22/11/2008 - 11:00h Negócio com a Nossa Caixa ficou caro, dizem analistas


A maioria esperava que o valor ficasse entre 1,8 e 2 vezes o patrimônio líquido, mas foi para 2,36 vezes

Renée Pereira - O Estado de São Paulo

O valor pago pelo Banco do Brasil pela aquisição da Nossa Caixa, de R$ 7,6 bilhões, ficou bem acima das projeções feitas pelo mercado financeiro antes do anúncio do negócio, na quinta-feira. Na avaliação dos analistas do setor bancário, o preço foi bastante salgado para um momento de extrema incerteza no cenário mundial, com o valor dos ativos em queda. A maioria esperava que o banco federal pagasse algo entre 1,8 a 2 vezes o valor do patrimônio líquido da Nossa Caixa, mas o valor fechado ficou em 2,36 vezes, R$ 70,63 por ação.

“Achei caro, eles pagaram um múltiplo (variação patrimonial) maior que o verificado na fusão entre Itaú-Unibanco, de 2,3 vezes, e com a qualidade dos ativos inferior”, afirmou o analista da Modal Asset, Eduardo Roche. Ele pondera que, apesar de cara, a aquisição trará benefícios para o BB, já que hoje a Nossa Caixa não tem uma gestão eficiente. Isso significa que há potencial de crescimento em vários setores no médio e longo prazos.

Outro ponto que pesou na análise dos especialistas foi o fato de o BB pagar a aquisição em dinheiro, apesar de ter sido parcelada em 18 meses. “Havia uma expectativa de que pudesse ser troca de ações”, destaca o analista da Planner Corretora, Ricardo Martins.

Na primeira projeção dele, a expectativa era de que o preço pela compra ficasse em R$ 55 por ação. Com a fusão entre Itaú e Unibanco, Martins refez a projeção para R$ 62, ainda abaixo do valor anunciado. “Refiz minha projeção com base na expectativa em torno da argumentação do governo estadual depois da fusão. Eles não venderiam pelo preço anterior. Por isso, saiu caro para o BB.”

O analista da Spinelli Corretora, Max Bueno, esperava que o preço ficasse em, no máximo, 2 vezes o patrimônio líquido da Nossa Caixa. Mas a necessidade do BB de retomar a liderança perdida para Itaú-Unibanco falou mais alto.

Ele destaca ainda que se o banco estadual fosse a leilão o preço seria bem menor por causa dos depósitos judiciais que obrigatoriamente têm de ser geridos por bancos oficiais. “As instituições privadas deduziriam o valor dos depósitos do preço. Isso significa que a Nossa Caixa seria mesmo mais atraente para o BB.”

Essa corrida em busca da liderança do setor bancário brasileiro deixou muitos analistas preocupados com as iniciativas futuras a ser tomadas pelo BB. “A compra da Nossa Caixa pode ser um exemplo do que a instituição federal fará daqui para a frente para retomar o posto de número 1. Há risco de partir para as compras sem olhar preço. Queremos saber quanto ele vai pagar por outras aquisições para se recuperar no ranking”, comenta Roche, da Modal.

No pregão de ontem, as ações da Nossa Caixa subiram 22,81%, para R$ 63, tentando se aproximar da oferta de R$ 70,63. Já as ações do BB recuaram 14,34%.

04/11/2008 - 15:17h Itaú leva o Unibanco

Novo banco será o maior do país, com R$ 575 bi em ativos, e a 4ª maior empresa da AL

Ronaldo D’Ercole SÃO PAULO e RIO - O GLOBO

Dois dos maiores bancos privados do país, Itaú e Unibanco anunciaram ontem a fusão de suas operações, numa transação que resultará no maior banco do Brasil e da América Latina, com ativos totais de R$ 575,1 bilhões.

Ou, nas palavras do presidente do Unibanco, Pedro Moreira Salles, a 17ª maior empresa financeira do mundo.

Pelo acordo, a família Moreira Salles, que controla o Unibanco, será sócia em partes iguais dos controladores do Itaú numa holding, que controlará 51% das ações com direito a voto da nova instituição, a Itaú Unibanco Holding.

O valor de mercado do novo banco, pelos números de 31 de outubro de 2008, seria de US$ 41,3 bilhões, o que o põe na quarta posição no ranking de empresas latinoamericanas, atrás de Petrobras, Vale e América Móvil (México).

— Nós estamos fazendo história hoje no Brasil — disse o presidente do Itaú, Roberto Setubal, ao iniciar a apresentação do negócio aos jornalistas, no MAM de São Paulo.

Diferentemente da interpretação de alguns analistas de mercado, Moreira Salles e Setubal negaram tratarse de uma aquisição, afirmando ser uma parceria, uma sociedade.

— Não se trata de uma compra, trata-se de uma fusão. Se não, eu estaria aqui sozinho. Nós, dos dois lados, criamos uma holding e estamos abrindo mão de coisas para formar algo maior — disse Setubal.

A criação do novo gigante bancário começou a ser negociada em agosto de 2007 entre Moreira Salles e Setubal, ganhando força com a concretização, dois meses depois, da compra do Real ABN Amro pelo espanhol Santander. Moreira Salles lembrou que a existência de um banco com escala global criava uma situação nova para o mercado local.

— Os (bancos) estrangeiros sempre tiveram no Brasil uma dimensão menor que os maiores bancos brasileiros — disse Moreira Salles. — A questão do Santander nos mostrou que devíamos dar um salto de escala.

A crise financeira global foi outro elemento que ajudou no desfecho das negociações, mas não foi determinante, segundo os dois executivos.

— A crise talvez tenha criado uma oportunidade, uma vontade de acelerar e fazer o projeto acontecer — argumentou Setubal.

Embora a meta seja constituir uma instituição para atuar nos mercados globais, a prioridade no momento será a integração dos dois bancos. A idéia, segundo os executivos, é preservar o maior número de agências (total em torno de 4.200) e de funcionários (cerca de 107 mil).

— Estamos olhando para o crescimento.

É óbvio que existem superposições (de agências e postos de trabalho), mas a empresa que está sendo criada terá, daqui a dois ou três anos, mais funcionários do que tem hoje — disse Moreira Salles.

Eles disseram não saber quanto o novo banco ganhará em sinergias com a união de Itaú e Unibanco.

— Acreditamos que haverá ganhos, mas não calculamos — disse Moreira Salles. — Numa operação de troca de ações, essas contas não se fazem.

Num primeiro momento, haverá poucas mudanças para clientes e correntistas. Os detalhes do processo de integração começam a ser tratados agora e não há prazo para sua conclusão. Segundo Moreira Salles, até a última quinta-feira, somente ele e Setubal vinham trabalhando no projeto. Só então seu desenho foi apresentado aos técnicos e advogados das duas partes.

O projeto de ampliar a internacionalização do novo banco só deve ser colocado em marcha daqui a alguns anos. No início, serão visados mercados latinos, como México e Colômbia.

Internamente, o novo banco pode fazer frente às investidas do Santander. Pelo fato de sua participação não ser diluída, não poderá ser alvo de ofertas hostis. Externamente, poderá fazer aquisições em América Latina, África, EUA e Europa. Também se reforça o peso do setor privado na área financeira, num momento em que o governo tenta fortalecer Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.

Itaú teve maior alta da Bolsa: 16,32%

A fusão foi o grande propulsor do mercado ontem. A Bolsa de Valores de São Paulo avançou 2,66%, aos 38.249 pontos, enquanto o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, ficou estável. A operação foi muito bem recebida e vista como prenúncio de que novas aquisições virão, por parte dos concorrentes.

As ações do Itaú fecharam em alta de 16,32%, a maior valorização do dia, seguida pelos papéis da Itaúsa (holding do grupo), com 13,04%. Já as do Unibanco subiram 8,95%.

Já o dólar teve alta de apenas 0,37%, a R$ 2,168, acompanhando a valorização internacional da moeda americana. O Banco Central vendeu dólares no mercado à vista, em torno de US$ 500 milhões, e cerca de US$ 800 milhões em swaps cambiais (contratos em que paga a variação do dólar e recebe uma taxa de juros).

Ninho de tucanos

Unibanco abriga muitos nomes do ex-governo FH

O Globo

O ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central (BC) Pedro Malan foi o primeiro tucano do governo Fernando Henrique Cardoso a ocupar um assento na cúpula do Unibanco. Pouco a pouco, outros auxiliares de FH foram migrando para o setor privado, até que o banco da família Moreira Salles transformou-se num ninho de tucanos.

Apontado como o ministro da estabilidade econômica — ele ocupou o cargo de ministro por oito anos — Malan foi para o Unibanco logo que cumpriu a quarentena imposta a quem deixa cargos de alto escalão.

Ele ocupou a vice-presidência do Conselho de Administração do banco, em 2003, e no ano seguinte, assumiu a presidência. O cargo agora, pela nova estrutura, será ocupado por Pedro Moreira Salles.

Apesar dos nomes de peso na direção do Unibanco, o presidente da Austin Rating, Erivelto Rodrigues, avalia que o banco nunca conseguiu capitalizar o potencial de tantas cabeças pensantes juntas: — O Unibanco vivia um eterno choque de vaidades.

O primeiro a seguir os passos de Malan foi seu ex-colaborador Demosthenes Madureira de Pinho Neto. Ele foi coordenador-geral de Política Monetária e Financeira do Ministério da Fazenda, no primeiro mandato de FH, e depois diretor BC. Muito próximo a Malan, ele assumiu o cargo de diretor vice-presidente do Unibanco, responsável pelo Atacado e pela área de Gestão de Patrimônios, e depois foi alçado à presidente da Unibanco Asset Management.

Em 2004, além de Pinho, Daniel Luiz Gleizer também acompanhou o ex-colega de governo. Gleizer, que trabalhou com Malan no BC como diretor-adjunto da Diretoria de Assuntos Internacionais, passou a ser diretor-executivo das áreas de Tesouraria e Pesquisa Macroeconômica do Unibanco. Com larga experiência no setor financeiro, ele foi do FMI, do Deutsche Bank e do Credit Suisse First Boston.

O último tucano a migrar para o banco foi Eleazar de Carvalho Filho, ex-presidente do BNDES. Com mais de 25 anos de experiência no setor financeiro, ele foi convocado pelo amigo Malan para comandar a nova estrutura do Unibanco Banco de Investimento, em abril último.

O Itaú abriga dois pais do Plano Real, mas que também participaram do Cruzado de José Sarney: Pérsio Arida (do Conselho de Administração) e Edmar Bacha (economista sênior do Itaú BBA). (Liana Melo)

04/11/2008 - 14:38h Itaú-Unibanco: União cria líder em gestão de recursos e em private banking

União cria líder em gestão de recursos e em private banking

Angelo Pavini, de São Paulo - VALOR

A fusão entre Itaú e Unibanco terá impacto forte no mercado de gestão de recursos e de private banking. Eles passam a ser o maior administrador de recursos do mercado brasileiro, com R$ 244,787 bilhões, ou 20,08% do total de recursos de terceiros sob gestão, de R$ 1,219 trilhão no fim de setembro - o que inclui fundos e carteiras administradas -, segundo dados da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). Ultrapassam assim o antigo líder, a BB DTVM, do Banco do Brasil, que tinha R$ 241,512 bilhões, ou 19,81% . O Bradesco, com R$ 182 bilhões, mantêm-se em terceiro lugar, mas muito mais distante do primeiro e do segundo colocados, com 14,93% do total.

No setor de gestão de fortunas, a união entre o primeiro e o segundo maiores private banks do país - o Itaú tem R$ 60 bilhões e o Unibanco, R$ 30 bilhões - concentra ainda mais o segmento. Com R$ 90 bilhões sob gestão, a nova instituição terá 34,61% dos R$ 260 bilhões estimados para o setor no Brasil.

A união concentra ainda mais um setor já dominado por poucas instituições. Apenas os três primeiros gestores - Itaú/Unibanco, BB DTVM e Bradesco - reúnem 54,82% do mercado de gestão. Os dez maiores detêm juntos 87,81% dos recursos sob gestão.

A expectativa de analistas é de que, com a fusão, fundações e grandes clientes dos dois bancos estudem uma redução de suas aplicações, ajustando o risco de concentrar os ativos em uma instituição só. Contra essa tendência, porém, está a crise internacional, que acaba aumentando a percepção de risco das instituições estrangeiras. “No caso do private bank, por exemplo, que opções o investidor mais rico têm?”, questiona um executivo do mercado. “Bradesco e Banco do Brasil estão bem atrasados em termos de sofisticação de seus serviços de private, e, com os mercados internacionais ainda tumultuados, onde o investidor vai colocar o dinheiro?”. Outro executivo lembra, por exemplo, que a rede internacional do private do Itaú e do Unibanco é bem maior que a dos concorrentes locais. Especialmente o Itaú, que tem presença forte em Luxemburgo, Portugal e, após a compra do BankBoston, em Miami.

Em termos de estrutura, a análise de especialistas é que a plataforma que deve vingar é a do Itaú, que é muito maior que a do Unibanco. Assim, é mais provável que os clientes do Unibanco migrem para Itaú. O mesmo deve ocorrer também com a área de gestão de recursos, onde o Itaú também lidera em relação à Unibanco Asset Management (UAM). O Itaú é um dos poucos bancos que não separou sua área de asset do restante do banco. O Bradesco já tinha feito isso por meio da Bradesco Asset Management (BRAM) e o Banco do Brasil, por meio da BB DTVM.

“Mas isso fará com que os processos, serviços e produtos estejam mais ligados ao Itaú do que ao Unibanco”, diz um analista. Outra questão é quem vai comandar a nova área private. O lógico seria o cargo ficar com Lywal Salles, do Itaú. Mas ele está perto da idade de se aposentar pelas regras do banco - o que deve ocorrer no ano que vem. O comando do private poderia ficar, portanto, com Celso Scaramuzza, do Unibanco, mais jovem. Seria também uma forma de segurar os clientes do Unibanco, que teriam mais afinidade com Scaramuzza, que comanda a área private da instituição há vários anos. “Mas a estrutura teria mais a cara do Itaú do que do Unibanco”, diz esse analista.

03/11/2008 - 19:28h “O maior do hemisfério!”

Blog de Nelson de Sá - Toda Mídia

itau_unibanco.JPGNotícia do dia, nas manchetes de Folha Online e demais, nasceu hoje “o maior grupo financeiro do hemisfério”, “o maior banco privado do hemisfério sul” etc. Ao lado, do site do Itaú, a estrutura do grupo após a operação.

Na análise de imediato no UOL, Itaú e Unibanco dão continuidade “ao processo de concentração bancária”. O portal ouve, de especialista:

_ A crise impulsionou essa operação, criou condições propícias para isso. Poderia haver rejeição por parte dos acionistas, mas, num momento de crise, qualquer medida para fortalecimento ganha apoio dos acionistas. (Os problemas da AIG) prejudicaram um pouco a imagem do Unibanco.

Nas Globos, Míriam Leitão cita que a operação “se acelerou devido à crise bancária” e justifica que “nestes casos o melhor movimento é preventivo e surpreendente”. O Itaú terá “provavelmente parte maior, pois o Unibanco teve quedas maiores”. Ouviu Pedro Malan, ex-ministro de FHC que “fará parte, certamente, do novo grupo”:

_ O Unibanco foi procurado por vários, mas achou melhor outro grupo nacional com quem sempre compartilhou valores.

23/10/2008 - 08:22h De volta ao poço

http://www.monitorinvestimentos.com.br/noticias/bovespa4_597.jpg

Por Angelo Pavini, VALOR

A instabilidade voltou com força aos mercados ontem e deve ter seus reflexos nas cotas dos fundos de investimento nos próximos dias. Além da queda da bolsa para o menor nível desde setembro de 2006, que afetará os fundos de ações, e da alta do dólar, de 12% em dois dias, chama a atenção o forte ajuste dos juros dos títulos públicos, de mais de um ponto percentual ao ano. Ontem, os papéis prefixados longos, as NTN-Fs, com vencimento em janeiro de 2012, preferidas dos estrangeiros, chegaram a pagar 17,77% ao ano, para 16,17% do dia anterior.

Essa alta deverá atingir em cheio os fundos de renda fixa, que têm papéis prefixados, e até alguns fundos DI. O impacto vai ser diretamente proporcional à porcentagem de prefixados de cada carteira e do prazo dos títulos, mas é provável que vários renda fixa tenham cotas negativas hoje. Fundos multimercados que achavam que o pior da crise já tinha passado e arriscaram aumentar aplicações em câmbio, bolsa e juros também devem sofrer. Mas a maioria dos gestores vinha mantendo a maior parte do dinheiro em caixa ou no overnight, o que deve limitar as perdas.

A alta dos juros refletiu ontem um misto de medo dos mercados com a saúde financeira dos bancos e com o impacto da alta do dólar na inflação e uma aversão maior ao risco no exterior com relação aos países emergentes por conta de a Argentina estar estatizando o setor de previdência privada. O receio aqui começou ironicamente com as medidas do governo para que bancos oficiais possam comprar instituições privadas em dificuldades, levantando a questão da existência de problemas. Havia boatos de fundos estrangeiros em dificuldades liquidando posições na BM&FBovespa e vendendo títulos para honrar compromissos no exterior. Por isso o impacto forte nos papéis de 2012, mas que se espalhou para outros vencimentos e títulos .

“Muitos vêem a América Latina como uma coisa só e ficam com medo que o que a Argentina fez ocorra aqui”, afirma André Schibuola, sócio da Precision Asset Management. O ambiente de forte oscilação acaba contaminando ainda outros investidores, que também saem do mercado para reduzir seu risco, criando um círculo vicioso. “Não me surpreenderia se hoje mais gente saísse do mercado por exigência de suas áreas de controle de risco ao ver os números de ontem”, diz Schibuola. Para ele, os fundos de renda fixa vão sofrer com a puxada dos juros. “Devemos ter números péssimos nas cotas, tanto por conta dos papéis públicos, quanto dos privados, que também devem ter subido”, diz.

Olhando para além da crise, a alta dos juros acaba criando oportunidades para o investidor. Depois do ajuste das cotas, a rentabilidade das carteiras de renda fixa deve aumentar para quem entrar agora. Papéis indexados à inflação também se tornam atrativos, com remuneração real perto de 10% ao ano mais a variação do IPCA, com a proteção adicional para o caso de a alta do dólar pressionar os preços.

Se olharmos o comportamento do mercado de juros, o que ocorreu foi uma típica zeragem de posição, quando os investidores vendem tudo e saem do mercado, diz Marco Sudano, diretor de Tesouraria do Itaú. “Basta olhar o comportamento distinto entre o dólar e os juros”, diz. Ontem, o dólar subiu 6,67%, perto dos 4,99% do dia anterior, acumulando 12% em dois dias. Mas o juro, que havia subido menos de 0,50 ponto percentual no dia anterior, avançou em média 1,20 ponto percentual, proporcionalmente muito mais que o dólar. “O que parece é que alguém teve de zerar suas aplicações e vendeu a qualquer preço, puxando as taxas”, explica. E isso leva outros participantes do mercado a fazerem o mesmo.

Sudano lembra que o mercado brasileiro de renda fixa tem bastante participação de estrangeiros, seja diretamente nos mercados da BM&FBovespa, seja no exterior, por meio de um banco intermediário. Esse banco, por sua vez, acaba fazendo sua proteção, ou seja, o hedge, na BM&FBovespa. “O que pode ter acontecido é que um banco resolveu liquidar a posição de um cliente no exterior e com isso o obrigou a vender os papéis aqui”, afirma Sudano. Ele lembra que os bancos, pelo aperto de liquidez, estão mais rigorosos com relação às margens de garantia. “No exterior, os negócios não são feitos em bolsa, são no mercado de balcão, e os ajustes de garantias são feitos de acordo com critérios de cada banco”, diz. É diferente da BM&FBovespa, onde o ajuste das perdas e ganhos é diário. “Pode ser que o banco resolveu apertar as margens do cliente no contrato de balcão e ele resolveu vender tudo”, diz. A pressão maior nos papéis de 2012 seria outro sinal de que o culpado da oscilação seria um estrangeiro.

Para Sudano, as taxas de juros ficaram completamente desconectadas do fundamento. Ele explica que o comportamento dos juros é diferente do do dólar, pois não é possível definir um valor justo para a moeda. “No câmbio, o que há é um preço de equilíbrio, a partir do qual há vendas ou compras, mas no juro, os participantes fazem contas e chegam ao que consideram um valor justo para as taxas no futuro”, explica. Por isso, a propensão do mercado em assumir posições de maior risco é maior no juro do que no câmbio. E as taxas são também freqüentemente confrontadas com as decisões do Banco Central no Copom. Para ele, as taxas justas são mais baixas que as atuais. “Mas no curto prazo, podem subir ainda mais”, diz ele. A oportunidade seria para quem olhar para o médio prazo, explica.

14/10/2008 - 09:49h ‘Acho que Deus é realmente brasileiro’

Presidente do Citigroup diz que país pode dar lições aos países ricos

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William Rhodes, presidente do Citigroup: Brasil é exemplo

José Meirelles Passos - O Globo

Correspondente

WASHINGTON. Houve unanimidade entre banqueiros internacionais e brasileiros, ontem, sobre a capacidade de o Brasil suportar o impacto da atual crise financeira, sem perder o rumo do crescimento sustentável.

Ao fim de uma ampla análise da situação do país, o presidente e executivo-chefe do Citigroup, Bill Rhodes, utilizou um velho ditado brasileiro para resumir a situação privilegiada do país em meio à turbulência do momento.

— Começo a acreditar que Deus é realmente brasileiro.
Pelo jeito ele tinha tirado umas férias anos atrás — disse o banqueiro, provocando risos na platéia de investidores que lotou ontem a Conferência Econômica Brasileira, em Washington.

Para Mantega, crise foi uma “orgia financeira”

Rhodes, que nos anos 80 e 90 comandou o grupo de credores do país, numa longa e complicada negociação da dívida externa, disse que “o Brasil mudou completamente”, aprendendo muito com as crises que enfrentou. E acrescentou que os brasileiros hoje têm condições de ensinar os países ricos: — Se algum país é capaz hoje de domar essa tempestade que enfrentamos é o Brasil.
O que me incomoda é os Estados Unidos não terem aprendido com as lições da América Latina. Os EUA passaram décadas ditando regras.
Acontece que os estudantes cresceram e se tornaram professores — disse ele.
Em seu discurso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, definiu a crise deflagrada nos Estados Unidos como “uma orgia financeira”. E admitiu que, a princípio, não imaginava que ela seria tão grave: — Não sabíamos o tamanho da encrenca.
Banqueiros brasileiros que participaram do evento, traçaram um retrato positivo do país.
Eles exibiram estudos mostrando que, mesmo com o dólar a R$ 2,20 e com o preço das commodities caindo, o país terá condições de continuar crescendo de forma sustentada.
Sergio Werlang, chefe do setor de riscos da Itaú Holding Financeira, chegou a dizer que isso será possível mesmo com grandes gastos federais: — Mesmo que o governo queira continuar gastando como está fazendo, o que eu não aprovo, o resultado continuará sendo positivo no ano que vem — disse ele.
Mantega respondeu: — Vamos cortar gastos, mas manter investimentos que são importantes. Eles representam nada mais que 1% do PIB.
Caio Megale, da Mauá Investimentos, disse que a crise tem um lado benéfico para o Brasil, uma vez que o país estava precisando desacelerar um pouco: — Estamos crescendo acima do potencial, acima do limite de velocidade. É como um carro numa estrada: você pode ir a 180 quilômetros por hora. Só que, em algum momento, vai dar uma trombada — comparou ele, acrescentando que “o risco seria haver uma redução do ritmo maior do que estamos precisando”.
Beny Parnes, diretor-gerente do Banco BBM, foi taxativo ao falar da capacidade de resistência do Brasil.

— Alguns anos atrás o Brasil sofreria um nocaute em dez segundos. Já temos grande experiência em enfrentar crises: é uma especialidade nossa.

29/08/2008 - 09:41h Um dos pilares do capitalismo brasileiro

Olavo Setubal

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Rubens Barbosa * - O Estado de São Paulo

Foi na transição do período autoritário para a democracia que conheci Olavo Setubal. Indicado por Tancredo Neves, em 1985, para o Ministério das Relações Exteriores, fui convidado para chefiar seu gabinete, o primeiro diplomata chamado por ele para integrar sua equipe. Naquele primeiro governo civil depois de tantos anos, ele teria preferido ser ministro da Fazenda, mas acabou no Itamaraty, sem jamais, como ele mesmo dizia, ter passado em frente à porta do Ministério.

A proximidade no dia a dia me privilegiou acompanhar de perto o homem público que, como prefeito de São Paulo e depois como ministro das Relações Exteriores, marcou presença na política brasileira, além de criar e consolidar uma das maiores instituições financeiras nacionais que é o Grupo Itaú.

A gestão Olavo Setubal no Itamaraty foi curta, de menos de um ano, e lamentavelmente interrompida pela aventura, logo abortada, de disputar o governo do Estado de São Paulo em 1986. Dias depois de deixar o Ministério, num domingo, o dia da convenção, chamou-me por telefone de São Paulo para contar que acabava de retirar sua candidatura. Disse-lhe, com a lealdade e a franqueza que caracterizava nosso relacionamento, que não me surpreendia pois o partido me parecia mais interessado no apoio financeiro que poderia representar do que na sua candidatura. Perdia São Paulo um eventual grande governador e o Itamaraty o grande ministro que já estava sendo.

Lembro quando, em seu primeiro dia como ministro, recebeu o ex-perseguido político Miguel Arraes que vinha da Argélia para pedir o apoio do Itamaraty para o Sarauí, um movimento revolucionário que lutava pela independência do Marrocos. Doutor Olavo ouviu-o longamente e depois que Arraes saiu, perplexo, indagou de seus principais assessores: “Que movimento é esse ? Em São Paulo, nunca ninguém ouviu falar de Sarauí”.

Mesmo após sua saída do Itamaraty, ao longo de minha carreira, continuei a manter estreito e estimulante contato com dr. Olavo, como carinhosamente o chamávamos. Tínhamos longas conversas e o assunto era sempre Itamaraty, política nacional e internacional. “E o nosso Itamaraty como anda?”, era pergunta sua habitual.

Sempre muito bem informado, dr. Olavo era um arguto analista da cena política e econômica brasileira. É verdade que de seu ponto de vista, ou seja, o de um moderno banqueiro nacional.

Certa vez, disse-me ter cometido em sua carreira de homem público, dois grandes erros: o primeiro foi não ter aceitado o convite do MDB para candidatar-se ao Senado em 1974 quando cedeu a vaga a Severo Gomes, e o outro, o de não ter permanecido no Itamaraty.

Apesar da curta passagem pelo Ministério das Relações Exteriores, Olavo Setubal deixou sua marca ao promover a aproximação com a Argentina e, com isso, dar início ao processo de integração do Cone Sul, e também quando, solitariamente, decidiu pela adesão do Brasil ao Grupo de Contadora, formado para apoiar a Nicarágua, em uma região que estava, naquele momento, longe das prioridades do Itamaraty. Essas duas decisões tomadas por Setubal, com reservas de boa parte da burocracia itamaratiana, representou uma renovação e uma guinada nas prioridades da Chancelaria em relação à América do Sul. A chamada “diplomacia de resultados”, inspirada por sua trajetória de empresário e por sua sensibilidade de político, teria certamente introduzido novas e modernas práticas de gestão na Casa assim como, creio eu, teria mudado muitas das percepções tradicionais da atuação diplomática.

Acredito também que, se tivesse permanecido como ministro do Exterior até o fim do governo Sarney, e com o respaldo de uma administração brilhante no Itamaraty, poderia ter sido reservado ao político Olavo Setubal, um papel de relevo no tabuleiro da sucessão presidencial.

Da convivência assídua e próxima com dr. Olavo ficaram-me lições profissionais importantes que procurei levar para as posições de chefia que ocupei pelos 20 anos subseqüentes: coerência nas opiniões, visão clara das prioridades, realismo nas decisões e foco em resultados.

Olavo Setubal tinha uma clara percepção em relação ao futuro do Brasil. Confiava nos avanços da democracia e da economia. Realista, dizia que PIB é poder, indicando que de nada adianta arroubos na política externa sem uma base econômica sólida. O Brasil só teria uma posição importante no concerto das nações na medida em que o PIB crescesse, a economia se estabilizasse e a moeda se fortalecesse.

Nos últimos anos, deixando a presidência do Itaú para Roberto Setubal, mas permanecendo à frente do Conselho da holding Itaúsa, concentrou-se na estratégia do grupo financeiro e industrial. Soube educar os filhos e prepará-los para uma sucessão tranqüila na direção da instituição.

Tornou-se um grande colecionador de objetos de arte, o que ajudou a transformar o Itaú em um diversificado e importante acervo de objetos, esculturas e pinturas.

Viúvo de Tide, mãe de seus sete filhos e, mais tarde, ao lado de sua segunda mulher, a extraordinária Dayse, pôde dedicar-se a fazer o que o trabalho e sua dedicação ao Itaú antes não permitiam: viajar, sobretudo para a Europa, onde merecidamente aproveitava da boa mesa e do bom vinho. Nos últimos dois ou três anos, apesar de debilitado e com crescente dificuldade de locomoção, continuou interessado pela vida, pelas artes e pelo Brasil, que acaba de perder um de seus filhos mais ilustres, exemplo de cidadão e um dos pilares do moderno capitalismo brasileiro.

*Rubens Barbosa foi chefe de Gabinete do ministro Olavo Setubal