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	<title>Blog do Favre &#187; jornalismo</title>
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	<description>Cultura, Política, Economia, Mundo, Sociedade, Comportamento</description>
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		<title>Copo meio cheio</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Nov 2009 13:45:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Favre</dc:creator>
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		<description><![CDATA[LÚCIA GUIMARÃES &#8211; NOVA YORK &#8211; O Estado SP
A última semana começou com um número que preocupou muitos jornalistas americanos. A rede CNN despencou para o quarto lugar de audiência do jornalismo na TV a cabo. E a Fox, comemorando sua condição de &#8220;perseguida&#8221; pelo governo Obama, disparou para um folgado primeiro lugar.
A CNN inventou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h2><span style="background-color: #ffff99;">LÚCIA GUIMARÃES &#8211; NOVA YORK &#8211; O Estado SP</span></h2>
<p>A última semana começou com um número que preocupou muitos jornalistas americanos. A rede CNN despencou para o quarto lugar de audiência do jornalismo na TV a cabo. E a Fox, comemorando sua condição de &#8220;perseguida&#8221; pelo governo Obama, disparou para um folgado primeiro lugar.</p>
<p>A CNN inventou o jornalismo de 24 horas e o fundador da Fox, Roger Aisles, inventou o comício eletrônico travestido de jornalismo.</p>
<p>Desde que uma assessora de Barack Obama fez o calculado primeiro disparo, no dia 12 de outubro, afirmando que a Fox não passa de uma ala do Partido Republicano, comentaristas de variada coloração ideológica discutem a sensatez da tática.</p>
<p>A venerada Primeira Emenda da constituição americana, que garante a liberdade de expressão, imprensa e religião, é invocada frequentemente pelos que não acreditam nela.</p>
<p>No ciclo viral de notícias, a estupidez se propaga com a velocidade da luz. Exemplo: Barack Obama foi comparado a Richard Nixon, o garoto-pôster da perseguição à imprensa. Desde quando um presidente que se indispõe com a imprensa ou setores dela é uma anomalia? E qual é a semelhança entre Nixon, notoriamente paranoico e conspirador, que grampeava e ameaçava jornalistas, e o atual presidente americano?</p>
<p>Um excelente artigo editorial no Wall Street Journal assinado por Thomas Frank, cujo espaço é um oásis de sensatez entre as tropas de choque de Rupert Murdoch, lembrou que a perseguição nas mãos das &#8220;elites&#8221; é um dos motes da rede Fox.</p>
<p>O levante conservador americano a partir da década de 90 alimentou-se desta falácia narrativa &#8211; entre Nova York e Los Angeles, a middle-America é explorada e desprezada pelas hordas de privilegiados que comem rúcula e dirigem carros híbridos.</p>
<p>Frank oxigenou o debate com dois argumentos: Obama está certo, a Fox News é um contínuo talk-show conservador. Ela foi criada pelo homem que salvou a carreira de Nixon na década de 60, reinventando o futuro presidente para a TV. Roger Ailes perde seu sono com a Primeira Emenda tanto quanto eu perco o meu com golfe.</p>
<p>Obama está errado na forma desajeitada como colocou a rede na berlinda. Frank diz que a Casa Branca &#8220;jogou gasolina numa fogueira&#8221; ao alimentar as teorias conspiratórias da rede adversária quando podia ter apelado para o humor, a ironia e o sarcasmo.</p>
<p>Um bom cursinho preparatório para enfrentar jornalista crasso é assistir a gravações não editadas das coletivas de John Kennedy, que reagia com um humor relaxado de quem está diante de um Martini e não de um microfone.</p>
<p>E assim voltamos a uma fundação que tem aparecido com frequência na imprensa americana. O Pew Research Center for the People &amp; the Press toma o pulso do público americano em sua reação à mídia. O centro se tornou uma fonte preciosa de informação neste momento de confluência de duas angústias coletivas: a crise econômica na mídia tradicional e a epidemia de jornalismo ideológico.</p>
<p>A última pesquisa do Pew Center confirma o que sabemos: o papel da ideologia no consumo de notícias é cada vez maior. E a Fox é vista como a mais ideológica das redes de cabo. Explica-se o quarto e último lugar da CNN, atrás até de sua parente, o canal HLN, um híbrido de notícias curtas e talk-shows. A rede, apesar de vista pela maioria como &#8220;liberal&#8221; (à esquerda do espectro político americano) e de abrigar figuras como Lou Dobbs, o profeta do apocalipse causado por imigrantes, não se posiciona como pró ou contra Obama. A ópera-bufa da esquerda e da direita no cabo é protagonizada pela MSNBC e a Fox.</p>
<p>Enquanto o musculoso e peripatético Anderson Cooper enxuga as lágrimas com a queda de mais de 70% da audiência de seu programa em horário nobre na CNN, vale a pena notar um número mais interessante para quem acredita que o jornalismo tem um papel em qualquer democracia.</p>
<p>O site cnn.com de notícias está muito à frente das rivais. O publisher do New York Times, Arthur &#8220;Pinch&#8221; Sulzberger, fez analogias com o Titanic, ao ser consultado, num evento público, sobre o futuro dos jornais mas não destacou outro dado: o seu notável site teve sólidos 21 milhões e 500 mil visitantes únicos em setembro.</p>
<p>Vou argumentar que o declínio do jornal impresso convive com o apetite por noticiário objetivo. Já a falta de apetite pelas aventuras de Anderson Cooper pode mostrar o que acontece quando o jornalismo fica com o ouvido no chão, tentando detectar o tropel dos cavalos.</p>
<p>A revista Time perguntou aos leitores, logo após a morte do lendário Walter Cronkite, em julho, qual o âncora em que os americanos mais confiam. Jon Stewart, o comediante com vasta audiência jovem e apresentador do falso telejornal The Daily Show, ganhou disparado, com 44% de votos. Um sinal de triunfo da ironia como embalagem da notícia?</p>
<p>Em 2008, metade dos espectadores da Fox tinha mais de 63 anos e a maioria dos espectadores dos programas mais agressivamente ideológicos da rede era formada por homens. Os números foram citados por Louis Menand, na New Yorker, que comparou a cólera da Fox a um Viagra político.</p>
<p>Estou enganada ou há uma luz demográfica no fim deste túnel?</p>
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		<title>Prêmio Esso de jornalismo 2009</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Oct 2009 19:50:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Favre</dc:creator>
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Foto de Marcelo Carnaval. O Presidente Lula na imagem intitulada “Crise, que Crise”, publicada no jornal O Globo.


As comissões de seleção do Prêmio Esso de Jornalismo 2009, após sucessivas reuniões realizadas nos dias 19, 20, 21 e 22 de outubro, no Rio, concluíram as tarefas de indicação dos trabalhos que concorrerão à premiação em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><em> <span style="font-size: x-small;"><img class="alignnone size-full wp-image-15214" title="marcelo carnaval Crise,_que_crise" src="http://blogdofavre.ig.com.br/wp-content/uploads/2009/10/marcelo-carnaval-Crise_que_crise.jpg" alt="marcelo carnaval Crise,_que_crise" width="555" height="794" /><br />
Foto de Marcelo Carnaval. O Presidente Lula na imagem intitulada “Crise, que Crise”, publicada no jornal O Globo.</span></em></p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="font-size: x-small;"><br />
</span></em></p>
<p>As comissões de seleção do Prêmio Esso de Jornalismo 2009, após sucessivas reuniões realizadas nos dias 19, 20, 21 e 22 de outubro, no Rio, concluíram as tarefas de indicação dos trabalhos que concorrerão à premiação em 11 categorias. Os vencedores deste ano serão conhecidos no dia 8 de dezembro, durante cerimônia de premiação a ser realizada no Hotel Copacabana Palace, no Rio. Ao todo, 25 jornalistas, alguns dos quais integrantes de equipes dos maiores jornais brasileiros, examinaram durante cerca de 30 dias um total de 1.091 reportagens, fotografias e criações gráficas, para concluir pela indicação de 35 trabalhos finalistas. A foto vencedora do Prêmio Esso de Fotografia 2009 será escolhida via Internet por uma Comissão Especial de 50 jurados que votarão em um dos cinco trabalhos selecionados e adiante indicados. Os finalistas são: Moacyr Lopes Junior, com a foto “A Dor da Perda”, publicada no jornal Folha de São Paulo. Arnaldo Carvalho, com a foto “Fome”, do conjunto “Exilados na Fome” publicado no Jornal do Commercio (Recife). Marcelo Carnaval, com a foto “Crise, que Crise”, publicada no jornal O Globo. Daniel Mobilia, com a foto “Fala que eu não te escuto”, publicada no jornal Diario de São Paulo e Daniel Marenco, com o conjunto de fotos “No Corredor do Inferno”, publicado no jornal Zero Hora.</p>
<p>Fonte <a href="http://imagesvisions.blogspot.com/">Images&amp;Visions</a></p>
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		<title>Maçã verde</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Oct 2009 18:34:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Favre</dc:creator>
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		<description><![CDATA[LÚCIA GUIMARÃES &#8211; NOVA YORK &#8211; O ESTADO SP
A moça do caixa me fez a pergunta antes de dar o troco e, em segundos, quase regredi à menina insegura do Colégio Santa Úrsula. Você precisa de sacola? &#8220;Não, Madre Superiora, quer dizer, não, é claro, cabe tudo na minha bolsa.&#8221;
Espera aí, não estava eu na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h2><span style="background-color: #ffff99;">LÚCIA GUIMARÃES &#8211; NOVA YORK &#8211; O ESTADO SP</span></h2>
<p>A moça do caixa me fez a pergunta antes de dar o troco e, em segundos, quase regredi à menina insegura do Colégio Santa Úrsula. Você precisa de sacola? &#8220;Não, Madre Superiora, quer dizer, não, é claro, cabe tudo na minha bolsa.&#8221;</p>
<p>Espera aí, não estava eu na maior rede de farmácias do país? A que mantém as lojas iluminadas à noite, o ar condicionado ou o aquecimento a toda? A corporação gigantesca estava patrulhando minhas pegadas de carbono?</p>
<p>No meu bairro, tradicionalmente democrata e politicamente correto, a mudança cultural é evidente.</p>
<p>Nos últimos anos, quando via um grupo de policiais na esquina, concluía, aos bocejos, que o banco havia sofrido mais um assalto relâmpago &#8211; geralmente um drogado solitário, fingindo ter uma arma sob a camiseta, levava o conteúdo de um caixa.</p>
<p>Na semana passada, dobrei a esquina e notei que a presença policial tinha atraído muita gente. Era horário de saída de um jardim de infância e as mães fotografavam a cena com seus celulares. Um caminhão de lixo havia estacionado e seu motorista muito nervoso confabulava com os policiais, que evitavam o olhar do público. E com razão. O inspetor municipal tinha surpreendido o dono da barraca de frutas e legumes ocupando mais espaço na calçada do que o permitido pela licença. E começou a despejar caixas e caixas de alimentos que foram devorados pelo caminhão de lixo. Um grupo de mulheres começou a gritar e chamou a polícia. Algumas discavam para as redações dos canais de TV locais. Saí fotografando, é claro, como alguém que imita os modos dos outros convidados num jantar de cerimônia. Uma desconhecida se aproximou de mim e disse: &#8220;Eu tenho um blog sobre comida orgânica, você me manda suas fotos? Nós vamos criar o maior caso.&#8221; Cada novo pedestre que perguntava o motivo da comoção ouvia um discurso ainda mais exaltado sobre o desperdício imperdoável.</p>
<p>Os Estados Unidos com menos de 5% da população mundial, consomem um quarto dos recursos de energia do planeta. Mas a cidade para onde me mudei, na década de 80, agora parece querer se penitenciar.</p>
<p>E como estamos num país fundado por puritanos, o ambientalismo vem com fortes doses de censura e culpa.</p>
<p>Numa festa de aniversário recente, notei um par de olhos fixos em mim enquanto lavava a louça. Em anos anteriores, a dona da casa me agradecia e dizia aos convidados ela ajuda sempre. Desta vez, a minha anfitriã não queria a minha ajuda. Explicou que era preciso enxaguar a louça no bacia colocada na pia e só abrir a torneira na hora de tirar o sabão. A crise de abastecimento é na Costa Oeste, pensei comigo mesma, enquanto aderia ao novos tempos.</p>
<p>Um comediante popular do canal HBO lidera uma campanha contra o golfe. Não porque seja um esporte cujo tédio desafia a minha compreensão. Mas porque os gramados consomem uma quantidade pornográfica de água em regiões secas.</p>
<p>Como ninguém há de se declarar contra o meio ambiente, a etiqueta ecologicamente correta, às vezes, desafia o bom senso. O prefeito Bloomberg prometeu designar 80 quilômetros de ciclovias por ano. Aplausos.</p>
<p>Mas já me juntei às estatísticas crescentes de atropelados por bicicletas. Enquanto esperava o roxo da perna desaparecer, comecei a ler sobre os acidentes em blogs e, só quando um executivo em sua bicicleta luxuosa matou um homeless no Central Park, pedalando a 60 km por hora, o desatino começou a ser mais bem documentado pela imprensa. Como trocar o carro pelo pedal é &#8220;do bem&#8221;, demoraram a entender que ignorar regras do tráfego urbano não é.</p>
<p>O virtuosismo ambientalista oferece um desafio especial neste país, em que o consumo é responsável por 70% da economia. Aqui se inventou a noção de shopping, comprar, como um fim e não um meio, uma atividade semelhante a jogar futebol ou ir ao cinema.</p>
<p>Na calçada da minha rua, em dias de coleta, dezenas de sacos de lixo selecionado por material para reciclagem convivem com mobília em perfeitas condições, já que o custo da mão de obra de transporte para vender ou doar equivale a comprar uma peça nova.</p>
<p>Nesta capital americana do consumismo, a experiência de assistir ao documentário No Impact Man é especial. O escritor Colin Beavan, autor do livro homônimo, recém-lançado com o filme, decidiu submeter sua família, mulher e filha de 2 anos a um ano de redução radical de suas pegadas de carbono. Passou os primeiros 6 meses sem eletricidade, subia e descia os nove andares de seu prédio no Village com a pequena Isabella nos ombros. Eles não andavam de carro, não faziam compras, só consumiam comida local e produtos de limpeza sem substâncias tóxicas. A experiência quase acabou com o casamento e Beavan foi acusado de atrair o ridículo para a causa ambientalista. Mas, ao servir de cobaia para um estilo de vida sustentável para o planeta a insustentável para a saúde mental da maioria, a família protagonizou uma narrativa fascinante. Ao contrário do zelo ecológico que frequentemente não se distingue de outros extremismos, Colin Beavan deixou pegadas de humanidade no caminho cheio de obstáculos de onde não podemos voltar.</p>
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		<title>Desconfiança coletiva</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Sep 2009 15:20:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Favre</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Lúcia Guimarães, NOVA YORK &#8211; O Estado SP
Uma nova pesquisa revelou que quase dois terços dos americanos desconfiam das notícias divulgadas por jornalistas. É o índice de credibilidade mais baixo desde que o Pew Research Center começou a fazer a pesquisa, em 1985.
O resultado é assustador ao fim de um ano cheio de acontecimentos marcantes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h2>Lúcia Guimarães, NOVA YORK &#8211; O Estado SP</h2>
<p>Uma nova pesquisa revelou que quase dois terços dos americanos desconfiam das notícias divulgadas por jornalistas. É o índice de credibilidade mais baixo desde que o Pew Research Center começou a fazer a pesquisa, em 1985.</p>
<p>O resultado é assustador ao fim de um ano cheio de acontecimentos marcantes &#8211; o crash de setembro, a pior crise econômica desde a Grande Depressão, a eleição de Barack Obama. Foi um período histórico que poderia restaurar parte do prestígio da mídia jornalística. Mas os números da pesquisa mostram que a suspeita de desinformação só aumenta.</p>
<p>Entre as estatísticas sombrias: 74% das 1.506 pessoas ouvidas durante a pesquisa, em julho passado, acreditam que a mídia noticia fatos de cunho social ou político sob o prisma do preconceito ideológico. O racha partidário também cresceu, com republicanos habitualmente mais confiantes na cobertura da Fox de Rupert Murdoch e democratas mais dispostos a acreditar na CNN e na MSNBC, esta francamente pró-Obama.</p>
<p>Posso continuar a desfiar o rosário de más notícias sobre o meu ofício, mas faço uma pausa para uma ausência notável na pesquisa. Não houve distinção entre mídias. E, como sabemos, &#8220;mídia&#8221; engloba conglomerados de tentáculos planetários como também um neonazista com educação primária blogando de cuecas nos cafundós do Estado de Montana.</p>
<p>Convenhamos que há uma diferença expressiva, mesmo considerando que Rupert Murdoch, o planetário, emprega gente como Rush Limbaugh e Glenn Beck, apresentadores de talk shows que desafiam qualquer parâmetro de ética. E por falar no energúmeno Beck, sua cara ocupa, esta semana, um território cobiçado, um dos centímetros quadrados mais valorizados da mídia tradicional. A capa da edição americana da revista Time.</p>
<p>Talvez a Time tenha fornecido involuntariamente uma explicação parcial para os resultados abismais da pesquisa do Pew Center. A capa é bombástica, como se espera, mas a foto escolhida, Beck com a língua de fora, revela mais sobre o dilema da mídia tradicional do que sobre o retratado. O título é Homem Louco: Glenn Beck Faz Mal à América?.</p>
<p>A pergunta é retórica, não respondo pelos outros, mas vou levar para o terreno pessoal: o que me faz mal é não poder mais contar com a maturidade de uma revista de circulação nacional, fundada há 86 anos.</p>
<p>Ao humanizar Beck com uma foto brincalhona, a Time já embarca emasculada na tarefa de conferir o efeito nefasto do circo de extrema direita. Ao definir Beck, notório por acusar Obama de racista, como um &#8220;talentoso empresário da angústia no mercado quente dos brancos&#8221;, a revista não detecta apenas o óbvio: que Beck fatura o temor branco num país onde as minorias raciais serão maioria em 2042 &#8211; ou antes, se as projeções do próximo censo voltarem a antecipar a transformação demográfica.</p>
<p>A reportagem fala de um protesto recente em Washington citando fontes liberais (nos Estados Unidos, liberal é à esquerda) e fontes conservadoras e, assim, dá o tiro no próprio pé. O fato requer a muleta do prisma ideológico para ser noticiado. A intenção da revista, imagino, é parecer equilibrada. Mas o resultado sugere o desespero de uma indústria ameaçada, tentando ser tudo para todos. A polarização política da mídia produziu o que o saudoso Nelson Rodrigues poderia ter batizado de o idiota da subjetividade.</p>
<p>Se vamos em frente com esta forma de editorializar o mundo, logo será sensato citar a Teoria da Evolução como uma conspiração liberal.</p>
<p>O crescente ateísmo do público em relação à atividade que já foi definida como o Quarto Poder parece coincidir com o esforço para sobreviver à transformação econômica. Na continuação da curva descendente, a receita de publicidade dos jornais americanos caiu 29% na primeira metade do ano.</p>
<p>A crise de identidade do jornalismo era inevitável diante do choque provocado pela internet. Mas concordo com quem acha que a internet atingiu uma indústria já enfraquecida por outra erosão: a perda da convicção na própria singularidade, da noção de que reportagem e fabricação de sapatos são atividades com retornos econômicos e propósitos distintos.</p>
<p>Além de inviabilizar as formas tradicionais de sustento da indústria, a internet mudou a hierarquia de consumo da notícia. Um sintoma evidente foi a percepção do blog caseiro como um bolchevismo, uma vanguarda para fazer justiça ao tzarismo corporativo do jornalista profissional. Sabemos onde o bolchevismo foi desaguar. Ainda atravessamos a incerteza da descentralização da notícia.</p>
<p>Quem pode ser contra a democratização do acesso à informação? Mas a perda da confiança do público na mídia jornalística é cria da possibilidade de todos falarem ao mesmo tempo.</p>
<p>Na Grécia Antiga, os mensageiros tinham proteção para ser portadores de notícias, mesmo as que desagradavam aos poderosos.</p>
<p>Ao se comportar como um mensageiro intimidado pela ira do destinatário, a mídia contribui para a desconfiança ilustrada pela pesquisa do Pew Center.</p>
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		<title>O método Serra de calar a crítica</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Aug 2009 17:51:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Favre</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Maria Inês Nassif]]></category>
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		<description><![CDATA[Blog de Nassif

Maria Inês Nassif é das melhores analistas da realidade política brasileira, um sopro de lucidez no dia a dia dos jornais. Sou suspeito, admito. Mas Luiz Carlos Bresser-Pereira, Luiz Gonzaga Beluzzo, Antonio Barros de Castro, o falecido Gilberto Dupas e outros dos mais influentes intelectuais brasileiros concordam.
Recentemente ela analisou a lei anti-fumo do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h2><a href="http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/08/25/o-metodo-serra-de-calar-a-critica/" title="O método Serra de calar a crítica" rel="bookmark">Blog de Nassif<br />
</a></h2>
<p>Maria Inês Nassif é das melhores analistas da realidade política brasileira, um sopro de lucidez no dia a dia dos jornais. Sou suspeito, admito. Mas Luiz Carlos Bresser-Pereira, Luiz Gonzaga Beluzzo, Antonio Barros de Castro, o falecido Gilberto Dupas e outros dos mais influentes intelectuais brasileiros concordam.</p>
<p>Recentemente ela analisou a lei anti-fumo do governador José Serra e considerou que o ponto central era a delação. O título do artigo era “Um incentivo à deduragem” (<a href="http://blogdofavre.ig.com.br/2009/08/em-sao-paulo-delacao-e-desejavel/">clique aqui)</a>.</p>
<blockquote><p>Uma pessoa qualquer que estiver no restaurante quando alguém acender um cigarro lá dentro poderá ligar para um 0800 e fazer uma denúncia, ou preencher um “formulário” na internet. A sua palavra é prova contra o restaurante e dela decorrerão sanções legais. Para a lei, basta que o denunciante diga que não mentiu para que a sua denúncia seja considerada verdade. O estabelecimento acusado, no entanto, terá que provar que a denúncia foi mentirosa para ser considerado inocente.</p></blockquote>
<p>A análise se baseava no estudo da lei e nas declarações textuais do Secretário de Justiça Luiz Antonio Marrey.</p>
<blockquote><p>O secretário de Justiça do Estado, Luiz Antônio Marrey, ao comentar uma pesquisa do Instituto GPP e da InformEstado que indicava que 64,9% dos entrevistados não pretendem denunciar locais com fumantes, disse que, num primeiro momento, a “metade que vai denunciar é suficiente para colaborar com a fiscalização”. A tendência é que a delação aumente, para o bem de todos, disse o secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata: “O uso do cigarro em ambiente interno é culturalmente aceito há anos. Começamos a mudar isso só agora. Por isso, nesse primeiro momento, a intenção de denunciar não aparece. Acredito que, com a aplicação da lei e os donos de bares se engajando em preservar os estabelecimentos, as denúncias vão surgir”.</p></blockquote>
<p>Não havia um erro factual, uma distorção sequer das declarações. Em cima disso exerceu seu direito de opinar e condenar o instituto da delação.</p>
<p>A reação de Serra foi furibunda.</p>
<p><span id="more-32544"></span>Escreveu um carta, fez Marrey assiná-lo,com um conteúdo extravagante (<a href="http://notebook.zoho.com/nb/public/luisnassif/page/224186000000024113?nocover=true" target="_blank">clique aqui</a>):</p>
<p>1. Admitiu a delação e fez sua defesa.</p>
<blockquote><p>A ideia de delação vem carregada de rejeição. Na vida, não faltam exemplos de mesquinharia, vilania e torpeza de quem entregou judeus à Gestapo ou seu companheiro de lutas libertárias à tortura. Por outro lado, a delação é punida com a morte pelas organizações criminosas como nos lembra José Ricardo Ramalho na obra “O mundo do crime ou a ordem pelo avesso”, que estudou o universo das prisões.</p></blockquote>
<blockquote><p>O artigo confunde conceitos: defender o direito de cada um à saúde e o direito de exigir providências para seu respeito por parte do Estado &#8211; ou seja, o exercício da cidadania ativa &#8211; transforma-se em delação.</p></blockquote>
<blockquote><p>Por esse critério, o jornalista que contar à direção do jornal que um colega faz “matéria paga” pratica delação; quem informar que outra pessoa é um assassino também pratica delação; o policial que informar à corregedoria que seu companheiro usa a tortura ou recebe propina é delator; a mãe que revelar à polícia o autor do estupro praticado contra sua filha é delatora. E todos mereceriam ser estigmatizados, o que é um absurdo.</p></blockquote>
<p>A argumentação era sofrível. Não entrava no centro da questão, de aceitar a palavra do delator e transferir o ônus da prova da inocência ao acusado.</p>
<p>2. Fez ataques pessoais a Inês, insinuando que ela estava a serviço da indústria do cigarro.</p>
<blockquote><p>Como já ocorreu no mundo inteiro, a indústria do tabaco desencadeou, por intermédio de seus parceiros, uma intensa campanha com objetivo de desacreditar a lei e boicotar sua efetiva aplicação.</p></blockquote>
<p>Repito: quem escreveu ou pelo menos orientou o conteúdo foi o próprio Serra. Por imposição dele, a carta foi promovida a artigo, com insinuações contra a honra da jornalista. A intenção foi constranger qualquer crítica futura, mostrar o poder do príncipe: qualquer crítica a Serra, produzido em alguns dos órgãos sob sua esfera de influência terá como resposta ataques pessoais aos jornalistas, escritos em espaço privilegiado no próprio veículo do jornalista. E seu poder atual decorre do cargo de governador de São Paulo que tem a mídia como aliada. O que ocorreria com ele Presidente da República?</p>
<p>Pensa, com isso, que humilhou a Inês. Bobagem: a humilhação foi imposta à direção de redação, que cedeu.</p>
<p>Como Serra é um político que não teme nenhuma forma de poder, sua próxima verrina será dirigida ao jornal <span style="color: #888888">O Globo</span> que, em editorial da semana passada, afirmou o seguinte sobre a lei anti-fumo:</p>
<h2>Editorial de O Globo</h2>
<h3>Sob tutela</h3>
<blockquote><p>Quando uma doutrina autoritária chega ao poder, ela pode se expressar de várias formas, e até, à primeira vista e formalmente, dentro da lei. Há medidas tomadas, nas esferas federal e estadual, em que são bastante visíveis as impressões digitais de um tipo de visão segundo a qual a sociedade precisa ser vigiada, tolhida e, se for o caso, punida, para adotar “bons costumes”.</p></blockquote>
<blockquote><p>A questão da proibição do fumo em qualquer espaço público comercial, em São Paulo e agora no Rio, é emblemática. Lastreada em propósitos louváveis &#8211; a preservação da saúde -, a proibição, por radical, cassa o direito do fumante, ao suprimir as áreas antes reservadas para ele. Outra característica desta doutrina autoritária é eximir o Estado de responsabilidades, punindo terceiros por delitos configurados como tais por este tipo de norma. No caso do fumo, a punição recai sobre o dono do bar, do restaurante, do que seja. Em vez de o poder público se responsabilizar pela repressão, ela é transferida, por imposição pecuniária, a outros.</p></blockquote>
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		<title>Futuro parece sombrio para o fotojornalismo</title>
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		<pubDate>Mon, 24 Aug 2009 19:22:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Favre</dc:creator>
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		<description><![CDATA[DINHEIRO &#38; NEGÓCIOS

  Por DAVID JOLLY
PARIS — Quando os fotojornalistas e seus admiradores se reunirem no sul da França, no final deste mês, na mostra Visa pour l’Image, comemoração anual de seu ofício, muitos profissionais poderão estar se perguntando quanto tempo ainda conseguirão aguentar.
Jornais e revistas têm cortado os orçamentos de fotografia ou fechado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><font color="#000080" size="+1">DINHEIRO &amp; NEGÓCIOS</font></strong></p>
<p><a href="http://blogdofavre.ig.com.br/2009/08/futuro-parece-sombrio-para-o-fotojornalismo/12920/" rel="attachment wp-att-12920" title="newyorktimes_folha.gif"><img src="http://blogdofavre.ig.com.br/wp-content/uploads/2009/08/newyorktimes_folha.gif" alt="newyorktimes_folha.gif" /></a></p>
<p style="background-color: #ffff99">  <font size="-1">Por <strong>DAVID JOLLY</strong></font></p>
<p>PARIS — Quando os fotojornalistas e seus admiradores se reunirem no sul da França, no final deste mês, na mostra Visa pour l’Image, comemoração anual de seu ofício, muitos profissionais poderão estar se perguntando quanto tempo ainda conseguirão aguentar.<br />
Jornais e revistas têm cortado os orçamentos de fotografia ou fechado suas portas, e as redes de TV reduziram a cobertura noticiosa em favor de material menos caro. Imagens e vídeos amadores tirados com celulares são publicados em sites da web minutos depois dos fatos. Os fotógrafos que tentam ganhar a vida retratando as notícias dizem que há uma crise.<br />
O último sinal de problemas foi o da empresa dona da agência de fotos Gamma, que pediu concordata em 28 de julho após sofrer prejuízo de US$ 4,2 milhões no primeiro semestre, quando suas vendas caíram quase 33%.<br />
A Gamma foi fundada em 1966, pelos fotógrafos Raymond Depardon e Gilles Caron. Juntamente com as agências Sygma, Sipa e a mais antiga Magnum, ela ajudou a fazer de Paris a capital mundial do fotojornalismo.<br />
Um tribunal de Paris deu à dona da Gamma, a agência Eyedea Presse, seis meses para se reorganizar. “Aguentamos até onde pudemos, mas este modelo empresarial não é mais viável”, disse Stéphane Ledoux, executivo-chefe da empresa.<br />
Olivia Riant, porta-voz da Eyedea Pesse, disse que haverá cortes de empregos. “O problema é que a fotografia jornalística está acabada”, ela disse. “Vamos parar de cobrir fatos diários para cobrir temas com maior profundidade.”<br />
A Gamma foi adquirida em 1999 pela Hachette Filipacchi Médias, uma unidade da Lagardère, que a combinou com outras operações para fornecer fotos para suas revistas. Mas o negócio não prosperou, e ela foi vendida em 2007 para o fundo de investimentos Green Recovery. As concorrentes da Gamma não se saíram muito melhor: a Sygma foi adquirida pela Corbis em 1999, e a Sipa, pela Sud Communication em 2001.<br />
O fotojornalismo viveu uma era dourada desde antes da Segunda Guerra Mundial até a década de 70. Revistas como “Time”, “Life” e “Paris Match” —e virtualmente todos os grandes jornais do mundo— tinham orçamentos para empregar legiões de fotógrafos.<br />
Mas, hoje, em uma época de menor receita publicitária e demissões, editores de fotografia de diversas publicações têm de pensar bem antes de mandar um fotógrafo em campo ao custo de US$ 250 por dia, mais despesas.<br />
As grandes agências de notícias —Associated Press, Agence France Presse e Reuters, junto com locomotivas regionais como Kyodo, no Japão, e Xinhua, na China— dominam a fotografia jornalística. Mas o negócio de comercializar e vender fotos digitalizadas é comandado por duas empresas globais: a Getty Images, fundada em 1995, e a Corbis, fundada em 1989 pelo presidente da Microsoft, Bill Gates.<br />
As empresas de fotos de arquivo ganharam destaque ao comprar centenas de arquivos de imagens e disponibilizá-los para venda on-line. Enquanto continuam patrocinando o fotojornalismo, as companhias são na verdade serviços de gerenciamento de direitos autorais de propriedade digital.<br />
Na Getty, 70% das receitas vêm da venda de imagens de arquivo. “Fotojornalismo significa que os fotógrafos podem contar a história em imagens, e havia lugares onde eles podiam publicar essas fotos”, disse o principal executivo da Getty, Jonathan Klein. “No mundo da imprensa, a maioria desses lugares desapareceu desde então.”<br />
Mas, ele acrescenta, há motivos para otimismo, porque “graças à web hoje há bilhões de páginas para os fotógrafos mostrarem seu trabalho”.<br />
Jean-François Leroy, organizador do festival de fotojornalismo Visa pour l’Image, que começa neste sábado, na França, apontou como outro problema a menor ênfase a temas sérios na mídia. “Os fotógrafos estão produzindo coisas ótimas, mas hoje a mídia só parece se interessar por celebridades”, disse.</p>
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		<title>New York Times aponta crise no fotojornalismo</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Aug 2009 20:31:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Favre</dc:creator>
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© Keystone / Eyedea. Fotojornalista na inundação de Londres, 1927.
O jornal norte-americano The New York Times (NYT) publicou reportagem nesta terça-feira (11/08) em que alerta para a crise vicenciada pelo Fotojornalismo. O texto baseia-se em dados como a concorrência dos fotógrafos profissionais com amadores na internet, além da recessão e cortes de despesas nos orçamentos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://blogdofavre.ig.com.br/2009/08/new-york-times-aponta-crise-no-fotojornalismo/12735/" rel="attachment wp-att-12735" title="keystone.jpg"><img src="http://blogdofavre.ig.com.br/wp-content/uploads/2009/08/keystone.jpg" alt="keystone.jpg" /></a><br />
<font size="1"><em>© Keystone / Eyedea. Fotojornalista na inundação de Londres, 1927.</em></font></p>
<p>O jornal norte-americano The New York Times (NYT) publicou reportagem nesta terça-feira (11/08) em que alerta para a crise vicenciada pelo Fotojornalismo. O texto baseia-se em dados como a concorrência dos fotógrafos profissionais com amadores na internet, além da recessão e cortes de despesas nos orçamentos de revistas e jornais. O caso da tradicional agência Gamma -que entrou em concordata no último dia 28 -também é utilizado como aviso à sobrevivência do setor. A citada Gamma, localizada em Paris, acumulou dídida de US$ 4,2 milhões no primeiro semestre deste ano. Fundada em 1966, foi uma das agências independentes que transformou a França na capital do Fotojornalismo mundial. Após a concordata, a Justiça de Paris concedeu seis meses para a Eyedea Press -proprietária da agência- se reestruturar. No texto, a porta-voz da empresa justifica a crise no setor e faz um alerta: &#8220;O modelo de negócio não está funcionando hoje. Portanto, sem mudanças, não funcionará amanhã. O problema é que o Fotojornalismo acabou. Vamos parar de cobrir assuntos diários e partir para temas mais profundos&#8221;, disse Olívia Riant.</p>
<p>Fonte: <a href="http://imagesvisions.blogspot.com/">Images&amp;Visions</a> e <a href="http://portal%20imprensa./">Portal Imprensa</a></p>
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		<title>&#8216;Bafafá político&#8217; impede debate sério no Brasil, diz Paulo Cunha</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jul 2009 13:58:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Favre</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;O Brasil precisa discutir o pré-sal, discutir questões mais relevantes&#8221;, (&#8230;) &#8220;Esse bafafá político tem impedido o país de discutir essas questões.&#8221;
Constatação lapidar do empresário Paulo Cunha em entrevista a Folha SP hoje.
Ontem Janio de Freitas escreveu que “Espetáculos de degradação como o do Senado se afiguram para a classe dominante brasileira como espetáculos”. O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>&#8220;O Brasil precisa discutir o pré-sal, discutir questões mais relevantes&#8221;, (&#8230;) &#8220;Esse bafafá político tem impedido o país de discutir essas questões.&#8221;</strong></em></p>
<p><em>Constatação lapidar do empresário Paulo Cunha em entrevista a <strong>Folha SP</strong> hoje.</em></p>
<p><em>Ontem Janio de Freitas escreveu que<strong> “Espetáculos de degradação como o do Senado se afiguram para a classe dominante brasileira como espetáculos”</strong>. O Ombudsman do jornal, coincidentemente, ponderou que a cobertura feita pela<strong> Folha</strong> contribui para transformar o Congresso em “baudeville”* e servir assim ao espetáculo da mesma classe dominante. </em></p>
<p><em>O empresário Paulo Cunha, da &#8220;classe dominante&#8221; não aceita o &#8220;divertimento&#8221; e remete a sua real dimensão os escândalos, verdadeiros ou fabricados, que a mídia nos fornece cotidianamente. </em></p>
<p><em>A crítica do ombudsman e a entrevista de Paulo Cunha com destaque para à frase acima na própria capa do jornal, talvez signifique que a <strong>Folha</strong> esteja querendo corregir seu curso e voltar a ser um espaço para a discussão das questões relevantes evocadas por Paulo Cunha.</em></p>
<p><em>Neste blog tenho feito um esforço para evitar o  &#8220;bafafá&#8221; e tratar do que me parece ser relevante, mas nem sempre tenho conseguido pois é abrumadora a pressão para tratar a política como espetáculo. </em></p>
<p><em>O udenismo de setores médios, particularmente de São Paulo, alimentados pela ação política opositora de grande parte da mídia e de alguns setores partidários, impregna a atmosfera poluindo um debate urgente e necessário.</em></p>
<p><em>Luis Favre</em></p>
<p><img src="http://veja.abril.com.br/060199/imagens/holofote2.jpg" alt="http://veja.abril.com.br/060199/imagens/holofote2.jpg" align="left" /><strong><font size="+1" color="#000080">ENTREVISTA DA 2ª &#8211; PAULO CUNHA</font></strong></p>
<p><font size="5"><strong>Bafafá político atrapalha o debate de temas relevantes</strong></font></p>
<p><strong>Para o presidente do conselho do grupo Ultra, sistema político não atende à necessidade do país e não recruta as melhores pessoas para seus quadros  </strong></p>
<p>NOS ÚLTIMOS anos, o empresário  Paulo Cunha, presidente do conselho de administração do grupo Ultra, tem adotado um estilo bastante  reservado. Avesso a entrevistas, ele prefere se  manter como um expectador privilegiado da cena nacional.<br />
Nesta entrevista concedida na semana passada na sede do grupo Ultra, em São Paulo, Cunha manifesta otimismo com as perspectivas da economia, apesar da crise. Na sua opinião, o Brasil perde muito tempo com o que ele chama de bafafá político, quando há temas mais relevantes para serem discutidos no país.</p>
<p><strong>GUILHERME BARROS</strong><br />
<font size="-1"> COLUNISTA DA FOLHA </font></p>
<p>&#8220;O Brasil precisa discutir o  pré-sal, discutir questões mais  relevantes&#8221;, diz Cunha. &#8220;Esse  bafafá político tem impedido o  país de discutir essas questões.&#8221;<br />
Para ele, o sistema político  não atende às necessidades do  país. Um dos grandes problemas é a forma como se escolhe  as pessoas no setor público.<br />
&#8220;Se uma empresa fizesse o  recrutamento dos seus quadros  da mesma maneira que os partidos, as empresas estariam fora do jogo&#8221;, afirma. &#8220;O governo  precisa ser estatizado.&#8221; A seguir, trechos da entrevista.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; A crise acabou?<br />
PAULO CUNHA </strong></em>- Em primeiro lugar, temos de olhar a crise na  sua origem. [...] A crise surgiu  do grande desbalanceamento  do comércio nas finanças internacionais. De um lado, o gigantesco déficit americano; de outro, o gigantesco superávit de  Ásia e Alemanha. [...] Também  havia o elevado endividamento  do consumidor americano. A  poupança é praticamente zero  e o consumidor americano se  endividou muito. A ponto de o  nível de endividamento médio  do cidadão americano atingir  quase 140% da sua renda anual.<br />
É óbvio que tinha de estourar.<br />
Os governos agiram e a crise  financeira, a crise bancária, foi  atenuada. Não diria que terminou, mas está totalmente escorada nos créditos e nas garantias dos governos europeu e  americano. Julgo que, uma vez  terminado o pânico, já começa  a recapitalização dos bancos e o  sistema se normaliza. Mas o nível de atividade não se normaliza tão cedo. Há ainda um longo  processo de desalavancagem  do consumidor americano.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; Quanto tempo o sr. acha  que pode levar até a recuperação?<br />
CUNHA </strong></em>- O consumidor americano está ficando novamente  conservador do ponto de vista  financeiro. Está com medo do  desemprego, do futuro. Paga  juros elevados e tem dificuldades de se refinanciar. Muitos  perderam suas casas, poupanças, aposentadorias e, portanto,  estão apertando o cinto e consumindo menos. Quanto tempo? Não sei e suponho que ninguém saiba ao certo.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; E como fica o Brasil?<br />
CUNHA </strong></em>- O Brasil, evidentemente, é parte do mundo. Nos últimos tempos, o crescimento brasileiro vinha sendo turbinado pelo comércio internacional, pelas exportações, notadamente para a China e o Ocidente. Isso, evidentemente, sofreu uma parada devido à crise. O Brasil também está sendo afetado por ter havido um corte muito forte nos investimentos das empresas em resposta à crise. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil vem desenvolvendo o seu mercado interno, de consumo. As classes menos favorecidas, as classes mais pobres, vêm sendo incorporadas gradativamente ao mercado. Está começando a acontecer uma coisa que não havia no Brasil, que é o financiamento de consumo.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; Como o sr. vê a reação do  governo?<br />
CUNHA </strong></em>- Em primeiro lugar, foi de susto, tentando negar a crise. Mas, passado o susto, acho que o governo agiu bem e rapidamente. Não havia mesmo necessidade, no Brasil, de segurar o sistema financeiro. O sistema financeiro é sólido. Alguns setores começaram a sofrer um impacto forte, como os de automóveis e de eletrodomésticos, e o governo agiu rápido para restabelecer o consumo. São vendas que dependiam de financiamento. O governo Lula mostrou presteza e atenção.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; O Banco Central não demorou a começar a baixar os juros?<br />
CUNHA </strong></em>- O Banco Central tem  sido disfuncional em determinados aspectos. Tem sido lento  e suas decisões são sempre na  direção do conservadorismo,  de manter os juros estratosféricos, mas, depois, acabou agindo  na direção certa. Agora, o juro  está começando a chegar a números mais civilizados.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; Mas o presidente do BC,  Henrique Meirelles, não é considerado a âncora da economia?<br />
CUNHA </strong></em>- Por alguns, mas a âncora da economia, no fundo, é o  brasileiro, são as empresas brasileiras, o sistema de produção,  a agricultura, o agricultor, o trabalhador, os funcionários das  empresas. Tende-se a achar  que o governo e algumas pessoas são responsáveis pelo que  há de bom. Muitas vezes são  responsáveis pelo mal. O bem  são os brasileiros que fazem.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; Onde o sr. nota essa tendência?<br />
CUNHA </strong></em>- O Brasil vive hoje uma  fase muito interessante, bastante heterogênea. O brasileiro  está querendo crescer, melhorar, subir. Está buscando educação. Pela primeira vez se começa a falar de educação de  maneira mais ampla e mais  profunda no Brasil. Vejo grande parte dos funcionários das  empresas que trabalham durante oito horas por dia saírem  [do trabalho] e ainda irem para  a escola, para algum curso de  aperfeiçoamento, para um curso superior buscando o conhecimento para melhorar sua formação. É um esforço muito  grande. Outra coisa que se vê é  um aperfeiçoamento muito  grande na qualidade de gestão  das empresas. Essa gestão mais  profissionalizada está se generalizando no Brasil. É um fato  notável. Tanto que as filiais das  multinacionais no Brasil estão  em situação melhor do que as  matrizes. Os brasileiros estão  se transformando em grandes  gestores. Cada vez mais se vê  brasileiros na gestão de empresas multinacionais.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; O governo Lula foi uma  surpresa para o sr.?<br />
CUNHA</strong></em> &#8211; O governo Lula sofreu  uma mudança de paradigma no  momento da Carta aos Brasileiros (antes da eleição de 2002,  em que assumia compromissos  caso fosse eleito). [...] Ele teve,  de um lado, o bom senso de  manter as coisas que vinham  dando certo, de reconhecer a  importância da estabilização  da moeda, o valor da higidez  das contas públicas. Essas coisas centrais o governo Lula  manteve, com uma intensidade  que, admito, foi surpresa para  muita gente. Ao mesmo tempo,  o governo levou atitudes concretas de apoio ao povo mais  desassistido. Apesar de os instrumentos básicos terem sido  estabelecidos anteriormente,  como o Bolsa Educação, a incorporação desses programas  no Bolsa Família deu a ele uma  nova dimensão.<br />
Agora, nem tudo é tão maravilhoso assim. Do lado institucional há muito a fazer. Nós temos um sistema político que  não atende às necessidades do  país. O sistema político está recrutando mal. Ele não recruta  as melhores pessoas. Se uma  empresa fizesse recrutamento  dos seus quadros da mesma  maneira que os partidos fazem,  as empresas estariam fora do  ar, fora do jogo.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; O sr. acha que é preciso fazer uma reforma política?<br />
CUNHA </strong></em>- O Brasil precisa de reforma política, mas o mais importante é uma mudança mais  profunda na maneira de fazer  as coisas. O governo precisa ser  estatizado. Algumas estatais  estão em grande parte privatizadas, não apenas por políticos  regionais mas por determinados partidos. A crise do Senado  é uma crise que não é de agora,  não é de ontem, não é da semana passada, é uma crise que já  vem se desenhando há muito  tempo e não é exclusiva do Senado. O Senado está sob o holofote agora, mas, certamente, o  mesmo holofote colocado em  outros órgãos poderá trazer  surpresas desagradáveis.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; O sr. acha que a CPI da Petrobras pode chegar a alguma coisa?<br />
CUNHA</strong></em> &#8211; Não sei, acho que essa  CPI não vai chegar a lugar nenhum. Não acho que o Brasil se  resolva com CPIs. O que o país  precisa é discutir o pré-sal, discutir essas questões mais relevantes. Esse bafafá político tem  impedido o Brasil de discutir  essas questões.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; Como o sr. viu a proposta  do governo para o pré-sal?<br />
CUNHA </strong></em>- Não vi a proposta do  governo, ainda. O que se tem  são vazamentos do que seria.  Há duas questões centrais: como é que vão ser repartidos os  resultados e como o governo  vai se apropriar dos resultados.<br />
Essa é uma questão de grande  profundidade. Envolve interesses de Estados, municípios, de  um sistema político que já está  estabelecido em torno do sistema tradicional de concessões.  O governo parece optar por um  sistema de partilha.</p>
<p><em><strong>FOLHA &#8211; O sr. aprova a mudança?<br />
CUNHA </strong></em>- Tanto um como o outro funcionam, mas desde que  seja bem administrado, assim  como a estatal a ser criada para  a operação. Se for bem administrada, transparente, enxuta,  a estatal pode funcionar bem.<br />
Mas existe outra questão, que é  de grande relevância, que é o  que será feito com a exploração  das reservas, que ritmo vamos  dar à exploração. Não podemos  sair numa correria louca para  produzir o máximo de petróleo  e distribuir esses resultados,  senão haverá consequências  muito ruins do ponto de vista  inflacionário, a partir de uma  apreciação forte do real, e os  efeitos serão devastadores para  o resto da produção brasileira.<br />
O melhor seria explorar de forma moderada, preocupando-se  em poupar para o futuro.</p>
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		<title>Vida de escritor</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Jul 2009 13:33:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Favre</dc:creator>
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Com dois livros recém-lançados na França e um filme a caminho sobre seu trabalho, Gilles Lapouge submete a aventura literária e o jornalismo aos prazeres do bom texto
Laura Greenhalgh -O Estado SP
O olhar curioso de quem passa pela calçada da Rue Fondary, altura do número 25, no XVème arrondissement de Paris, certamente flagrará pelas janelas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center"><img src="http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090712/img/arteelazer.jpg" width="267" height="472" /></div>
<p><font size="4"></font></p>
<p><font size="4"><strong>Com dois livros recém-lançados na França e um filme a caminho sobre seu trabalho, Gilles Lapouge submete a aventura literária e o jornalismo aos prazeres do bom texto</strong></font></p>
<p style="background-color: #ffff99">Laura Greenhalgh -O Estado SP</p>
<p>O olhar curioso de quem passa pela calçada da Rue Fondary, altura do número 25, no XVème arrondissement de Paris, certamente flagrará pelas janelas um jovial senhor de cabelos brancos teclando ao computador, entre pilhas e pilhas de papéis. Jovial senhor porque as maneiras são ágeis, a camisa, esportiva, a cabeleira, revolta, e nota-se ainda um arrojado par de tênis contestando os 85 anos de idade do portador. Ultrapassadas duas portas do edifício, uma no plano da rua e outra interna, chega-se enfim ao bureau do escritor e jornalista francês Gilles Lapouge. &#8220;Eis onde passo os meus dias. De 8 às 18 você me encontra neste escritório. Faço uma pausa rápida só para o almoço&#8221;, diz o anfitrião, em tom meticuloso.</p>
<p>A aparente desordem é o avesso de um caos criativo. Os livros se espalham por todos os cantos (inclusive pelo chão), lotam estantes e a vasta coleção de caixotes para garrafas de vinho &#8211; madeirame raro na era das embalagens de papelão e dos engradados de plástico. E espalham-se também as fotografias, as lembranças de viagens, os cartões-postais, uma miríade de objetos esparsos, os quadros, os mapas, os recortes de jornal, enfim, marcadores do tempo para alguém que considera a vida um percurso. Um itinerário. Uma geografia.</p>
<p>Gilles Lapouge tem sido muito solicitado a falar de si nos últimos tempos. Só neste ano, foram lançados dois livros na França, ambos com feitio biográfico, nos quais ele repassa a travessia intelectual, em geral ligada aos movimentos familiares e profissionais. Em La Maison des Lettres (Éditions Phébus), tem-se em forma de livro a longa entrevista que concedeu ao jornalista francês Christophe Mercier. É conversa de vida inteira, recuperando a infância feliz na Haute Provence, o período de maior isolamento social na Argélia, para onde o pai militar foi transferido, a juventude em Paris, a descoberta do Brasil através de um convite de trabalho do jornal O Estado de S. Paulo, as múltiplas influências literárias e todas as errâncias de um intelectual que se desloca para entender o mundo e a si mesmo. O outro livro, La Légende de la Géographie (Éditions Albin Michel), traz o escritor desvendando ao público sua geografia pessoal em uma bela coleção de ensaios sobre assuntos que sempre o intrigaram: as fronteiras, os mapas, a neve, os planisférios, as estradas de ferro, e por aí vai. Fora isso, Lapouge virou tema de um documentário dirigido pelo cineasta francês Joel Calmette, em fase de produção. &#8220;Lapouge adora flanar para então se perder. Por toda a vida cultivou esse gosto pela errância, pela escapada, pela digressão&#8221;, diz dele o jornalista e escritor Bernard Pivot, com quem partilhou incontáveis debates culturais na televisão francesa.</p>
<p>Nesta entrevista, concedida numa tarde de primavera em Paris, Gilles Lapouge confessa algumas de suas paixões. Uma delas, pode-se dizer sem margem de erro, vem do prazer da escrita &#8211; ali, na Rue Fondary, lapidam-se frases. Outra revela seu amor pela geografia, ciência que o move, o educa e ainda o faz sonhar. Chega a dizer que &#8220;todo evento, antes de ser histórico, é geográfico&#8221;, enveredando por um labirinto de reminiscências que perpassa uma notável geração de escritores e artistas franceses da qual fazem parte, entre muitos de seus amigos, Maurice Nadeau, lendário editor do jornal Combat, o poeta Claude Mettra e o historiador Jacques Le Goff.</p>
<p>O que parte dos franceses não sabe é que Gilles Lapouge mantém, há quase seis décadas, uma atividade jornalística regular no Estado &#8211; inicialmente como articulista econômico e, desde muito tempo, como correspondente e comentarista internacional. &#8220;Você acredita que há quem ainda se surpreenda com isso aqui, na Europa?&#8221;, indaga com incredulidade. Pergunto, com aquela impertinência só possível entre colegas de trabalho, por que ele sempre se refere ao Estado como &#8220;mon journal brésilien&#8221;. Lá vem a resposta: &#8220;É meu porque jamais o deixei. E porque, não fosse por ele, eu seria um francês normal, sem graça, de uma família francesa desde sempre.&#8221; Gilles Lapouge, laureado duas vezes com o Prix Femina e o Grande Prêmio da Língua Francesa, concedido pela própria Academia Francesa, mantém com o Brasil um diálogo intenso, amoroso e, até por isso, difícil. Perturba-o a violência brasileira, &#8220;escamoteada por uma cordialidade que nada tem de cordial&#8221;.</p>
<p><strong>Os dois livros que saíram este ano na França são distintos na forma, mas nem tanto no conteúdo: o primeiro revela o ensaísta e o segundo traz a longa entrevista que você concedeu a um jornalista francês. Mas você concorda que ambos são, no fundo, biográficos?</strong></p>
<p>Sim, eles atravessam o que fiz e pesquisei nestes anos todos. Em La Légende de la Géographie, eu me detenho sobre temas que me marcaram e sobre os quais tenho pensado. No outro, falo dos meus pais, da família, da infância, da juventude, conto a minha vida numa linguagem bastante direta. Apesar de diferentes na forma, é bem verdade, os dois livros sublinham o meu gosto por escrever. Jamais deixei de cultivar o estilo da escrita, algo que anda em baixa na França, infelizmente.<br />
<strong><br />
Por quê?</strong></p>
<p>A educação das pessoas mudou muito e a internet tem tido uma influência tremenda na maneira como andam escrevendo. Fora isso, existe uma nova ideia de cultura, expressa inclusive em novas manifestações artísticas. A minha ideia baseia-se na cultura escrita. Só que hoje tudo é cultura. Uma geleia, um filé, um filme, uma canção, tudo é encarado como cultura, o que leva a uma tremenda dispersão de interesses. Nesse contexto, sou um arcaico que ainda escreve com zelo e carinho.<br />
<strong><br />
Como você começou a escrever?</strong></p>
<p>Comecei pela poesia, na juventude. Cheguei rapaz a Paris decidido a ser poeta, como tantos outros companheiros da minha geração. Talvez até pelos militares que tinha na família e pelo que passamos na guerra, cheguei a dedicar poemas &#8220;a todos os soldados do mundo&#8221;. Mais tarde, ao me aventurar pelo texto narrativo, incorporei um tanto de poesia na escrita. Ainda sou muito ligado na musicalidade do texto, na cadência da frase. O problema é que escritores como eu tendem a ser vistos como &#8220;preciosistas&#8221; hoje em dia. Meu prazer, e meu esforço, é alcançar um texto de fatura simples e ao mesmo tempo sofisticado. Trata-se de harmonizar contrários. É fazer o refinado dialogar com o popular, até mesmo com o vulgar, se preciso.<br />
<strong><br />
Por que nos dois livros você exalta a geografia?</strong></p>
<p>Porque amo geografia sem nunca ter sido bom nela (ri). Sou nulo nesse campo.</p>
<p><strong>Mas você passou por um curso superior de geografia na mocidade.</strong></p>
<p>Sim, numa faculdade em Aix-en-Provence. Estudei a geografia formal. A verdade é que criei uma geografia pessoal: sou alguém que decididamente viaja para se perder. Se penso no norte, é porque estou no sul, se olho para o leste, sinal de que vejo o oeste, e assim por diante. Entrou para o folclore familiar uma viagem que fiz com meus filhos e minha mulher pela Áustria, há muitos anos. Quando chegamos a uma certa cidade, encasquetei que era Innsbruck, me senti em Innsbruck, reconheci Innsbruck. Meus filhos diziam que não havia relação entre o que víamos e o que estava no guia turístico que eles consultavam a todo momento. Eu disse que era culpa do guia, velho, malfeito. Enfim, só fui me convencer de que não estávamos em Innsbruck no dia seguinte, pela minha filha, uma menina de 12 anos! (ri) Os primeiros geógrafos eram pessoas como eu, gente que se perdia. Saíam de suas grutas, de suas pequenas moradias, e se perdiam. Daí passaram a rabiscar croquis para entender a situação. Assim a ciência começou. Imagine se os homens primitivos tivessem GPS? Eles não se perderiam jamais, o que seria catastrófico. Sem que nos percamos, não somos capazes de ver a paisagem.</p>
<div id="c">
<h3><font size="5">Paraíso terrestre não existe. Nem mesmo no Brasil</font></h3>
<p><strong>Lapouge revê o mito do país cordial, pacífico, mas que é capaz de camuflar relações ferozes e brutais</strong></div>
<p>Gilles Lapouge, numa tarde de conversa em seu escritório parisiense, lembra do dia em que o pai quase foi fuzilado, critica as utopias e os militantes do &#8220;mundo sem fronteiras&#8221;, e ainda fala de projetos literários que vem desenvolvendo. Entre eles, o Dicionário Amoroso do Brasil, organizado segundo um olhar particularíssimo sobre &#8220;o país que o livrou da matriz francesa&#8221;. Autor de duas dezenas de livros, foram editados no País A Missão das Fronteiras (ed. Globo), Os Piratas (ed. Antígona) e Equinocial &#8211; Viagem pelos Confins do Brasil (ed. Pontes). Lapouge deverá vir a São Paulo em setembro, para participar de um ciclo de conferências na USP sobre as relações Brasil-França. Será acompanhado pela equipe de cinema que produz o documentário sobre sua obra e trajetória. Várias tomadas já foram feitas, entre elas, a habitual participação do autor de La Légende de la Géographie no Festival de Saint-Malo, dedicado à literatura de viagem.</p>
<p><strong>Você faz uma interessante comparação entre os &#8220;marcadores de fronteiras&#8221; e os profetas, porque desenham o futuro, ao se referir a seu avô, um general francês que saía em missões demarcatórias. Hoje, há fronteiras instáveis pelo mundo e o próprio sentido de globalização parece atenuar o conceito de demarcação. Como você vê esse fenômeno?</strong></p>
<p>Meu avô demarcou fronteiras, é verdade. Eu não o conheci, mas sua trajetória sempre me fascinou. A começar pela figura dele: era um homem muito pequeno e se deslocava num imenso cavalo. Acho que nunca houve um general tão baixinho no exército francês! E ele detinha esse poder de dizer &#8220;aqui é França, aqui não é&#8221;. Falar de fronteiras, hoje, é outro capítulo. Tudo anda tão mexido no mundo, mas não podemos perder de vista o jogo dialético que existe entre a fronteira e o fim dela. Sentimos uma espécie de pressão para juntar as coisas, seja pelo comércio, pelos deslocamentos humanos, pelas tecnologias. Mas já vimos que é insuportável a ideia de &#8220;mundo sem fronteiras&#8221;, como pregam os ativistas do altermundialismo. É um troço horrível e explica em parte o recrudescimento dos nacionalismos. Temos necessidade de demarcações, porque o ser humano não vive sem fronteiras. Por outro lado, depois dos atentados em Nova York, em setembro de 2001, veio a doutrina Bush passando por cima de fronteiras. Ali se perdeu a noção do limite, provocando um traumatismo mundial do qual ainda estamos nos recuperando. Mas, não se engane: mundo sem fronteiras é mundo sem forma.</p>
<p><strong>E a proliferação dos muros separando mexicanos de americanos, israelenses de palestinos, isolando os saauris&#8230;? </strong></p>
<p>Muros, gostemos ou não, têm uma razão de existir, assim como as fronteiras. Qual foi o primeiro grande muro da era moderna? Foi o da URSS em relação ao resto do mundo. Lenin e Trotski pensaram a universalização dos direitos, daí vem o stalinismo transformando concepções ideais num separatismo feroz e autoritário. Pense nos muros decorrentes das guerras coloniais. Pense nos independentistas tunisianos e argelinos, a França ergueu um muro abominável, empilhou milhares de cadáveres, cercou aquela população com muros eletrificados, uma barbaridade. Hoje vemos este muro horrendo separando israelenses de palestinos. Mas, por que ele está lá? Porque é impensável juntar israelenses e palestinos, essa é a verdade. Não vão se entender jamais. Em tese, os muros são abomináveis, mas acabam existindo para delimitar espaços.<br />
<strong><br />
São tão necessários quanto as fronteiras?</strong></p>
<p>Conforme a situação, sim. Há um fenômeno interessante: fronteiras, mesmo quando são retiradas, apagadas ou transformadas, não desaparecem. Veja o caso da Iugoslávia: ao se dividir, ela o faz justamente onde havia fronteiras anteriores a 1914, nas linhas divisórias entre o império austríaco, o turco-otomano e o império russo. Por isso digo que qualquer evento histórico é, antes de sê-lo, um evento geográfico. Napoleão foi sobretudo um grande geógrafo. Antes de mandar tropas para a Rússia, o que marcaria o começo da sua derrocada, ele pediu a seu embaixador em São Petersburgo para roubar a cartografia que o czar havia mandado fazer. Pois o embaixador de Napoleão teve que se virar para consumar o roubo dos mapas e despachá-los a Paris. Já no exílio em Santa Helena, nos últimos anos de sua vida, Napoleão se dedica a pensar questões da geografia. Naquele momento, ele se interessa particularmente pelo estudo dos ventos.<br />
<strong><br />
Quanto há de geografia no seu trabalho jornalístico?</strong></p>
<p>Muito. O tempo todo. Claro, não posso ficar chateando meus leitores com uma infinidade de detalhes nem com meu interesse pelos palimpsestos. Mas também não posso escrever sobre o conflito entre israelenses e palestinos sem ter a cabeça voltada para as coordenadas da região. Os jornalistas dizem com muita facilidade que, em algum lugar, atacaram uma mesquita, sem se perguntar quando aquele lugar foi construído, sob que condições&#8230; Fernand Braudel, ao escrever sua belíssima história mediterrânea, reservou um volume da obra para tratar só de geografia. Euclides da Cunha, autor formidável, dedica as primeiras 150 páginas de Os Sertões à geografia, porque é impossível compreender Canudos sem refletir sobre o solo, o curso dos rios, o clima, etc.</p>
<p><strong>Por falar em Braudel, ele foi encarregado de promover o seu encontro com o Brasil nos anos 50, não foi?</strong></p>
<p>Sim, já se ouvia falar dele por aqui. Era um historiador conhecido. Em 1935, partira para o Brasil com um grupo de franceses para fundar a Universidade de São Paulo. Eu o reencontrei em 1948, quando retornou à França. Naquela época, Julio de Mesquita Filho, diretor do Estado, havia lhe dito: &#8220;Encontre um jovem jornalista francês para vir trabalhar no meu jornal.&#8221; Soube então que Braudel procurava essa pessoa por intermédio do serviço cultural do Quai d?Orsay. Eu me apresentei, pedi a ajuda de um amigo para montar alguns textos e levá-los a Braudel, afinal, eu não era jornalista, e acabei sendo escolhido. O Brasil tem uma importância capital na minha obra, até porque 3/4 da minha vida estão ligados ao País. Graças ao Brasil eu me interessei pelo mundo e comecei a viajar. Não fosse por isso eu seria um francês normal, sem graça, de uma família francesa desde sempre.</p>
<p><strong>Quando você chegou?</strong></p>
<p>Em 1950, ainda na presidência Dutra. Não tinha ideia do que era o Brasil. A França saía da guerra, portanto, eu estava impregnado de um país cinza, sombrio. Ainda sentíamos os efeitos da administração Pétain, da perseguição aos judeus, etc. Deixei tudo isso para trás, porque no Brasil as cores mudaram. Foi uma revelação extraordinária do ponto de vista da beleza, da sensualidade, da capacidade de estar aberto ao outro, enfim, da joie de vivre. Com a vantagem de que não cheguei na condição de turista, mas para trabalhar.</p>
<p><strong>Sua família sofreu bastante após o final da Segunda Guerra, como você conta no La Maison des Lettres.</strong></p>
<p>Deixei para trás um mundo marcado pela delação e mesquinharia. Meu pai, que lutou na Primeira Guerra, serviu na Argélia, comandou batalhões pela França, acabou denunciado como colaboracionista, sendo que jamais foi um homem de Pétain. Havia muito disso naquele tempo: numa cidadezinha, as pessoas aproveitavam-se da caça aos colaboracionistas para fazer um ajuste de contas em torno de um problema qualquer. Brigas de vizinhos eram &#8220;resolvidas&#8221; com delações terríveis. Meu pai havia sido um oficial destacado, mas alguém resolveu dizer às autoridades que ele ajudara os nazistas. Como? Ele já estava fora da vida militar quando os nazistas ocuparam a França. Eu me lembro de ver, numa noite muito triste, minha mãe preparando a farda de meu pai porque ele iria para o pelotão de fuzilamento no dia seguinte. Eu tinha 15 anos, aquilo foi horrível. Felizmente, alguém da Resistência passou em nossa casa para checar as providências e viu que meu pai não poderia ser condenado, daí pediu que seu nome fosse retirado da lista de fuzilamentos.</p>
<p><strong>Afinal, como é que seu pai ficou depois de quase ter sido fuzilado?</strong></p>
<p>Esse episódio o quebrou para sempre. Ser acusado de alta traição à pátria foi demais para ele. Decaiu física e intelectualmente, por sorte pudemos contar com minha mãe, que era uma mulher forte. A França carregou o estigma de ser um vasto cemitério. Devo dizer que tive uma infância feliz em Aix-en-Provence, cercado de pessoas interessantes, afetivas. Não éramos nem pobres, nem ricos, éramos uma pequena burguesia que vivia bem. Mas quando saíamos de nossa casa no campo para ir a alguma cidade próxima, deparávamos com monumentos que haviam sido feitos em memória aos mortos da Primeira Guerra. Eu me detinha a contar os nomes de uma mesma família que tombaram em conflito. Famílias inteiras dizimadas.</p>
<p><strong>Mas depois a belle époque veio para resgatar a alegria, a esperança.</strong></p>
<p>Sim, mas havia o odor de morte por trás das canções, das festas, daqueles anos loucos. E, já em 1934, formava-se a noção de que uma nova guerra seria feita. Foi uma alegria efêmera, algo muito traumático à minha geração.<br />
<strong><br />
Quando você começou a viajar pelo Brasil?</strong></p>
<p>Passei três anos na redação, período em que pude trabalhar perto de Julio de Mesquita Filho, que não era tão somente o dono e diretor do jornal, mas era tudo: redator-chefe, revisor, impressor, conselheiro, editorialista, tudo! Ele foi decisivo para mim àquela altura da vida, ou seja, aos 20 e tantos anos. Depois voltei à França porque meu pai estava doente, abri a sucursal do Estado em Paris e por aqui fiquei, liderando um pequeno grupo de jornalistas. Em 1975, quando do centenário do jornal, voltei ao Brasil para comemorações, daí consegui prolongar minha estada por seis meses, para viajar. Fui aos sertões, ao Nordeste, cheguei à Amazônia. O diferencial dessa viagem: passei cinco meses rodando o País de ônibus.</p>
<p><strong>De ônibus?</strong></p>
<p>De ônibus comum. Eu poderia ter arrumado um carro, até mesmo um motorista, o jornal me ajudaria. Mas queria seguir de ônibus, para sentir a gente, os lugares. Havia aprendido português a ponto de entender o que as pessoas falavam no ônibus. E elas não imaginavam que eu fosse jornalista, supunham-me um gringo qualquer, portanto se abriam comigo. Foi uma viagem extenuante. Muitas vezes tinha que pegar o ônibus de uma cidade para a outra às 5 horas da manhã, fazia um calor terrível, as estradas eram péssimas, eu me alimentava mal e dormia onde era possível. Em resumo, do ponto de vista físico, foi uma maratona. Do ponto de vista cultural, uma maravilha.</p>
<p><strong>Que autores brasileiros você leu antes de partir?</strong></p>
<p>Nenhum. Nem Guimarães Rosa. Só havia lido alguma coisa do Jorge Amado. Aliás, foi nessa viagem que o conheci em Salvador, junto com o etnólogo Pierre Verger. Meu grande encontro se deu, de fato, com o Verger. Foi ele quem me falou intensamente do Brasil, quem me abriu os olhos para o candomblé, para a herança cultural dos negros. Amado era um homem muito engajado, dizia besteiras, não o entendi bem. Um amigo comum dizia que ele era mesmo um tanto raso, mas havia um anjo que escrevia por ele (ri). Amado deixou uma obra imensa, tornou-se adorado na França, como sabemos, e, já no final da vida, comprou um apartamento no pior quartier de Paris. Perguntei qual a razão da escolha, afinal ele tinha em Salvador uma casa magnífica no Rio Vermelho, por que enfiar-se num pedaço tão feio de Paris? E ele me disse: para ser anônimo e escrever. Continuei sem entendê-lo. Mas guardo na memória as festas que o casal Amado dava na casa do Rio Vermelho: havia artistas, escritores, putas, embaixadores, uma quantidade incrível de empregados domésticos&#8230;</p>
<p><strong>Você conta que na viagem até a Amazônia leu obras de Rainer Maria Rilke. Que relação a sua aventura poderia ter com a obra deste escritor?</strong></p>
<p>Nenhuma. Quando viajo levo comigo leituras que nada tenham a ver com o lugar visitado. Foi uma experiência magnífica ler A Canção de Amor e Morte do Alferes Christoph Rilke numa estação de trem nos confins do Brasil. Quando você deslocaliza um texto, daí ele ganha mais força.</p>
<p><strong>Você se enquadra na modalidade &#8220;écrivain-voyageur&#8221;?<br />
</strong><br />
Não. Sou escritor. E jornalista. O escritor-viajante é um tipo que não me agrada. Por ser alguém que só pensa em andar, em chegar ao fim do mundo, ou seja, seu objetivo é o movimento. Ele não para para olhar, para sentir as coisas. É o oposto do que busco: quando estou em São Luís do Maranhão, uma cidade da qual gosto imensamente, consigo me transformar para aquela França equinocial. Para mim as viagens interessam desde que possam ser metamorfoseadas pela literatura.</p>
<p><strong>Seu livro Utopie et Civilization deu o que falar, afinal, nele você propõe uma nova interpretação para as utopias. O resultado é que foi criticado tanto por intelectuais de esquerda quanto de direita&#8230;</strong></p>
<p>E não foi culpa minha! Em geral, meus livros são encomendados e escrevo para pagar as contas (ri). Encomendado o livro, comecei a estudar o tema, juntando elementos que configuravam a seguinte ideia: utopia é o contrário do que se diz dela. Não se trata de um mundo onírico, livre, onde todos partilham tudo. Trata-se de um mundo feroz. Ao pretender que sejamos iguais, o que é impossível, os utopistas suprimem a história. E, ao fazerem isso, suprimem o humano. Eu me preparei muito para escrever este livro. Tive uma tuberculose, passei um ano internado num sanatório e, ao longo desse tempo, mergulhei na obra de Platão, Thomas More, Campanella, Fourier. Você poderia pensar: os acontecimentos de maio de 1968, em Paris, faziam parte de uma grande utopia? Digo que não. O movimento da juventude era voltado para a liberdade, o amor, o romantismo. E os utopistas foram mentes que prefiguraram autoritarismos, como o nazismo e o stalinismo.</p>
<p><strong>Por exemplo, Thomas More era um autoritário?</strong></p>
<p>Ele foi bastante criticado por suas ideias, mas depois seria reabilitado pela Igreja. More concebia que, numa certa cidade, as mulheres deveriam ter quatro filhos. Aquelas que tivessem seis filhos deveriam entregar duas crianças excedentes para mulheres que não tinham filhos. Como catalogar as pessoas dessa forma? Os utopistas pregaram a igualdade ao preço do desaparecimento da individualidade.</p>
<p><strong>Nos seus textos, inclusive os literários, você lida com divisões político-ideológicas como &#8220;esquerda&#8221;, &#8220;direita&#8221; e &#8220;extrema direita&#8221;. Estas categorias ainda funcionam?</strong></p>
<p>No Brasil, está tudo muito misturado, mas creio que na França elas ainda estão funcionando. Sarkozy também mistura um pouco as coisas, é verdade. Quando ele era ministro do Interior, praticou políticas autoritárias do ponto de vista de segurança pública. Agora, nas eleições europeias, retomou o padrão antigo colocando policiais por toda parte. Deu um golpe de esperteza política: ao mostrar-se como um líder duro, atraiu a extrema direita que hoje anda sem voz de comando, pois Le Pen está velho e doente. Quer dizer, na França, a extrema direita vem se fundindo à direita.<br />
<strong><br />
E a &#8220;gauche&#8221; francesa? O que acontece com a esquerda?<br />
</strong><br />
Abre espaço para a &#8220;ultra gauche&#8221;. A esquerda clássica anda tão nula, tão vazia, que acaba cedendo aos ultraesquerdistas. O partido de Sarkozy saiu vitorioso nas últimas eleições, mas perceba que, no cômputo geral, ele perde para a soma de todos os partidos de esquerda, impulsionados por setores extremistas.</p>
<p><strong>Como você vê o Brasil hoje?</strong></p>
<p>O Brasil parece consolidar sua importância regional. É o país mais relevante da América Latina. Não há outro, nem México, nem Argentina. É um país de dimensões continentais, com uma população imensa e uma inteligência política considerável, construída após o fim da era dos generais. Embora haja gente que não goste dele, Lula é o vencedor dessa reconstrução democrática. Não sei o quão inteligente ele é, mas tem uma intuição política formidável. Tem até lances geniais, como o de não renunciar à sua infância triste, miserável, ou seja, sabe que não deve esconder o passado. Tem também demonstrado discernimento ao não cair nas ciladas de Hugo Chávez. Mas o Brasil precisa resolver um problema sério a meu ver: transformou-se num lugar muito violento. Volto ao livro de Stefan Zweig, Brasil, País do Futuro, e me dou conta de que o tipo de interpretação que ele fez se tornou completamente idiota. O Brasil é um país inteligente, tolerante e até mesmo educado, mas camufla seu potencial de violência e egoísmo. Existe uma cultura brasileira que se interessa pelos outros apenas no plano das superficialidades.</p>
<p><strong>Como assim?</strong></p>
<p>Diz-se que o Brasil é um lugar sem racismo, no entanto, há comportamentos racistas por toda a parte. Essa camuflagem é perniciosa, perversa, porque a tal cordialidade brasileira disfarça relações brutais. Veja o caso americano, e não estou falando especificamente de Barack Obama: aquela sociedade enfrentou o racismo a ponto de hoje vermos cidadãos negros em altas posições, nos mais diferentes setores. No Brasil, raros são os negros que ascendem a posições de destaque. Recentemente, retomei um texto do Cláudio Abramo, Meu País Trágico, e encontrei uma ótima reflexão: esse Brasil gentil, feliz, despojado, guarda uma tragédia no seu interior, porque permite que se morra de fome, de abandono, etc. Mesmo a burguesia brasileira, afável no trato, cria obstáculos a que a verdade social possa emergir. Quando me dizem aqui na França que o Brasil é um paraíso na Terra, contesto. Além do que, francamente, paraísos terrestres não existem.<br />
<strong><br />
Quais são seus próximos projetos literários?</strong></p>
<p>Normalmente, eu trabalho em mais de um projeto ao mesmo tempo. Hoje estou me divertindo ao escrever um livro sobre dois animais, a abelha e o asno, relacionando-os. São bichos que acompanham desde sempre a história humana, trabalhando sem cessar. Outro projeto que me mobiliza é o Dicionário Amoroso do Brasil. Faz parte de uma bela coleção, com dicionários amorosos sobre tudo: o vinho, a mitologia, a amizade, etc. Tem a forma de um dicionário mesmo, cujos verbetes são organizados e selecionados por mim. Por exemplo, um dos tópicos chama-se &#8220;caravela&#8221;. Porque ela teve um papel fundamental na descoberta do Brasil. Pela primeira vez os navegadores utilizavam uma embarcação que também se deslocava contra os ventos, e não só a favor deles. Lugares terão entradas específicas no dicionário. Por exemplo, falo muito de São Paulo, pouco do Rio, que não conheço bem, e particularmente São Luís do Maranhão, que adoro. Ao longo desse dicionário completamente particular, vou alinhavando minhas recordações.</p>
<p><strong>Conte uma, por favor. </strong></p>
<p>Naquela viagem que fiz de ônibus, chego de madrugada à cidade de João Pessoa, na Paraíba, com pouco dinheiro no bolso, um cansaço enorme, e não havia hotel ou pensão abertos para me receber àquela hora. Decido dormir na praia, era o jeito. Jogo minha mochila na areia, me acomodo precariamente, mas, ainda assim, logo pego no sono. Acordo, horas depois, com uma meninota de origem bem humilde ao meu lado, segurando um guarda-sol para me proteger. Disse que estava preocupada comigo, afinal, eu poderia ter uma insolação. Jamais esqueci aquele despertar, o gesto da menina, sem me pedir nada&#8230;<br />
<strong><br />
Que verbete dará para essa história?</strong></p>
<p>Ternura, certamente.</p>
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		<title>Adendo</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Jul 2009 16:32:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Favre</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;contrariamente ao udenismo rasteiro que ocupa o noticiário, a democracia brasileira e seus partidos -assim como as instituições republicanas- estão compostas em sua imensa maioria por homens e mulheres honestos e que agem nos partidos por paixão pela política e os destinos da nação.&#8221;
Foi assim que concluí minha nota Base petista segue discurso de Lula [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>&#8220;contrariamente ao udenismo rasteiro que ocupa o noticiário, a democracia brasileira e seus partidos -assim como as instituições republicanas- estão compostas em sua imensa maioria por homens e mulheres honestos e que agem nos partidos por paixão pela política e os destinos da nação.&#8221;</strong></em></p>
<p>Foi assim que concluí minha nota <a href="http://blogdofavre.ig.com.br/2009/07/base-petista-segue-discurso-de-lula-pela-manutencao-de-sarney/" title="Base petista segue discurso de Lula pela manutenção de Sarney" rel="bookmark">Base petista segue discurso de Lula pela manutenção de Sarney</a>.</p>
<p>Quero acrescentar uma frase que me parece necessária para clarificar minha posição.</p>
<p><strong><em>&#8220;contrariamente ao udenismo rasteiro que ocupa o noticiário, a democracia brasileira e seus partidos<font size="5"> </font></em><font size="5">e a imprensa</font></strong><strong><em> -assim como as instituições republicanas- estão compostas em sua imensa maioria por homens e mulheres honestos e que agem nos partidos<font size="5"> </font></em><font size="5">e nos jornais</font><em> por paixão pela politica </em><font size="5">ou o jornalismo</font><em>, e pelos destinos da nação.&#8221;</em></strong></p>
<p>Não faço parte dos que consideram os jornais e seus jornalistas &#8220;instrumentos da direita&#8221;. Nem acredito na existência de um &#8220;complô da mídia&#8221; contra o governo Lula.</p>
<p>Tampouco acredito em duendes, mas&#8230;</p>
<p>LF</p>
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