Novo banco será o maior do país, com R$ 575 bi em ativos, e a 4ª maior empresa da AL
Ronaldo D’Ercole SÃO PAULO e RIO - O GLOBO
Dois dos maiores bancos privados do país, Itaú e Unibanco anunciaram ontem a fusão de suas operações, numa transação que resultará no maior banco do Brasil e da América Latina, com ativos totais de R$ 575,1 bilhões.
Ou, nas palavras do presidente do Unibanco, Pedro Moreira Salles, a 17ª maior empresa financeira do mundo.
Pelo acordo, a família Moreira Salles, que controla o Unibanco, será sócia em partes iguais dos controladores do Itaú numa holding, que controlará 51% das ações com direito a voto da nova instituição, a Itaú Unibanco Holding.
O valor de mercado do novo banco, pelos números de 31 de outubro de 2008, seria de US$ 41,3 bilhões, o que o põe na quarta posição no ranking de empresas latinoamericanas, atrás de Petrobras, Vale e América Móvil (México).
— Nós estamos fazendo história hoje no Brasil — disse o presidente do Itaú, Roberto Setubal, ao iniciar a apresentação do negócio aos jornalistas, no MAM de São Paulo.
Diferentemente da interpretação de alguns analistas de mercado, Moreira Salles e Setubal negaram tratarse de uma aquisição, afirmando ser uma parceria, uma sociedade.
— Não se trata de uma compra, trata-se de uma fusão. Se não, eu estaria aqui sozinho. Nós, dos dois lados, criamos uma holding e estamos abrindo mão de coisas para formar algo maior — disse Setubal.
A criação do novo gigante bancário começou a ser negociada em agosto de 2007 entre Moreira Salles e Setubal, ganhando força com a concretização, dois meses depois, da compra do Real ABN Amro pelo espanhol Santander. Moreira Salles lembrou que a existência de um banco com escala global criava uma situação nova para o mercado local.
— Os (bancos) estrangeiros sempre tiveram no Brasil uma dimensão menor que os maiores bancos brasileiros — disse Moreira Salles. — A questão do Santander nos mostrou que devíamos dar um salto de escala.
A crise financeira global foi outro elemento que ajudou no desfecho das negociações, mas não foi determinante, segundo os dois executivos.
— A crise talvez tenha criado uma oportunidade, uma vontade de acelerar e fazer o projeto acontecer — argumentou Setubal.
Embora a meta seja constituir uma instituição para atuar nos mercados globais, a prioridade no momento será a integração dos dois bancos. A idéia, segundo os executivos, é preservar o maior número de agências (total em torno de 4.200) e de funcionários (cerca de 107 mil).
— Estamos olhando para o crescimento.
É óbvio que existem superposições (de agências e postos de trabalho), mas a empresa que está sendo criada terá, daqui a dois ou três anos, mais funcionários do que tem hoje — disse Moreira Salles.
Eles disseram não saber quanto o novo banco ganhará em sinergias com a união de Itaú e Unibanco.
— Acreditamos que haverá ganhos, mas não calculamos — disse Moreira Salles. — Numa operação de troca de ações, essas contas não se fazem.
Num primeiro momento, haverá poucas mudanças para clientes e correntistas. Os detalhes do processo de integração começam a ser tratados agora e não há prazo para sua conclusão. Segundo Moreira Salles, até a última quinta-feira, somente ele e Setubal vinham trabalhando no projeto. Só então seu desenho foi apresentado aos técnicos e advogados das duas partes.
O projeto de ampliar a internacionalização do novo banco só deve ser colocado em marcha daqui a alguns anos. No início, serão visados mercados latinos, como México e Colômbia.
Internamente, o novo banco pode fazer frente às investidas do Santander. Pelo fato de sua participação não ser diluída, não poderá ser alvo de ofertas hostis. Externamente, poderá fazer aquisições em América Latina, África, EUA e Europa. Também se reforça o peso do setor privado na área financeira, num momento em que o governo tenta fortalecer Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Itaú teve maior alta da Bolsa: 16,32%
A fusão foi o grande propulsor do mercado ontem. A Bolsa de Valores de São Paulo avançou 2,66%, aos 38.249 pontos, enquanto o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, ficou estável. A operação foi muito bem recebida e vista como prenúncio de que novas aquisições virão, por parte dos concorrentes.
As ações do Itaú fecharam em alta de 16,32%, a maior valorização do dia, seguida pelos papéis da Itaúsa (holding do grupo), com 13,04%. Já as do Unibanco subiram 8,95%.
Já o dólar teve alta de apenas 0,37%, a R$ 2,168, acompanhando a valorização internacional da moeda americana. O Banco Central vendeu dólares no mercado à vista, em torno de US$ 500 milhões, e cerca de US$ 800 milhões em swaps cambiais (contratos em que paga a variação do dólar e recebe uma taxa de juros).
Ninho de tucanos
Unibanco abriga muitos nomes do ex-governo FH
O Globo
O ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central (BC) Pedro Malan foi o primeiro tucano do governo Fernando Henrique Cardoso a ocupar um assento na cúpula do Unibanco. Pouco a pouco, outros auxiliares de FH foram migrando para o setor privado, até que o banco da família Moreira Salles transformou-se num ninho de tucanos.
Apontado como o ministro da estabilidade econômica — ele ocupou o cargo de ministro por oito anos — Malan foi para o Unibanco logo que cumpriu a quarentena imposta a quem deixa cargos de alto escalão.
Ele ocupou a vice-presidência do Conselho de Administração do banco, em 2003, e no ano seguinte, assumiu a presidência. O cargo agora, pela nova estrutura, será ocupado por Pedro Moreira Salles.
Apesar dos nomes de peso na direção do Unibanco, o presidente da Austin Rating, Erivelto Rodrigues, avalia que o banco nunca conseguiu capitalizar o potencial de tantas cabeças pensantes juntas: — O Unibanco vivia um eterno choque de vaidades.
O primeiro a seguir os passos de Malan foi seu ex-colaborador Demosthenes Madureira de Pinho Neto. Ele foi coordenador-geral de Política Monetária e Financeira do Ministério da Fazenda, no primeiro mandato de FH, e depois diretor BC. Muito próximo a Malan, ele assumiu o cargo de diretor vice-presidente do Unibanco, responsável pelo Atacado e pela área de Gestão de Patrimônios, e depois foi alçado à presidente da Unibanco Asset Management.
Em 2004, além de Pinho, Daniel Luiz Gleizer também acompanhou o ex-colega de governo. Gleizer, que trabalhou com Malan no BC como diretor-adjunto da Diretoria de Assuntos Internacionais, passou a ser diretor-executivo das áreas de Tesouraria e Pesquisa Macroeconômica do Unibanco. Com larga experiência no setor financeiro, ele foi do FMI, do Deutsche Bank e do Credit Suisse First Boston.
O último tucano a migrar para o banco foi Eleazar de Carvalho Filho, ex-presidente do BNDES. Com mais de 25 anos de experiência no setor financeiro, ele foi convocado pelo amigo Malan para comandar a nova estrutura do Unibanco Banco de Investimento, em abril último.
O Itaú abriga dois pais do Plano Real, mas que também participaram do Cruzado de José Sarney: Pérsio Arida (do Conselho de Administração) e Edmar Bacha (economista sênior do Itaú BBA). (Liana Melo)