15/10/2009 - 11:04h ”Brasil crescerá 5% nos próximos anos”, disse Jim O’Neill, chefe de pesquisa econômica global do Goldman Sachs e famoso mundialmente por ter criado a expressão Bric. Para ele “O presidente Lula é o melhor, o mais bem-sucedido gestor político de um grande país nessa década”

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Cartaz para uma das conferências de O’Neill, sobre os BRIC

Para O’Neill, que cunhou a expressão Bric, País terá bom desempenho se controlar inflação e estimular investimentos

Fernando Dantas – O Estado SP

O Brasil pode crescer a um ritmo de 5% por muito anos, mas, para isso, é necessário que o próximo governo mantenha a inflação sob controle e estimule os investimentos. A visão é de Jim O’Neill, chefe de pesquisa econômica global do Goldman Sachs e famoso mundialmente por ter criado a expressão Bric – o grupo de grandes países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China, que estudos do Goldman Sachs previram que vai superar em PIB o G-7 (sete principais países ricos) antes de 2030.

“Dependendo do que acontecer nas eleições, é possível que o Brasil possa crescer mais do que 5% por vários anos”, disse O”Neill ontem numa entrevista à imprensa em São Paulo, parte de uma visita ao País, na qual esteve com cerca de 600 clientes do Goldman Sachs.

Entusiasta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, O”Neill declarou que “dá para argumentar que o presidente Lula é o melhor, o mais bem-sucedido gestor político de um grande país nessa década”. Para ele, o principal fator do sucesso atual do Brasil, e que deveria ser mantido pelo próximo governo, é “a inflação baixa e controlada, que está criando toda uma nova geração de cidadãos que podem planejar no médio e longo prazo seu consumo e investimento”.

O”Neill acrescentou que “a coisa mais importante nas eleições, seja lá quem for (eleito presidente) é que não se mude isso”. Ele mostrou preocupação pelo fato de que, na sua última visita ao Brasil, tenha tido a impressão de que o Banco Central não era “muito popular”.

“Espero que essa não seja ainda a visão que prevalece no País; se vocês olharem a força dos indicadores (econômicos) do Brasil, não parece que o Banco Central esteja freando o crescimento”, afirmou.

Para o economista, o Brasil deveria se satisfazer numa primeira fase com um crescimento em torno de 5%, que não provocasse inflação ou desequilíbrios externos graves, para só depois tentar acelerar para 7%. Sobre o real valorizado, disse que há grandes países exportadores que conseguem conviver com isso, e não há solução fácil.

Em relação ao investimento, O”Neill citou um indicador de “ambiente para o crescimento” do Goldman, no qual três das fraquezas do Brasil, na comparação com a média de outros Brics e emergentes, são o baixo nível de investimento em relação ao PIB, o grande tamanho do Estado em relação ao PIB e a pouca abertura da economia.

Ele deu ênfase à questão do investimento, mencionando que um dos fatores que explicam o melhor desempenho econômico da China em relação à Índia é que o primeiro país encoraja mais o investimento estrangeiro na produção. O”Neill mencionou que, em suas frequentes viagens pelas mais diversas partes do mundo, ele tem se encontrado com muitas empresas e investidores querendo entrar no Brasil pela primeira vez. “Acho muito importante que o atual governo e os próximos encorajem isso.”

Quanto ao PIB global, ele apontou que a projeção do Goldman Sachs, de crescimento de 4,1% em 2010, está acima do consenso de mercado. E o maior risco de erro da previsão, frisou, é que o mundo cresça ainda mais, já que há uma série de indicadores de retomada, como o salto de 84% nas vendas de carros na China em um ano, a aceleração do crescimento das exportações coreanas, chinesas e japonesas, ou a cifra estonteante de 30 milhões de novas linhas de celulares por mês da China e da Índia. “Quando as pessoas dizem que não há descolamento (dos emergentes), penso que eles devem morar num país diferente do meu”, ironizou O”Neill.

Em relação à economia brasileira, ele disse que a capacidade do País de superar a crise era o teste que faltava para mostrar que merecia de fato fazer parte dos Brics. Para ele, a boa reação do Brasil à crise foi “um prêmio para a boa gestão macroeconômica do Banco Central e do governo Lula e, possivelmente, do governo anterior”. Quanto ao mercado acionário brasileiro, disse que ainda pode subir muito, embora esteja menos atraente do que estava no início da retomada de alta.

O”Neill recordou-se de como, há dois anos, quando esteve no Brasil, ele tinha que justificar o tempo todo o “B” dos Brics. Agora, disse, “há um grau maior de confiança entre os brasileiros – certamente dos homens de negócio – sobre o Brasil do que em qualquer outro momento anterior em que eu tenha vindo aqui”.

Ele fez uma menção bem-humorada ao brasileiro Paulo Leme, economista do Goldman para mercados emergentes, que tem projeções de crescimento para o Brasil que muitas vezes O”Neill considera excessivamente pessimistas (e com quem fez uma aposta sobre o assunto, de um jantar “em qualquer restaurante do mundo”): “Digo ao Paulo que precisa ser mais animado em relação ao seu país”.

27/07/2009 - 10:49h Jim O’Neill, criador do Bric, diz que crise foi boa para alguns países

Dominic Elliott, especial para The Wall Street Journal* – VALOR

Siglas podem poluir a linguagem de negócios com jargões complicados. Mas algumas conseguem transformar algo desajeitado em um sonho de marketing.

Foi assim com “Bric”, a sigla criada em 2001 por uma equipe de Jim O’Neill, o economista-chefe do Goldman Sachs Group, em referência a Brasil, Rússia, Índia e China. O banco criou a sigla quando fazia uma previsão sobre o crescimento dos quatro grandes mercados emergentes.

O Goldman Sachs previu que o produto interno bruto coletivo do quarteto iria representar mais de 10% da economia mundial no fim desta década. Eles já ultrapassaram isso, chegando a 15% no ano passado.

O’Neill discutiu nesta entrevista como os Brics têm se recuperado da crise financeira, se eles já superaram sua classificação e que países podem ocupar o lugar deles. Trechos:

George Soros dizia em março que os mercados emergentes corriam o risco de ser os mais prejudicados pela crise, mas os chamados países periféricos têm sido os mais fortes até agora na recuperação. Por quê?

A recuperação se deveu à força dos fundamentos econômicos. Quando a China lançou seu pacote de estímulo, no ano passado, o Goldman Sachs recomendou: “compre ações chinesas”. Muitos acharam que estávamos loucos, já que elas haviam desabado nos meses anteriores. Agora elas têm alta de 80%.

Em parte isso se deve ao crescimento do mercado interno. O declínio das vendas no varejo americano foi equiparado por um aumento na China. As vendas no varejo chinês subiram 18% ante igual período do ano passado, segundo os números mais recentes. O aumento nos volumes de carros, de 48% em junho em comparação com o mesmo mês um ano antes, também é significativo e não se deve apenas ao estímulo.

Como o sr. acha que a crise mudou a economia mundial?

Estou ficando mais convencido de que a crise foi de fato uma coisa boa para alguns países. É certamente o caso da China, onde a demanda interna melhorou e houve crescimento de base mais ampla, menos dependente das exportações.

Os países do Bric parecem ter se saído particularmente bem. Um dos motivos de eles terem se recuperado tão bem é o forte controle sobre os sistemas bancários?

Bem, antes de tudo, eu deveria dizer que não considero realmente os Brics como mercados emergentes. Eles são grandes demais para isso. Mas o controle estatal de bancos foi decididamente um fator e isso é algo que muitos dos países ricos tendem agora a fazer. Talvez haja um reconhecimento de que deveria haver mais responsabilidade social para o setor financeiro e que o controle estatal do sistema bancário é uma boa coisa.

Há alguns mercados emergentes que ainda sejam uma grande preocupação?

Os Estados do Báltico e outras partes da Europa Central e Oriental continuam com problemas, mas mesmo lá temos diversidade. Quando estive em Tóquio recentemente, todo mundo perguntava sobre a Letônia. Mas a economia letã é um décimo do tamanho da de Tóquio. Em contraste, a Polônia é a menos exposta e tem a maior economia e a menos dependente de exportações.

Sua equipe no Goldman Sachs identificou “os próximos 11″ países que poderiam pegar o bastão do Bric. O sr. disse recentemente que Turquia, México, Nigéria, Irã e Indonésia eram os líderes entre esses. Esses cinco são os que o sr. escolheria como os destaques para o segundo semestre?

Esses cinco só são similares no que diz respeito a terem grandes populações. A Indonésia parece estar num caminho para o desenvolvimento com base na demanda interna, apesar da ameaça do terrorismo. Sinais iniciais são de que o PIB do segundo trimestre mostrará que o país cresceu, o que é um feito significativo no contexto do acesso (à União Europeia), considerando os problemas que a Europa desenvolvida enfrenta. O Irã é uma sociedade altamente adepta da tecnologia com uma enorme população. A Nigéria é o maior país do continente africano em população e seus líderes estão dispostos a engajar-se internacionalmente.

Por isso esses quatro – Nigéria, Irã, Turquia e Indonésia – estão bastante no nosso radar. Vietnã e México também são interessantes.

O sr. acha que esses países ou os Brics serão capazes de descolar do mundo desenvolvido?

Não tenho certeza sobre o desacoplamento. As relações preço/lucro futuro (das ações) da China e da Índia estão mais altas que nos Estados Unidos, mas nos níveis atuais eu não encorajaria quem nunca investiu na China ou na Índia a aplicar lá; espere uma correção. É mais barato atualmente fazer isso via multinacionais ocidentais.

Como o sr. acha que os investidores deveriam olhar para os mercados emergentes?

Mercados emergentes são um conjunto diverso de países. Por isso não faz muito sentido investir num índice amplo de mercados emergentes. O tamanho dos países é um dos fatores mais importantes (…). Se um país é capaz de criar demanda interna sustentável, tem melhor chance de ser resistente.

*Dominic Elliott é editor do Financial News, publicação da Dow Jones, editora do Wall Street Journal

28/06/2009 - 10:01h ”Brasil pode crescer até 5% em 2010”. Estadão entrevista Jim O”Neill

“a escolha de Lula deu maior credibilidade social ao Brasil”

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Quem é: Jim O’Neill

 


É PhD pela Universidade de Surrey, Inglaterra

Começou no Bank of America em 1982

Em 2001, cunhou a sigla Bric para se referir aos países emergentes Brasil, Rússia, Índia e China

É autor do livro “Building better global economic Brics” lançado em novembro de 2001

 

Fernando Dantas – O Estado SP

 


Para Jim O’Neill, o célebre economista-chefe do Goldman Sachs que cunhou a expressão Brics, o Brasil pode crescer até 5% em 2010 e está se saindo muito bem no enfrentamento da crise econômica global. Os Brics são o grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China. Foi em 2001, num relatório do Goldman Sachs, que O?Neill criou a expressão, que ganhou vida própria e levou os próprios Brics a se reunirem como grupo, pela primeira vez, em Ecaterimburgo, na Rússia, no dia 16 de junho.

A crise econômica global, segundo o economista, vai antecipar de 2037 para 2027 a sua previsão de que os Brics ultrapassarão em PIB o G-7, as sete principais nações desenvolvidas. A razão, para ele, é que existe um indiscutível descolamento de grandes países emergentes em relação ao quadro sombrio das economias ricas, o que acelerará a convergência. O descolamento, para O’Neill, é totalmente evidente no caso de China e Índia, para os quais prevê crescimento simultâneo a 10% ao ano no início da próxima década.

O Brasil, para ele, é um caso intermediário, tendo sido muito afetado inicialmente, mas demonstrando o que considera uma impressionante capacidade de reação. O’Neill mostra-se um entusiasta do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e chega a atribuir a ele – num arroubo que talvez seja considerado injusto por admiradores do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – o “ambiente de baixa inflação introduzido no início da década”. O economista também não mede palavras para elogiar Barack Obama, presidente dos Estados Unidos.

Grande fã de futebol e ex-diretor do Manchester United, O’Neill arriscou também palpites para a Copa do Mundo. A seguir, a entrevista, feita por telefone, na quinta-feira, da sede do Goldman Sachs em Londres.

Como sr. vê o desempenho dos Brics na crise econômica global?

Com a exceção da Rússia, acho que foram excepcionalmente bem, particularmente China e Índia. Eu tenho uma visão de que esta crise, na verdade, está se tornando boa para a China, porque a forçou encarar um fato realmente importante: a sua economia era dependente demais do crescimento via exportações, e era evidente que em algum momento eles teriam que mudar esse modelo. Acredito que eles fizeram isto, mais precisamente em novembro passado, quando lançaram seu enorme pacote fiscal e monetário (de estímulo à demanda interna) em reação à crise global. Eu fiquei muito, muito impressionado com a reação da política econômica por parte da China. Então, para a China, e para o mundo, no qual a China é tão importante, a crise foi de fato uma boa notícia.

E no caso da Índia?

Quando se pensa na história da Índia e no que se chamava no passado de taxas indianas de crescimento, de 3%, o fato de que a Índia vai crescer perto de 6% nesse ano, mesmo com o colapso do PIB mundial e, em particular, do PIB americano, é excepcional. E isso é um sinal, por um lado, de quão positivas foram as mudanças na Índia, e, em segundo lugar, é claro, do quão voltada para si mesma é a economia indiana.

Então, houve de fato o chamado descolamento dos emergentes?

Sim, a ideia de que o descolamento nunca aconteceu está errada. Quem diz que não houve descolamento, em minha opinião, não sabe do que está falando e não olha as evidências, que são particularmente fortes no caso da China e na Índia. Estamos prevendo para a China crescimento de 8% neste ano e de quase 11% para o próximo. No caso da Índia, ligeiramente abaixo, de 6% em 2009 e 7% em 2010, mas já com a perspectiva de revisar para cima essa projeção. No caso do Brasil e da Rússia, obviamente é diferente.

Qual a sua avaliação da situação do Brasil?

Nesse caso, a queda do preço das commodities foi um desdobramento muito negativo, mas eu acho que, a cada semana que passa, a evidência é que o Brasil está enfrentando a crise muito bem. A recessão no Brasil provavelmente será muito superficial. Para o Brasil, não ter uma crise nesse momento é muito impressionante.

E por que desta vez o País está se saindo bem?

Acho que o Brasil tem o mais forte arcabouço de política macroeconômica que eu, que tenho 50 anos, já testemunhei em toda a minha vida. É muito impressionante que o ambiente de baixa inflação que Lula introduziu no início desta década tenha sobrevivido à crise. Isto, na verdade, permitiu que o Brasil reduzisse a taxa de juros durante a crise. O Brasil jamais foi capaz de fazer isso em crises do passado. Você conhece o Paulo Leme (brasileiro que é diretor de pesquisas de mercados emergentes do Goldman Sachs)? Eu estou sempre apostando com o Paulo que o crescimento no Brasil será mais forte e mais rápido do que ele pensa. Acho que no próximo ano é possível que o Brasil chegue a 5% de crescimento.

Muitos economistas brasileiros criticam a expansão de gastos com Lula. Qual a sua visão?

Tenho opiniões matizadas sobre isso. Acho que esta crítica é claramente verdadeira no longo prazo. No entanto, penso que Lula e seu pessoal sentem que é necessário aplicar políticas que ajudem toda a comunidade de brasileiros e isso requer que eles demonstrem que muitas pessoas podem ser beneficiadas. Então, para eles, cortar fortemente despesas do governo, como as pessoas frequentemente mencionam, traria o risco de se ficar no modelo de Chicago (da Universidade de Chicago, conhecida pelo liberalismo), que falhou de forma tão medíocre em países como a Argentina. Então eu acho que a escolha de Lula deu maior credibilidade social ao Brasil. Por outro lado, isso significa que, olhando para a frente, seja quem for que substitua Lula vai ter, em algum momento, que lidar com esse problema, porque ele existe. Entre os grandes desafios que o Brasil tem pela frente, reduzir o tamanho do setor público talvez seja o maior.

Qual a sua projeção para o desempenho dos Brics nos próximos anos?

Quando vejo o que está acontecendo na China e na Índia em termos de política econômica, acho possível que, nos primeiros cinco anos da próxima década, esses países cresçam simultaneamente a uma média de 10% ao ano. Isso é uma taxa de crescimento que a Índia nunca teve. Pode ser muito excitante. Quanto ao Brasil, acho que uma taxa de 5% (ao longo de vários anos) é alcançável. Se tivéssemos conversado dois anos atrás, eu seria mais cético, diria algo entre 3% e 4%. Eu acho que muita gente subestima os sinais do desenvolvimento do grupo de renda média no Brasil, formando uma grande classe média. É um desenvolvimento muito positivo. Quanto mais eu penso no Brasil, mais impressionado eu fico. No caso da Rússia, nossas projeções são muito cautelosas, de uma tendência de 3% a 4% nos próximos anos.

Como isso afeta a previsão de que os Brics ultrapassarão em PIB o G-7?

A crise fez com que eu acreditasse que isso vai acontecer ainda mais rápido. Acho que provavelmente vai ser nos próximos 20 ou 25 anos. Costumávamos prever para 2037 e agora dizemos que será até 2027, dez anos antes.

E qual a sua visão sobre os efeitos da crise no mundo rico?

Acho que vai ser uma recuperação fraca no mundo desenvolvido. Os Estados Unidos ainda têm esse problema do consumidor estar altamente alavancado, e o consumidor representa um pedaço muito grande do PIB americano. Isso ainda tem de diminuir, é algo que os Estados Unidos não podem evitar. E esse processo é o que torna bem difícil que a economia americana se recupere muito fortemente.

E os outros países desenvolvidos?

Estou realmente bastante preocupado com a Europa e, particularmente, com a Alemanha. Me surpreende muito que a política alemã permaneça tão presa no que chamo de mentalidade conservadora. Eles têm de mudar a sua forma de pensar para que se tornem menos dependentes da demanda externa, como os chineses fizeram. E os alemães não fizeram. O que é surpreendente, o que é realmente incrível na Europa, e no Japão também, é que, apesar de toda esta crise, ele não mudam as políticas. É surpreendente e amedrontador. Não há, de fato, nenhum ponto brilhante no mundo do G-7. Talvez com a leve exceção do Canadá.

E como o sr. vê o Reino Unido, o seu país?

Acho que, porque a política econômica pós-crise do Reino Unido foi tão agressiva, o país pode mostrar sinais fortes de recuperação no próximo ano e surpreender muita gente, crescendo mais rápido do que se prevê. Mas o Reino Unido também tem desafios muito sérios em termos de políticas mais estruturais.

Como o sr. avalia o governo Obama até agora?

Eu sou um sócio pleno do fã-clube do Obama. Essa crise requeria uma reação de política econômica agressiva por parte do governo e capacidade de comunicação com o povo americano em tempos muito complexos, e penso que ele conseguiu. Acho que, até agora, Obama tem sido exatamente aquilo de que os Estados Unidos precisavam e que o mundo precisava. Me impressiona muito o seu estilo de diálogo com muitos países estrangeiros, incluindo seu posicionamento diante da complexa e frágil situação no Irã.

E as mudanças na regulação do sistema financeiro?

Não estou seguro de que seja o produto final. Temos mais um arcabouço do que o provável produto final. O que me agrada neste arcabouço é que eles estão tentando ser cuidadosos, enquanto na Alemanha e em boa parte da Europa o desejo é apenas de regular mais pela vontade de regular mais. Não é a coisa certa de se fazer, e acho que os Estados Unidos estão sendo mais cuidadosos com essa questão.

Quais são as principais lições da crise?

Esta é a sétima crise que acompanho profissionalmente. A primeira foi a crise da dívida latino-americana, em 1982. O que tenho a dizer é que algumas coisas boas podem resultar de toda e qualquer crise. Nesta agora, acho que teremos como consequência uma economia mundial mais equilibrada entre o consumo dos Estados Unidos e a poupança da China. Aliás, essa foi a primeira “crise Facebook (site de relacionamentos)”. Eu quero dizer que a disseminação da informações fez com que 6 bilhões de pessoas tivessem fortes opiniões sobre a crise, e eu penso naquela grande frase, de que um pedaço de informação é mais perigoso do que nenhuma. Foi de fato uma crise terrível, mas houve muito exagero. Muita gente estava convencida de que seria como nos anos 30, o que é ridículo. Era fácil de se prever que os países teriam a reação, em termos de política econômica, que eles tiveram.

O que o sr. acha do fato de que a ideia dos Brics, criada pelo sr., tenha sido assumida pelos próprios governos desses países, que formaram um grupo?

Algumas pessoas me perguntam se eu acho que eles teriam formado o grupo, se eu não tivesse pensado na sigla. Não sei se o fariam, talvez não arrumassem uma desculpa para isso. Na verdade, penso coisas contraditórias sobre o tema. Não acho que seja um grupo para o qual faça sentido se reunir em bases permanentes. Qual seria o objetivo? Mas todos os Brics deveriam ser parte de um G-7 ou G-8 mais efetivo e ter mais poder de decisão em um FMI e um Banco Mundial reformados. E até que isso aconteça, acho que faz bastante sentido que os Brics se reúnam entre si, separadamente. É quase como uma teoria dos jogos geopolítica. Então, como um desenvolvimento temporário, é perfeitamente sensato, mas não faz sentido numa base permanente.

Outros países emergentes não deveriam ser incluídos nos Brics?

Há cerca de quatro anos, quando eu frequentemente era perguntado sobre isso, dizia que, para ser considerado um Bric, o país teria que já representar 5% do PIB mundial ou teria de se acreditar que, na próxima década, ele teria uma forte chance de chegar a esses 5%. Acho que, fora dos quatro Brics, isto é muito, muito difícil. Então, apesar de que há algumas coisas excitantes em relação à Indonésia, Turquia, talvez até Nigéria e Irã, esses países não têm a menor chance de se tornar tão grandes na próxima década.

Pessoalmente, como o sr. se sente como criador da expressão Brics?

Orgulhoso, mas também embaraçado.

Embaraçado?

Eu jamais sonhei que seria tudo isso; é embaraçoso. Sou apenas um cara qualquer de Manchester que gosta de futebol.

Por falar em futebol, o sr. também tem previsões para a Copa do Mundo na África do Sul?

Espanha ou Brasil, parece. Quem sabe a Inglaterra. E pode me cobrar depois estas projeções.

07/04/2009 - 10:05h “Fico muito impressionado com Lula e sua equipe”

”Quanto maior a crise, mais creio nos Brics”

Economista-chefe do Goldman Sachs, que criou o termo Brics, diz que emergentes podem ser potências até 2027

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Luciana Xavier e Daniela Milanese – O Estado SP

 


Se alguém acreditava que o sonho dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) estava ameaçado pela atual crise global, a resposta dada pelo criador do termo, Jim O’Neill, economista-chefe do Goldman Sachs, é “não”. “Quanto mais a crise avança, mais confiante fico em relação aos Brics”, disse O’Neill, por telefone, de Londres, em entrevista exclusiva ao AE Broadcast Ao Vivo. O termo Bric foi criado em 2001 para designar as principais economias emergentes do mundo, que poderiam ser potências até 2050. Esse prazo já havia sido encurtado por ele para 2035. Agora, O’Neill crê que a virada pode chegar em 2027.

Os Brics foram afetados pela crise. Mas o sr. escreveu um artigo para a revista ‘Newsweek’ dizendo que o sonho dos Brics não acabou e que, com a crise, a virada pode vir mais cedo. Como?

Há duas razões para isso. Se você olhar como a economia dos Brics tem se comportado na corrida até esta crise, com exceção do Brasil, todos cresceram mais forte nos últimos sete anos e meio do que havíamos previsto. Foi muito mais do que nossas conservadoras suposições. A segunda razão é que a crise diz respeito ao fim da alavancagem do consumo americano e da necessidade de alguém ocupar esse lugar no mundo. Quanto mais a crise avança, mais confiante fico de que alguém vai despontar dos Brics, em particular a China. É só pensar nas respostas que a China tem dado à crise.Entre outras coisas, a China fala em dar um grande passo em direção à reforma de seguro social. Se o fizer, isso levará à aceleração maior do consumo.

A China poderá ser tão poderosa quanto os Estados Unidos?

A China poderá ultrapassar os EUA por volta de 2027. Claro que não dá para pensar que isso vai ocorrer muito mais cedo, pois no fim do dia a economia americana ainda é mais de três vezes maior do que a da China. A China responde por cerca de 7% do PIB mundial enquanto os EUA, 25%. Mas a China já é maior do que a Alemanha e provavelmente nos próximos dois anos deve ser maior do que o Japão. E acho que ao longo da próxima década, dados os progressos na Índia e no Brasil, acho que ambos estarão em posição de desafiar as pequenas, mas importantes, economias da Europa que fazem parte do G-7 como Itália, França e até Alemanha e Reino Unido.

O sr. acredita que o Brasil terá recessão este ano?

Como o 4º trimestre (de 2008) foi muito ruim, o Brasil vai, tecnicamente, mostrar recessão com PIB em zero ou levemente negativo no 1º trimestre. Mas depois deve ter desempenho melhor. Não acho que terminará o ano em recessão.

O que o sr. achou da iniciativa do Brasil de emprestar dinheiro ao Fundo Monetário Internacional (FMI), como prometeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no encontro do G-20?

Por que não? Acho que é algo muito bom. Mostra o comprometimento do Brasil com as reformas do Fundo. O Brasil parece ávido em mostrar esforço. Acho que é um gesto muito importante e toda vez que vejo o Brasil envolvido em ações desse tipo, fico muito impressionado com Lula e sua equipe. É algo muito inteligente a se fazer.

No ano passado, o sr. disse que os Brics guiariam o mundo para o fim da crise. O sr. ainda crê nisso?

Acho que, pelo fato de a crise ser muito severa, precisamos de uma combinação das duas coisas. A China precisa continuar a ter desempenho melhor que os demais Brics. Mas precisamos que a severidade da crise nos EUA tenha um fim.

25/09/2008 - 08:29h Brics podem indicar saída para atoleiro

JIM O’NEILL ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

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A DESPEITO da magnitude dos desafios atuais, se já houve um bom momento para que os Estados Unidos e o mundo enfrentassem as notáveis dificuldades que vivemos, é este. E isso porque o consumo dos principais países de mercado emergente Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) parece capaz de compensar a desaceleração nos Estados Unidos. Um grande volume de demanda mundial continua a ser criado pelos Brics. Isso é especialmente válido no que tange à China, que em agosto viu uma aceleração de 15,9% nas vendas do varejo, já considerada a inflação. Os consumidores chineses estão contribuindo mais para o PIB (Produto Interno Bruto) mundial do que os infames consumidores dos Estados Unidos. Enquanto isso, o Brasil registrou crescimento muito mais forte que o esperado em seu PIB, no trimestre passado, com 6,1%.

Demanda

De acordo com as nossas mais recentes estimativas, até agora nesta década os países Brics apresentaram quase tanta demanda quanto os Estados Unidos. No futuro, a porção deles na demanda mundial começará a se encaminhar ao mesmo patamar ocupado pelas economias agregadas do G7 (grupo dos 7 países mais industrializados). Os Estados Unidos estão empreendendo uma dramática mudança de equilíbrio. Era óbvio há algum tempo que os consumidores norte-americanos estavam distendidos e que uma razão de consumo superior a 70% do PIB é insustentável. A tendência começou a se reverter no último ano. É bastante concebível que, ao longo dos próximos dez anos, o consumo caia para perto dos 60% do PIB, nos Estados Unidos. Para que o PIB mundial seja capaz de enfrentar a queda no consumo norte-americano, o consumo precisa subir em outros lugares. O consumo norte-americano, em 70% do PIB do país, equivale a 21% do PIB mundial. Caso caia a 60% do PIB dos Estados Unidos, equivalerá a apenas 18% do PIB mundial. O consumidor dos Brics pode ajudar a compensar esse fator e pode também receber alguma ajuda dos consumidores alemães e japoneses, ainda que de forma mais limitada. Isso significa que, no início desse período de ajuste, um crescimento mundial da ordem de 3,5% é perfeitamente viável, mesmo que não sejamos capazes de sustentar os 5%. Embora muita gente no setor de serviços financeiros, que compreensivelmente vem concentrando suas preocupações nos próprios problemas, acredite agora que existe uma compressão de crédito em toda parte, é improvável que todos os demais países enfrentem a mesma situação que os Estados Unidos. De fato, o que acontecer quanto ao preço do petróleo e de outras commodities provavelmente será muito mais importante, certamente para os grandes países de mercado emergente e talvez para alguns dos países desenvolvidos nos quais as restrições de crédito sejam menores, como na Alemanha e no Japão. Quanto a isso, os desdobramentos das últimas semanas parecem positivos. Os preços menores do petróleo são bons para a renda real disponível em muitos desses lugares, e isso quase certamente significa que a inflação cairá de forma acentuada nos próximos meses. Uma das grandes lições do crash das Bolsas em 1987, e também da crise da Long-Term Capital Management em 1998, é que, ao agir com rapidez, as autoridades conseguiram isolar os mercados financeiros do restante da economia. A economia dos Estados Unidos e a mundial não entraram em recessão, nos dois casos. As lições deveriam ser lembradas quanto às ações que estão sendo empreendidas pelas autoridades dos Estados Unidos. Apoiar a Fannie Mae e a Freddie Mac, apoiar a AIG e agora propor uma versão modernizada do resgate às instituições de poupança e empréstimos pela RTC são as medidas necessárias a garantir que os males do setor bancário não causem crise econômica mundial generalizada.

Condições melhoram

Prever para onde vamos nos próximos dias e semanas seria ousadia. Mas as condições para uma recuperação significativa nos mercados de capitais melhoraram dramaticamente, não menos por efeito do senso de “crise”, que facilita as ações das autoridades. As ações das autoridades norte-americanas e chinesas na semana passada mostram que os líderes das duas economias possivelmente mais importantes do mundo estão agindo de maneira proativa para conter a crise. Agora, todas as atenções estarão concentradas nos demais países dos quais se espera resposta igualmente proativa. No Reino Unido, por exemplo, onde os empréstimos hipotecários caíram de maneira dramática e a economia é mais fraca que a dos Estados Unidos, algumas medidas econômicas criativas para mitigar os efeitos de desaceleração cíclica de outro modo severos deveriam ser consideradas seriamente.

JIM O’NEILL é economista-chefe do Goldman Sachs

16/09/2008 - 10:44h Crise afetará muito pouco o Brasil, diz criador da sigla Brics

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Jim O’Neill, de Goldman Sachscriador do termo BRIC

PEDRO DIAS LEITE – FOLHA SP

DE LONDRES

O Brasil deveria se preocupar menos com a crise nos EUA e em outros países desenvolvidos e mais com o crescimento da China e com os preços do petróleo e de outras commodities.

A avaliação é de Jim O’Neill, economista-chefe do Goldman Sachs e criador da expressão Bric (as iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China).

Segundo ele, “as pessoas não deveriam exagerar” o impacto do mais recente episódio da crise econômica global, a quebra do Lehman Brothers.

O impacto da enorme turbulência será “muito pequeno” no crescimento do Brasil, que tem de ficar atento a duas barreiras: um crescimento abaixo de 7% na China e o petróleo abaixo de US$ 80. Além disso, conter os gastos governamentais. Em sua avaliação, a economia do Brasil nunca esteve tão “sólida” e “estável” nos últimos 30 anos.

Partidário da tese do “descolamento” entre as economias emergentes e as dos países desenvolvidos, O’Neill diz: “Graças a Deus que temos os Brics!”.

Segundo ele, essa é uma crise apenas do mundo rico.

PERGUNTA – Como essa nova fase da crise vai afetar o mundo?
JIM O’NEILL – A que crise você está se referindo?


PERGUNTA – À falência do Lehman, à venda da Merrill Lynch, à situação difícil da AIG…

O’NEILL – Minha visão é: graças a Deus pelos Brics!


PERGUNTA – Por quê?

O’NEILL – Todas as pessoas que estão reagindo com um enorme medo ao que aconteceu nesse final de semana precisam se perguntar o seguinte: isso vai afetar o consumidor chinês? O fato de o Lehman não existir mais vai ter um impacto negativo nas vendas do comércio chinês? Para o mundo que está emergindo para ser a liderança do futuro, não é nada demais esse problema.
É uma enorme questão nos EUA e nos países ricos. Mas, no mundo como um todo, as pessoas não deveriam exagerar os impactos dessa crise.

PERGUNTA – O que o senhor quer dizer com isso?

O’NEILL – Eu vejo o que está acontecendo com o Lehman como mais um sintoma do fim de auge do consumo norte-americano. Se você olhar toda a informação que nós temos, inclusive do Brasil, mas particularmente da China, as vendas no varejo e os gastos dos consumidores estão se acelerando nos Brics, enquanto os EUA estão sofrendo imensamente com a turbulência econômica mundial. São sintomas, muito mais do que a causa. Desde que não haja um problema sistêmico, não acho que seja importante o que as pessoas falam.


PERGUNTA – As pessoas falam muito de “descolamento”. O senhor parece ser partidário dessa idéia.

O’NEILL – É justamente isso que acabei de falar. Estamos com um genuíno descolamento da demanda doméstica nos grandes mercados emergentes para longe dos EUA. O Brasil não precisa mais dos EUA.


PERGUNTA – O Brasil cresceu 6% no último trimestre. Essa crise não vai afetar em nada o crescimento do país, é isso o que o sr. está dizendo?

O’NEILL – Muito pouco. Se a China crescer abaixo de 7%, isso me preocuparia muito mais no Brasil do que a situação dos EUA. Porque a China tem sido o grande condutor marginal da economia no último ano. Não vamos saber se o B nos Brics é merecido até que as commodities passem por um período de correção. Acho que é bom que o Brasil esteja passando por esse teste, com a queda das commodities. E, até agora, o Brasil tem feito um grande trabalho. A política do BC é fantástica.

PERGUNTA – O senhor tem uma visão bastante rósea da economia brasileira.

O’NEILL – Sim. Tenho duas preocupações com a economia brasileira nos próximos anos. Um: como o Brasil vai lidar com a queda das commodities. O país está indo muito bem. Dois, o governo continua a gastar muito dinheiro. Se o Brasil continuar a manter o ritmo de crescimento acima dos 5%, então será necessário que o governo reduza seus gastos. Mas estou muito otimista. O Brasil é uma economia mais forte e estável do que em qualquer ponto nos últimos 30 anos.

16/09/2008 - 09:41h “Estou otimista e acho que o País conseguirá passar pelo teste, pois a economia hoje é muito mais forte e estável.”

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A declaração é de Jim O’Neill, economista do Goldman Sachs e criador do termo “BRIC” para se referir aos quatro países emergentes (Brasil, Russia, Índia e China). Para ele o Brasil será testado pela crise, mas ele confia na capacidade do país. Otimismo justificado. LF (fonte OESP).