14/10/2008 - 08:50h ”Consertar o sistema financeiro não impede a recessão”

http://www.sweetness-light.com/wp-content/photos/Democrats/_PH2005062701715.jpg

Investidor diz que mercado não pode corrigir a si mesmo e que agora o poder econômico está pendendo para a Ásia

Nathan Gardels - O Estado de São Paulo

O investidor e filantropo George Soros conversou com o editor da Global Viewpoint sobre a crise financeira internacional. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Falemos sobre a natureza da crise.

Graças às baixas taxas de juros, à liquidez global e à desregulamentação, vivemos durante 25 anos numa bolha de expansão do crédito que aumentava a si mesma, o que levou à “exuberância irracional” nos mercados financeiros. Agora vemos uma quebra dos mercados de ações e de crédito que alimenta a si mesma - “desespero irracional” - sem encontrar justificativa nas leis fundamentais da economia real.

Como este padrão reflete seu novo paradigma para a compreensão das finanças?

A chave para a compreensão da crise é perceber que ela foi gerada dentro do próprio sistema financeiro. Não é o resultado de algum tipo de choque exógeno que tirou as coisas do seu equilíbrio, conforme sugeriria o paradigma mais difundido, que supõe a existência da capacidade do mercado de se autocorrigir. A realidade é que os mercados financeiros desestabilizam a si mesmos; ocasionalmente eles tendem ao desequilíbrio, e não ao equilíbrio. O paradigma que proponho difere da sabedoria convencional. Em primeiro lugar, os mercados financeiros não refletem as verdadeiras leis fundamentais da economia. As expectativas dos corretores e dos investidores estão sempre distorcendo essas leis. Em segundo lugar, essas distorções no mercado podem afetar as leis fundamentais - como vemos tanto nas bolhas quanto nas quebras. A euforia pode elevar os preços das moradias e das empresas ponto.com; o pânico é capaz de derrubar bancos sólidos. Essa conexão de mão-dupla - você afeta aquilo que você reflete - é o que eu chamo de “reflexividade”.

Qual deveria ser o “circuit-breaker” capaz de subverter as distorções que inevitavelmente desestabilizam os mercados?

Se as bolhas são endêmicas ao sistema, os reguladores têm de intervir para impedir que se tornem grandes demais. Os governos precisam reconhecer o fato de que os mercados não são capazes de corrigir a si mesmos. Não basta recolher os pedaços depois da crise.

O sr. acha que a presença de um ciclo de notícias econômicas de 24 horas amplifica e exagera as distorções nos mercados financeiros?

Sem dúvida isso acelera o processo. Ao mesmo tempo, eu não atribuiria a isso uma importância excessiva. No final do século 19, não havia transmissão de notícias durante 24 horas, mas ainda assim formava-se o mesmo tipo de bolha. Durante o século 19, quando a regulação era insuficiente, as crises aconteciam sucessivamente. Cada crise provocava alguma reforma. Foi assim que se desenvolveu a instituição do banco central.

Como é possível que todo o esforço do governo americano - incluindo o pacote de resgate de US$ 700 bilhões e a baixa taxa de juros - não tenha sido capaz de impedir a crise?

As autoridades americanas compraram uma ideologia de fundamentalismo de mercado. Elas pensaram que afinal os mercados iriam corrigir a si mesmos. O secretário do tesouro, Henry Paulson, representou a epítome deste raciocínio. Ele pensou que, seis meses depois da crise do Bear Sterns, o mercado teria se ajustado e, “Bem, se o Lehman Brothers quebrar, o sistema será capaz de suportar as conseqüências”. Ao invés disso, tudo começou a desabar. Por não compreender a natureza do problema não viram necessidade de intervenção por parte do governo. Eles não prepararam um plano B. Conforme o choque da falência do Lehman começou a se fazer sentir, Paulson foi obrigado a mudar de idéia e socorrer a AIG. No dia seguinte viu-se uma corrida aos mercados monetários e de papel de curto prazo, e então deu meia-volta novamente e disse que precisávamos de um pacote de resgate de 700 bilhões. Mas ele queria botar o dinheiro no lugar errado - tirando das mãos dos bancos os valores mobiliários tóxicos. Finalmente voltaram ao rumo certo - com o governo comprando participação nos bancos - porque percebem que o sistema financeiro está à beira do colapso.

Quais são os elementos-chave para a solução da crise?

Há cinco elementos principais. (1) Em primeiro lugar, o governo precisa recapitalizar o sistema bancário através da compra de participação nos bancos. (2) Os empréstimos interbancários precisam ser reiniciados com garantias. Esse processo está em andamento. (3) Precisamos reformar o sistema hipotecário dos EUA, minimizando as execuções e renegociando empréstimos para que as hipotecas não tenham valor superior ao das casas. (4) A Europa precisa consertar uma fraqueza do euro com a criação de uma rede de segurança para seus bancos. Eles resolveram este problema no seu encontro em Paris. (5) O FMI precisa lidar com a vulnerabilidade dos países da periferia do sistema financeiro global através do oferecimento de uma rede de segurança. Esse processo também está encaminhado. Essas medidas darão início à recuperação. Se as implementarmos com eficácia, teremos suportado o pior da crise financeira. Mas temo que sejam inevitáveis as conseqüências sobre a economia real.Consertar o sistema financeiro não impedirá uma grave recessão mundial.

Quando tudo terminar, teremos uma paisagem financeira muito diferente?

A influência dos EUA vai minguar. Já entrou em declínio. Durante os últimos 25 anos, estivemos sustentando um contínuo déficit em conta corrente. Os chineses e os países produtores de petróleo mantiveram lucros. Consumimos mais que produzimos. Enquanto aumentávamos as dívidas, eles obtiveram riqueza com suas poupanças. Cada vez mais, os chineses serão os donos do mundo, pois estarão convertendo suas reservas de dólares e seus títulos do governo americano em ativos e bens reais.

13/10/2008 - 08:17h Belo presente os ”futuros” nos deram…

http://www.stopusa.be/images/Matiz/crise2.jpg

Marco Antonio Rocha* - O Estado de São Paulo

Na semana passada, um artigo de Peter Goodman no New York Times mencionava fatos que merecem ser repetidos aqui, porque vêm a calhar com os últimos acontecimentos. Por exemplo, Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo, e dos mais espertos, dizia, segundo Goodman, há cinco anos atrás (sic!), que os chamados derivativos eram “armas financeiras de destruição em massa, embutindo perigos que, latentes por ora, são potencialmente letais”.

Muito mais gente, além dele, via com desconfiança essas criativas inovações, trazidas pelos jovens audazes do trapézio volante das finanças mundiais. Em 2003, o Comitê dos Bancos, do Senado norte-americano, achou que já era hora de examinar a conveniência de regulamentar mais estritamente os tais contratos de derivativos (papéis transacionados nos chamados mercados “futuros”). Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve (o banco central dos EUA), se opôs dizendo que “nós pensamos que seria um erro regular mais profundamente os contratos”. Na opinião dele, os derivativos eram úteis como instrumentos de transferência de riscos “daqueles que não devem assumi-los para aqueles que estão desejosos e são capazes de fazê-lo”.

Mas os desejosos de assumir riscos e capazes de fazê-lo não parecem, agora, arcar com as conseqüências dessa vocação; e quem está ou em breve estará pagando o pato, diriam nossos avós, são as pessoas honestas e trabalhadoras que têm aversão aos riscos.

O nome do vírus causador desse inferno astral dos mercados está na Bíblia: é ganância - até Mr. Greenspan, que continua convencido de que os contratos de derivativos eram uma boa coisa, admite que o problema foi a greedy com que são manipulados, causando “um tipo de crise de aperto financeiro que acontece apenas uma vez em cada século”. Se o conhecêssemos, diríamos a ele para lembrar que a greedy é latente no espírito humano desde Adão e Eva. Então compete aos governos baixar bons regulamentos que coíbam a audácia da greedy.

A incúria dos governos, a negligência dos políticos e a irresponsabilidade dos banqueiros modernos - herdeiros de milenar sovinice, mas indignos da prudência dos seus antecessores - pavimentaram a autopista onde a ganância ganhou o ímpeto de um Aston Martin do agente 007.

No ano que vem, terá 30 anos o episódio que ficou conhecido como o “choque dos juros”. A média das taxas de juros internacionais deu um salto astronômico em 1979, apenas 6 anos depois de outro choque, o dos preços do petróleo, que provocou um tsunami de dinheiro em direção aos países produtores de petróleo, principalmente do Oriente Médio. Esses “petrodólares” entupiram os bancos ocidentais. O excesso de liquidez desandou, então, em empréstimos subprime - vocábulo que ainda não surgira. Mas já existiam tomadores subprime de empréstimos - Brasil e vários países do Terceiro Mundo, que pegavam dinheiro adoidados sem saber como pagar, como os atuais subprimes americanos, que compraram casas animados pela cantoria dos bancos e agências de crédito. Com o choque dos juros, os mutuários subprime de então (países) ficaram de calça na mão - formou-se o grande quebra-cabeça da dívida do Terceiro Mundo.

A “década perdida” - os 10 ou 15 anos em que a economia brasileira ficou arrastando os pés, a partir mais ou menos de 1982 (ano da “quebra” do México) - se deveu ao aperto do crédito internacional provocado pelo fantasma das dívidas impagáveis, nascido da esbórnia do excesso de liquidez da década anterior.

Alguma coisa a ver com o momento atual, por acaso?

Não?

Tomara.

Mas por acaso a economia mundial não viveu, de novo, um período prolongado recente de vacas gordas, propiciado por excesso de liquidez financeira? Por acaso esse excesso de liquidez não foi, em boa parte, anabolizado pelo aumento (mais uma vez) dos preços internacionais do petróleo, que gerou novo tsunami de dinheiro para os cofres de países produtores - entre os quais, a Venezuela, cujo presidente gasta os tubos numa espalhafatosa pretensão de se impor ao mundo como estadista? Fortunas espantosas não apareceram, nos últimos dez anos, nas mãos de figuras até então desconhecidas e que ninguém sabe o que realmente fazem ou fizeram para ganhar dinheiro?

Esse segundo momento mágico mundial de dinheiro fácil contou com um acelerador: a tecnologia de informática, que facilitou aos especuladores e espertalhões do mundo inteiro uma plataforma de operações do tamanho de um laptop. E sua vantagem não foi somente permitir transações financeiras com a velocidade da luz ou transferências instantâneas de himalaias de dinheiro. O mais importante é que esses aparelhinhos possibilitam cálculos e simulações que, nas esbórnias precursoras - anos 20 ou anos 70 -, demandavam semanas para serem completadas nas mãos de doutos matemáticos das universidades. Hoje, basta saber digitar os comandos certos do laptop e os resultados das simulações podem ser apreciados instantaneamente, mais precisos que os do passado.

Esse não foi um avanço apenas técnico. Nas entranhas dos laptops são testadas as grandes criações dos magos das finanças modernas: como obter lucros presentes só com expectativas futuras; como transformar papo furado em dinheiro no banco; como tornar débitos em créditos, prejuízos visíveis em realizáveis diferidos, papéis da Merposa em ações valorizadas; enfim, neles nasceu a engenharia da gigantesca indústria que nem Bill Gates teria imaginado nos seus mais criativos momentos: a indústria dos derivativos, que não fabrica nada, não tem instalações, não fica em lugar nenhum, mas está em todos eles e cujo insumo é só um: a ganância.

É hora, sem dúvida, de lhe pôr freios eficazes.

*Marco Antonio Rocha é jornalista.
E-mail: marcoantonio.rocha @grupoestado.com.br

10/10/2008 - 07:44h Mundo está à beira da recessão, diz o FMI

Strauss-Kahn defende cooperação e coordenação mundial contra a crise

http://tigrepelvar2.files.wordpress.com/2008/03/bush-recesion.jpg

Rolf Kuntz, O ESTADO SP - WASHINGTON

O mundo está à beira de uma recessão e não há solução nacional para uma crise como esta, disse ontem o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. “Cooperação e coordenação nas ações são o preço do êxito”, acrescentou.

A ação mais urgente, segundo ele, é restabelecer a confiança nos mercados financeiros e a medida mais importante para isso deve ser a recapitalização dos bancos. “Não sairemos desta situação sem recapitalizar suficientemente as instituições financeiras”, insistiu. (Ler abaixo artigo especial de Strauss-Khan.)

A cooperação, disse o diretor-gerente do FMI, tem de ir muito além do entendimento entre os membros do Grupo dos Sete (G-7), formado pelas maiores potências capitalistas (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá). É preciso, segundo ele, incluir no grupo mais quatro, cinco importantes atores da economia mundial. Mesmo assim, as soluções terão de valer para todos os países, “pois agora a crise envolve todo o mundo”.

A ampliação do G-7 (G-8, quando a Rússia participa) é uma reivindicação do Brasil e de outros grandes países emergentes, mas o Strauss-Kahn não entrou nesses detalhes.

Ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais das sete principais potências devem reunir-se hoje no Departamento do Tesouro americano. Essa reunião ocorre tradicionalmente como evento paralelo às assembléias do FMI. Os comunicados desses encontros são, em geral, previsíveis, mas, desta vez, o assunto é a maior crise desde os anos 30.

Já houve nesta semana uma grande ação coordenada, na quarta-feira, quando bancos centrais das economias mais desenvolvidas cortaram 0,5 ponto porcentual dos juros básicos. A iniciativa, embora considerada positiva, foi insuficiente para mudar o humor nos mercados. As bolsas continuaram a fechar em queda nos últimos dois dias. Ontem, o Índice Dow Jones da Bolsa de Nova York despencou 7,3%, levando o Ibovespa novamente para baixo.

A discussão no G-7 deverá envolver propostas de ações mais ambiciosas, como os amplos programas de auxílio a instituições financeiras já aprovados nos Estados Unidos e no Reino Unido. O diretor-gerente do FMI, normalmente convidado para esses encontros do G-7, deverá insistir nas idéias de recapitalização, recolhimento de ativos podres (já autorizado pelo Congresso americano) e garantias para os depositantes.

Haverá pressão, provavelmente, sobre a maioria dos membros da União Européia e sobre o Japão. Dentre os europeus, só o governo do Reino Unido tem acompanhado mais ou menos de perto a ação mais ampla desenvolvida pelas autoridades americanas.

Ontem, Strauss-Kahn cobrou cooperação principalmente dos governos da Europa, insistindo num ponto já tocado por outros dirigentes do FMI. Mas ele demonstra ambicionar um papel mais amplo para o FMI. Esta crise, insistiu, não será resolvida só com os instrumentos monetários e fiscais. Os governos terão de usar também instrumentos financeiros. O Fundo, segundo ele, é a única instituição internacional capaz de trabalhar com os vínculos entre os setores financeiro e real.

No sábado, o espetáculo será mais amplo, com a reunião extraordinária, marcada para as 18 horas, do Grupo dos 20 (G-20), formado por grandes economias desenvolvidas e emergentes. A convocação do encontro foi sugerida pelo secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, presidente do grupo neste ano.

Além dos membros do G-7, o G-20 inclui Brasil, África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, China, Índia, Indonésia, México, Rússia, Coréia do Sul e Turquia. A União Européia também é representada como bloco.

Os ministros do Brasil e de outros emergentes poderão reclamar da crise causada pelas instituições financeiras do mundo rico e cobrar ações corretivas, mas a turbulência internacional afeta seus países de forma diferenciada. Apresentam graus diferentes de vulnerabilidade nas contas externas e diferentes níveis de inflação e de solidez nas contas públicas.

Para o Brasil, comentou Strauss-Kahn, a crise terá como principal conseqüência a redução do crescimento, de 5,2% em 2008 para 3,5% em 2009, segundo a estimativa contida no Panorama Econômico Mundial divulgado no dia anterior.

Nenhum país está imune à crise, repetiu o diretor-gerente do FMI, “mas o Brasil tem fundamentos fortes, a política econômica foi administrada corretamente nos últimos anos, um monte de reservas foi acumulado e a economia do País está em boa forma”.

Bem mais complicada que a dos emergentes é a situação dos países pobres, em geral importadores de alimentos e, em muitos casos, também de petróleo. É a “outra crise”, segundo a expressão de Strauss-Kahn.

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, tratou principalmente da situação desses países, na entrevista concedida também ontem na sede do FMI. Em julho, numa reunião do G-8, lembrou Zoellick, ele mencionou o duplo impacto sofrido pelos países em desenvolvimento - a alta de preços do petróleo e da comida.

“Agora, o golpe é triplo - comida, combustível e finanças - ameaçam não só derrubar as pessoas pobres, mas mantê-las no chão”, disse Zoellick. Aos países mais pobres e sujeitos a dificuldades maiores, o Fundo já oferece ajuda financeira e assistência técnica, por meio de um programa especial, lembrou Strauss-Kahn, e continuará a oferecer enquanto se prolongarem os efeitos da crise.

Esses países foram atingidos principalmente pelo aumento dos preços de produtos básicos e sua situação ainda é grave, mesmo com o recuo das cotações dos produtos agrícolas e do petróleo. E os pobres, lembrou Strauss-Khan, são os primeiros a ser afetados pela inflação.

08/10/2008 - 11:54h É hora de um resgate abrangente no mercado

http://cache.daylife.com/imageserve/0go37NAgHyfIs/610x.jpg

MARTIN WOLF - “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

COMO JOHN Maynard Keynes teria supostamente dito, “quando os fatos mudam, eu mudo de idéia.

O que o senhor faz?”. Mudei de idéia, à medida que o pânico se espalha. Investidores e instituições de crédito deixaram de confiar em todo mundo e agora confiam em ninguém. O medo que propele o colapso atual nos mercados financeiro é tão exagerado quanto a cobiça que propelia o comportamento oposto não muito tempo atrás.

Mas pânico injustificado também causa devastação. Devemos detê-lo -não na semana que vem, mas agora mesmo.

O momento para abordagens improvisadas, de instituição a instituição e de país a país, já passou. Demorei algum tempo -talvez tempo demais- para perceber as dimensões do perigo. Talvez tenham sido erros do Tesouro dos Estados Unidos -em particular a decisão de permitir a quebra do Lehman Brothers- que tenham deflagrado o pânico atual. Assim, o que deveria ser feito? Em resumo, “tudo”. As economias afetadas respondem por mais de metade da produção mundial.

Isso torna a crise atual a mais significativa desde os anos 30.

Primeiro, é preciso enfrentar o pânico. Essa necessidade já convenceu alguns governos a oferecer garantias totais ou parciais a passivos. Essas garantias distorcem a competição. Mas, quando concedidas, não se pode retirá-las até que a crise tenha passado. Por isso, os países europeus deveriam oferecer agora uma garantia por prazo limitado (digamos, seis meses) para o grosso dos passivos de instituições com papel sistêmico importante. Nos Estados Unidos, porém, dado o imenso número de bancos, uma garantia como essa não é nem viável nem necessária.

Uma garantia por prazo limite encorajaria as instituições financeiras a concederem empréstimos umas às outras. Caso isso não aconteça, os bancos centrais precisarão emprestar sem limites, mesmo que não existam garantias, às instituições sistemicamente importantes a ponto de tornar impensável uma quebra.

Com medidas como essas, o fluxo de crédito deve ser reativado. Mas os governos não podem permitir que os bancos apostem livremente com recursos oriundos dos cofres públicos. No período de garantia, os governos precisam fiscalizar severamente as instituições que decidiram proteger.

A segunda prioridade é a recapitalização. A grande lição das crises da história recente -como demonstra um capítulo excelente na mais recente “Perspectiva Econômica Mundial” do FMI (Fundo Monetário Internacional)- é que “as autoridades econômicas devem forçar o reconhecimento de prejuízos o mais cedo possível e tomar medidas que garantam capitalização adequada às instituições financeiras”.

Recapitalização

Recapitalização é essencial para que as instituições tenham boa classificação de crédito quando as garantias expirarem. Os governos deveriam insistir em uma capitalização que permita que novos prejuízos venham a ser contabilizados. Deveriam em seguida ou subscrever uma emissão de direitos acionários ou adquirir ações preferenciais. Os governos têm de esperar lucros com esses investimentos quando as instituições se recuperarem.

Uma recapitalização como essa serve de alternativa à conversão forçada de títulos de dívida em ações. Considero que essa idéia tenha atrativos, mas hoje é seguro que ela geraria ainda mais histeria, a menos que fosse possível apresentá-la de maneira confiável como uma medida extraordinária que não seria repetida. Alguns de vocês podem ter percebido que minhas idéias têm por objetivo evitar que encolham os balanços de peças centrais do sistema financeiro. Mas é inevitável que o setor se encolha um pouco, especialmente no Reino Unido e nos Estados Unidos. Devemos permitir que isso aconteça no chamado “setor bancário paralelo”.

O que nos conduz a uma terceira questão: o que fazer quanto aos maus ativos? Ocasionalmente faz sentido tirar esses ativos das mãos dos bancos. É isso que o novo Tarp (Programa de Alívio a Ativos Problemáticos dos EUA) propõe fazer.

Porque maus ativos norte-americanos estão bem distribuídos pelo mundo, o programa do país envolve criar um mercado para esses ativos -e talvez elevar seus preços a um patamar de equilíbrio mais alto-, o que beneficiaria muitos outros sistemas bancários.

Outros mercados

No entanto, em outros mercados a quantidade de maus ativos gerados localmente parece pequena. Assim, esquemas semelhantes não seriam necessários. De modo semelhante, caso os bancos disponham de capitalização adequada, preocupações quanto a contabilizar ativos pelo valor de mercado importam menos, porque os balanços podem arcar com a contabilização de prejuízos necessários. Mas seria sensato declarar explicitamente que as autoridades regulatórias não se concentrarão apenas nas avaliações atuais para determinar os requisitos de capital.

A maior questão quanto a essas propostas é determinar se os governos têm condições de bancá-las. Alguns economistas argumentam que existem bancos que são não só grandes demais para falir como grandes demais para salvar. Eles defendem essa hipótese comparando os passivos bancários brutos ao PIB (Produto Interno Bruto) do país-sede da instituição.

Mas o que importa é a relação entre a pior hipótese possível de recapitalização e o PIB. E infelizmente ela pode ser elevada.

Considerem o Reino Unido, onde os ativos combinados dos cinco grandes bancos equivalem a quatro vezes o PIB. Uma recapitalização equivalente a 1% de seus ativos custaria ao governo uma elevação de dívidas equivalente a 4% do PIB; uma recapitalização de 5% envolveria dívidas equivalentes a 20% do PIB. Se o sistema bancário de qualquer país começar a sofrer perdas dessa escala, converter títulos de dívida em capital poderá se tornar uma solução inescapável. Essa talvez venha a ser a única saída para a Islândia, agora.

Desafio

Alguns argumentam que os países-membros da zona do euro têm um desafio especial: individualmente, afinal, eles não têm acesso a um banco central.

Os saltos recentes, e notáveis, nos “spreads” entre as taxas dos títulos alemães e italianos, para um pico de pouco menos de 90 pontos básicos, sugerem que os mercados podem concordar com essa avaliação. A inflação não deixa de ser também uma forma de inadimplência.

Mas, se a recapitalização de número substancial de bancos da zona do euro se tornar necessária, alguns países-membros podem se provar incapazes de injetar o dinheiro necessário. Haveria risco para os demais caso aquele governo optasse por não agir ou por forçar a conversão de títulos de dívida em capital. Ações como essa poderiam causar pânico em toda parte. A coordenação sobre como proceder é essencial, caso desejemos um sistema bancário saudável na zona do euro.

O pânico também terá grande impacto sobre as economias.

Os bancos centrais, mas não o Federal Reserve, deveriam cortar suas taxas de juros. Na semana passada, eu imaginava que um corte de 0,5 ponto percentual faria sentido no Reino Unido. Caso integrasse o comitê de política monetária hoje, defenderia corte de um ponto.

Os ministros das Finanças e os dirigentes de bancos centrais do G7 (Grupo dos 7) -principais países de alta renda- em breve se reunirão em Washington. Teremos as pessoas certas todas reunidas. É preciso que viajem com uma única tarefa em mente: restaurar a confiança. A história julgará seu sucesso. Eles podem vir a ser conhecidos como responsáveis por uma nova Grande Depressão. É um destino que precisam decidir como evitar, pelo bem de todos nós.
Tradução de PAULO MIGLIACCI

03/10/2008 - 10:57h FMI prevê recessão nos EUA

fmi_logo.jpg

Características da atual crise elevam risco, diz estudo

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON - O Estado de São Paulo

O Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou ontem que os Estados Unidos “provavelmente” vão passar por uma retração econômica mais severa ou uma recessão. O Fundo baseou sua previsão no estudo de 113 crises financeiras ao redor do mundo nos últimos 30 anos. “Baseando-se na comparação do atual episódio de stress financeiro com outras crises, vemos uma grande probabilidade de uma desaceleração econômica severa nos EUA”, diz o Fundo em um dos capítulos do relatório Perspectivas Econômicas Mundiais, divulgado ontem.

O risco de recessão é maior quando a crise envolve o setor bancário, tem queda acentuada de preços imobiliários, excesso de endividamento dos consumidores e empresas e longo período de turbulência financeira - todas características da atual crise. “Agora ficou claro que nós estamos diante do maior choque em mercados financeiros maduros desde 1930, o que representa uma grande ameaça ao crescimento mundial”, disse Charles Collyns, vice-diretor de pesquisa do Fundo.

Até agora os EUA desaceleraram mas não entraram em recessão - pelo menos até o segundo trimestre. “Mas nós vemos enormes riscos; um período prolongado de turbulência financeira tende a ser seguido por desaceleração significativa”, disse Collyns. “Não consigo pensar em um país que tenha sofrido grande perturbação no setor bancário que não tenho sido seguida por grande desaceleração econômica.” O Fundo destaca, no entanto, medidas que podem amenizar os efeitos da crise nos EUA: a rápida reação da política monetária e as taxas de juros relativamente baixas.

O FMI acredita que a União Européia será menos afetada, porque os consumidores estão menos endividados, o que oferece proteção maior, apesar da rápida valorização dos imóveis. Além disso, o setor financeiro europeu ser mais “informal”, com bancos menores também atuando em crédito e menor participação de securitização de hipotecas.

De acordo com o estudo, as crises que envolvem apenas o mercado financeiro - como a quebra do fundo hedge Long Term Capital Management ou a crise na bolsa em 1987 - normalmente não são seguidas de recessão. Das 113 crises estudadas pelo Fundo, 29 foram seguidas de desaceleração, 29 de uma recessão e as restantes 55 não foram seguidas por retração econômica. O Fundo indicou que recapitalizar os bancos é essencial para reduzir o impacto econômico da crise.

O relatório do Fundo alerta para o perigo da inflação, principalmente em perigos emergentes. Apesar de o preço das commodities ter recuado, principalmente o do petróleo, as cotações ainda estão muito acima das médias históricas.

02/10/2008 - 09:24h Ruim, sim, mas sem desastre

VINICIUS TORRES FREIRE - FOLHA SP


Primeiros dados mostram que crise afetou o crédito de exportação, mas problemas ainda são bem localizados

O DIABO de setembro não chegou a ser tão feio como se imaginava, dado o clima de histeria importada que transbordava das declarações sobre “seca total” de crédito externo para o país e o “estrangulamento” da exportação.

O Banco Central divulgou ontem o movimento de câmbio até o dia 26 de setembro (saldo da contratação de compra e venda de moeda estrangeira para comércio exterior e do fluxo de capitais) -não houve desastre. O Ministério do Desenvolvimento diz não ter recebido telefonema algum de indústrias à procura de ajuda ou a sugerir medidas de emergência para a exportação. O governo não prepara pacote nenhum, mas está bem preocupado com os bancos menores -pode sair mais dinheiro (do compulsório) para irrigar as operações. Na verdade, toda a área econômica, fora o BC, acha que já deveria ter ocorrido outra rodada de relaxamento do compulsório.

O saldo cambial preliminar de setembro foi positivo em US$ 2,749 bilhões, devido aos excedentes do comércio. No lado financeiro, o saldo foi negativo em US$ 3,5 bilhões; os piores resultados ainda são os de janeiro, junho e julho: entre US$ 5 bilhões e US$ 6,5 bilhões no vermelho.

O movimento de adiantamentos sobre contratos de câmbio (ACC) foi curiosamente o maior do ano (por meio de ACCs, o exportador obtém financiamentos usando como garantias a contratação de câmbio e a receita de suas vendas futuras para o exterior). Mas, na terceira e na quarta semanas do mês, de pânico mundial, o movimento caiu, respectivamente, 36% e 50% em relação ao do início de setembro. Ainda assim, se o movimento desses dias de crise fosse extrapolado para um mês, o movimento de ACCs seria semelhante ao do verificado no primeiro bimestre.
Não são números para deixar ninguém em paz, decerto. O desastre americano continua -o ISM, que indica o desempenho futuro da indústria dos EUA, chegou a um nível só visto em recessões, viu-se ontem.

Mas é preciso um pé atrás diante da nostalgia brasileira da catástrofe.

Primeiro, muita grande empresa não toma crédito para exportar. Segundo, muita empresa tomava crédito para aproveitar a diferença entre os juros no exterior e os do Brasil.

“É preciso ver quem precisava mesmo de ACCs para financiar a produção para exportar e quem tomava crédito com o objetivo de ganho financeiro”, observa o economista-chefe da Funcex (Fundação Centro de Estudos para o Comércio Exterior), Fernando Ribeiro. O economista acredita que, no curto prazo, os problemas de crédito por si só não devem afetar o volume de exportações. No Ministério do Desenvolvimento, a avaliação é parecida.

Quem procurou o governo em busca de auxílio depois do estouro mais recente da crise americana?

Alguns agricultores, empresas que perderam dinheiro com aventuras desastrosas no mercado de câmbio, bancos menores. Exportadores menores têm feito queixas para bancos públicos, que levam a avaliação para o governo. De resto, algumas poucas empresas vão à imprensa relatar suas agruras, algumas sérias, mas por ora localizadas.

Sim, a situação é feia e pode piorar.

Mas, na avaliação mais geral de mercado e governo, o problema principal está é nos bancos menores.

vinit@uol.com.br

02/10/2008 - 09:17h Esclarecendo o risco

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/images/b0210200801.jpg

David Leonhardt * - O Estado de São Paulo

Em 1929, Meyer Mishkin era o proprietário de um estabelecimento em Nova York que vendia camisas de seda aos trabalhadores. Quando o mercado de ações faliu naquele mês de outubro, ele se voltou para o filho, na época um estudante da Universidade Municipal, e ofereceu uma versão dos seus sentimentos: “É isso que merecem aqueles ricaços”.

Um ano depois, com os problemas de Wall Street se espalhando para toda a economia, a loja de Mishkin faliu. Ele não tinha mais fregueses o bastante. O seu filho teve que trabalhar para ajudar a sustentar a família e Mishkin nunca mais conseguiu um emprego estável.

Frederic Mishkin - neto de Meyer e, até abrir mão do cargo no mês passado, um dos aliados de Ben Bernanke no Federal Reserve - me contou essa história outro dia, e a moral que ela contém é bastante óbvia.

Muitos em Washington temem que o país entre numa espiral rumo a um terrível declínio. E para horror dessas pessoas, elas vêem o público e muitos dos membros do Congresso se transformando em versões contemporâneas de Meyer Mishkin, mais interessados em castigar Wall Street do que em salvar a economia.

Tudo isso pode ser verdade. Mas há boas razões para o ceticismo da população. Os especialistas em política econômica tão desesperados para tomar alguma atitude não foram capazes de contar uma história convincente para explicar aquilo que tanto temem.

Não basta dizer que os mercados poderiam congelar, os empréstimos poderiam se tornar impossíveis e a economia poderia escorregar até entrar no pior declínio desde a Grande Depressão. Por enquanto, a crise teve pouco efeito sobre a maioria dos americanos, a não ser sobre o seu plano de aposentadoria. Assim, o espectro de uma depressão pode soar como alarmismo, e o pacote de US$ 700 bilhões que a Câmara rejeitou esta semana pode parecer um resgate para ricos.

Bernanke e os seus companheiros de preocupação precisam ligar os pontos. Eles precisam ensinar ao público uma pequena lição sobre a economia de uma crise de crédito - como A pode levar a B, B a C e C a Depressão.

Vamos tentar oferecer uma explicação. Por que estamos falando sobre a Grande Depressão, afinal? Praticamente nenhum economista acredita que mesmo um terrível declínio possa sequer se parecer com a Depressão. O governo já respondeu de maneira mais agressiva do que na época de Herbert Hoover. Assim, uma contração semelhante à Depressão - uma queda de 30% na atividade econômica - é muito improvável. O país também está hoje muito mais rico, o que significa que uma parcela muito menor da população vive no limiar do desespero. Não importa o que aconteça, não veremos surgir favelas.

Mas a Depressão ainda é relevante, porque a mecânica básica de como a economia entra numa recessão severa parece muito com aquela que provocou a Depressão. Em ambos os casos, no centro da história há uma crise de crédito.

No início da década de 1930, apesar de tudo que acontecera em Walk Street, a economia dos EUA ainda não entrara em colapso. O gasto dos consumidores e os investimentos em negócios estavam em baixa, mas não de maneira tão drástica.

No fim de 1930, no entanto, vários pânicos começaram entre os bancos. Os investimentos dos bancos iam mal - ou, em certos casos, havia o boato de que fossem mal - e os fregueses nervosos sitiaram as filiais dos bancos para exigir de volta o seu dinheiro. Centenas de bancos acabaram fechando as portas.

Depois de um banco de uma determinada cidade fechar as portas, todo o conhecimento acumulado pelos funcionários do banco desapareceu. Outros bancos não estavam nem de longe tão dispostos a emprestar dinheiro a negócios e residentes locais porque os funcionários credores nestes bancos não sabiam quais clientes era menos confiáveis do que aparentavam ser. A fonte do crédito secou.

“Se um sujeito enxerga uma boa oportunidade de investimento e não consegue acesso ao financiamento, ele não pode aproveitá-la”, destaca Mishkin, agora professor de economia na Universidade de Columbia. “É aí que a economia entra em colapso.” Ou, conforme Adam Posen, outro economista, “foi então que a Depressão de tornou a Grande Depressão”.

Jovem acadêmico de Economia na década de 1980, Bernanke desenvolveu a teoria de que o conhecimento perdido dos funcionários dos bancos foi uma das principais causas da Depressão. Ele se referiu (com o seu co-autor, Mark Gertler) a esse conhecimento perdido como “capital informacional”. Significa que a confiança desapareceu no setor bancário.

O mesmo está ocorrendo agora. Os mercados financeiros são hoje globais, de modo que o problema não é que a falência de um banco possa impedir os clientes de acessar os mercados de crédito. Em vez disso, as desagradáveis surpresas dos últimos 13 meses - o tipo de caos que já foi inimaginável - provocaram um colapso no capital informacional. Os banqueiros agora olham para os clientes antigos e pensam aquele velho refrão de um casamento fracassado: “sinto como se nem mesmo o conhecesse mais”.

O Bear Sterns, por exemplo, deveria ter garantias reais tangíveis e sólidas por trás de algumas das suas dívidas, de modo que certos credores fossem pagos não importando as circunstâncias. Mas não tinha essas garantias, e a dívida não foi paga.

O estágio atual e mais sério da crise começou há duas semanas, depois do colapso do Lehman Brothers e da aquisição da AIG pelo Fed. Esses eventos provocaram mais medo. Em vez de realizar muitos empréstimos, os bancos despejaram seu dinheiro em títulos do Tesouro, que pagam juro baixíssimo, mas também têm risco quase inexistente. Sobre os poucos empréstimos que fizeram, os bancos exigiram taxas de juro mais altas. Nas últimas duas semanas, as taxas de juros continuaram a aumentar, e são essas taxas que deveríamos observar, não o mercado de ações.

O ponto central é que uma economia moderna não pode funcionar quando as pessoas não têm fácil acesso ao crédito. Demora um pouco até isso se tornar óbvio, já que a maioria das empresas e das pessoas não solicita empréstimos vultosos todos os dias. Mas acabará se tornando óbvio, e de uma maneira dolorosa. Já estamos vendo uma escassez no financiamento de automóveis provocar uma queda ainda maior nas vendas do setor automobilístico.

Será que a crise atual poderia ser combatida - será que os bancos poderiam decidir que estão perdendo lucrativas oportunidades de investimento - sem um fundo governamental de US$ 700 bilhões para livrar Wall Street de alguns dos seus valores mobiliários mais assustadores? Claro que sim.

Estaria o Congresso certo em lutar por um programa factível que seja tão barato e rigoroso com Wall Street quanto possível? Absolutamente sim. Mas, afinal, não se trata de Wall Street. Trata-se de reduzir o risco de que algo ruim aconteça. Trata-se de limitar os danos provocados pelos excessos financeiros da década passada.

Infelizmente, não se pode realizar isso sem também oferecer ajuda a Wall Street. É lá que ficam os nossos mercados de crédito, e precisamos que eles voltem a funcionar. “Estamos enfrentando uma grande crise nacional”, como diz o neto de Meyer Mishkin. “Não fazer nada agora é repetir o que foi feito na Grande Depressão.”

*O autor escreve para o ‘The New York Times’

02/10/2008 - 09:09h Como recapitalizar o sistema bancário

http://www.iisd.ca/sd/wto-issues/pix/1a_soros0044.jpg

GEORGE SOROS ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

A LEGISLAÇÃO de emergência em estudo pelo Congresso dos EUA foi mal calculada ou, para ser mais preciso, não foi calculada. E quando o Congresso tentou aperfeiçoar o que o Tesouro havia solicitado originalmente, emergiu um plano combinado que consiste do Programa de Alívio a Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês) que o Tesouro solicitou e de um programa bastante diferente de infusão de capital sob o qual o governo investiria em e estabilizaria bancos enfraquecidos, e sairia lucrando quando a economia vier a melhorar. A abordagem de infusão de capital custará menos aos contribuintes nos anos futuros e poderá até dar lucro a eles.

Duas semanas atrás, o Tesouro não tinha um plano preparado -é por isso que teve de solicitar total liberdade quanto ao desembolso dos recursos.

Mas a idéia geral era a de propiciar alívio ao sistema bancário ao assumir os títulos tóxicos dos bancos e estacioná-los em um fundo controlado pelo governo, de modo a que não fossem despejados no mercado a preços cada vez menores.

Com o valor de seus investimentos estabilizado, os bancos poderiam, então, levantar capital acionário.

A idéia estava repleta de dificuldades. Os títulos tóxicos não são homogêneos, e, em qualquer processo de leilão, os vendedores certamente transferirão ao governo os piores deles.

Além disso, o esquema trata só de metade do problema subjacente à indisponibilidade de crédito. Pouco faz para permitir que os proprietários de casas cumpram suas obrigações hipotecárias e pouco faz para resolver o problema da execução de hipotecas. Com os preços das casas ainda em queda, caso o governo estabeleça preços elevados aos títulos lastreados por hipotecas, os contribuintes poderiam sair perdendo; mas, se o governo não pagar mais do que os papéis valem, o sistema bancário não teria sua situação muito aliviada e não conseguiria atrair capital privado.

Um esquema que beneficie o mundo financeiro tão pesadamente, em detrimento da economia mais ampla, seria inaceitável politicamente. Os democratas, que detêm a maioria no Legislativo, alteraram os termos, de modo a punir as instituições financeiras que se beneficiem do plano. Os republicanos decidiram que não poderiam ficar para trás e impuseram o requisito de que os títulos oferecidos em leilão deveriam ser cobertos por seguros cujos prêmios seriam pagos pela empresa oferecedora. O pacote de resgate, em sua forma atual, constitui um amálgama de múltiplas abordagens. E existe risco real de que o programa de aquisição de ativos não venha a ser empregado plenamente devido às condições onerosas que foram impostas.

Mesmo assim, um pacote de resgate era desesperadamente necessário e, a despeito de suas deficiências, poderia alterar o curso dos acontecimentos. Ainda em 22 de setembro, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, expressava a esperança de evitar o uso de dinheiro dos contribuintes; por isso permitiu a quebra do Lehman Brothers. O Tarp estabelece o princípio de que fundos públicos são necessários e, se o programa atual não funcionar, outros programas serão instituídos.

Já que o Tarp foi mal calculado, seria previsível que causasse resposta negativa da parte dos credores dos EUA. Eles o veriam como tentativa de liquidar a dívida por inflação. O dólar deve sofrer pressão renovada, e o governo terá de pagar mais para colocar seus títulos de dívida, especialmente os de longo prazo. Essas conseqüências adversas poderiam ser mitigadas por um uso mais efetivo do dinheiro dos contribuintes.

Em lugar de apenas adquirir ativos problemáticos, o grosso do dinheiro deveria ser usado para recapitalizar o sistema bancário. Fundos injetados em nível de capital têm mais efeito do que fundos usados para equilibrar balanços por um fator mínimo de 12 -o que equivaleria, em termos práticos, a fornecer ao governo US$ 8,4 trilhões para reativar o fluxo de crédito. Na verdade, o efeito seria ainda maior porque a injeção de fundos do governo também atrairia capital privado. O resultado seria maior recuperação econômica e chance de lucro aos contribuintes.

Eis como o sistema poderia funcionar. O secretário do Tesouro dependeria de auditores bancários em lugar de delegar a implementação do Tarp às empresas de Wall Street. Os auditores bancários estabeleceriam as necessidades de capital acionário adicional para cada banco, a fim de que atingissem capitalização adequada nos termos das atuais normas de capitalização. Caso os administradores dos bancos não sejam capazes de levantar o dinheiro requerido junto ao setor privado, poderiam recorrer ao Tarp.

O Tarp investiria em ações preferenciais com prioridade de remuneração. As ações preferenciais ofereceriam juros baixos (digamos, 5%), para que os bancos mantivessem o interesse em continuar emprestando. Os acionistas anteriores, no entanto, pagariam um preço pesado, porque suas posições seriam diluídas pelas novas ações preferenciais prioritárias. Mas eles teriam o direito de subscrever novas ações emitidas nos termos do Tarp. Esses direitos seriam negociáveis, e o secretário do Tesouro seria instruído a estabelecer termos de modo a que os direitos possam ter valor positivo.

Investidores privados como eu provavelmente correriam para aproveitar a oportunidade. Os bancos recapitalizados teriam autorização para elevar seu endividamento e por isso retomariam os empréstimos.

Limites ao endividamento bancário seriam impostos posteriormente, depois que a economia se tiver recuperado. Caso o dinheiro fosse usado dessa maneira, a recapitalização do sistema bancário poderia ser conduzida com menos de US$ 500 bilhões em verbas públicas.

Uma legislação de emergência revisada também deveria oferecer mais ajuda aos proprietários de casas. O projeto requereria que o Tesouro desse financiamento barato a títulos hipotecários cujos termos tenham sido renegociados, com base no custo de captação do Tesouro. As companhias de serviços hipotecários poderiam ser proibidas de cobrar honorários pela execução de hipotecas, mas seria de esperar que os detentores de títulos oferecessem incentivos à renegociação, como a Freddie Mac e a Fannie Mae já vêm fazendo.

Os bancos considerados insolventes não seriam elegíveis para recapitalização. A FDIC (agência federal que oferece seguro aos depósitos bancários) tomaria o controle dessas empresas e seria recapitalizada com US$ 200 bilhões, como medida de emergência, e removeria o limite de US$ 100 mil aos depósitos que garante. Essa revisão na lei seria mais equânime, teria mais chance de sucesso e custaria menos aos acionistas no longo prazo.

GEORGE SOROS é presidente do conselho da Soros Fund Management

Tradução de PAULO MIGLIACCI

25/09/2008 - 08:49h Baixa renda terá casa subsidiada

casa_propria.jpg

Governo quer ampliar aplicação do FGTS no crédito para habitação

Lu Aiko Otta - O Estado SP

A nova classe média, que nos dois últimos anos fez disparar as vendas de eletrodomésticos e automóveis, amparada por crédito fácil e prestações a perder de vista, deverá chegar também à casa própria. O governo prepara novas medidas cujo objetivo é massificar o crédito habitacional para famílias com renda mensal até cinco salários mínimos (R$ 2.075).

“Elas vão deixar de ser consumidoras só de linha branca e ter acesso a um financiamento habitacional”, disse ao Estado a secretária nacional de Habitação, Inês Magalhães. A estimativa é que, nos próximos 15 anos, surgirão 27 milhões de novas famílias no Brasil. Dessas, metade estará na classe média.

As medidas fazem parte do Plano Nacional de Habitação (Planhab), que começou a ser elaborado no ano passado e traça metas para o combate ao déficit habitacional até 2023. O plano está em reta final e deverá ser divulgado em meados de outubro, mas algumas medidas levarão mais tempo para sair do papel, pois terão de ser apreciadas pelo Congresso Nacional. A expectativa é que até lá o quadro econômico esteja mais calmo.

Quando em vigor, as novas medidas levarão a um uso mais intensivo dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Esse é o principal argumento levantado pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, para explicar por que o governo não pretende autorizar que o dinheiro do fundo seja aplicado na Petrobrás para financiar investimentos na exploração de petróleo na camada pré-sal. Aplicado em ações, o dinheiro não poderá financiar a casa própria.

“O dinheiro do FGTS é fundamental, é imprescindível para fazer o atendimento do plano”, afirmou Inês. Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Paulo Safady Simão, autorizar a aplicação do FGTS na Petrobrás significaria desviar os recursos de sua finalidade original, que é habitação e saneamento para a população de baixa renda, para aumentar rendimentos que estão concentrados na classe média. “É até uma questão de egoísmo”, atacou.

Hoje, as famílias com renda até cinco salários mínimos já têm acesso a empréstimos a juros baixos com recursos do FGTS. No entanto, os valores e prazos dos financiamentos oferecidos muitas vezes ainda são insuficientes para comprar uma casa. “O dinheiro é usado mais para a compra de material de construção”, disse Inês.

Para contornar o problema, o Planhab pretende criar um fundo garantidor, que protegerá os bancos dos riscos de conceder empréstimos mais longos e de valor mais elevado para esse segmento da população. O fundo ainda não está totalmente desenhado, mas sua composição deverá envolver recursos do Tesouro Nacional.

“Não tem como enfrentar a questão do déficit habitacional sem envolver algum subsídio”, afirmou Inês. Já para Simão, que participa das discussões do Planhab, há condições de o fundo garantidor ser constituído apenas com recursos privados.

Com a criação de produtos financeiros para a nova classe média, a expectativa é que aumente também a oferta de imóveis destinados a essa faixa de renda. Hoje, disse a secretária, o mercado atende apenas a renda mais elevada.

18/09/2008 - 15:37h ‘Brasil viveu bolha que agora se esvazia’

http://unipmarques.files.wordpress.com/2008/06/pregao_bovespa.jpg

Responsável pela cobertura da América Latina no site Economy.com, braço de análise da agência classificadora de risco Moody’s, o economista Juan Pablo Fuentes diz que o “Brasil viveu uma pequena bolha, na época de bonança, que agora se esvazia”. Ele prevê um 2009 mais difícil, mas nada como uma crise.

Juliana Rangel - O Globo


O GLOBO: Como o senhor avalia a intervenção do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) na AIG? Os mercados reagiram mal…

JUAN PABLO FUENTES: Sem nenhuma empresa privada disposta a ajudar, o Fed não tinha saída a não ser resgatar a AIG. O problema é que essa ação ressaltou a gravidade da crise.

A Bolsa, no Brasil, já caiu 28% no ano, mais que Dow Jones, Nasdaq e outros mercados americanos e da América Latina. Por quê?

FUENTES: Não há nada de errado com o Brasil.
Este movimento de venda a que estamos assistindo é global. A única razão para a Bovespa estar caindo mais rápido é que, no período de bonança, também subiu mais. A Bovespa ainda tem ganhos de 44% (em dólar) na comparação com o fim de 2005, e o Dow tem alta de apenas 1%. A Bovespa viveu um pequeno período de bolha, agora está se esvaziando.

Em quanto tempo a Bolsa se recupera?

FUENTES: Não esperamos uma correção muito severa, apesar de acharmos que os mercados não chegaram às suas mínimas. Assim que as coisas se estabilizarem, as ações no Brasil irão subir aos poucos, mas não antes de 2009.

Qual é a melhor forma de os brasileiros lidarem com a crise?

FUENTES: Com a alta dos juros no Brasil, os títulos do governo parecem uma boa opção para investidores locais. Eles devem ter em mente que o movimento de venda na Bovespa é causado por investidores estrangeiros que estão fugindo de ativos mais arriscados. Eles não distinguem o Brasil do Chile ou do México. Para eles, todos são emergentes e, conseqüentemente, oferecem maior risco. Já os brasileiros devem lidar com isso de forma diferente, pois entendem melhor a economia do país

O diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn disse que esta crise não tem precedentes…

FUENTES: Essa realmente é uma crise sem precedentes. Em 2001, o que aconteceu, foi uma leve recessão. A crise atual tem características similares à de 1929, mas não deverá provocar uma depressão como a de 1929.

O crescimento dos países da América Latina ficará comprometido?

FUENTES: A região continua com força, em sua maior parte. O crescimento de países como Brasil, Chile e Peru continua surpreendentemente robusto. As más notícias: o cenário externo está se deteriorando muito rápido. Isso vai pôr muita pressão sobre a América Latina, já que os preços das commodities vai cair e a demanda externa também. Adicionalmente, o custo de financiamento para a região vai subir. 2008 será ainda bom ano para a região e para o Brasil, em particular. O de 2009 será mais difícil.Mas não estamos prevendo uma crise.

O ministro Mantega disse que, se fosse alguns anos atrás, o Brasil agora estaria de quatro. O senhor concorda?

FUENTES: Absolutamente. O Brasil está em excelente forma para encarar a turbulência atual dos mercados. Mas o desafio será muito maior nos próximos meses.

18/09/2008 - 10:24h A Cassandra e o Cavalo de Tróia

O Farol de Alexandria fantasiado de Cassandra, virou Oráculo do seu próprio Cavalo de Tróia
faroldealexandria.jpghttp://www.huffingtonpost.com/theblog/archive/Cassandra1.jpghttp://www.brasilescola.com/upload/e/oraculo.jpghttp://www.fflch.usp.br/dh/heros/humancondition/ensaios/CavaloTroiaLefevre.jpg

Em entrevista ao Programa do Jô, na TV Globo, previsto para ir ao ar ontem à noite, FHC recomendou ainda que o governo Lula segure os gastos. “O Brasil hoje vive um momento bom, com reserva de US$ 200 bilhões. Mas eu já vi, no meu tempo, uma reserva de US$ 70 bilhões desaparecer. Esse é um momento delicado. A mesma coisa que aconteceu lá (nos Estados Unidos) pode acontecer aqui dentro.”

O “Farol de Alexandria” reapareceu como Cassandra, pelo menos no que concerne a credibilidade da profecia. É que no caso, o oráculo é o mesmo que introduziu o Cavalo de Tróia aqui na praça.

Os R$ 70 bilhões que FHC viu desaparecer fugiam do Brasil por causa da política dele. Enquanto o real era artificialmente mantido numa paridade $1=R$1, a balança comercial acumulava déficit trás déficit; a dívida pública atingia cimas abismais e os juros mesmo estratosféricos não asseguravam ninguém, tamanho o buraco gerado pela política de FHC. Foi no governo dele que os gastos públicos crescentes serviam para cobrir os buracos dos juros e da dívida, enquanto o país crescia um pouco acima de zero e a carga tributária a ritmo da cavalaria descontrolada. As reservas fundiram porque o mundo temia o calote e a quebra do Brasil.

O Brasil não está imune a crise dos Estados-Unidos, que arrasta na sua descida aos infernos ao resto do mundo, começando pela Europa. Mas o sistema financeiro e bancário brasileiro não tem, pelo que se conhece, maior exposição no sistema do subprime americano, nem o Brasil depende tanto dos mercados dos países ricos. Mesmo assim, a retração violenta do crédito afetará a todos. A recessão na Europa e provavelmente nos USA vão afetar o comércio mundial e reduzir bruscamente o volume de suas transações por algum tempo.

O governo federal, e as autoridades monetárias e de fazenda estão atentos ao desenrolar da crise para agir reforçando a preservação das posições do país, da sua estabilidade e do seu crescimento econômico.

Mas para alguns é o momento de semear dúvidas, após terem sido os que presentearam o Brasil com o Cavalo de Troia do neo-liberalismo, do Estado mínimo e do mercado desregulado.

O oráculo da mitologia era o umbigo do mundo e ali se dirigiam os que procuravam orientação. O nosso oráculo tupiniquim ocupou o programa satírico de Jô para olhar para seu próprio umbigo e foi traido pelo seu inconsciente: o que acabou prevendo, foi sua própria responsabilidade no passado.

Luis Favre

17/09/2008 - 10:54h Medo, pavor e estatização

VINICIUS TORRES FREIRE

Folha SP 

http://www.journaldunet.com/economie/expliquez-moi/victimes-crise-financiere/index.jpg

Mercado congelou, à espera da estatização da AIG, maior seguradora dos EUA, enfim anunciada às 22h de ontem

O MUNDO parecia mais calmo ontem, depois de mergulhar no vale de segunda-feira? “Se sobe algum som deste declive… não é silvo de serpentes, esquecidas de morder, como abstratas ao luar”, dizia Drummond na “Cantiga de Enganar”. As serpentes do mercado estavam esquecidas de morder, congeladas de medo, à espera do que seria feito da moribunda AIG, maior seguradora dos EUA, falecida ontem.
Para contrabalançar essa poesia deslocada, cite-se um blog de Wall Street a respeito dos efeitos da quebra da AIG, que faria “a do Lehman parecer uma espinha no traseiro de um elefante” (cortesia de Todd Harrison, do “Minyanville”).
O governo dos EUA resolveu pagar para não ver a explosão da empresa. Às 22h de ontem, o Fed, o banco central americano, anunciou que emprestaria até US$ 85 bilhões à AIG, a 11% ao ano. Quase 80% da empresa, que será desmembrada e vendida a fim de cobrir parte do rombo, agora pertence de fato ao governo. Durou pouco, menos de dois dias, a pose de “deixa quebrar”. Não dava pé. Atrás das cortinas, o mercado ontem era puro medo e pavor.
Um termômetro do medo nos mercados é a taxa de juros dos títulos do Tesouro americano. Quando o medo cresce, o dinheiro grosso compra tais papéis. Quanto maior a procura, menor a taxa de juros que tais títulos pagam. Ontem as taxas dos papéis de curto prazo (três e seis meses) chegaram aos níveis daquelas de quando o Bear Stearns quebrou, em março (então se dizia que o “pior havia passado”, recorde-se).
Pela manhã, os bancos centrais de EUA, Europa, Inglaterra, Japão etc.
emprestaram mais dinheiro para os bancos, que se recusavam a negociar entre si, por medo de calote. O Fed ofereceu mais US$ 50 bilhões de liquidez, após os US$ 70 bilhões de segunda-feira. O BC Europeu ofertou o equivalente a mais US$ 98 bilhões (US$ 42 bilhões na segunda). Os maiores bancos do mundo discutiam ontem a criação de um fundo privado para socorrer confrades.
Os juros interbancários foram ao nível mais alto desde 2001. Para operações compromissadas (empréstimos curtos, com garantias, entre bancos), os bancos europeus só aceitavam títulos do Tesouro alemão. Sim, isso pode ceder de um dia para o outro. Mas, por ora, um dia tornou-se quase “longo prazo”. Por falar nisso, no Brasil, longe da crise no que diz respeito à saúde bancária, o Banco Central enxugou ontem R$ 47 bilhões (US$ 26 bilhões) da praça, na contramão do planeta.
Entre os motivos maiores do medo no mundo rico estava o destino da AIG, que se sabia funesto. Afora os negócios convencionais de seguro, a companhia entrou no mercado de contratos de seguro contra calotes de dívidas (”credit default swaps”, CDS), títulos que rendem uma prestação em troca da cobertura de eventuais calotes. Bancos compraram zilhões em CDS da AIG.
Isto é, grandes bancos, entre outros, estão com papéis que podiam não valer nada. De resto teriam de baixar o valor dos créditos que detêm, que ficariam sem proteção caso seu seguro fosse ao brejo. Em suma, registrariam mais perdas contábeis.
Para piorar, o medo de calotes em série eleva o custo de seguro da dívida e, assim, do crédito, que se torna ainda mais raro. O que piora a crise.

vinit@uol.com.br

11/09/2008 - 10:18h O Brasil continua bombando

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.



É possível cuidar da inflação e das contas externas sem paralisar o desenvolvimento econômico do país

O IBGE divulgou ontem o PIB do segundo trimestre. Mais uma vez, os resultados foram animadores. Com o passar do tempo, vai ficando mais claro que o Brasil está finalmente conseguindo deixar para trás o quadro de estagnação ou crescimento medíocre que marcou a maior parte das décadas de 1980 e 1990 e o início da atual.
No primeiro semestre, o PIB aumentou 6% em relação ao primeiro semestre de 2007. Desde o ano passado, vem ocorrendo uma aceleração gradual da economia. Todos os macrossetores estão crescendo de forma respeitável. A indústria cresceu 6,3% em relação ao primeiro semestre de 2007; a agropecuária, 5,2%; o setor de serviços, 5,3%. Brasileiro desconfia de boa notícia.
E com razão. Ficamos todos mais ou menos traumatizados pelos choques e frustrações que o país experimentou durante quase 25 anos.
Muitos podem estar se perguntando: será que estamos crescendo demais? A economia brasileira corre o risco de bater em algum teto?
A preocupação é pertinente. Se a expansão da demanda ultrapassa a capacidade produtiva, pode haver pressão inflacionária e/ou aumento exagerado das importações e desequilíbrio nas contas externas.
Os dados mostram, contudo, que o investimento produtivo vem apresentando desempenho excepcional.
A formação bruta de capital fixo está aumentando há oito trimestres consecutivos. No segundo trimestre deste ano, o investimento fixo foi nada menos que 16,2% mais alto do que em igual período de 2007.
Ora, a formação bruta de capital é o componente da demanda agregada que, deduzida a depreciação do estoque de capital existente, cria capacidade produtiva adicional na economia. O comportamento vigoroso do investimento talvez explique o fato de que não se tenha notado, no passado recente, uma elevação expressiva do grau de utilização da capacidade no setor industrial. As séries dessazonalizadas, baseadas em levantamentos da Fiesp e da CNI, indicam estabilização do nível de aproveitamento da capacidade industrial instalada. De outubro de 2007 a junho de 2008, o grau de utilização vem variando entre 83% e 84%. Segundo a FGV, o grau de utilização do potencial de produção da indústria chegou a 86,1% em julho, contra 85,2% em julho de 2007.
Em outras palavras, estima-se uma ociosidade média da ordem de 14% a 17% no setor industrial. Podem existir, é claro, pontos de estrangulamento em alguns subsetores, com efeitos sobre preços e/ou a balança comercial. Por outro lado é bem provável que os dados de capacidade instalada subestimem o potencial da indústria. Muitas firmas podem aumentar os níveis de produção de modo relativamente rápido por meio de investimentos de pequeno porte, aumento no número de turnos de trabalho e outras adaptações nos processos industriais.
Não se deve perder de vista, além disso, que também existe capacidade ociosa no mercado de trabalho.
As taxas de desemprego vêm caindo, mas ainda há muitos trabalhadores à procura de emprego ou subempregados em ocupações precárias. A taxa de desemprego aberto nas seis principais regiões metropolitanas ainda se situava em 8,1% em julho.
As taxas de desemprego total (desemprego aberto, desemprego por trabalho precário e desemprego por desalento) variavam entre 9,6% em Belo Horizonte e 21,6% em Recife.
Temos condições, portanto, de continuar crescendo. Não podemos descuidar da inflação e das contas externas. Mas parece possível equacionar esses problemas sem paralisar o desenvolvimento do país.


PAULO NOGUEIRA BATISTA JR., 53, escreve às quintas-feiras nesta coluna da FOLHA DE SÃO PAULO. Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago). pnbjr@attglobal.net

PIB a 3,5% não é tragédia, afirma Belluzzo

Na opinião do economista, a crise global levará o Brasil a diminuir o ritmo e pode requerer um forte corte de juros

A exploração dos campos do pré-sal ajudará o Brasil a absorver melhor o impacto da desaceleração mundial, afirma conselheiro de Lula

Joel Silva - 13.jun.08/Folha Imagem
belluzzo.jpg

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp

DENYSE GODOY - Folha SP

DA REPORTAGEM LOCAL

O desempenho da economia brasileira no segundo trimestre foi animador, mas, agora, já se notam sinais de desaquecimento, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, 65, professor da Unicamp e conselheiro informal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para ele, não se deve fazer drama com a diminuição do ritmo do país, pois os futuros avanços partirão de um nível de atividade elevado.

FOLHA - O PIB brasileiro cresceu 6,1% no segundo trimestre porque os juros ainda não começaram a fazer efeito. Como fica o cenário para o Brasil em 2009, considerando também a crise global?
LUIZ GONZAGA BELLUZZO - Minha impressão é que já há sinais de desaceleração. Acho que teremos, sim, uma taxa de crescimento mais baixa. Mas precisamos ter claro que uma queda de 6% para 4% ou 3,5% [ao ano] não é nenhuma tragédia. A partir de um nível já alto, vai ter um crescimento menor. E não há como evitar essa desaceleração, pelo menos nos próximos anos, enquanto durar a desaceleração global.

FOLHA - O senhor disse anos?
BELLUZZO - O Brasil terá que atravessar um período de ajustamento, no tempo que durar a recessão global. Mas, depois, tem a exploração do pré-sal, que começa a dar resultados.
Será necessário então cuidar do financiamento à exploração. A descoberta do pré-sal pode reduzir um pouco as trombadas do ajustamento brasileiro.

FOLHA - A economia dos EUA cresceu 3,3% no segundo trimestre. Isso significa que o alastramento dos problemas bancários pela economia ainda não se deu?
BELLUZZO - Na verdade, o setor externo deu uma contribuição importante para que o PIB americano não recuasse. Porque todos os componentes da demanda agregada caíram: o emprego caiu, a produção caiu, o desemprego aumentou. O efeito positivo do setor externo vai depender [daqui para a frente] da reação das outras economias à recessão dos EUA.
Os países que precisam do empuxo da economia americana estão começando a entrar em recessão, como a Europa e a Ásia. A China certamente vai se desacelerar, e não temos certeza -pois trata-se de um momento inédito- de qual será a sua reação. O seu peso não é suficiente para compensar uma desaceleração dos EUA e da Europa. Não digo que não possa, mas tenho minhas dúvidas.

FOLHA - Analistas afirmam que o Brasil não mostra estar sofrendo muito com a crise justamente porque a China segue crescendo bastante. Quais seriam as conseqüências para o país se ela diminuir consistentemente o ritmo?
BELLUZZO - A queda de preços das commodities que estamos vendo é resultado da desmontagem de posições no mercado futuro mas também das expectativas de demanda no mundo real. Temos que esperar para ver o que acontece. O BC brasileiro está em uma situação muito difícil, precisando tomar decisões complexas. Seria conveniente que tivesse mais tempo para pensar, mas isso não é possível.

FOLHA - O senhor acha que o BC errou ao diagnosticar que a inflação tinha um componente forte de demanda interna?
BELLUZZO - Esse é um juízo muito complicado, não dá para ter uma posição radical em relação a isso. Sempre que você toma posição radical, você corre o risco de errar. Como disse [Antônio] Delfim [Neto], se você não tem certeza do que está fazendo, faça devagar…

FOLHA - No aumento da Selic, o BC está indo bem rápido…
BELLUZZO - Ali atrás, o julgamento do BC era que havia um choque de commodities junto com a aceleração do crédito e da demanda interna, um processo que poderia levar à disseminação do choque de preços. Agora, estamos em um momento diferente, mudaram as perspectivas. Diria que é um azar o BC ter que decidir agora, ele pode se equivocar.

FOLHA - Continuar elevando os juros é um equívoco?
BELLUZZO - Corre-se o risco de se cometer um exagero.

FOLHA - É possível combinar controle da inflação com crescimento da economia?
BELLUZZO - Acho que o Brasil vem tendo um comportamento mais do que razoável. Desde 2004, o país está crescendo a taxas compatíveis com uma inflação baixa. Porém, dependendo da velocidade [da desaceleração global], a política econômica [do país] é outra.

FOLHA - Como seria, nesse caso?
BELLUZZO - Tem que desmontar rapidamente esse diferencial de juros, senão você vai aprofundar a sua recessão, como os alemães fizeram em 1930. Eles acharam que o choque de 1929 era transitório, mantiveram uma política de juros altos para atrair de volta os capitais e conseguiram na realidade agravar a sua deflação interna, o que levou a um desastre. Não digo que a nossa situação é a mesma; porém, se a desaceleração for muita e a aversão ao risco continuar e começar um movimento de capitais daqui para fora, podemos ter uma situação difícil a enfrentar.

11/09/2008 - 10:06h Consumo das famílias tem expansão de 6,7% no 2º tri

http://byfiles.storage.live.com/y1pbxSQwn9wPv_3I_Vu8WLNl67DvKgaD29cD_7vjPcgusBNa6vUsAX4yjJ6_dEWjJ7W42EcfpU8Q3Y

Aumento da massa salarial e do crédito alimenta crescimento pelo 19º trimestre

Analistas esperam desaceleração do consumo só a partir dos últimos três meses do ano, com efeito da alta dos juros pelo BC

FOLHA SP

O consumo das famílias se manteve aquecido e registrou alta de 6,7% no segundo trimestre em relação a igual período do ano passado. Esse é o 19º trimestre seguido de expansão nessa base de comparação. Segundo analistas, a perspectiva é que nos próximos trimestres o consumo já comece a dar sinais de desaceleração por conta da alta de juros promovida pelo Banco Central desde maio.

Em relação ao primeiro trimestre, a alta no consumo das famílias foi de 1%.

“O consumo tem se mantido em ritmo acelerado desde o ano passado. Ele está crescendo acima do PIB”, afirma Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais Trimestrais do IBGE.

Para o instituto, a expansão do consumo foi motivada principalmente pelo aumento da massa salarial.

No segundo trimestre, a massa salarial dos brasileiros teve alta de 8,1%. Além disso, o crédito farto e os prazos longos de pagamento dos empréstimos contribuíram para a expansão.

Houve crescimento de 32,9% no saldo de operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas.

No primeiro semestre, o consumo das famílias registrou alta de 6,7%. Na avaliação do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), os dados mostram que o consumo “conserva uma evolução que, sem ser explosiva, é alimentadora das decisões de investimento dos empresários”.

Para o instituto, ligado à indústria, o ritmo de crescimento do país é equilibrado e os resultados desmentem a tese de que a economia brasileira poderia estar em um processo perigoso de aceleração, que levaria a uma ameaça do controle da inflação e justificaria forte alta nos juros.

No fim do ano passado, o ritmo mais acelerado de crescimento do consumo das famílias levou o Banco Central a se preocupar com a possibilidade de um superaquecimento da economia. No quarto trimestre de 2007, o consumo teve alta de 8,6% em relação a igual período do ano passado. No primeiro trimestre, a alta foi de 6,6%. Desde maio, o BC tem promovido elevações na taxa básica de juros.

Desaceleração

Para Carlos Thadeu de Freitas, economista da CNC (Confederação Nacional do Comércio) e ex-diretor do BC, mesmo com a perspectiva de desaceleração no consumo no final do ano, a tendência é de um crescimento da economia de pouco mais de 5% neste ano.

“Não dá mais tempo de ter uma desaceleração significativa neste ano”, disse.

Para o próximo ano, com a continuidade da política de elevação dos juros do BC, Freitas prevê uma desaceleração para 3,5% a 4%. “O aumento dos juros que o BC está promovendo não surtiu efeito ainda, mas esse cenário não deverá continuar assim no próximo ano”, disse.

Segundo Freitas, existem sinais de desaceleração na ponta no comércio, além dos efeitos de um menor crescimento da economia mundial.

Segundo Braulio Borges, economista da LCA, as vendas de veículos já começam a dar sinais de arrefecimento em agosto. “No quarto trimestre, já começa a haver impacto da política de juros, que leva normalmente de seis a nove meses para começar a influenciar o nível de atividade. Deverá ser o pior momento para a economia neste ano”, disse.

Para Borges, ainda é difícil mensurar o impacto da desaceleração da economia mundial, mas os efeitos deverão ser percebidos primeiro nas exportações e depois no consumo.

11/09/2008 - 09:28h Demanda interna no país já cresce em ritmo chinês

valor_pib.JPG

Investimento e consumo dão ritmo chinês ao PIB

Ana Paula Grabois - VALOR

Apoiada nos investimentos recordes das empresas e do governo em máquinas, equipamentos e construção, a economia brasileira cresceu acima das estimativas no segundo trimestre e fechou o semestre em alta de 6%. Na comparação com o segundo trimestre de 2007, a taxa chegou a 6,1%. Em relação ao primeiro trimestre, o PIB apresentou expansão de 1,6%. “O PIB vem crescendo ao ritmo de 6% há um ano”, disse a gerente das Contas Trimestrais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rebeca Palis. Ela ressalta que o efeito do novo ciclo de alta dos juros iniciado em abril pelo Banco Central não foi sentido no segundo trimestre.

Sem considerar o efeito negativo do setor externo (importações e exportações de bens e serviços) sobre o PIB, de 2,5 pontos percentuais, o ritmo da expansão doméstica é comparável ao chinês. Segundo cálculos do economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, a demanda interna cresceu 8,5% no primeiro semestre. “É o investimento que está segurando o crescimento do PIB. Sem investimento, o PIB estaria em 4% ao ano”, disse Borges.

Os investimentos registraram alta de 16,2% no segundo trimestre, a 18ª alta consecutiva na comparação com igual período do ano anterior e recorde da série histórica do IBGE, iniciada em 1996. A taxa de investimento sobre o PIB, de 18,7%, foi a maior já registrada para um segundo trimestre desde 2000, quando foi iniciada a série do indicador. No semestre, o nível da alta do investimento também foi recorde e chegou a 15,7%. Segundo cálculos da LCA, em termos dessazonalizados, a taxa de investimento ficou em 19%, a maior desde o primeiro trimestre de 1998 na comparação com todos os trimestres do período analisado.

Dentro dos investimentos, o destaque foram os gastos na construção civil, cuja alta de 9,9% foi favorecida pelas obras públicas e pela alta de 26,7% no crédito habitacional. Para a gerente do IBGE, o período eleitoral contribuiu para esse resultado. “Em anos eleitorais, historicamente, há mais obras públicas”, afirmou.

Os investimentos subiram também sob efeito da expansão de 41,3% do crédito para empresas e do fim da greve na Receita Federal no segundo trimestre. Muitos equipamentos e máquinas importadas que chegaram no início do ano só foram registrados no trimestre seguinte. A greve também foi responsável pela reversão da queda de 2,1% das exportações de bens e serviços apurada no primeiro trimestre. No segundo trimestre, as exportações cresceram 5,1%.

“As empresas estão investindo para atender à demanda interna, que cresce há vários trimestres. O câmbio também ajuda a importar bens de capital e ainda houve aumento das empresas no mercado de capitais, onde elas conseguiram mais recursos para investir”, destacou Giovanna Rocca, economista do Unibanco .

Ela ressalta que o bom resultado dos investimentos aponta para o aumento do PIB potencial, uma vez que o crescimento do consumo das famílias está em desaceleração, ainda que em patamar elevado, indicando que o país pode ter mais oferta disponível para atender à demanda de consumo da população.

Bráulio Borges, da LCA, lembra que, apesar do forte ritmo de investimento registrado desde o fim de 2006, o nível de utilização da capacidade instalada não cede porque a maior parte dos investimentos tem sido dirigida a ampliações de capacidade, o que exige maior prazo de maturação em comparação a investimentos de modernização. Além disso, as diversas obras em andamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal são da área de infra-estrutura, cujos prazos também são mais longos. “Temos um cenário apertado por demanda, mas olhando para frente, o horizonte é favorável. Nunca se investiu tanto em ampliação”, diz.

Outro destaque do PIB foi o gasto elevado da administração pública no período devido às eleições municipais. Como a lei eleitoral proíbe gastos e contratações três meses antes das eleições, o IBGE apurou a antecipação desses gastos, especialmente nas contratações feitas por Estados e municípios. O consumo do governo cresceu 5,3% no segundo trimestre, com alta de 5,6% no semestre. Segundo a LCA, os governos (municípios, Estados e União) responderam por 1,1 ponto percentual dos 6% de alta do PIB no primeiro semestre, o que reflete o próprio crescimento econômico do país. “O governo está arrecadando mais e está fazendo mais superávit primário”, diz Borges.

O consumo das famílias, com peso de cerca de 60% do PIB, continuou em patamar elevado, mas desacelerou ligeiramente e passou de 6,9% para 6,7% do primeiro para o segundo trimestre na comparação com igual período do ano anterior. “A evolução do consumo das famílias continuou em patamar alto, mas não assusta mais como a alta de 8,6% registrada no quarto trimestre de 2007″, disse Bráulio Borges.

Para o IBGE, a expansão do consumo foi motivada principalmente pelo aumento da massa salarial. No segundo trimestre, a massa salarial dos brasileiros teve alta de 8,1%. Além disso, o crédito farto e os prazos longos de pagamento dos empréstimos contribuíram para a expansão. Houve crescimento de 32,9% no saldo de operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas. Na avaliação do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, os dados mostram que o consumo “conserva uma evolução que, sem ser explosiva, é alimentadora das decisões de investimento dos empresários”.

Giovanna lembra que o ritmo de crescimento visto ao longo de 2007 já perdeu força em 2008. A taxa de crescimento do consumo das famílias em termos dessazonalizados ficou em 2,1% no segundo semestre de 2007 e desacelerou para 0,7% até junho de 2008.

Pela ótica da produção, o PIB teve como destaque a agropecuária, cuja expansão foi de 4,8% em relação ao segundo trimestre de 2007 em razão das boas safras de café e milho e ainda a ganhos de produtividade que passaram a ser contabilizados pelo IBGE a partir de 2008. A indústria também ficou em patamar elevado, de 5,7%, puxada pela construção civil. (Com Folhapress)