14/08/2009 - 10:32h Os vexames dos bancões privados

VINICIUS TORRES FREIRE


Banca critica desempenho dos estatais e leva tiro dos fatos, com o balanço do BB; é outro vexame da rica safra de 2009

FAZ PARTE do show petista espinafrar bancos. Mas a banca privada poderia ter dormido sem levar essa carraspana desmoralizante do ministro da Fazenda. Brandindo os números superiores do balanço do Banco do Brasil, Guido Mantega pôde sapatear alegremente sobre as críticas de banqueiros à concorrência estatal. Outro vexame dos bancos privados.
A vexação mais recente não tinha nem uma semana. Os bancos privados haviam feito enorme lobby para gorar o leilão das contas do INSS. Até 2008, o governo pagava mais de R$ 250 milhões aos bancos que faziam os pagamentos do INSS. Em vez de pagar, decidiu vender aos bancos o direito de prestar tal serviço, em leilão. A banca dizia que não iria ao “absurdo” leilão, que o governo pressionava os estatais para que a disputa não fosse um fracasso etc. Bem, houve o tal leilão. E o Bradesco levou um monte de contas do INSS.
Mais vexame da banca privada. Desde o estouro da crise, em outubro de 2008, os bancos estatais foram responsáveis por 83% do aumento do estoque de crédito para o setor privado no Brasil. Os bancos privados estrangeiros, aliás, chegaram a reduzir o total de empréstimos. De janeiro a setembro de 2008, os estatais respondiam por só 38% da variação do crédito. Logo, os estatais evitaram que o crédito desabasse na crise e, assim, recessão feia. Bancos privados e porta-vozes vários diziam que os bancos estatais faziam besteira, emprestando dinheiro que não receberiam. Dado o histórico de rombos e irresponsabilidade dos estatais, era um temor muito razoável. Mas não havia fatos bastantes para avacalhar, de pronto, a iniciativa estatal. Aliás, ainda pode ser que alguns empréstimos estatais desse período miquem. Até agora, os fatos desmentem tal possibilidade.
Roberto Setubal, do Itaú, motivo da ira de Mantega, disse nesta semana que a atitude da concorrência estatal é “insustentável”-em 12 meses, o crescimento da carteira de crédito do BB foi o dobro da alta da carteira do Itaú. Pode bem ser que Setubal, muito bem informado, tenha razão. Mas onde estão os seus fatos? Há mais vexames. Em maio, os números do crédito indicaram que a banca privada voltava a emprestar quase tanto quanto a estatal. Banqueiros diziam que podiam então fazê-lo responsavelmente, pois a economia dava sinais de vida. Bem, os dados de junho mostraram nova retirada dos bancos privados do front de crédito, cujo estoque só cresceu praticamente devido aos estatais.
Outra conversa fiada, outro vexame. Os bancos ainda bateram o pé para não baixar as taxas que cobram para administrar fundos de investimento. Diziam que a fuga dos investidores dos fundos em direção à poupança não era problema dos bancos, mas só dos juros altos da poupança. Os juros tabelados da poupança são decerto um problemão, mas muitas taxas de fundos são de fato extorsivas. Como o governo sentou sobre a solução do caso da poupança, em boa parte por populismo, a banca teve de se mexer e baixar suas taxas. Vexame.
Os bancos de resto foram flagrados pelos fiscais da concorrência aprontando com monopólios nos cartões de crédito. Foi um vexame dentro de casa, pois a banca afinal é amiga do capitalismo. Não é?

vinit@uol.com.br

14/08/2009 - 10:13h BB expande crédito, tem menos calote e lucra R$ 4 bi

O Número 1 em ativos

http://www.claudiohumberto.com.br/Portals/8/2007/08_agosto/BB%203.JPG

Direção do Banco do Brasil festeja volta à liderança do setor financeiro em ativos

Instituição supera Itaú Unibanco em R$ 2,4 bi em ativos, mas seu lucro no 1º semestre aumenta apenas 0,55% em relação a 2008

FABRICIO VIEIRA – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

O Banco do Brasil comemorou o retorno ao topo do ranking de maior banco do país. Mas, no que se refere a lucro conquistado, ficou atrás de seus concorrentes privados. No primeiro semestre do ano, o BB reportou lucro de R$ 4,014 bilhões, um aumento de apenas 0,55% em relação ao mesmo período de 2008. O Bradesco registrou R$ 4,020 bilhões. E o Itaú Unibanco apresentou lucro de R$ 4,586 bilhões.
“Para nós, é motivo de extrema satisfação, de alegria, voltar à liderança”, afirmou o presidente do BB, Aldemir Bendine.
Encerrado o primeiro semestre, o BB computava ativos totais de R$ 598,8 bilhões, superando os R$ 596,4 bilhões registrados pelo Itaú Unibanco.
O balanço do BB mostrou claramente os reflexos da decisão do governo de utilizar os bancos públicos como instrumento de fomento do crédito.
Enquanto as carteiras dos gigantes privados encolheram entre março e junho, com as instituições temerosas em relação ao crescente risco de calote, o BB registrou expansão relevante, de 4,4%, alcançando R$ 252,5 bilhões. Em 12 meses, o aumento da carteira de crédito chegou a 32,8%.
A expansão da carteira destinada à pessoa física é ainda mais impressionante: 69% desde junho de 2008.
“O BB adotou a estratégia correta ao dar um voto de confiança ao país e trabalhar para o destravamento do crédito”, disse o presidente do BB.
Mais do que a simples continuidade no crescimento do crédito, o BB mostrou recuo na inadimplência, em sentido contrário ao experimentado pelos seus concorrentes.
Os atrasos acima de 90 dias no segmento de pessoa física recuaram de 5,9% em março para 5,7% no fim do segundo trimestre. A média da inadimplência do sistema financeiro nessa categoria ficou em 8,6% no segundo trimestre.

Aproveitar o espaço
“O resultado do BB ilustra a atitude do governo de usar os bancos públicos para ocupar os espaços deixados pelos privados após a crise. O crescimento da carteira do BB foge do ritmo que observamos nos grandes privados. Agora que o BB exerceu essa atividade anticíclica, vamos ver como os privados vão se comportar”, disse Luis Miguel Santacreu, analista da consultoria Austin Rating.
Além de buscar manter a oferta de crédito, o governo federal tem mostrado preocupação com a manutenção do “spread” em níveis elevados. O “spread” se refere à diferença entre os juros que os bancos pagam para captar dinheiro no mercado e a taxa cobrada nos empréstimos que concedem.
No caso do Banco do Brasil, houve pequeno aumento do “spread” à pessoa física entre março e junho, de 20,5% para 21,2%. Na comparação com junho de 2008, quando estava em 23,4%, houve queda expressiva.
Com a continuidade na expansão do crédito e a conjuntura econômica pouco favorável, o BB não teve como escapar de elevar suas provisões para liquidação duvidosa -recursos separados para compensar possíveis calotes futuros. A provisão total subiu 29,9% no ano e alcançou R$ 17,7 bilhões.
No segundo trimestre, o lucro líquido do banco alcançou R$ 2,348 bilhões. Nesse período, eventos extraordinários turbinaram o resultado -como a venda da participação na VisaNet, que gerou R$ 1,4 bilhão.
Segundo estudo da Economática, o BB apareceu como o mais rentável banco da América no primeiro semestre, com rentabilidade média sobre o patrimônio de 12,9%. Na segunda posição, o Bradesco apareceu com 11,2%.
A ação ON do BB subiu 2,37% no pregão da Bolsa de ontem.

13/08/2009 - 09:39h Ação agressiva no crédito devolve a liderança ao BB

Capa Folha de S.Paulo - Edição São Paulo

Expansão na crise leva o Banco do Brasil a passar o Itaú no ranking dos bancos

Fazenda se queixa de declarações do presidente do Itaú sobre expansão dos bancos públicos na crise; lucro do BB cresce 43%

GUILHERME BARROS COLUNISTA DA FOLHA

Nove meses após ter perdido a liderança para o Itaú Unibanco, o Banco do Brasil retomou o posto de maior banco em ativos do Brasil e da América Latina.
Segundo o balanço do segundo trimestre do ano, divulgado na madrugada de hoje, os ativos do Banco do Brasil chegaram a R$ 598,8 bilhões, ante R$ 596,4 bilhões do Itaú Unibanco.
O Banco do Brasil salta da 10ª para a 7ª posição no ranking dos maiores bancos da América Latina e dos EUA, segundo a consultoria Economática. O Bank of America se mantém na liderança, seguido por JPMorgan Chase e Citigroup. O Itaú Unibanco cai de 7º para 8º.
O BB lucrou R$ 4,014 bilhões no primeiro semestre, alta de 0,55% ante o mesmo período do ano passado. No segundo trimestre, o lucro foi de R$ 2,348 bilhões (+43%).
Segundo a Folha apurou, a atuação agressiva do BB na concessão de crédito durante a crise foi fundamental para a instituição ter recuperado a liderança do ranking bancário, objetivo cobrado por Lula após a perda do posto. Enquanto os bancos privados foram mais cautelosos após o congelamento global do crédito, o BB acelerou a liberação de empréstimos para evitar um contágio maior da crise.
Os números do primeiro semestre divulgados pelos bancos privados mostram claramente essa desaceleração na concessão do crédito. No ano passado, o crédito se expandiu no país a um ritmo de cerca de 30%. Em junho, caiu pela metade em relação ao mesmo mês do ano passado.
Segundo dados da consultoria Austin Rating, com base nos balanços do segundo trimestre de dez bancos privados, o crédito cresceu em média 16,1% em relação a junho de 2008. O Itaú Unibanco, por exemplo, registrou expansão de 15,7% do crédito, e o Bradesco, de 20%. Já em relação a dezembro, o volume dos empréstimos dos bancos privados praticamente não se alterou ou até caiu.
Além da forte aceleração do crédito, os números do BB relativos ao primeiro semestre mostram redução do “spread” (diferença entre os juros pagos pelos bancos ao captar recursos no mercado e a taxa cobrada dos clientes). A equipe econômica pretende usar esses dados para aumentar a pressão sobre os bancos privados para que baixem o “spread”.
Segundo a Folha apurou, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, teria ficado incomodado com declarações do presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setúbal, de que a redução do “spread” nos bancos públicos não seria sustentável.
O debate promete ser acirrado nos próximos dias. Segundo Erivelto Rodrigues, presidente da Austin Rating, a grande questão é saber se essa atuação agressiva do Banco do Brasil deteriorou ou não a qualidade da sua carteira de crédito, o que só o tempo vai dizer.
De qualquer forma, Rodrigues afirma que a atuação dos bancos públicos, tanto do Banco do Brasil como da Caixa Econômica Federal, foi extremamente importante para a recuperação do crédito no país.
“Os bancos públicos foram fundamentais para a irrigação do crédito na economia”, diz Rodrigues.
O crédito é o principal item na constituição dos ativos dos bancos. Enquanto o ativo do Banco do Brasil tem crescido em ritmo bastante forte na crise, o do Itaú Unibanco fez o caminho inverso. De acordo com a Economática, o ativo do Itaú Unibanco caiu de R$ 633 bilhões em dezembro para R$ 596,4 bilhões em junho.

12/08/2009 - 13:36h Crédito em banco privado cai 1,7% no 1º semestre

Carteiras de empréstimo dos 3 maiores bancos privados do País recuam de R$ 626 bilhões para R$ 616 bilhões

Leandro Modé – O Estado SP

Os balanços semestrais das grandes instituições financeiras deixaram claro o tamanho do impacto da crise global sobre o crédito no Brasil. No fim do ano passado, as carteiras de crédito dos três maiores bancos privados do País – Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Real – totalizavam R$ 626,6 bilhões. Ao final do primeiro semestre deste ano, a mesma soma resultava em R$ 616 bilhões.

Ou seja, houve uma queda de 1,7% no período. No Itaú, que divulgou ontem os resultados do segundo trimestre, o recuo foi de 2,2%. No Bradesco, de 1,2%, e no Santander Real, de 1,5%.

As instituições afirmam que pisaram no freio por causa da expressiva alta da inadimplência em decorrência da crise internacional. Os dados do Banco Central (BC) mostram que a inadimplência média entre as empresas cresceu de 1,8% do total das operações em dezembro de 2008 para 3,4% em junho. Nas pessoas físicas, o salto no intervalo foi um pouco menor: de 8% para 8,6%.

“Esse movimento é normal para um momento de crise como o que vivemos”, disse o presidente da agência de classificação de risco Austin Rating, Erivelto Rodrigues. “É ruim para a economia em geral, mas, do ponto de vista dos resultados dos bancos, é positivo.”

O analista de bancos da Corretora Planner, Pérsio Nogueira, concorda. “(A queda do crédito) não foi significativa. Os bancos precisaram se ajustar, tiveram de esperar passar toda essa marola”, afirmou. “Não se pode dizer que as instituições foram excessivamente conservadoras. É preciso lembrar que a procura por empréstimos também caiu.”

A área econômica do governo discorda dessa avaliação e, mesmo no auge da crise, determinou que os bancos públicos, notadamente o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, emprestassem mais. As autoridades defenderam a ideia de que a pressão dos bancos públicos levaria também os privados a emprestar mais.

No BB, por exemplo, a carteira de crédito cresceu 7,6% no primeiro trimestre ante os três últimos meses do ano passado, para R$ 241,9 bilhões. Os resultados do semestre só serão conhecidos amanhã, quando a instituição divulgará o balanço do segundo trimestre. Mas analistas de mercado dão como certo um novo avanço.

PERSPECTIVAS MELHORES

O fraco desempenho no primeiro semestre levou os bancos a rever para baixo as projeções para expansão do crédito em 2009. O Bradesco, por exemplo, esperava no início do ano um avanço entre 13% e 17%. Agora, passou para um intervalo de 8% a 12%. No Itaú Unibanco, a expectativa é de um crescimento entre 10% e 15%.

As previsões só não são mais modestas porque a expectativa é de uma melhora expressiva nas concessões de empréstimos daqui até o fim do ano. “Os sinais indicam que a crise já é passado aqui no Brasil”, disse o diretor executivo de Controladoria do Itaú Unibanco, Silvio de Carvalho. Segundo ele, a instituição avalia que o pico da inadimplência será atingido em setembro. “A partir daí, acreditamos em uma estabilização.”

Com o calote sob controle, analistas ponderam que o caminho natural será os bancos voltarem com força para o crédito – como nos últimos anos, quando o crescimento médio do estoque ficou entre 20% e 30%.

O analista de bancos da Corretora Spinelli, Jayme Alves, prevê um “movimento oposto” por parte dos bancos em relação ao crédito daqui para a frente. “As operações de consignado já voltaram para o nível pré-crise”, exemplificou.

“Sem poder reajustar as tarifas por causa das regras do Banco Central, com as taxas de administração em queda e os ganhos de tesouraria menores em razão da queda do juro básico, não há outro caminho para os bancos senão aumentar o crédito”, argumentou.Outras áreas que, segundo ele, também vão ganhar força são previdência privada e seguros.

Carvalho afirmou que o Itaú Unibanco vê boas perspectivas para os financiamentos, principalmente, entre as pessoas físicas e as pequenas e médias empresas. Ele ponderou que, com a melhora do crédito global, as grandes corporações estão bem atendidas pelo mercado internacional.

Para o ano que vem, Carvalho disse que o Itaú Unibanco espera uma expansão de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), que resultaria em um avanço do crédito total entre 20% e 25%. Para este ano, o banco prevê uma retração de 0,7% no PIB.

12/08/2009 - 13:00h ”Redução de spread de bancos públicos não é sustentável”

Enquanto bancos privados subiram juros para enfrentar a crise, diz Setubal, bancos públicos cortaram algumas taxas

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Para Roberto Setubal (centro da foto) ”Redução de spread de bancos públicos não é sustentável”

Ricardo Leopoldo – O Estado SP

Para o presidente executivo do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, a redução de algumas taxas de spread (diferença entre a taxa de captação de recursos e a taxa cobrada dos clientes nos empréstimos) promovida pelos bancos oficiais “não é sustentável”. Segundo ele, no início deste ano, enquanto os juros cobrados pelos bancos comerciais subiam, por causa do estancamento global do crédito, os bancos públicos diminuíram o valor dos spreads.

Em palestra para empresários em São Paulo, Setubal destacou, no entanto, que os bancos públicos tiveram um papel importante para elevar a concessão de crédito na economia, o que faz parte da estratégia “correta” do governo de adotar medida anticíclicas para atenuar os efeitos da crise no País.

Mas o executivo acredita que a tendência é as taxas cobradas tanto por bancos públicos quanto por privados se estabilizarem no mesmo nível. “O sistema financeiro reduziu os spreads no último trimestre e houve aumento da concessão de crédito. Estamos em uma fase de retomada do crédito com redução do spread”, afirmou.

Indagado pela Agência Estado se a alta rentabilidade dos bancos comerciais não permitiria uma queda mais intensa dos spreads, o que foi exortado há alguns dias pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, Setubal respondeu que “os bancos estão longe de ser o primeiro setor em termos de rentabilidade”. No entanto, reconheceu que o setor financeiro brasileiro tem se destacado em um contexto global. “Neste momento, evidentemente, quando a gente olha o que aconteceu com os bancos lá fora, a maior parte deles, inclusive, com prejuízos, a rentabilidade (dos bancos) do Brasil está bem superior.”

Para Setubal, a economia brasileira está se recuperando de forma satisfatória da crise e o Produto Interno Bruto (PIB) deve fechar o ano com um ritmo de expansão perto de 4%. “Estatisticamente, o PIB em 2009 deve ficar o próximo a zero, mas nos últimos meses do ano, estaremos com um ritmo avantajado de aceleração que deverá levar o País a crescer por volta de 4,5% em 2010 e até pode chegar a 5%”, afirmou. Segundo ele, o PIB no segundo trimestre indica um ritmo de crescimento entre 5% e 6% em relação ao primeiro trimestre deste ano.

FUSÕES

Na avaliação de Setubal, não há mais espaço no mercado brasileiro para fusões de grandes bancos, como a realizada entre Itaú e Unibanco, que criou o maior conglomerado financeiro da América do Sul. Com a operação, o Itaú superou o seu principal concorrente privado, o Bradesco. “O que está feito está feito. Até poderia ocorrer compra de bancos médios. Mas acho que entre os quatro grandes lá em cima não tem mais condição de acontecer nada.”

De acordo com Setubal, poderia ocorrer de forma excepcional alguma fusão caso um dos grandes bancos apresentasse problemas muito sérios. Mas ele ressaltou que não existe nenhuma perspectiva de que isso ocorrera no Brasil.

Setubal disse que o atual nível de concentração do País é adequado para os bancos de varejo, pois no mundo poucos países têm acima de cinco grandes instituições operando neste setor.

25/07/2009 - 09:07h Bancos médios superam a crise, mas concentração bancária deve aumentar

Captação e empréstimos já estão praticamente no nível de 2008

 

Renato Andrade e Fernando Nakagawa – O Estado SP

 


Os sinais de recuperação da economia já podem ser sentidos num dos segmentos que mais sofreram com a crise de crédito global que travou as operações de financiamento no fim do ano passado. Os bancos de pequeno e médio portes conseguiram recuperar boa parte das fontes de recursos e voltaram a emprestar praticamente o mesmo volume de dinheiro que giravam antes do agravamento da crise, em setembro, quando o banco de investimentos Lehman Brothers quebrou.

Em março, o saldo das operações de crédito ainda estava 6,5% abaixo do registrado antes da crise. Segundo dados do Banco Central (BC), o resultado melhorou em maio e ficou apenas 0,6% abaixo do desempenho de setembro de 2008. “Não há mais nenhum problema de liquidez e foi resolvido o problema de credibilidade no setor”, analisa Renato Martins Oliva, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representas as instituições pequenas e médias.

O congelamento do crédito produziu grandes efeitos sobre os bancos de menor porte. Para evitar consequências danosas ao segmento, que tem forte participação no financiamento de pequenas empresas e em operações como crédito consignado, o BC adotou uma série de medidas para garantir a retomada das captações – como a redução dos depósitos compulsórios, que liberou R$ 100 bilhões para o caixa dos bancos.

Mas a redenção ocorreu mesmo em abril, com a criação do Depósito a Prazo com Garantia Especial (DPGE). O instrumento dá garantia de até R$ 20 milhões aos investidores que aplicarem recursos nessas instituições. Isso deu segurança para que grandes aplicadores voltassem a pôr dinheiro nesses bancos, opção de investimento que havia sido completamente excluída no auge da crise.

Desde então, foram captados R$ 9,5 bilhões com a garantia especial. “Esses recursos conseguiram encerrar a questão de falta de funding (captação) nos bancos médios, principalmente porque os grandes investidores voltaram”, diz o diretor-geral do Fundo Garantidor do Crédito (FGC), Antonio Carlos Bueno, instituição que dá a garantia a esses depósitos.

SPREAD

Para Rubens Sardenberg, economista-chefe da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), as medidas tomadas pelo BC no ano passado permitiram, num primeiro momento, a recomposição de caixa dessas instituições. Na sequência, os bancos voltaram a emprestar.

Nessa retomada, o empréstimo consignado e o financiamento de veículos foram os primeiros beneficiados. Dados do BC mostram que a média diária de concessão de crédito consignado ficou em R$ 286 milhões em maio, valor 121% maior que o de dezembro. No caso dos carros, a média de novas operações somou R$ 212 milhões em maio, um salto de 58,4%. No mesmo período, a média das operações para pessoas físicas cresceu 16,3%.

O desafio que se impõe agora aos bancos é a demanda ainda fraca, diz Sardenberg. “De maneira geral, não temos mais problema de oferta, mas a demanda ainda é fraca”, disse.

Para o economista, essa realidade forçará o aumento da competição entre os bancos, o que poderá resultar em reduções nas taxas de juros cobradas nas operações e até dos spreads bancários, a diferença entre a taxa de captação de recursos do banco e a cobrada do cliente.

O espaço para redução dessas taxas é claro, mas a queda sempre foi muito mais lenta do que o desejado pelos consumidores e pelo próprio governo, que tem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, como um dos porta-vozes das constantes reclamações sobre os spreads.

Depois de atingir o nível de 30,7 pontos porcentuais em dezembro, o spread médio do sistema financeiro nacional diminuiu lentamente ao longo dos primeiros cinco meses do ano, atingindo 28,1 pontos em maio, de acordo com os dados mais recentes do BC. No caso do juro médio nas operações com recursos livres, a taxa passou de 43,3% ao ano para 37,9% no mesmo período.

Crise acelera tendência de fusões e aquisições de bancos pequenos

A recuperação da capacidade dos bancos menores de tomar recursos e oferecer empréstimos não deve frear o processo de fusões e aquisições dessas instituições, avalia uma fonte do setor. “O mundo não vai voltar a ser exatamente como era antes da crise”, disse a fonte, que pediu para não ser identificada. “O que teremos, eventualmente, é um movimento de fusões e aquisições.”

O fato mais marcante do processo de consolidação do setor bancário brasileiro ocorreu no fim de 2008, quando Itaú e Unibanco se uniram, criando o maior banco da América Latina em ativos. “Deveremos ver dois movimentos: a fusão de bancos pequenos e médios e também a incorporação dessas instituições por bancos maiores.”

A consolidação do setor não é uma hipótese descartada pelo presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Renato Martins Oliva, entidade que representa os bancos de menor porte. O assunto, entretanto, assusta. “O ideal é termos uma grande quantidade de agentes econômicos para garantir a competição. Por esse aspecto, a consolidação preocupa”, diz.

Ele dá como exemplo a união entre Itaú e Unibanco. “Se uma empresa tinha crédito de R$ 100 em cada instituição, a fusão não fez com que esse cliente mantivesse R$ 200 em crédito. Ao contrário, ele passou a poder usar apenas um dos dois limites.”

Oliva admite, porém, que essa consolidação passa por decisões estratégicas de cada instituição e, caso isso ocorra, existem benefícios, como um sistema mais forte e com maior capacidade de emprestar.

Os bancos públicos, que têm sido pressionados pelo governo a aumentar o crédito, têm colaborado para essa consolidação. Desde 2008, o Banco do Brasil já adquiriu metade do Banco Votorantim, especializado em crédito para veículos e médias empresas, e incorporou a Nossa Caixa e o Banco do Estado de Santa Catarina. Além disso, comprou R$ 3,5 bilhões em créditos de bancos menores durante a crise.

Agora, há expectativa de que a Caixa Econômica Federal se associe a um banco médio para entrar em nichos que ainda não explora, como o das financeiras. Durante a crise, a Caixa adquiriu R$ 2 bilhões em carteiras de crédito de outras instituições.

O próprio Banco Central (BC) considera possível um novo ciclo de consolidação do sistema financeiro. Em seu último Relatório de Estabilidade Financeira, o BC avalia que as aquisições ocorridas no segmento de bancos de grande porte “prenunciam” esse novo ciclo. O processo já estaria se refletindo nos níveis de concentração do sistema, de acordo com cálculo feito pelo BC.

Na avaliação da autoridade monetária, as aquisições não ocorrerão apenas do lado das grandes instituições. Alguns bancos médios devem buscar o fortalecimento de suas operações por meio de aquisições, o que daria escopo para concorrerem com as instituições de grande porte.

22/03/2009 - 11:06h ”A economia não está descendo a ladeira”

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Roberto Setubal: presidente do Itaú-Unibanco; presidente do maior banco brasileiro afirma que o País evitará a recessão em 2009 e vê indícios de que o pior já passou

 

Leandro Modé e Ricardo Grinbaum O Estado SP

 


Em meio ao terremoto que sacode o mercado financeiro mundial, o sistema bancário brasileiro tem exibido uma solidez que, segundo analistas, evitou que os efeitos da crise aqui fossem ainda mais drásticos. Essa situação privilegiada ante os concorrentes internacionais fez com que bancos brasileiros fossem alvo de rumores sobre potenciais aquisições em outros países nas últimas semanas. Nesse quesito, destaca-se o Itaú-Unibanco. Fruto da maior fusão bancária da história brasileira, a instituição é de longe a primeira do ranking no País, com R$ 632 bilhões em ativos. À frente do conglomerado está Roberto Setubal, que desmente negociações para expansão além das fronteiras nacionais. “A prioridade, neste momento, é fazer a integração do banco”, disse em entrevista ao Estado. Cauteloso, ele não se arrisca a dizer que o pior da crise passou. Em compensação, diz não acreditar em recessão no Brasil este ano. “Vejo crescimento próximo de zero, que já é positivo dada a queda do último trimestre do ano passado.”

O governo prepara um pacote para reduzir o spread bancário. De quem é a responsabilidade pelos spreads altos?

Essa agenda tem de ser pensada tecnicamente. O spread é alto por várias razões. Temos a taxa de juros, os compulsórios e a inadimplência mais elevados do mundo, além de altos impostos na intermediação financeira. Evidentemente, a decorrência disso tudo é termos o maior spread do mundo. Devemos, portanto, atacar cada um desses pontos.

Há uma avaliação no governo de que a competição bancária é baixa no País. Caixa e Banco do Brasil têm sido forçados a reduzir os juros para, com isso, induzir o restante do mercado a fazer o mesmo.

Essa é uma crítica injusta com o sistema financeiro. Se analisarmos os vários setores da economia, diria que o setor bancário é um dos que mais têm competição, se não for aquele onde a competição é maior. De qualquer forma, é possível ampliá-la criando condições mais adequadas, como mais transparência. O governo tem parcela significativa do crédito no Brasil, se levarmos em conta as instituições que controla. Justamente por isso, conhece as dificuldades. Portanto, reduzir o spread não é questão de vontade. Há uma questão técnica que precisa ser equacionada.

Há essa disposição no governo de fazer Caixa e BB reduzirem o juro.

Entendo a intenção do governo de manter uma oferta de crédito grande para reativar a economia. De outro lado, tenho certeza de que ninguém quer criar uma crise bancária, não vai fazer loucura. Muito menos os bancos privados. Em primeiro lugar, temos de zelar pelos recursos dos depositantes. Não devemos, de forma nenhuma, criar uma situação que fragilize essa condição.

O que pensa sobre a remuneração da poupança?

No Brasil, temos uma distorção que já vem de mais de 20 anos: a caderneta de poupança é isenta de impostos e tem um nível de juros básicos relativamente elevados para a economia mundial. Se queremos juros mais baixos, de alguma forma teremos de rever a remuneração da poupança. Há várias possibilidades. Temos de ficar muito atentos para evitar questionamentos jurídicos sobre a mudança. A forma que me parece mais adequada para enfrentar o problema neste primeiro momento seria introduzir o Imposto de Renda nas aplicações de poupança acima de um determinado valor, digamos R$ 100 mil, R$ 200 mil. Se pegarmos esse valor, provavelmente 99% dos poupadores continuarão isentos.

Sempre se disse que, quando os juros caíssem no Brasil, os bancos iam ter problemas.

Temos juros elevados há muitos anos. Sempre disse que, como em qualquer lugar do mundo, os bancos sobrevivem com qualquer nível de juros. O que muda é a dinâmica de resultados, a formação das receitas. Os bancos têm de ser flexíveis para se adaptar a isso. Vejo o Itaú-Unibanco preparado para juros menores.

Qual o cenário do juro para o fim do ano?

Pode chegar a 9% ou menos. No futuro, teremos de sentir como a economia reage, mas creio que está madura para um juro abaixo de 10%.

Vocês veem recessão no Brasil?

Não. Vejo neste ano um crescimento próximo de zero, que já é um número positivo dada a queda do último trimestre do ano passado. Podemos ter crescimento neste primeiro trimestre, o que seria uma surpresa positiva. Alguns indicadores estão reagindo bem, como o consumo de energia. A economia dá sinais de que encontrou um piso. Vários indicadores mostram que a economia não está descendo a ladeira.

O pior já passou?

É possível que sim. Não dá para fazer essa afirmação, mas já há indícios de que talvez tenhamos atingido o fundo do poço.

E lá fora?

É uma situação bem diferente. A crise é muito grave. O que ocorreu no sistema financeiro dos países desenvolvidos foi de uma dimensão inesperada. Levará três, quatro anos para que o PIB de EUA, Europa e Japão retorne aos níveis anteriores. Independente disso, a economia brasileira pode retomar o crescimento em 2010 – 3% é um nível bastante razoável.

O Citigroup e o Bank of America (BofA) vão sobreviver?

Sobreviverão. Claramente, o governo americano está dando todo apoio para que sobrevivam. Pela dimensão que ambos têm no mundo, é importante que esse apoio continue sendo dado.

Como vê a possibilidade de estatização desses bancos?

O fato de o governo americano ter colocado capital dentro desses bancos não significa que a intenção seja administrá-los, que são instituições muito complexas. A intenção do governo é reequilibrar o sistema financeiro e se livrar desse problema. É muito mais apagar um incêndio.

Isso resolve o problema? Há quem diga que pode virar um novo Japão (que demorou anos para resolver problemas e, por isso, enfrentou longa estagnação econômica).

O governo caminha para um caminho e alguns analistas apontam para outros. Vimos, nesta semana, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) injetar mais recursos na economia. Finalmente, estamos vendo propostas e soluções à altura do problema. Podemos estar começando a ver o início do fim da crise financeira, o que significa que o governo conseguirá estabilizar o sistema financeiro. Com isso, podemos ter a expectativa de ver a retomada do crescimento econômico daqui a alguns anos.

Como o sr. avalia uma estatização temporária dos bancos?

Sou pragmático. Não defendo nem ataco. Se essa for a melhor solução, tem de fazer o que é melhor para o país.

Se o Itaú-Unibanco operasse nos EUA, faria as mesmas operações que causaram esses problemas?

Seria muito fácil dizer não e eu sairia bem na fotografia. Dadas as condições do mercado, faríamos alguma coisa. Provavelmente não na intensidade que alguns bancos fizeram. Certamente não teríamos sido agressivos no mercado. Mas, quando se está inserido em um mercado, você não vê os riscos. Então, é muito difícil dizer que sairíamos incólumes. Não é razoável dizer isso.

É difícil ver o concorrente ganhar dinheiro com aquilo e não seguir o mesmo caminho.

Não é só isso. Além das perdas diretas pelo envolvimento na questão do subprime, há as perdas indiretas. Todos os bancos perderam. Nenhum banco tem anunciado crescimento dos resultados. O Itaú-Unibanco seria menos atingido.

Em que momento vocês perceberam que havia uma exuberância irracional lá fora?

Olhando hoje, o mercado em geral, e o próprio Fed, percebia que havia algo errado. O Alan Greenspan (ex-presidente do Fed) falou alguns anos atrás em exuberância irracional. Mais recentemente, apontou para o “conundrum”, um mistério relacionado aos spreads de longo prazo muito baixos. Tudo isso sinalizava que havia problemas. Ninguém sabia exatamente onde, mas havia indícios de que algo estava fora do lugar. Quando começaram a aparecer os problemas com mais gravidade, em 2007, as pessoas foram se dando conta do tamanho. A dimensão que tomou foi totalmente inesperada.

Disse-se que o financiamento de veículos foi o subprime brasileiro.

Não tem nada parecido aqui. No Brasil, vamos assistir a um aumento da inadimplência, mas nada como nos EUA. Estamos mais acostumados a flutuações. Vamos ver um ciclo novo de crescimento da inadimplência. Mas os bancos estão preparados para absorver essa onda. Até porque, no Brasil, não vejo a economia entrando em recessão profunda.

Há um expressivo aumento da inadimplência entre as empresas pequenas e médias, atribuído, em grande medida, à falta de crédito.

Não falta dinheiro. A demanda de crédito sobe quando o PIB está crescendo. Quando cai, ocorre o oposto. Além disso, com mais incerteza, os bancos ficam mais seletivos na concessão de crédito. De qualquer modo, quando olhamos o volume de crédito na economia, há um aumento. O próprio Itaú, no último trimestre (de 2008), aumentou em mais de 6% o volume de crédito ofertado. Neste primeiro trimestre, cresceram nossos empréstimos para pequenas empresas. E é uma época, sazonalmente, mais fraca.

A ideia do governo de comprar participação em bancos pequenos e médios preocupa?

A preocupação do governo é ter a possibilidade, caso algum banco tenha dificuldades insuperáveis, de absorvê-lo por um de seus bancos.

O Itaú-Unibanco já é o maior banco do País. Qual a próxima meta?

Integrar os dois bancos.

E as especulações sobre o mexicano Banamex?

Nossa prioridade, no momento, é fazer a integração do banco. É um mega esforço integrar duas empresas desse tamanho. Estamos muito focados. Essa etapa vem antes de qualquer outra coisa. Não fizemos a fusão para ter o banco maior, mas o mais forte, com mais capacidade até para fazer aquisições fora do Brasil.

Não tem um monte de bancos baratos no mercado hoje?

Banco barato, normalmente, é banco ruim. Queremos banco bom. Não vejo a possibilidade de tomarmos risco para comprar algo incerto. A crise é longa e as oportunidades não vão desaparecer rapidamente.

O Itaú-Unibanco tem cerca de 100 mil funcionários. Muitos estão aflitos com a possibilidade de demissões. O que o sr. diz a eles?

Não vamos fechar agências, vamos até continuar expandindo os negócios em algumas áreas. Pelo natural turnover (rotatividade) da organização, vamos ter condições de fazer as reduções inevitáveis de uma forma natural, no tempo e sem pressão. Evidentemente, isso vai exigir um esforço interno de transferência de funcionários de uma área para a outra, retreinamentos. Estamos dispostos a fazer isso.

Quem é:
Roberto Setubal

É presidente executivo do Itaú-Unibanco, o maior banco brasileiro por ativos

É formado em Engenharia pela Universidade de São Paulo e tem pós-graduação pela
Universidade Stanford

Presidiu o Banco Itaú entre 1994 e novembro passado. Foi treinado durante anos para exercer a função

22/02/2009 - 13:06h Retomada desigual preocupa analistas

Autos e alimentos melhoram em janeiro, mas vários setores pioram

Fernando Dantas – O Estado SP

No momento em que a Embraer demite 20% da sua força de trabalho e a angústia em relação à economia em 2009 se intensifica, outra ameaça paira sobre a tênue retomada da indústria brasileira iniciada em janeiro. A recuperação (projetada pelos indicadores antecedentes), após a queda brusca nos três últimos meses de 2008, parece ser bastante desigual entre os setores, com vários deles podendo apresentar resultados ainda muito ruins. “É difícil dizer que o vale (pior momento) já passou”, diz Jander Medeiros, analista de consumo da JGP Investimentos, empresa de gestão de recursos.

O Índice de Situação Atual da Fundação Getúlio Vargas (FGV), componente do Índice de Confiança da Indústria que melhor mede a avaliação das empresas sobre a demanda a cada momento, teve quedas expressivas de dezembro para janeiro em importantes setores industriais: 4,4% em material elétrico e de comunicações; 8,3% no mobiliário; e 14,3% em vestuário e calçados.

Esses resultados foram contrabalançados pela alta em setores como produtos alimentares e material de transporte (que inclui a indústria automobilística), que tiveram altas no Índice de Situação Atual de respectivamente 10,3% e 4,6% em janeiro.

O problema, porém, para vários analistas, é que o setor automotivo pode estar se recuperando por causa de uma queda muito forte no fim do ano passado. O bom desempenho dos alimentos, por sua vez, é compatível com a atual fase da contração econômica, que ainda está mais concentrada nos produtos dependentes de crédito.

“Quando desagreguei o resultado por setores, fiquei mais preocupado porque o índice mostra que há segmentos nobres de consumo, como eletrônicos, mobiliário e vestuário, que ainda têm quedas muito significativas”, diz Vagner Ardeo, vice-diretor do Instituto Brasileiro de Economia, da FGV no Rio.

Bráulio Borges, da LCA Consultoria, está mais otimista. Ele nota que a indústria automobilística é responsável, direta ou indiretamente, por 25% da produção industrial, afetando segmentos como siderurgia, petroquímica, etc. “É um poder de influência muito grande, e essa recuperação é um bom sinal para economia como um todo”, diz.

Um ponto comum nas análises é que o setor automobilístico foi o que pisou com mais força no freio no último trimestre do ano passado, exagerando a dose e provocando a reaceleração em janeiro. “A fábrica da Ford na Bahia, por exemplo, praticamente não operou em dezembro”, observa Borges.

Outros setores de bens duráveis, porém, como eletrodomésticos e móveis, não tiveram freada tão drástica. “Eles ainda têm de se preocupar em reduzir os estoques antes de aumentar a produção”, acrescenta.

Medeiros, da JGP, nota que fator determinante no desempenho dos setores é a dependência ou não do crédito (exceto a indústria automobilística, com sua dinâmica particular). Nos alimentos, que não têm vínculo com crédito, o bom momento se reflete no desempenho de empresas como Wal-Mart, que manteve planos de investimento de R$ 1,5 bilhão, e do Pão de Açúcar, que retomou projetos. O aumento real do salário mínimo também deve ajudar.

Outro segmento que vai bem, acrescenta o analista, é o de cosméticos. Assim como os alimentos, são produtos que podem ter a demanda até ampliada num primeiro momento de retração, à medida que o consumidor corta bens duráveis mais caros. “A pessoa não comprou presente de Natal, mas dá uma melhoradinha na ceia”, resume Ardeo, do Ibre.

Uma preocupação, porém, é que esses setores sejam mais afetados no momento em que o pior da crise se transferir do crédito para o emprego, como parecem indicar os recentes resultados sobre mercado de trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). John Welch, economista global do Itaú, porém, acha que a queda da inflação pode poupar o setor de alimentos de um ajuste mais drástico.

15/02/2009 - 10:49h ”Será que estamos saindo do poço?”

Economista da FGV vê retomada gradual da indústria e diz que dezembro foi o pior mês neste período recente

http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/setembro2008/images/img-ju411_03a.jpg

Fernando Dantas, RIO – O Estado SP

Apesar da crise econômica global ainda dar sinais de virulência, e da má recepção inicial dos mercados ao pacote de US$ 2 trilhões de ajuda ao sistema financeiro do presidente americano Barack Obama, uma tímida luz no fim do túnel parece ter surgido nos últimos dias, no caso brasileiro.

“Os dados me levam a crer que dezembro foi o pior mês da economia brasileira neste período recente, e que em janeiro nós já estamos saindo um pouco do fundo do poço”, diz Vagner Ardeo, vice-diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio.

Ardeo é o principal responsável por indicadores da FGV com os índices de confiança do consumidor e da indústria de transformação, e o Sinalizador da Produção Industrial (SPI), que busca antecipar a produção industrial em São Paulo.

Ele nota que os índices de confiança chegaram perto da estabilização em janeiro, depois de quedas muito acentuadas nos meses anteriores. No caso do SPI, o índice para janeiro foi de avanço de 5,7%, depois de registrar quedas de respectivamente 0,4%, 6% e 13,5% em outubro, novembro e dezembro.

Ardeo observa que o SPI vem prevendo muito bem o resultado efetivo da produção industrial em São Paulo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que caiu 0,8%, 3,5% e 14,9% de outubro a dezembro. Desta forma, o SPI de 5,7% para janeiro é um resultado animador.

O economista ressalva que o aquecimento está muito concentrado no chamado “material de transporte”, que inclui basicamente a indústria automobilística. Outro ponto de interrogação é o impacto da piora do mercado de trabalho no segmento de bens não-duráveis, como alimentos e roupas.

“Em dezembro houve grande perda de postos de trabalho, e isso tende a afetar a confiança do consumidor, embora em janeiro ela tenha ficado relativamente estável”, diz Ardeo.

Na Quest Investimentos, do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros (leia entrevista abaixo), um levantamento mostra que, no último mês, o real e o peso chileno foram as únicas moedas que se valorizaram em relação ao dólar, numa lista de países que inclui Argentina, México, Turquia, Rússia, Coreia do Sul, Hungria e Polônia. Em termos de mercado acionário, o Brasil, com valorização acima de 5%, teve o melhor desempenho, com exceção da China e da Índia, num grupo de 13 países emergentes acompanhados pela Quest.

Joel Bogdanski, economista do Banco Itaú, é mais cauteloso em relação ao momento da economia brasileira: “É bem difícil afirmar com certeza que o fundo do poço tenha sido atingido, porque a crise continua evoluindo lá fora”. Ele acha que o ocorrido em janeiro no setor automobilístico pode ter sido um fenômeno específico, que não necessariamente sinaliza uma tendência para a economia como um todo.

Bogdanski nota que o que mais afetou a economia brasileira, e provocou a parada brusca do fim de 2009, foram as expectativas, ligadas à confiança de consumidores e empresários. E esta, por sua vez, mostrou-se bastante vulnerável à evolução do quadro internacional, centrada nos Estados Unidos e nas economias ricas.

“Houve essa voltadinha no começo do ano, mas não se pode descartar outra onda de abalo lá fora – uma recessão mundial é algo muito sério”, diz.

Bogdanski concorda, porém, com a análise de Mendonça de Barros de que o Brasil vem se destacando como uma economia emergente numa situação relativamente favorável. “Os investidores estão começando a fazer conta e a perceber que o Brasil está melhor”, afirma.

31/01/2009 - 15:48h Brasil passa de vidraça a estilingue para os países ricos. Para empresários, país continua “sólido”

http://www.revistafatorbrasil.com.br/imagens/fotos/wef2

ENVIADO ESPECIAL A DAVOS- FOLHA SP

José Sergio Gabrielli, o presidente da Petrobras, foi escolhido por seus pares das empresas do ramo para presidir a “Cúpula da Energia”, que faz anualmente seu encontro em Davos.
Passará, pois, a coordenar as reuniões do grupo, que conta com as grandes petrolíferas do planeta, estatais ou privadas.
A escolha de Gabrielli é uma óbvia homenagem à empresa que preside, especialmente em foco depois das descobertas no pré-sal. Mas é também um homenagem ao Brasil, que, neste ano, no encontro do Fórum Econômico Mundial, passou nitidamente da velha condição de vidraça para a de estilingue.
Tanto é assim que Ricardo Villela Marino, executivo-chefe para a América Latina do banco Itaú e eleito um dos jovens líderes globais deste ano pelo Fórum, estufou o peito para dizer que “o Brasil e os bancos brasileiros não são parte do problema, são parte da solução”, sendo o mal, como é óbvio, a crise.
Marino lembrou os “bilhões” despejados pelo mundo rico para evitar a quebra de seus bancos e emendou: “Nada disso aconteceu no Brasil”.
Logo depois, Gabrielli tomou a palavra para fazer outra comparação representativa da troca de vidraça por estilingue. Afirmou que não era só no setor bancário que o Brasil tinha algo a ensinar ao mundo rico. “Também em matéria de política fiscal sadia estamos melhor que os Estados Unidos” [cujo déficit cresce a cada hora].
O bordão “política fiscal sadia” foi usado pelo mundo rico anos a fio para passar sermões em empresários e autoridades brasileiros. Que Gabrielli o use agora tem sabor de vingança.
Na sua vez, o chanceler Celso Amorim lembrou, por exemplo, dos US$ 20 bilhões que as empresas brasileiras investiram no exterior, quando, em anos anteriores, empresários e autoridades brasileiras usavam Davos para uma espécie de passada de chapéu, implorando por investimentos externos.
O próprio tema do almoço já era uma homenagem ao Brasil, ao tratá-lo como “new power broker”, um mediador internacional de peso, em tradução livre. Claro que é preciso alguma ginástica para evitar pessimismo ou números negativos. Pouco antes do almoço, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, havia clamado pela retomada dos créditos por parte do sistema financeiro, “no mundo todo”.
Villela Marino, do Itaú, preferiu desconversar. Afirmou que “o crédito não desapareceu; apenas ficou mais focado e mais seletivo”. À Folha, depois da sobremesa, contou que continua havendo aumento dos empréstimos no Brasil, mas que a curva é bem inferior à anterior à crise, até setembro.
“O crédito tornou-se mais escasso e mais caro, mas continua crescendo”, afirmou.
O moderador do almoço, David Schlesinger, editor-chefe da agência Thomson-Reuters, introduziu uma provocação, ao perguntar a Amorim se o fato de o presidente Lula ter preferido ir ao Fórum Social Mundial, em Belém, em vez de Davos, era um “manifesto”.
Amorim, como é óbvio, disse que não, lembrando que Lula, em seus seis anos de mandato, esteve já três vezes em Davos. Brincou: “O problema é que a demanda por Lula é maior que a oferta de Lulas”. (CR)
Para empresários, país continua “sólido”

MARIA CRISTINA FRIAS
ENVIADA ESPECIAL A DAVOS

O Brasil e outros países emergentes devem ser os primeiros a sair da crise, dizem participantes do Fórum Econômico Mundial.
O presidente da Braskem, Bernardo Gradin, disse ontem acreditar que o país deva sair mais rapidamente da crise, tão logo a liquidez volte aos mercados, em razão de seus bons fundamentos. “Temos bancos sólidos, líquidos e sem ativos podres; grandes empresas também estão capitalizadas. Se éramos competitivos com dólar a R$ 1,50, mais ainda agora. Mas o pior ainda pode vir e devemos estar preparados caso o fundo do poço não tenha chegado.”
Mike Kubena, executivo da PriceWaterhouseCoopers baseado na República Tcheca, focado em mercados emergentes, também é da opinião de que mesmo os emergentes muito dependentes de commodities, como o Brasil, serão os primeiros a se recuperar, tão logo a liquidez melhore. De um lado, graças à sua flexibilidade e capacidade de se adaptar a muitas crises e, de outro, por não ter problemas no sistema financeiro e, sim, bons fundamentos.
“Esta crise não é dos emergentes”, disse, repercutindo uma frase comum entre palestrantes de países como Índia e África do Sul.
O secretário da Fazenda do Rio de Janeiro, Joaquim Levy, secretário do Tesouro na equipe do ex-ministro Antonio Palocci, por sua vez, disse que deverá haver uma sincronia na melhora dos países. “O mais provável é que os efeitos sejam menores no Brasil, mas é difícil não haver um certo sincronismo. Em vez de crescer 6%, cresceremos 3%, talvez, mas cresceremos”, afirmou.
“O Brasil tem sido visto aqui em Davos, é arriscado dizer, como um oásis, o que não é. Mas tem sido considerado um país onde as oportunidades são maiores que os problemas”, disse Gradin, depois de participar de sessão sobre o Brasil.
Um ponto a favor do país, comentado no encontro por mais de um participante, é a combinação do crescimento da renda familiar do país, sem alavancagem, e de programas sociais, como o Bolsa Família.
Brasileiros presentes em Davos compartilham o temor geral de que países se fechem em medidas protecionistas.
Mesmo assim, o painel sobre o Brasil foi repleto de otimismo da parte dos brasileiros. “As sessões sobre o Brasil tinham sempre como título algo que o evocasse como o país do futuro, e agora somos o “novo poder”. O país tem um papel na economia global”, disse Luiz Fernando Furlan, presidente do Conselho de Administração da Sadia.
Para ele, a queda da atividade será assimétrica. “Acabamos de ouvir neste painel que as vendas de Coca-Cola estão normais agora em janeiro, assim como as nossas. No mês passado, a Sadia teve recorde de vendas para meses de dezembro.”
Já Sérgio Fogel, membro do Conselho de Administração da Odebrecht S.A., disse que, apesar de o Brasil estar relativamente bem, “não devemos nos iludir”. “É preocupante ficarmos só entoando loas a nós mesmos. Seria bom aproveitar esse momento para avançar nas grandes reformas de que o país precisa.”

31/01/2009 - 15:02h “Power broker”: dez anos depois, Brasil dá a volta por cima em Davos


Amorim condena novas barreiras

Crise aumenta risco protecionista e torna urgente a conclusão de Doha

Rolf Kuntz – O Estado de São Paulo

O chanceler Celso Amorim qualificou como “mau sinal” a inclusão de uma emenda contra a importação de ferro e aço no pacote fiscal enviado ao Congresso pelo presidente Barack Obama. Pela cláusula, não terá acesso aos benefícios fiscais anticrise quem realizar obras de infraestrutura com material importado. “Tudo isso é preocupante”, disse o ministro, “porque não há doença mais contagiosa que o protecionismo.”

Nenhum governo, argumentou Amorim, deve ter a ilusão de tomar uma medida protecionista sem provocar reações. Além disso, os países maiores devem ter liderança no combate às barreiras comerciais.

Ainda não se pode, no entanto, julgar a tendência da nova administração americana, ressalvou Amorim, porque a cláusula “buy American” (compre produtos americanos) foi introduzida por um parlamentar, na Câmara de Representantes. O projeto, com esse dispositivo, já foi aprovado na Câmara e ainda poderá ser revisto no Senado.

O presidente Barack Obama, lembrou Amorim, conversou por telefone com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no começo da semana, e mencionou a necessidade de concluir a Rodada Doha de negociações comerciais. “Acho que foi sincero”, disse o chanceler.

Em 16 de março, o presidente Lula irá a Nova York para um evento sobre biocombustíveis, promovido pelo Wall Street Journal. Há possibilidade, segundo ele, de um primeiro contato com Obama na visita, mas isso dependerá de um acerto.

Os dois temas – como evitar maior protecionismo e como retomar a Rodada Doha – serão discutidos hoje por negociadores de vários países, num hotel de Davos, em encontro coordenado pelo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. Trata-se de fato de um só assunto, porque, se as negociações não forem retomadas e concluídas, o risco de ações protecionistas será muito maior.

A União Europeia, observou Amorim, já anunciou a decisão de elevar a tarifa de importação de produtos lácteos. “É um péssimo sinal”, acrescentou. A crise internacional cria um ambiente propício ao fechamento das economias e à multiplicação de medidas prejudiciais ao comércio.

Esse risco torna mais urgente a reativação das negociações e o revigoramento dos compromissos contra o protecionismo. Não basta cuidar da superação da crise financeira, disse o ministro. Esse detalhe, segundo ele, não foi considerado na elaboração do programa do Fórum Mundial: muitas sessões foram dedicadas à crise das finanças e poucas ao comércio.

Se as negociações globais forem retomadas, acrescentou o ministro, o correto será partir dos pontos acordados até 2008 e consolidados no chamado pacote de julho. O valor desse pacote é muito grande, segundo Amorim. Não teria sentido, segundo ele, jogar fora todas essas conquistas e começar novamente do zero.

Dez anos depois, Brasil dá a volta por cima em Davos

Em 1999, o País enfrentava uma crise cambial e um novo surto de inflação

Depois de dez anos, a volta por cima: o Brasil pôde apresentar-se ontem, num almoço paralelo à reunião do Fórum Econômico Mundial, como “parte da solução, e não do problema”. Essas palavras foram ditas pelo executivo-chefe do Banco Itaú para a América Latina, Ricardo Villela Marino.

Como num jantar há dez anos, o governo brasileiro foi representado pelo ministro de Relações Exteriores. Em janeiro de 1999, no lugar de Celso Amorim, o chanceler era Luiz Felipe Lampreia. O real estava desvalorizado, o País enfrentava uma crise cambial e um novo surto de inflação parecia ameaçar as conquistas do ajuste implantado em 1994. A moeda brasileira, havia dito na véspera o secretário adjunto do Tesouro americano, Lawrence Summers, deixara de ser real para tornar-se virtual: real.com. A piada fez sucesso em Davos.

Desta vez, a crise começou nos Estados Unidos e manifestou-se pouco depois na Europa, sem poupar nem sequer os maiores bancos suíços. No Brasil, disse Villela Marino, não houve subprime nem excesso de risco nos empréstimos. Os padrões de segurança dos bancos brasileiros – relação entre capital e aplicações – excedem os padrões de Basileia, fixados pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS).

O presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, participou do almoço. Também discursou, e começou comparando os fundamentos macroeconômicos do Brasil e dos Estados Unidos, para afirmar a maior solidez das condições brasileiras. Há dez anos, num jantar em ambiente de velório, um empresário brasileiro pediu ao então ministro da Economia da Argentina Domingo Cavallo a receita para salvar o Brasil.

Cavallo atendeu com visível prazer e dissertou longamente sobre como o governo argentino havia encontrado a receita do crescimento com estabilidade. Três anos depois, a paridade imaginária entre o peso e o dólar seria rompida, de forma desastrosa, e o Tesouro argentino daria um calote histórico.

Naquela noite, o desastre mais visível era o do Brasil, atingido pelas ondas de choque da crise russa. Lampreia aguentou os desatinos durante um bom tempo, mas acabou perdendo a paciência e, com a polidez possível, enquadrou Cavallo e os empresários brasileiros deslumbrados.

Ontem, o presidente da Petrobrás, além de comparar os fundamentos macroeconômicos de Brasil e Estados Unidos, ainda se permitiu comentar as prováveis dificuldades do presidente Barack Obama para atender às expectativas internacionais em relação às suas medidas. Depois, falou sobre os planos do Brasil no setor de energia e sobre a contribuição dos biocombustíveis para a preservação ambiental. O País, lembrou, deverá investir US$ 2,8 bilhões na produção de etanol e de biodiesel nos próximos cinco anos.

O chanceler Amorim começou comentando o título oficial do almoço, inscrito no programa do Fórum. Há 30 anos, disse o ministro, o título seria algo como “Brasil, país do futuro”, ou “Brasil, gigante adormecido”. Mas o evento, desta vez, foi rotulado como “Brazil, power broker”. Não há tradução direta: “power broker” é alguém influente, levado em conta em decisões importantes, capaz de modificar relações de poder. Em resumo, um ator relevante.

O Brasil, disse Amorim, poderá ser menos afetado que outros países pela crise porque iniciou um programa de investimentos antes do agravamento da situação, uma espécie de política anticíclica antecipada. Mencionou também como uma das vantagens o poder de consumo resultante das políticas sociais. Externamente, o país se tornou menos vulnerável, de acordo com o ministro, porque diversificou seus parceiros comerciais e depende menos dos Estados Unidos (cerca de 14% das das exportações brasileiras).

Mas a posição de power broker, afirmou o ministro, depende em grande parte do trabalho de integração sul-americana e tem sido exercido, por exemplo, na mediação em casos de conflito na região. Sobre a ausência do presidente brasileiro, uma explicação de mercado: “Há mais demanda de Lula do que oferta de Lula”. O presidente, argumentou, já esteve três vezes em Davos e neste ano decidiu participar do Fórum Social em Belém.

22/11/2008 - 11:00h Negócio com a Nossa Caixa ficou caro, dizem analistas


A maioria esperava que o valor ficasse entre 1,8 e 2 vezes o patrimônio líquido, mas foi para 2,36 vezes

Renée Pereira – O Estado de São Paulo

O valor pago pelo Banco do Brasil pela aquisição da Nossa Caixa, de R$ 7,6 bilhões, ficou bem acima das projeções feitas pelo mercado financeiro antes do anúncio do negócio, na quinta-feira. Na avaliação dos analistas do setor bancário, o preço foi bastante salgado para um momento de extrema incerteza no cenário mundial, com o valor dos ativos em queda. A maioria esperava que o banco federal pagasse algo entre 1,8 a 2 vezes o valor do patrimônio líquido da Nossa Caixa, mas o valor fechado ficou em 2,36 vezes, R$ 70,63 por ação.

“Achei caro, eles pagaram um múltiplo (variação patrimonial) maior que o verificado na fusão entre Itaú-Unibanco, de 2,3 vezes, e com a qualidade dos ativos inferior”, afirmou o analista da Modal Asset, Eduardo Roche. Ele pondera que, apesar de cara, a aquisição trará benefícios para o BB, já que hoje a Nossa Caixa não tem uma gestão eficiente. Isso significa que há potencial de crescimento em vários setores no médio e longo prazos.

Outro ponto que pesou na análise dos especialistas foi o fato de o BB pagar a aquisição em dinheiro, apesar de ter sido parcelada em 18 meses. “Havia uma expectativa de que pudesse ser troca de ações”, destaca o analista da Planner Corretora, Ricardo Martins.

Na primeira projeção dele, a expectativa era de que o preço pela compra ficasse em R$ 55 por ação. Com a fusão entre Itaú e Unibanco, Martins refez a projeção para R$ 62, ainda abaixo do valor anunciado. “Refiz minha projeção com base na expectativa em torno da argumentação do governo estadual depois da fusão. Eles não venderiam pelo preço anterior. Por isso, saiu caro para o BB.”

O analista da Spinelli Corretora, Max Bueno, esperava que o preço ficasse em, no máximo, 2 vezes o patrimônio líquido da Nossa Caixa. Mas a necessidade do BB de retomar a liderança perdida para Itaú-Unibanco falou mais alto.

Ele destaca ainda que se o banco estadual fosse a leilão o preço seria bem menor por causa dos depósitos judiciais que obrigatoriamente têm de ser geridos por bancos oficiais. “As instituições privadas deduziriam o valor dos depósitos do preço. Isso significa que a Nossa Caixa seria mesmo mais atraente para o BB.”

Essa corrida em busca da liderança do setor bancário brasileiro deixou muitos analistas preocupados com as iniciativas futuras a ser tomadas pelo BB. “A compra da Nossa Caixa pode ser um exemplo do que a instituição federal fará daqui para a frente para retomar o posto de número 1. Há risco de partir para as compras sem olhar preço. Queremos saber quanto ele vai pagar por outras aquisições para se recuperar no ranking”, comenta Roche, da Modal.

No pregão de ontem, as ações da Nossa Caixa subiram 22,81%, para R$ 63, tentando se aproximar da oferta de R$ 70,63. Já as ações do BB recuaram 14,34%.

04/11/2008 - 15:17h Itaú leva o Unibanco

Novo banco será o maior do país, com R$ 575 bi em ativos, e a 4ª maior empresa da AL

Ronaldo D’Ercole SÃO PAULO e RIO – O GLOBO

Dois dos maiores bancos privados do país, Itaú e Unibanco anunciaram ontem a fusão de suas operações, numa transação que resultará no maior banco do Brasil e da América Latina, com ativos totais de R$ 575,1 bilhões.

Ou, nas palavras do presidente do Unibanco, Pedro Moreira Salles, a 17ª maior empresa financeira do mundo.

Pelo acordo, a família Moreira Salles, que controla o Unibanco, será sócia em partes iguais dos controladores do Itaú numa holding, que controlará 51% das ações com direito a voto da nova instituição, a Itaú Unibanco Holding.

O valor de mercado do novo banco, pelos números de 31 de outubro de 2008, seria de US$ 41,3 bilhões, o que o põe na quarta posição no ranking de empresas latinoamericanas, atrás de Petrobras, Vale e América Móvil (México).

— Nós estamos fazendo história hoje no Brasil — disse o presidente do Itaú, Roberto Setubal, ao iniciar a apresentação do negócio aos jornalistas, no MAM de São Paulo.

Diferentemente da interpretação de alguns analistas de mercado, Moreira Salles e Setubal negaram tratarse de uma aquisição, afirmando ser uma parceria, uma sociedade.

— Não se trata de uma compra, trata-se de uma fusão. Se não, eu estaria aqui sozinho. Nós, dos dois lados, criamos uma holding e estamos abrindo mão de coisas para formar algo maior — disse Setubal.

A criação do novo gigante bancário começou a ser negociada em agosto de 2007 entre Moreira Salles e Setubal, ganhando força com a concretização, dois meses depois, da compra do Real ABN Amro pelo espanhol Santander. Moreira Salles lembrou que a existência de um banco com escala global criava uma situação nova para o mercado local.

— Os (bancos) estrangeiros sempre tiveram no Brasil uma dimensão menor que os maiores bancos brasileiros — disse Moreira Salles. — A questão do Santander nos mostrou que devíamos dar um salto de escala.

A crise financeira global foi outro elemento que ajudou no desfecho das negociações, mas não foi determinante, segundo os dois executivos.

— A crise talvez tenha criado uma oportunidade, uma vontade de acelerar e fazer o projeto acontecer — argumentou Setubal.

Embora a meta seja constituir uma instituição para atuar nos mercados globais, a prioridade no momento será a integração dos dois bancos. A idéia, segundo os executivos, é preservar o maior número de agências (total em torno de 4.200) e de funcionários (cerca de 107 mil).

— Estamos olhando para o crescimento.

É óbvio que existem superposições (de agências e postos de trabalho), mas a empresa que está sendo criada terá, daqui a dois ou três anos, mais funcionários do que tem hoje — disse Moreira Salles.

Eles disseram não saber quanto o novo banco ganhará em sinergias com a união de Itaú e Unibanco.

— Acreditamos que haverá ganhos, mas não calculamos — disse Moreira Salles. — Numa operação de troca de ações, essas contas não se fazem.

Num primeiro momento, haverá poucas mudanças para clientes e correntistas. Os detalhes do processo de integração começam a ser tratados agora e não há prazo para sua conclusão. Segundo Moreira Salles, até a última quinta-feira, somente ele e Setubal vinham trabalhando no projeto. Só então seu desenho foi apresentado aos técnicos e advogados das duas partes.

O projeto de ampliar a internacionalização do novo banco só deve ser colocado em marcha daqui a alguns anos. No início, serão visados mercados latinos, como México e Colômbia.

Internamente, o novo banco pode fazer frente às investidas do Santander. Pelo fato de sua participação não ser diluída, não poderá ser alvo de ofertas hostis. Externamente, poderá fazer aquisições em América Latina, África, EUA e Europa. Também se reforça o peso do setor privado na área financeira, num momento em que o governo tenta fortalecer Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.

Itaú teve maior alta da Bolsa: 16,32%

A fusão foi o grande propulsor do mercado ontem. A Bolsa de Valores de São Paulo avançou 2,66%, aos 38.249 pontos, enquanto o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, ficou estável. A operação foi muito bem recebida e vista como prenúncio de que novas aquisições virão, por parte dos concorrentes.

As ações do Itaú fecharam em alta de 16,32%, a maior valorização do dia, seguida pelos papéis da Itaúsa (holding do grupo), com 13,04%. Já as do Unibanco subiram 8,95%.

Já o dólar teve alta de apenas 0,37%, a R$ 2,168, acompanhando a valorização internacional da moeda americana. O Banco Central vendeu dólares no mercado à vista, em torno de US$ 500 milhões, e cerca de US$ 800 milhões em swaps cambiais (contratos em que paga a variação do dólar e recebe uma taxa de juros).

Ninho de tucanos

Unibanco abriga muitos nomes do ex-governo FH

O Globo

O ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central (BC) Pedro Malan foi o primeiro tucano do governo Fernando Henrique Cardoso a ocupar um assento na cúpula do Unibanco. Pouco a pouco, outros auxiliares de FH foram migrando para o setor privado, até que o banco da família Moreira Salles transformou-se num ninho de tucanos.

Apontado como o ministro da estabilidade econômica — ele ocupou o cargo de ministro por oito anos — Malan foi para o Unibanco logo que cumpriu a quarentena imposta a quem deixa cargos de alto escalão.

Ele ocupou a vice-presidência do Conselho de Administração do banco, em 2003, e no ano seguinte, assumiu a presidência. O cargo agora, pela nova estrutura, será ocupado por Pedro Moreira Salles.

Apesar dos nomes de peso na direção do Unibanco, o presidente da Austin Rating, Erivelto Rodrigues, avalia que o banco nunca conseguiu capitalizar o potencial de tantas cabeças pensantes juntas: — O Unibanco vivia um eterno choque de vaidades.

O primeiro a seguir os passos de Malan foi seu ex-colaborador Demosthenes Madureira de Pinho Neto. Ele foi coordenador-geral de Política Monetária e Financeira do Ministério da Fazenda, no primeiro mandato de FH, e depois diretor BC. Muito próximo a Malan, ele assumiu o cargo de diretor vice-presidente do Unibanco, responsável pelo Atacado e pela área de Gestão de Patrimônios, e depois foi alçado à presidente da Unibanco Asset Management.

Em 2004, além de Pinho, Daniel Luiz Gleizer também acompanhou o ex-colega de governo. Gleizer, que trabalhou com Malan no BC como diretor-adjunto da Diretoria de Assuntos Internacionais, passou a ser diretor-executivo das áreas de Tesouraria e Pesquisa Macroeconômica do Unibanco. Com larga experiência no setor financeiro, ele foi do FMI, do Deutsche Bank e do Credit Suisse First Boston.

O último tucano a migrar para o banco foi Eleazar de Carvalho Filho, ex-presidente do BNDES. Com mais de 25 anos de experiência no setor financeiro, ele foi convocado pelo amigo Malan para comandar a nova estrutura do Unibanco Banco de Investimento, em abril último.

O Itaú abriga dois pais do Plano Real, mas que também participaram do Cruzado de José Sarney: Pérsio Arida (do Conselho de Administração) e Edmar Bacha (economista sênior do Itaú BBA). (Liana Melo)

04/11/2008 - 14:38h Itaú-Unibanco: União cria líder em gestão de recursos e em private banking

União cria líder em gestão de recursos e em private banking

Angelo Pavini, de São Paulo – VALOR

A fusão entre Itaú e Unibanco terá impacto forte no mercado de gestão de recursos e de private banking. Eles passam a ser o maior administrador de recursos do mercado brasileiro, com R$ 244,787 bilhões, ou 20,08% do total de recursos de terceiros sob gestão, de R$ 1,219 trilhão no fim de setembro – o que inclui fundos e carteiras administradas -, segundo dados da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). Ultrapassam assim o antigo líder, a BB DTVM, do Banco do Brasil, que tinha R$ 241,512 bilhões, ou 19,81% . O Bradesco, com R$ 182 bilhões, mantêm-se em terceiro lugar, mas muito mais distante do primeiro e do segundo colocados, com 14,93% do total.

No setor de gestão de fortunas, a união entre o primeiro e o segundo maiores private banks do país – o Itaú tem R$ 60 bilhões e o Unibanco, R$ 30 bilhões – concentra ainda mais o segmento. Com R$ 90 bilhões sob gestão, a nova instituição terá 34,61% dos R$ 260 bilhões estimados para o setor no Brasil.

A união concentra ainda mais um setor já dominado por poucas instituições. Apenas os três primeiros gestores – Itaú/Unibanco, BB DTVM e Bradesco – reúnem 54,82% do mercado de gestão. Os dez maiores detêm juntos 87,81% dos recursos sob gestão.

A expectativa de analistas é de que, com a fusão, fundações e grandes clientes dos dois bancos estudem uma redução de suas aplicações, ajustando o risco de concentrar os ativos em uma instituição só. Contra essa tendência, porém, está a crise internacional, que acaba aumentando a percepção de risco das instituições estrangeiras. “No caso do private bank, por exemplo, que opções o investidor mais rico têm?”, questiona um executivo do mercado. “Bradesco e Banco do Brasil estão bem atrasados em termos de sofisticação de seus serviços de private, e, com os mercados internacionais ainda tumultuados, onde o investidor vai colocar o dinheiro?”. Outro executivo lembra, por exemplo, que a rede internacional do private do Itaú e do Unibanco é bem maior que a dos concorrentes locais. Especialmente o Itaú, que tem presença forte em Luxemburgo, Portugal e, após a compra do BankBoston, em Miami.

Em termos de estrutura, a análise de especialistas é que a plataforma que deve vingar é a do Itaú, que é muito maior que a do Unibanco. Assim, é mais provável que os clientes do Unibanco migrem para Itaú. O mesmo deve ocorrer também com a área de gestão de recursos, onde o Itaú também lidera em relação à Unibanco Asset Management (UAM). O Itaú é um dos poucos bancos que não separou sua área de asset do restante do banco. O Bradesco já tinha feito isso por meio da Bradesco Asset Management (BRAM) e o Banco do Brasil, por meio da BB DTVM.

“Mas isso fará com que os processos, serviços e produtos estejam mais ligados ao Itaú do que ao Unibanco”, diz um analista. Outra questão é quem vai comandar a nova área private. O lógico seria o cargo ficar com Lywal Salles, do Itaú. Mas ele está perto da idade de se aposentar pelas regras do banco – o que deve ocorrer no ano que vem. O comando do private poderia ficar, portanto, com Celso Scaramuzza, do Unibanco, mais jovem. Seria também uma forma de segurar os clientes do Unibanco, que teriam mais afinidade com Scaramuzza, que comanda a área private da instituição há vários anos. “Mas a estrutura teria mais a cara do Itaú do que do Unibanco”, diz esse analista.

03/11/2008 - 19:28h “O maior do hemisfério!”

Blog de Nelson de Sá – Toda Mídia

itau_unibanco.JPGNotícia do dia, nas manchetes de Folha Online e demais, nasceu hoje “o maior grupo financeiro do hemisfério”, “o maior banco privado do hemisfério sul” etc. Ao lado, do site do Itaú, a estrutura do grupo após a operação.

Na análise de imediato no UOL, Itaú e Unibanco dão continuidade “ao processo de concentração bancária”. O portal ouve, de especialista:

_ A crise impulsionou essa operação, criou condições propícias para isso. Poderia haver rejeição por parte dos acionistas, mas, num momento de crise, qualquer medida para fortalecimento ganha apoio dos acionistas. (Os problemas da AIG) prejudicaram um pouco a imagem do Unibanco.

Nas Globos, Míriam Leitão cita que a operação “se acelerou devido à crise bancária” e justifica que “nestes casos o melhor movimento é preventivo e surpreendente”. O Itaú terá “provavelmente parte maior, pois o Unibanco teve quedas maiores”. Ouviu Pedro Malan, ex-ministro de FHC que “fará parte, certamente, do novo grupo”:

_ O Unibanco foi procurado por vários, mas achou melhor outro grupo nacional com quem sempre compartilhou valores.

23/10/2008 - 08:22h De volta ao poço

http://www.monitorinvestimentos.com.br/noticias/bovespa4_597.jpg

Por Angelo Pavini, VALOR

A instabilidade voltou com força aos mercados ontem e deve ter seus reflexos nas cotas dos fundos de investimento nos próximos dias. Além da queda da bolsa para o menor nível desde setembro de 2006, que afetará os fundos de ações, e da alta do dólar, de 12% em dois dias, chama a atenção o forte ajuste dos juros dos títulos públicos, de mais de um ponto percentual ao ano. Ontem, os papéis prefixados longos, as NTN-Fs, com vencimento em janeiro de 2012, preferidas dos estrangeiros, chegaram a pagar 17,77% ao ano, para 16,17% do dia anterior.

Essa alta deverá atingir em cheio os fundos de renda fixa, que têm papéis prefixados, e até alguns fundos DI. O impacto vai ser diretamente proporcional à porcentagem de prefixados de cada carteira e do prazo dos títulos, mas é provável que vários renda fixa tenham cotas negativas hoje. Fundos multimercados que achavam que o pior da crise já tinha passado e arriscaram aumentar aplicações em câmbio, bolsa e juros também devem sofrer. Mas a maioria dos gestores vinha mantendo a maior parte do dinheiro em caixa ou no overnight, o que deve limitar as perdas.

A alta dos juros refletiu ontem um misto de medo dos mercados com a saúde financeira dos bancos e com o impacto da alta do dólar na inflação e uma aversão maior ao risco no exterior com relação aos países emergentes por conta de a Argentina estar estatizando o setor de previdência privada. O receio aqui começou ironicamente com as medidas do governo para que bancos oficiais possam comprar instituições privadas em dificuldades, levantando a questão da existência de problemas. Havia boatos de fundos estrangeiros em dificuldades liquidando posições na BM&FBovespa e vendendo títulos para honrar compromissos no exterior. Por isso o impacto forte nos papéis de 2012, mas que se espalhou para outros vencimentos e títulos .

“Muitos vêem a América Latina como uma coisa só e ficam com medo que o que a Argentina fez ocorra aqui”, afirma André Schibuola, sócio da Precision Asset Management. O ambiente de forte oscilação acaba contaminando ainda outros investidores, que também saem do mercado para reduzir seu risco, criando um círculo vicioso. “Não me surpreenderia se hoje mais gente saísse do mercado por exigência de suas áreas de controle de risco ao ver os números de ontem”, diz Schibuola. Para ele, os fundos de renda fixa vão sofrer com a puxada dos juros. “Devemos ter números péssimos nas cotas, tanto por conta dos papéis públicos, quanto dos privados, que também devem ter subido”, diz.

Olhando para além da crise, a alta dos juros acaba criando oportunidades para o investidor. Depois do ajuste das cotas, a rentabilidade das carteiras de renda fixa deve aumentar para quem entrar agora. Papéis indexados à inflação também se tornam atrativos, com remuneração real perto de 10% ao ano mais a variação do IPCA, com a proteção adicional para o caso de a alta do dólar pressionar os preços.

Se olharmos o comportamento do mercado de juros, o que ocorreu foi uma típica zeragem de posição, quando os investidores vendem tudo e saem do mercado, diz Marco Sudano, diretor de Tesouraria do Itaú. “Basta olhar o comportamento distinto entre o dólar e os juros”, diz. Ontem, o dólar subiu 6,67%, perto dos 4,99% do dia anterior, acumulando 12% em dois dias. Mas o juro, que havia subido menos de 0,50 ponto percentual no dia anterior, avançou em média 1,20 ponto percentual, proporcionalmente muito mais que o dólar. “O que parece é que alguém teve de zerar suas aplicações e vendeu a qualquer preço, puxando as taxas”, explica. E isso leva outros participantes do mercado a fazerem o mesmo.

Sudano lembra que o mercado brasileiro de renda fixa tem bastante participação de estrangeiros, seja diretamente nos mercados da BM&FBovespa, seja no exterior, por meio de um banco intermediário. Esse banco, por sua vez, acaba fazendo sua proteção, ou seja, o hedge, na BM&FBovespa. “O que pode ter acontecido é que um banco resolveu liquidar a posição de um cliente no exterior e com isso o obrigou a vender os papéis aqui”, afirma Sudano. Ele lembra que os bancos, pelo aperto de liquidez, estão mais rigorosos com relação às margens de garantia. “No exterior, os negócios não são feitos em bolsa, são no mercado de balcão, e os ajustes de garantias são feitos de acordo com critérios de cada banco”, diz. É diferente da BM&FBovespa, onde o ajuste das perdas e ganhos é diário. “Pode ser que o banco resolveu apertar as margens do cliente no contrato de balcão e ele resolveu vender tudo”, diz. A pressão maior nos papéis de 2012 seria outro sinal de que o culpado da oscilação seria um estrangeiro.

Para Sudano, as taxas de juros ficaram completamente desconectadas do fundamento. Ele explica que o comportamento dos juros é diferente do do dólar, pois não é possível definir um valor justo para a moeda. “No câmbio, o que há é um preço de equilíbrio, a partir do qual há vendas ou compras, mas no juro, os participantes fazem contas e chegam ao que consideram um valor justo para as taxas no futuro”, explica. Por isso, a propensão do mercado em assumir posições de maior risco é maior no juro do que no câmbio. E as taxas são também freqüentemente confrontadas com as decisões do Banco Central no Copom. Para ele, as taxas justas são mais baixas que as atuais. “Mas no curto prazo, podem subir ainda mais”, diz ele. A oportunidade seria para quem olhar para o médio prazo, explica.

14/10/2008 - 09:49h ‘Acho que Deus é realmente brasileiro’

Presidente do Citigroup diz que país pode dar lições aos países ricos

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William Rhodes, presidente do Citigroup: Brasil é exemplo

José Meirelles Passos – O Globo

Correspondente

WASHINGTON. Houve unanimidade entre banqueiros internacionais e brasileiros, ontem, sobre a capacidade de o Brasil suportar o impacto da atual crise financeira, sem perder o rumo do crescimento sustentável.

Ao fim de uma ampla análise da situação do país, o presidente e executivo-chefe do Citigroup, Bill Rhodes, utilizou um velho ditado brasileiro para resumir a situação privilegiada do país em meio à turbulência do momento.

— Começo a acreditar que Deus é realmente brasileiro.
Pelo jeito ele tinha tirado umas férias anos atrás — disse o banqueiro, provocando risos na platéia de investidores que lotou ontem a Conferência Econômica Brasileira, em Washington.

Para Mantega, crise foi uma “orgia financeira”

Rhodes, que nos anos 80 e 90 comandou o grupo de credores do país, numa longa e complicada negociação da dívida externa, disse que “o Brasil mudou completamente”, aprendendo muito com as crises que enfrentou. E acrescentou que os brasileiros hoje têm condições de ensinar os países ricos: — Se algum país é capaz hoje de domar essa tempestade que enfrentamos é o Brasil.
O que me incomoda é os Estados Unidos não terem aprendido com as lições da América Latina. Os EUA passaram décadas ditando regras.
Acontece que os estudantes cresceram e se tornaram professores — disse ele.
Em seu discurso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, definiu a crise deflagrada nos Estados Unidos como “uma orgia financeira”. E admitiu que, a princípio, não imaginava que ela seria tão grave: — Não sabíamos o tamanho da encrenca.
Banqueiros brasileiros que participaram do evento, traçaram um retrato positivo do país.
Eles exibiram estudos mostrando que, mesmo com o dólar a R$ 2,20 e com o preço das commodities caindo, o país terá condições de continuar crescendo de forma sustentada.
Sergio Werlang, chefe do setor de riscos da Itaú Holding Financeira, chegou a dizer que isso será possível mesmo com grandes gastos federais: — Mesmo que o governo queira continuar gastando como está fazendo, o que eu não aprovo, o resultado continuará sendo positivo no ano que vem — disse ele.
Mantega respondeu: — Vamos cortar gastos, mas manter investimentos que são importantes. Eles representam nada mais que 1% do PIB.
Caio Megale, da Mauá Investimentos, disse que a crise tem um lado benéfico para o Brasil, uma vez que o país estava precisando desacelerar um pouco: — Estamos crescendo acima do potencial, acima do limite de velocidade. É como um carro numa estrada: você pode ir a 180 quilômetros por hora. Só que, em algum momento, vai dar uma trombada — comparou ele, acrescentando que “o risco seria haver uma redução do ritmo maior do que estamos precisando”.
Beny Parnes, diretor-gerente do Banco BBM, foi taxativo ao falar da capacidade de resistência do Brasil.

— Alguns anos atrás o Brasil sofreria um nocaute em dez segundos. Já temos grande experiência em enfrentar crises: é uma especialidade nossa.

29/08/2008 - 09:41h Um dos pilares do capitalismo brasileiro

Olavo Setubal

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Rubens Barbosa * – O Estado de São Paulo

Foi na transição do período autoritário para a democracia que conheci Olavo Setubal. Indicado por Tancredo Neves, em 1985, para o Ministério das Relações Exteriores, fui convidado para chefiar seu gabinete, o primeiro diplomata chamado por ele para integrar sua equipe. Naquele primeiro governo civil depois de tantos anos, ele teria preferido ser ministro da Fazenda, mas acabou no Itamaraty, sem jamais, como ele mesmo dizia, ter passado em frente à porta do Ministério.

A proximidade no dia a dia me privilegiou acompanhar de perto o homem público que, como prefeito de São Paulo e depois como ministro das Relações Exteriores, marcou presença na política brasileira, além de criar e consolidar uma das maiores instituições financeiras nacionais que é o Grupo Itaú.

A gestão Olavo Setubal no Itamaraty foi curta, de menos de um ano, e lamentavelmente interrompida pela aventura, logo abortada, de disputar o governo do Estado de São Paulo em 1986. Dias depois de deixar o Ministério, num domingo, o dia da convenção, chamou-me por telefone de São Paulo para contar que acabava de retirar sua candidatura. Disse-lhe, com a lealdade e a franqueza que caracterizava nosso relacionamento, que não me surpreendia pois o partido me parecia mais interessado no apoio financeiro que poderia representar do que na sua candidatura. Perdia São Paulo um eventual grande governador e o Itamaraty o grande ministro que já estava sendo.

Lembro quando, em seu primeiro dia como ministro, recebeu o ex-perseguido político Miguel Arraes que vinha da Argélia para pedir o apoio do Itamaraty para o Sarauí, um movimento revolucionário que lutava pela independência do Marrocos. Doutor Olavo ouviu-o longamente e depois que Arraes saiu, perplexo, indagou de seus principais assessores: “Que movimento é esse ? Em São Paulo, nunca ninguém ouviu falar de Sarauí”.

Mesmo após sua saída do Itamaraty, ao longo de minha carreira, continuei a manter estreito e estimulante contato com dr. Olavo, como carinhosamente o chamávamos. Tínhamos longas conversas e o assunto era sempre Itamaraty, política nacional e internacional. “E o nosso Itamaraty como anda?”, era pergunta sua habitual.

Sempre muito bem informado, dr. Olavo era um arguto analista da cena política e econômica brasileira. É verdade que de seu ponto de vista, ou seja, o de um moderno banqueiro nacional.

Certa vez, disse-me ter cometido em sua carreira de homem público, dois grandes erros: o primeiro foi não ter aceitado o convite do MDB para candidatar-se ao Senado em 1974 quando cedeu a vaga a Severo Gomes, e o outro, o de não ter permanecido no Itamaraty.

Apesar da curta passagem pelo Ministério das Relações Exteriores, Olavo Setubal deixou sua marca ao promover a aproximação com a Argentina e, com isso, dar início ao processo de integração do Cone Sul, e também quando, solitariamente, decidiu pela adesão do Brasil ao Grupo de Contadora, formado para apoiar a Nicarágua, em uma região que estava, naquele momento, longe das prioridades do Itamaraty. Essas duas decisões tomadas por Setubal, com reservas de boa parte da burocracia itamaratiana, representou uma renovação e uma guinada nas prioridades da Chancelaria em relação à América do Sul. A chamada “diplomacia de resultados”, inspirada por sua trajetória de empresário e por sua sensibilidade de político, teria certamente introduzido novas e modernas práticas de gestão na Casa assim como, creio eu, teria mudado muitas das percepções tradicionais da atuação diplomática.

Acredito também que, se tivesse permanecido como ministro do Exterior até o fim do governo Sarney, e com o respaldo de uma administração brilhante no Itamaraty, poderia ter sido reservado ao político Olavo Setubal, um papel de relevo no tabuleiro da sucessão presidencial.

Da convivência assídua e próxima com dr. Olavo ficaram-me lições profissionais importantes que procurei levar para as posições de chefia que ocupei pelos 20 anos subseqüentes: coerência nas opiniões, visão clara das prioridades, realismo nas decisões e foco em resultados.

Olavo Setubal tinha uma clara percepção em relação ao futuro do Brasil. Confiava nos avanços da democracia e da economia. Realista, dizia que PIB é poder, indicando que de nada adianta arroubos na política externa sem uma base econômica sólida. O Brasil só teria uma posição importante no concerto das nações na medida em que o PIB crescesse, a economia se estabilizasse e a moeda se fortalecesse.

Nos últimos anos, deixando a presidência do Itaú para Roberto Setubal, mas permanecendo à frente do Conselho da holding Itaúsa, concentrou-se na estratégia do grupo financeiro e industrial. Soube educar os filhos e prepará-los para uma sucessão tranqüila na direção da instituição.

Tornou-se um grande colecionador de objetos de arte, o que ajudou a transformar o Itaú em um diversificado e importante acervo de objetos, esculturas e pinturas.

Viúvo de Tide, mãe de seus sete filhos e, mais tarde, ao lado de sua segunda mulher, a extraordinária Dayse, pôde dedicar-se a fazer o que o trabalho e sua dedicação ao Itaú antes não permitiam: viajar, sobretudo para a Europa, onde merecidamente aproveitava da boa mesa e do bom vinho. Nos últimos dois ou três anos, apesar de debilitado e com crescente dificuldade de locomoção, continuou interessado pela vida, pelas artes e pelo Brasil, que acaba de perder um de seus filhos mais ilustres, exemplo de cidadão e um dos pilares do moderno capitalismo brasileiro.

*Rubens Barbosa foi chefe de Gabinete do ministro Olavo Setubal