16/11/2008 - 10:56h Ela quer seu voto……de confiança
Nomeada para a Secretaria de Cultura, Jandira Feghali faz planos e reuniões políticas
ENTREVISTA Jandira Feghali
Nas pouco menos de 24 horas que leitores do GLOBO na internet tiveram para enviar perguntas à nova secretária de Cultura do Rio, Jandira Feghali, surgiram cerca de 200. A imensa maioria questionava suas credenciais para a pasta, já que ela é mais conhecida como médica e política atuante na área de saúde. Nesta entrevista, ela defendeu sua experiência no campo da cultura, disse o que a levou a assumir o cargo na prefeitura e adiantou alguns planos, como a criação de um departamento só para divulgar a cultura carioca no exterior e atrair negócios. Falou também sobre teatros, lonas culturais, Riofilme, incremento orçamentário e outros temas, em uma hora e 20 minutos de sabatina, em seu escritório.
Eduardo Fradkin - O GLOBO
Qual a sua característica que a habilitou ao cargo de secretária municipal de Cultura, já que a senhora é médica? [Pergunta do leitor Haroldo Barreiros, por e-mail]
JANDIRA FEGHALI: Eu fui deputada estadual, foi meu primeiro mandato, e, quando o Collor acabou com a Embrafilme e com a Lei Sarney, a primeira lei de incentivo do ICMS do Brasil foi minha. Depois, foi copiada no Brasil inteiro. Quando cheguei ao Congresso, meu primeiro projeto não foi na saúde, mas na regionalização da programação cultural artística e jornalística, para colocar a produção independente na TV aberta. Eu fui vice-presidente da Frente de Defesa da Cultura e da Diversidade Cultural, uma comissão mista de Senado e Câmara, fui vice-presidente da Comissão de Direito Autoral, que deu nesta lei de direito autoral que existe hoje e não é perfeita, mas é um avanço em relação às outras. Tenho um projeto de aposentadoria especial para bailarinos, cantores líricos e músicos de orquestra. Ninguém pode dançar 30 anos. No mundo inteiro são 20 anos. Parece que eu caí de pára-quedas aqui só para ter um cargo, e isso não existe na minha história. Fui secretária de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia em Niterói e o que deixei lá? Um centro de audiovisual.
O GLOBO: Muitos de seus eleitores se surpreenderam com sua decisão de participar da gestão Eduardo Paes.
JANDIRA: Eu construí uma linha de trabalho dentro da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estou cedida à universidade para um trabalho de formulação e pesquisa na área de saúde. Tinha tomado a decisão de não participar do governo. Queria ficar quieta um pouco. Mas ele convidou o partido para o governo e ofereceu esta secretaria. Pela abrangência e pelo peso estratégico que ela tem, eu tive que assumir. Mas não havia nada acertado antes.
Qual será sua primeira ação como secretária?
JANDIRA: Criar o segundo tempo da cultura nas escolas. Vamos fazer a integração entre cultura e educação, a inserção de atividades culturais para ampliar o tempo de permanência nas escolas, e, para isso, vamos adaptar a tecnologia à cultura. Por exemplo, a biblioteca vai virar mediateca. Será uma ação da Secretaria de Cultura junto com a de Educação, e a verba virá das duas, até porque a Educação é a prima rica.
A senhora conseguiu do prefeito o compromisso de aumentar a verba para a Cultura?
JANDIRA: O prefeito se comprometeu com isso, porque, sem orçamento, é difícil ampliar equipamentos culturais para o resto da cidade. Hoje, o orçamento é de R$ 78 milhões, o que não representa nem 1% do total da prefeitura. Queremos chegar a pelo menos 3%, que é uma meta bastante viável. O prefeito se comprometeu a dar um grande incremento orçamentário, mas o valor não pode ser determinado ainda. O orçamento de 2009 ainda não foi aprovado na Câmara. Entretanto, não vamos nos limitar ao dinheiro do orçamento municipal. Em dois dias, sensibilizei 16 deputados da bancada do Rio e um senador, e conseguimos R$ 8 milhões em emendas parlamentares do orçamento federal, para 2009. Foi um esforço que fiz em dois dias, falando com um a um ao telefone.
Como será usado o dinheiro dessas emendas?
JANDIRA: Uma delas é para pontos do pólo digital, que são cinemas para serem feitos como cineclubes ou em outros formatos. Botamos R$ 1 milhão nisso. Cada pólo custa R$ 15 mil, então imagine quantos podemos fazer. Quase R$ 2 milhões são para pontos de cultura, que é uma coisa diversificada. Lona cultural é um ponto de cultura, por exemplo. Casa de poesia também é. Pode-se colocar pontos de cultura em associação de moradores, em teatros, em clubes, em fundações de capacitação profissional. Há uma emenda para pontos de leitura, para estimular essa atividade, com contadores de história e agentes de leitura. Outras emendas são para centros de memória comunitária. Na Gamboa, por exemplo, já tem o centro José Bonifácio, mas pode ter outros. O Rio de Janeiro começou nessa região. Pode ter um museu contando essa história.
Durante a campanha para a prefeitura, a senhora criticou a Riofilme, que não tem dinheiro para cumprir as funções de distribuição e produção de filmes. O orçamento dela este ano foi de R$ 460 mil, cinco vezes menos que em 2004. O que fará com a Riofilme?
JANDIRA: Precisamos fortalecer a Riofilme como órgão de co-produção e distribuição de filmes. A Ancine (Agência Nacional de Cinema) hoje tem um fundo de audiovisual que cresceu, e queremos apresentar projetos para esse fundo. Vamos trabalhar com editais, pois não podemos escolher os projetos arbitrariamente, e vamos apresentá-los para buscar recursos.
Além disso, temos que botar dinheiro na Riofilme. Ela precisa de recursos e ter um bom conceito do que fomentar e como distribuir. Minha política é abrir contato com o Pólo Audiovisual, em Jacarepaguá. É um pólo cujo terreno é público, foi feito pela prefeitura na gestão Saturnino e perdeu a vocação. Ali pode ser o maior centro audiovisual do Brasil, de produção e distribuição.
Vai mudar a direção da Riofilme ou de outros órgãos e equipamentos ligados à secretaria?
JANDIRA: Isso não foi discutido ainda. Primeiro, quero conhecer as informações, depois formular projetos e só então vou pensar no arcabouço administrativo e na locação de pessoas.
A senhora também defendeu o hip hop durante a campanha.
JANDIRA: A Casa do Hip Hop na Lapa já é um compromisso que o prefeito assumiu. O Centro de Referência da Capoeira também. A Lapa Legal, um corredor cultural que vai da Cinelândia até o Campo de Santana, precisa de incentivo, de estrutura de esgoto, luz, segurança e estacionamento. Vou conversar com empresários da Lapa sobre isso. O Rio tem que divulgar sua cultura para o mundo. Nossa idéia é fazer com que a cidade se articule melhor internacionalmente, levando a arte brasileira para o exterior, não só a música, que já é bem conhecida, como outras formas também. Minha idéia é criar o Departamento de Relações Internacionais da Secretaria de Cultura.
Qual sua política para a rede municipal de teatros?
JANDIRA: A política é fomentar os teatros orçamentariamente, subsidiar a promoção do ingresso (a R$ 1, aos domingos), fazer editais e abrir para produções novas. Não basta abrigar espetáculos prontos. Temos que ajudar a produzir. Quero manter a promoção para formar platéia, mas temos que dar subsídios aos produtores. Vamos ter que subsidiar muita coisa e, em contrapartida, fazer girar os espetáculos.
O que acha da meia-entrada?
JANDIRA: Eu acho que as carteiras de estudantes têm que ser dadas pelas entidades estudantis reconhecidas, como a UNE e a Ubes, e tem que haver fiscalização para não haver falsificação.
O que fará com a Cidade da Música, cujos gastos de manutenção poderão chegar a R$ 10 milhões por ano?
JANDIRA: Uma das coisas que pedi ao secretário Ricardo Macieira é que não decida sobre a gestão da Cidade da Música, que será inaugurada em dezembro, antes da nossa chegada. Ela será, sim, a sede da OSB. Será, sim, uma casa com uma linguagem sinfônica forte. Mas, na minha opinião, deverá incorporar todas as linguagens musicais e ter aulas em suas várias salas. O problema dela é a governabilidade. Não pode ser apenas com financiamento público. Teremos que buscar dinheiro privado. O comando dela tem que ser público, mas pode ter parcerias privadas ali.







