06/10/2009 - 11:20h Segundo Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, ”Brasil deve manter medidas de estímulo”

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Entrevista – Joseph Stiglitz: professor da Universidade Columbia e Prêmio Nobel de Economia; ao contrário do que pede o FMI, Brasil ainda não deveria acabar com seus pacotes de ajuda, diz analista

Patrícia Campos Mello, ISTAMBUL

O risco de a economia mundial ter uma recaída e voltar a mergulhar numa recessão é “muito grande”, e por isso o Brasil ainda não deveria acabar com seus pacotes de estímulo. Essa é a opinião de Joseph Stiglitz, professor da Universidade Columbia e vencedor do Prêmio Nobel de Economia.

Muitos analistas acham que a economia brasileira corre risco de superaquecer e projetam grande alta de juros em 2010. O Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que o Brasil é um dos países que deveriam rever seus estímulos econômicos, porque sua economia já está se recuperando e há risco de atrair excesso de dólares.

Mas, para Stiglitz, crítico contumaz do Fundo, o conselho do FMI pode ser precipitado. Stiglitz diz também que ainda não há uma alternativa confiável para a acumulação de reservas nos emergentes como forma de proteção contra crises, divergindo de outra recomendação do Fundo. Abaixo, trechos da entrevista que Stiglitz concedeu ao Estado.

O FMI diz que o Brasil é um dos países que deveria rever seus estímulos econômicos, porque sua economia já está se recuperando e há risco de atrair um excesso de dólares. O senhor acha que está na hora de o Brasil acabar com estímulos fiscais ou monetários?

É difícil para qualquer país ter certeza sobre uma estratégia de saída porque é difícil ter qualquer certeza sobre a economia global. Portanto, é apropriado pensar em estratégias de saída para os pacotes de estímulo, mas não implementar nada ainda.

Há risco de recessão em dábliu (duplo mergulho – depois de breve recuperação, a economia voltaria a mergulhar na recessão)?

Sim, o risco de uma recessão “duplo mergulho” é muito grande. É mais arriscado tirar os estímulos agora, que pode ser prematuro, do que mantê-los até que se tenha mais certeza sobre a recuperação do mundo. O Brasil é menos dependente de exportação que outros países e muitos ficaram surpresos quando o País foi afetado pela crise. Agora o País está em recuperação. Mas não há argumento para se retirarem os estímulos o Brasil neste momento.

O FMI quer atuar como “banco central mundial” e recomenda a emergentes como o Brasil que aumentem seus déficits em conta-corrente e reduzam a acumulação de reservas. Seria a maneira de os emergentes colaborarem com o ajuste dos desequilíbrios globais, já que as reservas estão na origem desses desequilíbrios. O que o sr. acha disso?

É preciso reconhecer que os países que estão acumulando reservas não estão consumindo. E há um grande problema na economia mundial hoje, que é recuperar a demanda agregada, já que os EUA estão deixando de ser o consumidor de última instância. Mas a questão é: qual é a melhor forma de reativar a demanda mundial? Não está claro se a melhor maneira de fazer isso é aumentando o consumo, em vez de elevando o investimento. Essa foi a estratégia que deixou os EUA em apuros, então tenho dúvidas de que seja a estratégia certa.

Grande parte dos emergentes foram menos afetados que os países ricos pela recessão, e eles argumentam que um dos motivos foi precisamente o alto nível de reservas.

Exatamente. Se nós tivessemos mecanismos alternativos de proteção ou se criássemos uma economia global mais estável, poderíamos pensar em reduzir reservas. Mas o movimento de desregulamentação dos anos 80 criou um mundo mais instável, que tornou necessária uma maior acumulação de reservas. As reservas são o sintoma, não a causa.

22/04/2009 - 09:42h ”Moeda global reflete a ascensão do resto do mundo”

Joseph Stiglitz: economista; para Stiglitz, a proposta de criação de uma nova moeda é sinal do declínio do dólar, que começou durante o governo Bush

 

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Nathan Gardels, GLOBAL VIEWPOINT NETWORK – O Estado SP

 


O economista Joseph Stiglitz , Prêmio Nobel de Economia em 2001, vê no movimento para substituir o dólar por uma nova moeda global uma transferência de poder para a “ascensão do resto” do mundo. A seguir, os principais trechos da entrevista de Stiglitz :

O ex-secretário do Tesouro Henry Paulson argumentou que uma das principais dinâmicas da bolha do crédito foi a maciça disponibilidade de liquidez chinesa para os EUA mediante o investimento de suas reservas em dólares em títulos do governo americano. Isso manteve baixas as taxas de juros de longo prazo, tornando o crédito fácil e também impelindo os investidores a buscar rendimento em instrumentos mais exóticos. O sr. concorda?

Sim e não. É verdade que a poupança chinesa estava fluindo em massa para os EUA e, obviamente, as taxas de juros nos EUA foram afetadas, mas de maneira nenhuma determinadas por isso. O alto nível geral de liquidez poderia ter sido desfeito pelo Fed (o banco central dos EUA), que tem autoridade sobre as taxas de juros. Ele poderia ter elevado as taxas para desacelerar a bolha causada pela expansão do crédito fácil. Em geral, acumulação de poupança é uma bênção, não um problema. Ter dinheiro barato é base para um forte crescimento econômico. O problema é que o sistema financeiro americano não fez o que supostamente devia fazer, que é gerenciar o risco e alocar capital para fins produtivos. Nós desperdiçamos essa bênção e agora estamos pagando o preço. Mas é um absurdo culpar os chineses.

Entre os muitos desafios do presidente Barack Obama, o mais abrangente não será corrigir esse desequilíbrio em poupança e consumo entre os EUA e a China?

Numa economia globalmente integrada, o maior desafio é garantir que haja uma demanda agregada global adequada, alcançada mediante gastos, quando países como China sentem que precisam acumular níveis altos de reservas em dólar para se proteger contra a volatilidade internacional da moeda. Afinal, o acúmulo de reservas da China é uma consequência dos equívocos do Fundo Monetário Internacional (FMI) na condução da crise financeira asiática há cerca de uma década. Se os países sabem que não podem confiar no FMI para ajudá-los, sua melhor defesa é criar uma almofada de reservas própria. Em período de avanço da recessão global, uma ênfase excessiva na poupança em países superavitários, como a China, pode frustrar as perspectivas de crescimento global.

Preocupados com o valor de suas bilionárias posses em dólares no momento em que os déficits americanos aumentam e desponta a ameaça de uma inflação mais adiante, os chineses propuseram uma nova moeda de reserva global baseada numa cesta de moedas. Uma nova moeda como essa seria um bom mecanismo para desfazer o desequilíbrio com um pouso suave em vez de um crash do dólar, o que prejudicaria tanto os chineses como os americanos?

A proposta de uma nova moeda de reserva global – ou Direitos Especiais de Saque (SDR, na sigla em inglês) – é uma boa ideia por muitas razões. Sim, para os chineses ela por si amorteceria alguma queda no valor do dólar porque faria parte de uma cesta de outras moedas, incluindo o iene e o euro. Mas uma nova cesta de moedas de reserva estimularia a demanda agregada global reduzindo enormemente o medo da volatilidade cambial que, como eu disse, foi o que levou países como a China a colocarem de lado tanto dinheiro em reservas em vez de gastá-lo. Há outros benefícios. Em matéria de uma economia sólida, o bem-estar do mundo não deveria depender da gestão de uma única moeda. O risco cambial seria diversificado mediante uma unidade de reserva de cesta, criando estabilidade e confiança por toda parte.

O que significaria para os EUA se o dólar fosse substituído por uma nova moeda global?

Isso seria de grande interesse dos EUA no longo prazo porque ajudaria a “desfinancializar” a economia americana.

Em sua cúpula em Londres recentemente, os líderes do G-20 decidiram criar US$ 250 bilhões em novos SDR. Esse é um passo importante para criar uma nova moeda de reserva global?

Acho que sim. A questão é a rapidez com que isso acontece. Em minha opinião, porém, o FMI não é o melhor lugar de onde lançar essa moeda a menos que ele se torne uma instituição mais justa e equilibrada que represente a economia mundial real e não as potências pós-Segunda Guerra Mundial, dominadas pelos Estados Unidos. Os países do Leste Asiático, o Brasil e outros precisam ter uma influência muito maior. Por exemplo, dos US$ 250 bilhões em SDRs consignados, somente US$ 19 bilhões foram alocados para países em desenvolvimento. Assim, a ideia de SDR maior é boa. A instituição é falha.

Mesmo assim, o fato de os chineses proporem uma nova moeda SDR global e o G-20 ter dado o passo para sua criação, seguramente, marcará uma mudança de poder no mundo?

Sem dúvida, é um reconhecimento da realidade de um mundo multipolar que requer o avanço para um sistema de governança multilateral. A transferência de poder começou há vários anos, na época da administração Bush, quando o dólar ficou muito volátil e começou a declinar. É aí que a China mudou de acumular quase 100% de suas reservas em dólares para 75%. Alguns países saíram completamente do dólar. O dólar, apesar de todas as intenções e propósitos, perdeu seu status especial de reserva e as pessoas estão começando a falar de uma abordagem de portfólio, ou cesta, como um estoque de riqueza em vez do dólar. O impulso existente hoje por trás da ideia de uma nova moeda de reserva global reflete, de fato, a ascensão do resto (do mundo) na política e na economia mundiais, liderado pela China.

29/03/2009 - 11:17h Prêmio Nobel defende contrato social global

DE GENEBRA – FOLHA SP

Há anos o economista americano Joseph Stiglitz alerta de que uma globalização sem freios e regras será o aumento do fosso entre ricos e pobres. Em seus livros, o Nobel de Economia de 2001 defende um contrato social global, em que as nações desenvolvidas abririam seus mercados aos emergentes em favor de um regime de comércio com mais igualdade. Mas a crise financeira reforça o risco de que ocorra justamente o contrário, deflagrando uma onda de protecionismo a partir dos países desenvolvidos. Se isso ocorrer, diz Stiglitz, os maiores prejudicados serão os países em desenvolvimento. “A crise não começou nos países pobres, mas são eles que pagarão a parte mais pesada da conta”, disse o economista à Folha, em recente passagem por Genebra. (MN)

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FOLHA – O sr. concorda com o premiê Gordon Brown, sobre o risco de desglobalização?
JOSEPH STIGLITZ
– O risco é substancial. A globalização gerou benefícios para muitos países, mas também criou riscos enormes. Caso não haja as reformas necessárias, os benefícios da integração dos mercados desaparecerão, e só permanecerá o lado negativo da globalização, que é a dependência excessiva de fluxos externos de capital. Seria o pior dos mundos.

FOLHA – Qual a consequência?
STIGLITZ
– Se o Ocidente aumentar o protecionismo, isso criará grande instabilidade e poderá reverter os avanços dos últimos anos. As reações serão inevitáveis. Com o aumento da pobreza, muitos governos terão argumentos bastante convincentes para resistir à globalização.

FOLHA – Há protecionismo?
STIGLITZ
– Algumas das coisas que os Estados Unidos estão fazendo podem não provocar efeitos concretos, mas têm um enorme poder simbólico. Um bom exemplo disso é a cláusula “Buy American”.

FOLHA – Quem vai se prejudicar?
STIGLITZ – Os países em desenvolvimento. Espero que os mais ricos tenham sensibilidade para evitar isso.

27/01/2008 - 10:56h Crise USA: FMI dormiu ao volante,diz Nobel de Economia



Joseph Stiglitz, economista

Como o sr. vê a atuação dos organismos financeiros multilaterais na atual crise financeira?

Houve uma discussão nos últimos anos sobre os desequilíbrios do mundo, mas o FMI não fez nada em relação a isso. O fundamento dos desequilíbrios mundiais era o excesso de gastos dos americanos, de US$ 800 bilhões (o déficit em conta corrente). Os americanos tentaram culpar a China e outros países, mas o problema fundamental era seu próprio excesso de consumo. Se o FMI tivesse feito o seu trabalho, teria visto a linha de conexão entre esses problemas e percebido também que uma das suas principais funções é a estabilidade dos mercados. Estabilidade dos mercados financeiros significa não exportar hipotecas tóxicas, como fizeram os Estados Unidos. O FMI dormiu ao volante. Eles nem ao menos tiveram uma grande discussão sobre regulação para garantir que não houvesse negociações com essas hipotecas tóxicas.

O sr. tem alguma explicação para essa falha?

Não foi uma surpresa para mim, levando em consideração que esses são problemas com origem nos EUA, o único país que tem poder de veto no FMI. Os EUA não ficarão muito felizes com o FMI dizendo que fizeram uma lambança. Agora, uma coisa é os EUA fazerem uma lambança e machucarem a si mesmos. Na globalização, muitas outras pessoas fora do país sofrem. Então, isso deveria ser um assunto do FMI. Mas eles não podem fazer o trabalho enquanto continuar esse sistema falho que dá aos EUA o poder de veto.

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