15/10/2009 - 17:48h Estrategista de Obama evita falar da campanha de Dilma

Ben Self, que participou de palestra em São Paulo, teria sido contratado para assessorar João Santana

André Mascarenhas, do estadao.com.br


Para Ben Self, carisma não é fundamental para o sucesso de um candidato na web

Werther Santana/AE – Para Ben Self, carisma não é fundamental para o sucesso de um candidato na web

SÃO PAULO - Uma das estrelas da campanha que elegeu Barack Obama presidente dos Estados Unidos em 2008, o estrategista americano Ben Self se esquivou nesta quinta-feira, 15, de todas as perguntas sobre uma possível participação sua na campanha eleitoral brasileira do ano que vem. “Não vou confirmar e nem negar rumores sobre nossos clientes. Deixo eles se pronunciarem, se for do interesse deles”, disse Bem, que abriu o seminário “Efeito Obama” em um luxuoso hotel de São Paulo.

Nas últimas semanas, rumores de que Ben deve participar da campanha da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, circularam na imprensa. Ele não seria, no entanto, contratado pelo PT, como afirmou

recentemente o presidente do partido, Ricardo Berzoini, mas pelo marqueteiro João Santana, que deve assessorar a candidata do PT nas eleições do ano que vem.

Apesar de evasivo sobre os rumores, pressionado sobre as características dos pré-candidatos brasileiros, que não teriam o mesmo apelo de Obama, Ben disse acreditar que o carisma não é fundamental para que um candidato seja bem sucedido na web.

A avaliação vai de encontro com a argumentação de um dos organizadores do evento, o reitor da Escola de Gerenciamento Político da George Washington University, Christopher Arterton, que em recente entrevista ao estadao.com.br disse que o carisma de Obama foi um dos fatores que definiu o resultado de sua campanha.

E-mail é o caminho

Mais relaxado quando o assunto não era a sucessão de Lula, Ben, que é fundador da Blue State Digital, usou sua palestra para descrever a experiência durante a campanha de Obama, e, mais especificamente, como a tecnologia disponível pode ser aplicada para engajar um maior número de pessoas na campanha. Apesar de toda revolução da chamada web 2.0 – ou a internet altamente interativa, onde não há distinção entre emissores e receptores –, Ben destaca a importância do e-mail como ferramenta de comunicação com os eleitores.

“Há duas formas de fazer campanha. A primeira é tentar fazer a mídia tradicional falar de você. A outra, mobilizar as pessoas para que elas façam algo por você”, explicou Ben. Assim, o e-mail seria um dos meios mais adequados para o aprofundamento da relação com o eleitor, uma vez que permite um contato direto e garante uma das regras fundamentais da campanha online: o engajamento. Nesse sentido, o e-mail se sobrepõe às outras tecnologias devido à velocidade com que ele se propaga.

O estrategista afirma ainda que uma das técnicas utilizadas para dar relevância à campanha é a criação de “pontos focais” – questões polêmicas que despertem a discussão entre os eleitores, gerando relevância para a campanha. “É preciso aproveitar os bons momentos, e não apenas cumprir a agenda tradicional da campanha”, concluiu Ben.

15/10/2009 - 12:42h Dilma monta ”núcleo político” da candidatura

Palocci, Gilberto Carvalho e Franklin Martins integram grupo, que já vem se reunindo com Lula e a ministra

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Dilma e Lula


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Lula e Franklin Martins

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Lula e Palocci

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Fernando Pimentel, Ricardo berzoini e o marketeiro João Santana

Vera Rosa, BRASÍLIA – O Estado SP

Sob a orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, montou um núcleo político para coordenar sua campanha ao Palácio do Planalto. Integrado pelo deputado Antonio Palocci (PT-SP), que chefiou a equipe do programa de governo de Lula, em 2002, o grupo já se reuniu três vezes com o presidente e com Dilma, nos últimos dois meses, com o objetivo de traçar estratégias para a corrida de 2010.

Além de Palocci, fazem parte do time o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, o ministro Franklin Martins (Comunicação Social), o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), e o marqueteiro João Santana.

No último jantar, há cerca de um mês, Lula falou sobre dificuldades enfrentadas em suas campanhas para atrair apoios além das “fronteiras da esquerda”. Foi dessas conversas reservadas que saiu a ideia de Dilma comandar reuniões com os partidos aliados e apresentar-se como candidata disposta a fazer acordos políticos, e não apenas como “gerentona” do governo.

Santana, por sua vez, tem orientado a ministra a vestir o figurino da simpatia. Dona de temperamento explosivo, Dilma ficou conhecida na Casa Civil por distribuir broncas. “Sou uma mulher dura, cercada por homens meigos”, diz ela, toda vez que é lembrada de sua “fama”. O marqueteiro deixou Dilma sorridente e pediu a ela que usasse cores mais vivas.

Nos bastidores, porém, é Palocci que ocupa papel de destaque nessa fase de aquecimento da maratona eleitoral, por vezes trocando “figurinha” com o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu. Não foi à toa que Palocci compareceu ao jantar na casa de Dilma com dirigentes e parlamentares do PDT, no último dia 6, e com os aliados do PR, na noite de terça-feira. Visto com uma espécie de curinga por Lula, o ex-ministro da Fazenda tanto pode ser candidato do PT ao governo paulista como coordenador da campanha de Dilma.

Na prática, o destino de Palocci está atrelado ao do deputado Ciro Gomes (PSB-CE), ex-ministro da Integração. O Planalto quer desidratar a candidatura de Ciro à Presidência – tanto que deflagrou ofensiva a fim de garantir o apoio de vários partidos a Dilma – e tenta empurrá-lo para a sucessão do governador José Serra (PSDB).

O cenário dos sonhos de Lula é uma disputa plebiscitária entre Dilma e Serra, para comparar os oito anos de governo do PT com o mesmo período da gestão do PSDB de Fernando Henrique. No xadrez montado pelo presidente, Ciro concorre a governador de São Paulo, com o apoio do PT, e sai do caminho de Dilma. Se esse jogo for confirmado, Palocci não entrará na corrida ao Bandeirantes e poderá coordenar a campanha de Dilma.

Absolvido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da acusação de violar o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, em 2006, o deputado também tem o nome citado para ocupar a Casa Civil, quando Dilma deixar o governo para assumir a candidatura. Lula, porém, tem dúvidas sobre quem deve ser o substituto da ministra.

20/07/2009 - 16:15h O labirinto da internet

TENDÊNCIAS/DEBATES – FOLHA SP

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br


JOÃO SANTANA


Os deputados erraram onde não poderiam. Mas era um erro previsível. A internet é o meio mais perturbador que já surgiu na comunicação

UM PARADOXO da cultura contemporânea é a incapacidade da maioria dos políticos de entender a comunicação política. Essa disfunção provoca, muitas vezes, resultados trágicos.
É o caso da lei votada pela Câmara dos Deputados para regular o uso da internet nas eleições. Se aprovada sem mudanças pelo Senado, vai provocar um forte retrocesso numa área em que o Brasil, quase milagrosamente, se destaca no mundo -sua legislação de comunicação eleitoral. Sim, a despeito da má vontade de alguns e, a partir daí, de certos equívocos interpretativos, o Brasil tem uma das mais modernas legislações de comunicação eleitoral do mundo.
O nosso modelo de propaganda gratuita, via renúncia fiscal, é tão conceitualmente poderoso que se sobressai a alguns anacronismos da lei, como o excesso de propaganda partidária em anos não eleitorais ou a ridícula proibição de imagens externas em comerciais de TV.
Os deputados decidiram errar onde não poderiam. Mas era um erro previsível. A internet é o meio mais perturbador que já surgiu na comunicação.
Para nós da área, ela abre fronteiras tão imprevisíveis e desconcertantes como foram a Teoria da Relatividade para a física, a descoberta do código genético para a biologia, o inconsciente para a psicologia ou a atonalidade para a música.
Na comunicação política, a internet é rota ainda difícil de navegar. Somos neogrumetes de Sagres em mares bravios. Não por acaso, o mundo está infestado de curandeiros internáuticos a apregoar milagres. E a mídia potencializa resultados reais ou imaginários (”Ah, a campanha do Obama!”, “Ah, as eleições no Irã”, “Ah, o twitter do Serra”, “Ah, vem aí o blog do Lula”) sem que se consiga aferir a real dimensão do fenômeno.
Se é perturbadora para nós do meio, por que não o seria para legisladores e juízes? Principalmente para os políticos, que, como se sabe, sofrem desconforto com a comunicação política desde o surgimento dos meios modernos.
Desde sua origem nas cavernas, o modo de expressão política tem dado pulos evolutivos sempre que surge um novo meio.
De Aristóteles, patrono dos marqueteiros, passando pelos áureos tempos da santa madre igreja, que já deteve a mais poderosa máquina de propaganda política -é a criadora do termo com sua “Congregatio de Propaganda Fide”-, até os dias de hoje, a comunicação politica é feita por meio de uma simbiose entre o que se diz -o conteúdo retórico-persuasivo- e seu suporte de expressão, as ferramentas comunicacionais. Um influenciando o outro e os dois influenciando, sem parar, as sociedades e instituições.
Foram enormes os pulos causados pela imprensa, pelo rádio, pelo cinema e pela TV na forma e no modo de fazer política. Mas nada perto dos efeitos que trará a internet.
Não só por ser uma multimídia de altíssima concentração, mas também porque sua capilaridade e interatividade planetária farão dela não apenas uma transformadora das técnicas de indução do voto mas o primeiro meio na história a mudar a maneira de votar. Ou seja, vai transformar o formato e a cara da democracia.
No futuro, o eleitor não vai ser apenas persuadido, por meio da internet, a votar naquele ou naquela candidata.
Ele simplesmente vai votar pela internet de forma contínua e constante.
Com as vantagens e desvantagens que isso pode trazer.
As cibervias não estão criando só “novas ágoras”. Criam também novas urnas. Do tamanho do mundo. Vão ajudar a produzir uma nova democracia tão radicalmente diferente que não poderá ser adjetivada ou definida com termos do nosso presente-passado, tipo “representativa” ou “direta”.
Sendo assim, creio que nossos legisladores não vão querer passar para a história como os que imprimiram um sinete medieval em ondas cibernéticas. Não é só o erro, como já se disse, de encarar um meio novo com modelos de regulação tradicional. É porque a internet, no caso da comunicação política, nasceu indomável. E sua força libertadora tem de ser estimulada, e não equivocadamente reprimida.
Já há um consenso do que deve ser modificado na proposta da Câmara. O Senado, que vive profunda crise de imagem, tem um bom tema de agenda positiva. Mas não é por oportunismo que urge corrigir os equívocos da Câmara. É simplesmente pelo prazer de estar conectado com o futuro.


JOÃO SANTANA, 56, é jornalista, publicitário e consultor político. Já coordenou o marketing de dezenas de campanhas estaduais e municipais (como a de Marta Suplicy em 2008), além de três campanhas presidenciais, no Brasil (Lula em 2006), na Argentina e em El Salvador.

21/03/2009 - 12:52h ”Lula é meu exemplo”, diz Funes

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Foto Folha SP

Salvadorenho prefere estilo de brasileiro ao de Chávez

João Paulo Charleaux – O Estado SP

O presidente eleito de El Salvador, Mauricio Funes, disse ontem, em São Paulo, que fará um governo de esquerda mais próximo ao do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, do que ao do venezuelano, Hugo Chávez. A declaração foi feita após um encontro com Lula, na primeira viagem de Funes depois das eleições salvadorenhas, realizadas no domingo.

“Eu disse durante a campanha e reitero agora que me sinto mais próximo do governo brasileiro”, disse Funes quando questionado pelo Estado sobre que modelo de esquerda seu governo seguiria.

Funes venceu as eleições como candidato do ex-grupo guerrilheiro Frente Farabundo Martí de Liberação Nacional (FMLN) e disse que veio ao Brasil “agradecer a Lula pelo acompanhamento do processo eleitoral salvadorenho”. Ele viajou para o Brasil na companhia da mulher e futura primeira-dama, a brasileira Vanda Pignato. A campanha da FMLN foi chefiada pelo publicitário João Santana, que fez a campanha de reeleição de Lula, em 2006.

“Lula mostrou que é possível fazer um governo de esquerda sem que isso signifique um salto no vazio”, disse Funes. “O Brasil mostrou que é possível um governo de esquerda trazer estabilidade macroeconômica e governabilidade democrática.”

A posse de Funes ocorrerá em 1º de junho, mas ele já trabalha para levar a El Salvador programas sociais brasileiros como o Bolsa-Família. Outra área de interesse é a produção de etanol. O Brasil detém a tecnologia de produção e El Salvador, plantações de cana-de-açúcar geograficamente próximas do mercado americano.

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Ricardo Stuckert/Reuters

Salvadorenho diz que Obama prometeu “guinada”

Eleito presidente no domingo, Mauricio Funes, casado com paulistana, compara-se a Lula após encontro com brasileiro em São Paulo

FLÁVIA MARREIRO – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

O presidente eleito de El Salvador, Mauricio Funes, disse ontem ter recebido de Barack Obama a promessa de que seu governo nos EUA significará uma “guinada” na relação de Washington com a América Latina e com a América Central em particular. Luiz Inácio Lula da Silva foi a ponte na conversa com o americano, segundo contou o salvadorenho momentos depois de se reunir com o presidente brasileiro em São Paulo.

“Primeiro ele [Obama] me disse que tinha conversado com Lula sobre minha liderança e sobre o que poderia representar a minha vitória para El Salvador e para América Central. Isso de alguma maneira abre possibilidades de construir relações mais estreitas com o governo dos EUA”, afirmou Funes, da FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional), de esquerda.

“Ele disse que sua Presidência poderia representar uma guinada na visão que os EUA têm da América Latina.”

Funes, casado com a militante petista Vanda Pignato, 46, disse que sua visita ao Brasil -a primeira ao exterior desde a vitória- combinou motivos pessoais com a intenção de agradecer a Lula pelo “acompanhamento” feito pelo brasileiro da eleição salvadorenha.

O casal levou ao encontro com o presidente brasileiro em São Paulo o filho, Gabriel, de 17 meses, que passou o último mês de campanha no Brasil. A reunião, da qual participou o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, durou cerca de uma hora.

Como na campanha, dirigida pelo marqueteiro João Santana, ligado ao PT, Funes comparou-se a Lula e afirmou que seu programa se inspirou no do brasileiro. Disse que tanto ele quanto Lula sofreram com a “campanha de medo” da direita e, como o brasileiro, ele representa a “esquerda responsável”, que não afugenta investidores. Negou que a ajuda do PT tenha sido financeira.

“Vou fazer um governo de esquerda responsável: reduzir a pobreza e fazer a crescer a economia”, prometeu.

O salvadorenho representa a aposta moderada da FMLN, ex-guerrilha convertida em partido no acordo de paz de 1992, que encerrou 12 anos de guerra civil (1980-1992), que deixou 75 mil mortos. Há analistas que sustentam, porém, que a visão considerada pragmática não é um consenso na legenda e que isso pode trazer problemas para o futuro governo, que ainda terá de negociar com centristas para ter maioria no Legislativo.
Aos jornalistas, Funes fez questão de desautorizar um deputado da FMLN -não citou o nome- que dissera que o futuro governo buscará renegociar a dívida externa do país. “Pagaremos as dívidas com o juros conforme foram negociados.”


Primeira-dama petista

Funes assumirá em 1º de junho um país de economia dolarizada, dependente da economia dos EUA. Segundo ele, seria um “suicídio” não buscar boas relações com Washington tendo 2 milhões de salvadorenhos vivendo lá. Comemorou ter recebido ontem um telefonema da secretária de Estado, Hillary Clinton, para conversar sobre cooperação.

A futura primeira-dama, a advogada paulistana Vanda Pignato, afirmou que assumirá a Secretaria de Bem-Estar Social no novo governo, que, sob Funes, virará ministério. Ela e o marido disseram que o principal projeto, de inclusão para mulheres, foi inspirado em um semelhante no Brasil.

Vanda voltou a dizer que renunciará aos cargos que acumulava: o de diretora de um centro ligado à embaixada brasileira e o de representante do PT na América Central. “Mas seguirei petista.”

17/03/2009 - 09:14h Eleito por ex-guerrilha, salvadorenho acena aos EUA

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Mauricio Funes chega à Presidência do país centro-americano após décadas de governos conservadores e prega “reconciliação nacional”

DA REDAÇÃO FOLHA SP

O presidente eleito de El Salvador, Mauricio Funes, da ex-guerrilha de esquerda FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional), prometeu ontem fazer um governo de reconciliação nacional e de estreitos laços com os EUA, um dia após pôr fim nas urnas a duas décadas de gestão conservadora no país.
“Desejo uma política exterior independente. Quero a integração centro-americana e o fortalecimento da relação com os EUA”, disse Funes a milhares de apoiadores no discurso de vitória, anteontem à noite.
Pouco antes, a Arena (Aliança Republicana Nacionalista), no poder desde 1989, admitira a derrota -51,27% dos votos para Funes contra 48,73% do engenheiro e ex-chefe de polícia Rodrigo Ávila.
Foi uma vitória histórica da ex-guerrilha FMLN, convertida em partido político em 1992, com o acordo de paz que encerrou 12 anos de guerra civil na qual lutou contra o governo, apoiado militarmente por Washington. Cerca de 75 mil pessoas morreram no conflito no país centro-americano.
Funes citou o bispo da Teologia da Libertação Oscar Romero, ícone da resistência na guerra civil, morto a tiros por paramilitares em 1980 enquanto rezava uma missa. “Monsenhor Romero disse que a igreja tinha uma opção preferencial pelos pobres. Isso eu farei: favorecer os pobres e os excluídos.”
Tanto no discurso quanto nas primeiras entrevistas como presidente eleito, o jornalista Funes, 49, seguiu a cartilha de pragmatismo da campanha. “Este não é um tempo de vingança. É de entendimento.”
O Departamento de Estado parabenizou Funes pela vitória e reiterou que Barack Obama cooperará com o novo governo, que toma posse em 1º de junho. A campanha governista havia inflado temores de que seu triunfo atrapalharia as cruciais relações com a Casa Branca -em 2004, essa foi a mensagem da gestão Bush.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que conhece o salvadorenho há anos, também telefonou para felicitá-lo. Funes é próximo do PT e casado com a advogada paulistana Vanda Pignato. Sua campanha foi dirigida por João Santana, marqueteiro petista.

Desafios
Funes assumirá um país com mais da metade da população abaixo da linha de pobreza e, como os vizinhos de América Central, profundamente dependente da economia americana, hoje em crise.
Cerca de 18% do PIB do país vem de remessas enviadas pelos mais de 2 milhões de salvadorenhos que vivem nos EUA. Também enfrentará a maior taxa de homicídios do continente -63 para cada cem mil habitantes- e quadrilhas ligadas aos cartéis mexicanos.
No front político, o presidente eleito também terá de fazer alianças. A FMLN elegeu a maior bancada da Assembleia Legislativa, em janeiro, duas cadeiras a mais que a direita. Para maioria qualificada, porém, terá de fazer acordos com partidos de centro, como o Democrata Cristão.

15/03/2009 - 13:43h Salvadorenho copia Lula em campanha

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Candidato da ex-guerrilha FMLN, Mauricio Funes contratou marqueteiro petista e testa mensagem de moderação nas urnas hoje

Direita governista usou Chávez contra esquerda; à diferença de 2004, EUA ficaram neutros na disputa, a mais acirrada desde 1992

FLÁVIA MARREIRO – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Hugo Chávez é a arma da direita e Luiz Inácio Lula da Silva -e o marqueteiro petista João Santana- são o norte da esquerda na eleição presidencial de El Salvador que acontece hoje, a mais disputada em 17 anos e a primeira na qual um candidato da ex-guerrilha FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional) tem chances de ganhar.
A julgar pela campanha da governista Arena (Aliança Republicana Nacionalista, direita), no poder desde 1989, trata-se de um referendo na Venezuela. O candidato Rodrigo Ávila, 44, espalhou o bolivariano em outdoors e spots de TV que conclamam os salvadorenhos a salvar o país de Chávez e das “garras do comunismo”.
É um ataque potente contra a FMLN -convertida em partido político no acordo de paz de 1992, que pôs fim à sangrenta guerra civil (1980-1992) do país centro-americano-, numa eleição em que a ex-guerrilha se mostrou mais disposta do que nunca a mostrar imagem de esquerda pragmática.
A frente escolheu Mauricio Funes, 49, popular jornalista de TV, para representá-la. Funes -que lidera as pesquisas por pequena margem- não lutou na guerra civil e ainda mantinha relação próxima com Lula.
“O socialismo do século 21 não é para El Salvador”, disse Funes à Folha. “Considero Lula e seu estilo de governar meu referencial mais próximo.
Quando fui escolhido candidato, não vacilei. Convenci o partido a contratar João Santana, que conheço há anos”, continuou ele, casado com a brasileira e petista Vanda Pignato, funcionária da Embaixada do Brasil em San Salvador.
O marqueteiro lulista encheu a TV com crianças e trabalhadores correndo balançando a bandeira salvadorenha em clipes bem filmados com jingles com variações de “a esperança vencerá o medo”, o slogan “Mudança Segura” e imagens de Lula e Barack Obama, recente adepto do mantra.
Funes lançou até, há três dias, uma Carta à Nação, nos moldes da Carta ao Povo Brasileiro do petista em 2002. Prometeu segurança jurídica aos investidores, negou que vá fazer nacionalizações e disse que não quer rever o Cafta, o acordo de livre comércio dos EUA com a América Central.
Apesar da íntima ligação de Funes com o Brasil, a campanha governista acusa a Venezuela de ingerência. “Lula virou valor agregado. Não havia espaço para criticar”, diz o economista e analista político Roberto Rubio Fabián, do local Funde (Fundação Nacional para o Desenvolvimento).
Questionado sobre o uso da imagem de Chávez, Rodrigo Ávila, engenheiro e ex-diretor da polícia, não titubeou: “A verdade é dura. Foi Chávez quem disse que queria incluir El Salvador na Pátria Grande Bolivariana”. O candidato prometeu construir a “nova direita”.
Para Rubio, Funes não foi suficientemente claro ao marcar distância do venezuelano, sob risco de criar arestas na ala radical da FMLN. “O problema é que ele precisava de um discurso moderado para o eleitorado e um outro tom para dentro.”

Fator EUA e votação
Os governistas não puderam contar com o apoio explícito da Casa Branca como em 2004, na eleição de Antonio Saca. À época, na tradição da Guerra Fria, o Departamento de Estado do governo Bush disse que uma vitória da esquerda atrapalharia as relações com Washington.
Estavam à frente da ofensiva americana pró-Arena Otto Reich e Roger Noriega, que antes trabalharam no governo Reagan (1981-1989), quando os EUA deram assessoria antiguerrilha ao Exército salvadorenho e apoio encoberto aos esquadrões da morte. Um terço da população salvadorenha vive nos EUA, e 18% do PIB vem de remessas dos imigrantes. Os americanos são os principais consumidores das exportações do país, onde quase metade da população vive abaixo da linha de pobreza. O dólar é usado como moeda local desde 2001.
Desta vez, 46 congressistas republicanos dos EUA até que tentaram. O grupo enviou carta a Barack Obama e a Hillary Clinton alertando para “os riscos” de uma vitória da FMLN. Mas o Departamento de Estado disse que trabalhará bem com quem ganhar.
A votação de hoje em El Salvador deve acontecer num clima tenso, dadas as denúncias de tentativa de fraude feitas pela esquerda e as idiossincrasias do sistema eleitoral -o país, um pouco maior que Sergipe, tem 4,2 milhões de eleitores.
A autoridade eleitoral é formada por indicados dos partidos, com maioria da direita. O registro eleitoral é por ordem alfabética, o que obriga eleitores a se deslocarem -e o transporte de eleitores não é crime. Observadores europeus apontaram uso da máquina do Estado e da mídia em favor de Ávila.
Rubio Fabián teme uma guerra de impugnações de urnas na apuração. “Se Funes perder por poucos votos, será difícil para a FMLN aceitar.”


Folha Online
Leia a entrevista com Funes (Ávila não atendeu aos pedidos da Folha)
www.folha.com.br/090729

17/10/2008 - 12:56h Marqueteiro admite erro de avaliação, mas defende peça

ELEIÇÕES 2008 / SÃO PAULO

João Santana diz que não calculou reações e que Marta desconhecia publicidade

Publicitário diz que intenção era “tocar no desconforto de eleitores kassabistas por não conhecerem bem a biografia do candidato”

RENATA LO PRETE – FOLHA SP

EDITORA DO PAINEL

Na berlinda desde domingo, quando foi ao ar o já célebre comercial com perguntas de natureza pessoal sobre Gilberto Kassab (”É casado? Tem filhos?”), João Santana, responsável pela propaganda de Marta Suplicy, “lamenta profundamente” “não ter previsto a onda que se formou”. Esse é, porém, o único erro que reconhece. A peça, em seu entender, “não transgride os limites da ética e da elegância”.

Na entrevista abaixo, a primeira em que trata do caso, Santana negou, como Marta já fizera, que as questões contivessem insinuação de homossexualidade. E repetiu a candidata do PT ao dizer que ela não viu a peça antes da exibição.

Marqueteiro da reeleição de Lula, Santana, 55, administra a ampla desvantagem de Marta a nove dias da votação final.

FOLHA – Até mesmo petistas e eleitores de Marta consideraram a peça “jogo sujo”, “insinuação maldosa”, “invasão de privacidade” etc. A campanha admite que errou?

JOÃO SANTANA
– O único erro foi não ter previsto a reação que o comercial provocaria em determinados setores. Uma reação causada, na maioria dos casos, por interpretações equivocadas. Tão logo verificamos isso, retiramos o comercial do ar.

FOLHA – A campanha alega que as duas perguntas não guardam relação com o assunto homossexualidade. Não lhe parece difícil fazer com que pessoas com algum discernimento acreditem nisso?

SANTANA
– São duas perguntas que todo mundo é obrigado a responder em várias situações na vida. Havia outras perguntas de natureza familiar (”É de família rica? Pobre?”) que tiveram de ser cortadas por ajuste de tempo. Sei que é difícil acreditar, mas o fato de as duas perguntas terem ficado no final não foi intencional.

FOLHA – Havia, então, uma definição estratégica de expor a vida privada do adversário?

SANTANA – Não havia e não há.
A definição estratégica era tocar no desconforto de eleitores kassabistas por não conhecerem a biografia do candidato. Toda vez que isso era estimulado nos grupos, esse desconforto se traduzia numa dúvida forte. Foi então que criamos uma série de comerciais para provocar reflexão. Não havia intenção de entrar no terreno que acabou gerando toda a polêmica. Tampouco surgiu essa reação nas pesquisas qualitativas.

FOLHA – Não lhe parece que foi subestimado o potencial de rejeição ao comercial por um tipo de público que não é entrevistado nas quális?

SANTANA – Infelizmente sim. Em especial pessoas que já tinham determinados preconceitos, informações mal resolvidas ou envolvimento emocional com a disputa eleitoral.

FOLHA – Marta teve conhecimento prévio do conteúdo do comercial?

JOÃO SANTANA – Não, ela realmente não viu o comercial antes de ir ao ar. Estava acertado, desde o primeiro turno, que eu tinha liberdade para tomar esse tipo de decisão, a depender de problemas de prazo.

FOLHA – O sr. acha que, se Marta tivesse visto, teria se oposto?

SANTANA – É difícil responder a esta pergunta agora. Mas talvez sim, por causa de seu “feeling” de psicóloga e da sensibilidade de pessoa que vive, constantemente, sob questionamento.

FOLHA – Culpar a mídia pela má repercussão não é uma forma de fugir à responsabilidade por uma decisão errada que a campanha tomou?

SANTANA
– Já disse que errei por não ter previsto a onda que se formou. Lamento profundamente. No entanto, não posso deixar de reconhecer que houve exagero e até manipulação.
Ninguém, por exemplo, publicou o texto completo do comercial. Ele não transgride, em nenhum momento, os limites da ética e da elegância. Em pesquisa que fizemos depois -e isso foi confirmado por reportagem da Folha-, a maioria das pessoas disse não ter sentido nenhuma malícia de natureza sexual no comercial. Somente começaram a interpretar isso depois da polêmica instaurada.

FOLHA – Acha relevante saber se o candidato é casado e se tem filhos?

SANTANA – Acho. O eleitor gosta e tem o direito de saber tudo sobre o candidato. Quer saber até para que time ele torce.
Além disso, o que nos interessava ali não era uma ou outra pergunta específica, e sim despertar no eleitor, por meio de uma série de questões, a dúvida sobre tudo o que ele desconhece a respeito de Kassab.