
Judoca brasiliense foi matriculada na natação, mas espiava, com curiosidade, as aulas no tatame do Sesi de Ceilândia.
Família lembra os momentos difíceis e a determinação da menina para treinar
Marcelo Abreu – Correio braziliense
Fotos: Cadu Gomes/CB/D.A Press
A avó Marilda, 80 anos: “Tinha dia que a gente não tinha dinheiro para pagar a passagem”
Faixa na casa da judoca, em Ceilândia,
que se tornou visita obrigatória para amigos e vizinhos:
a gritaria na hora da medalha contagiou os moradores da rua
O humilde salão de beleza — com duas cadeiras e dois espelhos, montado na garagem da casa em reforma, em Ceilândia — está fechado há uma semana. A dona, Rosemary Oliveira Lima, de 42 anos, três filhas, separada, não está. Viajou para outro continente. Nunca, em toda a vida, pensou chegar tão longe. Na verdade, o lugar mais longe em que estivera havia sido no Piauí.
Na tarde de ontem, do outro lado do mundo, ela gritou como nunca. Quase não agüentou. Desesperou-se. Depois, chorou. Pensou que vivia um sonho. Na verdade, tudo era um sonho. Até estar ali. Muito longe do Ginásio da Universidade de Ciência e Tecnologia de Pequim, onde a dona do salão gritava e chorava de alegria, a vizinhança invadiu a casa humilde. E a gritaria era uma só.
Era verdade. A filha da dona do salão havia ganhado a luta. A brasiliense Ketleyn Lima Quadros, judoca de 20 anos, acabara de conquistar a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim. Derrotou a australiana Maria Pekli. Tornou-se, em todos os tempos, a primeira atleta brasileira a subir ao pódio em uma prova individual. Naquela casa do conjunto H da QNM 17 de Ceilândia Sul, uma faixa pendurada no alto avisava: “Minha filha Ketleyn Quadros está nas Olimpíadas de Pequim 2008”. Lá dentro, a gritaria ecoava. Tomou conta da rua. E ainda era madrugada.
Marilda José de Oliveira, de 80 anos, avó de Ketleyn, não pregou os olhos. “Meu Deus, minha Nossa Senhora, foi impressionante”, ela dizia, com forte sotaque mineirinho, ainda em estado de choque. Ex-doméstica, era Marilda quem levava a neta para os treinos, no Sesi de Ceilândia. Aos 7 anos, a menina danada começou a treinar judô. “As dificuldades foram muitas. Tinha dia que a gente não tinha dinheiro para pagar a passagem de ônibus. E hoje ver a minha neta chegar tão longe é a melhor recompensa da vida”, extasia-se a avó. E o coração? “Tem que agüentar, uai! Tem que ficar firme”. Com os olhos marejados, confessa: “Tô louca para dar um abraço nela”.
Em Pequim, Ketleyn subia ao pódio. Em Ceilândia, o povo — amigos, parentes e vizinhos — começou a invadir a casa da medalhista olímpica. As duas irmãs, Aline, de 14 anos, e Maria Eduarda, 1, vibraram como se elas fossem as vitoriosas. A menorzinha acordou com a confusão dentro de casa. Logo nas primeiras horas da manhã, o tititi estava formado. Havia quem, ao passar pela rua e ver a faixa pregada no alto, dizia: “É aí que ela mora!” Outros, incrédulos, duvidavam: “Será mesmo?”
E a romaria de curiosos só aumentava. Reginalda Soares, 33 anos, dona do mercadinho da quadra, levou o filho Wallace, 8, para conhecer as medalhas e os troféus de Ketleyn — expostos como santuário na varanda da casa. Ali, a família colocou todas as conquistas da menina que sonhou vencer. “Trouxe ele aqui para ver se toma isso como exemplo”, explicou.
A família mandou confeccionar, com o dinheirinho suado de cada um, 19 camisetas verdes com a foto de Ketleyn. E a mensagem: “Lutar sempre, cair talvez, desistir jamais”. Cada uma custou R$ 20. Sobrou para o tio da atleta, José Milton Oliveira Lima, 47, que deu o cheque com o valor total. “Espero que todos me paguem”, ele brinca. Depois, comovido, agradece a Deus pela conquista da sobrinha: “É o resultado de toda a luta, da força de vontade e da persistência de Catarina (é assim que o ele a chama, na intimidade)”.
Brigona na rua
E foi assim, com essa persistência, que tudo começou na vida de Ketleyn. Aos 7 anos, uma professora da Escola Classe de Ceilândia, onde a menina estudava, chamou a mãe. E a aconselhou que colocasse a filha numa atividade física. Ketleyn era hiperativa. Gostava de andar de patins, skate, jogava futebol, vôlei e handebol. “Ela nunca gostou de brincar de bonecas”, conta a tia, Roselene Lima, 40, que trabalha nos Correios como carteira.
Ketleyn tinha energia demais e precisava extravasá-la. Rosemery tremeu. Nunca antes ouvira falar em hiperatividade. Chegou até a pensar que a filha fosse diferente. Teria que tomar remédio? Era apenas uma criança normal que precisava ser orientada para usar tanto talento e disposição. A cabeleireira, que trabalhava fora, faltou ao trabalho. Foi atrás de uma vaga para a menina em algum lugar.
Parou no Sesi, de Ceilândia. E logo Ketleyn foi matriculada na natação. Mas quem a levaria para as aulas? A missão coube a Marilda, a avó. Cheia de energia, a danada Ketleyn saía da piscina e ficava olhando os treinos de judô. Espiava com o olho comprido. Queria muito estar ali, naquele tatame. Um dia, o professor Éder Marques da Silva, hoje com 45 anos, chamou a menina para treinar. Ela não pensou duas vezes.
Esqueceu a natação e, ainda aos 7 anos, começava com o esporte que mudaria sua vida para sempre e a consagraria. “Ela, por ser muito danada, gostava de brigar na rua. Com o judô, nunca mais brigou”, lembra Éder, o primeiro técnico. Logo, ganhou sua primeira medalha, em competição infantil. Era de prata. “Ela sempre teve raça”, ele diz, comovido. E continua: “Vê-la hoje (ontem) ganhando uma medalha nas Olimpíadas é sentir o que eu mesmo não consegui. É minha realização. Toda vez que ela volta a Brasília, ela vem aqui. A Ketleyn não se esqueceu da gente”.
O talento da menina logo começou a ser notado. Vieram as competições e as primeiras conquistas. Em 2000, aos 12 anos, ela saiu do Sesi e foi treinar no Espaço Marques Guiness, em Taguatinga. E mais uma vez a mãe cabeleireira se desdobrou para que ela nunca deixasse de ir aos treinos por não ter o dinheiro da passagem do ônibus. “A determinação da Katleyn sempre me impressionou”, admira-se o segundo treinador, Robert Marques, 31. Em 2006, por falta de patrocínio em Brasília, a atleta mudou-se para Minas Gerais. Passou a integrar a equipe do Minas, de Belo Horizonte. E nunca mais parou de competir. Vieram as conquistas nacionais e internacionais. E o sonho das Olimpíadas só aumentava. No próprio Minas, arrumou até um namorado. O rapaz é da equipe de futsal do clube.
Suor e lágrimas
Na madrugada de ontem, o sonho virou realidade. Estava lá, para o mundo ver. Rosemary também quis ver de perto. Chegou à China graças a um mutirão de solidariedade alheia. Patrocínio — de um supermercado, um comércio, de uma faculdade e até de uma farmácia — garantiu a ida da cabeleireira aos Jogos Olímpicos de Pequim. Na manhã insone de ontem, Aline, a irmã de 14 anos, definiu a medalhista: “Ela é uma batalhadora”. João Lima, 44, o tio, revela: “Ela é luz, irradia energia. Tinha certeza que conseguiria uma medalha. E fez isso com muito suor e muita lágrima, mesmo que digam (alguns setores da imprensa a chamam assim pela forma aparentemente fria com que enfrenta as adversárias ) que ela é mulher de gelo. É só aparência. Ketleyn é apenas uma menina e tem uma sensibilidade muito grande”.
A parentada toda, de todos os cantos do Distrito Federal — Taguatinga P Sul, M Norte, Luziânia, Brazlândia, Águas Lindas — lotou a casa humilde da atleta. Marilda, a avó, perdeu a fome. “Uai, como é que a gente come numa hora dessas?” Na madrugada de ontem, Maria Eduarda, a irmãzinha de 1 ano, tocou o rosto de Ketleyn quando ela apareceu na televisão. Bateu palma. Quis beijá-la. Os parentes e amigos também correram para perto da imagem. Queriam abraçá-la. E chamá-la de campeã, heroína, vitoriosa, inacreditável. Como é longe a Ceilândia de Pequim…