02/11/2009 - 11:45h Copo meio cheio

LÚCIA GUIMARÃES – NOVA YORK – O Estado SP

A última semana começou com um número que preocupou muitos jornalistas americanos. A rede CNN despencou para o quarto lugar de audiência do jornalismo na TV a cabo. E a Fox, comemorando sua condição de “perseguida” pelo governo Obama, disparou para um folgado primeiro lugar.

A CNN inventou o jornalismo de 24 horas e o fundador da Fox, Roger Aisles, inventou o comício eletrônico travestido de jornalismo.

Desde que uma assessora de Barack Obama fez o calculado primeiro disparo, no dia 12 de outubro, afirmando que a Fox não passa de uma ala do Partido Republicano, comentaristas de variada coloração ideológica discutem a sensatez da tática.

A venerada Primeira Emenda da constituição americana, que garante a liberdade de expressão, imprensa e religião, é invocada frequentemente pelos que não acreditam nela.

No ciclo viral de notícias, a estupidez se propaga com a velocidade da luz. Exemplo: Barack Obama foi comparado a Richard Nixon, o garoto-pôster da perseguição à imprensa. Desde quando um presidente que se indispõe com a imprensa ou setores dela é uma anomalia? E qual é a semelhança entre Nixon, notoriamente paranoico e conspirador, que grampeava e ameaçava jornalistas, e o atual presidente americano?

Um excelente artigo editorial no Wall Street Journal assinado por Thomas Frank, cujo espaço é um oásis de sensatez entre as tropas de choque de Rupert Murdoch, lembrou que a perseguição nas mãos das “elites” é um dos motes da rede Fox.

O levante conservador americano a partir da década de 90 alimentou-se desta falácia narrativa – entre Nova York e Los Angeles, a middle-America é explorada e desprezada pelas hordas de privilegiados que comem rúcula e dirigem carros híbridos.

Frank oxigenou o debate com dois argumentos: Obama está certo, a Fox News é um contínuo talk-show conservador. Ela foi criada pelo homem que salvou a carreira de Nixon na década de 60, reinventando o futuro presidente para a TV. Roger Ailes perde seu sono com a Primeira Emenda tanto quanto eu perco o meu com golfe.

Obama está errado na forma desajeitada como colocou a rede na berlinda. Frank diz que a Casa Branca “jogou gasolina numa fogueira” ao alimentar as teorias conspiratórias da rede adversária quando podia ter apelado para o humor, a ironia e o sarcasmo.

Um bom cursinho preparatório para enfrentar jornalista crasso é assistir a gravações não editadas das coletivas de John Kennedy, que reagia com um humor relaxado de quem está diante de um Martini e não de um microfone.

E assim voltamos a uma fundação que tem aparecido com frequência na imprensa americana. O Pew Research Center for the People & the Press toma o pulso do público americano em sua reação à mídia. O centro se tornou uma fonte preciosa de informação neste momento de confluência de duas angústias coletivas: a crise econômica na mídia tradicional e a epidemia de jornalismo ideológico.

A última pesquisa do Pew Center confirma o que sabemos: o papel da ideologia no consumo de notícias é cada vez maior. E a Fox é vista como a mais ideológica das redes de cabo. Explica-se o quarto e último lugar da CNN, atrás até de sua parente, o canal HLN, um híbrido de notícias curtas e talk-shows. A rede, apesar de vista pela maioria como “liberal” (à esquerda do espectro político americano) e de abrigar figuras como Lou Dobbs, o profeta do apocalipse causado por imigrantes, não se posiciona como pró ou contra Obama. A ópera-bufa da esquerda e da direita no cabo é protagonizada pela MSNBC e a Fox.

Enquanto o musculoso e peripatético Anderson Cooper enxuga as lágrimas com a queda de mais de 70% da audiência de seu programa em horário nobre na CNN, vale a pena notar um número mais interessante para quem acredita que o jornalismo tem um papel em qualquer democracia.

O site cnn.com de notícias está muito à frente das rivais. O publisher do New York Times, Arthur “Pinch” Sulzberger, fez analogias com o Titanic, ao ser consultado, num evento público, sobre o futuro dos jornais mas não destacou outro dado: o seu notável site teve sólidos 21 milhões e 500 mil visitantes únicos em setembro.

Vou argumentar que o declínio do jornal impresso convive com o apetite por noticiário objetivo. Já a falta de apetite pelas aventuras de Anderson Cooper pode mostrar o que acontece quando o jornalismo fica com o ouvido no chão, tentando detectar o tropel dos cavalos.

A revista Time perguntou aos leitores, logo após a morte do lendário Walter Cronkite, em julho, qual o âncora em que os americanos mais confiam. Jon Stewart, o comediante com vasta audiência jovem e apresentador do falso telejornal The Daily Show, ganhou disparado, com 44% de votos. Um sinal de triunfo da ironia como embalagem da notícia?

Em 2008, metade dos espectadores da Fox tinha mais de 63 anos e a maioria dos espectadores dos programas mais agressivamente ideológicos da rede era formada por homens. Os números foram citados por Louis Menand, na New Yorker, que comparou a cólera da Fox a um Viagra político.

Estou enganada ou há uma luz demográfica no fim deste túnel?

24/10/2009 - 17:50h Prêmio Esso de jornalismo 2009

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Foto de Marcelo Carnaval. O Presidente Lula na imagem intitulada “Crise, que Crise”, publicada no jornal O Globo.


As comissões de seleção do Prêmio Esso de Jornalismo 2009, após sucessivas reuniões realizadas nos dias 19, 20, 21 e 22 de outubro, no Rio, concluíram as tarefas de indicação dos trabalhos que concorrerão à premiação em 11 categorias. Os vencedores deste ano serão conhecidos no dia 8 de dezembro, durante cerimônia de premiação a ser realizada no Hotel Copacabana Palace, no Rio. Ao todo, 25 jornalistas, alguns dos quais integrantes de equipes dos maiores jornais brasileiros, examinaram durante cerca de 30 dias um total de 1.091 reportagens, fotografias e criações gráficas, para concluir pela indicação de 35 trabalhos finalistas. A foto vencedora do Prêmio Esso de Fotografia 2009 será escolhida via Internet por uma Comissão Especial de 50 jurados que votarão em um dos cinco trabalhos selecionados e adiante indicados. Os finalistas são: Moacyr Lopes Junior, com a foto “A Dor da Perda”, publicada no jornal Folha de São Paulo. Arnaldo Carvalho, com a foto “Fome”, do conjunto “Exilados na Fome” publicado no Jornal do Commercio (Recife). Marcelo Carnaval, com a foto “Crise, que Crise”, publicada no jornal O Globo. Daniel Mobilia, com a foto “Fala que eu não te escuto”, publicada no jornal Diario de São Paulo e Daniel Marenco, com o conjunto de fotos “No Corredor do Inferno”, publicado no jornal Zero Hora.

Fonte Images&Visions

19/10/2009 - 16:34h Maçã verde

LÚCIA GUIMARÃES – NOVA YORK – O ESTADO SP

A moça do caixa me fez a pergunta antes de dar o troco e, em segundos, quase regredi à menina insegura do Colégio Santa Úrsula. Você precisa de sacola? “Não, Madre Superiora, quer dizer, não, é claro, cabe tudo na minha bolsa.”

Espera aí, não estava eu na maior rede de farmácias do país? A que mantém as lojas iluminadas à noite, o ar condicionado ou o aquecimento a toda? A corporação gigantesca estava patrulhando minhas pegadas de carbono?

No meu bairro, tradicionalmente democrata e politicamente correto, a mudança cultural é evidente.

Nos últimos anos, quando via um grupo de policiais na esquina, concluía, aos bocejos, que o banco havia sofrido mais um assalto relâmpago – geralmente um drogado solitário, fingindo ter uma arma sob a camiseta, levava o conteúdo de um caixa.

Na semana passada, dobrei a esquina e notei que a presença policial tinha atraído muita gente. Era horário de saída de um jardim de infância e as mães fotografavam a cena com seus celulares. Um caminhão de lixo havia estacionado e seu motorista muito nervoso confabulava com os policiais, que evitavam o olhar do público. E com razão. O inspetor municipal tinha surpreendido o dono da barraca de frutas e legumes ocupando mais espaço na calçada do que o permitido pela licença. E começou a despejar caixas e caixas de alimentos que foram devorados pelo caminhão de lixo. Um grupo de mulheres começou a gritar e chamou a polícia. Algumas discavam para as redações dos canais de TV locais. Saí fotografando, é claro, como alguém que imita os modos dos outros convidados num jantar de cerimônia. Uma desconhecida se aproximou de mim e disse: “Eu tenho um blog sobre comida orgânica, você me manda suas fotos? Nós vamos criar o maior caso.” Cada novo pedestre que perguntava o motivo da comoção ouvia um discurso ainda mais exaltado sobre o desperdício imperdoável.

Os Estados Unidos com menos de 5% da população mundial, consomem um quarto dos recursos de energia do planeta. Mas a cidade para onde me mudei, na década de 80, agora parece querer se penitenciar.

E como estamos num país fundado por puritanos, o ambientalismo vem com fortes doses de censura e culpa.

Numa festa de aniversário recente, notei um par de olhos fixos em mim enquanto lavava a louça. Em anos anteriores, a dona da casa me agradecia e dizia aos convidados ela ajuda sempre. Desta vez, a minha anfitriã não queria a minha ajuda. Explicou que era preciso enxaguar a louça no bacia colocada na pia e só abrir a torneira na hora de tirar o sabão. A crise de abastecimento é na Costa Oeste, pensei comigo mesma, enquanto aderia ao novos tempos.

Um comediante popular do canal HBO lidera uma campanha contra o golfe. Não porque seja um esporte cujo tédio desafia a minha compreensão. Mas porque os gramados consomem uma quantidade pornográfica de água em regiões secas.

Como ninguém há de se declarar contra o meio ambiente, a etiqueta ecologicamente correta, às vezes, desafia o bom senso. O prefeito Bloomberg prometeu designar 80 quilômetros de ciclovias por ano. Aplausos.

Mas já me juntei às estatísticas crescentes de atropelados por bicicletas. Enquanto esperava o roxo da perna desaparecer, comecei a ler sobre os acidentes em blogs e, só quando um executivo em sua bicicleta luxuosa matou um homeless no Central Park, pedalando a 60 km por hora, o desatino começou a ser mais bem documentado pela imprensa. Como trocar o carro pelo pedal é “do bem”, demoraram a entender que ignorar regras do tráfego urbano não é.

O virtuosismo ambientalista oferece um desafio especial neste país, em que o consumo é responsável por 70% da economia. Aqui se inventou a noção de shopping, comprar, como um fim e não um meio, uma atividade semelhante a jogar futebol ou ir ao cinema.

Na calçada da minha rua, em dias de coleta, dezenas de sacos de lixo selecionado por material para reciclagem convivem com mobília em perfeitas condições, já que o custo da mão de obra de transporte para vender ou doar equivale a comprar uma peça nova.

Nesta capital americana do consumismo, a experiência de assistir ao documentário No Impact Man é especial. O escritor Colin Beavan, autor do livro homônimo, recém-lançado com o filme, decidiu submeter sua família, mulher e filha de 2 anos a um ano de redução radical de suas pegadas de carbono. Passou os primeiros 6 meses sem eletricidade, subia e descia os nove andares de seu prédio no Village com a pequena Isabella nos ombros. Eles não andavam de carro, não faziam compras, só consumiam comida local e produtos de limpeza sem substâncias tóxicas. A experiência quase acabou com o casamento e Beavan foi acusado de atrair o ridículo para a causa ambientalista. Mas, ao servir de cobaia para um estilo de vida sustentável para o planeta a insustentável para a saúde mental da maioria, a família protagonizou uma narrativa fascinante. Ao contrário do zelo ecológico que frequentemente não se distingue de outros extremismos, Colin Beavan deixou pegadas de humanidade no caminho cheio de obstáculos de onde não podemos voltar.

21/09/2009 - 12:20h Desconfiança coletiva

Lúcia Guimarães, NOVA YORK – O Estado SP

Uma nova pesquisa revelou que quase dois terços dos americanos desconfiam das notícias divulgadas por jornalistas. É o índice de credibilidade mais baixo desde que o Pew Research Center começou a fazer a pesquisa, em 1985.

O resultado é assustador ao fim de um ano cheio de acontecimentos marcantes – o crash de setembro, a pior crise econômica desde a Grande Depressão, a eleição de Barack Obama. Foi um período histórico que poderia restaurar parte do prestígio da mídia jornalística. Mas os números da pesquisa mostram que a suspeita de desinformação só aumenta.

Entre as estatísticas sombrias: 74% das 1.506 pessoas ouvidas durante a pesquisa, em julho passado, acreditam que a mídia noticia fatos de cunho social ou político sob o prisma do preconceito ideológico. O racha partidário também cresceu, com republicanos habitualmente mais confiantes na cobertura da Fox de Rupert Murdoch e democratas mais dispostos a acreditar na CNN e na MSNBC, esta francamente pró-Obama.

Posso continuar a desfiar o rosário de más notícias sobre o meu ofício, mas faço uma pausa para uma ausência notável na pesquisa. Não houve distinção entre mídias. E, como sabemos, “mídia” engloba conglomerados de tentáculos planetários como também um neonazista com educação primária blogando de cuecas nos cafundós do Estado de Montana.

Convenhamos que há uma diferença expressiva, mesmo considerando que Rupert Murdoch, o planetário, emprega gente como Rush Limbaugh e Glenn Beck, apresentadores de talk shows que desafiam qualquer parâmetro de ética. E por falar no energúmeno Beck, sua cara ocupa, esta semana, um território cobiçado, um dos centímetros quadrados mais valorizados da mídia tradicional. A capa da edição americana da revista Time.

Talvez a Time tenha fornecido involuntariamente uma explicação parcial para os resultados abismais da pesquisa do Pew Center. A capa é bombástica, como se espera, mas a foto escolhida, Beck com a língua de fora, revela mais sobre o dilema da mídia tradicional do que sobre o retratado. O título é Homem Louco: Glenn Beck Faz Mal à América?.

A pergunta é retórica, não respondo pelos outros, mas vou levar para o terreno pessoal: o que me faz mal é não poder mais contar com a maturidade de uma revista de circulação nacional, fundada há 86 anos.

Ao humanizar Beck com uma foto brincalhona, a Time já embarca emasculada na tarefa de conferir o efeito nefasto do circo de extrema direita. Ao definir Beck, notório por acusar Obama de racista, como um “talentoso empresário da angústia no mercado quente dos brancos”, a revista não detecta apenas o óbvio: que Beck fatura o temor branco num país onde as minorias raciais serão maioria em 2042 – ou antes, se as projeções do próximo censo voltarem a antecipar a transformação demográfica.

A reportagem fala de um protesto recente em Washington citando fontes liberais (nos Estados Unidos, liberal é à esquerda) e fontes conservadoras e, assim, dá o tiro no próprio pé. O fato requer a muleta do prisma ideológico para ser noticiado. A intenção da revista, imagino, é parecer equilibrada. Mas o resultado sugere o desespero de uma indústria ameaçada, tentando ser tudo para todos. A polarização política da mídia produziu o que o saudoso Nelson Rodrigues poderia ter batizado de o idiota da subjetividade.

Se vamos em frente com esta forma de editorializar o mundo, logo será sensato citar a Teoria da Evolução como uma conspiração liberal.

O crescente ateísmo do público em relação à atividade que já foi definida como o Quarto Poder parece coincidir com o esforço para sobreviver à transformação econômica. Na continuação da curva descendente, a receita de publicidade dos jornais americanos caiu 29% na primeira metade do ano.

A crise de identidade do jornalismo era inevitável diante do choque provocado pela internet. Mas concordo com quem acha que a internet atingiu uma indústria já enfraquecida por outra erosão: a perda da convicção na própria singularidade, da noção de que reportagem e fabricação de sapatos são atividades com retornos econômicos e propósitos distintos.

Além de inviabilizar as formas tradicionais de sustento da indústria, a internet mudou a hierarquia de consumo da notícia. Um sintoma evidente foi a percepção do blog caseiro como um bolchevismo, uma vanguarda para fazer justiça ao tzarismo corporativo do jornalista profissional. Sabemos onde o bolchevismo foi desaguar. Ainda atravessamos a incerteza da descentralização da notícia.

Quem pode ser contra a democratização do acesso à informação? Mas a perda da confiança do público na mídia jornalística é cria da possibilidade de todos falarem ao mesmo tempo.

Na Grécia Antiga, os mensageiros tinham proteção para ser portadores de notícias, mesmo as que desagradavam aos poderosos.

Ao se comportar como um mensageiro intimidado pela ira do destinatário, a mídia contribui para a desconfiança ilustrada pela pesquisa do Pew Center.

25/08/2009 - 14:51h O método Serra de calar a crítica

Blog de Nassif

Maria Inês Nassif é das melhores analistas da realidade política brasileira, um sopro de lucidez no dia a dia dos jornais. Sou suspeito, admito. Mas Luiz Carlos Bresser-Pereira, Luiz Gonzaga Beluzzo, Antonio Barros de Castro, o falecido Gilberto Dupas e outros dos mais influentes intelectuais brasileiros concordam.

Recentemente ela analisou a lei anti-fumo do governador José Serra e considerou que o ponto central era a delação. O título do artigo era “Um incentivo à deduragem” (clique aqui).

Uma pessoa qualquer que estiver no restaurante quando alguém acender um cigarro lá dentro poderá ligar para um 0800 e fazer uma denúncia, ou preencher um “formulário” na internet. A sua palavra é prova contra o restaurante e dela decorrerão sanções legais. Para a lei, basta que o denunciante diga que não mentiu para que a sua denúncia seja considerada verdade. O estabelecimento acusado, no entanto, terá que provar que a denúncia foi mentirosa para ser considerado inocente.

A análise se baseava no estudo da lei e nas declarações textuais do Secretário de Justiça Luiz Antonio Marrey.

O secretário de Justiça do Estado, Luiz Antônio Marrey, ao comentar uma pesquisa do Instituto GPP e da InformEstado que indicava que 64,9% dos entrevistados não pretendem denunciar locais com fumantes, disse que, num primeiro momento, a “metade que vai denunciar é suficiente para colaborar com a fiscalização”. A tendência é que a delação aumente, para o bem de todos, disse o secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata: “O uso do cigarro em ambiente interno é culturalmente aceito há anos. Começamos a mudar isso só agora. Por isso, nesse primeiro momento, a intenção de denunciar não aparece. Acredito que, com a aplicação da lei e os donos de bares se engajando em preservar os estabelecimentos, as denúncias vão surgir”.

Não havia um erro factual, uma distorção sequer das declarações. Em cima disso exerceu seu direito de opinar e condenar o instituto da delação.

A reação de Serra foi furibunda.

Escreveu um carta, fez Marrey assiná-lo,com um conteúdo extravagante (clique aqui):

1. Admitiu a delação e fez sua defesa.

A ideia de delação vem carregada de rejeição. Na vida, não faltam exemplos de mesquinharia, vilania e torpeza de quem entregou judeus à Gestapo ou seu companheiro de lutas libertárias à tortura. Por outro lado, a delação é punida com a morte pelas organizações criminosas como nos lembra José Ricardo Ramalho na obra “O mundo do crime ou a ordem pelo avesso”, que estudou o universo das prisões.

O artigo confunde conceitos: defender o direito de cada um à saúde e o direito de exigir providências para seu respeito por parte do Estado – ou seja, o exercício da cidadania ativa – transforma-se em delação.

Por esse critério, o jornalista que contar à direção do jornal que um colega faz “matéria paga” pratica delação; quem informar que outra pessoa é um assassino também pratica delação; o policial que informar à corregedoria que seu companheiro usa a tortura ou recebe propina é delator; a mãe que revelar à polícia o autor do estupro praticado contra sua filha é delatora. E todos mereceriam ser estigmatizados, o que é um absurdo.

A argumentação era sofrível. Não entrava no centro da questão, de aceitar a palavra do delator e transferir o ônus da prova da inocência ao acusado.

2. Fez ataques pessoais a Inês, insinuando que ela estava a serviço da indústria do cigarro.

Como já ocorreu no mundo inteiro, a indústria do tabaco desencadeou, por intermédio de seus parceiros, uma intensa campanha com objetivo de desacreditar a lei e boicotar sua efetiva aplicação.

Repito: quem escreveu ou pelo menos orientou o conteúdo foi o próprio Serra. Por imposição dele, a carta foi promovida a artigo, com insinuações contra a honra da jornalista. A intenção foi constranger qualquer crítica futura, mostrar o poder do príncipe: qualquer crítica a Serra, produzido em alguns dos órgãos sob sua esfera de influência terá como resposta ataques pessoais aos jornalistas, escritos em espaço privilegiado no próprio veículo do jornalista. E seu poder atual decorre do cargo de governador de São Paulo que tem a mídia como aliada. O que ocorreria com ele Presidente da República?

Pensa, com isso, que humilhou a Inês. Bobagem: a humilhação foi imposta à direção de redação, que cedeu.

Como Serra é um político que não teme nenhuma forma de poder, sua próxima verrina será dirigida ao jornal O Globo que, em editorial da semana passada, afirmou o seguinte sobre a lei anti-fumo:

Editorial de O Globo

Sob tutela

Quando uma doutrina autoritária chega ao poder, ela pode se expressar de várias formas, e até, à primeira vista e formalmente, dentro da lei. Há medidas tomadas, nas esferas federal e estadual, em que são bastante visíveis as impressões digitais de um tipo de visão segundo a qual a sociedade precisa ser vigiada, tolhida e, se for o caso, punida, para adotar “bons costumes”.

A questão da proibição do fumo em qualquer espaço público comercial, em São Paulo e agora no Rio, é emblemática. Lastreada em propósitos louváveis – a preservação da saúde -, a proibição, por radical, cassa o direito do fumante, ao suprimir as áreas antes reservadas para ele. Outra característica desta doutrina autoritária é eximir o Estado de responsabilidades, punindo terceiros por delitos configurados como tais por este tipo de norma. No caso do fumo, a punição recai sobre o dono do bar, do restaurante, do que seja. Em vez de o poder público se responsabilizar pela repressão, ela é transferida, por imposição pecuniária, a outros.

24/08/2009 - 16:22h Futuro parece sombrio para o fotojornalismo

DINHEIRO & NEGÓCIOS

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Por DAVID JOLLY

PARIS — Quando os fotojornalistas e seus admiradores se reunirem no sul da França, no final deste mês, na mostra Visa pour l’Image, comemoração anual de seu ofício, muitos profissionais poderão estar se perguntando quanto tempo ainda conseguirão aguentar.
Jornais e revistas têm cortado os orçamentos de fotografia ou fechado suas portas, e as redes de TV reduziram a cobertura noticiosa em favor de material menos caro. Imagens e vídeos amadores tirados com celulares são publicados em sites da web minutos depois dos fatos. Os fotógrafos que tentam ganhar a vida retratando as notícias dizem que há uma crise.
O último sinal de problemas foi o da empresa dona da agência de fotos Gamma, que pediu concordata em 28 de julho após sofrer prejuízo de US$ 4,2 milhões no primeiro semestre, quando suas vendas caíram quase 33%.
A Gamma foi fundada em 1966, pelos fotógrafos Raymond Depardon e Gilles Caron. Juntamente com as agências Sygma, Sipa e a mais antiga Magnum, ela ajudou a fazer de Paris a capital mundial do fotojornalismo.
Um tribunal de Paris deu à dona da Gamma, a agência Eyedea Presse, seis meses para se reorganizar. “Aguentamos até onde pudemos, mas este modelo empresarial não é mais viável”, disse Stéphane Ledoux, executivo-chefe da empresa.
Olivia Riant, porta-voz da Eyedea Pesse, disse que haverá cortes de empregos. “O problema é que a fotografia jornalística está acabada”, ela disse. “Vamos parar de cobrir fatos diários para cobrir temas com maior profundidade.”
A Gamma foi adquirida em 1999 pela Hachette Filipacchi Médias, uma unidade da Lagardère, que a combinou com outras operações para fornecer fotos para suas revistas. Mas o negócio não prosperou, e ela foi vendida em 2007 para o fundo de investimentos Green Recovery. As concorrentes da Gamma não se saíram muito melhor: a Sygma foi adquirida pela Corbis em 1999, e a Sipa, pela Sud Communication em 2001.
O fotojornalismo viveu uma era dourada desde antes da Segunda Guerra Mundial até a década de 70. Revistas como “Time”, “Life” e “Paris Match” —e virtualmente todos os grandes jornais do mundo— tinham orçamentos para empregar legiões de fotógrafos.
Mas, hoje, em uma época de menor receita publicitária e demissões, editores de fotografia de diversas publicações têm de pensar bem antes de mandar um fotógrafo em campo ao custo de US$ 250 por dia, mais despesas.
As grandes agências de notícias —Associated Press, Agence France Presse e Reuters, junto com locomotivas regionais como Kyodo, no Japão, e Xinhua, na China— dominam a fotografia jornalística. Mas o negócio de comercializar e vender fotos digitalizadas é comandado por duas empresas globais: a Getty Images, fundada em 1995, e a Corbis, fundada em 1989 pelo presidente da Microsoft, Bill Gates.
As empresas de fotos de arquivo ganharam destaque ao comprar centenas de arquivos de imagens e disponibilizá-los para venda on-line. Enquanto continuam patrocinando o fotojornalismo, as companhias são na verdade serviços de gerenciamento de direitos autorais de propriedade digital.
Na Getty, 70% das receitas vêm da venda de imagens de arquivo. “Fotojornalismo significa que os fotógrafos podem contar a história em imagens, e havia lugares onde eles podiam publicar essas fotos”, disse o principal executivo da Getty, Jonathan Klein. “No mundo da imprensa, a maioria desses lugares desapareceu desde então.”
Mas, ele acrescenta, há motivos para otimismo, porque “graças à web hoje há bilhões de páginas para os fotógrafos mostrarem seu trabalho”.
Jean-François Leroy, organizador do festival de fotojornalismo Visa pour l’Image, que começa neste sábado, na França, apontou como outro problema a menor ênfase a temas sérios na mídia. “Os fotógrafos estão produzindo coisas ótimas, mas hoje a mídia só parece se interessar por celebridades”, disse.

12/08/2009 - 17:31h New York Times aponta crise no fotojornalismo

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© Keystone / Eyedea. Fotojornalista na inundação de Londres, 1927.

O jornal norte-americano The New York Times (NYT) publicou reportagem nesta terça-feira (11/08) em que alerta para a crise vicenciada pelo Fotojornalismo. O texto baseia-se em dados como a concorrência dos fotógrafos profissionais com amadores na internet, além da recessão e cortes de despesas nos orçamentos de revistas e jornais. O caso da tradicional agência Gamma -que entrou em concordata no último dia 28 -também é utilizado como aviso à sobrevivência do setor. A citada Gamma, localizada em Paris, acumulou dídida de US$ 4,2 milhões no primeiro semestre deste ano. Fundada em 1966, foi uma das agências independentes que transformou a França na capital do Fotojornalismo mundial. Após a concordata, a Justiça de Paris concedeu seis meses para a Eyedea Press -proprietária da agência- se reestruturar. No texto, a porta-voz da empresa justifica a crise no setor e faz um alerta: “O modelo de negócio não está funcionando hoje. Portanto, sem mudanças, não funcionará amanhã. O problema é que o Fotojornalismo acabou. Vamos parar de cobrir assuntos diários e partir para temas mais profundos”, disse Olívia Riant.

Fonte: Images&Visions e Portal Imprensa

20/07/2009 - 10:58h ‘Bafafá político’ impede debate sério no Brasil, diz Paulo Cunha

“O Brasil precisa discutir o pré-sal, discutir questões mais relevantes”, (…) “Esse bafafá político tem impedido o país de discutir essas questões.”

Constatação lapidar do empresário Paulo Cunha em entrevista a Folha SP hoje.

Ontem Janio de Freitas escreveu que “Espetáculos de degradação como o do Senado se afiguram para a classe dominante brasileira como espetáculos”. O Ombudsman do jornal, coincidentemente, ponderou que a cobertura feita pela Folha contribui para transformar o Congresso em “baudeville”* e servir assim ao espetáculo da mesma classe dominante.

O empresário Paulo Cunha, da “classe dominante” não aceita o “divertimento” e remete a sua real dimensão os escândalos, verdadeiros ou fabricados, que a mídia nos fornece cotidianamente.

A crítica do ombudsman e a entrevista de Paulo Cunha com destaque para à frase acima na própria capa do jornal, talvez signifique que a Folha esteja querendo corregir seu curso e voltar a ser um espaço para a discussão das questões relevantes evocadas por Paulo Cunha.

Neste blog tenho feito um esforço para evitar o “bafafá” e tratar do que me parece ser relevante, mas nem sempre tenho conseguido pois é abrumadora a pressão para tratar a política como espetáculo.

O udenismo de setores médios, particularmente de São Paulo, alimentados pela ação política opositora de grande parte da mídia e de alguns setores partidários, impregna a atmosfera poluindo um debate urgente e necessário.

Luis Favre

http://veja.abril.com.br/060199/imagens/holofote2.jpgENTREVISTA DA 2ª – PAULO CUNHA

Bafafá político atrapalha o debate de temas relevantes

Para o presidente do conselho do grupo Ultra, sistema político não atende à necessidade do país e não recruta as melhores pessoas para seus quadros

NOS ÚLTIMOS anos, o empresário Paulo Cunha, presidente do conselho de administração do grupo Ultra, tem adotado um estilo bastante reservado. Avesso a entrevistas, ele prefere se manter como um expectador privilegiado da cena nacional.
Nesta entrevista concedida na semana passada na sede do grupo Ultra, em São Paulo, Cunha manifesta otimismo com as perspectivas da economia, apesar da crise. Na sua opinião, o Brasil perde muito tempo com o que ele chama de bafafá político, quando há temas mais relevantes para serem discutidos no país.

GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA

“O Brasil precisa discutir o pré-sal, discutir questões mais relevantes”, diz Cunha. “Esse bafafá político tem impedido o país de discutir essas questões.”
Para ele, o sistema político não atende às necessidades do país. Um dos grandes problemas é a forma como se escolhe as pessoas no setor público.
“Se uma empresa fizesse o recrutamento dos seus quadros da mesma maneira que os partidos, as empresas estariam fora do jogo”, afirma. “O governo precisa ser estatizado.” A seguir, trechos da entrevista.

FOLHA – A crise acabou?
PAULO CUNHA
- Em primeiro lugar, temos de olhar a crise na sua origem. [...] A crise surgiu do grande desbalanceamento do comércio nas finanças internacionais. De um lado, o gigantesco déficit americano; de outro, o gigantesco superávit de Ásia e Alemanha. [...] Também havia o elevado endividamento do consumidor americano. A poupança é praticamente zero e o consumidor americano se endividou muito. A ponto de o nível de endividamento médio do cidadão americano atingir quase 140% da sua renda anual.
É óbvio que tinha de estourar.
Os governos agiram e a crise financeira, a crise bancária, foi atenuada. Não diria que terminou, mas está totalmente escorada nos créditos e nas garantias dos governos europeu e americano. Julgo que, uma vez terminado o pânico, já começa a recapitalização dos bancos e o sistema se normaliza. Mas o nível de atividade não se normaliza tão cedo. Há ainda um longo processo de desalavancagem do consumidor americano.

FOLHA – Quanto tempo o sr. acha que pode levar até a recuperação?
CUNHA
- O consumidor americano está ficando novamente conservador do ponto de vista financeiro. Está com medo do desemprego, do futuro. Paga juros elevados e tem dificuldades de se refinanciar. Muitos perderam suas casas, poupanças, aposentadorias e, portanto, estão apertando o cinto e consumindo menos. Quanto tempo? Não sei e suponho que ninguém saiba ao certo.

FOLHA – E como fica o Brasil?
CUNHA
- O Brasil, evidentemente, é parte do mundo. Nos últimos tempos, o crescimento brasileiro vinha sendo turbinado pelo comércio internacional, pelas exportações, notadamente para a China e o Ocidente. Isso, evidentemente, sofreu uma parada devido à crise. O Brasil também está sendo afetado por ter havido um corte muito forte nos investimentos das empresas em resposta à crise. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil vem desenvolvendo o seu mercado interno, de consumo. As classes menos favorecidas, as classes mais pobres, vêm sendo incorporadas gradativamente ao mercado. Está começando a acontecer uma coisa que não havia no Brasil, que é o financiamento de consumo.

FOLHA – Como o sr. vê a reação do governo?
CUNHA
- Em primeiro lugar, foi de susto, tentando negar a crise. Mas, passado o susto, acho que o governo agiu bem e rapidamente. Não havia mesmo necessidade, no Brasil, de segurar o sistema financeiro. O sistema financeiro é sólido. Alguns setores começaram a sofrer um impacto forte, como os de automóveis e de eletrodomésticos, e o governo agiu rápido para restabelecer o consumo. São vendas que dependiam de financiamento. O governo Lula mostrou presteza e atenção.

FOLHA – O Banco Central não demorou a começar a baixar os juros?
CUNHA
- O Banco Central tem sido disfuncional em determinados aspectos. Tem sido lento e suas decisões são sempre na direção do conservadorismo, de manter os juros estratosféricos, mas, depois, acabou agindo na direção certa. Agora, o juro está começando a chegar a números mais civilizados.

FOLHA – Mas o presidente do BC, Henrique Meirelles, não é considerado a âncora da economia?
CUNHA
- Por alguns, mas a âncora da economia, no fundo, é o brasileiro, são as empresas brasileiras, o sistema de produção, a agricultura, o agricultor, o trabalhador, os funcionários das empresas. Tende-se a achar que o governo e algumas pessoas são responsáveis pelo que há de bom. Muitas vezes são responsáveis pelo mal. O bem são os brasileiros que fazem.

FOLHA – Onde o sr. nota essa tendência?
CUNHA
- O Brasil vive hoje uma fase muito interessante, bastante heterogênea. O brasileiro está querendo crescer, melhorar, subir. Está buscando educação. Pela primeira vez se começa a falar de educação de maneira mais ampla e mais profunda no Brasil. Vejo grande parte dos funcionários das empresas que trabalham durante oito horas por dia saírem [do trabalho] e ainda irem para a escola, para algum curso de aperfeiçoamento, para um curso superior buscando o conhecimento para melhorar sua formação. É um esforço muito grande. Outra coisa que se vê é um aperfeiçoamento muito grande na qualidade de gestão das empresas. Essa gestão mais profissionalizada está se generalizando no Brasil. É um fato notável. Tanto que as filiais das multinacionais no Brasil estão em situação melhor do que as matrizes. Os brasileiros estão se transformando em grandes gestores. Cada vez mais se vê brasileiros na gestão de empresas multinacionais.

FOLHA – O governo Lula foi uma surpresa para o sr.?
CUNHA
– O governo Lula sofreu uma mudança de paradigma no momento da Carta aos Brasileiros (antes da eleição de 2002, em que assumia compromissos caso fosse eleito). [...] Ele teve, de um lado, o bom senso de manter as coisas que vinham dando certo, de reconhecer a importância da estabilização da moeda, o valor da higidez das contas públicas. Essas coisas centrais o governo Lula manteve, com uma intensidade que, admito, foi surpresa para muita gente. Ao mesmo tempo, o governo levou atitudes concretas de apoio ao povo mais desassistido. Apesar de os instrumentos básicos terem sido estabelecidos anteriormente, como o Bolsa Educação, a incorporação desses programas no Bolsa Família deu a ele uma nova dimensão.
Agora, nem tudo é tão maravilhoso assim. Do lado institucional há muito a fazer. Nós temos um sistema político que não atende às necessidades do país. O sistema político está recrutando mal. Ele não recruta as melhores pessoas. Se uma empresa fizesse recrutamento dos seus quadros da mesma maneira que os partidos fazem, as empresas estariam fora do ar, fora do jogo.

FOLHA – O sr. acha que é preciso fazer uma reforma política?
CUNHA
- O Brasil precisa de reforma política, mas o mais importante é uma mudança mais profunda na maneira de fazer as coisas. O governo precisa ser estatizado. Algumas estatais estão em grande parte privatizadas, não apenas por políticos regionais mas por determinados partidos. A crise do Senado é uma crise que não é de agora, não é de ontem, não é da semana passada, é uma crise que já vem se desenhando há muito tempo e não é exclusiva do Senado. O Senado está sob o holofote agora, mas, certamente, o mesmo holofote colocado em outros órgãos poderá trazer surpresas desagradáveis.

FOLHA – O sr. acha que a CPI da Petrobras pode chegar a alguma coisa?
CUNHA
– Não sei, acho que essa CPI não vai chegar a lugar nenhum. Não acho que o Brasil se resolva com CPIs. O que o país precisa é discutir o pré-sal, discutir essas questões mais relevantes. Esse bafafá político tem impedido o Brasil de discutir essas questões.

FOLHA – Como o sr. viu a proposta do governo para o pré-sal?
CUNHA
- Não vi a proposta do governo, ainda. O que se tem são vazamentos do que seria. Há duas questões centrais: como é que vão ser repartidos os resultados e como o governo vai se apropriar dos resultados.
Essa é uma questão de grande profundidade. Envolve interesses de Estados, municípios, de um sistema político que já está estabelecido em torno do sistema tradicional de concessões. O governo parece optar por um sistema de partilha.

FOLHA – O sr. aprova a mudança?
CUNHA
- Tanto um como o outro funcionam, mas desde que seja bem administrado, assim como a estatal a ser criada para a operação. Se for bem administrada, transparente, enxuta, a estatal pode funcionar bem.
Mas existe outra questão, que é de grande relevância, que é o que será feito com a exploração das reservas, que ritmo vamos dar à exploração. Não podemos sair numa correria louca para produzir o máximo de petróleo e distribuir esses resultados, senão haverá consequências muito ruins do ponto de vista inflacionário, a partir de uma apreciação forte do real, e os efeitos serão devastadores para o resto da produção brasileira.
O melhor seria explorar de forma moderada, preocupando-se em poupar para o futuro.

12/07/2009 - 10:33h Vida de escritor

Com dois livros recém-lançados na França e um filme a caminho sobre seu trabalho, Gilles Lapouge submete a aventura literária e o jornalismo aos prazeres do bom texto

Laura Greenhalgh -O Estado SP

O olhar curioso de quem passa pela calçada da Rue Fondary, altura do número 25, no XVème arrondissement de Paris, certamente flagrará pelas janelas um jovial senhor de cabelos brancos teclando ao computador, entre pilhas e pilhas de papéis. Jovial senhor porque as maneiras são ágeis, a camisa, esportiva, a cabeleira, revolta, e nota-se ainda um arrojado par de tênis contestando os 85 anos de idade do portador. Ultrapassadas duas portas do edifício, uma no plano da rua e outra interna, chega-se enfim ao bureau do escritor e jornalista francês Gilles Lapouge. “Eis onde passo os meus dias. De 8 às 18 você me encontra neste escritório. Faço uma pausa rápida só para o almoço”, diz o anfitrião, em tom meticuloso.

A aparente desordem é o avesso de um caos criativo. Os livros se espalham por todos os cantos (inclusive pelo chão), lotam estantes e a vasta coleção de caixotes para garrafas de vinho – madeirame raro na era das embalagens de papelão e dos engradados de plástico. E espalham-se também as fotografias, as lembranças de viagens, os cartões-postais, uma miríade de objetos esparsos, os quadros, os mapas, os recortes de jornal, enfim, marcadores do tempo para alguém que considera a vida um percurso. Um itinerário. Uma geografia.

Gilles Lapouge tem sido muito solicitado a falar de si nos últimos tempos. Só neste ano, foram lançados dois livros na França, ambos com feitio biográfico, nos quais ele repassa a travessia intelectual, em geral ligada aos movimentos familiares e profissionais. Em La Maison des Lettres (Éditions Phébus), tem-se em forma de livro a longa entrevista que concedeu ao jornalista francês Christophe Mercier. É conversa de vida inteira, recuperando a infância feliz na Haute Provence, o período de maior isolamento social na Argélia, para onde o pai militar foi transferido, a juventude em Paris, a descoberta do Brasil através de um convite de trabalho do jornal O Estado de S. Paulo, as múltiplas influências literárias e todas as errâncias de um intelectual que se desloca para entender o mundo e a si mesmo. O outro livro, La Légende de la Géographie (Éditions Albin Michel), traz o escritor desvendando ao público sua geografia pessoal em uma bela coleção de ensaios sobre assuntos que sempre o intrigaram: as fronteiras, os mapas, a neve, os planisférios, as estradas de ferro, e por aí vai. Fora isso, Lapouge virou tema de um documentário dirigido pelo cineasta francês Joel Calmette, em fase de produção. “Lapouge adora flanar para então se perder. Por toda a vida cultivou esse gosto pela errância, pela escapada, pela digressão”, diz dele o jornalista e escritor Bernard Pivot, com quem partilhou incontáveis debates culturais na televisão francesa.

Nesta entrevista, concedida numa tarde de primavera em Paris, Gilles Lapouge confessa algumas de suas paixões. Uma delas, pode-se dizer sem margem de erro, vem do prazer da escrita – ali, na Rue Fondary, lapidam-se frases. Outra revela seu amor pela geografia, ciência que o move, o educa e ainda o faz sonhar. Chega a dizer que “todo evento, antes de ser histórico, é geográfico”, enveredando por um labirinto de reminiscências que perpassa uma notável geração de escritores e artistas franceses da qual fazem parte, entre muitos de seus amigos, Maurice Nadeau, lendário editor do jornal Combat, o poeta Claude Mettra e o historiador Jacques Le Goff.

O que parte dos franceses não sabe é que Gilles Lapouge mantém, há quase seis décadas, uma atividade jornalística regular no Estado – inicialmente como articulista econômico e, desde muito tempo, como correspondente e comentarista internacional. “Você acredita que há quem ainda se surpreenda com isso aqui, na Europa?”, indaga com incredulidade. Pergunto, com aquela impertinência só possível entre colegas de trabalho, por que ele sempre se refere ao Estado como “mon journal brésilien”. Lá vem a resposta: “É meu porque jamais o deixei. E porque, não fosse por ele, eu seria um francês normal, sem graça, de uma família francesa desde sempre.” Gilles Lapouge, laureado duas vezes com o Prix Femina e o Grande Prêmio da Língua Francesa, concedido pela própria Academia Francesa, mantém com o Brasil um diálogo intenso, amoroso e, até por isso, difícil. Perturba-o a violência brasileira, “escamoteada por uma cordialidade que nada tem de cordial”.

Os dois livros que saíram este ano na França são distintos na forma, mas nem tanto no conteúdo: o primeiro revela o ensaísta e o segundo traz a longa entrevista que você concedeu a um jornalista francês. Mas você concorda que ambos são, no fundo, biográficos?

Sim, eles atravessam o que fiz e pesquisei nestes anos todos. Em La Légende de la Géographie, eu me detenho sobre temas que me marcaram e sobre os quais tenho pensado. No outro, falo dos meus pais, da família, da infância, da juventude, conto a minha vida numa linguagem bastante direta. Apesar de diferentes na forma, é bem verdade, os dois livros sublinham o meu gosto por escrever. Jamais deixei de cultivar o estilo da escrita, algo que anda em baixa na França, infelizmente.

Por quê?

A educação das pessoas mudou muito e a internet tem tido uma influência tremenda na maneira como andam escrevendo. Fora isso, existe uma nova ideia de cultura, expressa inclusive em novas manifestações artísticas. A minha ideia baseia-se na cultura escrita. Só que hoje tudo é cultura. Uma geleia, um filé, um filme, uma canção, tudo é encarado como cultura, o que leva a uma tremenda dispersão de interesses. Nesse contexto, sou um arcaico que ainda escreve com zelo e carinho.

Como você começou a escrever?

Comecei pela poesia, na juventude. Cheguei rapaz a Paris decidido a ser poeta, como tantos outros companheiros da minha geração. Talvez até pelos militares que tinha na família e pelo que passamos na guerra, cheguei a dedicar poemas “a todos os soldados do mundo”. Mais tarde, ao me aventurar pelo texto narrativo, incorporei um tanto de poesia na escrita. Ainda sou muito ligado na musicalidade do texto, na cadência da frase. O problema é que escritores como eu tendem a ser vistos como “preciosistas” hoje em dia. Meu prazer, e meu esforço, é alcançar um texto de fatura simples e ao mesmo tempo sofisticado. Trata-se de harmonizar contrários. É fazer o refinado dialogar com o popular, até mesmo com o vulgar, se preciso.

Por que nos dois livros você exalta a geografia?

Porque amo geografia sem nunca ter sido bom nela (ri). Sou nulo nesse campo.

Mas você passou por um curso superior de geografia na mocidade.

Sim, numa faculdade em Aix-en-Provence. Estudei a geografia formal. A verdade é que criei uma geografia pessoal: sou alguém que decididamente viaja para se perder. Se penso no norte, é porque estou no sul, se olho para o leste, sinal de que vejo o oeste, e assim por diante. Entrou para o folclore familiar uma viagem que fiz com meus filhos e minha mulher pela Áustria, há muitos anos. Quando chegamos a uma certa cidade, encasquetei que era Innsbruck, me senti em Innsbruck, reconheci Innsbruck. Meus filhos diziam que não havia relação entre o que víamos e o que estava no guia turístico que eles consultavam a todo momento. Eu disse que era culpa do guia, velho, malfeito. Enfim, só fui me convencer de que não estávamos em Innsbruck no dia seguinte, pela minha filha, uma menina de 12 anos! (ri) Os primeiros geógrafos eram pessoas como eu, gente que se perdia. Saíam de suas grutas, de suas pequenas moradias, e se perdiam. Daí passaram a rabiscar croquis para entender a situação. Assim a ciência começou. Imagine se os homens primitivos tivessem GPS? Eles não se perderiam jamais, o que seria catastrófico. Sem que nos percamos, não somos capazes de ver a paisagem.

Paraíso terrestre não existe. Nem mesmo no Brasil

Lapouge revê o mito do país cordial, pacífico, mas que é capaz de camuflar relações ferozes e brutais

Gilles Lapouge, numa tarde de conversa em seu escritório parisiense, lembra do dia em que o pai quase foi fuzilado, critica as utopias e os militantes do “mundo sem fronteiras”, e ainda fala de projetos literários que vem desenvolvendo. Entre eles, o Dicionário Amoroso do Brasil, organizado segundo um olhar particularíssimo sobre “o país que o livrou da matriz francesa”. Autor de duas dezenas de livros, foram editados no País A Missão das Fronteiras (ed. Globo), Os Piratas (ed. Antígona) e Equinocial – Viagem pelos Confins do Brasil (ed. Pontes). Lapouge deverá vir a São Paulo em setembro, para participar de um ciclo de conferências na USP sobre as relações Brasil-França. Será acompanhado pela equipe de cinema que produz o documentário sobre sua obra e trajetória. Várias tomadas já foram feitas, entre elas, a habitual participação do autor de La Légende de la Géographie no Festival de Saint-Malo, dedicado à literatura de viagem.

Você faz uma interessante comparação entre os “marcadores de fronteiras” e os profetas, porque desenham o futuro, ao se referir a seu avô, um general francês que saía em missões demarcatórias. Hoje, há fronteiras instáveis pelo mundo e o próprio sentido de globalização parece atenuar o conceito de demarcação. Como você vê esse fenômeno?

Meu avô demarcou fronteiras, é verdade. Eu não o conheci, mas sua trajetória sempre me fascinou. A começar pela figura dele: era um homem muito pequeno e se deslocava num imenso cavalo. Acho que nunca houve um general tão baixinho no exército francês! E ele detinha esse poder de dizer “aqui é França, aqui não é”. Falar de fronteiras, hoje, é outro capítulo. Tudo anda tão mexido no mundo, mas não podemos perder de vista o jogo dialético que existe entre a fronteira e o fim dela. Sentimos uma espécie de pressão para juntar as coisas, seja pelo comércio, pelos deslocamentos humanos, pelas tecnologias. Mas já vimos que é insuportável a ideia de “mundo sem fronteiras”, como pregam os ativistas do altermundialismo. É um troço horrível e explica em parte o recrudescimento dos nacionalismos. Temos necessidade de demarcações, porque o ser humano não vive sem fronteiras. Por outro lado, depois dos atentados em Nova York, em setembro de 2001, veio a doutrina Bush passando por cima de fronteiras. Ali se perdeu a noção do limite, provocando um traumatismo mundial do qual ainda estamos nos recuperando. Mas, não se engane: mundo sem fronteiras é mundo sem forma.

E a proliferação dos muros separando mexicanos de americanos, israelenses de palestinos, isolando os saauris…?

Muros, gostemos ou não, têm uma razão de existir, assim como as fronteiras. Qual foi o primeiro grande muro da era moderna? Foi o da URSS em relação ao resto do mundo. Lenin e Trotski pensaram a universalização dos direitos, daí vem o stalinismo transformando concepções ideais num separatismo feroz e autoritário. Pense nos muros decorrentes das guerras coloniais. Pense nos independentistas tunisianos e argelinos, a França ergueu um muro abominável, empilhou milhares de cadáveres, cercou aquela população com muros eletrificados, uma barbaridade. Hoje vemos este muro horrendo separando israelenses de palestinos. Mas, por que ele está lá? Porque é impensável juntar israelenses e palestinos, essa é a verdade. Não vão se entender jamais. Em tese, os muros são abomináveis, mas acabam existindo para delimitar espaços.

São tão necessários quanto as fronteiras?

Conforme a situação, sim. Há um fenômeno interessante: fronteiras, mesmo quando são retiradas, apagadas ou transformadas, não desaparecem. Veja o caso da Iugoslávia: ao se dividir, ela o faz justamente onde havia fronteiras anteriores a 1914, nas linhas divisórias entre o império austríaco, o turco-otomano e o império russo. Por isso digo que qualquer evento histórico é, antes de sê-lo, um evento geográfico. Napoleão foi sobretudo um grande geógrafo. Antes de mandar tropas para a Rússia, o que marcaria o começo da sua derrocada, ele pediu a seu embaixador em São Petersburgo para roubar a cartografia que o czar havia mandado fazer. Pois o embaixador de Napoleão teve que se virar para consumar o roubo dos mapas e despachá-los a Paris. Já no exílio em Santa Helena, nos últimos anos de sua vida, Napoleão se dedica a pensar questões da geografia. Naquele momento, ele se interessa particularmente pelo estudo dos ventos.

Quanto há de geografia no seu trabalho jornalístico?

Muito. O tempo todo. Claro, não posso ficar chateando meus leitores com uma infinidade de detalhes nem com meu interesse pelos palimpsestos. Mas também não posso escrever sobre o conflito entre israelenses e palestinos sem ter a cabeça voltada para as coordenadas da região. Os jornalistas dizem com muita facilidade que, em algum lugar, atacaram uma mesquita, sem se perguntar quando aquele lugar foi construído, sob que condições… Fernand Braudel, ao escrever sua belíssima história mediterrânea, reservou um volume da obra para tratar só de geografia. Euclides da Cunha, autor formidável, dedica as primeiras 150 páginas de Os Sertões à geografia, porque é impossível compreender Canudos sem refletir sobre o solo, o curso dos rios, o clima, etc.

Por falar em Braudel, ele foi encarregado de promover o seu encontro com o Brasil nos anos 50, não foi?

Sim, já se ouvia falar dele por aqui. Era um historiador conhecido. Em 1935, partira para o Brasil com um grupo de franceses para fundar a Universidade de São Paulo. Eu o reencontrei em 1948, quando retornou à França. Naquela época, Julio de Mesquita Filho, diretor do Estado, havia lhe dito: “Encontre um jovem jornalista francês para vir trabalhar no meu jornal.” Soube então que Braudel procurava essa pessoa por intermédio do serviço cultural do Quai d?Orsay. Eu me apresentei, pedi a ajuda de um amigo para montar alguns textos e levá-los a Braudel, afinal, eu não era jornalista, e acabei sendo escolhido. O Brasil tem uma importância capital na minha obra, até porque 3/4 da minha vida estão ligados ao País. Graças ao Brasil eu me interessei pelo mundo e comecei a viajar. Não fosse por isso eu seria um francês normal, sem graça, de uma família francesa desde sempre.

Quando você chegou?

Em 1950, ainda na presidência Dutra. Não tinha ideia do que era o Brasil. A França saía da guerra, portanto, eu estava impregnado de um país cinza, sombrio. Ainda sentíamos os efeitos da administração Pétain, da perseguição aos judeus, etc. Deixei tudo isso para trás, porque no Brasil as cores mudaram. Foi uma revelação extraordinária do ponto de vista da beleza, da sensualidade, da capacidade de estar aberto ao outro, enfim, da joie de vivre. Com a vantagem de que não cheguei na condição de turista, mas para trabalhar.

Sua família sofreu bastante após o final da Segunda Guerra, como você conta no La Maison des Lettres.

Deixei para trás um mundo marcado pela delação e mesquinharia. Meu pai, que lutou na Primeira Guerra, serviu na Argélia, comandou batalhões pela França, acabou denunciado como colaboracionista, sendo que jamais foi um homem de Pétain. Havia muito disso naquele tempo: numa cidadezinha, as pessoas aproveitavam-se da caça aos colaboracionistas para fazer um ajuste de contas em torno de um problema qualquer. Brigas de vizinhos eram “resolvidas” com delações terríveis. Meu pai havia sido um oficial destacado, mas alguém resolveu dizer às autoridades que ele ajudara os nazistas. Como? Ele já estava fora da vida militar quando os nazistas ocuparam a França. Eu me lembro de ver, numa noite muito triste, minha mãe preparando a farda de meu pai porque ele iria para o pelotão de fuzilamento no dia seguinte. Eu tinha 15 anos, aquilo foi horrível. Felizmente, alguém da Resistência passou em nossa casa para checar as providências e viu que meu pai não poderia ser condenado, daí pediu que seu nome fosse retirado da lista de fuzilamentos.

Afinal, como é que seu pai ficou depois de quase ter sido fuzilado?

Esse episódio o quebrou para sempre. Ser acusado de alta traição à pátria foi demais para ele. Decaiu física e intelectualmente, por sorte pudemos contar com minha mãe, que era uma mulher forte. A França carregou o estigma de ser um vasto cemitério. Devo dizer que tive uma infância feliz em Aix-en-Provence, cercado de pessoas interessantes, afetivas. Não éramos nem pobres, nem ricos, éramos uma pequena burguesia que vivia bem. Mas quando saíamos de nossa casa no campo para ir a alguma cidade próxima, deparávamos com monumentos que haviam sido feitos em memória aos mortos da Primeira Guerra. Eu me detinha a contar os nomes de uma mesma família que tombaram em conflito. Famílias inteiras dizimadas.

Mas depois a belle époque veio para resgatar a alegria, a esperança.

Sim, mas havia o odor de morte por trás das canções, das festas, daqueles anos loucos. E, já em 1934, formava-se a noção de que uma nova guerra seria feita. Foi uma alegria efêmera, algo muito traumático à minha geração.

Quando você começou a viajar pelo Brasil?

Passei três anos na redação, período em que pude trabalhar perto de Julio de Mesquita Filho, que não era tão somente o dono e diretor do jornal, mas era tudo: redator-chefe, revisor, impressor, conselheiro, editorialista, tudo! Ele foi decisivo para mim àquela altura da vida, ou seja, aos 20 e tantos anos. Depois voltei à França porque meu pai estava doente, abri a sucursal do Estado em Paris e por aqui fiquei, liderando um pequeno grupo de jornalistas. Em 1975, quando do centenário do jornal, voltei ao Brasil para comemorações, daí consegui prolongar minha estada por seis meses, para viajar. Fui aos sertões, ao Nordeste, cheguei à Amazônia. O diferencial dessa viagem: passei cinco meses rodando o País de ônibus.

De ônibus?

De ônibus comum. Eu poderia ter arrumado um carro, até mesmo um motorista, o jornal me ajudaria. Mas queria seguir de ônibus, para sentir a gente, os lugares. Havia aprendido português a ponto de entender o que as pessoas falavam no ônibus. E elas não imaginavam que eu fosse jornalista, supunham-me um gringo qualquer, portanto se abriam comigo. Foi uma viagem extenuante. Muitas vezes tinha que pegar o ônibus de uma cidade para a outra às 5 horas da manhã, fazia um calor terrível, as estradas eram péssimas, eu me alimentava mal e dormia onde era possível. Em resumo, do ponto de vista físico, foi uma maratona. Do ponto de vista cultural, uma maravilha.

Que autores brasileiros você leu antes de partir?

Nenhum. Nem Guimarães Rosa. Só havia lido alguma coisa do Jorge Amado. Aliás, foi nessa viagem que o conheci em Salvador, junto com o etnólogo Pierre Verger. Meu grande encontro se deu, de fato, com o Verger. Foi ele quem me falou intensamente do Brasil, quem me abriu os olhos para o candomblé, para a herança cultural dos negros. Amado era um homem muito engajado, dizia besteiras, não o entendi bem. Um amigo comum dizia que ele era mesmo um tanto raso, mas havia um anjo que escrevia por ele (ri). Amado deixou uma obra imensa, tornou-se adorado na França, como sabemos, e, já no final da vida, comprou um apartamento no pior quartier de Paris. Perguntei qual a razão da escolha, afinal ele tinha em Salvador uma casa magnífica no Rio Vermelho, por que enfiar-se num pedaço tão feio de Paris? E ele me disse: para ser anônimo e escrever. Continuei sem entendê-lo. Mas guardo na memória as festas que o casal Amado dava na casa do Rio Vermelho: havia artistas, escritores, putas, embaixadores, uma quantidade incrível de empregados domésticos…

Você conta que na viagem até a Amazônia leu obras de Rainer Maria Rilke. Que relação a sua aventura poderia ter com a obra deste escritor?

Nenhuma. Quando viajo levo comigo leituras que nada tenham a ver com o lugar visitado. Foi uma experiência magnífica ler A Canção de Amor e Morte do Alferes Christoph Rilke numa estação de trem nos confins do Brasil. Quando você deslocaliza um texto, daí ele ganha mais força.

Você se enquadra na modalidade “écrivain-voyageur”?

Não. Sou escritor. E jornalista. O escritor-viajante é um tipo que não me agrada. Por ser alguém que só pensa em andar, em chegar ao fim do mundo, ou seja, seu objetivo é o movimento. Ele não para para olhar, para sentir as coisas. É o oposto do que busco: quando estou em São Luís do Maranhão, uma cidade da qual gosto imensamente, consigo me transformar para aquela França equinocial. Para mim as viagens interessam desde que possam ser metamorfoseadas pela literatura.

Seu livro Utopie et Civilization deu o que falar, afinal, nele você propõe uma nova interpretação para as utopias. O resultado é que foi criticado tanto por intelectuais de esquerda quanto de direita…

E não foi culpa minha! Em geral, meus livros são encomendados e escrevo para pagar as contas (ri). Encomendado o livro, comecei a estudar o tema, juntando elementos que configuravam a seguinte ideia: utopia é o contrário do que se diz dela. Não se trata de um mundo onírico, livre, onde todos partilham tudo. Trata-se de um mundo feroz. Ao pretender que sejamos iguais, o que é impossível, os utopistas suprimem a história. E, ao fazerem isso, suprimem o humano. Eu me preparei muito para escrever este livro. Tive uma tuberculose, passei um ano internado num sanatório e, ao longo desse tempo, mergulhei na obra de Platão, Thomas More, Campanella, Fourier. Você poderia pensar: os acontecimentos de maio de 1968, em Paris, faziam parte de uma grande utopia? Digo que não. O movimento da juventude era voltado para a liberdade, o amor, o romantismo. E os utopistas foram mentes que prefiguraram autoritarismos, como o nazismo e o stalinismo.

Por exemplo, Thomas More era um autoritário?

Ele foi bastante criticado por suas ideias, mas depois seria reabilitado pela Igreja. More concebia que, numa certa cidade, as mulheres deveriam ter quatro filhos. Aquelas que tivessem seis filhos deveriam entregar duas crianças excedentes para mulheres que não tinham filhos. Como catalogar as pessoas dessa forma? Os utopistas pregaram a igualdade ao preço do desaparecimento da individualidade.

Nos seus textos, inclusive os literários, você lida com divisões político-ideológicas como “esquerda”, “direita” e “extrema direita”. Estas categorias ainda funcionam?

No Brasil, está tudo muito misturado, mas creio que na França elas ainda estão funcionando. Sarkozy também mistura um pouco as coisas, é verdade. Quando ele era ministro do Interior, praticou políticas autoritárias do ponto de vista de segurança pública. Agora, nas eleições europeias, retomou o padrão antigo colocando policiais por toda parte. Deu um golpe de esperteza política: ao mostrar-se como um líder duro, atraiu a extrema direita que hoje anda sem voz de comando, pois Le Pen está velho e doente. Quer dizer, na França, a extrema direita vem se fundindo à direita.

E a “gauche” francesa? O que acontece com a esquerda?

Abre espaço para a “ultra gauche”. A esquerda clássica anda tão nula, tão vazia, que acaba cedendo aos ultraesquerdistas. O partido de Sarkozy saiu vitorioso nas últimas eleições, mas perceba que, no cômputo geral, ele perde para a soma de todos os partidos de esquerda, impulsionados por setores extremistas.

Como você vê o Brasil hoje?

O Brasil parece consolidar sua importância regional. É o país mais relevante da América Latina. Não há outro, nem México, nem Argentina. É um país de dimensões continentais, com uma população imensa e uma inteligência política considerável, construída após o fim da era dos generais. Embora haja gente que não goste dele, Lula é o vencedor dessa reconstrução democrática. Não sei o quão inteligente ele é, mas tem uma intuição política formidável. Tem até lances geniais, como o de não renunciar à sua infância triste, miserável, ou seja, sabe que não deve esconder o passado. Tem também demonstrado discernimento ao não cair nas ciladas de Hugo Chávez. Mas o Brasil precisa resolver um problema sério a meu ver: transformou-se num lugar muito violento. Volto ao livro de Stefan Zweig, Brasil, País do Futuro, e me dou conta de que o tipo de interpretação que ele fez se tornou completamente idiota. O Brasil é um país inteligente, tolerante e até mesmo educado, mas camufla seu potencial de violência e egoísmo. Existe uma cultura brasileira que se interessa pelos outros apenas no plano das superficialidades.

Como assim?

Diz-se que o Brasil é um lugar sem racismo, no entanto, há comportamentos racistas por toda a parte. Essa camuflagem é perniciosa, perversa, porque a tal cordialidade brasileira disfarça relações brutais. Veja o caso americano, e não estou falando especificamente de Barack Obama: aquela sociedade enfrentou o racismo a ponto de hoje vermos cidadãos negros em altas posições, nos mais diferentes setores. No Brasil, raros são os negros que ascendem a posições de destaque. Recentemente, retomei um texto do Cláudio Abramo, Meu País Trágico, e encontrei uma ótima reflexão: esse Brasil gentil, feliz, despojado, guarda uma tragédia no seu interior, porque permite que se morra de fome, de abandono, etc. Mesmo a burguesia brasileira, afável no trato, cria obstáculos a que a verdade social possa emergir. Quando me dizem aqui na França que o Brasil é um paraíso na Terra, contesto. Além do que, francamente, paraísos terrestres não existem.

Quais são seus próximos projetos literários?

Normalmente, eu trabalho em mais de um projeto ao mesmo tempo. Hoje estou me divertindo ao escrever um livro sobre dois animais, a abelha e o asno, relacionando-os. São bichos que acompanham desde sempre a história humana, trabalhando sem cessar. Outro projeto que me mobiliza é o Dicionário Amoroso do Brasil. Faz parte de uma bela coleção, com dicionários amorosos sobre tudo: o vinho, a mitologia, a amizade, etc. Tem a forma de um dicionário mesmo, cujos verbetes são organizados e selecionados por mim. Por exemplo, um dos tópicos chama-se “caravela”. Porque ela teve um papel fundamental na descoberta do Brasil. Pela primeira vez os navegadores utilizavam uma embarcação que também se deslocava contra os ventos, e não só a favor deles. Lugares terão entradas específicas no dicionário. Por exemplo, falo muito de São Paulo, pouco do Rio, que não conheço bem, e particularmente São Luís do Maranhão, que adoro. Ao longo desse dicionário completamente particular, vou alinhavando minhas recordações.

Conte uma, por favor.

Naquela viagem que fiz de ônibus, chego de madrugada à cidade de João Pessoa, na Paraíba, com pouco dinheiro no bolso, um cansaço enorme, e não havia hotel ou pensão abertos para me receber àquela hora. Decido dormir na praia, era o jeito. Jogo minha mochila na areia, me acomodo precariamente, mas, ainda assim, logo pego no sono. Acordo, horas depois, com uma meninota de origem bem humilde ao meu lado, segurando um guarda-sol para me proteger. Disse que estava preocupada comigo, afinal, eu poderia ter uma insolação. Jamais esqueci aquele despertar, o gesto da menina, sem me pedir nada…

Que verbete dará para essa história?

Ternura, certamente.

05/07/2009 - 13:32h Adendo

“contrariamente ao udenismo rasteiro que ocupa o noticiário, a democracia brasileira e seus partidos -assim como as instituições republicanas- estão compostas em sua imensa maioria por homens e mulheres honestos e que agem nos partidos por paixão pela política e os destinos da nação.”

Foi assim que concluí minha nota Base petista segue discurso de Lula pela manutenção de Sarney.

Quero acrescentar uma frase que me parece necessária para clarificar minha posição.

“contrariamente ao udenismo rasteiro que ocupa o noticiário, a democracia brasileira e seus partidos e a imprensa -assim como as instituições republicanas- estão compostas em sua imensa maioria por homens e mulheres honestos e que agem nos partidos e nos jornais por paixão pela politica ou o jornalismo, e pelos destinos da nação.”

Não faço parte dos que consideram os jornais e seus jornalistas “instrumentos da direita”. Nem acredito na existência de um “complô da mídia” contra o governo Lula.

Tampouco acredito em duendes, mas…

LF

27/06/2009 - 18:40h A Petrobras não estará sozinha para se defender. Ela seguramente poderá contar com o apoio do povo brasileiro

Gabrielli diz que Petrobras está pronta para ‘vale-tudo’

Presidente da estatal petrolífera acusa imprensa e Congresso de criar ‘fatos artificiais’. Leia a íntegra

 

Irany Tereza e Nicola Pamplona, de O Estado de S.Paulo

 

RIO – Às vésperas da instalação da comissão parlamentar de inquérito (CPI), criada no Senado em 15 de maio para apurar um rol de cinco denúncias de irregularidades envolvendo a Petrobras, o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, afirma que há uma campanha de criação de “fatos artificiais” para justificá-la.

Em entrevista exclusiva ao Estado na noite de sexta-feira, na sede da empresa, Gabrielli citou os maiores jornais e revistas do País como participantes de uma espécie de ciranda, na qual parlamentares de oposição alimentariam de denúncias a imprensa para depois reproduzir as acusações no Congresso, pedindo inclusão na CPI. “Será que há algum esquema de criação de fatos artificiais?”, indaga, para emendar em seguida com a resposta: “Não há dúvida.”Para o presidente da Petrobras, o ambiente de instalação da CPI estaria imerso numa espécie de “vale-tudo” e avisa que está preparado para embarcar no jogo: “Nós estamos preparados para um vale-tudo! Nós estamos preparados. Nós não atacamos ninguém ainda. Só temos nos defendido.” E arremata: “O ataque também faz parte da defesa”.A seguir, a íntegra da parte relacionada à CPI do Senado na entrevista de cerca de duas horas concedida pelo presidente da Petrobrás ao Estado na noite da última sexta-feira:

A expectativa da Petrobras é de instalação da CPI esta semana?

Não sei. Acho que o Congresso vai decidir o que fazer. Imagino que a dinâmica interna parlamentar vai determinar o que os congressistas vão decidir. Eu não tenho a menor opinião hoje, nesse momento, sobre se vai instalar ou não.

O senhor ainda tem dúvidas se vai instalar ou não?

Não sou senador. Sou o presidente da Petrobras.

O senhor percorre os gabinetes do Senado para tentar dissuadir os parlamentares da criação da CPI. Qual foi a sua sensação dessas conversas?

Os parlamentares concluíram que precisavam criar a CPI porque veio o pedido de instalação que foi lido no plenário. Portanto, do ponto de vista do ritual e do processual legislativo, devia ser instalada. Conversei com os senadores e alguns acharam que não havia necessidade. Mas, os senadores da oposição acharam que tinha que ter uma CPI. Nossa argumentação, muito explícita desde aquele momento, é que os temas que estão nos requerimentos estão sob investigação neste momento por órgãos competentes para isso, a Polícia Federal, o Ministério Público, o TCU, a Receita Federal, os diversos órgãos de investigação da companhia. Portanto, a investigação que a CPI poderia trazer, do ponto de vista legal, contribuiria muito pouco. O que poderia trazer problema é a criação de um clima nacional de denúncia para buscar denúncia para criar possibilidade de investigar coisas que vão aparecer. Isso, na língua portuguesa antiga chama-se coscuvilhice. A CPI legalmente tem de ser criada para fato determinado. Mas, uma vez criada a CPI temos de obedecer, atender aos requisitos da CPI ponto. Não tem alternativa para nós.

Nesse sentido está surgindo um discussão com relação à remuneração dos executivos da Petrobras.

Pois é, isso é um exemplo. Infelizmente até o Estadão entrou nessa matéria muito ridícula. Uma matéria que não tem fato novo nenhum porque, inclusive, a divulgação disso é da nossa própria assembleia geral, que é pública. A informação refere-se à remuneração dos dirigentes da companhia de forma bastante truncada, envolve um claro indício de crime de quebra de sigilo fiscal, porque, aparentemente, o repórter que fez a matéria pelo Correio Braziliense obteve de forma fraudulenta informações fiscais protegidas por sigilo. Dessa maneira, portanto, de um lado ela é evidência de um crime. De outro lado, do ponto de vista de valor, os valores são bastante modestos, comparados com empresas do mesmo porte. Todos os dirigentes da Petrobras receberam R$ 7,108 milhões no ano de 2007. O Itaú teve R$ 244 milhões; o Bradesco, R$ 170 milhões; o Unibanco R$ 153 milhões, o Gerdau, R$ 59 milhões; Vale, R$ 43 milhões; Sadia, R$ 16 milhões; Perdigão, R$ 14 milhões; Aracruz, R$ 9 milhões, CSN, R$ 9,5 milhões. Portanto, a Petrobras é a menor de todas. Se comparar com empresas internacionais, então, a Exxon teve US$ 13,7 milhões, a BP, US$ 4,2 milhões. Então é absolutamente pequeno o tamanho da Petrobras…

O que tem se questionado não é tanto o valor, mas o reajuste de 90% num período em que a inflação acumulou 33,92%…

O valor dos dirigentes da Petrobras é o teto da carreira. O presidente ganha 15% acima do salário do maior gerente e os diretores, 10% acima. Então se você tem um salário que é baixo para diretores, achata toda a cadeia de salários da companhia. Isso torna mais vulneráveis os profissionais da companhia às atrações de mercado. Evitamos isso com uma política de retenção de talentos, que envolve carreira profissional de longo prazo, treinamento, condições de trabalho adequada. Isso faz com que as pessoas gostem de trabalhar na companhia e queiram fica na companhia, mesmo ganhando menos. O reajuste dos salários dos diretores da Petrobras acompanhou os acordos coletivos. O reajuste dos trabalhadores da Petrobras não é relacionado à inflação. Houve aumento real, sim, nestes últimos anos. Os trabalhadores ganharam, inclusive, mais do que o reajuste dos diretores. Particularmente, a partir de 2008, o salário dos diretores está congelado; o dos trabalhadores vai depender do acordo coletivo. Não há nada que motive um escândalo. Os maiores gerentes da Petrobras ganham menos do que os equivalentes salários de mercado. O que estão fazendo é exclusivamente coscuvilhice, é tentativa de criar fofoca muitas vezes repetida para virar verdade.

A empresa se recusou a divulgar os salários individuais dos executivos. Mas, não seria mais transparente pelo menos divulgar as remunerações dos conselheiros?

Vou pedir o salário total e individual da diretoria do Estadão. Os conselheiros da Petrobras ganham 10% do que o que os diretores recebem. E não é sobre tudo: não têm PLR, 13º ou férias.

Como a Petrobras está se preparando para a eventual instalação da CPI esta semana? Esses temas podem entrar na investigação.

Do nosso ponto de vista legal, na nossa avaliação, não. Porque são temas que não estão pedidos na CPI. Há uma sistemática clara: a imprensa nos últimos seis, sete, oito meses tem, no fim de semana, uma matéria bombástica de acusação contra a Petrobras; na segunda-feira, uma suíte que reproduz essa matéria na boca de um parlamentar da oposição pedindo para (o assunto) entrar na CPI. É sistemático: ou é O Globo, ou o Estadão, ou a Folha de São Paulo, ou uma revista.

O senhor citou a existência de crime fiscal…

Há um crime fiscal. E a empresa vai tomar providências. Estamos avançando no nosso jurídico avaliando para saber o que fazer. Evidente que, como e crime de sigilo fiscal é de ação pública, talvez tenhamos de representar ao Ministério Público. Estamos discutindo ainda o que fazer. Mas há um crime de sigilo fiscal assumido pelo repórter. Não pode ficar impune uma coisa dessas.

Por falar em quebra de sigilo, a quebra de sigilo telefônico do executivo Wilson Santarosa preocupa?

Esse é outro tipo de situação absurda que está acontecendo. Se tem uma investigação que ocorre no ano 2006, essa investigação continua em segredo de Justiça; nós não fomos intimados, Santarosa nunca foi intimado a falar; o jornal O Globo publica uma matéria cujo lead é uma imprecisão absoluta em termos de texto de se a quebra do sigilo telefônico refere-se ao período de 2006 ou se foi pedida em 2006, a matéria não fica clara. Os nossos advogados procuram investigar em Cuiabá o processo e não conseguem identificar. E O Globo continua publicando matéria sobre algo que ninguém consegue identificar. Só tem uma fonte exclusiva do Globo, que é algo estranhíssimo. Se o procurador divulgou isso, quebrou o segredo de Justiça, não acredito que tenha feito. Algo muito estranho está acontecendo. Não é estranho para quem está interpretando que isso é apenas criação de factoides, coscuvilhices, mexericos.

Mas, preocupa uma quebra de sigilo telefônico do Santarosa?

Não. A quebra do sigilo telefônico é uma decisão judicial que ocorre e que pode ser feita. O problema não é na quebra de sigilo telefônico, se tem uma investigação de acordo com a lei etc. Não é esse o ponto. O ponto é: onde O Globo conseguiu a informação de que houve esse pedido?: Quem passou essa informação? Por que só O Globo tem acesso a essa informação? Por que essa informação é imediatamente reproduzida por algum senador da oposição? Será que há algum esquema de criação de fatos artificiais? Não há dúvida.

E a que o senhor atribui esse…

(cortando) Atribuo à ideia de uma CPI que vai buscar o quê investigar, que não tem foco, que não sabe o que fazer.

Por isso o senhor acha que a CPI pode não ser instalada?

Não posso dizer que a CPI não vai ser instalada. A CPI está lá para ser instalada. Isso é uma dinâmica interna do parlamento. Eu sou parte externa ao processo. Sou investigado, enquanto presidente da Petrobras.

Voltando à questão da gerência de Comunicação Institucional, com o Santarosa, parece ser esta a parte em que há maior vulnerabilidade da Petrobras

(cortando) Não há vulnerabilidade.

Explique porque a gerência executiva dele é formada por gerentes regionais do PT?

Não é verdade. A Petrobras tem dois mil, três mil e tantos gerentes.

Estamos falando dos cinco gerentes regionais da área dele.

A imprensa é subordinada ao Santarosa, a responsabilidade social é subordinada ao Santarosa, o patrocínio esportivo é subordinado ao Santarosa, o patrocínio cultural é subordinado ao Santarosa, a propaganda é subordinada ao Santarosa, o planejamento da publicidade é subordinado ao Santarosa. Então, não é verdade o que vocês estão dizendo, vocês estão pegando gerentes regionais que têm história sindical absolutamente legítimas, profissionais de longo tempo de companhia…

Mas que não têm carreira construída na área de comunicação da companhia…

Na área de responsabilidade social, têm. Na área de articulação com comunidades, na área de vinculação institucional com o poder público, na área de relação com a comunicação interna… Inclusive por terem sido sindicalistas, têm essas relações. É positivo, não é negativo ter sido sindicalista. Não é ruim ter sido sindicalista. Então, portanto, não se pode ter uma conotação negativa porque nós temos sindicalistas na companhia. Primeiro que nós não só temos sindicalistas; segundo porque ter sindicalistas não é uma coisa ruim, é boa.

A gente está falando é da coincidência da cúpula dessa área ser ligada ao PT…

Não é verdade, isso não é verdade.

Mas foram levados aos cargos diretamente pelo Santarosa?

Sim. É evidente que ele tem que escolher as pessoas em quem ele confia. Qual é o problema? Não é verdade que o critério de composição da área de comunicação institucional seja um critério político. Os números mostram isso. Do ponto de vista da escolha, note o seguinte: a comunicação institucional não trata apenas de jornalismo. Ela chama, um nome talvez que tenha que ser até mudado. Ela trata de toda a responsabilidade social da companhia. O que significa responsabilidade social da companhia? Significa os milhares de projetos que temos nas comunidades que se relacionam conosco. Temos quatro linhas de atuação na responsabilidade social. A primeira linha de atuação é a geração de oportunidades de emprego e renda. Então nós temos vários projetos nessa linha de geração de emprego e renda. Nós temos uma linha que é criança e adolescente, combate ao trabalho infantil, à exploração sexual da criança e do adolescente. Nós temos uma linha que é montagem de redes socais, de relacionamentos sociais. Nós temos um programa que é reconhecido como benchmark mundial de patrocínio à responsabilidade social que é o programa Petrobras de patrocínio ao desenvolvimento da cidadania. Nós desenvolvemos tecnologia de avaliação de projetos sociais que são benchmarks mundiais. Nós somos reconhecidos pelo Pacto Global, pelo Global Report Initiative, por várias instituições internacionais, como excelência na gestão de responsabilidade social. O nosso relatório de responsabilidade social, que por sinal vai ser divulgada a versão do último ano na próxima segunda-feira, é padrão internacional de relatórios de responsabilidade social. Então, nós temos orgulho de nossa área de responsabilidade social e não vergonha.

Mas as vagas não deveriam ser preenchidas por alguém que estivesse galgando os degraus normais da companhia?

E são. A responsabilidade social envolve milhares de projetos. Portanto, temos controle…

E aquelas ONGs que receberam dinheiro da Petrobras e, quando foram procuradas, não existiam?

Não é verdade. Esse caso particular dessa ONG do Rio de Janeiro é outra fabricação falsa. E pode-se evidenciar isso. A gente não tinha o blog ainda para mostrar isso, hoje já temos, que é para fazer esse tipo de combate. Que é exatamente mostrar isso: o repórter pegou a foto de um lugar onde não estava funcionando o projeto e publicou como se fosse.

Mas o Estadão mostrou outro caso de ONG em Goiás…

O Ifas, que é o que você está falando. O Ifas foi um processo que nós tomamos a iniciativa de processar. Porque evidentemente, se eu tenho milhares de projetos, nem todos vão performar. Antes dos jornais nós tomamos a iniciativa. Uma coisa que eu não entendo é quando você fala assim: a Petrobras tem 240 mil contratos e não podemos dizer que todos são corretos. Como a Petrobras não pode dizer que são corretos? Não posso. Temos que garantir que todos os 240 mil contratos devem ter seguido uma mesma sistemática. Tem uma sistemática, uma auditoria, tem corregedoria, tem avaliação posterior, tem segurança empresarial, avaliação externa, investigações particulares de evidências… Isso significa que é um sistema muito grande que tem que fazer com que o sistema esteja funcionando. Agora, nada é perfeito. Mas temos que, encontrando as imperfeições, corrigir as imperfeições. Tem que melhorar. É um processo de melhoria. Quanto a gente gasta em sistemas, em auditorias, em contabilidade, controle da informação em terra, avaliação direta do projeto, supervisão de atividades, treinamentos? Milhões e milhões e milhões de dólares…

Como a Petrobras está se preparando para esta semana, se a CPI for instalada? Qual a estratégia da empresa?

A Petrobras está pronta para responder todos os temas do requerimento. Não temos problema nenhum. Se você quiser posso passar um por um para você ler.

Quantas pessoas estão envolvidas especificamente para cuidar da CPI?

Nós temos especificamente em tempo integral umas 20 ou 30 pessoas só. Mas toda a empresa é mobilizada. Eu tenho aqui, por exemplo – por acaso eu pedi antes de vocês chegarem – uma cópia de quantas pautas. A imprensa tem nos dado um trabalho razoável. De 19 a 29 de maio, nós tivemos 53 pedidos de pauta. De 1.º de junho a seis de junho, 108 pedidos de pauta. Perguntas tivemos 121 em maio e 146 agora. Cada pergunta dessas mobiliza 30, 40 a 50 pessoas para responder. A pergunta vai até a ponta para ser respondida.

Mas se há um fato, há uma demanda maior. Vai pegar também a demanda que vocês tiveram quando anunciaram o pré-sal. Isso acontece quando se tem um fato.

Eu estou dando a dimensão da mobilização que se tem em terra. Você tem que pegar o gerente e parar. E isso aqui é só para imprensa. Aí eu pego todo o meu setor de orçamento, todos os engenheiros do orçamento respondendo ao TCU. Porque tem que responder. Então para de fazer os orçamentos para fazer projetos para dar respostas ao TCU. Neste caso já? Não, quando intensifica a questão tem que responder, tem que botar o pessoal para trabalhar. Por isso eu tenho hoje dificuldade de constituir comissões de licitação. Porque o cara não ganha mais para fazer parte da comissão de licitação. Só sabe que pode ter um problema com o TCU. Então por que ele vai querer? Ele vai se recusar a participar da comissão…

Por que? O senhor acha que o TCU tem uma posição dirigida?

Não, não é nada dirigido. Há compreensões diferentes sobre o que é um processo licitatório da Petrobras. É uma grande diferença entre a lei 8766 e o decreto 2745. Por que esta diferença? Porque a lei 9478, que é a Lei do Petróleo, que é a lei que acabou com o monopólio estatal do petróleo da Petrobras. A Petrobras, pela lei 2004 (criada por Getúlio Vargas em 1953) era a executora do monopólio estatal da União. O monopólio estatal da União continua em vigor porque é constitucional. Porém, a lei 9478 acabou com a lei 2004. Ao acabar com a lei 2004, esta lei 9478, assinada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, dizia que a Petrobras tem que competir em condições iguais às das outras empresas. Então ela não pode seguir as mesmas normas do setor público. Porque o setor público não compete com outras empresas. Então, a lei tem um decreto que estabelece quais são as regras para licitação da Petrobras. É o 2745. Foi assinado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em 1998. E este decreto é, portanto, o que a lei manda que seja aplicado à Petrobras. E a AGU disse que a Petrobras tem que cumprir este decreto. E o TCU acha que não, que temos que cumprir a lei 8666. Todas as vezes que recorremos ao STF – ainda não houve decisão de mérito – mas todas as vezes, em decisões liminares são pelo 2745. Esse é o conflito que envolve grande parte do nosso problema com o TCU. É um problema que não temos como resolver.

Porque não chegou ainda a ter julgamento de mérito?

Isso é uma questão para o STF. Eu não vou me posicionar sobre o STF. O STF tem seu ritmo.

Tem várias liminares nesse sentido?

Temos várias.

O senhor falou desta movimentação da CPI, do TCU. Isso de alguma forma já está impactando o andamento de negócios, a assinatura ou a renovação de contratos?

Nós tendemos a reduzir o ritmo. Neste momento, eu acho que começou a impactar o ritmo de algumas coisas, porque tem gente que não pode fechar orçamento ou coisa assim porque está tratando de outras coisas. Não é ainda significativo.

Como a gente dimensiona isso?

Não tem como dimensionar. Mas se eu estou dizendo para vocês que há um setor de orçamento que trabalha fazendo orçamentos, e tem prazos para fazer orçamentos internos e que são fundamentais para que possamos fazer licitações, já que temos que comparar os preços que vem de fora com o nosso orçamento. Se eu levaria um tempo X para fazer o orçamento e agora vou levar um tempo X mais alguma coisa, porque nossos técnicos estão voltados para responder problemas internos, o tempo aumenta. Isso tem impacto. Se eu tenho dificuldades para constituir comissões de licitação. Isso também tem um impacto. Eu levaria um tempo para fazer comissão de licitação, agora eu vou levar um outro tempo, porque também vou ter que treinar pessoas para fazer esta comissão. Isso a gente está falando em milhares de coisas. Não são uma ou duas, mas milhares.

O senhor acha que se isso continuar por quanto tempo que vai impactar?

É impossível de responder, porque não sabemos a profundidade, não sabemos o grau… Não, o que tem acontecido nestes dois últimos fins de semana são coisas escandalosas. O que aconteceu na imprensa sobre este elemento da quebra do sigilo fiscal dos salários diretores e da quebra do segredo de Justiça do Santarosa, vale tudo. Você pode criar, recriar realimentar, redefinir e tentar fazer escândalo. Finalmente as pessoas começam a perceber que tem muito de escândalo. Que não tem fundamento. Tem muita espuma e não tem realidade.

A Petrobras está preparada para um vale-tudo?

Nós estamos preparados para um vale-tudo! Nós estamos preparados. Nós ainda não atacamos ninguém ainda. Não atacamos ninguém ainda. Só temos nos defendido.

Sobre os salários

Em 18 de janeiro no Globo e 24 de abril na Folha saiu esta comparação de salários dizendo que a gente ganha pouco e agora veio esta comparação dizendo que a gente virou marajá, Sheik.

O senhor falou de 20 a 30 pessoas envolvidas nesta história. Vocês também contrataram outras assessorias para gerenciamento de crises. CDN, FSB. ..

Temos nossa assessoria e contratamos outras. Toda empresa em situação de crise se fortalece com as relações com o público. Isso é padrão. Nós precisamos ter apoio porque é uma crise. Nós temos uma sistemática. Nós temos o seguinte: temos um procedimento escrito. Esta é uma empresa regimental. Tem procedimentos, regras. Ela não pode ser diferente, porque dado o tamanho dela, ela tem que ter tudo isso. Há procedimentos para crise. Há um comitê permanente para crise. Este comitê se amplia ou se reduz, muda sua composição por conta de uma determinada crise, mas também há pessoas que são permanentes, fora de CPI, que tratam de crise. Crises do tipo: um acidente aéreo que envolve nossas pessoas, nós tratamos como uma crise. Um derramamento, roubo dos lap-tops, uma greve dos operadores da Petrobras… Um evento que aconteça alguma coisa especial. Este procedimento foi acionado nesta crise. Só que esta crise é um pouco maior. Geralmente o comitê de gerenciamento de crise reproduz a estrutura relacionada com a crise. Como nesta atinge todo mundo, tem gente de todas as áreas. Essas pessoas passam a se dedicar exclusivamente , naquele momento agudo da crise, a tratar do problema, e é assim que isso funciona. Não é só nesta crise, mas é um procedimento padrão que temos em qualquer crise. E evidentemente que, dado o tamanho desta companhia, e dado o tamanho desta crise em particular, porque ela é ampla, geral, irrestrita e ilimitada, porque não se sabe da onde ela vem. Uma semana é mamona, na outra é festa de São João, na outra é salário dos diretores, na outra é caso dos aloprados.

Na CPI a gente tem…

Da CPI eu vou falar dos cinco temas da CPI especificamente. Tem o caso das Águas Profundas, que é uma ação do Ministério Público e Polícia Federal, que teve ampla participação da Petrobras desde o seu início. A Petrobras colaborou inteiramente com o processo desde seu primeiro momento. Tanto é que dentro da Petrobras nós levamos um tempo, em comum acordo com a Polícia Federal e o Ministério Público parta não tomar nenhuma providência e não afetar as investigações. Demitimos dois funcionários e suspendemos três. Então, isso está no âmbito do Ministério Público, da Polícia Federal e da Justiça. Em pleno andamento. No que é que a CPI vai contribuir para isso? Não sei.

O segundo tema é a Operação Castelo de Areia…

É uma investigação que chega a uma empresa que participa de um consórcio da Refinaria Abreu e Lima. Este é um processo que se identifica uma diferença de interpretação do que é custo unitário de como é que se mede o custo de terraplenagem. Se o custo de terraplenagem de uma estrada pode ser usado como custo de terraplenagem de uma refinaria. Como é que se mede presença de água, solo expansível, são discussões técnicas que estão em pleno andamento entre a Petrobrss e o TCU.

O terceiro tema da CPI é um eventual aumento de custos de plataformas, verificado pelo TCU. O que é que é isso?

No nosso entendimento, nós interpretamos que isso se refere a ajustes cambiais realizados quando houve uma variação substantiva do câmbio brasileiro em 2004 e 2005.

Não é termo aditivo?

Não… É referente a variações e revisões de condições econômicas em função da variação cambial. Isso está em discussão com os técnicos do TCU desde 2007. Isso não tem nada novo. Isso está lá no TCU desde 2007. O quarto tema, extremamente excitante, mobilizador e emocionante que é o tema de regime de caixa e de competência sobre como fazer o pagamento do imposto de renda sobre as variações de caixa no exterior. É um tema que , pessoalmente como economista, eu acho maravilhoso. Agora, é um tema que, fazer uma CPI para isso, eu acho que é uma coisa exótica. Porém, sei lá… Tá no requerimento. Acho que no máximo deveria ser uma discussão da Petrobras e da Receita Federal. E sequer isso existe porque não fomos ainda intimados. Até porque a Receita Federal não pode ainda nos intimar porque a declaração que vamos fazer é em junho. As pessoas físicas fizeram declaração em março e as jurídicas vão fazer em junho. Portanto, só depois de junho é que se pode fazer uma discussão. No entanto, a CPI está aí colocada como um tema, fala-se de manobra contábil, manobra fiscal, o que para nós é absolutamente ridícula este tipo de acusação porque temos absolutamente certeza que fizemos tudo dentro das condições legais e das condições regimentais.

E retornaram ao sistema antigo?

Não. Não retornamos não. O que aconteceu é que nós usamos um crédito que nós tínhamos porque nós tínhamos pago a mais – não pagamos a menos não, pagamos a mais. E usamos o que pagamos a mais para deixar de pagar durante três meses. E quando foi usado isso, esgotou-se o crédito voltamos a pagar. Não porque mudou de procedimento, mas porque o crédito acabou. Normal. Você, quando declara seu imposto de renda, você ou paga ou recebe devolução. Por que você recebe devolução? Porque pagou a mais durante o ano que passou. Você tem crédito. No Brasil o imposto se paga de duas maneiras: ou com crédito fiscal que você já tem ou com dinheiro que você vai pagar.

Mas não tem aquela história de que você tem que decidir a forma para o ano inteiro?

A fórmula só pode ser feita para o ano inteiro. Quando altera, o que é feito: tem que recalcular tudo até que você apresente a declaração do ano, para pagar de uma forma só. Não se pode pagar de uma forma um período e depois de outra. Exatamente por conta deste ajuste é que teve o crédito. Senão não teria o crédito.

Não há aí uma rixa da receita?

A Receita nem poderia comentar sobre a Petrobras porque seria também quebra de sigilo fiscal. A Petrobras é um contribuinte como outro qualquer. O tratamento que a Receita tem que dar à Petrobras tem que ser exatamente o mesmo que ela dá às outras pessoas físicas e jurídicas em geral. Não pode ser diferente. O Ponto final da CPI é sobre festas juninas e Ongs. Sobre festas juninas, eu acho realmente que envolve um conjunto de preconceitos contra os nordestinos que é escandaloso. A festa junina é mais importante para muitos do Nordeste do que o Carnaval. E nós tivemos também apoio ao carnaval aqui. Nós fizemos também. Nossa presença no Carnaval foi em muitos momentos criticadas e nós nos fizemos presentes não só no apoio financeiro, mas também na participação social junto às escolas de samba do Rio e de São Paulo. Participamos também de outras festas étnicas. A relação da Petrobras com a brasilidade é um orgulho da Petrobras. Não é uma questão de vergonha. E a Festa de São João é isso. O critério de apoiar é um fato tradicional. Agora, a Folha de São Paulo falou que fizemos a festa de São João para Sergipe e Bahia, que são dois estados governados pelo PT. Só que a Folha de São Paulo esqueceu que começamos em 2005 e os dois governadores destes estados eram do PFL, dos Democratas. E por que os dois estados? Porque tem festa de São João. Segundo: porque há uma maior presença da Petrobras no Nordeste nestes dois estados. A Petrobras está mais presente nestes dois estados.

E não há então uma escolha de prefeituras, de cidades específicas com leitura partidária?

Há uma escolha por onde tem festa de São João. Se, não sei ao certo o número, são 49, ou 60 prefeituras não sei bem, se nestas tantas tem 11 prefeituras que são do PT, coincidiu isso. Todas as outras são do DEM, do PSDB, do PMDB, dos outros partidos todos. É só fazer a conta. São fatos. Esta no blog, livre acesso. É só ver o números lá.

Falando no blog, você disse que a Petrobras está pronta para comprar uma briga.

Nós não estamos prontos para comprar uma briga. Estamos apenas nos defendendo. Não queremos comprar briga nenhuma. Estamos nos defendendo apenas.

Por enquanto…

Nós estamos nos defendendo. Vamos nos defender. Agora, o ataque faz parte da defesa também. Nós não temos ataque nenhum ainda.

Quando começa?

Não vamos começar. Não queremos começar ataque nenhum. Não temos porque. Nós estamos nos defendendo. O blog foi defesa. Foi difusão de informação da Petrobras. É combate a distorções. É combate a interpretações equivocadas.

16/06/2009 - 12:32h A notícia vive

Aqui no Brasil ainda há muita gente importante dizendo que o meio ambiente é um obstáculo ao crescimento. Estamos indo na contramão do mundo

Coluna no Globo de Miriam Leitão

Tudo está se movendo ao mesmo tempo no mundo da transmissão da notícia. Tanto que nem sei por onde começar esta coluna. A “Newsweek” numa edição recente avisou que aquele era o primeiro número de uma nova revista, reformulada diante do fato de que “a internet está fazendo muito bem o trabalho de dar notícias e análises instantâneas”. O que sobra para um veículo lento como uma revista?

A “Newsweek” acha que sobra o espaço de reportagens exclusivas e grandes ensaios que tenham um argumento claro e inédito. A revista fechou editorias, somou outras, foi obrigada a se reinventar. No artigo “Uma nova revista para um mundo em mudança”, a publicação começa dizendo que “não é segredo que o negócio do jornalismo está com problemas”.

A “Economist” publicou que 70 jornais fecharam na Inglaterra desde o começo de 2008. O “Independent” depende hoje de investidores estrangeiros. Os jornais franceses estão sendo subsidiados. Todd Gitlin, professor de jornalismo da Columbia, divulgou um texto online sobre “As muitas crises do jornalismo”, dizendo que quatro lobos estão às portas da imprensa americana: a queda da receita de anúncios, a queda da circulação, a difusão da atenção do leitor, e uma crise de autoridade. A soma dos dois primeiros acabou com a lucratividade das empresas.

O “New York Times” teve um prejuízo tão grande neste começo de ano que apressou as providências para, de um lado se livrar do que mais arruína seu balanço, o “Boston Globe”, e, de outro, encontrar novas formas de receita com o conteúdo que produz. Está em dúvida sobre um novo sistema de assinatura, micropagamentos por conteúdo acessado, pedidos de doação, qualquer coisa que aumente suas receitas.

Desde 2001, a circulação dos jornais americanos caiu 13,5% nos dias úteis e 17% nos domingos, sendo cinco pontos percentuais dessa queda só no ano passado. A receita de anúncio caiu 23% em dois anos e o emprego caiu 15%. Foram fechados escritórios em vários estados e países. Um mapa-múndi que assinalava todos os locais onde o “Washington Post” tinha correspondentes ou escritórios foi retirado da redação do jornal americano. Era constrangedor o sumiço diário de pontos do mapa. A crise que atingiu todos os setores da economia bateu também nas empresas jornalísticas, mas o fato é que a mídia convencional já vinha sendo desafiada por todas as novas formas de transmitir a notícia.

As três maiores redes de TV aberta dos Estados Unidos — ABC, CBS e NBC — sempre tiveram pouca audiência diante das TVs pagas, mas de 1990 para cá, o percentual de americanos que se informa nas redes abertas caiu de 30% para 16%. A Pew Research Center, que tem registrado as estatísticas da audiência de notícia no rádio, TV e jor$, constatou em 2008, pela primeira vez, mais gente recebendo informação via internet do que nas plataformas tradicionais. Apesar disso, quando se pergunta quem só recebe informação online, o dado é de apenas 5%. O mais alarmante da pesquisa foi o aumento de 25% para 34% dos americanos de 18 a 24 anos que não tinham recebido notícia alguma, em qualquer dos veículos, no dia anterior.

Não sou dos que temem as mudanças como um sinal dos tempos. Não é a notícia que está em crise, é a tecnologia que tem ampliado espaços, revolucionado conceitos, criado novas ferramentas para se fazer o que sempre foi feito na humanidade: informar, discutir, analisar. A imprensa tem vivido num vértice de mudanças intensas, e a sensação de quem vive no mundo da informação é que ele nunca mudou tanto em tão pouco tempo.

O Google News não tem um único editor humano. Seu processo de escolher e distribuir informação é feito por robôs. Arianna Huffington é dona de um dos maiores casos de sucesso da internet, o “Huffington Post”, que reúne 3.000 blogs e tem o dobro de visitantes que o website do “New York Post”. Outro dia, ao receber o premio webby (o Grammy da Internet), ela fez um discurso, de poucos toques, como requer os tempos de twitter: “Obrigada. Eu não matei os jornais”.

Desde que a “Economist” publicou, anos atrás, uma célebre capa com o título: “Quem matou os jornais?”, os grandes jornais investiram em versões online, aderiram aos blogs e twitter, optaram por não cobrar por conteúdo, depois passaram a cobrar, voltaram a liberar o acesso, agora introduziram sistemas mistos, com textos de livre acesso e outros que exigem assinatura. O “Guardian” é hoje mais lido do que nunca. Por causa da internet ele tem duas vezes mais leitores fora da Inglaterra do que no seu país.

A notícia não morreu nem vai morrer. Na verdade, ela nunca circulou tanto, nem encontrou fórmulas tão instantâneas de espalhar-se como agora. O que ainda não ficou claro é como as empresas serão sustentáveis financeiramente. A receita de publicidade na internet cresce menos do que a queda da receita dos veículos tradicionais. Muitas respostas terão que ser encontradas pelas empresas e pelos jornalistas para os desafiadores tempos novos. Não resta alternativa a não ser seguir o turbilhão. Afinal, quem não gosta de novidade, jornalista não é.

Do Blog de César Maia

A CRISE DA IMPRENSA NOS ESTADOS UNIDOS!

(Trecho da coluna de Miriam Leitão – OG, 14/06) “Desde 2001, a circulação de jornais americanos caiu 13,5% e 17% nos domingos, sendo cinco pontos percentuais desta queda só no ano passado. A receita do anúncio caiu 23% em dois anos, e o emprego caiu 15%. As três maiores redes de TV aberta dos Estados Unidos, de 1990 para cá, o percentual de americanos que se informa nas redes abertas caiu de 30% para 16%. A Pew Research Center constatou que em 2008, pela primeira vez, mais gente recebendo informação via internet do que nas plataformas tradicionais.”

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AUDIÊNCIA DE TELEJORNAIS NA GRANDE-SP – 25-31/05!

(FSP, 14/06) Jornal Nacional 30%. Repórter Record 16%. Brasil Urgente 6%. Jornal da Gazeta 2%. 57.300 expectadores para cada 1%.

14/06/2009 - 10:43h Para o ombudsman da Folha a reação ao blog da Petrobras foi claramente despropositada

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA – FOLHA SP

ombudsman@uol.com.br

Muito barulho por quase nada


A reação de muitos veículos, jornalistas e entidades ao blog da Petrobras foi claramente despropositada

NINGUÉM precisava ter lido o blog da Petrobras para perceber problemas na reportagem publicada no sábado, dia 6, sobre as relações entre a empresa e a entidade MBC (Movimento Brasil Competitivo).
Expressei assim, na crítica diária que faço das edições deste jornal, minha reação inicial ao deparar-me com a chamada de capa dada a ela: “Francamente, não vejo relevância na informação de que verba da Petrobras foi para ONG que tem seu presidente entre os membros do conselho para que ela esteja na primeira página”.
Meu argumento era que em geral a presença de pessoas que ocupam cargos de prestígio em conselhos de organizações como o MBC é apenas simbólica. Como o próprio texto da reportagem informava, o presidente da Petrobras nem participa das reuniões do MBC.
Concluí que “a contratação do MBC pela Petrobras pode merecer críticas, ser denunciada, por diversos motivos. Pelo fato de que Dilma Rousseff e José Sergio Gabrielli participam nominalmente do conselho da ONG, não”.
A publicação de cartas do presidente do MBC e da gerente de imprensa da Petrobras no “Painel do Leitor” de segunda-feira confirmou minhas impressões e foi suficiente para eu (e muitos leitores) fechar juízo de valor sobre o caso.
Ao longo da semana, a relação entre a Petrobras e o MBC foi deixada de lado (o que parece confirmar a sua pouca relevância) e o debate, injustificadamente histérico, se concentrou na criação do blog Fatos e Dados pela estatal.
A Petrobras e qualquer entidade ou cidadão têm o direito indiscutível de criar quantos blogs, sites, jornais ou publicações de qualquer espécie que quiserem. Se ela deseja tornar públicas todas as perguntas de jornalistas que receber, também não há nada que a impeça nem legal nem eticamente (em especial se deixar claro a quem se dirigir a ela que vai fazer isso).
Não faz sentido a Petrobras querer editar o conteúdo dos veículos de comunicação. Mas não há problema em ela tornar público material que seja cortado durante o processo de edição feito por esses veículos.
A reação de muitos jornalistas, veículos e entidades à iniciativa foi claramente despropositada. Se alguém pode sair prejudicado pela decisão de revelar as questões de jornalistas antes da publicação das reportagens a que se destinam é a própria empresa, como seu recuo nesse ponto deixou claro: se as pautas exclusivas deixam de ser exclusivas porque a fonte as revela ao público, o mais indicado para quem as produz é não ouvir essa fonte antes de publicar a reportagem.
Do episódio, só há a lamentar que tenha sido mais lenha para atiçar a fogueira do conflito sectário que envenena o ambiente político nacional em prejuízo de todos.

10/06/2009 - 15:14h Sobre o blog da Petrobras: “O que ofende o direito de informar é a censura, senhores”

Blog de Noblat

É boa ou ruim?, essa decisão de Petrobrás em criar seu próprio blog. A resposta, sem dúvida possível, sugere ser muito boa. Para a cidadania – permitindo que mais pessoas acessem mais informação. Para a democracia – que se reconhece quando uma empresa, do tamanho da Petrobrás, assume o compromisso de prestar contas de seus atos ao indeterminado cidadão comum do povo. Assentado isso, o principal, vale a pena examinar algumas questões no entorno dessa decisão.

1. Ilegal não é, como sugerem alguns jornalistas. Nenhum tema da Cyberlaw mereceu mais páginas do que o Fair Use. Reduzido a seu núcleo conceitual, a proteção ao direito da propriedade intelectual – no caso, as perguntas dos jornais – se opera somente quando houver apropriação econômica por terceiros – no caso, a Petrobrás. Como o acesso ao blog é público e gratuito, nenhuma irregularidade pois.

2. Deselegância é. A publicação das perguntas, sem ciência prévia dos perguntadores, é certamente prova de desapreço a jornais e jornalistas. Não propriamente pela utilização dessas perguntas, no blog, algo mesmo natural. Mas por não haver ciência prévia, nessa primeira utilização. Bastaria que a Petrobrás avisasse, antes – “olha, daqui a 2 dias o blog estará no ar”, coisa assim, e nenhum problema haveria.

3. Os jornais dizem que “o blog quebrou a confidencialidade de perguntas enviadas” à empresa. Quando nenhuma confidencialidade há, ou deveria haver, nesse tema. Essa confidencialidade, em países culturalmente maduros, protegem apenas a privacidade ou interesses coletivos – saúde, segurança pública, relação com países estrangeiros, fronteiras. Sem que se perceba como perguntar quantos funcionários trabalham, em um setor da empresa, possa ser confidencial. Ao contrário, essas perguntas deveriam ser berradas, aos ventos, para que todos as pudessem ouvir – se isso fosse possível, claro.

4. A ANJ diz ser “prática contrária os princípios universais da liberdade de imprensa”. Sem que se possa ver como, publicizar uma pergunta, possa ser algo contrário a qualquer liberdade. O que ofende o direito de informar é a censura, senhores. A romântica (se é que uma censura pode ser mesmo romântica) , no tempo de sargentos nas redações, com suas tesouras; a econômica, de governos e anunciantes, com seus interesses (nem sempre meritórios); a política, protegendo parte de nossas elites; a “musa da autocensura”, como a ela se referia George Steiner.

Assentado isso, de que é boa prática para a democracia, cabe agora perguntar se é também boa para a Petrobrás. E a resposta, aqui também, é sim. Dá respeitabilidade à empresa. Mostra que, do alto de seu poder econômico, se preocupa em prestar contas ao público. Porem …

Há sempre um porém, à margem das melhores intenções. “Mas há sempre uma candeia / Dentro da própria desgraça”, dizia Manoel Alegre contra Salazar. E esse porém, no caso, é: a Petrobras faz isso para ser respeitada?; ou tudo é só estratégia de marketing, às vésperas de uma CPI? Não há respostas prontas, para isso. E vale, nesse caso, testar; sendo, aos jornalistas que hoje reclamam, os melhores testadores.

Podem perguntar, por exemplo, quais são os diretores da Petrobrás e de suas subsidiárias? Quantos são os quadros técnicos da empresa, que hoje ocupem esses cargos de direção? Quais os funcionários que, sem ser diretores, dirigem licitações? Quais partidos indicaram esses senhores e senhoras? Qual o montante, em reais, de licitações a cargo de cada um deles? Quantos desses contratos foram firmados com dispensa de licitações? Isso, ou o que mais quiserem perguntar.

E assim se resolve a questão; que, das duas, uma. Ou a Petrobrás responde, e merece (continua a merecer) nosso respeito; ou a Petrobras não responde, ou responde só o que lhe interessar, e então esse blog é só perfumaria. Tornados então, sem efeito, todos os elogios antes à empresa aqui destinados. O futuro dirá.

José Paulo Cavalcanti Filho. 61, advogado no Recife, jp@jpc.com.br

09/06/2009 - 19:05h Petrobras e jornais: uma opinião ponderada

Do Observatório da imprensa

BLOG DA PETROBRAS

Quando a fonte abre o jogo

Por Claudio Weber Abramo em 9/6/2009

blog do autor, 9/6/2009; título original “O blog da Petrobras”

Anda causando celeuma a decisão de Petrobras de publicar, num blog (”Fatos e Dados“), as perguntas que lhe são formuladas por escrito pela imprensa, bem como as respostas dadas. A justificativa que a Petrobras apresenta para a iniciativa está publicada aqui.

Destacam-se os seguintes pontos:

** A relação entre a Petrobras e os veículos de comunicação que a interpelam é essencialmente pública.

** A publicação das respostas no blog, antes da decisão editorial de o jornal publicar ou não a reportagem em questão, reforça o objetivo da Petrobras de alcançar o máximo de transparência possível no relacionamento com seus públicos de interesse.

** A agilidade no tratamento e no encaminhamento das respostas ao sempre legítimo questionamento da imprensa demonstra também o compromisso da Cia em prestar todos os esclarecimentos a ela solicitados.

** A Petrobras tem liberdade para publicar a íntegra das respostas que fornece aos veículos de comunicação porque é fonte e detentora dos dados disponibilizados.

Os jornais não gostaram. A Associação Nacional dos Jornais, que reúne as empresas proprietárias desses órgãos, soltou uma nota na segunda-feira (8/6) em que afirma:

“Numa canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas, a empresa criou um blog no qual divulga as perguntas enviadas à sua assessoria de imprensa pelos jornalistas antes mesmo de publicadas as matérias às quais se referem, numa inaceitável quebra da confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas fontes.”

Sem intermediação

A atitude da Petrobras estimula uma porção de observações.

1. Não há problemas com as justificativas da Petrobras.

2. Não procede a reclamação da ANJ, de que a Petrobras teria rompido algum compromisso de confidencialidade entre a fonte e o veículo de imprensa. Esse compromisso nunca existiu. O que existe é o princípio de resguardo da fonte por parte de jornalistas. Não existe dever subjetivo da fonte de resguardar o jornalista. As fontes não estão presas à confidencialidade que a ANJ menciona.

3. Qualquer pessoa que já tenha sido fonte da imprensa sabe que entre o que se informa (por declaração, por escrito ou num relatório formal) a um jornalista e aquilo que sai publicado vai uma distância. Quando o repórter é um profissional correto, e quando o veículo em que trabalha também é, essa distância é geralmente pouco relevante. No entanto, em particular na imprensa escrita e nos noticiários da televisão, o processo de edição, em que se corta muito do que a fonte informou, pode levar a citações fora de contexto ou incompletas. (Já quando jornalista e/ou veículo são desonestos, o que sai publicado é qualquer coisa.) Assim, de modo a resguardar aquilo que se informou à imprensa, a iniciativa de publicar perguntas e respostas pode contribuir para a melhoria das práticas profissionais da área.

4. Na prática, o que a Petrobras passou a fazer tem consequências sobre a capacidade de órgãos da imprensa “furar” seus concorrentes. Se a Petrobras publica as perguntas formuladas por um jornal assim que envia as respostas, bastará ao jornal concorrente consultar sistematicamente o blog da Petrobras para não ser “furado”. Isso tende a uniformizar o noticiário e a reduzir o estímulo para que os veículos busquem levantar assuntos inéditos. Quem perde com isso é o leitor.

5. Ao tomar a iniciativa que tomou, a Petrobras não disse o que fará em relação às informações que passa com exclusividade a jornalistas por sua própria iniciativa. O princípio deveria ser o mesmo – se a ideia é comunicar-se com o público sem a intermediação dos veículos de comunicação, então essas notícias “plantadas” precisariam também ser divulgadas no blog da Petrobras assim que formuladas por sua assessoria de imprensa.

Pela qualidade

6. De toda forma, ficará fácil verificar se a empresa procurará resguardar essas informações que distribui com exclusividade, pois se algo for publicado em algum veículo e a notícia disso não for divulgada previamente pela Petrobras, estará configurado o uso de dois pesos e duas medidas.

7. Em particular, é bom ver o que acontecerá com as informações prestadas pela Petrobras a veículos e agências noticiosas internacionais. Será mesmo que a empresa vai “furar” a Reuters, a Associated Press, o Financial Times, a Economist? Não é de se crer.

8. Embora pareça claro que a iniciativa da Petrobras vem como reação à CPI montada para investigar as suas operações, a tensão criada com os jornais não deverá persistir, pois não interessa à própria Petrobras. Por mais que a política de comunicação do governo federal tenha se voltado preferencialmente aos pequenos veículos locais e regionais, a Petrobras não pode prescindir da chamada “grande imprensa”, porque os investidores do mercado não lêem o Democrata de Xixirica da Serra, mas o Globo, o Estadão, a Folha, o Valor.

9. Por isso, é provável que a empresa recue da decisão de divulgar as perguntas e as respostas antes que os veículos publiquem as reportagens correspondentes.

10. Contudo, em favor da melhoria da qualidade da imprensa, a Petrobras deveria continuar a fazê-lo após os veículos terem publicado as suas histórias.

09/06/2009 - 18:15h Os jornais em polvorosa

Jornais reagiram com espirito de corpo, perante a decisão da Petrobras de criar um blog como canal direto de informação para enfrentar a CPI. Todos condenaram a iniciativa, particularmente quando a Petrobras reproduziu na integra as perguntas e suas respostas aos questionamentos dos jornalistas.

Os argumentos são diversos e não cabe maniqueismo no tratamento deste debate.

Sergio Lirio, redator em chefe da revista Carta Capital, considera a decisão da Petrobras deselegante e intimidatória, porem constata:

“Sabemos que durante CPIs a imprensa costuma fazer o contrário do que deveria: torna-se menos e não mais criteriosa e vigilante na seleção e divulgação dos fatos, sob a desculpa das pressões da competição pelo furo, além de frequentemente se deixar usar por interesses particulares ou eleitorais travestidos de interesse público.

Outro comportamento bastante comum da mídia nesses momentos é ignorar com mais frequência seus erros e não conceder a um indivíduo ou empresa atingidos o devido espaço de retratação.

Misturados à manada que alegremente pisoteia o bom senso, as regras básicas da profissão e a autonomia do pensamento (que deveria nortear um jornalista do raiar do dia ao fim da jornada diária), repórteres, editores e veículos sentem-se mais confortáveis para cometer aleivosias e assassinatos de reputação ou para reproduzir erros alheios sem se dar ao trabalho da checagem.

Quem já foi injustamente alvejado por CPIs sabe bem o que isso representa. No caso de uma companhia com ações nas Bolsas de Valores, milhões de dólares em contratos e sentada sobre reservas espetaculares de gás e petróleo, os prejuízos podem ser incalculáveis e irreversíveis.” (artigo de Sergio Lirio no Blog de Noblat).

Precisamente, e não só pela experiencia anterior fielmente retratada por Sergio Lirio, mas na base do que começou a ser publicado em certos jornais desde a instalação da CPI do PSDB, os “prejuízos incalculáveis e irreversíveis” na imagem da Petrobras começaram. Em parte, provocados pela sonegação de informações devidamente fornecidas, quando não pela manipulação pura e simples. Uma manchete insinuava irregularidade em supostos contratos sem licitação, sendo que a lei autorizara desde bem antes do governo atual à empresa a dispensar dos mesmos. Outra manchete insinuava irregularidade na participação do presidente da Petrobras no conselho de uma ONG da qual participam as principais empresas do país. Hoje mesmo, a afirmação que 1.050 jornalistas eram contratados pela Petrobras, foi desmentida e deu lugar a um pequeno “erramos”.

Existindo o precedente indicado com claridade e objetividade pelo redator em chefe da Carta Capital e constatada a pratica recorrente em relação à Petrobras, qual é a melhor resposta? Não é a que poe todo mundo perante suas responsabilidades de forma transparente aos olhos do público?

Se intimidação existe é a dos que se arrogam o monopólio da representação da opinião pública em matéria de informação e que utilizando a liberdade de escolher como bem entendem, do que a Petrobras responde aos seus questionamentos, procuram acuar a empresa por conta de uma iniciativa político eleitoral da oposição.

Persiste, é verdade, a questão do trabalho do jornalista que procurando ouvir o “outro lado” vê suas informações divulgadas antes da sua publicação no seu próprio veículo e librada assim aos seus concorrentes. A argumentação foi utilizado com razão por Sergio Leo, Kennedy Alencar e outros jornalistas e merece ser levada em conta.

Luis Nassif responde a estes argumentos assim:

“Fica claro também que a publicação das respostas se destina às pautas onde haja evidências fortes de risco de manipulação.

Além disso, a publicação das respostas no Blog da Petrobras funciona como um certificado de cartório. Significa que aquele tema, com aquelas respostas, têm dono. Se algum jornal ou jornalista ousar se apropriar de pautas de terceiros, será crucificado pela opinião pública e pelos próprios colegas.

Finalmente, o questionamento posterior da Petrobras às matérias obrigará inevitavelmente a um aprimoramento da cobertura. Aí, a discussão fica técnica. Se um jornal tratar adequadamente a informação, e o Blog da Petrobras ousar questioná-lo com falsas questões, corre o risco de se desmoralizar. Se os questionamentos forem pertinentes, quem se desmoraliza é o jornalista e o jornal.

Qual a resultante desse embate? Aprimoramento do jornalismo e da qualidade da informação, o que levará os jornais – muito mais por necessidade que por princípio – a melhorarem o jornalismo que praticam e a empresa a melhorar o grau de transparência das suas informações, à medida que esse modelo a amarrará ao compromisso de não deixar perguntas sem respostas.

Hoje em dia, não há transparência na forma como são tratadas as notícias, especialmente aquelas com viés partidário. O jornalista detém uma informação e se julga no direito de dar o tratamento que bem entender, o enfoque que desejar, selecionar as informações que melhor se adequem à sua tese. A possibilidade do leitor ter acesso a todas as informações fornecidas é um ganho excepcional no direito constitucional de ser bem informado.”

A iniciativa do blog da Petrobras abriu um debate mais que necessário e isto já é um mérito da Petrobras.

Em resposta ao posicionamento de Kennedy Alencar na Folha online os primeiros três comentários de leitores são:

marcus eneas (2) 09/06/2009 17h34

“A imprensa está cheio de estúpidos? Está.” Está escrevendo na frente de um espelho? A transparência da Internet é para todos!

Antonio Passos (35) 09/06/2009 17h30

ESTARRECEDORA a reação da imprensa em relação ao blog da Petrobrás. Uma postura digna de um CENSOR do tempo da ditadura. A Petrobrás comete o “sacrilégio” de revelar as perguntas que lhe são feitas com suas respectivas respostas. É INACREDITÁVEL o ponto em que chegou a PREPOTÊNCIA da nossa mídia. A liberdade para perguntar não lhe basta, ela quer também o poder de “CONTROLAR” as respostas. Tipo: “eu te pergunto e você responde na hora e do jeito que eu quiser, e não diz que fui eu quem perguntou”. É hilariante ! Não podemos deixar de lembrar o episódio em que os laptops dos juízes do STF foram GRAVADOS de forma sorrateira e o conteúdo PRIVADO dos seus emails foi revelado nas primeiras páginas dos jornais, sob a alegação de que “a sessão era pública”. ISTO PODE ! Como se o fato da sessão ser pública, permitisse inclusive enfiar a mão nos bolsos dos juízes para ver o que tem lá dentro.

Andrea Costa (2) 09/06/2009 17h23

Prezado Kennedy, tem certeza de que a burra da história é a Petrobrás?! Ciente do jogo sujo que é uma CPI e sua cobertura, a Petrobrás, brilhantemente, antecipou-se para preservar um de seus maiores patrimônios: sua credibilidade. Qualidade que falta à grande imprensa brasileira. Por isso essa celeuma toda. A FSP, com todos os esses ataques ao blog, escancara seu despero em ter suas manipulações desmascaradas. Mas já que a estratégia da Petrobrás é burra, pq se preocupar com ela?

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Internet é isso e a discussão horizontal e multiforme enriquece a democracia. Ganham a liberdade de imprensa e os cidadão brasileiros. LF

07/06/2009 - 17:47h Essa é demais!

O Globo inovou hoje em matéria de jornalismo. Acusa a Petrobras de vazar perguntas feitas a ela por jornalistas.

Em blog recentemente criado pela estatal para responder de forma transparente as questões levantadas sobre a sua atuação, a empresa reproduziu as perguntas de jornalistas a ela dirigidas e as respostas da direção da empresa. 

Este fato deixou alguns jornais extremamente irritados pois dificulta a edição manipuladora das respostas fornecidas à mídia.

A irritação levou o jornal O Globo a publicar um artigo hoje, criando a figura do “sigilo da pergunta”, como se o entrevistado tivesse qualquer obrigação de sigilo perante o entrevistador. Não existe nenhuma confidencialidade que possa ser invocada neste caso. Os jornalistas devem guardar a confidencialidade de suas fontes “em off”, mas os entrevistados são livres de fazer o que quiserem e fazer público as suas próprias respostas. Isto é evidente, mas aparentemnte não para O Globo.

Não existe perguntas que possam ser invocadas como “propriedade” do jornalista, nem ninguém esta sujeito a considerar essas perguntas como “confidenciais”.  Poderia se aceitar argumento semelhante se uma entrevista acertada com exclusividade para um determinado jornal, fosse publicada antecipadamente pelo entrevistado. Não seria ilegal, mas seguramente discutível no campo ético, que só poderia se justificar por motivações sérias. Mas no caso, reproduzir a totalidade das perguntas com suas devidas respostas é uma maneira de mostrar transparência e recusar a manipulação eventual das respostas fornecidas.

A irritação pode ser comprensivel, mas o ridículo da pretensão da Globo de considerar ilegal a publicação pela Petrobras das perguntas e suas devidas respostas, mostra a arrogancia desmedida do jornal.

LF

Clique na imagem para ampliar e ler o artigo do jornal O Globo

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17/05/2009 - 11:28h Folha tem a melhor imagem nas classes A e B de São Paulo

 

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Pesquisa mostra que jornal é citado pela maioria como o mais completo, mais influente, mais bonito e mais fácil de ler

Levantamento da Research International mostra que a cobertura jornalística da Folha é avaliada como melhor do que a do “Estado”

DA REPORTAGEM LOCAL – FOLHA SP

Entre os integrantes das classes A e B da Grande São Paulo, a Folha é citada como o jornal mais completo, mais influente, mais bonito e mais fácil de ler. É vista também, por pessoas que pertencem a esse grupo, como mais inovadora, mais completa e veículo de informações mais úteis para o dia a dia dos leitores.
Os dados acima fazem parte de uma pesquisa realizada sob encomenda da Folha pela Research International, uma das mais importantes e respeitadas consultorias do mundo.
O universo do levantamento é a população das classes A e B da Grande São Paulo, considerando pessoas com 15 anos ou mais. Para definir essas classes foram utilizados os critérios aceitos e adotados no Brasil pelos institutos e agências de publicidade, com base no grau de instrução do chefe de família e posse de itens como aparelho de TV e automóvel de passeio.
Somadas, as classes A e B representam 39% da população da região metropolitana da capital paulista.
Do total de entrevistados pela consultoria (750), 76% disseram ler algum jornal impresso. A Folha é lida por 38%, enquanto 24% leem o “Estado de S. Paulo”.
Convidados a dar sua opinião, “mesmo que apenas de ouvir falar”, sobre uma série de tópicos relativos à qualidade dos veículos, os entrevistados conferem ampla vantagem à Folha. “A avaliação da imagem da Folha nas classes A e B nunca foi tão positiva”, afirma Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, que realizou pesquisa semelhante em 2003. “De lá para cá, vários aspectos mudaram favoravelmente para o jornal”, diz.
A cobertura da Folha é vista como melhor do que a do “Estado” em praticamente todas as áreas, com destaque para cultura, comportamento, ciência e saúde. A Folha também aparece em vantagem nas citações feitas pelos entrevistados que leem os dois jornais.

Internet
Em relação a outros meios de informação, a pesquisa detectou previsível ascensão da internet, considerada mais importante para obter informação do que a TV aberta.
De acordo com Mauro Paulino, na pesquisa anterior, a TV aberta era o meio mais citado. Nesse contexto, a Folha, mais uma vez, aparece bem: 22% dos integrantes das classes A e B afirmam ler notícias geradas pelo jornal na web, enquanto 12% dizem o mesmo em relação ao “Estado”.

24/04/2009 - 17:27h O beijo da vida

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© Foto de Rocco Morabito. Funcionário realiza respiração “boca a boca” em seu colega inconsciente após ter recebido um descarga elétrica. Jacksonville, EUA, 1967.

O fotógrafo Rocco Morabito dirigia o seu carro em 17 de julho de 1967 quando passou por um poste de alta-tensão onde um funcionário da companhia de luz acabara de receber uma forte descarga elétrica. Parou o carro, chamou uma ambulância pelo rádio, colocou um filme na sua câmera e desceu. Quando voltou para a redação do Jacksonville Journal, Rocco disse “acho que tenho uma foto muito bonita”, mas o editor lhe respondeu que a edição do dia seguinte já estava fechada. Às pressas ele mesmo revelou o filme e mostrou a foto para o editor. Depois de olhar por um instante, ele disse “muito boa”. Vamos chamar de “O beijo da vida” e vamos publicá-la na primeira página. O funcionário da companhia sobreviveu ao acidente e a foto venceu o Prêmio Pulitzer de 1968. reproduzido por Images & Visions. Fonte: A Luz Clara

16/04/2009 - 16:43h Uma longa caminhada à procura da ética

Davilym Dourado / Valor

Costa convida para uma jornada em que o leitor, já exausto com o peso do arcabouço teórico, pode ficar perplexo com o que lhe é dito na reta de chegada

“Ética, Jornalismo e Nova Mídia” – Caio Túlio Costa.

Por Matías M. Molina, para o Valor, de S. Paulo

Jorge Zahar 287 páginas. R$ 39,90

O autor parte do princípio de que a mudança nas comunicações que levou ao surgimento de uma nova mídia, a mídia digital, exige a rediscussão da ética no jornalismo. Como detecta um vácuo na formação do jornalista, “no que toca à ética e à moral na perspectiva da história do conhecimento”, ele se oferece a fornecer um “instrumental teórico” e explorar “um itinerário normativo”, para “se entender funcionalmente a profissão de jornalista”. E convida o leitor “a percorrer o caminho que funda o jornalismo e a comunicação”.

Em sua trajetória profissional Caio Túlio Costa esteve nos dois lados do balcão do setor de comunicação. Foi o primeiro “ombudsman” da “Folha de S. Paulo”, diretor-geral do Universo Online e presidente do Internet Group. Como professor de Ética na Faculdade Cásper Líbero, tem também um pé na Academia. É uma experiência que o credencia, como a poucos, para discutir as questões éticas apresentadas neste livro, cuja origem é a tese de doutorado defendida no ano passado.

O leitor que aceitar o convite de Costa para acompanhá-lo nessa caminhada deve preparar-se para uma jornada longa e árida. Vai enfrentar uma peregrinação ao longo de citações e conceitos abstratos de filosofia, a epistemologia, a lógica e a ética, durante a qual o autor exibe enorme erudição. Ele avisa que sua intenção não é dizer como o jornalismo deve ser praticado, mas analisar como é praticado.

Foram convocados, para discutir a ética no jornalismo, filósofos como Descartes, Spinoza, Sócrates, Epícuro, Montaigne, Kant, Wittgenstein, Adorno. Além de Velázquez, Sófocles, Maquiavel, Balzac, Shakespeare, Janet Malcolm, Karl Kraus, Max Weber. E também Marilena Chauí, Sérgio Paulo Rouanet e Mario Sergio Cortella. E dezenas de outros nomes.

Costa examina temas como a representação do quadro “Las Meninas”, de Velázquez, a mitificação do julgamento de Sócrates e a ambiguidade moral de muitas situações. Mostra como a realidade pode ser enganadora sob o véu das aparências. Ao tratar da objetividade, um assunto continuamente debatido pela imprensa, ele exibe argumentos de vários lados para concluir que não é possível ser objetivo, imparcial ou neutro. O que talvez seja correto. Mas para um jornalista, na vida real, deixando de lado os conceitos abstratos, ainda valem os princípios que o jornal “Le Monde” adotou ao ser fundado: “A objetividade não existe. Mas a honestidade, sim” e “A verdade, custe o custar. Sobretudo se custar”. Talvez não seja possível ao jornalista ser objetivo, mas vale a pena tentar ser isento.

O peregrino, que desde o início da viagem carrega um arcabouço teórico cada vez mais pesado e que nem sempre consegue relacionar com a teoria ou a prática do jornalismo, pode sentir a tentação de desistir no meio da jornada. No final deste recorrido em busca da ética, o andarilho, além de exausto, pode ficar perplexo na reta de chegada. Costa afirma que em nenhum momento a ética se distancia do fazer jornalístico. Mas um exemplo que coloca é controvertido. Escreve que foi questionado num programa televisivo a respeito do comentarista de economia que fazia propaganda de um banco e continuava emitindo análises sobre o sistema financeiro. Não respondeu diretamente, mas indiretamente justificou essa prática. Disse que nos “laptops” dos entrevistadores estava o logotipo do fabricante, que a emissora de TV acolhia publicidade no intervalo dos programas e que não há como fugir da realidade de que todo ou parte do salário dos jornalistas provém dos anúncios. Ele deixou de avaliar, porém, até que ponto esse jornalista estava em condições de, se fosse necessário, contrariar, em suas matérias, os interesses do banco que lhe pagava para falar bem dele nos anúncios. Ou se, ao aceitar fazer diretamente a publicidade, o jornalista não estava, de maneira implícita, passando um atestado de confiança a esse banco. Há, no mínimo, nessa atitude, uma ambiguidade ética difícil de explicar.

O livro contém algumas imprecisões. Afirma, por exemplo, que por ocasião do atentado em várias estações de trem de Madri, o telefone celular foi usado para avisar que a velha mídia veiculava a informação falsa, dada pelo primeiro-ministro espanhol, José María Aznar, de que o grupo separatista basco ETA era o autor das explosões. Pelo celular, diz Costa, os espanhóis derrubaram uma mentira, o que ajudou a derrotar o candidato favorito de Aznar nas eleições e forçou o governo a retirar as tropas espanholas do Iraque. Na verdade, o atentado se deu numa única estação de trem de Madri, a de Atocha. Os principais veículos a corrigir e difundir a falsidade da informação de Aznar, e aos quais se atribuiu na ocasião a vitória do partido socialista, faziam parte da “mídia velha”: a cadeia de rádio SER, a maior da Espanha, e “El País”, o jornal de maior circulação, que pertencem ao mesmo grupo empresarial. O papel do telefone celular foi importante, mas não decisivo. As tropas não foram retiradas do Iraque por Aznar, mas pelo governo socialista, cumprindo uma promessa da campanha eleitoral.

Enganos como esses são talvez inevitáveis, dada a quantidade de informação que o autor colocou no livro. A caminhada a que ele convida é longa e, com frequência, exaustiva. Mas pode ajudar a olhar por trás das aparências e a rever conceitos.

31/03/2009 - 20:09h In memoriam

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Hellen Levitt (foto de autor desconhecido)

Helen Levitt, uma das mais importantes fotógrafas do Século XX, que capturou momentos de lirismo nas ruas de sua nativa Nova York, faleceu aos 95 anos enquanto dormia em sua casa, em Manhattan no último domingo, dia 29 de março. Sua morte foi confirmada por seu irmão, Bill Levitt. Nascida em agosto de 1913, Levitt cresceu no Brooklyn, em Nova York. Depois de sair colégio ela foi trabalhar para um fotógrafo comercial. Ela comprou uma máquina fotográfica Leica e começou a fotografar as crianças nas ruas. Ainda uma jovem fotógrafa apaixonou-se pela vida de um bairro pobre, que percorreu assiduamente fotografando as brincadeiras das crianças na rua, seus desenhos no chão e nas paredes e as suas ousadias numa festa de Carnaval – em plena crise econômica na primeira metade do século passado e entre as duas Guerras Mundiais (crise dos finais dos anos 30 e começos dos anos 40. Depois de uma breve experiência no cinema, voltou novamente ao mundo que se sentia mais à vontade onde permaneceu durante mais de 70 anos.

Fonte Images & Visions

29/03/2009 - 12:00h Mas, porque a Folha Online derrapou? A pressa em colocar no ar informações inexistentes?

“Esta semana, na cobertura da Operação Castelo de Areia, a versão on-line da Folha deu uma derrapada feia, em decorrência de vícios estruturais dessa plataforma: a pressa em colocar no ar informações e a frouxidão dos controles.
Das 8h41 às 10h30 de quinta-feira, a terceira chamada da página inicial da Folha Online tinha um título errado (”PT pode ser investigado por doações da Camargo”), sem nenhuma base nas informações disponíveis. O erro, que não apareceu no jornal impresso, foi corrigido e o título mudado.
O rigor e o cuidado imprescindíveis no jornal impresso devem ser obrigatórios no eletrônico. As sociedades democráticas podem até sobreviver sem jornalismo de papel, mas sem jornalismo independente serão castelos de areia.”

Castelos de papel, tela e areia


Mais do que nunca, é preciso cuidar para que a qualidade sempre exigida no jornalismo impresso se mantenha no jornalismo eletrônico

OS TEMPOS são terríveis para os jornais impressos nos EUA e na Europa. A crise econômica acelerou o desgaste do modelo econômico dessa indústria nos países centrais do capitalismo e os efeitos são visíveis.
Na sexta-feira, circulou a última edição em papel do centenário e excelente “Christian Science Monitor”. Na quinta, o “New York Times” anunciou corte de 5% por nove meses no salário de quase todo o seu pessoal, mais um gesto extremo para tentar melhorar suas contas, e o “Washington Post” deu partida a processo de demissões voluntárias.
Na terça, quatro cidades do Estado de Michigan, inclusive Ann Arbor, sede da Universidade de Michigan, souberam que este ano ficarão sem nenhum jornal impresso porque o único em cada uma delas (todos pertencentes a uma rede) vai deixar de circular.
Semanas atrás, dois tradicionais títulos, o “Rocky Mountain News” e o “Seattle Post Intelligencer” haviam deixado de rodar e passado a operar só na internet.
A Federação Europeia de Jornalistas, em atitude clara de desespero, pediu aos líderes dos partidos no Parlamento Europeu que os governos salvem os jornais impressos, “pedra angular da democracia europeia”, segundo dizem no documento.
A administração Sarkozy, na França, já seguiu nessa direção com um pacote de 600 milhões de euros de socorro aos diários. Nos EUA, o senador Benjamin Cardin, democrata do Maryland, argumenta com seus pares que os jornais merecem tanto auxílio quanto os bancos.
Esse apelo ao Estado é um atentado contra o princípio essencial da independência, condição indispensável para o exercício do bom jornalismo. A sobreviver como apêndice de governos, é melhor perecer.
Apesar de todos esses indícios, e dos prenúncios sombrios para os jornais no mais recente relatório do “State of the News Media” (http://www.stateofthenewsmedia.org/2009/index.htm), o jogo ainda não está jogado nem lá nem muito menos aqui no Brasil.
Mas a tendência da migração do jornalismo do papel para a tela é irredutível, mesmo que as versões impressas se mantenham. Por isso, mais do que nunca, é preciso cuidar para que a qualidade sempre exigida no produto impresso se mantenha no eletrônico.
Esta semana, na cobertura da Operação Castelo de Areia, a versão on-line da Folha deu uma derrapada feia, em decorrência de vícios estruturais dessa plataforma: a pressa em colocar no ar informações e a frouxidão dos controles.
Das 8h41 às 10h30 de quinta-feira, a terceira chamada da página inicial da Folha Online tinha um título errado (”PT pode ser investigado por doações da Camargo”), sem nenhuma base nas informações disponíveis. O erro, que não apareceu no jornal impresso, foi corrigido e o título mudado.
O rigor e o cuidado imprescindíveis no jornal impresso devem ser obrigatórios no eletrônico. As sociedades democráticas podem até sobreviver sem jornalismo de papel, mas sem jornalismo independente serão castelos de areia.

22/03/2009 - 18:03h Por uma história crítica da mídia


Ética, Jornalismo e Nova Mídia, de Caio Túlio Costa, debate impasses da imprensa no mundo atual

 

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Marco Chiaretti – O Estado SP

 


Um grande filósofo do século 19 escreveu que ler jornal era essencial para um bom café da manhã (não havia web). Era uma época otimista: as Luzes fariam do mundo um lugar melhor e os jornais eram um dos suportes desta iluminação, formadores da opinião pública, imparciais, objetivos, independentes. O século 20 cuidou de acabar com o mito de uma Razão invencível e o novo milênio parece também não ter começado muito bem. Fantasmas rondam este mundo: crise, novas tecnologias, novos modelos, menos leitores, mais crise. Nisso tudo, há lugar para o jornalismo? Se sim, qual é o papel do jornalista? A web mudou tudo? Esta necessidade de jornais e jornalismo, ela vem do quê? Pra que jornalismo, afinal?

Vá lá saber, mas como as bruxas da anedota, o jornalismo existe, está aí, é mecanismo essencial do nosso modo de vida, e não há como subestimá-lo, até porque jornalismo implica em re-presentar, em falar sobre, e o mundo moderno é um mundo de re-presentações. Não só isso: o jornalismo é um discurso que pretende sempre ser verdadeiro, qualquer que seja a definição de verdade. Jornalistas não se veem do lado do mal e do engano (e nem são vistos assim), abominam o erro e justificam seu trabalho como um bem social. Nesse sentido, jornais, jornalistas, o jornalismo, estão indissoluvelmente ligados à noção de ética, ao conhecimento do bem e a praticá-lo. Não são só necessários, são “bons”. Será?

Essa é aquela pergunta chata, que talvez fosse de bom tom não fazer, mas ninguém que leve o jornalismo e o ofício do jornalista a sério pode deixar de fazê-la. Ética, Jornalismo e Nova Mídia – Uma Moral Provisória leva o ofício a sério. Seu autor, o jornalista e professor Caio Túlio Costa, foi um dos “jovens turcos” que no início dos 80 participaram do chamado “Projeto Folha”; mais do que isso, foi um dos líderes do processo – e o primeiro ombudsman do jornal. No fim dos 90, ele se recriou como um dos “pais fundadores” da web no Brasil. Tem uma carreira importante, marcada por sucesso e polêmicas. Pode-se desgostar do que diz e faz, mas é difícil não reconhecer seu senso de oportunidade. O livro é mais uma prova disso. A Crise de 2008 e o mundo em rede nos obrigam a pensar no tema da relatividade moral do jornalismo. De novo. E de forma diferente do que havia sido feito em outras situações.

Costa pensa difícil. Para complicar ainda mais a vida do leitor, escolheu o caminho da história do pensamento e da arte para expor seus argumentos, percurso interessante, sem dúvida, mas árduo e cheio de obstáculos. O livro trata das relações entre ética e jornalismo, indo de Sócrates a Stiglitz, de Epicuro a Kant, de Descartes a Sartre (e mais algumas dezenas de autores e personagens). Há que se ter tempo (e leitura) para atravessar o mar de citações e referências, “momentos em que a questão moral encontrou definições capazes de iluminar condutas”, que servem para montar uma história (hiper) crítica da mídia como um lugar de meias verdades, omissões e mentiras úteis, às quais se sujeitam jornalistas no desejo de acertar, metidos em um mar de erros crassos, provocados pela pressa ou pela ignorância.

Não bastasse isso, há a relatividade (a culpa é sempre de Einstein). No capítulo 9, Costa faz o elenco de algumas das aporias com as quais se defronta a Velha Mídia quando ela se vê diante do Oceano Azul da Nova Mídia. Por exemplo, o pobre jornalista, o que acontece com ele? Descolado de seu centro, o jornalista-Sol corre o risco de se apagar, subjugado por um leitor que ele não controla mais. E a famosa distinção igreja-Estado (invenção americana dos anos 20, sobre a qual se escreveram vários livros de ética e jornalismo), como fica? Para Costa, a dissolução dos limites entre atividade editorial e atividade comercial arrisca apagar a fronteira que garante a independência do negócio enquanto garante o negócio (de fato, arrisca, mas é fato que em bons jornais, o limite é sempre nítido). E o demônio do marketing? A possibilidade de ações de marketing ligadas a determinados conteúdos, se efetivada, deixa um sabor amargo de dúvida no leitor (vale para os marqueteiros o que vale para os publicitários). Isso para não falar da cultura, em geral: a redução progressiva do conhecimento por parte dos novos criadores de conteúdo cria uma geléia geral onde imprecisão e incerteza viram qualidades e não defeitos. No fim, o leitor pode se perguntar, irritado com o jornal que agora lhe estraga definitivamente o café, o que quer Caio Túlio?

Quer desmontar a pretensão à objetividade da imprensa, que desde sempre afirma que são objetivas (e verdadeiras) suas representações. Quer arrasar o que vê como a arrogância pedante dos jornais e dos jornalistas. Não existe isso, diz ele. Nunca existiu, e menos ainda existe agora, o território do jornalismo estraçalhado pela nova mídia e sua abertura ao leitor-criador.

Ok, mas esta é a parte fácil. Há a parte difícil.

Um, como ele mesmo nos lembra, jornalismo é “parte determinante da engrenagem que faz o mundo parecer o que parece ser”. Não há como prescindir dele. Dois, códigos morais temporários são encrenca. Parecem resolver o problema, mas sempre haverá uma noite em que as duas moças se encontrarão com o filósofo sedutor, ao mesmo tempo e não sucessivamente. Três, a Nova Mídia também precisa ser alvo de crítica, ou não? Soluções? O livro deixa mais perguntas do que respostas.

Enfim, precisam de jornalismo (e precisamos dele…), azar. Não durmam no ponto. Não acreditem no senso comum e cuidado com móveis encerados e jornalistas sinceros. À guisa de solução, se há uma, só a busca contínua do conhecimento e a desconfiança persistente em relação ao “estado atual das coisas”. A autoironia está no sangue ou não há jornalismo. Pena que não haja muita gente com senso de humor. Faltam caixeiros.

Ética, Jornalismo e Nova Mídia será lançado no dia 30, às 19 horas, na Livraria
Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2.073)

Ética, Jornalismo e Nova Mídia
Caio Túlio Costa

Jorge Zahar
287 págs., R$ 39,90

17/02/2009 - 10:25h Todo organismo vivo produz seus excrementos

Josias de Souza, da Folha de São Paulo

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A infâmia de Josias de Souza no seu blog, na Folha Online, provocou uma legitima onda de indignação na blogosfera. Vários leitores deste blog manifestaram sua reprovação.

Luiz Nassif o definiu assim:

A escola do esgoto

Do Blog do Josias

Ou, as prévias do que será o jornalismo em 2010.”

No seu Blog, Cidadania.com, Eduardo Guimarães exclamou sua indignação (ver embaixo a nota “Um filho de chocadeira”).

A Folha por enquanto não se manifestou, mas duvido que na sua redação a reprovação da abjeção não seja unanime. É que uma coisa é a divergência política, muitas vezes impregnada de má fé, e outra é a manifestação do esgoto machista e revulsivo.

Muitas vezes se pondera que internet permite esse tipo de imundícia, pois não existe mecanismos de controle ou de preservação da ética. Mas é da natureza que todo organismo vivo, -e internet é um instrumento de intensa vida e de conhecimento- produza seus excrementos.

Com a particularidade que não basta apertar a descarga para sumir com os dejetos.

Na internet não tem privada, mas alguns “jornalistas” transformam seus blogs em um sucedâneo.

Eles expõem assim sua alma.

Luis Favre

Cidadania.com

Denúncia

Um filho de chocadeira

 

 

 

 

Sou casado e tenho quatro filhos, sendo três mulheres. Tenho também uma neta. Além disso, tenho mãe, o que não parece ser o caso desse infeliz desse blog abjeto que aparece na imagem acima, desse empregadinho da mídia golpista, desse sujeitinho à-toa que acha que a escolha dessa manchete para uma matéria relativa a foto mostrando a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e a ex-prefeita Marta Suplicy, é coisa de homem. Eu não acho. Como filho, esposo, pai e avô, tenho, ao todo, seis bons motivos para não descer a esse ponto na guerra política, ao ponto a que desceu esse degenerado sem mãe.

Eduardo Guimarães

13/02/2009 - 17:41h Fotógrafo norte-americano vence o World Press Photo 2009. Brasileiros são premiados

Blog Imagens&Visions

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© Foto de Anthony Suau. Policial faz uma inspeção em uma casa de Cleveland, após os proprietários serem despejados. EUA.
2008.
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© Foto de Luiz Vasconcelos. Indígena tenta conter um batalhão de policiais em uma disputa por terras. Brasil.
2008.

 

Saiu o resultado do World Press Photo 2009, uma das mais importantes e prestigiadas premiações de fotografia do mundo. O fotógrafo norte-americano Anthony Suau foi o grande vencedor com a imagem que mostra um policial fazendo uma inspeção em uma casa de Cleveland, após os proprietários serem despejados, a foto faz parte de uma reportagem publicada em março de 2008 pela revista Time. O fotógrafo brasileiro Luiz Vasconcelos ficou em primeiro lugar na categoria General News com a imagem de uma indígena que tenta conter um batalhão de policiais em uma disputa por terras. A foto premiada foi publicada originalmente no jornal A Crítica, de Manaus (AM). Além de Vasconcelos, outros dois brasileiros foram reconhecidos pelo prêmio. Eraldo Perez, da agência Associated Press, recebeu menção honrosa na categoria “Cotidiano” por uma foto que mostra pessoas em volta do corpo de Thiago Franklino Lima, na favela do Coque, no Recife. Já André Vieira, da “Focus Photo und Presse Agentur”, ficou em terceiro lugar na categoria “Artes e Entretenimento” por um registro do estilista angolano Xhunos, feita em Luanda. Desde 1955, a missão da fundação holandesa que organiza o concurso é encorajar o fotojornalismo. A competição recebeu este ano o número recorde de 5019 candidatos, de mais de 125 países – 12,5% a mais que o ano passado. Veja a galeria de fotos premiadas no World Press 2009