pior ditadura, a do Judiciário”, porque é uma ação inconstitucional praticada pelo tribunal cuja maior prerrogativa constitucional é a de zelar pela Carta Magna.

Mello foi definitivo: “Compete privativamente [ao presidente da República] manter relações com Estados e seus representantes diplomáticos, celebrar tratados internacionais”; “o Supremo não há de substituir-se ao Executivo, adentrando seara que não lhe está reservada constitucionalmente e (…) simplesmente menosprezando a quadra vivenciada à época na Itália e retratada com todas as letras na decisão proferida”, continuou.

O voto do ministro Marco Aurélio Mello foi importante não apenas porque ele nadou contra uma corrente muito forte de opinião pública, mas porque despiu o julgamento do conteúdo excessivamente politizado, no mau sentido, a que foi submetido. O movimento para que o governo brasileiro entregue Battisti ao governo italiano veio repleto de dogmas. O processo de extradição foi empacotado por máximas sobre as quais não se admitiu questionamento – e que, tomadas em separado, mostram o seu inegável caráter ideológico. Abaixo, algumas delas:

1) O governo brasileiro é destituído de qualquer discernimento jurídico que lhe permita decidir contra o saber jurídico italiano, que condenou o ex-militante à prisão perpétua;

2) O Judiciário brasileiro, depositário do monopólio do saber jurídico nacional, não pode se opor ao governo italiano porque isso seria se negar como depositário desse saber;

3) um poder que tem o monopólio do conhecimento jurídico não apenas tem legitimidade, mas deve se precaver contra ações desatinadas de um Poder Executivo escolhido pelo voto – e o voto, que emerge igualmente de letrados e iletrados, não raro precisa de correção;

4) jamais um ministro da Justiça do governo Lula, sem pedigree jurídico (que o ministro Márcio Thomaz Bastos, por exemplo, tinha), mas cuja carreira é política, poderia se contrapor a um movimento ilustradamente jurídico – Tarso Genro fez isso e, além de não ter pedigree, ele veio maculado por uma militância na esquerda radical nos nossos anos de chumbo;

5) Battisti não andou na seara dos confrontos políticos – e tirar os supostos (sim, supostos, pois o italiano alega inocência e um julgador não pode simplesmente desprezar isso) crimes do âmbito político é fundamental para deslegitimar o asilo político concedido pelo governo brasileiro e também para “despolitizar” os graves conflitos ocorridos na Itália dos anos 70, já conhecidos pela história como “anos de chumbo” deles.

Mello desconstruiu esses dogmas, a começar pelo mais importante deles na formulação dos argumentos políticos e jurídicos a favor da extradição, a de que Battisti não cometeu crimes políticos, e sim comuns. O ministro disse que a configuração do crime político era “escancarada” – e em favor de sua tese citou as próprias pressões do governo italiano para o governo brasileiro extraditar Battisti. “Assim procederiam, se na espécie não se tratasse de questão política? Seria ingenuidade acreditar no inverso do que surge repleto de obviedade maior”, disse o ministro. “Façam justiça ao ministro Tarso Genro, cujo domínio do direito todos conhecem”, continuou Mello, que ainda pediu ao plenário para reconhecer o “momento histórico” vivido pela Itália na época dos fatos e, mais do que isso, até a admitir que as acusações contra o ex-militante podem não ter fundamento. “As acusações não buscam esteio em provas periciais, fundamentando-se em uma testemunha de acusação”, disse. Battisti foi condenado à prisão perpétua em seu país com base no instituto da delação premiada, e foi acusado pelos três militantes do grupo político a que pertencia e que eram os apontados como responsáveis por esses crimes. Battisti já estava foragido.

O julgamento final do ex-militante italiano pelo STF estava em andamento no fechamento desta coluna. O ministro Gilmar Mendes proferiu o voto da forma como era esperado que fizesse: atendendo ao pedido do governo da Itália, pela extradição de Battisti. Conforme também era esperado, não aceitou a janela aberta no voto de Mello, para que transformasse em “autorizativa” a decisão de extradição. Mendes decidiu que o STF é competente inclusive para decidir a extradição do ex-militante italiano. Independente da decisão final do plenário do Supremo, a posição do ministro Marco Aurélio Mello teve o poder de destituir de um caráter pretensamente neutro o voto de desempate dado contra o asilado. As coisas pelo menos ficam mais claras dessa maneira.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

E-mail maria.inesnassif@valor.com.br

14/11/2009 - 11:14h ”Quem conduz a política internacional não é o STF”

Segundo ministro, Lula não é obrigado a entregar Battisti à Itália mesmo que corte autorize sua extradição

http://noticiainutil.files.wordpress.com/2009/06/402px-marco_aurelio_de_mello.jpg

Mariângela Gallucci – O Estado SP

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é obrigado a entregar para a Itália o ex-ativista Cesare Battisti, mesmo que a corte autorize sua extradição. “Nossa decisão na extradição, se positiva quanto ao pedido do governo requerente, é simplesmente declaratória. Nós declaramos a legitimidade do pedido para o presidente da República aí decidir se entrega ou não”, disse o ministro. Na sessão de julgamentos de quinta-feira, Marco Aurélio votou contra a extradição de Battisti.

Para ele, está havendo uma precipitação no julgamento. “Para mim, está havendo um atropelo quanto ao exame em profundidade do ato de refúgio – isso nunca ocorreu no Supremo, é a primeira vez – e quanto ao voto do relator, que assenta que o presidente da República estará obrigado a entregar o extraditando”, afirmou, em entrevista concedida ontem por telefone. “Quem conduz a política internacional não é o Supremo, não é o Judiciário, é o Executivo.”

No seu voto, o senhor chegou a mencionar a ditadura no Judiciário.

É. E citei o Canotilho (professor português de direito constitucional José Joaquim Gomes Canotilho), que se mostrou perplexo com os avanços do Supremo. Pelo fato de nós não termos acima um órgão que possa corrigir as nossas decisões, nós precisamos ter uma responsabilidade maior. Não podemos avançar, não podemos atropelar.

Qual é a opinião do senhor sobre o fato de o STF ter analisado o ato do ministro da Justiça, Tarso Genro, de ter concedido refúgio a Cesare Battisti?

Para mim, está havendo atropelo quanto ao exame em profundidade do ato de refúgio – isso nunca ocorreu no Supremo, é a primeira vez – e quanto ao voto do relator, que assenta que o presidente da República estará obrigado a entregar o extraditando. Agora mesmo o presidente Sarkozy, da França, em relação a uma italiana que a corte declarou a legitimidade do pedido de extradição, ele concedeu o asilo. Por quê? Porque o asilo e o refúgio estão no grande todo que é a política internacional. Quem conduz a política internacional não é o Supremo, não é o Judiciário, é o Executivo. E a nossa Constituição, nossa República, está assentada na separação dos Poderes. Os Poderes são independentes e harmônicos. Reconheço que meu voto ontem foi um pouco duro. Mas precisamos perceber que não somos infalíveis, não somos os censores da República de uma forma geral. A nossa atuação é vinculada ao direito posto, à Constituição Federal.

O senhor tem notado um movimento do tribunal, de avanço nas atribuições dos outros Poderes?

Tenho notado que prevalece um pragmatismo muito grande. Ontem (quinta-feira) mesmo eu comecei levantando uma questão de ordem. Pelo regimento, está em bom vernáculo que para julgar matéria constitucional temos de ter 8 (ministros no plenário). Iniciamos a sessão com 7. E depois do lanche, tínhamos 6. E aí, como eu sou um homem que quando assume compromisso eu honro, eu tinha um compromisso em São Paulo na FMU, eu tive de sair. Chego lá (no plenário do STF) no horário certo, às 14 horas. Mas estamos começando as sessões com 30, 40 minutos de atraso sempre. E os intervalos se projetando por 1 hora e 15 minutos, 1 hora e 20, enquanto o regimento prevê 30 minutos. Aí não conseguimos julgar realmente o que desejaríamos julgar.

Na opinião do senhor, o STF está se transformando num superórgão, acima dos outros Poderes?

Eu penso, como sinalizado pelo professor Canotilho, que talvez diante de uma certa inércia, principalmente do Legislativo, o tribunal tende a avançar. Agora, é o que eu digo: um suspiro dentro do tribunal é observado por todos. E o exemplo vem de cima. Se nós queremos a observância das regras jurídicas, nós temos de dar o exemplo.

No fim da sessão de ontem, o ministro Gilmar Mendes deu um recado, dizendo que o presidente tem de cumprir as decisões judiciais.

Não é bem assim. A nossa decisão na extradição, se positiva quanto ao pedido do governo requerente, é simplesmente declaratória. Nós declaramos a legitimidade do pedido para o presidente da República aí decidir se entrega ou não. Agora, se a nossa decisão é negativa, dizendo que o pedido é ilegítimo, essa decisão negativa obriga o presidente da República. Ele não pode entregar o extraditando.

O que ele pode fazer, que é um outro ato, é expulsar o estrangeiro. Mas não entregar ao governo requerente. Pela primeira vez, no voto do relator, ele está consignando que o presidente da República é obrigado a cumprir e entregar. Não é bem assim.

Os três ministros que por enquanto acompanharam o relator já concordaram com essa parte do voto, que o presidente da República é obrigado a entregar Battisti no caso de a extradição ser autorizada, ou ainda não se pronunciaram sobre esse ponto?

Eles não se pronunciaram ainda explicitamente sobre essa questão importantíssima. Não diz respeito a Battisti. É uma questão institucional, de funcionamento dos Poderes. Precisam se pronunciar.

07/11/2009 - 16:39h É hostil ao cristianismo a decisão da Corte Europeia que condenou crucifixo em escolas italianas?

TENDÊNCIAS/DEBATES – FOLHA SP

É hostil ao cristianismo a decisão da Corte Europeia que condenou crucifixo em escolas italianas?

http://www.sed.sc.gov.br/secretaria/images/stories/crucifixo.jpghttp://mp3.swissinfo.ch/xobix_media/images/sri/2005/sriimg20051125_6266508_0.jpg

NÃO

Igual liberdade religiosa para todos

ALDIR GUEDES SORIANO

A DECISÃO da Corte Europeia de Direitos Humanos concernente ao caso Lautsi v. Itália, contrária à exposição de crucifixos nas escolas públicas italianas, não pode ser considerada hostil à religião.
O julgamento foi totalmente embasado na Convenção Europeia dos Direitos Humanos (1950), que impõe aos Estados signatários, incluindo a Itália, a obrigação de respeitar o direito que os pais possuem de educar os filhos de acordo com suas próprias convicções religiosas e filosóficas.
Os dois filhos da senhora Lautsi frequentaram uma escola pública em que todas as salas de aula tinham um crucifixo na parede.
Incomodada com a influência diária que esse símbolo exercia na educação religiosa de suas crianças e com o argumento de que a situação feria o princípio da laicidade (secularismo) do Estado italiano, tentou solucionar o problema com a direção da escola.
Como a escola decidiu manter os crucifixos, levou, sem sucesso, o caso à Justiça italiana. Posteriormente, Lautsi buscou a jurisdição da Corte Europeia de Direitos Humanos, que condenou o Estado italiano a pagar 5.000 euros a título de indenização.
A corte entendeu que a exposição do crucifixo restringe o direito de alguns pais de educar suas crianças em conformidade com suas próprias convicções, bem como o direito das crianças de acreditar ou não acreditar. A presença do símbolo religioso atuaria nas crianças como sutil imposição da crença representada, levando-as ao constrangimento.
O julgamento, que foi levado a cabo por uma câmara de sete juízes da Corte de Estrasburgo, no último dia 3, tem o amparo da legislação internacional de direitos humanos.
Segundo o artigo 9º da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, “qualquer pessoa tem o direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião”. Além disso, segundo o artigo 2º do protocolo nº 1 dessa mesma convenção, “o Estado deve respeitar o direito dos pais de garantir educação e ensinamentos em conformidade com suas próprias convicções religiosas e filosóficas”.
Por unanimidade, entenderam os juízes que houve, no caso concreto, a violação desses dois dispositivos daquela convenção. É importante observar que a decisão não proíbe o uso do crucifixo pelo cidadão, que é titular ativo do direito à liberdade religiosa. Este poderá usar seus emblemas religiosos nas escolas públicas italianas sem restrição.
Por outro lado, no contexto não confessional ou laico, o Estado não é titular ativo do direito à liberdade religiosa. Assim, a exposição de símbolos religiosos pelo próprio Estado viola sua neutralidade e a isonomia em relação à diversidade religiosa existente na sociedade. O Estado, em tese, não tem o direito de ostentar símbolos religiosos. Cabe a ele proteger os direitos e as liberdades do cidadão.
Ademais, a sentença da corte não alcança as escolas particulares de natureza confessional. A decisão da corte representa conquista histórica a favor da igual liberdade religiosa para todos os cidadãos.
Por certo, a exposição do símbolo de uma única religião em todas as salas de aula dessa escola pública da Itália não pode ser considerada direito, mas privilégio que viola a laicidade estatal e o princípio universal da liberdade religiosa.
Por isso, não se pode dizer que a decisão é hostil à religião. Na verdade, a Corte Europeia se posicionou a favor do ser humano, cujos direitos devem ser preservados.
Por fim, não há dúvidas de que essa importante decisão de Estrasburgo está em conformidade com o direito internacional e com o desafio constante de proteger os direitos e as liberdades fundamentais da pessoa humana e sua dignidade.


ALDIR GUEDES SORIANO , 47, advogado e membro da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da OAB-SP, é coordenador da obra coletiva “Direito à Liberdade Religiosa: Desafios e Perspectivas para o Século XXI”.

É hostil ao cristianismo a decisão da Corte Europeia que condenou crucifixo em escolas italianas?

SIM

A ditadura do laicismo

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS

UMA ÚNICA senhora -que, certamente, no dia de comemoração do nascimento de Cristo, ofertará a seus filhos e familiares presentes natalinos- e a Corte Europeia de Direitos Humanos, constituída de juízes não italianos -e que também, em homenagem ao Natal, não funcionará no dia 25 de dezembro-, impuseram à nação italiana, berço do cristianismo universal, contra a opinião de dezenas de milhões de pessoas que lá vivem, a retirada dos crucifixos de suas escolas públicas.
Os próprios juízes daquela corte, que decidiram contra a presença dos crucifixos -símbolo integrante da cultura da esmagadora maioria dos cidadãos italianos-, certamente também festejarão as festas natalinas, presentearão familiares e amigos e comemorarão a data de confraternização mundial por excelência, talvez a mais importante para a difusão da paz e da fraternidade entre os povos.
A contradição hipócrita entre a eliminação dos crucifixos e a comemoração do Natal -signos que lembram a morte e o nascimento de Jesus Cristo- é evidente, demonstrando a falta de razoabilidade da decisão da Corte Europeia de Direitos Humanos, por impor aos italianos a vontade de uma única pessoa.
Não cogitou, entretanto, de instituir a proibição dos feriados natalinos a todos os países da Europa.
Esse e outros episódios que vão se multiplicando pelo mundo estão a atestar que os valores do cristianismo incomodam, hoje, como incomodaram, nos primeiros 300 anos, os detentores do poder no Império Romano, cujo padrão de comportamento moral não serviria de lição para nenhuma escola de governantes.
Para o referido órgão decisório, acostumado a condenar todos aqueles que, na sua preconceituosa visão laicista, ferem seu conceito amesquinhado de dignidade humana, realmente a figura do crucifixo deve perturbar, pois, como julgador, Cristo, na cruz, não só absolveu todos os que o condenaram mas também aquele criminoso (Dimas) que com ele foi crucificado. E, para essa corte, acostumada a condenar, a figura de um juiz que absolve é perturbadora, como lembra Américo Lacombe.
O certo é que há uma minoria, com forte influência política, que busca solapar os valores éticos e culturais do cristianismo a título de impor a ditadura do ateísmo, segundo a qual, num Estado laico, apenas os que não têm religião podem se manifestar, impor as suas regras e exigir que todos os que acreditam em Deus se submetam à tirania agnóstica.
A decisão, por outro lado, fere um princípio fundamental, o da subsidiariedade no direito europeu, pelo qual todas as questões que podem ser decididas de acordo com a tradição, os costumes e a legislação locais não devem ser levadas às cortes da comunidade, pois dizem respeito exclusivamente ao direito interno de cada país.
Bem por isso a decisão referida está recebendo fortes críticas, correndo sérios riscos de não ser cumprida em um país no qual até mesmo leis que contrariam seus costumes são de difícil cumprimento.
No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça, em resolução tomada por 12 votos e uma abstenção, deliberou que, nos tribunais, caberá a cada magistrado decidir, de acordo com suas convicções, a manutenção ou não do crucifixo na sala de julgamentos. E uma tentativa do Ministério Público de retirar os crucifixos desses recintos foi rejeitada pelo Poder Judiciário.
Se a Turquia vier a ingressar na União Europeia -já estando avançadas as tratativas nesse sentido-, certamente a Corte Europeia não terá coragem de proibir, diante de possíveis reações “talebanísticas”, os símbolos da cultura e da crença islâmica nas sessões de julgamento.
Os valores do cristianismo sempre incomodaram. Embora sem a virulência dos tempos dos mártires do coliseu, a reação dos que querem impor sua maneira de ser é a mesma.
Trata-se de uma visão deturpada do Estado laico. Este não é um Estado sem Deus, mas um Estado em que a liberdade de pensar é plena e não pode reputar-se ameaçada pelo respeito às tradições do povo e do país. Numa democracia, é a maioria que deve decidir os seus destinos. E a maioria acredita em Deus.


IVES GANDRA DA SILVA MARTINS , 74, advogado, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, é presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio.

04/11/2009 - 10:34h Itália é condenada por ter crucifixo na sala de aula

Para a Corte Europeia de Direitos Humanos, símbolo perturbaria crianças não cristãs; integrantes do governo e da Igreja criticaram a decisão


Reuters, AP e Efe, ROMA – O Estado SP

A Corte Europeia de Direitos Humanos determinou ontem que os crucifixos, símbolos da religião cristã, sejam retirados das escolas públicas italianas, pois a sua presença poderia ser perturbadora para crianças de famílias que possuem outras crenças. A decisão causou indignação e raiva em autoridades italianas e na Igreja Católica, que classificou a sentença de “ideológica e parcial”. O governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi anunciou que pretende recorrer.

“Vergonhosa”, “ofensiva”, “absurda”, “inaceitável” e “pagã” foram alguns dos adjetivos incisivos usados por integrantes do governo ao comentar a decisão do tribunal.

Para a ministra da Educação, Mariastella Gelmini, a presença dos crucifixos nas salas de aula não significa uma aderência automática ao catolicismo e sim um símbolo de uma herança italiana. “A história da Itália está marcada por símbolos e se apagamos esses símbolos, apagamos partes de nós mesmos”, disse.

Rocco Buttiglione, um ex-ministro que ajudou a escrever encíclicas papais, afirmou que a “Itália tem sua cultura, suas tradições e sua história. Os que vivem entre nós devem entender e aceitar essa cultura e essa história”.

O país vem debatendo há tempos como lidar com a crescente população de imigrantes – a maioria vinda de países com maioria de muçulmanos – e é provável que a sentença da Corte Europeia de Direitos Humanos se converta em um outro grito de guerra para a política do governo de Berlusconi, de centro-direita, para restringir o número de recém-chegados.

O caso foi apresentado por uma cidadã italiana, Soile Lautsi, que se queixou do fato de que seus filhos tiveram de frequentar uma escola no norte do país que possuía crucifixos em todas as salas. Soile alegou que isso contrariava seu direito de dar a seus filhos uma educação secular e a corte decidiu a seu favor.

O ministro italiano de Relações Exteriores, Franco Frattini, afirmou que a corte desferiu um “golpe mortal a uma Europa de valores e direitos”, criando um mau precedente para outros países.

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse que o crucifixo é símbolo da importância dos valores religiosos na história e na cultura italiana e um símbolo de união e aceitação para toda a humanidade. Para ele, a corte não tinha o direito de intervir em um tema profundamente italiano. “Parece que a corte ignora o papel do cristianismo na formação da identidade europeia, que era e continua sendo essencial.”

***

Tribunal europeu condena crucifixo em escola italiana

Corte de direitos humanos diz que símbolo pode perturbar crianças não cristãs

Governo e Vaticano criticam decisão, tomada a partir de denúncia feita por cidadã que considerou cruz uma afronta ao ensino laico

DA REDAÇÃO FOLHA SP

A Corte Europeia de Direitos Humanos condenou ontem a presença de crucifixos em escolas da Itália, alegando que os símbolos poderiam perturbar crianças não cristãs. A decisão causou protestos de italianos que consideram o crucifixo parte da cultura nacional. O governo Berlusconi prometeu recorrer da condenação.
O caso foi levado à Corte Europeia por uma cidadã italiana, Soile Lautsi, que se queixava de que seus filhos eram forçados a ir a uma escola pública com crucifixos em todas as salas de aula e que isso contrariava seu direito a uma educação laica.
A corte condenou o governo a pagar multa de 5.000 a Lautsi e, ainda que não tenha determinado explicitamente a remoção dos crucifixos, declarou em seu veredicto que “o Estado não deve impor crenças” em locais públicos e tem de manter “neutralidade na educação pública, que deve abrigar o pensamento crítico”.
O Vaticano expressou “choque” e “pesar” pela decisão, uma vez que vê o crucifixo como “símbolo do amor de Deus, de união”. “Lamento que seja considerado um símbolo de divisão ou limitação de liberdade”, disse o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi.
A ministra da Educação, Mariastella Gelmini, disse que os crucifixos não significavam aderência ao cristianismo e que apenas simbolizam a tradição italiana. Parte da oposição ao governo direitista também criticou a decisão judicial, elogiada por grupos ateístas.
A Itália é um dos países europeus envoltos em debate sobre como lidar com um crescente número de imigrantes, muitos deles muçulmanos, e a proibição da corte europeia pode servir de bandeira para o governo conservador do premiê Silvio Berlusconi intensificar a restrição à imigração.
Na França, lei de 2004 proibiu o uso de símbolos religiosos ostensivos em todas as escolas públicas. É possível que a decisão judicial de ontem -que afeta uma lei dos anos 1920, época do governo fascista, que obriga as escolas italianas a ostentarem crucifixos- estimule medidas semelhantes em outras escolas públicas europeias.
A Corte Europeia de Direitos Humanos, em ação desde 1959 em Estrasburgo, França, foi criada para punir violações previstas na Convenção Europeia de Direitos Humanos, e suas decisões são vinculantes.
Antes de chegar ali, em 2006, o processo tramitou no Tribunal Constitucional italiano (que disse não ter jurisdição sobre o caso), num tribunal administrativo e no Conselho de Estado da Itália, que o rejeitou.


Com agências internacionais

07/09/2009 - 18:07h Silvio Berlusconi, o intocável

Images&Visions

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Fotografia do primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi aparece em cartaz no lugar do ator Robert De Niro, que interpreta o mafioso Al Capone no filme “Os Intocáveis”.

Vários cartazes com a fotografia do primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, foram distribuídos pela cidade de Milão, no norte da Itália, remetendo ao filme “Os Intocáveis”, de Eliott Ness, no qual o 1º ministro aparece no lugar do ator Robert De Niro, que interpreta o mafioso Al Capone. Os cartazes foram colados em diversas regiões da cidade, em muros e espaços publicitários, informou hoje o jornal “La Stampa”. No pôster, Berlusconi substitui De Niro e logo abaixo de sua fotografia aparece escrito “O intocável. Quando a impunidade se transforma no sistema”.

15/08/2009 - 11:59h A Europa volta a rugir

http://img.rtp.pt/noticias/images/articles/367611/merkel+sarkozy_epa.jpg

Carter Dougherty* – O Estado SP

A economia europeia apresentou no segundo trimestre uma recuperação mais forte do que a esperada, sustentando esperanças de que a recessão mundial esteja próxima do fim.

A grande melhoria em relação ao primeiro trimestre sublinhou o quanto a Europa e a própria economia mundial se recuperaram desde a queda livre do fim de 2008. O bom resultado foi puxado por França e Alemanha, economias que apresentaram pequeno crescimento no segundo trimestre.

Apesar de muito dependente dos gastos governamentais, a Ásia apresentou recentemente grandes melhorias. Alguns dos principais analistas esperam para este ano um crescimento de até 9% na China, e de mais de 10% no ano que vem. Enquanto isso, a brutal contração no início do ano nos Estados Unidos amainou, e há sinais indicando pequeno crescimento para o segundo semestre.

A economia da União Europeia, formada por 27 países, encolheu 0,3% no trimestre encerrado em 30 de junho, chegando a uma taxa anual de aproximadamente 1,2%. Os 16 países que usam o euro como moeda tiveram declínio de 0,1% no segundo trimestre, equivalente a uma taxa anual de 0,4%.

Apesar de negativos, os dados europeus transmitiram uma impressão muito melhor do que os do primeiro trimestre deste ano, quando se registrou, tanto na União Europeia quanto na zona do euro, uma contração de 2,5% em relação aos três últimos meses de 2008.

O significativo abrandamento da recessão colocou a Europa em um nível semelhante ao dos Estados Unidos, onde a economia se contraiu num ritmo anual de 1% no segundo trimestre. Economistas disseram que a Europa recebeu alguma ajuda dos programas governamentais, como as bonificações pagas na troca de carros antigos por veículos novos, além da maior demanda por exportações observada na China.

Mas, acima de tudo, o desempenho representou uma virada para o choque financeiro que foi sentido nas economias do mundo todo após o colapso do Lehman Brothers, em setembro, e o subsequente caos nos mercados financeiros.

A Europa ainda enfrenta a possibilidade de ver sua recuperação desacelerar ou mesmo estagnar no início de 2010 por causa das iniciativas insuficientes para a restauração do sistema bancário e do rápido aumento do desemprego. Ainda assim, as perspectivas mais animadoras, em especial na Alemanha e na França, parecem ter dado à região um impulso rumo a uma recuperação mais precoce do que a esperada.

Por causa da sua receita bastante diversa para combater a recessão, a Europa deve apresentar em 2010 um crescimento menos veloz do que o americano, segundo economistas.

No ano que vem, a maior parte de um programa de gastos no valor de US$ 800 bilhões nos EUA começará a surtir efeito, o que fará as medidas europeias parecerem quase insignificantes, apesar de suas dimensões corresponderem ao medo dos governos europeus de se verem atolados em dívidas. Uma isenção fiscal total de aproximadamente US$ 100 bilhões deu aos EUA, nos últimos meses, um impulso rumo à recuperação.

“A verdadeira diferença nas recuperações será sentida no ano que vem”, disse Thomas Mayer, economista-chefe do Deutsche Bank para a Europa. “Isso acontecerá quando os EUA se restabelecerem mais rápido do que a Europa.” Os números animadores são sustentados pelo desempenho sólido de França e Alemanha. Mesmo assim, a economia alemã, a maior da região, ainda deve registrar contração anual de 6%, dizem os economistas.

Dentro da zona do euro, França e Alemanha estão ajudando a equilibrar os desempenhos sofríveis da Itália, eterna retardatária, e da Espanha, onde o colapso do mercado imobiliário causou aguda recessão.

Os países do Leste Europeu, em especial a Hungria e os países bálticos, continuam sofrendo grandes dificuldades. A antes poderosa economia britânica ainda enfrenta rápida alta no desemprego, apesar da possibilidade de o país também apresentar um modesto crescimento no terceiro trimestre.

Os novos números da economia alemã surpreendem após quatro trimestres consecutivos de contração na produção, sugerindo que a recessão do país – a pior desde a Segunda Guerra – tenha chegado ao fim.

A surpresa do crescimento alemão – a maioria dos economistas esperava número igual a zero ou até negativo – reflete o ganho dos exportadores com o crescimento na Ásia e com o que parece ser o fim do declínio nos EUA. A produção industrial também recebeu o incentivo de programas que conferem um bônus de 2.500 aos compradores que decidirem trocar seus carros velhos por modelos novos e menos poluentes.

“O estímulo está funcionando um pouco, mas existe também uma recuperação associada ao comércio global”, disse Erik Nielsen, economista-chefe do Goldman Sachs de Londres para a Europa.

Mas outros fatores estão influenciando as perspectivas para a Europa, criando incertezas em relação à situação econômica em 2010. Na semana passada, a notícia de que as exportações alemãs tinham dado em junho um salto de 7% em relação ao mês anterior antecipou que deve haver um crescimento no Produto Interno Bruto.

Mas isso mascarou um colapso generalizado nas encomendas do exterior; as exportações alemãs apresentaram em junho queda de 22% em relação a igual período de 2008.

E ainda é esperada para este ano uma grande alta no desemprego, conforme programas governamentais que mantinham as pessoas em folhas de pagamento particulares começarem a expirar.

O desemprego na zona do euro já está em 9,4%, o nível mais alto em 10 anos, e o crescimento anêmico dos próximos trimestres não será suficiente para frear ou compensar este aumento. Isso, por sua vez, poderia derrubar a confiança do consumidor e até provocar turbulências políticas na Europa, segundo os economistas.

O sistema financeiro é outro problema no horizonte, apesar de a sua recuperação ser mais rápida do que a esperada. O Fundo Monetário Internacional (FMI) criticou a Europa por não ter agido com suficiente agilidade para recapitalizar os bancos e limpar de ativos podres dos balanços. Mas a previsão do Banco Central Europeu (BCE) para as perdas é menor do que a do FMI e, além disso, publicou dados sugerindo que há maior fluidez nos fluxos de crédito.

“Não precisamos nos preocupar com o aperto no crédito tanto quanto pensamos que seria necessário no início do ano”, disse Julian Callow, economista-chefe do Barclays Capital.

*Carter Dougherty é jornalista

30/07/2009 - 15:08h CONTARDO CALLIGARIS Em defesa de Berlusconi

CONTARDO CALLIGARIS



Berlusconi faz festinhas com prostitutas, e eu com isso? A capacidade de governar é afetada?

NÃO TENHO simpatia alguma pelo premiê italiano, Silvio Berlusconi.
Para começar, não acho legítimo governar e, ao mesmo tempo, ser um megaempresário em exercício. A decência pede que os políticos, durante seu serviço público, se afastem da gestão de seu patrimônio e, ainda mais, da de suas empresas.
Além disso, Berlusconi é o triste símbolo do fim de uma época em que, na Itália, o fascismo era um divisor de águas. Dos comunistas até aos liberais (passando por socialistas, social-democratas, republicanos, radicais e cristãos-democratas), apesar das diferenças, havia um propósito comum: o passado totalitário não voltaria, nunca.
Berlusconi trouxe para o poder os próprios neofascistas e outros afins, que oferecem planos radicais, sedutores e esdrúxulos para as dificuldades da nação.
Nessa empreitada, a maior aliada de Berlusconi foi a mediocridade da esquerda e do centro, cada vez menos capazes de apresentar um projeto para o país.
Nas eleições de 2008, meus sobrinhos me confessaram que votariam em Berlusconi porque, ao menos, eles entendiam o que ele se propunha a fazer, enquanto não entendiam nada do que dizia Walter Veltroni, que liderava a centro-esquerda. Se meus sobrinhos, rebentos de uma tradição antifascista, preferiam Berlusconi, a batalha estava mesmo perdida.
A Itália continua sendo uma democracia. Do fascismo, Berlusconi ressuscitou (apenas?) a vulgaridade populista, que consiste em fazer apelo ao que há de pior no eleitor, tornando-o cúmplice das soluções mais fáceis, violentas, racistas e machistas.
Com isso, nunca pensei que escreveria um dia em defesa de Berlusconi. Mas, nestes últimos dias, os opositores do premiê adotaram a mesma vulgaridade que o caracteriza.
O semanal “L’Espresso” e o cotidiano “La Repubblica” (fundados por Eugenio Scalfari, um papa do jornalismo italiano) vêm soltando trechos de gravações de telefonemas entre o premiê italiano e Patrizia D’Addario, uma prostituta de 42 anos que, aparentemente, teve encontros sexuais com Berlusconi, comentou elogiosamente sua performance na cama, gravou as conversas e as tornou públicas para se vingar porque Berlusconi não teria cumprido sei lá qual promessa.
Antes disso, o cotidiano espanhol “El País” (outra referência da imprensa europeia) divulgou uma série de fotografias de Berlusconi, em sua vila na Sardenha, com topless feminino e nudez masculina. Tudo isso começou com a publicação em destaque de denúncias ressentidas da esposa do premiê.
A vida sexual de Berlusconi não me indigna. Como não sou fascista, tampouco espero que o líder encarne grotescamente a “virilidade” de todos nós (embora, como notou João Pereira Coutinho, muitos eleitores possam se regozijar com isso). Mas me sinto insultado pela própria suposição de que essas “notícias” me interessem. Berlusconi organiza festinha com prostitutas, E EU COM ISSO? Avisem-me se a coisa afetar sua capacidade de governar.
A invasão da privacidade de um governante se justifica quando ela demonstra sua hipocrisia pública. Se Ahmadinejad, em sua iminente visita ao Brasil, for flagrado dançando numa boate gay, isso me interessaria porque ele é líder de um país que pune a homossexualidade com a morte.
Quando se descobriu que Eliot Spitzer, governador do Estado de Nova York, era cliente de uma rede de prostituição, o escândalo foi relevante porque Spitzer, quando era promotor, tinha sido um ferrenho perseguidor das prostitutas e de seus clientes. Mas Berlusconi nunca pretendeu ser “um santo”.
A ausência de relevância política das fotos e das conversas transforma os melhores órgãos da imprensa europeia em tabloides sensacionalistas e confirma que o problema da Itália de hoje não é Berlusconi, mas a decadência da oposição.
É quase uma regra: quem cata argumentos de moral privada na roupa suja de seu adversário político 1) Quer esconder e censurar seus próprios trapos (tão sujos quanto os do opositor criticado) ou, então, 2) Ele não tem nada para dizer que interesse aos eleitores e apela para uma cumplicidade de botequim (”Cara, viu a de Berlusconi com a puta?”).
Parabenizo o PT, que, em seu “Código de Ética”, aprovado nestes dias, decreta que é terminantemente vedada (artigo 6, 1) “a exploração de aspectos da vida íntima de adversários em disputas políticas ou eleitorais, internas ou externas, de qualquer natureza” (íntegra em www.pt.org.br).

ccalligari@uol.com.br

07/06/2009 - 15:33h El País publica reportagem virulento contra Berlusconi e com mais fotos

REPORTAJE: BERLUSCONI

Anatomía de Berluscolandia

Decenas de vuelos oficiales y privados llevan cada fin de semana a Cerdeña a una milicia de bellezas que entretienen al jefe del Gobierno italiano y sus amigos. Tras las acusaciones de la primera dama y el ‘Noemigate’, Italia revela al mundo su clima de bajo imperio. ¿Pasará factura a Berlusconi?

http://www.elpais.com/recorte/20090607elpepuint_1/XLCO/Ies/20090607elpepuint_1.jpg

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MIGUEL MORA 07/06/2009 – EL PAÍS

In ENGLISH / In ITALIANO

Jardines infinitos, lagos artificiales, órganos sexuales al aire, juegos lésbicos, efectos especiales, pizza y helado gratis… Un geriátrico lleno de cuerpos imponentes. Las fotos censuradas en Italia por iniciativa de Silvio Berlusconi muestran la rutina desinhibida de la mansión sarda del jefe del Gobierno, en la Costa Esmeralda de la isla de Cerdeña.

Lunes 1, jardines del palacio presidencial del Quirinal, fiesta de la República: cientos de prohombres del régimen suben a saludar al primer ministro, acorralado por las reacciones suscitadas a las noticias de su amistad con Noemi Letizia, una chica de 18 años. Un 70% de esos prohombres acude a saludar a Berlusconi con su hija del brazo, en vez de con su mujer. Bienvenidos a Berluscolandia, el país donde todas las jovencitas quieren ser velinas (azafatas de televisión).

Visitemos ahora Villa Certosa, la misteriosa mansión sarda del magnate milanés que oficia de primer ministro y es el actual presidente de turno del G-8 y líder elegido a mano alzada por el partido Pueblo de la Libertad. Desde que se supo que Noemi Letizia, la joven napolitana de 18 años que llama Papi a Berlusconi, pasó el fin de año en la casa con otras 30 velinas (azafatas televisivas), todos los italianos fantasean con ese nombre: Villa Certosa. La finca es el sueño de cualquier camorrista, sobre todo si está preso: olivos y palmeras, piscinas por doquier, helados y pizza gratis a discreción, lagos artificiales, un anfiteatro donde toca y canta sus canciones napolitanas el inevitable Mariano Apicella, que ha publicado dos discos con Berlusconi como autor de las letras de sus canciones…

El mar turquesa, la gran casa principal, las estancias secretas, el canal subterráneo que comunica el mar directamente con la villa -inspirado en un filme de James Bond-, el parque con sesenta hectáreas de terreno, los bungalós que el dueño pone a disposición de sus invitadas (siempre más chicas que hombres, proporción de 4 a 1), todo ello reformado y renovado en 2006 por unos módicos 12 millones de euros.

Incluso, asegura una fuente muy solvente, la villa esconde un refugio antiatómico en el subsuelo, y las provisiones son renovadas cada poco tiempo. Y luego están las velinas, esas bellezas que quizá, quién sabe, acabarán dando a conocer este extraño periodo de la historia como el berlusconismo-velinismo.

La belleza de la palabra velina (no confundir con bellina) no es menos sugerente que su origen: la velina era la nota que se mandaba a los periódicos desde la oficina de censura del fascismo diciendo qué se podía escribir y qué no. Ese carácter de cosa fuera de contexto se aplicó, con el tiempo, a las azafatas de televisión que aparecían en zonas ajenas a su tarea de florero, por ejemplo junto a la mesa donde el periodista lee las noticias. “Llega la velina”. Cuajó, y así hasta hoy.

Aunque siempre ha sido un secreto a voces, Italia ha convivido sin el menor reparo moral con el hecho de que Silvio Berlusconi haya conocido, cortejado, invitado, recomendado, dado empleo, ayudado y promovido a cientos de velinas durante su carrera política. La lista es demasiado larga y anónima como para reproducirla aquí.

Durante una década de visitas, de fiestas y de escapadas, casi todas ellas, y otras muchas más, habrán pasado lógicamente por Villa Certosa. Los mejores cuerpos de Italia. Las caras más inocentes y bonitas. Aspirantes a modelos, actrices, vedettes, majorettes, presentadoras. Muchachas jovencísimas, de 17 y 18 años hasta 28 o 29, no más: mariposas recién salidas de la crisálida familiar que han entrado a formar parte del harén del jeque. Cuando las acoge en su seno, revela Concita de Gregorio, directora del diario L’Unità, “les entrega una joya en forma de mariposa a modo de contrato o de sello. Es el sello del sultán”.

La política-espectáculo de Berlusconi, su talante personalista y plebiscitario, su fascinación de magnate generoso y mujeriego, han seducido durante tres lustros a las masas de televidentes y votantes italianos con sus chistes, su estilo machista, sus meteduras de pata, su ascenso social, sus triunfos electorales, incluso las victorias y los fichajes de su equipo de fútbol (esta semana paralizó la comunicación del fichaje de Kaká hasta el lunes para no dejarse un solo voto).

Todo eso forma parte natural de su bagaje a-político y a-cultural, de su populismo abierto y mundano, que paradójicamente se apoya a la vez en un no-programa no-político, tradicionalista y católico, lejanamente inspirado en la trinidad “Dios, patria y familia”. Habría que añadir: “y velinas”.

Villa Certosa es el símbolo de estatus del Cavaliere más discreto, su refugio no sólo nuclear. Es su tesoro, su secreto mejor guardado, el lugar donde este hombre de casi 73 años, multimillonario y prepotente, simpático y mediático, recibe a sus amigas y amigos, celebra consejos de ministros informales, cierra o prepara negocios o hazañas políticas, agasaja a los líderes de la derecha mundial, cuida de sus crisálidas, sienta a sus velinas en las rodillas y las pasea en el carrito del golf por el parque, zona militarizada y secreto de Estado desde 2006.

Según narran las fotos de Antonello Zappadu, Villa Certosa es también el lugar donde el magnate megalómano, el personaje excesivo, cómico y mitómano se olvida del abuelo que es (y que se alejó hace una década del dormitorio conyugal) y se convierte en macho otra vez, en el jeque del harén, en el Super-Silvio moreno perpetuo, y operado (también de la próstata), mientras Italia susurra preocupada que toma demasiado viagra y que sus médicos temen por su corazón.

Villa Certosa es además el lugar donde su amiga napolitana Noemi Letizia, de 18 años recién cumplidos, fue invitada a pasar las vacaciones de fin de año con otras treinta colegas y una docena de próceres del berlusconismo, casi todos setentones como él: gerontocracia y chavalas de bandera.

Como dice el filósofo Paolo Flores d’Arcais, “la pregunta no es lo que pasa o ha pasado en Villa Certosa, sino lo que habría ocurrido en Estados Unidos si se hubiera sabido que Obama ha pasado las vacaciones de Navidad con 30 vedettes de 18 años y sin su mujer, o en Alemania si se descubriera que Angela Merkel veranea con 30 gigolós macizos”.

De lo que se trata, en el caso de estas jóvenes mujeres italianas, es de cumplir un sueño, de alcanzar la meta: conocer a Silvio y a sus potentes amigos, trabajar en la televisión y quizá llegar a la política, lo que en el país de la RAI y Mediaset, controladas por el mismo hombre, viene a ser lo mismo.

Muchas de esas jóvenes se han limitado, trágicamente, a encarnar el modelo de sus padres, el conformismo de esa desencantada generación pos-68 que se quedó adocenada ante el televisor en los años ochenta y noventa viendo cómo la Democracia Cristiana se disolvía, cómo Bettino Craxi se exiliaba, cómo la otrora brillante izquierda italiana se convertía a la caída del Muro de Berlín en una casta oligárquica, aburrida y alejada de las necesidades de la gente.

A algunos les parecerá repugnante; a otros, pragmática y humana esa idea del mundo y del ascenso social. Pero, ¿qué mejor forma de triunfar en la Italia de la televisión que estar cerca, muy cerca, del gran patrón de la televisión europea y quizá mundial?

Berlusconi, lo ha escrito Eugenio Scalfari, es el Rey Sol. Como dice un político sardo, “si te acercas al sol, el sol te ilumina y te calienta”. Y según sostiene otro maestro de periodistas, éste represaliado por la derecha, Giancarlo Santalmassi, “media Italia trabaja para Berlusconi, la otra media lo está deseando”.

Acudir a Villa Certosa asegura a las chicas ese lugar bajo el sol, un teléfono al que poder llamar, quizá una recomendación del emperador, un pulgar hacia arriba, un casting al que acudir a la vuelta a Roma o a Milán, el domingo por la noche o el lunes por la mañana, tras las noches largas y divertidas, las charlas políticas de Silvio, los paseos, las salidas a comprar al centro comercial de Porto Rotondo (paga Papi, hasta 1.500 euros por chica), los bailes desenfrenados, algún striptease más alcohólico que pagado, el machismo en su índole peor.

No es fácil estar entre las elegidas, llegar a vestal de Villa Certosa, insiste un político sardo, que prefiere no identificarse por razones de seguridad: “El que va a la villa, cuenta; el que duerme allí, cuenta mucho, y el que pasa las vacaciones, está en el corazón del César”.

El César, que empezó con el ladrillo, tiene siete villas más en Cerdeña, otra en Antigua, incontables mansiones en Roma y en Milán, pero Villa Certosa es la medida de todas las cosas. Incluso los ministros y ministras del Gabinete se dividen entre los muy habituales (como el silencioso Gianni Letta) y los ocasionales que apenas han ido una vez o sólo lo han hecho para participar en algún consejo de ministros (o de administración) fuera de temporada.

Entre las ministras, la que más ha estado es Mara Carfagna, la titular de Igualdad de Oportunidades, a la que por cierto le honra su fidelidad, pues ha sido la única que se ha atrevido a defender su actuación a lo largo del esperpento llamado Noemigate. A su juicio, Berlusconi está siendo atacado por envidia y sin razón, porque es una persona “buena”.

Para las chicas, la mejor forma de entrar es captar el ojo experto del viejo calavera. Como le pasó a Noemi Letizia o a la propia Carfagna y a tantos otros cientos de muchachas. Noemi, una dulce muchacha criada en ambientes cercanos a la Camorra napolitana, quería ser artista. Así que se hizo un libro de fotos y lo mandó a una agencia de Roma. El periodista de Canale 4 Emilio Fede, íntimo de Berlusconi, lo recogió y se lo llevó bajo el brazo, casualmente lo olvidó sobre la mesa, su capo cogió el teléfono y marcó el móvil de la joven. Le dijo que tenía una mirada angelical y que debía conservarse así, pura.

Eso era en octubre, reveló Gino, el obrero que fue novio de Noemi hasta que apareció Papi, en una entrevista a La Repubblica. Poco después, Noemi fue vista en una fiesta de la moda en Villa Madama, y en otra del Milan. En ambos casos la sentaron en las mesas presidenciales. Según han contado tanto Berlusconi como sus padres, la amistad venía de antiguo; Gino y una tía de Noemi lo han desmentido.

El caso es que, en diciembre, Noemi estaba ya en Villa Certosa con su amiga Roberta, una de las tres amigas con las que rodó un vídeo casero que circula por Youtube en el que se declaran fantásticas e inalcanzables. Aunque, bien pensado, quizá fuera antes, porque la propia Noemi declaró al empezar a ser famosa que había visto a Papi a menudo, que él no siempre podía ir a Nápoles con lo ocupado que estaba, y que ambos cantaban juntos las canciones de Apicella. Ahora la joven, en un último intento desesperado de salvar los muebles, ha dicho en una entrevista a la revista Chi, por supuesto de Berlusconi, que sigue siendo virgen.

Otra forma de llegar a Villa Certosa, de alcanzar el rango de mariposa y pasar a formar parte de la colección del gran entomólogo, es conocer a los amigos del Sultán. Mejor si son empresarios VIP del círculo estrictamente judicial (lo judicial une mucho), como Marcello dell’Utri, el patrón de la escudería de Renault y compañero de fatigas off shore Flavio Briatore (que le recomendó a Berlusconi al abogado británico David Mills, creador corrompido del imperio Fininvest B), o el complaciente Fede Confalonieri, presidente de Mediaset.

Tampoco viene mal conocer a esos brillantes periodistas de la tercera edad, estrellas refulgentes del firmamento televisivo oficialista, gente como Fede (autor del telediario más surrealista del continente), o como el siempre genuflexo Bruno Vespa, capaz de entrevistar doce veces al año al amo y sortear siempre la pregunta incómoda.

Todos ellos conforman la esencia decadente del berlusconismo-velinismo, y como tales frecuentan la casa sarda desde hace años. Buscan seguridad, compadreo, calor, calma, relax y cuerpos bonitos para mitigar el estrés y el agobiante ejercicio de la política, la corrupción o el siempre fatigoso (para las vértebras) periodismo de cámara.

Hay, claro, vías intermedias, proveedores diversos, aficionados al deporte del gineceo, madres alcahuetas dispuestas a renovar gratis el cuerpo de magia del prestidigitador, ministros, viceministros y secretarios de Estado dispuestos a aportar novedades a las veladas, ese enorme círculo hecho de hijas de amigos, conocidos, vasallos, empleados, esa prima de curvas prometedoras del portero, el guardaespaldas, la cocinera, la sobrina del carabinero, la aspirante a modelo que manda sus fotos vía e-mail a Palazzo Chigi con su número de móvil escrito en un tipo de letra que imita al lápiz de labios.

Toda Italia está en el juego, todo el país lo sabe, el problema es que todos lo cuentan, pero nadie lo dice con su nombre. Sátrapas, emperadores, monarcas y comendadores han llenado históricamente sus salones de jovencitas, pero ahora la gente tiene miedo, la omertà es condición indispensable para que la hipocresía no termine, la información está bajo control directo o indirecto del emperador (publicidad institucional, subvenciones públicas, promesas, créditos…), si alguien se sale del tiesto le puede costar el puesto, la Iglesia de Roma no debe enterarse (y por eso reclama sobriedad como toda crítica), y encima hay crisis, y vivimos en un país subterráneo por definición, ese maravilloso belpaese que siempre se declara orgulloso de su arte casero para arreglarse improvisando, “da igual Francia o España, lo importante es que se mangia (se come)”.

La entrada de las velinas televisivas en la política, que se encuentra en el origen de esta crisis moral, era la consecuencia inevitable de la historia y del sistema. Forza Italia nunca ha sido un partido, sino un grupo de tifosi, de empleados comandados por Dell’Utri que reclutaron a toda prisa a la plantilla entera de secretarias de Publitalia en 1994 para llenar a tiempo las listas.

Su sucesor, el Pueblo de la Libertad, tampoco es un partido, más bien un aluvión de consejeros medianos, gestores sumisos y rostros bonitos sin tradición, ideología, bases. La televisión y la propaganda como única política; y la política se hace en televisión. Italia sigue siendo el paraíso del enchufe, el que no tiene un amigo está huérfano, y el gran jefe electricista se llama Silvio. Silvio aggiustatutto.

El benefactor es Berlusconi; los colegios y las casas están llenos, rebosantes de bellas Uranitas, y el sitio donde ellas se ponen a tiro es Villa Certosa.

Escuchen a la ex profesora de Noemi Letizia: “Es muy lógico, él le ayudará, a todos nos conviene tener amigos, un médico que te escriba las recetas”.

Elisa Alloro, una de las velinas que han estado en la casa madre, ha publicado esta semana un libro interesante, titulado Noi, le ragazze di Silvio. En él revela que también ella llama Papi a Berlusconi, y no sólo ella, desde mucho antes de que apareciera en la vida del Cavaliere la cenicienta Noemi.

“Es una mina de sabiduría”, escribe sobre el líder máximo la velina periodista, de 32 años. Nacida en Reggio Calabria, Alloro participó en el curso de formación política de 25 jóvenes velinas del PDL, impartido con vistas a las elecciones europeas por, entre otros, el ministro de Exteriores, Franco Frattini, y el vicepresidente del Europarlamento, Mario Mauro, a petición del primer ministro.

Presentadora, Alloro fue preseleccionada por el Cavaliere, junto a, entre otras, Eleonora Gaggioli, aspirante a actriz; Camilla Ferranti, aspirante a presentadora; Angela Sozio, pelirroja de Gran Hermano a la que Zappadu fotografió en 2007 en las rodillas del premier (junto a cuatro más), y Barbara Matera, concursante en el Miss Italia de la Puglia, amiga del doctor Letta, y finalmente (tras el “yo acuso” de Verónica Lario) la única candidata velina de las 25 precandidatas.

La primera que llamó Papi a Berlusconi, revela Alloro, fue Renata, una velina brasileña y milanista. El apelativo se extendió como un virus. “Y ahora, muchas ragazze se dirigen a él con ese nombre, es una costumbre, quizá el fruto de un acuerdo tácito, una especie de nombre en código nacido, quién sabe, del atávico temor a ser interceptadas (por las escuchas telefónicas)”.

El libro, de 100 páginas, está escrito en forma de carta a Verónica Lario, rechaza las acusaciones de “quincalla” y defiende al jefe: “Es una mina de sabiduría, cada minuto pasado con él es como si fuera un don divino”.

Su relato narra que conoció en 2004 a Berlusconi cuando trabajaba para Mediaset. Debía entrevistarle sobre el puente del Estrecho de Messina, pero en apenas un batir de pestañas se encontró catapultada a Cerdeña, “a una comida de trabajo con profesionales del staff presidencial, yo la única mujer”, escribe.

Llegaron juntos desde el aeropuerto romano de Ciampino, sede de los vuelos oficiales de Estado, a bordo del avión presidencial; durante el viaje descubrió que Berlusconi lo sabía todo de ella (”me enseñó un voluminoso dossier”), y éste le hizo una oferta de trabajo que ella rechazó. “Me explicó que estaba organizando una task force de 50 jóvenes periodistas que hicieran de oficina de prensa puente entre Roma y Bruselas. A su currículo le convendría enormemente, me dijo…”.

Acabada la comida, de nuevo vuelo en el avión de Estado hacia San Siro, donde jugaba el Milan. Escolta de coches oficial, las sirenas ululando y luego un nuevo traslado aéreo a Ciampino.

Tras dejar Mediaset, Elisa siguió viendo a Berlusconi: “A veces me ha invitado a ir a Villa Certosa, a cenas con decenas de invitados”. De Noemi tiene recuerdos vagos (”nos presentaron fugazmente durante una fiesta”). Pero imposible olvidar, escribe, a las dos gemelitas montenegrinas que escenificaron “un baile loco y disparatado ante los ojos consternados del primer ministro”. Y las “otras apariciones no anunciadas, femeninas y no, a las puertas de sus habitaciones”.

Eso es Italia, ya lo ha dicho la primera dama, Verónica Lario, mucho menos despechada que harta, lisístrata, patriota y revolucionaria, al condenar la podredumbre del berlusconismo-velinismo: “Padres dispuestos a ofrecer a sus vestales al Dragón”, “quincalla política y machista sin pudor”, un marido y primer ministro que “frecuenta menores y no está bien”. Imposible decir más en menos palabras.

El equipo del Cavaliere está al tanto de las necesidades. Los periodistas que cubren los movimientos del premier cuentan que hay una guapa moza en su escuadra de prensa que viaja con él a todas partes aunque no sabe hacer la o con un canuto. Su asesora de imagen, Miti Simonetto, le cubre las flaquezas como puede e intenta que el César parezca honrado.

Hay otro personaje misterioso, una mujer cuarentona, morena, guapa, siempre con traje de chaqueta, que Zappadu ha fotografiado muy a menudo en el aeropuerto de Olbia. Se trata de Sabina Began (SB), la preferida: la prensa del cotilleo romano le llama la abeja reina. El día de la Liberación de Italia, el 25 de abril de 2008, durante los festejos de la victoria electoral, Berlusconi; el presidente del Senado, Renato Schifani; Apicella y otros jerarcas estaban rodeados por un ramillete de muchachas curvas. Don Silvio sólo tenía ojos para SB, que se tatuó en un tobillo “SB, el encuentro que me cambió la vida”. Mientras la tenía en sus rodillas y le canturreaba Malafemmena, Berlusconi dijo: “Si hubiese aquí un fotógrafo, esta foto valdría 100.000 euros”.

Como ha afirmado Lario, la historia política que está en juego va mucho más allá del caso Noemi, la pobre Noemi es sólo la última víctima de este gigantesco Gran Hermano. ¿Será la casa, Villa Certosa, como Las mil y una noches, un búnker de lujo algo hortera con juegos eróticos o Berluscolandia o algo peor y más lujurioso?

Seguramente, ninguna y a la vez una mezcla de las tres cosas, contestan diversas fuentes sardas. Y las fotos de Zappadu, que nos introducen en ese submundo. Berluscolandia es bello, eso no se puede negar, aunque la naturaleza sarda es mucho más agreste y menos postiza que esas postales de césped bien cortado, ese huerto de hierbas medicinales redondo, esas torres naghuras de imitación.

La primera cosa que salta a la vista es la desmesura. Sesenta hectáreas de terreno son muchas. Sobre todo en Costa Esmeralda. Caben dos playas privadas, tres lagos artificiales, media docena de piscinas, el anfiteatro donde actúan Apicella (el cantautor para el que escribe Berlusconi), las bailarinas y bailaoras (la afición flamenca todavía se pregunta quién es y qué hacía ahí esa intrusa).

A un lado de la finca está el Country, uno de los lugares preferidos del primer ministro, una discoteca con velas, alfombras orientales y un privado llamado, ironías del asunto, Harem. Pero no sufran las almas cándidas. Ninguno de los miles de visitantes de Villa Certosa ha hablado nunca de sexo. Allí no hay sexo. Lo más, helado.

Beppe Severgnini, comentarista de Il Corriere, lo ha explicado así: “Villa Certosa está asumiendo, en las fantasías nacionales, magnitudes legendarias. Los amigos del protagonista, intentando minimizar, contribuyen a enriquecer la puesta en escena. Marcello Dell’Utri: “Hay una heladería. Tú vas y te sirven todo el helado que quieres. Gratis. Si se piensa, es un hallazgo muy divertido”. Flavio Briatore: “Está el juego del volcán. Se charla de esto y aquello cuando el grupo se acerca al lago, Berlusconi finge preocuparse, dice que Cerdeña es una zona volcánica. Y en ese momento se oye una explosión increíble, hay efectos tipo llamas…”. Sandro Bondi, ministro de Cultura, intentando explicar la desnudez de Topolanek, el ex primer ministro checo: “Bah… Por otro lado, piense que la villa está a pocos metros del mar. Un mar, como usted sabrá, de una belleza absoluta”.

Dell’Utri no ha podido negar que sí, que a la vez que hay helado y pizza, la finca siempre está llena de jovencitas bellísimas, que pasean y se bañan, se duchan y se exhiben.

Lo más complicado para Berlusconi no será justificar estas fotos, que ya ha definido como “inútiles”. El problema es que haya otras más comprometidas. “Berlusconi sabe que hay un topo en Villa Certosa. Alguien le ha traicionado desde dentro, pero no sabe quién es”, explica Marco Mostallino, un periodista local. “Berlusconi debe creer que está entre los guardias de seguridad. No por casualidad ha acusado a su mujer desde el periódico de su hermano de estar liada con su guardaespaldas”.

Villa Certosa está vigilada 24 horas como una fortaleza por militares y carabineros. También hay guardias privados, y otros que llegan de todas partes. La historia de la seguridad en Costa Esmeralda está vinculada al agá Jan, el primer promotor turístico de Cerdeña, y empezó con los vigilantes (en español). “Jan contrató a todos los hombres disponibles, y muchos de ellos tenían antecedentes”, asegura Mostallino.

Unos años más tarde, Berlusconi llegó a la isla. “Llegó con su hermano Paolo hacia 1981 o 1982″, recuerda el político sardo. “Su idea era construir dos millones de metros cúbicos sobre el mar, en un terreno de 200 hectáreas al sur de Olbia, entre Le Saline y Capo Cerasso. Para abrumar, venía con unos libros enormes que decía contenían la valoración del impacto económico. Viajaba con un séquito de arquitectos, ingenieros, asesores fiscales, economistas. El proyecto tardó diez años en ser aprobado, sólo se le dejó hacer un cuarto de la extensión inicial, y en la montaña, lejos del mar. Pero cuando se aprobó no tenía el dinero. Era 1993, y en seguida entró en política”.

Silvio y Paolo construyeron la villa en los primeros años noventa. Con el tiempo fueron convirtiéndola en una casa digna de una película de James Bond. El irónico Severgnini ha escrito en Il Corriere della Sera que algún día alguien escribirá la historia de Villa Certosa: “La cínica elasticidad italiana consentiría contar mucho, si no todo. El último escollo es la coherencia oficial. Los políticos, incluso los de menos prejuicios, no están listos todavía para admitir lo que hacen, temiendo que alguien lo confronte con lo que dicen”.

07/02/2009 - 10:32h Brasil é o único que não sofrerá “forte desaceleração” nos próximos 6 meses, prevé OCDE

OCDE prevê piora na economia brasileira

Andrei Netto – O Estado SP

Seis meses depois da explosão da crise do sistema financeiro internacional, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) diagnosticou a “desaceleração” da economia brasileira. A análise, revelada ontem, em Paris, foi feita a partir dos Indicadores Compostos Avançados e revela que as perspectivas econômicas dos países desenvolvidos e emergentes para os próximos seis meses são as piores verificadas desde os anos 1970. Mesmo assim, o Brasil ainda enfrenta uma situação menos grave se comparada a de 34 grandes mercados.

Os Indicadores Compostos Avançados servem para indicar a tendência de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no horizonte de um semestre. De acordo com o levantamento, o Brasil é o único não classificado com avaliação “forte desaceleração” dentre os 35 analisados. Pelo método utilizado, quedas abaixo de 100 pontos são interpretadas como declínio da atividade econômica em um futuro próximo – de quatro a oito meses. Além de ter o melhor indicador (total de 98,8 pontos), o Brasil é país é o que menos perdeu desempenho em 12 meses (-5,4 pontos).

“Está claro que os efeitos da crise financeira global se mostraram com algum atraso no Brasil”, explicou ao Estado, Gyorgy Gyomai, economista da OCDE e autor do relatório. Segundo ele, os indicadores de comércio assinalavam um panorama favorável para o Brasil mesmo quando outros países davam sinais de declínio da atividade. “Os mais recentes eventos, como a evolução das exportações, mostram que a economia brasileira reagiu com atraso e que a crise também afetará o país”, estima. “Não está claro se o declínio da atividade será menos dramático no Brasil ou se ele seguirá com retardo a desaceleração das economias OCDE.”

As estatísticas, relativas a dezembro, também apontaram a perspectiva de aprofundamento da recessão em países industrializados e emergentes. Na zona OCDE, a desaceleração foi de 8,2 pontos em 12 meses, chegando a 92,9 pontos. Na zona euro, a queda foi de 8,2 pontos em relação a 2007, com 93,8 pontos. Nos Estados Unidos, o recuo foi de 9,5 em um ano, com total de 91,3 pontos.

Todas as grandes sete maiores economias – Estados Unidos, Japão, China, Alemanha, França, Reino Unido e Itália – estão em fase de “forte desaceleração” da atividade, segundo a entidade. A maior queda na comparação anual entre os países do G7 foi registrada pela Alemanha, com recuo de 11,8 pontos, para 90,9 em dezembro. O indicador no Japão caiu para 92,2 em dezembro, uma queda de 7,3 pontos em relação ao mesmo período do ano passado.

“Os indicadores compostos avançados para a maior parte dos países da OCDE atingiram níveis jamais vistos desde os anos 1970, no momento dos choques petrolíferos”, diz o texto.

Dentre os demais BRICs – China, com recuo de 14 pontos no ano e total de 87,6 pontos; Índia, com 7,5 pontos e soma de 94,4 pontos; e Rússia, com queda de 17,7 e total de 86,7 pontos – também são classificados como “em forte desaceleração”.

27/01/2009 - 16:32h Berlusconi, o homem da grosseria pronta

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Berlusconi faz piada e irrita feministas

 

Uma gafe cometida pelo premiê italiano Silvio Berlusconi irritou a oposição e entidades feministas. O premiê disse no domingo que, para evitar estupros no país, era preciso ter nas ruas a mesma quantidade de soldados e de mulheres bonitas. Após as críticas, ele disse que a declaração era uma “homenagem às mulheres que têm senso de humor”. Fonte O Estado SP.

23/01/2009 - 20:18h Pedofilia em Verona

Decenas de ex alumnos sordomudos acusan de pedofilia a 25 profesores religiosos en Verona


El obispo de la ciudad promete transparencia para aclarar los casos de 67 estudiantes, que se prolongaron al menos durante 30 años

  Clicca sulla foto

Noi vittime dei preti pedofili

MIGUEL MORA – Roma – El País

Sesenta y siete ex alumnos de un internado para niños sordomudos de Verona se han unido para denunciar públicamente los abusos sexuales sufridos durante 30 años a manos de 25 curas y religiosos del centro. La noticia, que publica en su edición de hoy la revista L’Espresso, ha salido a la luz porque las víctimas han decidido hablar al comprobar que algunos de los sacerdotes acusados siguen trabajando en el Instituto Antonio Provolo, y para evitar que su “horrible experiencia” les suceda a otros.

Los ex alumnos, mujeres y hombres cuyas edades oscilan entre lo 41 y los 70 años, han contado por escrito y a través de vídeos que han decidido contar la verdad solo ahora animados por la firme condena del Papa Ratzinger a los sacerdotes pedófilos estadounidenses.

Los abusos comenzaron en los años cincuenta y duraron, aseguran los testimonios, al menos hasta 1984, fecha en la que el denunciante más joven abandonó la institución. El Instituto Provolo estaba considerado hasta los años ochenta como un centro ejemplar, especializado en acoger a niños huérfanos y con discapacidades de habla y audición procedentes de familias campesinas y desfavorecidas de la región.

Entre los delitos que refieren los ex alumnos, que hablan de más de 100 víctimas, hay desde casos de violaciones y sodomía hasta malos tratos y tocamientos, realizados de forma reiterada a lo largo del tiempo, de manera individual y en grupo, y en todo tipo de lugares del Instituto, desde las duchas al confesionario.

El obispo de la ciudad, Giuseppe Zenti, ha dicho que si las acusaciones resultan fundadas “marcarían a la comunidad cristiana con una herida lacerante”, y ha asegurado que pondrá en marcha todas las medidas necesarias para dar transparencia al caso y evitar “inútiles zonas de sombra o sospecha”.

Todos los supuestos delitos denunciados han prescrito judicialmente, y en cualquier caso, ha recordado la Curia, al haberse producido dentro de una institución religiosa deberían ser juzgados en base al Derecho Canónico.

“Si la justicia de los tribunales conoce los tiempos de la prescripción, la de la conciencia no prevé caducidad”, ha dicho Zenti.

Antes de enviar sus testimonios a la revista, el grupo informó tanto al obispo de Verona como a la dirección de la escuela. Las víctimas aclaran que no quieren condenas penales ni indemnizaciones económicas, aunque el obispo ha sugerido que supo del caso porque los demandantes intentaron “un chantaje económico”. Entre los religiosos acusados, señala L’Espresso, hay un alto prelado muy conocido en Verona.

21/01/2009 - 20:17h A dura vida dos “Paparazzi”

© Foto de Elio Sorci. O ator Walter Chiari briga com o fotógrafo Tazio Secchiaroli. Roma, 1958.

© Getty Images. Rino Barillari, o “rei dos Paparazzi” é agredido pelo ator Mickey Hargitay, na Via Veneto, Itália, 1962.
© Getty Images. Atriz Sonja Romanoff enfia o sorvete na cara de Rino Barillari, 1963.

© Foto de Paul Schmulbach. Marlon Brando é seguido pelo fotógrafo Ron Galella, que usava um capacete contra agressões em Nova Iorque, 1974.

© Foto de Ron Galella. Sean Penn dá um soco em fotógrafo. 1986.

© Golf/Inf. O ator Hugh Grant agride fotógrafo na frente da sua casa em Londres, 2007.

Paparazzo (no plural paparazzi) é uma palavra da língua italiana utilizada para designar os repórteres que fotografam pessoas famosas sem autorização, expondo em público as atividades que eles fazem em seu cotidiano. A inspiração para o nome veio do cinema. No filme La dolce vita (1960), de Federico Fellini, o jornalista Marcello Rubini (interpretado por Marcello Mastroiani, era acompanhado pelo fotógrafo Signore Paparazzo (Walter Santesso). Fellini teria escolhido o nome do fotógrafo a partir do nome de um grande mosquito siciliano, denominado “paparaceo”. O Images&Visions selecionou algumas imagens que retratam as agressões sofridas pelos paparazzi.

Fonte Images & Visons

21/01/2009 - 18:01h Canção anti-gays no festival de San Remo gera protestos

Los homosexuales, convocados a Sanremo para protestar por la canción antigay

El tema ‘Luca era gay’, que se cantará en el festival, defiende que la homosexualidad tiene cura

EFE – Roma – 21/01/2009 – EL PAÍS

El principal colectivo homosexual italiano, Arcigay, ha convocado a los gays del país a invadir la ciudad de Sanremo (noroeste de Italia) el día de la final de su popular festival de la canción para protestar contra el tema “Luca era gay”, que defiende que la homosexualidad tiene cura.

Los responsables de Arcigay pretenden “inundar” las calles de la ciudad italiana con su “felicidad homosexual” para mostrar su disconformidad con la canción del cantante Povia, una de las favoritas en las casas de apuestas a hacerse con el primer premio de un concurso que celebrará su 59 edición del 17 al 21 de febrero. “Esta es nuestra respuesta a las disparatadas teorías que dicen que uno se hace homosexual por culpa de los padres superprotectores o ausentes” de la casa, afirma Aurelio Mancuso, presidente de Arcigay, en un comunicado de prensa divulgado hoy. “La única infelicidad es que millones de gays, lesbianas, transexuales tengan que ver cómo su dignidad es pisoteada todos los días por homófobos de todos los tipos, ya sean políticos, cantantes, famosos o concursantes de televisión”, añade.

La llamada a la convocatoria de los homosexuales en Sanremo no hace sino añadir más interés a un festival que en su pasada edición registró ínfimas cuotas de audiencia y que este año verá desfilar sobre el escenario del popular Teatro Ariston a leyendas musicales como Albano o Iva Zanicchi. Es sobre todo la presencia de Povia y su tema “Luca era gay” la que acapara la mayor atención sobre el próximo Sanremo, ya que la controvertida historia de la que habla -un joven gay que finalmente se “reconvierte” y se casa con una mujer- ha llegado incluso al debate de algunos foros políticos.

Este miércoles la ex diputada transexual del partido Refundación Comunista (PRC) Vladimir Luxuria, ganadora del último concurso “La isla de los famosos” y abanderada de la causa gay en los últimos meses, salió al paso de la teoría de curación homosexual que defiende el tema de Povia. “Si en la manifestación más importante de la canción italiana es lícito lanzar el mensaje de que la homosexualidad es una enfermedad, como hará Povia, entonces pido que en la Italia de la total ausencia de derechos civiles sea reconocido el estatus de enfermedad”, dijo Luxuria en declaraciones que recogen los medios de comunicación locales. Con este reconocimiento “se podrá tener al menos el derecho a una plaza de aparcamiento cerca de casa y a la pensión de invalidez”, apunta irónicamente la ex parlamentaria.

17/01/2009 - 15:36h Ônibus com slogan ateu são proibidos de circular na Itália

Órgão diz que anúncio fere regras da propaganda; Igreja diz que ‘bom senso venceu’.

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ônibus em Londres proclama: “provavelmente deus não exista, então pare de se preocupar é toque sua vida”. Propaganda semelhante em Barcelona e outras cidades.

De Milão para a BBC Brasil – Agencia Estado

A associação italiana União dos Ateus e Agnósticos Racionalistas (UAAR) foi proibida de divulgar uma campanha publicitária nos ônibus de Gênova.

A concessionária de publicidade nos meios de transporte públicos IgpDecaux considerou que o slogan “Má notícia: Deus não existe; Boa notícia, você não precisa dele” é provocatório e não se enquadraria no código de ética da propaganda italiana.

“Não esperávamos a proibição da campanha, mas levávamos em conta o risco que corríamos. O contrato já estava pronto para ser assinado”, disse à BBC Brasil Giorgio Villella, organizador dos eventos da UAAR e ex-secretário nacional da associação.

A IgpDecaux, com sede em Milão, argumentou que segundo os códigos 10 e 46 de autodisciplina regulamentar, a publicidade não deve ser ofensiva e as campanhas não devem lesar o interesse de ninguém.

“Se irão apresentar outro slogan poderemos examinar. Não se trata de seguir ou não as indicações da Igreja”, afirmou Fabrizio DuChene, administrador-delegado da empresa ao jornal La Repubblica.

A UAAR promete lutar contra a proibição de veicular a mensagem de que Deus não existe.

“Vamos pedir que à prefeitura de Genova revogue o contrato com a IgpDecaux. A prefeita da cidade, que é laica, tinha se declarado favorável à campanha, realçando o direito de liberdade de expressão. E iremos até a Corte de Justiça Européia se for necessário”, disse Villella.

Bom senso

Membros da cúria comentaram o cancelamento da campanha. Para o Monsenhor Marco Granara, reitor do Santuário de Nossa Senhora della Guardia, “venceu o bom senso”.

“Todos os problemas deste tipo, o ateísmo, a homossexualidade não devem ser enfrentados com batalhas, mas sempre através do espaço para o diálogo”, disse ele ao jornal La Repubblica.

Durante a fase de discussão sobre a campanha alguns motoristas cristãos da empresa de transporte público de Gênova ameaçaram não conduzir ônibus que carregassem a propaganda ateísta.

A veiculação da campanha custaria cerca de 8 mil euros (cerca de R$ 23 mil). Dois ônibus circulariam a partir do dia 4 de fevereiro durante quatro semanas.

A iniciativa é semelhante à que está sendo realizada em Londres, Washington e Barcelona. Na Austrália, a proposta também foi vetada.

Apesar da proibição, a UAAR, que existe há 22 anos, disse ter atingido o objetivo de “atrair visibilidade para a associação”.

Segundo Villella, a associação de 3 mil sócios recebeu em poucos dias mais de 500 novas inscrições.

Ainda segundo ele, a UAAR já recebeu mais de 13 mil euros em doações, que vão ser usados na “batalha judicial para dar voz a quem não acredita em Deus”.

21/12/2008 - 09:52h Amores de Puccini

Documentos revelam casos extraconjugais e herdeiros não reconhecidos do compositor de óperas italiano, autor de La Bohème e Tosca, nascido há 150 anos

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Anthony Tommasini, The New York Times – O Estado SP

Quando Giacomo Puccini morreu em 1924 aos 65 anos, deixou como herança uma propriedade estimada em US$ 250 milhões, em valores atuais. Será que algum compositor de música clássica dos dias hoje chegou a reunir, em vida, tamanha fortuna? Desde sua morte, a popularidade de Puccini só cresceu. Encenada 1.200 vezes, La Bohème está no topo da lista de obras mais apresentadas do Metropolitan Opera, que inclui nas suas primeiras 6 posições outras duas obras de Puccini, Tosca e Madama Butterfly. Assim, é curioso que não se tenha feito muito estardalhaço por conta do 150º aniversário do nascimento de Puccini, celebrado este ano. Mas não importa. Puccini domina.

Até agora, neste ano de Puccini, aquilo que mais chamou a atenção para a vida do compositor foi a realização de um filme sobre a sua vida particular, uma dramatização elaborada com base em pesquisas recentes e dirigida pelo cineasta italiano Paolo Benvenuti. Artigos antecipando as descobertas dessas pesquisas foram publicados no The Independent, em Londres, e em outros veículos. Evidentemente, a neta do compositor, Simonetta Puccini, está consternada e reluta em crer na nova versão dos fatos.

O mais alto tribunal civil da Itália há muito confirma as alegações da sra. Puccini (antes chamada de Simonetta Giurumello) de que ela seria a filha de um relacionamento entre a sua mãe e o filho do compositor, Antonio, morto em 1946, tendo deixado viúva, mas nenhum descendente legal. Hoje, a sra. Puccini supervisiona fundação à qual deu início, dedicada à preservação da quinta de Puccini em Torre del Lago.

Puccini orgulhosamente chamava a si mesmo de “vigoroso caçador de aves selvagens, libretos de ópera e mulheres atraentes”. O filme de Benvenuti, Puccini e la Fanciulla, apresenta um fio recém-descoberto na confusa biografia do compositor. O enredo afirma que ele tem outra neta viva, Nadia Manfredi, descendente de um outro filho seu, também chamado Antonio, nascido de um caso com Giulia Manfredi, uma mulher vivaz de origem humilde que administrava um albergue em Torre del Lago e muito popular entre os agricultores locais e caçadores itinerantes. Cartas pessoais e outros documentos mostrados a Benvenuti por Nadia Manfredi em 2007 expõem aquilo que parece ser um caso convincente.

Também estão sendo lançadas novas gravações de suas óperas. Dois notáveis registros de La Bohème foram recentemente lançados em CD, gravados a partir de concertos realizados no ano passado. A edição da Deutsche Grammophon tem a soprano Anna Netrebko como Mimi e o tenor Rolando Villazón como Rodolfo, com regência de Bertrand de Billy. O lançamento da Telarc conta com a performance da Sinfônica de Atlanta, regida por Robert Spano, com a soprano Norah Amsellem e o tenor Marcus Haddock no elenco.

Apesar de Puccini ter demonstrado um incrível instinto para a mistura da música com a dramatização, suas óperas são o produto de um trabalho torturado. Eterno protelador, ele só conseguia compor durante frenéticas madrugadas inteiras, abastecidas por café e cigarros. Na verdade, levando em consideração a astuta sensibilidade de Puccini para o drama musical, é surpreendente perceber como suas idéias iniciais podiam ser mal concebidas.

Ao adaptar as histórias de Murger que acabariam se tornando a ópera La Bohème, por exemplo, ele queria eliminar a briga e a separação entre Mimi e Rodolfo. Numa carta em tom de súplica endereçada ao editor de Puccini, o libretista Luigi Illica expressou sua exasperação. Puccini estava determinado a transformar a trágica história dos jovens amantes pobretões em um pegajoso melodrama. “Eles se apaixonam, eles discutem, a pequena costureira morre”, escreveu ele. “É uma história sentimental, mas não é La Bohème.” Puccini ao final acertava na maioria de suas óperas, mas não antes de despejar uma torrente de abuso sobre seus libretistas, cujo sofrimento era contínuo.

A amplitude dramática e a riqueza lírica da música de Puccini por vezes eclipsam a complexidade da sua linguagem harmônica contemporânea. Admirador de Wagner e Debussy, ele enriqueceu suas trilhas sonoras com acordes cromáticos livres e escalas de tons inteiros. Ele demonstrava muito interesse nas correntes radicais da música moderna, sentia-se intrigado pelos experimentos de Arnold Schoenberg. Percorreu os 100 quilômetros de Torre del Lago até Florença apenas para assistir a uma apresentação de Pierrot Lunaire (1912), experiência que lhe causou profunda impressão.

E quanto às novas fofocas sobre a vida amorosa de Puccini? Como já é bem sabido, seu relacionamento com a esposa, Elvira, foi sensacional desde o início. Puccini a conheceu ainda esposa de um antigo amigo seu dos tempos de escola, em 1884, quando trabalhava como seu professor de piano. Começaram um caso e em questão de dois anos ela deixou o marido. Permitiu-se a Elvira que levasse consigo a filha. Logo ela teve de Puccini o seu único filho, Antonio. Mas com o marido de Elvira ainda vivo, obter um divórcio seria impossível na Itália.

Durante os anos que passou com Elvira, Puccini viveu flertes despudorados com seus “pequenos jardins”, conforme ele chamava as jovens com que se envolvia. Até que, em 1903, o marido de Elvira morreu. As impacientes irmãs de Puccini o fizeram desistir de uma paixão que vivia na época e se casar com Elvira, o que ele finalmente fez em 1904, depois de terem vivido juntos por 17 anos. Com o passar dos anos, Doria Manfredi, uma jovem da região, entrou no lar de Puccini como empregada. Enciumada, a volátil Elvira a atormentava, castigando-a em público e criando um escândalo, apesar dos protestos de Puccini alegando sua inocência. Em janeiro de 1909, a pobre e acuada Doria morreu de uma overdose de pílulas. Apesar de Elvira ter sido condenada por difamação, o pagamento de uma compensação de Puccini para a família Manfredi poupou sua esposa da prisão. Uma autópsia revelou posteriormente que Doria morreu virgem. Assim, neste caso, Puccini era de fato inocente.

Esta parte da história há muito está registrada. Mas novos documentos, revelados pelo filme de Benvenuti, sugerem que apesar de Puccini não ter se envolvido com Doria, ele protagonizou um longo caso com a prima dela, Giulia, que pode ter sido a inspiração para Minnie, a heroína de La Fanciulla del West. O filho que Giulia teve com Puccini era vigia noturno e morreu na miséria aos 65 anos, em 1988, sem jamais saber da sua herança. Sua filha, Nadia Manfredi, foi aos tribunais exigir a realização de testes de DNA para provar que ela é neta de Puccini. Simonetta Puccini opõe-se ao pedido, chamando-o de ataque à vida particular do mestre e da sua família. Até o momento, parece que a legislação italiana apóia a afirmação dela de que o caso já teria prescrevido. O caso continua. Nós, amantes de Puccini, temos que reconhecer que nosso ídolo não sai dessa história com a honra intacta. Ainda assim, esse enredo daria uma excelente ópera de Puccini, se ao menos ele ainda estivesse entre nós para escrevê-la.

21/12/2008 - 09:46h O mundo à semelhança de seu autor


Obras de Puccini, com suas melodias líricas e dramaticidade apaixonada, são a tradução de sua visão das relações humanas

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Lauro Machado Coelho – O Estado de São Paulo

Houve um tempo em que o ocaso da obra de Puccini era decretado por musicólogos respeitados. Em 1912, em seu livro Giacomo Puccini e l’Opera Internazionale, o crítico Fausto Torrefranca dizia que a grande contribuição da Itália para a história da música não estava na ópera e, sim, na música instrumental dos séculos 17 e 18. Parece aberrante ouvir isso hoje mas, para Torrefranca, a ópera era uma “criação bastarda”. Puccini seria, assim, o exemplo acabado de “toda a decadência da música italiana atual” e representava “o cínico comercialismo, a impotência, a triunfante voga internacionalista”. Também o americano Joseph Kerman profetizou, em Ópera e Drama, o esquecimento de Puccini. Por que, então, passados 100 anos do nascimento desse compositor, não só parece improvável que ele seja esquecido, como há ainda, entre os músicos contemporâneos, quem o tome por modelo?

“Um dos sinais do talento do artista”, escreveu Mosco Carner em Puccini: a Critical Biography, “é saber criar, com a sua fantasia, um mundo que somos forçados a reconhecer como particularmente seu”. “Isso não é, necessariamente, um sinônimo de grandeza, mas exige um alto grau de personalidade, um dos dons criativos mais preciosos.” Puccini é, sem dúvida alguma, um desses artistas: o mundo que criou tem um clima emotivo e dramático, além de um estilo musical, tipicamente seus, a tal ponto que se pode falar de uma concepção pucciniana da ópera. Comparada ao universo de Mozart, Verdi, Wagner, Janácek, Strauss ou Britten, a órbita pucciniana é limitada na escolha dos argumentos, na caracterização das personagens e na profundidade musical. Mas ele é insuperável no nível com o qual sente afinidade: o da paixão erótica, da sensualidade, da ternura, das emoções dominadoras e desesperadas.

Puccini é o poeta das pequenas coisas, capaz de perceber o que há por trás do banal, do lugar-comum e de expressar o que ele mesmo chamou de “a pulsação do espírito sob as palavras, o non so che que pede a música, essa arte divina que começa exatamente onde as palavras terminam”. Puccini tem um senso teatral como poucos operistas jamais tiveram. Mas esse enorme talento é limitado por algumas contradições de sua índole: ele possuía mais ardor de sentimento do que profundidade espiritual. Possuía a capacidade de identificar-se totalmente com as suas personagens, mas não a de fazer delas seres humanos exemplares, que transcendessem suas características circunstanciais para assumir uma dimensão mais ampla – como acontece com o Verdi da maturidade.

O instinto teatral de Puccini era enorme, e sua técnica dramática estupenda. Mas, mesmo no fim da vida, produziu óperas que, no conjunto, são dramaticamente frágeis – como La Fanciulla del West ou Sor Angelica – em que pesem bons momentos isolados. “Puccini nunca é aborrecido ou prolixo, mas nunca consegue ser realmente sublime”, afirma Carner – e basta comparar a Tosca ao Otello, ou Madama Butterfly ao Cavaleiro da Rosa, em termos de profundidade na prospecção das paixões, para se certificar de que este não é um julgamento demasiado severo. “Sua arte o situa na fronteira entre o gênio e o talento”, conclui, com uma fórmula bastante apropriada.

A ópera pucciniana tem sido criticada pela insistência no erotismo e na sensualidade; pelo ataque sistemático à sensibilidade do espectador; por uma certa tendência à vulgaridade e à pieguice; pela sua falta de preocupação com questões éticas elevadas. Mas, na verdade, é um preconceito julgar uma obra por aquilo que ela não tem, condenando-a por não corresponder a determinados padrões de gosto, por não se preocupar com a afirmação ou a discussão de valores filosóficos ou espirituais, ou por apresentar uma visão da vida que parece superficial. O que realmente importa é saber se essa obra consegue traduzir a visão que o artista tem do mundo – seja ela qual for – com intensidade e força de persuasão. Ou seja, se esse artista consegue levar seus espectadores a se identificarem com suas personagens, a experimentarem por elas a sym-pathia no sentido etimológico de “sentir com”, de saber como a personagem se sente, de compreender por que ela se sente assim e age da maneira como o faz. E isso Puccini obtém de seu público, não só em relação a personagens “positivas” e dignas de compaixão (Mimì, Butterfly, Angelica, Liù), mas também às “negativas”, que inspiram antipatia (Scarpia, a Zia Principessa, Pinkerton ou Turandot).

Segundo Carner, Puccini ilustra perfeitamente a máxima de Henry James de que “um artista tem sorte quando suas realizações coincidem exatamente com as suas limitações”. E o faz pelo fato de nunca sair dos limites do que lhe é afim, de nunca se aventurar fora do terreno em que sabe poder dispor da plena medida de seu talento. Nesse sentido, não se pode dizer que Chopin, Bellini ou Hugo Wolf tenham sido “artistas menores” porque tenham preferido ficar dentro de um campo em que tinham a certeza de explorar ao máximo suas melhores potencialidades criativas. E Puccini tinha a plena consciência desses limites. Numa carta a Giuseppe Adami afirma não poder trabalhar em outra coisa, senão numa ópera: “Tenho o grande defeito de só saber escrever música quando os meus fantoches se movem no palco. Se pudesse ser um sinfonista puro, enganaria o meu tempo e o meu público. Mas quando nasci, tantos e tantos anos atrás… Deus santo tocou-me com o dedo mindinho e disse-me: ?Escreve para o teatro. Mas presta atenção: só para o teatro!? – e eu segui seu supremo conselho.”

Mas é absurda, por outro lado, a crítica que lhe foi feita de só saber fazer “musiquinha barata”. Seja para o intimismo da Bohème ou a grandiosidade da Turandot, a violência de filme policial da Tosca ou a profunda ironia do Gianni Schicchi, Puccini sempre soube encontrar a perfeita correspondência entre meios e fins. Descendente de quatro gerações de compositores de Lucca, tinha alto grau de profissionalismo e, além disso, possuía dotes pessoais que lhe dão um estilo inimitável: facilidade para compor melodias concisas, extremamente líricas e de uma dramaticidade apaixonada; refinamento harmônico e enorme talento para a orquestração; e um modo extremamente pessoal de escrever para a orquestra, que lhe permite assimilar procedimentos técnicos que estão sendo desenvolvidos por seus contemporâneos (por exemplo, o influxo de Stravinski ou dos impressionistas franceses) sem com isso alterar a personalidade própria de seu estilo.

Todas essas qualidades fizeram com que Puccini se tornasse o único compositor italiano, depois de Verdi, a conseguir que a maior parte de sua obra ficasse permanentemente no repertório. Numa fase em que muitos autores sobreviveram com apenas uma ou duas óperas, quando não foram sumariamente relegados ao esquecimento, dele apenas Le Villi e Edgar ficaram como curiosidades de especialista. De Manon Lescaut em diante, todos os títulos pertencem à lista das óperas prediletas do público.

08/11/2008 - 15:23h O racismo ordinário do buffone

Sem pedido de desculpas a Obama


Berlusconi chama de imbecil quem criticou frase sobre o presidente eleito

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Rogério Daflon – O Globo

O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, preferiu manter a polêmica acesa a fazer qualquer autocrítica em relação à sua frase após a vitória de Barack Obama nas urnas. O empresário e político — que declarara que o presidente eleito americano é “jovem, bonito e bronzeado” — se irritou anteontem diante das críticas ao fim da cúpula informal de chefes de Estado e governo da União Européia (UE), em Bruxelas.

— Todos (que o criticaram) deveriam estar numa lista de imbecis — disse ele, que, em seguida, foi indagado por um jornalista se pediria desculpa a Obama. — Você (que fez a pergunta) também deveria estar na lista de imbecis.

Em Roma, manifestantes protestaram contra a frase do premier. Em Chicago, o coordenador da campanha, David Axelrod, decidiu não se pronunciar sobre o assunto, e à noite, o governo italiano anunciou que Berlusconi teve “uma longa e cordial conversa telefônica” com Obama.

Jornalista austríaco faz declaração racista. Ao menos o político italiano pôde dizer que estava brincando.

Já o jornalista austríaco Klaus Emmerich, de 80 anos, nem isso. Ele falou a sério ao criticar a chegada de Obama à Casa Branca. Em transmissão ao vivo de TV sobre a vitória do democrata, Emmerich afirmou que não gostaria de ver o mundo ocidental “liderado por um homem negro”. Emmerich — excorrespondente da TV estatal ORF nos EUA —disse que os americanos ainda são racistas e que devem “estar muito mal se mandam um negro e uma mulher negra muito atraente para a Casa Branca”. Sem baixar o tom, o jornalista emendou, por fim, dizendo-se “curioso para ver como reagirá a América branca.

Seria como se o próximo chanceler (austríaco) fosse um turco; ninguém na Áustria gostaria”.

A estatal ORF condenou as declarações do jornalista. Para Francisco Carlos Teixeira, professor de história da UFRJ, manifestações racistas contra Obama não vão parar por aí: — No caso austríaco, é algo que não surpreende. Naquele país, o Partido da Liberdade é neonazista, e metade da Áustria vota nesse pessoal.

Teixeira disse que também não a vê a frase de Berlusconi como algo inesperado: — A frase mostra uma não aceitação à cor de Obama. Há que se lembrar que Berlusconi está à frente de uma coalizão de direita, com o Partido da Frente Nacional, herdeiro do Partido Nacional Fascista Italiano.

O professor prevê também manifestações racistas em algumas regiões dos EUA.

— Na análise do mapa eleitoral, vê-se forte rejeição a Obama onde houve grande imigração da região da Europa Central. São pequenos fazendeiros e produtores que vivem entre os Grandes Lagos e Golfo do México. E se vê a mesma coisa em alguns estados do Sul ainda com forte sentimento racista — observou Teixeira, ressaltando que Obama fez a a campanha como presidente de todos os americanos.

— Embora a estratégia tenha sido bem-sucedida, ele vai sofrer mais manifestações. Porque o racismo não é um problema social, mas cultural.

28/10/2008 - 09:30h Crise será revertida logo, diz especialista da OCDE

Mas reflexo nos bancos será maior, diz Schmidt-Hebbel

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Andrei Netto – O Estado SP

A manutenção da crise dos mercados financeiros na Ásia, com conseqüências nas bolsas de valores da Europa e das Américas, não afeta a confiança do economista-chefe da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), Klaus Schmidt-Hebbel. Em entrevista publicada pela revista OECD Observer, ontem, o expert previu que o derretimento dos mercados será revertido em curto prazo. Mas a crise financeira, entende, terá reflexos duradouros nos lucros e na capitalização dos bancos, assim como na confiança do sistema.

A equipe de Schmidt-Hebbel prepara o novo relatório da organização sobre a situação econômica de seus 30 países-membros e de outros 10 não-membros – Brasil incluso -, que será publicado em 25 de novembro.

Em declaração à revista, o economista adiantou alguns pontos: “Nosso cenário de base parte da premissa de que a crise nas negociações de curto termo nos mercados financeiros será resolvida em curto prazo, mas o lucro e a recapitalização dos bancos, como a reconstrução da confiança nos mercados, demorará mais tempo”.

Schmidt-Hebbel acredita que “muitas economias da OCDE” entrarão em recessão “cedo ou tarde” em razão da “crise sistêmica”. “A questão é por quanto tempo”, disse, referindo-se ao tempo de recessão. “A retomada será mais lenta do que em desacelerações anteriores.” Segundo o especialista, o momento é propício para cortes em taxas de juros pelos bancos centrais e para estímulos fiscais temporários, que teriam como efeito reaquecer o consumo e a produção.

O economista-chefe da OCDE alerta que um dos riscos da crise atual é o custo orçamentário que as intervenções nos mercados causarão aos balanços dos governos. O ponto positivo é o controle indireto dos preços das commodities, como petróleo e alimentos, já em curso. O especialista considera, porém, que as medidas anunciadas pelos governos nos Estados Unidos, na Europa e, recentemente, na Ásia restauraram a confiança e reconstruíram instituições financeiras arruinadas. “Foram medidas sem precedentes de escala”, definiu, elogiando a coordenação internacional das decisões. “Agora veremos o quanto rápidas e efetivas serão essas ações.”

De acordo com um relatório da OCDE, a importação de produtos pelos países-membros do G-7 – Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Japão – caiu 1,4% no segundo trimestre de 2008, em relação ao primeiro. No mesmo período, as exportações cresceram 4,9%.

Na Alemanha, a balança comercial nos últimos 12 meses – encerrados em junho – variou positivamente: as exportações cresceram 7,1%, enquanto as importações, apenas 2,1%. Nos Estados Unidos, a tendência foi equivalente: crescimento de 3,9% no volume exportado e de 1,9% no importado. No Japão, exportações e importações caíram.

25/10/2008 - 16:15h La rue et la gauche se mobilisent contre Silvio Berlusconi

LE MONDE

Manifestation d'étudiants de l'université de La Sapienza à Rome, le 23 octobre 2008.
AFP/ANDREAS SOLARO Manifestation d’étudiants de l’université de La Sapienza à Rome, le 23 octobre 2008.

ROME CORRESPONDANT

Jusqu’à présent, il a fait ce qu’il voulait ou presque. Depuis son élection à la présidence du conseil italien, Silvio Berlusconi a imposé le rythme et les thèmes de la vie politique italienne sans avoir à craindre que quiconque ne le fasse choir du piédestal où il trône, fort d’une cote de popularité à 60 %. La rue ? Muette au point que le cinéaste Nanni Moretti a parlé de “disparition de l’opinion publique”. La crise ? Traversée sans dommages pour son image, donnant des conseils boursiers aux petits actionnaires (”Ne vendez pas”) et des assurances aux banques (”L’Etat garantira l’épargne”). La gauche ? Trop faible, trop divisée pour compter.

Aujourd’hui, la rue se réveille. Depuis plusieurs jours, des dizaines de milliers de professeurs, d’étudiants, de lycéens battent quotidiennement les pavés des grandes villes contre la réforme conduite par la ministre de l’instruction, Mariastella Gelmini. Elle prévoit des coupes budgétaires de plusieurs milliards d’euros et la suppression d’environ 140 000 postes dans les prochaines années. Les manifestations ont pris un tour plus violent, illustré par des heurts avec la police, notamment à Milan.

Le “Cavaliere” a menacé de faire intervenir la police pour évacuer les contestataires qui bloquent les lycées et universités. Mais ces déclarations martiales n’ont pas convaincu les étudiants de renoncer à leur action. Au contraire : “Non seulement la mobilisation continue, mais elle augmente. C’est désormais la société dans son ensemble qui se rend compte que le gouvernement met en danger le développement économique du pays”, affirme un communiqué de l’Union des étudiants italiens (UDU). Deux grèves sont annoncées : le 30 octobre dans les écoles et les lycées ; le 14 novembre dans les universités. Jeudi 23 octobre, M. Berlusconi a démenti tout projet de recours à la force, et Mme Gelmini s’est dite prête à recevoir les syndicats et les parents d’élèves. Une première tentative de dialogue ?

A cours d’argument et craignant que cette contestation ne finisse par agir comme un acide sur ses bons sondages, M. Berlusconi s’en est pris à ses cibles habituelles : médias et centre-gauche. Aux premiers, il reproche de “diffuser l’angoisse” et des fausses nouvelles ; au second, de chercher dans la rue une revanche à son échec dans les urnes lors des élections générales d’avril.

C’est une première. Après avoir moqué son principal adversaire, le président du conseil semble lui reconnaître un rôle d’opposant qu’il refusait jusqu’alors de lui accorder. Rendu inaudible et humilié par sa défaite au scrutin d’avril, le centre paraît retrouver une visibilité et une crédibilité que les sondages ne traduisent pas encore. Walter Veltroni, secrétaire général du Parti démocrate, après nombre tâtonnements, semble avoir trouvé la voie d’une opposition résolue qui n’hypothèque pas la possibilité d’un dialogue. Ayant retrouvé son rang de premier opposant au président du conseil, M. Veltroni doit en apporter la preuve chiffrée, en rassemblant un million de personnes – objectif ambitieux qu’il s’est lui même fixé -, samedi 25 octobre, à Rome, contre la politique de M. Berlusconi. Un chiffre que les capacités de mobilisation de l’appareil et un comptage généreux devraient lui permettre d’atteindre.

UNE PREMIÈRE

Pour en arriver là, M. Veltroni a dû faire violence à sa réputation d’homme indécis. Après avoir supporté sans trop broncher les critiques de son principal allié, Antonio Di Pietro, leader du parti de l’Italie des valeurs (IDV), qui lui contestait le leadership de l’opposition au nom d’une vision plus intransigeante de l’antiberlusconisme, l’ancien maire de Rome a rompu son alliance. Une manière de clarifier la ligne du parti et de l’ancrer résolument au centre gauche. “Collaborateur”, lui a lancé M. Di Pietro.

Le succès de ce rassemblement ne signifie pas forcément la fin des contestations pour M. Veltroni. Décrit dans les médias proches du pouvoir comme un homme hésitant et peu charismatique, le secrétaire général du PD doit compter sur une opposition interne active. Certains dans le parti, dont l’autre poids lourd Massimo D’Alema, n’hésitent pas à parier sur une cuisante défaite du PD aux élections européennes, entraînant du même coup le départ de son actuel secrétaire général.

M. Berlusconi, qui connaît les ressorts humains et les arcanes de la politique italienne, le sait mieux que quiconque. La coalition des contestations – une première depuis son élection – peut encore se rompre sous la pression des divisions internes de ses opposants.
Philippe Ridet

25/10/2008 - 16:08h Centenas de miles de italianos manifestam contra Berlusconi

Fonte Le Monde


Os organizadores da manifestação dizem que reuniram mais de 2 milhões de pessoas na rua contra Berlusconi e sua política de xenofobia

24/10/2008 - 12:07h Berlusconi quer isolar alunos estrangeiros

http://www.lauracima.it/wp-content/uploads/2008/10/preparazione%20al%20corteo%20no%20Gelmini.jpgEstudantes tomam ruas de Roma em protesto contra plano do governo


Flavia Guerra, ROMA – O Estado de São Pauloberlusconi_tapa.jpg

As ruas da capital italiana foram tomadas ontem por mais de 20 mil estudantes inconformados com a reforma educacional proposta pelo presidente Silvio Berlusconi para “mudar a história da educação no país”. Uma das medidas mais polêmicas do plano é a separação dos estudantes italianos e estrangeiros nas escolas. A reforma também prevê a demissão de 80 mil professores e a diminuição da carga horária.

“É praticamente um apartheid”, afirmou Simone, de 14 anos, filha de brasileira. “O governo diz que os estrangeiros não entendem italiano, mas como vão aprender se estiverem separados?” Para grêmios estudantis, a reforma representa um retrocesso sem precedentes na educação do país.

O Decreto de Lei Gelmini, de autoria da ministra da Educação, Maristella Gelmini, foi promulgado em setembro e aguarda a aprovação no Senado para passar a valer.

Após uma semana de manifestações estudantis em todo país, Berlusconi e a ministra convocaram uma entrevista coletiva para “responder a todas as mentiras da esquerda”. Segundo Gelmini, as medidas servem para cortar gastos exorbitantes do setor. O presidente também decretou a ocupação das escolas pela polícia.

Outros pontos polêmicos da reforma são o aumento do número de alunos por sala – para 33 – e a adoção de um professor único em todos os níveis do ensino básico. “Um mesmo professor não vai saber ensinar matemática, artes, italiano, física e química”, afirmou um aluno do Liceu Clássico de Roma.

05/08/2008 - 10:07h Tartuffo: Berlusconi esconde seio em pintura de Tiepolo

Il tempo scopre la verità e fuga la menzogna

http://www.rositour.it/Italia/Veneto/Vicenza/Museo%20Civico_G.B.%20Tiepolo-Il%20tempo%20scopre%20la%20verit%C3%A0%20e%20fuga%20la%20menzogna.jpg
Giambattista Tiepolo

http://www.lastampa.it/redazione/cmssezioni/politica/200808images/tiepolo01g.jpg

Porta-voz diz que decisão de mudar imagem evidente em entrevistas de líder italiano veio de assessores; ex-vice-ministro critica a medida

Quadro é reprodução de obra de pintor veneziano; canais do premiê exploram sexualidade, e sua vida amorosa é alvo de dúvidas

DA REDAÇÃO – FOLHA DE SÃO PAULO

Assessores do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, mandaram cobrir o seio de uma personagem retratada numa tela do século 18, sob o pretexto de que a imagem poderia “incomodar” telespectadores ou leitores de jornais.

O episódio, qualificado de “uma loucura” por Vittorio Sgarbi, vice-ministro da Cultura em um gabinete anterior do premiê, foi o grande assunto na Itália no fim de semana.

O quadro é uma cópia de “O Tempo que Desvenda a Verdade”, pintado provavelmente em 1743 pelo veneziano Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770).

Foi o próprio Berlusconi quem o escolheu para decorar o salão em que recebe a mídia no palácio Chigi, em Roma, luxuosa sede do governo italiano.

O jornal “La Stampa” notou que, durante as entrevistas coletivas, o seio nu e arredondado da personagem alegórica “pairava sobre a calva do premiê como se fosse uma auréola”.

Apesar de o patrimônio histórico do país reunir milhares de telas e esculturas em que a nudez é retratada sem nenhum preconceito e com a maior naturalidade artística, o porta-voz de Berlusconi, Paolo Bonaiuti, disse ao “Corriere della Sera” que a decisão partiu “de assessores responsáveis pela imagem do primeiro-ministro”.

Sem moralismos

O chocante, na história, é que o direitista Berlusconi não tem seu comportamento associado ao conservadorismo com relação à sexualidade. As emissoras comerciais de TV de que é proprietário têm programas de variedade em que bailarinas se apresentam quase nuas da cintura para cima. O premiê, lembra o jornal britânico “Guardian”, também não tem travas na língua ao conversar em reservado sobre suas aventuras amorosas de juventude.

O mesmo jornal diz que, no mês passado, Berlusconi, de 71 anos, cancelou uma entrevista coletiva em que seria inevitavelmente indagado sobre suas relações com a ministra da Igualdade, Mara Carfagna, 34. Ela é uma lindíssima morena, foi dançarina e apresentadora numa das TVs do atual primeiro-ministro. O marido de uma outra apresentadora de TV o está processando, sob o argumento de ter sido demitido da emissora depois que Berlusconi assediou sua mulher, versão que os advogados do premiê julgaram fantasiosa.

Mesmo que tudo não passe de pura maldade -que não é politicamente explorada pela oposição de esquerda-, o fato é que pintar uma redinha sobre os seios fartos e arredondados da personagem de Tiepolo foi qualificado de censura.

“La Stampa” comparou os assessores do premiê a Daniele Da Volterra, pintor medíocre que cobriu o sexo dos personagens de “O Julgamento Final”, parte das cenas bíblicas retratadas por Michelangelo na capela Sistina, no Vaticano. Volterra, lembra o jornal italiano, tinha por apelido “Braghettone”, o que significa “cuecão”.

Com agências internacionais

04/07/2008 - 12:52h Príncipe de Mônaco aprova extradição de Salvatore Cacciola para o Brasil

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MARTA SALOMON – Folha de S.Paulo, em Brasília

O governo brasileiro vai anunciar ainda hoje a extradição do ex-banqueiro Alberto Salvatore Cacciola, condenado no Brasil a 13 anos de prisão pela prática de crimes.

O último recurso de Cacciola foi recusado na semana passada pela Corte de Apelação de Mônaco. O endosso do Executivo daquele país, entrave que restava pra efetivar a extradição, já foi dado, anunciará hoje o Ministério da Justiça.

Cacciola foi preso pela Interpol em Mônaco, em setembro do ano passado, enquanto passava um final de semana de lazer, longe da Itália, país pelo qual tem a nacionalidade e de onde não poderia ser extraditado para o Brasil por conta de acordos diplomáticos.

Em 1999, quando o Banco Central promoveu uma maxi-desvalorização do Real, os bancos Marka e FonteCindam receberam socorro de R$ 1,5 bilhão.

O argumento para o repasse foi o de que, sem respaldo do caixa público, poderia haver crise de confiança no sistema financeiro nacional, com a iminente quebra de instituições.

Folha Online

Entenda o caso envolvendo o ex-banqueiro Salvatore Cacciola

Salvatore Cacciola, ex-dono do Banco Marka, foi protagonista de um dos maiores escândalos do país. O caso atingiu diretamente o então presidente do BC (Banco Central), Francisco Lopes.

Em janeiro de 1999, o BC elevou o teto da cotação do dólar de R$ 1,22 a R$ 1,32. Essa era a saída para evitar estragos piores à economia brasileira, fragilizada pela crise financeira da Rússia, que se espalhou pelo mundo a partir do final de 1998.

Naquele momento, o banco de Cacciola tinha 20 vezes seu patrimônio líquido aplicado em contratos de venda no mercado futuro de dólar. Com o revés, Cacciola não teve como honrar os compromissos e pediu ajuda ao BC.

Sob a alegação de evitar uma quebradeira no mercado –que acabou ocorrendo–, o BC vendeu dólar mais barato ao Marka e ao FonteCindam, ajuda que causou um prejuízo bilionário aos cofres públicos.

Dois meses depois, cinco testemunhas vazaram o caso alegando que Cacciola comprava informações privilegiadas do próprio BC. Sem explicações, Lopes pediu demissão em fevereiro.

A chefe interina do Departamento de Fiscalização do BC era Tereza Grossi, que mediou as negociações e pediu à Bolsa de Mercadorias & Futuros uma carta para justificar o socorro. O caso foi alvo de uma CPI, que concluiu que houve prejuízo de cerca de R$ 1,5 bilhão aos cofres públicos.

A CPI acusou a alta cúpula do Banco Central de tráfico de influência, gestão temerária e vários outros crimes. Durante depoimento na comissão, Lopes se recusou a assinar termo de compromisso de falar só a verdade e recebeu ordem de prisão.

Em 2000, o Ministério Público pediu a prisão preventiva de Cacciola com receio de que o ex-banqueiro deixasse o país. Ele ficou na cadeia 37 dias, mas fugiu no mesmo ano, após receber liminar do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Marco Aurélio Mello –revogada em seguida. Pouco tempo depois de se descobrir o paradeiro do ex-banqueiro, o governo brasileiro teve o pedido negado pela Itália, que alegou o fato de ele ter a cidadania italiana.

No livro “Eu, Alberto Cacciola, Confesso: o Escândalo do Banco Marka” (Record, 2001), o ex-banqueiro declarou ter ido, com passaporte brasileiro, do Brasil ao Paraguai de carro, pego um avião para a Argentina e, de lá, para a Itália.

Em 2005, a juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, condenou Salvatore Cacciola, à revelia, a 13 anos de prisão pelos crimes de peculato (utilizar-se do cargo exercido para apropriação ilegal de dinheiro) e gestão fraudulenta.

O então presidente do BC, Francisco Lopes, recebeu pena de dez anos em regime fechado e a diretora de Fiscalização do BC, Tereza Grossi, pegou seis anos. Os dois entraram com recurso e respondem o processo em liberdade.

Também foram condenados na mesma sentença outros dirigentes do BC: Cláudio Mauch, Demosthenes Madureira de Pinho Neto, Luiz Augusto Bragança (cinco anos em regime semi-aberto), Luiz Antonio Gonçalves (dez anos) e Roberto José Steinfeld (dez anos).

10/06/2008 - 15:30h A direita em ação: Berlusconi quer proibir a justiça de autorizar escutas telefônicas contra corrupção

Italia prohíbe a jueces y fiscales las escuchas en casos de corrupción

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MIGUEL MORA – Roma – El País

Berlusconi limitará los ‘pinchazos’ a la mafia y el terrorismo

Cinco años de cárcel para el magistrado que ordene un pinchazo telefónico. Cinco años para quien lo realice y para quien lo filtre, y cinco años para los periodistas que lo publiquen. Ése es el núcleo duro del proyecto de Ley que el Gobierno italiano quiere aprobar el viernes. El primer ministro, Silvio Berlusconi, trata de esta manera de prohibir a jueces y fiscales el recurso de intervenir los teléfonos de sospechosos salvo en los casos de delitos más graves: terrorismo, mafia y violencia sexual. La medida excluiría los pinchazos como método de recogida de pruebas en los procesos que afectan a crímenes de cuello blanco: corrupción, prevaricación, sobornos, extorsión, estafas o delitos empresariales.

Las asociaciones de jueces, editores y la oposición advierten de que si se lleva adelante la reforma, Berlusconi dará el golpe de gracia a la Justicia. El presidente de la Asociación Nacional de Magistrados, Luca Palamara, ha mostrado su perplejidad por el plan y ha señalado que, “si el Gobierno selecciona mucho los delitos susceptibles de ser investigados con escuchas, se empobrecerá el Estado de derecho y se restringirán las posibilidades de investigar”. Palamara sugiere que delitos comunes como la extorsión y la corrupción quedarían de hecho “despenalizados”.

Para el líder de la oposición, Walter Veltroni, las escuchas son “un instrumento fundamental de lucha contra toda forma de actividad ilegal”, aunque se ha mostrado de acuerdo en regular a fondo su publicación en los medios de comunicación.

La Liga del Norte, socio de Berlusconi, ha puesto también reservas a la idea, porque considera que puede dañar la imagen de firmeza del Ejecutivo. Pero el Gobierno ha empezado a preparar a la opinión pública para la reforma con dos argumentos: económico y el respeto a la intimidad.

El ministro de Justicia Angelino Alfano recordó ayer que en 2007 hubo 125.000 personas espiadas en Italia, y que “prácticamente todo el país habría sido interceptado alguna vez”. Además, declaró que las grabaciones suponen la mitad del total de los gastos judiciales. “Es necesario reducir ese exceso defendiendo la privacidad de los ciudadanos pero sin debilitar a las fuerzas de seguridad”, concluyó Alfano, quien recordó que en EE UU se hacen 1.700 pinchazos anuales y en Suiza 1.300.

Berlusconi siempre ha declarado su antipatía por el Grande Fratello judicial en un país que ha vivido casos tan llamativos como el Manos Limpias que dirigió Antonio di Pietro a principio de los 90. Il Cavaliere “tiene pesadillas con los pinchazos, y todos los días pregunta al ministro Alfano si la ley está lista”, ha contado La Repúbblica, recordando que, en los últimos años, el propio jefe del Gobierno, decenas de sus amigos y miembros de Forza Italia, diputados, senadores, alcaldes y empresarios de todas las tendencias han sufrido pinchazos y han sido, después, procesados.

Aunque la promulgación de diferentes leyes ha ido dilatando hasta el infinito los procesos y una parte importante acaba prescribiendo, Il Cavaliere ha declarado la guerra a un sistema “que no deja vivir en paz a los ciudadanos”. En la campaña prometió acabar con las escuchas.

Algunos medios críticos han apuntado que el proyecto de ley le favorece antes que a nadie a él mismo, ya que está siendo investigado por corrupción en el llamado caso Saccá, conocido a finales de 2007 gracias a la filtración de los pinchazos de decenas de diálogos mantenidos entre Berlusconi y el director de RAI Ficción, Agostino Saccà. Estos revelaron las presiones del entonces líder de la oposición a Saccà para que éste contratase a algunas actrices de su preferencia.

Algunos juristas han advertido de que la reforma impedirá a los jueces, por el principio del tempus regit actum, utilizar las pruebas obtenidas en pinchazos ordenados antes de la entrada en vigor de la ley. Uno de ellos sería, precisamente, el del caso Saccà.