30/08/2012 - 10:26h Medidas somam estímulos ao consumo e ao investimento

O BNDES passará a cobrar juros reais negativos no Programa de Sustentação do Investimento (PSI)

Por Edna Simão e Thiago Resende | VALOR

De Brasília

No âmbito de uma nova rodada de medidas de estímulo ao investimento e ao consumo, anunciada ontem pelo governo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) passará a cobrar juros reais negativos no Programa de Sustentação do Investimento (PSI), voltado para aquisição de bens de capital. A taxa de juros fixa para compra de máquinas e equipamentos caiu de 5,5% para 2,5% ao ano, anunciou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Essa taxa especial, contudo, vale apenas até dezembro.

“Levando em consideração uma inflação de 4,5%, temos um juro real negativo. Estamos estimulando a compra de máquinas e equipamentos”, disse ele, salientando a singularidade da decisão. A indústria de bens de capital foi beneficiada também pela prorrogação da redução a zero do IPI até dezembro de 2013.

Mesmo com o diagnóstico de que a economia brasileira dá sinais de recuperação – que foi reforçado pelo comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) após cortar a Selic em mais 0,5 ponto percentual, para 7,5% ao ano – Mantega decidiu atender à demanda da indústria e prorrogar a redução de IPI para vários setores, o que significará uma renúncia fiscal de R$ 5,5 bilhões entre setembro deste ano e dezembro de 2013. “A economia brasileira está numa gradual recuperação, porém, é preciso continuar dando estímulo para o investimento e o consumo”, disse o ministro, ao anunciar as medidas.

No caso dos financiamentos do PSI, a vigência das condições especiais terminariam amanhã e foram prorrogadas até dezembro. Isso foi necessário porque de uma autorização de crédito de R$ 230 bilhões, o BNDES ainda tem R$ 78 bilhões para emprestar, sinal de que a demanda dos empresários por máquinas estava baixa.

Além dos juros para máquinas e equipamentos, ainda no PSI, o governo baixou a taxa de juros de financiamento de caminhões e do programa Procaminhoneiro, todas agora fixadas em 2,5% ao ano. “Acho que é a menor taxa que já existiu para um financiamento desta natureza”, ressaltou o ministro. O prazo de pagamento é de 120 meses, com um ano de carência. Para as demais linhas do PSI, não houve mudanças nas taxas. Foi criada, também, uma linha especial para financiamento de bens de capital usados para indústrias variadas como aeronaves comerciais, tratores, carretas, ferramentas usadas. Essa modalidade de crédito é corrigida pela Taxa de Juro de Longo Prazo (TJLP), que atualmente é de 5,5% ao ano, mais 1% e o risco da empresa.

As empresas com dificuldades de pagamento também foram contempladas. O governo anunciou a criação de uma linha de refinanciamento de bens de capital. Para a compra de caminhões e vagões, decidiu baixar de 48 para 12 meses a depreciação acelerada. Ou seja, desta forma, as empresas vão conseguir abater mais investimento no lucro, o que vai implicar menor pagamento de Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) no próximo ano. Com essa medida, o governo estima abdicar de R$ 586 milhões em receitas no próximo ano.

Para estimular o consumo dos brasileiros, o governo prorrogou a queda do IPI para o setor automotivo por mais dois meses, além de manter o incentivo para a linha branca (fogões e geladeiras), móveis, materiais de construção e bens de capital. Assim, a compra de carros novos continua com benefício fiscal até outubro.

Para a linha branca a redução do IPI, que terminaria amanhã, foi estendida até o fim do ano, aumentando a renúncia fiscal em R$ 361 milhões. O ministro da Fazenda também anunciou a prorrogação do IPI reduzido para móveis, painéis, laminados e luminárias até o fim do ano, embora o prazo para este setor fosse final de setembro. Nesse caso, o impacto na arrecadação será de R$ 393 milhões.

No conjunto, o pacote representa um custo adicional aos cofres públicos de R$ 1,6 bilhão este ano e de R$ 3,9 bilhões em 2013.

As medidas anunciadas ontem dão a dimensão da preocupação do governo de Dilma Rousseff com a baixa performance dos investimentos em ampliação da oferta de bens e serviços no país e procuram, por outro lado, dar sustentação ao consumo como instrumento de estímulo ao investimento.

A avaliação do governo é de que, em um cenário de crise internacional que ainda deve perdurar, os investimentos são os que mais demoram a reagir e por isso precisariam de novos estímulos. Em setembro, as empresas começam a seus planejamentos para o ano seguinte e esse elenco de benefícios pode influir favoravelmente nessas decisões. O ministro explicou que a prorrogação da redução do IPI para os automóveis por um prazo de apenas dois meses decorreu do fato de que a reação do consumidor e da indústria foi mais rápida do que em outros segmentos. De fato, desde que foi concedida a redução das alíquotas do tributo, as montadoras reduziram seus estoques para níveis normais.

Taxa de juros cobrada para máquinas e caminhões passa a ser inferior à inflação

Por Chico Santos | VALOR

Do Rio

Os compradores de máquinas, equipamentos e caminhões serão os primeiros a tomar financiamento com juros negativos, fixados ontem em 2,5%, para as linhas do Finame do BNDES (empréstimos indiretos, via agentes financeiros) dentro do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Hoje, apenas os projetos de inovação já recebem juros de 4% ao ano, abaixo da inflação medida e da projetada para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses. Em maio deste ano, quando as taxas do PSI foram reduzidas da casa dos 7% para 5,5%, a inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IPCA, estava em 4,99%.

No programa, o Tesouro Nacional cobre a diferença entre os juros subsidiados e a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP, hoje em 5,5%), a remuneração mínima do BNDES, além de cobrir os demais custos adicionais da operação, como as taxas de risco e a remuneração dos agentes repassadores dos recursos do banco. O programa foi criado pelo governo em 2009, com o objetivo de evitar a queda dos investimentos com a crise econômica desencadeada pelo estouro da bolha do mercado imobiliário americano em setembro de 2008.

O PSI deveria vigorar até o dia 31 de dezembro deste ano, mas em abril o governo anunciou a prorrogação até dezembro de 2013 e reduziu as taxas de juros. Para máquinas e equipamentos, elas passaram de 8,7% para 7,3%, sendo 5,5% para as micro, pequenas e médias empresas. Para caminhões e ônibus, a taxa caiu de 10% para 7,7%, com o prazo de amortização sendo ampliado de 96 para 120 meses.

Nos caminhões, a taxa do BNDES Procaminhoneiro, que financia a compra para autônomos, já era de 5,5% e permaneceu no mesmo patamar. Foi também criada uma taxa de 5% para o PSI destinado a projetos transformadores que possam criar capacidade tecnológica em setores com alto conhecimento em engenharia.

As menores taxas hoje cobradas nos empréstimos do BNDES são para inovação. Todas as linhas com esse objetivo já eram negativas, com juros de 4%, também subsidiadas, ou equalizadas, na linguagem oficial, pelo Tesouro Nacional. A diferença é que os montantes envolvidos tendem a ser bem menores do que aqueles destinados à compra de máquinas, equipamentos e caminhões. Os ônibus ficaram fora da redução de taxas anunciadas ontem pelo governo.

Até agora as linhas do PSI aprovaram financiamentos de R$ 149 bilhões. Se o governo mantiver o limite de R$ 227 milhões previsto em 2009, restam R$ 78 bilhões para serem emprestados nas condições previstas pelo programa.

Setores elogiam extensão dos benefícios e pedem mais

VALOR

De São Paulo

Desde a semana passada, os setores beneficiados pelas medidas de redução de impostos – fabricantes de automóveis, linha branca, móveis e materiais de construção – passaram pelo Ministério da Fazenda levando dados que mostravam ao governo o aumento das vendas e do emprego em seus setores. Ontem, os setores festejaram a extensão do prazo dos benefícios.

Na reunião de ontem com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a direção da Anfavea – a entidade que abriga as montadoras instaladas no país – mostrou que a média de emplacamentos de carros no país, que vinha em maio a um ritmo de 13,2 mil unidades, subiu para 16,6 mil automóveis e comerciais leves no período de junho a agosto. Também foi citada no encontro a geração de 2,7 mil empregos nos últimos dois meses – ou 3,1 mil vagas ao longo do ano -, apesar de ajustes feitos por montadoras como a General Motors e a Mercedes -Benz com a suspensão temporária dos contratos de trabalho de mais de 2,4 mil operários – dado que não entrou na conta.

Além disso, as montadoras tentaram atenuar as preocupações com o impacto do pacote de incentivos nas contas públicas, mostrando que a redução de R$ 20,7 milhões na receita diária do governo com o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) foi compensada por ganhos com outros impostos em virtude do aumento nas vendas. Somando a alta na arrecadação com PIS/Cofins, ICMS e IPVA, os estímulos acabaram gerando uma arrecadação diária adicional da ordem de R$ 1,7 milhão, segundo os dados da Anfavea.

Após o encontro, Mantega anunciou a prorrogação até 31 de outubro do IPI reduzido nas vendas de carros. A manutenção do estímulo foi acompanhada por um expressivo corte (de 5,5% para 2,5% ao ano) nos juros dos financiamentos de caminhões no Programa de Sustentação do Investimento (PSI). No ano, a queda na venda de caminhões é de 17%.

A prorrogação do IPI reduzido para a linha branca até 31 de dezembro deste ano garantiu a manutenção do emprego no setor e perspectivas otimistas quanto às vendas no varejo, segundo Lourival Kiçula, presidente da Eletros, entidade que reúne os fabricantes de produtos eletroeletrônicos. Segundo ele, o crescimento de 19,3% nas vendas para o varejo de refrigeradores, lavadoras automáticas e fogões registrada no primeiro semestre deste ano, ante igual período de 2011, seria praticamente zero, sem o IPI reduzido.

“Não fosse essa prorrogação, teríamos um impacto imediato com o aumento de 4% no preço dos fogões e de 10% entre lavadoras e refrigeradores, além da diminuição da força de trabalho que seria necessária. O varejo compraria menos e a freada seria brusca, com o crescimento das vendas para o varejo ficando próximo de zero em 2012″, estima Kiçula.

Segundo apurou o Valor, a Eletros, encaminhou para o Ministério da Fazenda o pedido de redução permanente do IPI para 4%, alíquota que seria estendida a todas as categorias de linha branca. Como contrapartida, a indústria ofereceu aumento da eficiência energética dos produtos.

O presidente da Abimaq (entidade que representa o setor de bens de capital), Luiz Aubert Neto, elogiou a medida do governo de reduzir a taxa de juros de financiamento para máquinas de 5,5% para 2,5%. Contatado logo após o anúncio feito pela Ministro da Fazenda, Aubert admitiu que ainda não sabia da medida: “Fui pego de surpresa, de imediato a gente não esperava [uma redução tão forte].” A queda, de três pontos percentuais, representa na prática juros reais negativos.

(Eduardo Laguna, Daniele Madureira, Ana Fernandes e Carlos Giffoni)

30/08/2012 - 10:16h ‘Eles devem fazer mais um corte de 0,25 ponto, e depois parar’


Economista vê taxa Selic se estabilizando em 7,25% por período longo, com a inflação chegando a 5,5% em 2013

30 de agosto de 2012

FERNANDO DANTAS / RIO – O Estado de S.Paulo

Para Monica de Bolle, o Comitê de Política Monetária (Copom) apontou claramente no seu comunicado que deve fazer mais um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic, na próxima reunião, e parar em 7,25%. Monica acha que este nível pode ser mantido durante todo o próximo ano. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que a sra. achou da decisão?

Ela já estava dada. O importante dessa reunião era o tipo de mudança de linguagem que o BC poderia fazer no comunicado, e o que isso significaria.

E qual a sua interpretação do comunicado?

Eu interpreto a mudança no comunicado como um sinal de que eles vão fazer mais um corte de 0,25 ponto porcentual e depois vão parar. O Copom diz que, se o cenário prospectivo permitir, pode haver um ajuste adicional com a máxima parcimônia. “Máxima parcimônia” para mim é 0,25 ponto porcentual, já que o mercado vem interpretando cortes de 0,5 ponto como parcimônia. O BC acabou deixando a porta menos aberta do que eu imaginava.

Como assim?

Achei que eles pudessem fazer como têm feito sempre, se reservando o máximo possível de opções. Eles não fizeram, e indicaram claramente ao mercado que estão indo para 7,25%.

Qual deve ser a reação do mercado à decisão e ao comunicado?

O mercado deve interpretar agora que baixar a Selic até 7% ficou fora de cogitação. Mas alguns ainda devem ficar na dúvida se ele parou no 7,5% ou se vai baixar até 7,25%. Eu, pessoalmente, tentando pensar como os BCs agem nesse tipo de situação, considero que parar em 7,5% para eles seria algo muito abrupto. Só mesmo se de fato eles começarem a enxergar algum tipo de aceleração inflacionária, ou de contaminação inflacionária dos choques. dos último dois meses. Nesse caso, eles poderiam usar isso para parar e dizer que pararam pois acham que já fizeram o suficiente. Mas não há indicação nesse sentido no comunicado. Talvez tenhamos de esperar a ata para ver o que dirão a mais sobre isso.

A sra. diria que o Copom, portanto, deixou a porta ligeiramente entreaberta para parar em 7,5%?

Sim, ele não descartou completamente essa possibilidade.

Qual deve ser a evolução da política monetária a médio e longo prazos?

Acho que eles têm espaço para segurar a Selic no nível ao qual a levarem, seja 7,5% ou 7,25%, por um tempo razoável.

Por quanto tempo?

Acho que até pelo ano que vem inteiro.

Quais as suas projeções para a inflação neste e no próximo ano?

Em 2012, a inflação deve ficar em torno de 5,2%, 5,3%. Pode ser até um pouquinho menor, dependendo de como essas reduções de IPI e a redução tributária da energia que eles estão prestes a fazer influenciarem o IPCA. Em 2012, se houver alguma aceleração inflacionária, acho difícil que vá muito além de 5,5%. E isso provavelmente dará conforto ao BC para manter a Selic inalterada.

29/08/2012 - 09:06h Brasil deve chegar ao fim do ano com a menor taxa de juros da história


Mercado aposta que, com corte de meio ponto hoje, Selic pode chegar a 7% em dezembro

João Sorima Neto – O GLOBO

29/08/12

SÃO PAULO – O Brasil vai terminar o ano de 2012 com a menor taxa básica de juro de sua história, a Selic, mas ainda assim estará entre os países com os maiores juros reais do mundo. Atualmente, o país ocupa a terceira colocação, com juro real de 2,3%, atrás de China (que tem juro real de 3,7%) e Rússia (juro real de 3,5%), segundo um ranking elaborado pela corretora Cruzeiro do Sul/Apregoa. Para que o Brasil deixasse a terceira colocação no ranking atual, seria necessário um corte de 0,75 ponto percentual nos juros. Assim, o país chegaria a uma taxa real de 2,1%, ficando atrás da China (3,7%), Rússia (3,5%) e também do Chile (2,2%). Neste cenário, a taxa brasileira seria de 2,1%.

- Como a expectativa é de um corte de 0,5 ponto percentual na reunião desta quarta-feira e de mais um corte de 0,25 na reunião de outubro, encerrando o ciclo de quedas, o país terminaria o ano no quarto lugar do ranking do juro real, mesmo com a Selic chegando ao menor patamar da série histórica desde 1986 – avalia Jason Vieira, economista da corretora Cruzeiro do Sul. A aposta da maioria dos economistas é de que na reunião de novembro, a útlima do ano, o Copom não mexerá nos juros.

De janeiro de 2010 até março deste ano, o Brasil se manteve no topo dos países com maior juro real do mundo. O país só deixou a primeira colocação, explica Jason, em consequência do desaquecimento da demanda internacional. Isso reduziu as projeções para a inflação na China e Rússia, que encabeçam o ranking. No Brasil, a projeção de inflação ainda é crescente.

Além disso, o processo de queda da Selic, que em 12 meses caiu de 12,5% ao ano para os 8% atuais, também ajudou a tirar do Brasil o título de campeão de juros mais altos do mundo.

- O ranking é feito levando em consideração a inflação projetada para os próximos 12 meses – explica o economista Jason Vieira.

Com juro em patamares baixos na Europa, Estados Unidos, como forma de estimular o consumo e aquecer as economias, a taxa média geral dos 40 países analisados pela Cruzeiro do Sul ficou em -0,4%. Segundo o ranking, 22 países tem juro real negativo.

Economistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que o atual ciclo de queda de da Selic se encerra em outubro. A dúvida entre eles é saber se a taxa chega a dezembro em 7% ou 7,25% ao ano. Para Jason Veira, a Selic sofre um corte de 0,50 ponto percentual nesta quarta e mais um de 0,25 na reunião de outubro.

- Acredito que o Banco Central vai passar a agir com parcimônia, ainda avaliando os efeitos sobre a economia das quedas anteriores – diz o economista.

Para o economista Clodoir Vieira, da corretora Souza Barros, a Selic também termina o ano em 7,25%, com um corte nesta quarta de 0,50 e em outubro de 0,25.

- A alta do preço das commodities no exterior pressiona os índices de inflação. Acredito em mais cautela do BC a partir de agora – diz o economista da Souza Barros.

O banco WestLB avalia que o BC corta o juro em 0,50 nesta quarta e encerra o ciclo de quedas.

- O choque de oferta de grãos nos EUA faz o preço das commodities agrícolas subir no exterior. Além disso, a economia brasileira já dá sinais de que volta a crescer. Por isso, esperamos cautela – avalia o economista Luciano Rostagno.

Ele diz que será preciso observar com atenção o comunicado do BC após a decisão desta quarta.

- Se o BC suprimir a a expressão ‘dando continuidade ao processo de ajuste das condições monetárias’ da ata do Copom, é certo que não vai mais cortar a Selic – diz Rostagno.

Segundo o boletim Focus, uma compilação do Banco Central com economistas do mercado financeiro, haverá um corte de 0,50 ponto percentual na Selic nesta quarta, e mais um em outubro de 0,25 ponto percentual. Assim a Selic chegaria a dezembro em 7,25%.

29/08/2012 - 08:46h As razões do otimismo do governo

Por Cristiano Romero – VALOR

Um ano depois de iniciado o atual ciclo de alívio monetário, o Banco Central (BC) mostrou que estava certo ao mudar radicalmente o rumo da política de juros. A principal alegação feita na época – o desaquecimento das principais economias do mundo e, em consequência, o surgimento de um ambiente desinflacionário – se materializou.

Hoje, o Comitê de Política Monetária (Copom) promoverá mais um corte de meio ponto percentual na taxa Selic, reduzindo-a para 7,50% ao ano, e é possível que faça pelo menos mais outro de 0,5 ponto antes de encerrar o ciclo. O BC acha que essa política, somada a outras que o governo vem adotando, já começou a produzir resultados. O clima em Brasília é de otimismo quanto às chances de a economia acelerar o crescimento nos próximos meses.

Quando o Copom surpreendeu o mercado em agosto do ano passado, cortando o juro em vez de aumentá-lo, a expectativa de crescimento anual da Europa girava em torno de 1% a 2%. Hoje, o que se espera é uma recessão em 2013. No caso dos Estados Unidos, em meados de 2011, esperava-se crescimento em torno de 3%. Agora, a realidade mostra que a expansão neste ano deve beirar os 2% ou ficar abaixo disso.

Desaquecimento mundial previsto pelo BC se materializou

Há um ano, a expectativa era que a economia mundial crescesse até 3,4% em 2012. Com o agravamento da crise mundial no segundo semestre de 2011, as perspectivas foram piorando sucessivamente e, neste momento, o que se espera é um longo período de crescimento lento, em torno de 2,2%.

O cenário desinflacionário se concretizou. A melhor indicação disso está nos indicadores de commodities. O CRB Foodstuff (que mede a variação dos preços de alimentos) estava, em julho, 8,9% abaixo do patamar de um ano atrás. O CRB Metais caiu 23,4% no mesmo período e o CRB total, 13,2%. Não é para menos. O desaquecimento da economia chinesa explica em grande medida essas quedas. A China, segundo o FMI, respondeu em 2009 por 53% das importações líquidas mundiais de soja, por 65% das compras de minério de ferro e por quase 30% de metais.

A economia brasileira, evidentemente, não escapou da maré ruim. No último ano, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 2,7% e, em 2012, deve avançar menos de 2%, muito abaixo da média anual de 4,2% verificada entre 2007 e 2011. A boa notícia é que há sinais positivos indicando uma retomada, mais lenta do que as ocorridas no passado recente, mas consistente.

É o próprio mercado quem diz, via boletim Focus, que o Brasil vai se levantar nos próximos trimestres. A esperança é que, depois de registrar baixíssimo crescimento nos primeiros seis meses do ano – 0,1% entre janeiro e março e, possivelmente, 0,3% entre abril e junho -, a indústria avance 1,5% no atual trimestre, quando comparada ao mesmo período do ano anterior, e 2,1% entre outubro e dezembro. O crescimento deve se acelerar no primeiro (3%) e segundo trimestres (4%) de 2013.

Com base no Focus, o BC espera expansão do setor de serviços de 3% em cada trimestre da segunda metade deste ano, quase o dobro da registrada no primeiro trimestre (1,6%). O ritmo seria mantido na primeira metade do ano que vem. Na agricultura, a expectativa é de forte recuperação nos próximos trimestres, depois da queda do primeiro trimestre (-8,5%) e do provável baixo desempenho no segundo (1,4%). Entre outubro e dezembro, a agricultura deve crescer 4% e acelerar nos seis meses seguintes, sempre na comparação com igual período do ano anterior.

A confiança do governo se baseia no que já vem ocorrendo em algumas áreas. A produção mensal de automóveis, por exemplo, depois de cair abaixo de 260 mil em janeiro, começou a se recuperar e, após o corte de IPI, tomou impulso. O mesmo ocorreu com caminhões. Os estoques de carros, que atingiram o pico em agosto de 2011, voltaram a crescer nos primeiros meses do ano, mas, depois da desoneração, estão declinando novamente.

O governo acredita que o ambiente é favorável à aceleração do PIB graças aos seguintes fatores: a taxa de desemprego está na mínima histórica (5,4% em maio, segundo a última medida nacional feita pelo IBGE); a criação de empregos formais diminuiu em quase 1 milhão desde fevereiro de 2011, mas segue forte (1,2 milhão nos 12 meses até junho deste ano); a massa salarial real voltou a crescer, avançando 5,1% nos 12 meses concluídos em maio (7,5%, quando comparada ao mesmo mês de 2011); a renda real também tornou a expandir-se (3,2% nos 12 meses até maio e 4,9% na comparação com maio do ano passado).

Ao contrário dos analistas que apontam a exaustão do modelo de crescimento baseado em consumo e crédito, o BC vê espaço para o país continuar crescendo por esse esquema, ajudado pelas medidas adotadas pelo governo para expandir a infraestrutura e aumentar a competitividade. O BC aposta no efeito “juros menores” – entre setembro de 2011 e junho deste ano, o juro médio cobrado de pessoas físicas caiu de 45,7% para 37,1% ao ano; e o das empresas recuou de 39% para 31,3% ao ano.

Embora a queda da Selic tenha sido expressiva – 4,5 pontos no período -, a redução dos juros bancários foi modesta. Ainda assim, as autoridades acreditam que o crédito, mesmo crescendo a uma velocidade menor, cumprirá um papel importante na retomada. Entre 2005 e 2008, cresceu ao ritmo de 25,2% ao ano; entre 2009 e 2011, subiu 18,3% e, nos 12 meses até maio, manteve essa velocidade (18,1%).

Técnicos do governo lembram que o grau de endividamento dos brasileiros, como proporção do PIB, é baixo quando comparado ao de outros países – 20,9% do PIB, face a 27,9% no Chile, 83,5% nos Estados Unidos e 207,4% do PIB no Reino Unido. O problema é que o peso dos juros na renda disponível dos brasileiros é bem maior – 22,1%, diante de 10,8% nos EUA, 9,9% no Chile e 2,2% no México. Em compensação, a inadimplência no Brasil não está entre as maiores do mundo.

Nem tudo é alegria no primeiro aniversário do “novo BC”. A inflação, embora tenha recuado de forma significativa, ainda é alta (5,2% nos 12 meses até julho); o BC segue sem conseguir coordenar satisfatoriamente as expectativas inflacionárias, que apontam para aumento do IPCA em 2013 (para 5,5%); e o regime de câmbio flutuante, um dos pilares da política econômica adotada com sucesso pelo país desde 1999, foi (temporariamente?) abandonado.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

24/08/2012 - 08:55h Selic cai há um ano, sem reação

Efeitos da redução da Selic ainda são tímidos

Por Lucinda Pinto, Conrado Mazzoni, Fernando Travaglini e Flavia Lima | VALOR

De São Paulo

Na próxima semana completa-se um ano da já famosa reunião de 31 agosto de 2011, quando o Banco Central iniciou o atual ciclo de corte de juros com uma redução de 0,5 da Selic, surpreendendo quase todo o mercado. O primeiro efeito esperado, de evitar uma depressão da economia brasileira em meio ao agravamento da crise na Europa foi atingido e o BC ganhou pontos de credibilidade por ter acertado em cheio no diagnóstico.

Até agora, no entanto, a aceleração da atividade não veio. O que se vê é uma resposta ainda tímida, restrita ao consumo. Para a indústria, a resposta é pouco efetiva e, quando existe, está mais relacionada a desonerações tributárias. No primeiro trimestre do ano, a economia brasileira cresceu 0,2% em relação aos últimos três meses de 2011. Nessa base de comparação, enquanto o consumo das famílias e do governo cresceu 2,5% e 3,4%, respectivamente, o investimento em máquinas e equipamentos caiu 2,1%. E a expectativa é que tenha apresentado expansão entre 0,4% e 0,5% no segundo trimestre, mesmo com o governo alardeando que o PIB reagiria.

Maurício Molan, economista-chefe do Santander, pondera que o atual ciclo de queda de juros só se tornou de fato um afrouxamento no começo deste ano. Entre agosto e dezembro, o BC reduziu 1,5 ponto percentual, mas o juro real ainda se mantinha acima de 5%, próximo, portanto, da média dos últimos três anos. Somente em abril, o juro real veio para a casa dos 3%. “Houve uma defasagem maior para a resposta da política monetária, que só passou a ser expansionistas no começo deste ano”, diz Molan.

Para o ex-diretor do BC e estrategista da Tandem Global Partners, Paulo Vieira da Cunha, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tem razão ao prever um crescimento anualizado de 4% no quarto trimestre, mas teme uma desaceleração do PIB à frente. “Meu medo é que, quando isso acontecer, o governo resolver dar ainda mais estímulos.”

Essa é uma das críticas mais fortes que decorreram da decisão de agosto de 2011, a de que o BC passou a priorizar o crescimento em detrimento de um controle estrito da inflação. A avaliação é de que o BC passou a trabalhar com um objetivo de inflação mais ousado, perto de 6%. “É uma mudança não assumida, mas percebida, de que o limite para a inflação passou a ser 6%”, diz Vieira da Cunha.

“Estamos diante de um Banco Central que não está disposto a sacrificar crescimento desde que você tenha inflação dentro das bandas. Foi isso o que aprendemos ao longo de todos esses meses”, afirma Marcelo Salomon, economista-chefe para o Brasil do Barclays.

Salomon projeta inflação de 5% em 2012 e de 5,9% em 2013. “Então, não é um cenário de convergência de volta para as metas, mas é um cenário em que o BC não está disposto a sacrificar crescimento – mantendo a possibilidade de promover uma retomada mais incisiva o mais rápido possível – desde que você não comprometa o teto da meta porque o mundo ainda está muito incerto”, afirma.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais do BC acredita que o objetivo de inflação de até 6,5%. E isso explica o fato de as projeções estarem tão distantes do centro da meta, de 4,5% – as projeções para o IPCA se situam em 5,12% para este ano e em 5,5% para 2013.

Mesmo com a maior leniência com os preços, os benefícios da queda dos juros não foram percebidos claramente na atividade por causa de um diagnóstico errado, acredita Schwartsman. “A economia não está indo bem porque o BC tenta adotar a mesma receita de 2008 agora, sendo que as condições são completamente diferentes”, afirma.

Schwartsman diz que, há quatro anos, a economia tinha um grau de ociosidade importante, tanto no emprego quanto na produção e no crédito, que explica a resposta rápida obtida com as medidas de estímulo adotadas naquele momento. “Agora, com o país em pleno emprego, o conjunto de política econômica parece não funcionar.”

O economista Winston Fritsch, um dos integrantes do time que criou o Plano Real (1993-1994), não vê o BC mirando o ritmo de atividade da economia em detrimento do nível geral de preços. Para ele, o Copom “ganhou” do mercado ao notar antes dos agentes econômicos uma oportunidade única de reduzir a taxa básica de juro da economia brasileira, e estabelecer um novo padrão. “Eu acho que o BC não abandonou a meta de inflação. O impacto de contração da atividade foi muito rápido. Um choque de esfriamento que criou espaço para reduzir os juros sem contrapor a meta.”

Fritsch pondera, no entanto, que a condição propícia à flexibilização do juro não é eterna e o ritmo de corte da taxa Selic, que foi reduzida até agora em 4,5 pontos percentuais, 8% ao ano, tende a ficar mais contido nos próximos meses. “Chegamos a um ponto para testar e ver o que acontece. Ninguém pode dizer que o BC está fora da meta.”

A expectativa para a próxima reunião do Copom, que ocorre na semana que vem, é de novo corte de 0,5 ponto, seguida por nova redução em outubro, talvez de menor magnitude, especula o mercado. A partir daí, os especialistas se dividem entre uma estabilidade ao longo de 2013 ou uma leve alta dos juros. Todos estão de olho no atual repique inflacionário, fruto da alta dos preços das commodities (especialmente alimentos) no exterior e no aquecimento da economia doméstica.

De toda forma, há um novo equilíbrio macroeconômico defendido pelo BC: juro real baixo com câmbio depreciado. Para que isso se torne uma mudança estrutural, é necessário que se mantenha o atual rigor fiscal, além de depender ainda do desempenho da economia internacional, avalia David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch para o Brasil.

“O mix da política monetária de fato mudou e a depreciação da moeda brasileira é permanente. Mas a âncora desse novo modelo é a manutenção de um rigor fiscal razoável”, diz Beker.

Mesmo com o alívio provocado pela queda do juro básico no perfil da dívida pública brasileira, as estimativas para o superávit primário estão menores do que o resultado consolidado no ano passado. As projeções indicam 2,8% para este ano e para 2013. Em 2011, o superávit primário foi de 3,11%.

No ambiente externo, Beker acredita que o cenário de baixo crescimento e juros próximos de zero se manterá por dois ou três anos, o que deve permitir que se mantenha a taxa de juro real brasileira em patamares historicamente baixos. “Ainda é cedo para dizer se a mudança no patamar da Selic é estrutural, mas mesmo que seja apenas conjuntural não necessariamente será de curto prazo”.

Passado um ano das turbulências entre o mercado e o BC, os especialistas hoje já se acostumaram com a nova função de reação da autoridade monetária e sabem ler melhor os sinais dessa nova autoridade monetária. Antes, o BC não reduziria os juros quando a projeção de inflação se mostrava acima da meta. Hoje, a expectativa está acima de 5% e o BC continua cortando a Selic, lembra Molan, do Santander.

Outra mudança está no câmbio. Analistas que antes olhavam os fundamentos econômico como o preço das commodities e o movimento do dólar no mercado externo para estimar o valor da moeda americana no Brasil, estão mais atentos agora aos discursos do governo, seja via Ministério da Fazenda, seja via BC.

Mas condições para o processo de ajuste das taxas de juros para padrões internacionais não estão dadas, na opinião de Vieira da Cunha, uma vez que o peso do governo no sistema financeiro só faz crescer e o ajuste fiscal está focado na arrecadação, e não no gasto. E isso ajuda a explicar o resultado prático ainda limitado dessa medida. “Por enquanto, estamos pagando para ver.”


BC não mudará sua estratégia

Por Cristiano Romero | VALOR

De Brasília

A intervenção do Banco Central (BC) no mercado de câmbio, depois de 35 pregões de ausência, consagra a percepção de que o regime de câmbio flutuante, pelo menos por ora, deixou de existir. Com a atuação de terça-feira, o BC avisou que não pretende deixar a cotação do dólar americano cair abaixo de R$ 2, assim como já deu a entender que não aceitará que vá acima de R$ 2,10.

A preocupação do BC é sustentar um novo equilíbrio para a economia brasileira, em que as taxas de juros são menores e o câmbio, menos apreciado. Trata-se de um equilíbrio diferente do dos últimos anos, que combinava juros altos com real valorizado. O objetivo do novo equilíbrio é estimular a indústria nacional, estagnada há dois anos.

A determinação do BC em defender uma determinada taxa de câmbio se mostra de forma ainda mais clara quando se observa que o país assiste ao repique da inflação, provocado por um choque de oferta no setor de alimentos. Câmbio desvalorizado, como se sabe, pode alimentar a inflação.

Em março, quando o ambiente internacional se deteriorou e por consequência houve um aumento da aversão dos investidores a risco, o fluxo de dólares se tornou negativo, pressionando para cima as cotações do dólar. Ato contínuo, o BC deixou o real perder valor para a moeda americana.

O objetivo foi tirar o dólar da cotação de R$ 1,70 e levá-la a outro patamar – na ocasião, para algo em torno de R$ 1,90. O processo continuou em abril e, apenas no fim daquele mês, a autoridade monetária procurou estabelecer alguma “âncora” para a moeda, que em meados de maio já estava em novo patamar – R$ 2.

A desvalorização do real foi, até então, a mais acentuada entre as moedas de países exportadores de commodities e de economias emergentes. A partir de maio, o BC procurou atrelar o câmbio comercial ao dólar index, indicador que mede a variação da moeda americana em relação a uma cesta de moedas. Segundo o Valor Data, em meados de junho houve um descolamento entre os dois indicadores e, apenas no início do mês seguinte, o real voltou a variar em linha com o dólar index.

Lá pelo dia 20 de julho, dólar comercial e dólar index acumulavam a mesma variação em relação a 30 de abril, quando houve o “casamento”. Depois disso, o dólar comercial andou acima do dólar index, mas sempre com uma forte correlação. Em tempo: ao seguir o dólar index, a taxa de câmbio deixa de refletir os fundamentos da economia brasileira.

Analistas acreditam que, com o aumento da inflação nos próximos meses, a tendência do BC será abandonar essa política e permitir a apreciação do real. Faria isso para conter os preços via dólar mais barato, preservando o espaço para continuar reduzindo a taxa básica (Selic), uma vez que a inflação estaria sob controle. O BC vem desmentindo essa possibilidade com suas ações e comunicados.

É mais provável ver o BC exercitando sua já habitual tolerância com uma inflação mais alta. Argumentos para isso não faltarão e o primeiro deles já está dado: o mundo, por causa de um grave problema climático nos Estados Unidos, está ficando novamente inflacionário. Ademais, BC e governo não consideram alta uma inflação em torno de 5,5%. Um IPCA de 5,5% em 2013 é justamente o que espera a maioria dos agentes de mercado, segundo o boletim Focus. Para 2102, por causa do choque de oferta, o mercado tem revisado para cima as projeções e já prevê 5,15% – nos 12 meses acumulados até julho, estava em 4,9%.

Ainda há no mercado a ideia de que a atual diretoria do BC age de acordo com a tradição firmada entre 1999 e 2010, durante a implantação do regime de metas para inflação. Por essa crença, o BC não reduz juros quando as expectativas de inflação superam a meta oficial; deixa o câmbio apreciar ou depreciar como consequência dos termos de troca da economia; atua no mercado para evitar repentinas e acentuadas desvalorizações da moeda; não coordena seus objetivos com o Ministério da Fazenda.

O BC mudou. Começando pelo fim, a atual diretoria não só coordena suas políticas como compartilha com a Fazenda diagnósticos e visões sobre a economia; tolera desvalorizações da moeda a partir da crença de que o real valorizado prejudica a competitividade da indústria; não tem apego à ideia de que é natural o real andar de mãos dadas com moedas de países exportadores de commodities, como Canadá e Austrália; dá um peso menor às expectativas dos agentes ao definir a política de combate à inflação.

O que há em comum entre os BCs dos dois momentos é a crença de que o governo precisa entregar uma meta cheia de superávit primário, como elemento auxiliar ao controle da demanda. Isso não mudou. Um exemplo de como o atual BC difere dos anteriores foi a participação do presidente da instituição, Alexandre Tombini, na reunião com a Anfavea que decidiu pela diminuição do IPI para estimular a venda de automóveis. É cedo para dizer se o “novo BC” está certo ou errado. O que já dá para afirmar é que ele é diferente.

Um funcionário graduado do BC justificou desta forma a adoção de uma política fiscal, monetária e cambial menos restritiva para ajudar o setor: “A gente sabe que investimento funciona se tiver perto da capacidade. Com os pátios das indústrias cheios, não tem investimento. Então, temos que cuidar um pouco desse curto prazo para a bola continuar em movimento. Então, é essa a lógica de preservar os investimentos em setores que puxam a economia”.

10/07/2012 - 10:04h Investidor ‘paga’ para emprestar à Alemanha


Disparidade entre a 1ª economia do euro e a 4ª, a Espanha que teve de pagar juro insustentável, fica ainda mais evidente

10 de julho de 2012

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL/ FRANKFURT – O Estado de S.Paulo

A moeda do euro tem de fato dois lados. Ontem, o governo da Espanha é obrigado a pagar uma taxa de juro recorde para se financiar e esteve mais uma vez à beira de declarar a incapacidade de se financiar apenas no mercado. Já a Alemanha vive um fenômeno totalmente oposto: eram os investidores que estavam pagando ontem para financiar o Estado alemão, em troca de um lugar seguro para seu dinheiro.

A disparidade não é entre a maior economia da região e a mais insignificante delas. Mas si entre a número 1 e a número 4.

Nos últimos meses, a economia alemã se transformou em um destino seguro para capital de toda a Europa, em busca de estabilidade e risco zero em meio à crise 200 bilhões saíram dos bancos espanhóis e um volume importante também deixou Grécia e Portugal.

Ontem, quando o Tesouro alemão colocou em leilão papéis de sua dívida, a procura foi tão intensa que a taxa de juros que paga como prêmio ao investidor por apostar na capacidade do país de o compensar atingiu uma taxa negativa. Ela bateu um índice de -0,3%, um recorde. Segundo o Bundesbank, o BC alemão, a procura pelos 5,5 bilhões em papéis colocados no mercado bateu todas as previsões.

A crise, segundo analistas em Frankfurt consultados pelo Estado, garantiu à Alemanha dois anos de um financiamento quase sem custos ao Estado, algo inédito nos últimos 70 anos. Só em 2011, a estimativa é de que Berlim economizou 20 bilhões em juros que poderia ter de pagar para financiar suas dividas.

O fenômeno de ontem foi além e revelou que investidores, diante das incertezas na Europa, estão dispostos a pagar para deixar seu dinheiro em um local seguro. Os alemães comemoraram. Afinal, essa é a segunda vez que isso acontece este ano.

Lado oposto. Em um dia em que ficou evidente todas as contradições na Europa, a Espanha viu a taxa de risco bater um novo recorde, mesmo diante de todas as promessas de reformas e do resgate que receberá da UE para seus bancos. Ontem, títulos do Tesouro espanhol com maturidade de dez anos atingiram uma taxa de juros de 7%, considerada como insustentável.

09/07/2012 - 09:46h ‘Reação do governo evitou a recessão’


Ele diz que é preciso olhar o lado positivo: ‘economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer’

09 de julho de 2012

IURI DANTAS / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Principal formulador do Plano Brasil Maior, a política industrial do governo, o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mauro Borges Lemos, avalia que o País “provavelmente estaria à beira da recessão”, não fossem os pacotes de estímulo ao consumo. Ele aposta em crescimento “pequeno” da indústria neste ano, apesar da queda da produção industrial nos primeiros seis meses de 2012.

Amigo de longa data de Dilma e do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, a quem é subordinado, o economista afirma que “o governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo”. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao Estado:

Por que a indústria está patinando?

Porque estamos no meio de uma crise internacional de grandes proporções. A forma mais visível de mensurar isso é a grande agressividade das importações. Há excedente de bens manufaturados no mundo e a estratégia, em geral, é desová-los em mercados que ainda estão em crescimento.

O dólar a R$ 2 demorou?

O dólar a R$ 2 é insuficiente para impedir a desova.

O endividamento das famílias e a cautela dos bancos em emprestar limitam o impacto das medidas de estímulo ao consumo anunciadas pelo governo?

O maior economista do século 20, o John Maynard Keynes, denominou a economia capitalista de uma economia monetária, regida por relações mediadas pelo dinheiro, pela moeda. Hoje, no Brasil, como somos uma economia monetária em pleno funcionamento, é absolutamente normal que, frente a um quadro totalmente adverso, você aumente o que Keynes chamava de preferência pela liquidez. Nestes momentos, você tem contração do consumo das famílias e dos empresários, que é o investimento. Eles tendem a reagir com uma contração relativa perante grande incerteza.

Medo de a crise piorar?

Claro que há uma aversão à incerteza. Não é aversão ao risco, é mais do que isso. É uma aversão a um cenário econômico futuro que não conhecemos. Obviamente o governo está tentando, com todos os instrumentos à sua disposição, mitigar isso e eventualmente retomar o crescimento no segundo semestre. O governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo, que é a questão fundamental.

A presidente Dilma apelou ao espírito animal dos empresários, mas o investimento não deslanchou. Por que não deu certo?

Primeiro, eu diria que está dando certo. Vamos ter um crescimento positivo neste ano. Se pegar o analista mais pessimista, ele não projeta recessão. A economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer. Que seja 2%, 2,5% ou 3%, não interessa.

O governo deixou de arrecadar R$ 100 bilhões da indústria, mas a tributação continua alta. O que falta para a indústria reagir?

O problema central não é, em si, da desoneração tributária, mas fatores estruturais e heranças regulatórias e tributárias, que fazem com que capital e trabalho e os insumos básicos da economia estejam relativamente caros. A questão é como caminhar na agenda de redução destes fatores e insumos. Quando você inicia uma trajetória de política econômica com redução da taxa real de juros, está reduzindo o custo do crédito, do dinheiro. Quando desonera a folha de pagamentos de setores intensivos de trabalho está reduzindo custos que, por razões históricas, têm uma tributação muito grande. A grande estratégia do governo é um programa de redução desses custos no longo prazo. Há um conjunto de medidas que vão além de pura desoneração para aumentar o consumo, como vem sendo propalado.

Por exemplo?

Os regimes especiais de tributação. O esforço pela redução do custo da energia. Essa é uma agenda que tem impacto nos custos da indústria muito grande. Se desonerar o custo da energia, ou reduzi-lo através de mecanismos regulatórios, está aumentando a competitividade da indústria. Ao contrário da chamada agenda do puxadinho, é uma agenda de longo prazo.

A produção industrial cai há nove meses, cadê os resultados? Vamos fazer um raciocínio contra-factual: se o governo não estivesse tomando nenhuma medida, como estaria a economia brasileira hoje? Possivelmente, já estaria à beira da recessão. A reação do governo está contribuindo decisivamente para não entrarmos em recessão

Economistas defendem reformas estruturais. O País consegue superar a crise sem isso?

O Brasil vai continuar fazendo reformas e já fez muitas. Não vamos parar o País, fazer reformas durante um determinado número de anos e depois voltar a funcionar. Nessas reformas, você troca o pneu furado com a bicicleta andando. Estamos num processo permanente. Por exemplo: criar um sistema privado de financiamento do longo prazo, do investimento, é um grande desafio hoje. Temos condições de implementar essa reforma e isso está no radar do Banco Central e da Fazenda. Outro exemplo é a mudança do sistema previdenciário público, que está em plena implantação e é um dos projetos mais importantes da Presidência da República.

A indústria encerra o ano com crescimento? De quanto?

Estamos torcendo fortemente para um crescimento. Vai ser um número positivo, mas pequeno.

12/06/2012 - 09:24h A esfinge brasileira

Por Monica Baumgarten de Bolle e Fernanda Guardado – VALOR

“Decifra-me ou devoro-te”. Como impulsionar o consumo? Como destravar o investimento? Eis os grandes enigmas atuais da economia brasileira. Desatar o nó górdio do investimento privado em meio à crise financeira internacional e à imprevisibilidade europeia é um desafio quase insuplantável no momento. Resta, portanto, ele, o consumo. Fonte de acalorados debates, teses incompletas e frases de efeito. “O modelo de consumo se esgotou”. Alguém ainda aguenta ouvir isso?

O debate atual em torno desse suposto esgotamento do “modelo de consumo” para o crescimento brasileiro tem misturado alhos com bugalhos no afã de desqualificar a atual estratégia adotada pelo governo para incrementar o ritmo de crescimento econômico. Embaralham os estímulos cíclicos de demanda – o que qualquer governo faz quando vê a atividade ameaçada por choques externos – com políticas de médio prazo de expansão da capacidade produtiva, para chegar à apressada conclusão de que “não há mais espaço” para a expansão do consumo e do endividamento das famílias. É claro que só uma estratégia de crescimento focada nas reformas estruturais e nas condições para o avanço do investimento privado garante a sustentabilidade da expansão da atividade e do desenvolvimento do país. Não há como discordar disso. A recomendação é tão sensata quanto qualquer conselho de avó.

Cerca de 45% da dívida das famílias tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de 6 meses

Mas isso nada tem a ver com a tentativa legítima de incentivar o consumo quando a economia ameaça escorregar por causa da crise internacional. Ou melhor, incentivar o consumo nestas condições é o mesmo que seguir o conselho avoengo de incontestável sensatez, “proteja-se das correntes de ar”.

“Decifra-me ou devoro-te”. Cadê o esgotamento? Vamos aos fatos. O crescimento brasileiro foi beneficiado, nos últimos anos, tanto pelo consumo, quanto pelo investimento. Basta olhar as Contas Nacionais. Entre 2003 e 2011, a razão investimento/Produto Interno Bruto (PIB) saiu de 15% para 20%, enquanto o consumo perdeu participação no PIB.

A expansão do consumo neste período foi acompanhada de um aumento da alavancagem do consumidor, cujo comprometimento mensal da renda disponível atingiu 22% em março de 2012, após permanecer em torno de 19% entre maio de 2009 e maio de 2011; um avanço de três pontos percentuais que foi acompanhado de muito estardalhaço. Sobretudo quando os próprios bancos costumam trabalhar com um nível máximo de comprometimento de cerca de 30%. Houve, sim, uma alta de inadimplência. Mas os dados coletados pelo Banco Central (BC) e os indicadores do Serasa já apontam uma queda destas taxas à frente.

O prazo médio das dívidas para pessoas físicas é curto. Cerca de 45% do estoque tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de seis meses. Assim, as dívidas “acabam rápido” – e em um ambiente de estímulo ao refinanciamento, isso tende a ser acelerado, como agora. As taxas estão em queda, o que reforça o estímulo ao refinanciamento e abre espaço para maior contratação de dívida e consumo, uma vez que o percentual da renda comprometida com o pagamento de juros diminui proporcionalmente; dados preliminares do BC já apontam queda entre janeiro e maio na taxa média para pessoas físicas.

Os consumidores vêm se desalavancando mais recentemente, e mostram maior conforto com seu nível de endividamento, possivelmente um reflexo da curta duração das dívidas. A Sondagem do Consumidor da FGV mostra que, ao longo de 2011, o percentual de famílias que estava se endividando recuou, e, desde então, subiu apenas ligeiramente, atingindo 17,6% da amostra – abaixo da média histórica da pesquisa, de 20,5%. No mesmo período, o percentual de famílias que estão poupando subiu sistematicamente, e tem mostrado alguma estabilidade em torno do pico da série.

A Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio aponta uma diminuição do percentual de famílias endividadas entre maio de 2011 e maio de 2012. As famílias que se consideram pouco ou não endividadas atingem 64,5% da amostra, um avanço ante o mesmo mês do ano passado. Os próprios consumidores se mostram mais dispostos a aumentar suas compras. Segundo a FGV, cerca de 19% das famílias da amostra pretendem aumentar suas compras de bens duráveis. O percentual de famílias que pretendem diminuir suas compras, por outro lado, segue em patamar historicamente baixo (28%).

O consumidor quer aumentar seus gastos, tem confiança na perspectiva de emprego, passa por um momento em que uma boa parte das dívidas contraídas até o fim de 2011 estão vencendo, e se depara com custos declinantes para a contratação de novas dívidas. O que parece faltar é uma maior oferta de crédito por parte dos bancos, o que é compreensível no momento. Entretanto, espaço para consumir mais e crescer mais há, sim, ainda que não no ritmo observado ao longo de 2010. Desde que haja crédito. A estratégia pode não ser a melhor nem a mais segura, afinal estimula a alavancagem do consumidor. Mas decerto deve ser potente no curto prazo para estimular o crescimento.

Enigma decifrado.

Monica Baumgarten de Bolle é economista, professora da PUC-RJ e diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças (IEPE/CdG).

Fernanda Guardado é economista da Galanto Consultoria.

04/06/2012 - 07:30h Bancos públicos aumentam oferta de crédito em ritmo maior que os privados

04 de junho de 2012

EDUARDO CUCOLO, FERNANDO NAKAGAWA, BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Nos primeiros meses da ofensiva do governo para cortar os juros, os bancos públicos lideraram o aumento na oferta de crédito. Dados do Banco Central mostram crescimento de 1,9% na carteira das instituições estatais em abril em relação a março, mais que o dobro dos 0,7% verificados nos bancos privados.

Com isso, os bancos estatais seguem ganhando participação, movimento que vem sendo registrado desde a crise de 2008/2009, mas que havia perdido força em 2011. Em relação a abril do ano passado as instituições estatais registram crescimento de 25% no crédito e os bancos privados, de 13%.

Números do BC e dos próprios bancos mostram que o avanço estatal se deu em todos os segmentos: habitação, consumo e empresas. No crédito para pessoa física destinado ao consumo, que exclui as operações habitacionais, a carteira dos bancos públicos cresceu 1,6% em abril. Nos privados, a alta foi de 0,5%.

A menor diferença de crescimento entre os dois tipos de instituição se deu no crédito imobiliário, que avançou 2,5% nos públicos e 2% nos privados. Os dados do BC mostram ainda que os bancos públicos de varejo cresceram mais que o BNDES, que responde por cerca de 20% da carteira do setor financeiro estatal.

Consignado. A Caixa, por exemplo, ganhou mercado em todos os segmentos. Os empréstimos para consumo fecharam maio com volume 40% maior que o verificado na média do primeiro trimestre. No crédito consignado, o volume quase dobrou. A abertura de novas contas cresceu 20% na pessoa física e 32% na jurídica nos últimos dois meses.

“Estamos ganhando participação todos os meses, todos os anos, desde 2009, em todos os segmentos. A estratégia de se antecipar ao mercado tem dado resultado. E não é só reduzir juros. É reduzir juros com rentabilidade”, disse o vice-presidente de Pessoa Física da Caixa, Fábio Lenza. “Agora, estamos crescendo ainda mais. Até mais que outros bancos públicos.”

Nos 12 meses encerrados em abril, as carteiras comercial pessoa física e pessoa jurídica da Caixa cresceram cerca de 50%, acima dos 15% verificados na média do mercado. No Banco do Brasil, foram emprestados R$ 9,9 bilhões em maio para clientes pessoas físicas, novo recorde. O vice-presidente de negócios de varejo do BB, Alexandre Abreu, diz que, desde abril, cerca de 20% dos novos empréstimos têm sido tomados por clientes que não tinham nenhum produto de crédito.

No financiamento de veículos, o volume emprestado diariamente foi multiplicado por oito. Além disso, houve queda da inadimplência de 2,32% em março para 2,22% em abril no banco, ao contrário da média do setor, que registra inadimplência recorde de 5,9% na modalidade. Para Abreu, o calote no banco é menor especialmente porque a instituição empresta recursos de uma maneira diferente, com a concessão de empréstimos pré-aprovados conforme a renda e o perfil de cada cliente.

23/05/2012 - 09:53h Crédito começa a fluir

Por Cristiano Romero – VALOR

A maior preocupação do governo neste momento é que, mesmo com a queda das taxas de juros e as medidas de estímulo adotadas, consumidores e empresas não se animem a tomar crédito. Sem crédito, a economia não anda. Embora a demanda, impulsionada pelo forte aumento do salário mínimo em janeiro, siga aquecida, a produção industrial patina. A boa notícia é que há sinais de que o crédito, depois das seguidas rodadas de redução dos spreads, começa a fluir.

Aparentemente, tanto pessoas físicas quanto empresas estão reagindo positivamente à queda dos juros. O vice-presidente de Negócio de Varejo do Banco do Brasil (BB), Alexandre Abreu, revela que, nas linhas com maior impacto sobre a economia, as concessões têm crescido de forma acelerada no último mês e meio.

As operações com pessoas físicas mostram isso claramente. Na linha de crédito direto ao consumidor (CDC), a taxa média de juros cobrada pelo BB caiu de 2,41% para 2,19% ao mês entre março e maio. Nessa modalidade, o banco emprestou, em março, R$ 190,4 milhões por dia útil. Em abril, a média diária saltou para R$ 294,3 milhões e, em maio (até o dia 15), para R$ 322,4 milhões. O incremento por dia útil foi de 70%.

No BB, liberações têm crescido em áreas relevantes para o PIB

No caso de financiamento de veículos, segmento que, por causa do aumento inadimplência, tornou os bancos mais conservadores na concessão de novos empréstimos, também começa a haver um certo desafogo, algo que pode ser intensificado graças às últimas medidas adotadas pelo governo – ontem, em resposta à liberação de depósitos compulsórios para financiamento de carros novos e à diminuição do Imposto sobre Operações Financeiras incidente sobre crédito, o BB reduziu a taxa média de 1,29% para 1,09% ao mês.

Antes dos novos estímulos, a concessão de empréstimos já vinha melhorando, conforme atestam dados oficiais que o Banco do Brasil divulgará nos próximos dias. De qualquer forma, em março o BB liberou, em média, apenas R$ 11,1 milhões por dia útil para compra de automóveis. Em maio, a média diária mais do que triplicou – foi para R$ 34,1 milhões; agora, com a liberação de R$ 2 bilhões de seu compulsório, o banco acredita que a média diária crescerá para R$ 45 milhões até o fim de junho.

É possível que, nos próximos dias e semanas, haja um incremento nesses valores. Além da redução do custo financeiro, os carros ficaram mais baratos graças à decisão do governo de reduzir as alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Ademais, o BB conta com o fato de ter uma inadimplência média, nesse segmento, inferior à do mercado – 2,6%, face a 5,9%.

No crediário, o BB também tem registrado avanços. A média por dia útil cresceu de R$ 396,1 mil em março para R$ 2,3 milhões em maio (sempre até o dia 15), um pulo de 481,64%. O desembolso total ainda é acanhado se comparado ao de outras linhas – R$ 8,7 milhões em março e R$ 23 milhões nos primeiros 15 dias de maio -, mas a tendência, graças à forte queda dos juros nessa modalidade – de uma taxa média de 3,42% para 1,94% ao mês -, é positiva.

No crédito consignado para aposentados do INSS, os desembolsos diários cresceram quase 60% entre março e maio. A taxa média de juros recuou de 2,02% para 1,79% ao mês no período, e os desembolsos por dia útil avançaram de R$ 7,7 milhões para R$ 12,2 milhões.

Alexandre Abreu explica que, com o “BomPraTodos”, programa com que o banco pretende conquistar clientes dentro da realidade de spreads mais baixos, o BB quer mostrar que é mais vantajoso tomar um CDC (juro médio de 2,23% ao mês) do que usar o cheque especial (8,01%) ou o crédito rotativo do cartão de crédito (13% ao mês). De fato, o cheque especial é uma aberração dos tempos de inflação crônica no Brasil. Como o custo de vida corroía diariamente o poder de compra dos salários, o cheque especial funcionava como um crédito automático ao qual o assalariado recorria até o dia de recebimento do salário.

Com o “BomPraTodos, e os bancos privados estão adotando modelo parecido, o BB quer convencer os atuais e novos clientes a migrarem para produtos mais baratos. Três milhões, dos 33 milhões de correntistas do BB, usam cheque especial regularmente. Como a inadimplência nessa modalidade é altíssima – 15% na média do mercado, 11% no Banco do Brasil -, o juro é o mais alto, perdendo apenas para o do cartão de crédito.

Se o cliente adere ao “BomPraTodos”, toda vez que ele usa mais de 50% do limite do cheque especial, durante 60 dias, no 61º dia ele recebe uma mensagem pelo celular (SMS) informando que aquela dívida será parcelada automaticamente em 24 meses, ao custo de 3,94% ao mês (taxa máxima do CDC). É um preço salgado, mas bem inferior ao do cheque especial. A mesma regra vale para o crédito rotativo do cartão de crédito.

Abreu justifica o aumento da tarifa nesse programa, alegando o fato de o banco incorrer em novos custos – um deles, o envio de SMS. Além disso, argumenta, o cliente passa a ter uma espécie de assessoria financeira. Nada se compara, no entanto, diz ele, aos custos incorridos antes por causa de juros bem mais altos. O dirigente do BB conta que, com o tempo, a tendência é que o cheque especial desapareça ou se torne menos relevante – o banco estima que, em um ano, a carteira nessa modalidade diminuirá de R$ 3,2 bilhões para R$ 1,6 bilhão.

Embora o cheque especial e o cartão de crédito sejam mecanismos “populares” de acesso a crédito, eles têm relevância econômica menor que a de outras formas de crédito. Da carteira de crédito de R$ 120 bilhões de pessoa física do BB, cheque especial responde por apenas R$ 3,2 bilhões (2,6%) e crédito rotativo de cartão de crédito, por R$ 2,5 bilhões (2%). É muito menos que crédito consignado (37,5% do total), financiamento de automóvel (16,6%) e CDC (20,8%).

“Em apenas um mês, a migração de clientes para o ‘BomPraTodos’ chegou a 200 mil. É um número expressivo”, comemora Abreu, que não teme o impacto dos juros mais baixos sobre a saúde financeira do BB. Ele lembra que a iniciativa de reduzir juros é generalizada e assegura que o BB está fazendo isso de forma responsável. “O grande medo do banqueiro é baixar os juros e na ponta o cliente não pegar o recurso. Nossos clientes estão pegando empréstimos.”

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail – cristiano.romero@valor.com.br

16/05/2012 - 07:56h O BC em busca de um novo equilíbrio

Por Cristiano Romero – VALOR

Nos últimos dias, o Banco Central (BC) se comunicou à farta com a sociedade, tentando esclarecer seus movimentos e antecipando como deve agir daqui em diante. Algumas mensagens são muito claras. Uma delas é a de que, a exemplo do que fizeram outros bancos centrais, como o da Turquia na crise de 2008/2009, o BC procura um novo equilíbrio para a economia brasileira, baseado em juros baixos e taxa de câmbio menos apreciada. Em outro recado importante, admitiu a convivência do país por um período maior de tempo com uma inflação superior à meta de 4,5%.

A questão central da comunicação recente do BC diz respeito à taxa básica de juros (Selic). Todas as mensagens dão conta de que o Banco Central aproveitará o ambiente de crise nas economias avançadas, de baixo crescimento no Brasil e de desaceleração da economia chinesa, com reflexos desinflacionários no mundo e aqui, para testar novos patamares de juros.

Neste momento, a Selic está em 9% ao ano. No próximo dia 30, se agir com “parcimônia”, como sinalizaram o presidente do BC, Alexandre Tombini, e o diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton, o Comitê de Política Monetária (Copom) deve reduzi-la para 8,5%, a menor taxa nominal desde o início do Plano Real. O movimento de baixa não deve parar por aí.

Para Tombini, Brasil pode sair da armadilha dos juros altos

Não é de agora que Tombini defende a necessidade de um novo equilíbrio para a economia brasileira. No auge da crise de 2008, quando era diretor de Normas do BC, identificou oportunidade para redução acentuada dos juros. Em outubro daquele ano, menos de um mês após a quebra do banco Lehman Brothers, chegou a propor, sem sucesso, reunião extraordinária do Copom para um corte imediato de três pontos na Selic, então fixada em 13,75% ao ano.

A ideia subjacente de Tombini, defendida na ocasião também pelo atual secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, era a de que, se o BC fosse obrigado a elevar os juros mais tarde por causa de um possível repique da inflação, o faria a partir de um patamar mais baixo. O presidente do BC reprisou esse argumento em entrevista ao repórter Fernando Dantas, de “O Estado de S. Paulo”.

Se alguém tinha alguma dúvida, não deve ter mais: este BC vai reduzir os juros a limites ainda desconhecidos da política monetária brasileira. Fará isso, evidentemente, em discordância direta com as expectativas de inflação dos agentes econômicos, que seguem se deteriorando – IPCA de 5,22% para 2012 e de 5,53% para 2013.

No seminário que o BC promove anualmente sobre o regime de metas para inflação, Tombini realçou o papel das medidas macroprudenciais (por exemplo, o aumento do requerimento de capital por parte dos bancos em determinadas operações de crédito) não apenas como instrumento para assegurar a estabilidade financeira, mas também para ajudar a alcançar a estabilidade econômica. Em português claro, significa dizer que o BC não considera apenas os juros para moderar a atividade econômica e segurar os preços.

Antes da crise de 2008, disse Tombini, prevalecia o entendimento, especialmente nas economias avançadas, de que a regulação prudencial não era um instrumento de política macroeconômica. Essa percepção está mudando. A estabilidade de preços, observou ele, é condição necessária para a estabilidade macroeconômica, mas não é suficiente.

Nas últimas décadas, os países ricos conviveram com inflação baixa e pouca volatilidade do produto, caracterizando o período conhecido como a “Grande Moderação”. Isso não impediu, entretanto, que essas economias mergulhassem, a partir de 2007, numa crise profunda e longa.

A crise, de acordo com Tombini, mostrou que a adoção de forma isolada de medidas microprudenciais para corrigir problemas no sistema financeiro não tem alcance sistêmico. “E os riscos sistêmicos, quando se concretizam, criam espiral negativa que pode levar instituições ou mesmo o sistema à insolvência, com implicações macroeconômicas desastrosas”, argumentou.

No Copom, Tombini começou a defender a adoção de medidas macroprudenciais, em vez do aumento puro e simples de juros, desde os tempos em que era diretor de Normas. “Mesmo que conduzidas com o foco em objetivos distintos, as políticas monetárias e prudencial são complementares. As ações de uma afetam os objetivos da outra no curto, no médio e no longo prazo”, afirmou.

Tombini estuda as interconexões entre ambiente macroeconômico e sistema financeiro desde os tempos de estudante. Sua tese de doutorado, concluída em 1991 na Universidade de Illinois, desenvolve a ideia de que, diante de crises provocadas por choques exógenos (as crises do petróleo nos anos 70, por exemplo), os sistemas financeiros não são neutros. Na verdade, amplificam os impactos desses choques.

No seminário, Tombini defendeu, também, a necessidade de os bancos centrais se comunicarem de forma mais explícita, sem hermetismos. Isso justificaria as novidades que o BC vem introduzindo em 2012, como a sinalização de que a Selic cairia a um dígito e, depois, o anúncio de que diminuiria a um nível próximo do mínimo histórico (os dois objetivos foram abandonados).

A mudança constante de sinalização também é justificada. “Estamos vivendo um período excepcionalmente complexo para a economia global: é possível que estejamos nessa fase da crise com equilíbrios múltiplos e com uma grande variância no cenário internacional. Basta observar a rapidez com a qual se modificou nas últimas semanas a perspectiva de crescimento nos EUA, a probabilidade de resolução da crise na zona do euro ou até os dados, por vezes contraditórios, sobre o pouso suave na China. Para quem projeta dados macroeconômicos a vida está mais difícil. Por essa razão, todos os bancos centrais têm buscado fornecer indicações e comunicações explícitas, acompanhadas com uma repetida mensagem de que esses indicativos sempre estão condicionados ao conjunto de informações disponível a cada momento. E se esse conjunto é mais volátil, naturalmente isso se reflete na necessidade de ajustar-se mais frequentemente aos desdobramentos do cenário existente”, disse Tombini.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

09/05/2012 - 08:58h Juros: a batalha das expectativas

Por Cristiano Romero – VALOR

Não se viu, na história recente do país, esforço tão grande de um governo, quanto o que faz agora o da presidente Dilma Rousseff, para reduzir as taxas de juros básica e bancárias. O momento, aparentemente, permite ousadias ou, como declarou há alguns dias o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, “não há razão para o Brasil não testar taxas de juros mais baixas”.

A razão para acreditar nisso está tanto na conjuntura da economia mundial quanto na da brasileira, que tornam o ambiente menos inflacionário. No caso da primeira, o que se vê é um baixo desempenho nas economias da Europa, com recessão em alguns países; recuperação fraca nos Estados Unidos; e desaceleração na China, hoje o segundo maior PIB do planeta.

No Brasil, a despeito de a demanda das famílias permanecer aquecida, a economia como um todo segue fraca. Apesar de todos os estímulos dados pelo governo, a produção industrial parece não sair do lugar. Em março, segundo o IBGE, caiu em todas as medidas de comparação – sobre o mês anterior (queda de 0,5%), sobre março de 2011 (-2,1%), no acumulado de 2012 (-3%), em 12 meses (-1,1%) e na média móvel trimestral (-0,3%).

Desafio é convencer agentes de que BC está no caminho certo

A confiança dos industriais, de acordo com a última sondagem feita pela FGV, tem aumentado, mas de forma muito lenta. Caiu 12,1 pontos percentuais entre dezembro de 2010 e outubro do ano passado e, de lá para cá, recuperou apenas 2,6 pontos. Uma boa parcela dos empresários informa que ainda está desovando estoques acumulados ao longo do exuberante ano de 2010.

Enquanto esse processo de correção de estoques não terminar, é bem provável que a indústria continue sem apetite para fazer novos investimentos. Os dados da produção industrial são claros e refletem esse sentimento: os itens que mais caíram no ano (até março) foram bens de capital (máquinas e equipamentos) – recuo de 11,4% em relação ao mesmo período de 2011 – e bens de consumo duráveis (-11,6%).

É razoável acreditar que a indústria brasileira, mesmo diante de um mercado de trabalho aquecido, da renda do trabalhador em alta e da queda dos juros promovida pelo BC e agora também por alguns bancos, esteja temerosa por causa do cenário internacional adverso, afinal, o Brasil não é uma ilha. O próprio Banco Central advertiu, em agosto, que o impacto da crise mundial no PIB brasileiro seria equivalente a, no mínimo, 25% do que teve a turbulência de 2008 – uma subtração de pelo menos 0,5 ponto percentual de crescimento no espaço de 12 a 18 meses.

O comércio varejista, por sua vez, segue crescendo a taxas elevadas. Os dados de fevereiro mostram alta de 9,6% sobre o mesmo mês de 2011; alta de 8,7% no acumulado do ano e de 6,7% em 12 meses. O que favorece esse desempenho é a renda do trabalhador, que continua avançando em ritmo forte, em parte por causa do salário mínimo, que aumentou 14,13% em janeiro, beneficiando cerca de 48 milhões de pessoas.

O espaço entre oferta da indústria e demanda tem sido ocupado pelas importações. Se isso preocupa o produtor nacional e é natural que seja assim, por outro lado ajuda o BC a inflação. Ademais, os preços das commodities, que inflacionaram a economia brasileira no fim de 2010 e no início de 2011, estão em queda. Não se avista no horizonte, pelo menos não por ora, pressão inflacionária relevante.

Todo esse quadro levou o governo a apostar todas as fichas na redução dos juros. Já há em Brasília quem acredite que o BC reduzirá a taxa básica (Selic) para menos de 8% ao ano até dezembro – hoje, está em 9%. Juros tão baixos para a tradição brasileira provocam inflação, acreditam muitos analistas. Reside, aí, o grande desafio do governo, particularmente do Banco Central.

Como o regime de metas para inflação não foi abolido, em tese nada impede que o BC volte aumentar juros no futuro próximo, caso o IPCA suba em algum momento. Além disso, apesar das mudanças no cálculo da poupança, alguns dos constrangimentos que impediam a queda da Selic, como a existência de um volume considerável de crédito direcionado, continuam presentes. Isso explica a desconfiança do mercado, refletida nas expectativas de inflação para 2012 e 2013. Elas vêm se deteriorando nas últimas semanas – neste momento, estão, respectivamente, em 5,12% e 5,56%.

Expectativas não são meras opiniões. São um componente importante da inflação. Para que a estratégia de redução dos juros seja bem-sucedida, governo e BC terão que convencer o mercado de que o caminho escolhido é consistente e o mais adequado ao país neste momento, e não resultado de um desejo político de baixar os juros na marra e forçar o crescimento da economia a qualquer preço, mesmo que às custas de uma inflação superior à meta de 4,5%. Se as expectativas não melhorarem, a inflação tende a aumentar, o que colocará em risco a estratégia de uma redução mais acelerada dos juros.

A presidente Dilma está consciente da necessidade de um melhor gerenciamento das expectativas. O governo acredita que está diante de uma batalha de comunicação, em três fases. Na primeira, a presidente atacou o que considera a “frente popular”. Fez pronunciamento à nação em horário nobre da TV, um dia antes das celebrações do 1 de Maio, sobre a necessidade de queda dos juros. Com isso, abriu caminho para o movimento seguinte – a mudança da forma de cálculo da poupança, uma medida necessária para a Selic continuar caindo.

A fase 2 foi uma ofensiva de imprensa das duas principais autoridades do Ministério da Fazenda – o ministro Guido Mantega e o secretário-executivo Nelson Barbosa – para esclarecer as alterações da poupança. A fase 3 são campanhas publicitárias promovidas pelo Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, exemplo que deve ser seguido por pelo menos dois grandes bancos privados – Bradesco e Itaú -, segundo informação recebida pela presidente na quinta-feira passada.

Naquele dia, Dilma ouviu de três banqueiros – Pedro Moreira Salles (Itaú Unibanco), André Esteves (BTG Pactual) e Luiz Carlos Trabuco Cappi (Bradesco) – que há espaço para baixar juros. A presidente quer, agora, que o BC atue no mercado para melhorar as expectativas dos agentes econômicos.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras.

E-mail – cristiano.romero@valor.com.br

07/05/2012 - 10:29h Inflação em queda é tendência global

VALOR

A inflação brasileira acumulada em 12 meses está em queda desde o quarto trimestre do ano passado, um fenômeno que se observou também em muitos países emergentes e desenvolvidos, mostrando uma tendência global de alívio da pressão sobre os preços. O nível mais baixo das cotações de commodities tem peso importante para explicar o movimento, também influenciado pela perda de fôlego da atividade econômica em diversos países, resultado de altas de juros promovidas especialmente na primeira metade de 2011.

No Brasil, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses caiu de 7,31% em setembro de 2011 para 5,24% em março deste ano, na China, a inflação em março ficou em 3,6%, depois de ter atingido 6,5% em meados do ano passado. Nos Estados Unidos, caiu de quase 4% em agosto e setembro para 2,7% em março, com o núcleo, que exclui energia e alimentos, em 2,3%. Segundo analistas, a maior parte da queda da inflação global nessa base de comparação já ocorreu – agora, a tendência é de maior equilíbrio entre a inflação e ritmo de crescimento como foco de preocupação dos BCs.

Os preços dos produtos primários subiram com força nos últimos meses de 2010 e nos primeiros de 2011, jogando a inflação para cima em muitos países, lembra o analista-sênior para a América Latina da Economist Intelligence Unit (EIU), Robert Wood. Naquele momento, a atividade econômica global estava mais forte e, como diz o economista Raphael Martello, da Tendências Consultoria, a chamada Primavera Árabe colaborou para pressionar os preços do petróleo.

Essa trajetória “contaminou” os índices de preços em 12 meses até o terceiro trimestre do ano passado em grande parte dos países, com alta de alimentos e de combustíveis. A partir do fim de 2011, contudo, o período de inflação mais salgada – grosso modo, de outubro de 2010 a abril do ano passado – começou a “deixar” as taxas acumuladas em 12 meses, afirma Wood. Do segundo trimestre de 2011 em diante, os preços de commodities ficaram mais comportados, o que, de acordo com Wood, “explica em grande parte a tendência” de perda de fôlego dos preços em muitos países nessa base de comparação.

“No entanto, também houve um aperto monetário em alguns mercados emergentes em 2011″, reforça o economista da EIU. Isso contribuiu para controlar a inflação, ao ajudar a esfriar a atividade econômica. O Banco Central brasileiro, por exemplo, elevou os juros básicos entre janeiro e julho do ano passado, de 10,75% para 12,5% ao ano, além de ter adotado medidas para restringir o crédito. O BC chinês aumentou as taxas do fim de 2010 a meados de 2011, enquanto a autoridade monetária da Índia promoveu 12 altas dos juros. Até mesmo o Banco Central Europeu (BCE) elevou as taxas por duas vezes no ano passado, porque a inflação em 12 meses superava a meta, de até 2%, uma atitude fortemente criticada por vários analistas, já que a zona do euro já passava por uma complicadíssima crise da dívida e a atividade se mostrava anêmica em muitos países do bloco.

A partir do fim do terceiro trimestre do ano passado, a preocupação começou a mudar da inflação para o ritmo de crescimento. A crise europeia se agravou e a atividade econômica de muitos países, entre eles a China, começou a desacelerar. Foi nesse cenário que o BC brasileiro inverteu a mão da política monetária, passando a cortar a taxa Selic em agosto de 2011 – desde então, caiu de 12,5% para 9% ao ano.

No Brasil, a queda da inflação não foi maior por causa dos preços de serviços, que rodam na casa de 8% em 12 meses, em boa parte refletindo um mercado de trabalho ainda aquecido. Em compensação, a Petrobras não reajustou a gasolina com base na oscilação dos preços internacionais do petróleo, contendo esse foco de pressão inflacionária. Em países como os EUA, lembra o economista da EIU, o nível elevado das cotações do petróleo no começo do ano impediu um recuo mais acentuado da inflação ao consumidor em 12 meses.

Hoje, o maior risco inflacionário para a economia global é o petróleo, avalia Martello. A tensão no Oriente Médio, com o temor de que Israel ataque o Irã, mantém elevados os preços do produto, mesmo num quadro de mais equilíbrio entre a oferta e a procura. Um conflito, diz ele, poderia fazer os preços dispararem. Além do risco do petróleo, Wood considera que a abundância de liquidez internacional também pode provocar bolhas especulativas nos preços de ativos, citando como outra possível fonte de pressão inflacionária uma eventual recuperação mais forte da economia americana, o que hoje lhe parece improvável.

Para os próximos meses, Martello acredita que haverá mais equilíbrio entre as preocupações dos bancos centrais com inflação e crescimento, com os índices de preços mais tranquilos do que em 2011. A tendência seria de mais estabilidade dos juros do que de movimentos para cima ou para baixo, diz ele, destacando, porém, as diferenças entre as ações dos bancos centrais.

O BC da Colômbia, por exemplo, elevou os juros duas vezes neste ano, por causa da demanda doméstica forte, decidindo pela manutenção da taxa em 5,25% ao ano na reunião de segunda-feira. Já o BC brasileiro indicou que pode continuar a reduzir a Selic, enquanto o da Índia começou a afrouxar a política monetária na semana passada.

07/05/2012 - 09:53h ‘Dilma deveria ser mais rápida e agressiva’


Um dos mais famosos economistas heterodoxos, Chang diz que Dilma está \”cautelosamente\” abandonando a política de Lula

07 de maio de 2012

RAQUEL LANDIM – O Estado de S.Paulo

Um dos economistas heterodoxos mais famosos do mundo, o sul-coreano Ha-Joon Chang diz que a presidente Dilma Rousseff está “cautelosamente” abandonando a política macroeconômica de Lula. “Ela está se movendo na direção correta, mas as mudanças deveriam ser mais rápidas e agressivas”, disse Ha-Joon ao Estado.

Professor da Universidade de Cambridge, ele é autor do livro “Chutando a escada: estratégias de desenvolvimento em uma perspectiva histórica”. Amanhã, o economista dará uma palestra a empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A seguir trechos da entrevista.

O senhor vai se encontrar com empresários brasileiros. Qual será a sua mensagem?

Nas duas últimas décadas, o Brasil experimentou uma desindustrialização dramática. A participação da indústria na economia mergulhou do pico de 27,2% em meados da década de 80 para 14,6% em 2011. Esse fato é muito preocupante. Também é um imenso desperdício de potencial, pois o País é certamente capaz de competir na “primeira divisão” da manufatura mundial, como foi evidenciado pela Embraer. Para reverter essa tendência, o Brasil precisa de uma nova estratégia industrial. Sem isso, corre o risco de se transformar numa economia que vive de exportar matérias-primas para a China.

A indústria brasileira não cresce e perde mercado para outros países. O que o governo deveria fazer para ajudar?

O governo brasileiro precisa reformar suas políticas macroeconômicas. A indústria brasileira sofreu muito por conta de uma das maiores taxas de juros do mundo, que dificulta os investimentos, e de uma taxa de câmbio sobrevalorizada, que prejudica a competitividade internacional. Essas duas coisas precisam desaparecer. No entanto, não é suficiente. O Brasil também precisa de uma estratégia industrial. A experiência da Coreia do Sul – que tinha uma renda equivalente a apenas dois terços da brasileira em 1961 e hoje é 2,5 vezes mais rica que o Brasil – e de muitos outros países mostram que, sem uma política industrial coerente, o desenvolvimento econômico nos países emergentes como o Brasil não vai muito longe.

Qual é a sua impressão da política econômica da presidente Dilma Rousseff?

A presidente Dilma está deixando cautelosamente a política de Lula, que era uma mistura de política macroeconômica muito ortodoxa – focada no controle da inflação através de taxas de juros altas – e uma política industrial heterodoxa, mas pouco ambiciosa. Desde que assumiu o cargo, Dilma começou a relaxar a política macroeconômica e parece haver uma grande vontade de impulsionar uma política industrial mais pró-ativa. Acredito que ela está movendo as políticas na direção correta, mas as mudanças deveriam ser mais rápidas e mais agressivas. As condições econômicas atuais das economias brasileira e mundial tornam uma mudança mais radical não só essencial, mas também plausível. É essencial porque o declínio da indústria chegou a um ponto que não pode mais ser ignorado. Além disso, a ascensão de novos competidores, especialmente a China, significa que, se o Brasil atrasar mais seu renascimento industrial, não há caminho de volta. Uma mudança mais radical na política se tornou possível por várias razões. Primeiro, a política macroeconômica do governo Lula – apesar de o Brasil ter pago um preço alto em termos de declínio da produção industrial – convenceu o mundo que o País está determinando a não ter outra hiperinflação. Logo, uma mudança agora não provocará pânico no mercado financeiro. Segundo, depois da crise financeira de 2008, o domínio da ideologia neoliberal, que enfatiza o controle da inflação e rejeita a política industrial, diminuiu. As críticas à mudança de curso no Brasil não serão tão barulhentas quanto em 2002 ou até mesmo em 2006. Terceiro, o sucesso econômico de outros países latino-americanos, especialmente a Argentina, com políticas heterodoxas na última década aumentou a credibilidade dessas políticas.

A presidente Dilma gostaria de deixar o governo com taxas de juros reais de 2%. É possível?

Certamente. Os juros nos países ricos devem continuar muito baixos. 2% é a taxa real de juros que você precisa se quiser investimento alto e rápido crescimento. Não estou dizendo que baixas taxas de juros automaticamente levam a investimento e crescimento, mas são pré-condição. E 2% é a taxa de juros real que economias mais bem sucedidas tiveram em seu período de alto crescimento. Durante a maior parte do “milagre econômico” dos anos 60 e 70, os juros na Coreia do Sul foram negativos. Em seu período de alto crescimento, todos os países europeus tiveram taxas de juros reais entre 1% e 3%. Uma taxa de juros real de 2% é uma meta muito sensata.

O real está artificialmente valorizado? O Brasil deveria adotar controle de capitais?

Taxas de juros excessivamente altas atraem capital especulativo, o que aumenta a demanda pelo real e eleva seu valor. O problema se tornou mais sério desde a crise financeira de 2008, quando os países ricos baixaram seus juros para níveis historicamente baixos, enquanto despejavam imensos montantes de liquidez. O Brasil deveria baixar os juros, mas algum nível de controle de capitais pode também ser necessário, porque teria efeitos imediatos. O Brasil introduziu medidas de controle de capital, mas não foram fortes o suficiente. Hoje até o FMI apoia algum nível de controle de capital para países como o Brasil. Não acredito que seria um grande problema se o País fortalecesse essas medidas.

04/05/2012 - 09:56h Tempos difíceis para os bancos

Por Claudia Safatle – VALOR

Houve um tempo em que banqueiros, gigolôs e prostitutas eram proibidos de receber a Sagrada Comunhão. Expurgo tão radical decorreu de uma lei da Igreja da Holanda, que vigorou entre os anos 1581 a 1658. Na Europa aristocrática, fundada em terras e títulos, a simples posse de riqueza não conferia prestígio. Só a partir da Renascença e com o sucesso da família Médici os donos das casas bancárias passaram a ser melhor considerados.

Desde os primórdios da atividade financeira, portanto, os banqueiros já eram vistos com reservas, e a cobrança de juros, para os clérigos, feria os preceitos bíblicos.

A presidente Dilma Rousseff, na sua nova cruzada, não chegou a tanto. Mas, em duro pronunciamento no dia 1º de maio e ontem, novamente ao referir-se aos juros altos na cerimônia de posse do novo ministro do Trabalho, Brizola Neto, ela tocou num tema que pode lhe render popularidade sem grandes esforços. Os lucros dos bancos e os juros elevadíssimos que cobram são vistos por boa parte dos brasileiros como uma apropriação indevida de parte da riqueza do país.

Os juros são altos e o sistema é um oligopólio

“É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com um dos juros mais altos do mundo. Esses valores não podem continuar tão altos. O Brasil de hoje não justifica isso”, disse a presidente em cadeia de rádio e TV, no dia 1º.

“Os bancos não podem continuar cobrando os mesmo juros para empresas e para o consumidor enquanto a taxa básica Selic cai, a economia se mantém estável e a maioria esmagadora dos brasileiros honra com presteza e honestidade os seus compromissos. O setor financeiro, portanto, não tem como explicar essa lógica perversa aos brasileiros”, prosseguiu, no mesmo tom.

Ontem, ela voltou ao assunto e foi além: “O país precisa de taxas de juros compatíveis com aquelas praticadas no resto do mundo”, de uma taxa de câmbio que não seja “amarrada” pela política monetária praticada pelos países desenvolvidos em crise e, também, de uma carga de impostos mais baixa, que viabilize o crescimento econômico.

Dilma comprou uma boa briga. Não à toa o discurso do Dia do Trabalho, por inspiração do marqueteiro João Santana, foi dirigido ao capital financeiro.

Primeiro, ela definiu como meta de governo – ” O nosso Plano Real”, conforme um assessor do Palácio do Planalto – reduzir a Selic para padrões (históricos) internacionais, aproveitando os efeitos desinflacionários da profunda e prolongada crise externa.

A Selic caiu para 9% e começou a esbarrar na trava de juros dada pela rentabilidade conferida à caderneta de poupança. Segundo cálculos do governo, com os juros em 8,5% ao ano a poupança superaria todas as demais aplicações financeiras. Ontem, as novas regras de reajuste das cadernetas foram anunciadas, deixando livre o caminho para o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar mais a Selic, o que deve ocorrer na próxima reunião. No fim deste mês a taxa já deverá estar em 8,5% ao ano.

Para a poupança, haverá um gatilho. Sempre que o juro for igual ou menor do que 8,5% ao ano, a caderneta será remunerada com 70% da Selic. Acima desse patamar, vale o regime de rentabilidade atual.

Para a Selic não há mais piso. O objetivo da presidente – dito desde a campanha eleitoral – é encerrar seu mandato com juros reais da ordem de 2% e a dívida pública equivalente a 30% do PIB.

As condições externas e internas estão piores do que se imaginava que estariam a esta época do ano. O Banco Central da Austrália, na terça feira, cortou os juros em 50 pontos percentuais, levando a taxa para 3,75% ao ano, no maior movimento desde 2009 para reanimar a economia doméstica.

No Brasil, são fortes os indícios de que o primeiro trimestre do ano foi ruim para a atividade econômica. Quem esperava crescimento de 1% no período já cortou suas expectativas à metade.

A piora externa nas últimas semanas, a demora da economia brasileira em mostrar recuperação e a consequente brecha para novos cortes dos juros anteciparam a decisão da presidente de remodelar o reajuste da poupança. Até poucos dias atrás, antes da divulgação da última ata do Copom, esperava-se, no Palácio do Planalto, anunciar a nova regra da poupança só após as eleições municipais de outubro.

De pouco adianta cortar a taxa básica, porém, se os bancos continuam salgando os juros ao tomador de crédito, sob o argumento do aumento da inadimplência. Dilma virou as baterias contra as margens cobradas pelo sistema bancário – os spreads, calculados pela diferença entre as taxas de captação e as de aplicação dos bancos.

Além dos discursos, o governo lançou mão da Caixa e do Banco do Brasil para forçar a concorrência. Ambas as instituições reduziram as taxas de juros praticadas nas diversas linhas de crédito, numa iniciativa para “persuadir” os bancos privados a seguirem igual caminho ou perderem mercado. Tal ação pode ajudar, mas é insuficiente.

Nos anos 90, o governo abriu o mercado financeiro brasileiro para os bancos internacionais, na tentativa de criar um regime concorrencial. Não teve sucesso. As poucas casas estrangeiras de varejo que vieram para o Brasil logo aprenderam a lógica do funcionamento local.

Os cinco maiores bancos que operam no país hoje – BB, Caixa, Bradesco, Itaú e Santander – detém 65% dos ativos totais do sistema financeiro, 67% do saldo total das operações de crédito e 76% dos depósitos.

Há um oligopólio no setor. Oligopólios não se constrangem muito com discursos oficiais. Mas podem responder a regras mais severas de regulação.

Os bancos deixaram uma lista de reivindicações para o governo, a começar da alta carga tributária, dos elevados compulsórios, além de uma série de medidas que melhorariam as garantias dos financiamentos. Inadimplência, impostos e compulsórios são algumas das causas dos largos spreads cobrados pelas instituições. Agora é hora de olhar, também, as questões microeconômicas que afetam o setor e responder às suas demandas, se elas forem procedentes.

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

E-mail: claudia.safatle@valor.com.br

04/05/2012 - 09:51h Economistas já revisam projeção da Selic para 8%

Mudança na rentabilidade da caderneta indica disposição do governo de ampliar os cortes no juro e economistas antecipam previsões
04 de maio de 2012

O Estado de S.Paulo

Alguns economistas já revisaram suas projeções para a taxa Selic em dezembro para 8% ao ano, diante da mudança nas regras da caderneta de poupança. O movimento surpreende pela rapidez e por se antecipar ao mercado de juros, tradicionalmente mais agressivo.

O diretor de Pesquisa para Mercados Emergentes da América Latina da Nomura, Tony Volpon, por exemplo, revisou sua previsão de 8,5% para 8%, “com o risco de vermos níveis ainda mais baixos”. “Acreditamos que as mudanças na poupança apontam a intenção do governo de levar a taxa (de juros) para muito abaixo dos níveis atuais.”

A Nomura se junta a outras duas instituições que já revisaram suas projeções para 8% no fim do atual ciclo de afrouxamento monetário. O banco Safra, que até então estimava a Selic em 8,5% no fim deste ano, também projeta a taxa em 8% tanto este ano como em 2013, destacando que a remuneração da poupança é hoje o maior obstáculo à queda. “Há sinais cada vez maiores de que o governo está inclinado a resolver essa distorção o quanto antes”, disse o economista Carlos Kawall, em nota.

Outro que seguiu a mesma linha foi o sócio da Mauá Sekular e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo. Ele espera que a Selic recue a 8,5% na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) e, a partir daí, caia de novo para 8%, mantendo-se assim até o fim do ano.

“O mercado de juros já deu uma boa antecipada nessa alteração da poupança ontem. Hoje, estamos vendo um ajuste adicional, também sustentado por uma produção industrial fraca e pelo cenário internacional ruim”, analisou o gerente de renda fixa da Leme Investimentos, Paulo Petrassi. “Um dos impeditivos para esse movimento de queda dos juros é a volta da inflação, mas, ao que tudo indica, isso só ocorrerá mais adiante.”

“A mudança na poupança é um evento histórico. É o auge de um processo que começou com Fernando Henrique Cardoso, amadureceu com Lula e chega ao final com Dilma”, comentou o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito. “Mas a taxa básica de juros no Brasil sempre foi muito alta. É adequado, agora, que a redução da Selic seja feita com um pouco de calma.”

Perfeito projeta uma Selic de 8,5% no fim deste ano, mas não descarta uma revisão no cálculo. Segundo ele, embora as novas regras abram espaço para uma queda maior da Selic, existem outros fatores que precisam ser levados em conta. “Há problemas na carga tributária, problemas de inflação, que o governo tem de pensar com cuidado.”

Rapidez. Ontem investidores estrangeiros foram surpreendidos pela rapidez do governo na mudança das regras na poupança. Já estava claro que a estrutura teria de ser alterada em algum momento, mas o ritmo é considerado acelerado no exterior.

“O governo deveria esperar mais, o processo está muito rápido”, disse à Agência Estado o gestor para Brasil da britânica Somerset Capital Management, Kumar Pandit. Ele não esperava que o anúncio das novas regras poderia vir ontem, antes de novas quedas da taxa Selic.

Pandit adianta que terá de revisar algumas posições no mercado de ações do Brasil após as novas regras para a poupança. Ele acredita que a Bovespa poderá subir como reação de curto prazo, mas depois sofrerá com os temores sobre a alta da inflação. “No geral, não acho que é um movimento positivo do governo.”

“O tema foi acelerado”, concorda Luis Costa, estrategista de emergentes do Citigroup. Para ele, o câmbio será o principal termômetro do comportamento dos investidores estrangeiros nas próximas semanas. Embora o governo tenha como objetivo enfraquecer o real, uma queda muita rápida não é saudável, avalia. “Hoje não existe pânico (de estrangeiros), mas a preocupação aumentará se o real cair muito mais.”

MÁRCIO RODRIGUES, FRANCISCO CARLOS DE ASSIS E DANIELA MILANESE (DE LONDRES)

04/05/2012 - 09:28h Poupança muda e juro real cai a 2,45%, o menor desde o Plano Real

Decidido a abrir caminho para novas quedas da taxa de juros básica, o governo retirou ontem o maior obstáculo legal para que possa cumprir esse objetivo: mudar as regras de remuneração da aplicação financeira mais popular do país, a caderneta de poupança. Pelo novo sistema, a caderneta passa a ser remunerada em 70% da taxa Selic quando ela for inferior a 8,5%, e pelo sistema atual, quando for superior. Nada muda para as contas já existentes.

VALOR

A mudança derrubou ainda mais os juros futuros, que passaram a apontar uma taxa Selic de 8% a 8,25% para o ano. A taxa real de juros – de 360 dias, descontada a inflação projetada em 12 meses, de 5,53% – atingiu nova mínima histórica, aos 2,45% ao ano.

Ao mesmo tempo em que abriu caminho para juros menores, a medida ainda mantém a pressão sobre os fundos de investimentos que cobram taxas altas de administração. Uma simulação que leva em conta a nova fórmula da poupança mostra que cerca de 40% dos fundos DI e de renda fixa distribuídos no varejo vão continuar perdendo da poupança. Com o juro de hoje – 9% ao ano -, praticamente metade dessas carteiras já rendem menos do que a caderneta.

O governo preservou a atratividade dos fundos com taxa de administração de até 0,75% para aplicações em seis meses e taxas de até 1% para investimentos a partir de um ano, conforme simulação do Valor Data. São nessas carteiras mais baratas que estão cerca de 80% do patrimônio dos fundos DI e de renda fixa

O plano original do Palácio do Planalto era de só alterar a rentabilidade da poupança após as eleições de outubro. O cenário externo, que voltou a piorar, a demora na reação da atividade econômica doméstica e os sinais da última ata do Copom, de que os juros podem cair mais, motivaram a antecipação da medida. Ela foi anunciada após seguidas reuniões da presidente Dilma Rousseff com o Conselho Político, com dirigentes de centrais sindicais e com um grupo de empresários ao longo do dia. Dilma procurou se cercar de um amplo apoio político para mexer em um tema tão delicado.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, disse que as alterações na caderneta são “um passo fundamental na direção de remover resquícios herdados do período de inflação alta”.

Governo muda remuneração da poupança e tira “trava” da Selic

Por Claudia Safatle, João Villaverde e Yvna de Souza | Valor

De Brasília

A partir de hoje a remuneração da caderneta de poupança obedecerá a um gatilho: sempre que a taxa básica de juros (Selic) for igual ou menor do que 8,5% ao ano, os novos depósitos da poupança serão corrigidos por 70% da Selic. As aplicações já existentes permanecem com a regra atual de rentabilidade: juros fixos de 0,5% ao mês (6,17% ao ano) mais a variação da Taxa de Referência (TR). A TR, com Selic em 8,5% ao ano, cai para zero. O incentivo fiscal da isenção do Imposto de Renda permanecerá.

Quando a taxa Selic for superior a 8,5% ao ano – hoje ela é de 9% ao ano – a caderneta de poupança volta a ter a rentabilidade usual (juros de 6,17% ao ano mais a TR). Assim, a nova regra só entrará em vigor se o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar a taxa Selic para 8,5%, o que poderá ocorrer já na reunião do fim deste mês.

Dessa forma, a regra de remuneração da poupança deixa de ser uma trava para a queda da taxa de juros no país. Os atuais depositantes ficam com uma pequena vantagem em relação aos novos no caso do gatilho ser acionado, o que foi feito para evitar futuras demandas judiciais. Para as novas cadernetas, a remuneração será calculada com base na Selic em vigor no dia do depósito.

A medida, engenhosa, foi anunciada no início da noite pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, após seguidas reuniões da presidente Dilma Rousseff com o Conselho Político, com os dirigentes das centrais sindicais e com um grupo de empresários ao longo de toda a tarde, no Palácio do Planalto. Dilma procurou se cercar de um amplo apoio político para mexer num tema tão delicado para o poupador brasileiro.

Os planos originais do Palácio do Planalto eram um pouco diferentes. Imaginava-se poder alterar a rentabilidade da poupança só após as eleições municipais de outubro. O cenário externo, que voltou a piorar, a demora na reação da atividade econômica doméstica e os sinais da última ata do Copom, de que os juros podem cair mais, justificam a antecipação da medida. Quem alimentava a expectativa de que a economia brasileira cresceria cerca de 1% no primeiro trimestre agora espera crescimento de apenas 0,5%.

Dos parlamentares da base aliada do governo, Dilma teve garantia de apoio à aprovação da medida provisória, publicada em edição extraordinária do Diário Oficial.

O líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), disse que a presidente “garantiu todos os diretos de todos os poupadores”. Aos políticos, Dilma disse: “Não estou aqui para vender facilidades. É um passo que tem que ser dado”, segundo relatou Alves, que concluiu: “A presidente estava muito determinada, convencida e convincente”. Na reunião do Conselho Político, ela se referiu a “três amarras” que precisam ser trabalhadas: a redução dos juros para empresas e consumidores; a valorização cambial; e a diminuição de impostos, prosseguiu o líder do PMDB. Os mesmos problemas que ela ressaltou em discurso da presidente na posse do ministro do Trabalho, Brizola Neto.

Os dirigentes sindicais também deixaram a reunião com declarações de apoio a Dilma. O presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), assegurou que as centrais vão sustentar as mudanças propostas. “Achamos que não mexer nas atuais poupanças significa uma coisa positiva”, disse ele. “Somos nós, as centrais, que podemos colocar o povo na rua e, para ela, é importante ter o nosso apoio em uma medida tão sensível como essa”, disse o presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah.

Os 26 empresários que estiveram com a presidente ontem também aplaudiram a iniciativa do governo de reduzir os juros, pressionar os bancos para reduzirem os spreads e pediram que a “guerra” se estenda para o alongamento do crédito, contou Joesley Batista, da JBS Friboi. “São medidas de bom senso, boas para o Brasil”, disse André Esteves, presidente do banco BTG Pactual.

O ministro Guido Mantega avaliou que os custos do crédito imobiliário tendem a cair na medida que o custo da captação da poupança diminui. Disse, também, que terão que ser feitos “ajustes” na portabilidade e que os técnicos estão estudando isso. Para o ministro, no entanto, a pressão do governo para a queda dos juros é concentrada, principalmente, nas modalidades em que considera o spread bancário (diferença entre a taxa de captação e a cobrada do tomador) elevado. Esse é o caso, segundo ele, do capital giro e crédito consignado.

Os bancos, segundo o Ministério da Fazenda, terão 30 dias para se prepararem para a mudança, tendo que operacionalizar uma segregação das contas dos poupadores entre os depósitos antigos e os que vão obedecer ao gatilho. Quando o investidor for sacar da caderneta de poupança, o banco abaterá automaticamente o saque da conta nova, que renderá menos.

(Colaboraram Edna Simão, Fernando Exman, Daniel Rittner e Andre Borges)


Dilma sobre o spread bancário: “O setor financeiro não tem como explicar essa lógica perversa aos brasileiros”


Dilma persegue estratégia para dar uma marca ao seu mandato

Por Fernando Exman | VALOR

De Brasília

A mudança nas regras que regem a remuneração da caderneta de poupança anunciada ontem pelo governo foi o arremate de uma campanha iniciada em abril pela presidente Dilma Rousseff contra os altos juros e spreads bancários – a diferença entre o custo do dinheiro para os bancos e as taxas de juros cobradas dos tomadores de crédito. A escalada verbal de Dilma tem como objetivo final promover uma redução do custo do capital para consumidores e empresários, o que poderá lhe render uma nova marca de governo e um poderoso capital político capaz de se sobrepor às bandeiras de extinção da miséria e do combate à corrupção na eleição de 2014.

“Era necessário enfrentar o problema da poupança. Do contrário, não tinha mais como reduzir a Selic”, explicou um influente líder de um partido governista. “Uma pessoa que conseguir reduzir a Selic e levar essa queda para o juro na ponta conseguirá um tento louvável.”

Agora, o Executivo terá o desafio de passar a mensagem ao eleitorado de que as novas regras da poupança são necessárias para se alcançar um fim desejado pela maior parte da população, a redução da taxa de juros. À oposição, por outro lado, restará num primeiro momento a tarefa de monitorar a eficácia da decisão, para só então eventualmente passar a criticá-la. “Apoiamos ações que tenham por objetivo reduzir as taxas de juros. Esse tem que ser um objetivo de todos”, afirmou o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE).

Os ataques públicos da presidente contra os juros e os spreads bancários tiveram início no dia 3 de abril, quando Dilma discursou na solenidade em que foram anunciadas novas medidas de incentivo à indústria nacional. “Não estou falando nem fazendo considerações políticas: estou dizendo que tecnicamente é de difícil explicação os níveis de spread no Brasil”, afirmou Dilma na ocasião. “Queremos, sim, juros e spreads menores no Brasil. Com isso, as empresas vão poder investir na expansão da produção, na modernização de seu processo produtivo, na geração e incorporação de inovações.”

O mesmo tom foi adotado em declarações e entrevistas concedidas pela presidente nas semanas seguintes. Após destacar que seu governo tem “uma política fiscal responsável”, um processo de redução da Selic “responsável” e a inflação sob controle, Dilma voltava a questionar os motivos de as taxas de juros no Brasil não convergirem para os patamares verificados no exterior.

No entanto, o ápice do esforço da presidente ocorreu no dia 1º de maio, quando Dilma reforçou a bandeira em discurso transmitido em horário nobre em cadeia nacional de rádio e televisão, já naquele momento uma preparação para mexer na caderneta de poupança. A produção do programa contou com o auxílio de João Santana, marqueteiro da campanha de Dilma à Presidência da República que presta serviços ao governo, como também sairam de assessoria política e publicitária as reuniões de ontem com políticos, sindicalistas e empresários. “É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com um dos juros mais altos do mundo. O setor financeiro não tem como explicar essa lógica perversa aos brasileiros”, disse.

Apesar das palavras duras, auxiliares da presidente tentam assegurar que o governo não promove uma guerra aos bancos privados, mas tenta fazer com que o Estado induza o comportamento dos diversos setores da economia para elevar a competitividade do país na cena internacional. Com isso a presidente cunha sua marca no primeiro mandato e constrói instrumentos para a campanha da reeleição.

03/05/2012 - 09:25h Poupança deve ter rentabilidade igual a 70% da Selic

Por Claudia Safatle, João Villaverde e Monica Izaguirre | VALOR

De Brasília

Após cinco horas de reunião com a presidente Dilma Rousseff, ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega voltou ao seu gabinete para terminar o novo modelo de remuneração das cadernetas de poupança que o governo anuncia hoje. A base da proposta do Executivo, que será encaminhada por medida provisória para o Congresso, é garantir à caderneta uma rentabilidade equivalente a 70% da taxa Selic. Discutia-se, ainda, a possibilidade de se fazer uma escala conforme o valor dos depósitos. Até determinada faixa (R$ 50 mil ou R$ 70 mil, por exemplo), o poupador receberia 80% da Selic e acima desse valor, 70%. Para as aplicações já existentes não deve haver qualquer modificação.

A divulgação da medida, que originalmente seria feita ontem, foi adiada para hoje. A presidente terá, à tarde, vários encontros para obter apoio político à alteração das regras da poupança. Primeiro, com o Conselho Político e, em seguida, com as centrais sindicais e empresários. Antes, porém, deverá ter uma nova discussão com Mantega para fechar o texto final.

Tratada com extrema cautela pela presidente, pelo impacto político que pode gerar a alteração na rentabilidade da principal aplicação do pequeno poupador, a caderneta acabou tornando-se um entrave para a queda da taxa básica de juros, a Selic.

Atualmente ela é remunerada por juros fixos de 0,5% ao mês (6,17% ao ano) mais a variação da Taxa de Referência (TR), hoje de 0,02%, e isenção do Imposto de Renda. Com a eventual redução da Selic para 8,5%, a TR deve cair para zero e a isenção do IR será preservada. Os depósitos já existentes permanecem com essa regra.

Essa garantia legal de remuneração da poupança transformou-se, porém, num piso para o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar os juros. As cadernetas, com a Selic em 8,5% ao ano, são mais competitivas do que as aplicações em fundos de investimentos e em títulos públicos.

Da forma como está hoje, o rendimento da poupança equivale a 68,5% da Selic (de 9% ao ano). Caso os juros caiam para 8,5% ao ano e a poupança tenha seu rendimento atrelado a uma taxa com 80% da Selic, a correção da caderneta seria de 6,8% ao ano – superior, portanto, aos 6,17% atuais. Com 70% da Selic, o reajuste passa a ser de 6,3%,

Na semana passada, Dilma pediu a Mantega que fosse “criativo” na elaboração de propostas.

A discussão mais imediata que surge em torno das mudanças na poupança é o que acontecerá com os recursos que financiam a habitação. Teotônio Rezende, diretor de habitação da Caixa Econômica Federal, diz que a mudança do cálculo preserva a atratividade da poupança como investimento justamente porque será atrelada à taxa básica de juro, que remunera os títulos públicos.

A velha discussão sobre a insuficiência do “funding” de poupança para garantir as concessões de crédito imobiliário nos próximos anos permanece. Para Fabio Nogueira, da Brazilian Finance & Real Estate (adquirida pelo banco PanAmericano), com a queda da taxa de juros, a poupança naturalmente perderá importância no financiamento imobiliário. “Os juros mais baixos já abrem espaço para as fontes alternativas de crédito para a habitação”, explica.

Para João Paulo Pacífico, sócio da securitizadora Gaia, do lado do tomador do financiamento habitacional, a poupança atrelada à Selic vai exigir que as pessoas tenham algum grau de segurança em relação à estabilidade da taxa básica. Se os juros subirem rapidamente, por exemplo, o valor da parcela das pessoas pode explodir.

Do lado do poupador, para Alberto Borges Mathias, professor da Universidade de São Paulo, a mudança preserva uma parte da simplicidade da aplicação da poupança, mesmo que venha com as escalas, o que preserva a atratividade para o pequeno poupador.

Lauro Emilio Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças da Fundação Getúlio Vargas, acredita que a mudança talvez faça sentido em um período de transição, já que não soluciona o fato de a poupança ser uma aplicação pós-fixada. Segundo ele, aplicações pós-fixadas comprometem a eficácia da política monetária.

Na avaliação de fonte ligada a um banco, a mudança não deve ter grande impacto para as instituições financeiras. De um lado, a medida vai reduzir a rentabilidade que os bancos vão pagar aos aplicadores da poupança, mas de outro o governo quer forçar os bancos a baixar as taxas de administração dos fundos. (Colaboraram Carolina Mandl, Talita Moreira, Aline Lima e Felipe Marques)

26/04/2012 - 09:10h Caixa reduz em até 21% juro de imóvel


Foi a terceira rodada de corte nas taxas de financiamentos, mas medida beneficia apenas quem contratar empréstimo a partir de 4 de maio

26 de abril de 2012

EDUARDO CUCOLO / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

A Caixa Econômica Federal anunciou ontem a terceira rodada de redução dos juros em menos de um mês, dessa vez para a contratação de financiamentos habitacionais. A mudança beneficiará, porém, apenas as pessoas que fizerem empréstimos a partir de 4 de maio. Financiamentos assinados antes dessa data não serão contemplados. Quem já fechou negócio, mesmo que há pouco tempo, também não poderá renegociar a taxa.

A queda dos juros para os imóveis vai depender do grau de relacionamento que as pessoas pretendem ter com o banco. Se o interessado em comprar um imóvel de até R$ 500 mil, por exemplo, não quiser abrir uma conta, o juro do financiamento ficará 10% mais barato. Mas, se a pessoa aceitar abrir uma conta e ainda passar a receber o salário na instituição, o empréstimo ficará 21% mais barato.

A redução na taxa segue a direção iniciada este mês pelo também estatal Banco do Brasil, seguindo uma orientação do governo, e que já atingiu segmentos como cheque especial e financiamento para automóveis. Os bancos privados também já anunciaram quedas em várias taxas, mas, para analistas, teriam menos fôlego para fazer o mesmo com o crédito habitacional, onde a margem é menor.

Mudança. Para imóveis dentro do Sistema Financeiro da Habitação (SFH), de até R$ 500 mil, as taxas efetivas cobradas pela Caixa hoje são de 10% ao ano para o público geral e 8,9% para clientes com “relacionamento”. Essas taxas caem agora para 9% e 8,4% ao ano, respectivamente. Haverá ainda taxa de 7,9% ao ano para clientes que passem a receber seu salário pelo banco.

Para imóveis acima de R$ 500 mil, os juros hoje são de 11% ao ano para o público geral e 10,5% para cliente com relacionamento. Essas taxas caem para 10% e 9,2%, respectivamente. Quem recebe salário no banco paga 9%.

Segundo cálculos da Associação Nacional dos Executivos de Finanças e Contabilidade (Anefac), num empréstimo de R$ 500 mil com taxas de 11% ao ano, o consumidor pagaria, durante dez anos, 120 parcelas mensais de R$ 6.729,96. Se a taxa cair para 10%, o ganho total seria de R$ 27 mil – a parcela mensal cairia para R$ 6.497,28, uma economia de R$ 232 ao mês.

FGTS. A Caixa também vai reduzir a taxa máxima para financiamento de imóveis de até R$ 170 mil, que são bancados com recursos do FGTS. O juro cai de um teto de 8,47% para 7,9% ao ano, para clientes que recebem salários no banco. Se o cliente for cotista do FGTS, a taxa será de 7,4% ao ano. A queda dos juros começa a valer no mesmo dia em que a Caixa dá início ao 8.º feirão de imóveis, que vai até 10 de junho. Serão oferecidos mais de 430 mil imóveis em 13 cidades.

Embora a redução dos juros seja uma determinação do governo, a Caixa também diz que se trata de estratégia empresarial e que o aumento de volume de empréstimos vai compensar a redução dos juros.

Segundo o vice-presidente de Governo e Habitação da Caixa, José Urbano Duarte, o banco deve rever a previsão de contratação de crédito habitacional neste ano de R$ 90 bilhões para até R$ 100 bilhões. No ano passado, foram R$ 80 bilhões. Neste início de ano, já houve um aumento de 43% nessas operações.

Urbano Duarte diz ainda que a taxa de inadimplência é de apenas 1,7% nos financiamentos habitacionais e de 5% nos outros empréstimos, bem abaixo dos 7,4% da média do mercado.

19/04/2012 - 10:24h Krugman elogia política monetária do BC brasileiro


Paul Krugman: “A economia está claramente se desacelerando, e a inflação, provavelmente, é transitória”


VALOR

O Banco Central brasileiro está certo em sua política de redução dos juros, disse ontem o economista Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008. “A economia está claramente se desacelerando, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória”, afirmou ao Valor. “O relaxamento monetário é apropriado.”

Professor da Universidade de Princeton, nos EUA, Krugman vê problemas na valorização do real, por criar pressões que minam a competitividade da indústria. Ao mesmo tempo, lembrou que o Brasil mantém a própria moeda, que pode ser desvalorizada em algum momento, diferentemente do que se passa com os países da zona do euro. Segundo ele, a situação cambial do Brasil se parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80. Naquela época, o dólar estava forte demais, mas não foi difícil desvalorizá-lo. ” Krugman deu breve entrevista antes de participar do Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios, promovido pelo Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), que teve apoio do Valor.

Valor: A presidente Dilma Rousseff reclama do “tsunami monetário’, que seria causado pela política monetária dos países desenvolvidos. Diz que isso mina a competitividade dos emergentes e provoca uma guerra cambial. O sr. concorda com ela?

Paul Krugman: Não, embora entenda o problema. Há muito capital buscando os países emergentes e grande valorização da taxa de câmbio. Isso é um problema, mas não por causa de política monetária não apropriada nos países avançados. Esses países têm uma crise econômica grave. Ainda há grande crise de desalavancagem, o que mantém as economias deprimidas. É claro que os juros estão muito baixos. Há excesso de poupança nos países avançados. Se você olha para relação histórica entre desemprego, inflação e juros, as taxas dos Fed Funds deveriam estar em menos 4,5%. É razoável que esteja em zero. Eu entendo, a presidente tem suas preocupações. Há, de algum modo, um tsunami de dinheiro, mas não por causa de Ben Bernanke [presidente do Fed] ou Mario Draghi [do BC Europeu].

Valor: Quão preocupante é a valorização do real?

Krugman: Não é algo positivo, porque cria pressões. O setor manufatureiro perde competitividade e vai ser difícil recuperá-la. De outro lado, o Brasil ainda tem sua própria moeda. O real pode se desvalorizar de novo. O Brasil não tem muita dívida em moeda estrangeira. Quando olho para o Brasil, penso que pelo menos não é a Espanha. A Espanha teve uma valorização em termos reais nos bons anos do euro [devido aos diferenciais de inflação] parecida com a brasileira, mas está numa crise terrível, porque não pode desvalorizar. O Brasil pode. A situação do Brasil parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80, quando o dólar ficou muito forte, mas não foi um processo especialmente difícil desvalorizar a moeda de novo.

Valor: Há um grande debate no Brasil sobre desindustrialização. Em 2011, a participação da indústria de transformação no PIB ficou abaixo de 15%. O governo deve tentar proteger a indústria?

Krugman: Não fiz muita lição de casa sobre a situação brasileira, mas acho que há de fato uma questão aí. O Brasil tem os fluxos de capital e as exportações de commodities, e faz algum sentido pelo menos tentar lidar contra os efeitos desses fatores.

Valor: O BC adotou postura mais agressiva desde agosto, quando começou a cortar os juros, apesar de algumas pressões inflacionárias, especialmente nos preços de serviços. Como o sr. vê a política monetária brasileira?

Krugman: Não tenho uma visão forte a respeito, mas acho que é razoável. A economia está claramente em desaceleração, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória. O relaxamento monetário é apropriado.

‘Amor’ pelo Brasil contribui para real valorizado, diz economista

O economista Paul Krugman traçou ontem um quadro razoavelmente positivo para a economia brasileira, elogiando as taxas razoáveis de crescimento, a resistência à crise global e a redução da desigualdade nos últimos anos, mas fez alguns alertas ao país – o Brasil é “amado demais” pelos mercados, algo que também ocorreu por vários anos com Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia, os países hoje mais encrencados da zona do euro. Esse “amor” contribui para a valorização exagerada do câmbio, ao lado dos preços elevados das commodities, dos quais o Brasil é grande exportador, destacou o americano, professor da Universidade de Princeton, nos EUA.

Krugman mostrou ainda uma visão pessimista sobre as perspectivas para os países desenvolvidos, especialmente a Europa. A insistência europeia em promover políticas de austeridade fiscal só aprofunda uma situação que já é recessiva. Já os EUA passam por uma situação “terrível”, ainda que não desesperadora. Para ele, a recuperação será lenta, com desemprego alto por alguns anos.

O economista disse que o Brasil não tem apresentado taxas de crescimento “ao estilo asiático”, mas exibe um ritmo de expansão da economia sólido e razoável. Vulnerabilidades importantes que no passado faziam o país sofrer em cenários de crise global não estão mais presentes, afirmou, destacando que o Brasil não tem dívida expressiva em moeda estrangeira. Para Krugman, o Brasil resistiu bem ao cenário global adverso dos últimos anos porque foi menos complacente com o risco e as dívidas, uma atitude diferente da registrada nos países desenvolvidos, como os EUA. “O setor público e o setor privado foram mais cautelosos por aqui”, disse ele, que participou ontem do Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios, promovido pelo Serviço de Apoio Brasileiro de Apoio as Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com apoio do Valor.

Mesmo que não cresça a um ritmo exuberante, o Brasil se tornou uma opção das mais atraentes para os investidores em comparação com os países desenvolvidos. “Isso ocorreu não porque as coisas melhoraram dramaticamente no Brasil, mas porque se tornaram dramaticamente piores nos países desenvolvidos.” Esse movimento é decisivo para a valorização do real, assim como os altos preços de commodities. Para ele, essa “é uma situação desconfortável” para um país que já mostrou grande capacidade para produzir bens manufaturados sofisticados.

Ainda que acredite numa correção do valor do real em algum momento, hoje muito apreciado, Krugman disse que o Brasil deverá continuar a receber fluxos de capitais expressivos dos países desenvolvidos por um bom tempo. Ao mesmo tempo, os preços de commodities deverão se manter em níveis historicamente altos, dado o ritmo de crescimento mais forte de outros emergentes, como a China.

Para o economista, contudo, a valorização do real é um problema que pode ser em parte enfrentado pela imposição de impostos e limites que desencorajem a vinda desses capitais para o país, como tem feito o governo brasileiro. “E, se não há ameaças à inflação, é possível ainda cortar os juros.”

Ele disse ainda que reclamar da política monetária dos EUA e da Europa, como vem fazendo a presidente Dilma Rousseff, não é eficaz. “O Brasil vem gastando um esforço considerável em criticar a política monetária do Fed [o BC americano], e esse esforço é em vão. O Fed está fazendo o que deve fazer, e devia até fazer mais”, disse ele, para quem também seria importante o BC Europeu ser mais incisivo. “Gritar com os banqueiros centrais dos países desenvolvidos não vai resolver. Eles têm mais coisas com o que se preocupar do que em tornar as coisas menos difíceis para o Brasil.”

Krugman tem defendido medidas agressivas de política monetária nos países desenvolvidos para tentar estimular a anêmica atividade econômica, mesmo que isso se traduza em inflação na casa de 4% – o que, na atual situação, seria uma boa notícia.

O economista mostra preocupação em especial com a situação europeia. Ele cita o caso da Espanha, onde a taxa de desemprego beira os 24%, superando os 50% entre os jovens, e insiste em políticas de austeridade fiscal, que contribuem apenas para acentuar a recessão, sem restaurar a confiança dos investidores. Ele acha possível que algum país abandone a zona do euro, como a Grécia, ainda que muitos analistas vejam a opção como catastrófica.

Quanto aos EUA, Krugman foi um pouco menos pessimista. “O mercado de trabalho está dando sinais de melhora, o mercado imobiliário também, em parte porque não construímos praticamente nenhuma casa nos últimos seis anos.” Mesmo assim, descreve a situação dos EUA como terrível.

Também presente ao evento, o ex-ministro Antonio Delfim Netto disse que o câmbio é valorizado em boa parte devido aos juros elevados. O dólar barato prejudica a indústria de transformação, que cresceu apenas 0,1% em 2011, uma das principais explicações para a expansão de 2,7% do PIB no ano passado. Para ele, é para conter essa dinâmica que o governo está promovendo medidas para reanimar o setor manufatureiro.

Em relação às críticas de que as medidas são protecionistas, Delfim avaliou que as reclamações contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio são semelhantes às de outros países. “O Brasil não é nem mais nem menos protecionista que os EUA.” Ele enfatizou a necessidade de corrigir distorções do sistema tributário e de um controle rígido dos gastos de custeio, para o governo investir mais. (SL e Tainara Machado)

13/04/2012 - 08:53h Cortar juros e spread é política de governo

Por Claudia Safatle – VALOR

De nada vai adiantar reduzir a taxa básica de juros se os bancos não tornarem o crédito mais barato para o tomador final. A presidente Dilma Rousseff decidiu comprar essa briga, instruiu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a endurecer ontem com os bancos privados e definiu a estratégia para induzir o sistema bancário privado a cortar seus spreads. Medido pela diferença entre o que o banco paga na captação e o que ele cobra em seus empréstimos, o spread no Brasil é um dos mais elevados do mundo.

“Juros em níveis civilizados é o nosso Plano Real”, sintetizou uma fonte do Palácio do Planalto, dando a dimensão do que o assunto significa para o governo. Na quarta-feira, quando retornou da viagem aos Estados Unidos, a presidente esteve por mais de uma hora com Mantega.

No encontro, o ministro relatou as conversas da terça-feira com os representantes dos bancos privados e a postura da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), de passar a “bola” para a Fazenda, ao listar duas dezenas de propostas de medidas como precondição para reduzir o custo do dinheiro.

Mantega reagiu à Febraban após reunião com Dilma

Dilma considerou a reação dos bancos privados inadequada e recomendou ao ministro endurecer o jogo. Na noite da quarta-feira, sua assessoria avisou aos jornalistas que o ministro falaria ontem pela manhã sobre spread.

“O Murilo Portugal [presidente da Febraban], em vez de apresentar soluções, anunciando aumento de crédito, veio aqui fazer cobrança de novas medidas do governo”, disse Mantega. “Os bancos privados querem jogar a conta dos elevados custos do spread bancário nas costas do governo”, prosseguiu, e devolveu a “bola”, ao afirmar: “Os bancos têm margem para elevar o crédito no país sem que o governo tenha que mexer em nada”.

A Febraban apresentou um leque de sugestões para o governo, da redução dos impostos sobre a intermediação financeira à liberação de depósitos compulsórios, dentre outras medidas para melhorar as garantias dos bancos e o ambiente legal em casos de inadimplência. Cortar os impostos e aliviar o compulsório estão fora do radar do governo. As demais propostas podem ser analisadas, embora o clima entre o Palácio do Planalto e os bancos privados, que nunca foi de muita aproximação, tenha se azedado nesta semana.

Dois dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) reforçam os argumentos oficiais contra os altos spreads. Apenas o Zimbábue, numa lista de 137 países, tem essa margem maior do que a do Brasil. O spread médio naquele país é de 75 pontos percentuais e, aqui, está na casa dos 30 pontos percentuais, segundo estudo feito pelo FMI há dois anos e que retrata uma situação que não mudou muito de lá para cá.

De uma lista de dez países também selecionados em um trabalho do Fundo, feito no ano passado, os bancos no Brasil são os que têm a mais elevada taxa de retorno sobre o capital. Essa taxa é de 27,3% aqui, seguida de 23,4% no Canadá e de 20,6% na Austrália, dentre outros.

Dilma, desde a campanha eleitoral, está determinada a entregar o governo, em 2014, com juros reais na casa dos 2% ao ano, mais compatíveis com as taxas internacionais em tempos de normalidade. Esse é um objetivo que só faz sentido se reduzir o custo do capital para todos, consumidores e empresas.

No período em que a Selic caiu 2,75 pontos percentuais, de 12,50% em julho para 9,75% ao ano atualmente, no entanto o spread médio não teve nenhuma redução. Ao contrário, subiu de 27,4% em julho para 28,1%, segundo dados do Banco Central até fevereiro. Os dirigentes do setor privado alegam que essa margem cresceu por causa da inadimplência que, de fato, aumentou. Em entrevista durante a viagem aos Estados Unidos, Dilma considerou esse argumento uma mera “desculpa” ao comentar que a inadimplência na Europa hoje é elevadíssima e nem por isso os spreads cobrados pelos bancos europeus são os mais altos do mundo.

“Essa é uma briga de governo e a entrevista do ministro Mantega, hoje, não foi por acaso”, disse a fonte do Palácio do Planalto. Usar os bancos públicos – Banco do Brasil e Caixa – para liderar o processo de redução dos juros e dos spreads também “é uma política de governo”, completou, garantindo, ainda, que a presidente “tem uma estratégia”. Essa começa com a ação dos bancos públicos, cuja tática concorrencial é reduzir a margem, aumentar o volume de crédito e diminuir a inadimplência. Ao fim desse processo, acredita o governo, BB e Caixa sairão mais fortes e lucrativos. Mas haveria, também, outras armas que as fontes envolvidas nessa questão não antecipam.

A experiência da crise global de 2008/2009 foi emblemática para os bancos oficiais. Em dezembro de 2007 eles respondiam por 34,07% do crédito total e os privados, por 65,92% (sendo 43,82% dos nacionais e 22,1% dos estrangeiros). No auge da crise, o governo acionou suas instituições para ofertar crédito à economia, já que os bancos privados se retraíram e a recessão poderia ser mais profunda e duradoura. Hoje as instituições públicas detêm 43,78% do mercado de crédito e os bancos privados, 56,21% (38,99% dos nacionais e 17,21% dos estrangeiros), segundo dados do Banco Central de fevereiro.

Se o sistema privado não se mexer agora, pode perder mais mercado, avisou o ministro da Fazenda aos dirigentes dos bancos, na primeira reunião no fim de março.

A queda de braço entre governo e sistema financeiro em torno do spread é antiga, mas crises externas e internas sempre adiaram uma solução. Os bancos privados alegam que a margem bruta é elevada, mas há um oceano de custos envolvidos, parte deles impostos pelo governo, e o spread líquido (margem de lucro) obedece a padrões internacionais. A área econômica do governo rechaça essa tese e diz que já é hora de se discutir, no país, a produtividade e o lucro dos bancos.

Para o Planalto, a história está apenas começando. O que não está claro, no momento, é se o presidente da Febraban prosseguirá como o principal interlocutor do ministro da Fazenda.

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

E-mail claudia.safatle@valor.com.br

14/03/2012 - 09:23h As respostas de Dilma ao mundo

Por Cristiano Romero – VALOR

A resposta à conjuntura internacional, marcada por baixo crescimento econômico, excesso de liquidez, desvalorizações competitivas das principais moedas e taxas de juros historicamente deprimidas, está definindo a política econômica do governo Dilma Rousseff. Para enfrentar esse ambiente, Brasília está estimulando a economia a crescer de forma mais rápida, adotando medidas para proteger a indústria nacional da competição estrangeira, dificultando a entrada de capitais e acelerando a redução da taxa de juros.

A presidente tem razão quando afirma que as condições do mercado internacional mudaram, exigindo do Brasil uma nova estratégia. Os riscos de agravamento da crise financeira mundial diminuíram de forma sensível nos últimos meses, não se fala mais (ou se fala pouco) da possibilidade de um banco quebrar ou de um país europeu dar um calote, mas, certamente, lidar com o que está aí já é bastante desafiador.

Em apenas três meses, o Banco Central Europeu (BCE) despejou € 1 trilhão em dinheiro barato nos bancos da zona do euro. A maior parte desses recursos voltou para os cofres do próprio BCE, indicando que as instituições financeiras não estão dispostas a financiar o setor produtivo neste momento. Por ora, o objetivo daquele banco central é esse mesmo: melhorar o balanço financeiro dos bancos e, ao mesmo tempo, permitir que eles sigam financiando as dívidas dos governos europeus.

Protecionismo, juros menores e controle de capitais são as armas

Uma outra parte do dinheiro emprestado pelo BCE circula pelo mundo em busca de rentabilidade. É o “tsunami monetário” ao qual se refere a presidente Dilma. A rigor, o tsunami ainda não veio. Poderá vir quando a situação europeia melhorar, diminuindo a aversão dos investidores a risco.

Os empréstimos do BCE a juro de 1% ao ano têm três anos de prazo. Em sincronia com os europeus, o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, estendeu a duração de sua política monetária expansionista até o fim de 2014. Três anos são, portanto, o prazo que as autoridades monetárias tanto da Europa quanto dos EUA deram aos governos de seus países para melhorar a situação fiscal e recuperar a capacidade de crescimento das economias.

Entre 2012 e 2014, período que coincide com o restante do mandato da presidente Dilma, o Brasil viverá nesse ambiente internacional. A dúvida é se o governo aproveitará os três anos para tornar a economia nacional mais forte e competitiva ou se reagirá por meio de surtos e improvisações, preocupado permanentemente com o crescimento no curto prazo.

Há sinais nas duas direções. Quando elege como prioridade a aprovação do projeto que cria o Funpresp, o fundo de pensão dos funcionários públicos federais, o governo indica que está preocupado com o equilíbrio de longo prazo das contas públicas e interessado, portanto, em contribuir para o aumento da poupança doméstica. Quando transfere ao setor privado a gestão de serviços públicos, como os aeroportos, mostra que quer aumentar a eficiência do setor produtivo.

O mesmo não se pode dizer da campanha diuturna que se tem visto para erigir barreiras tarifárias à entrada de produtos importados – as exceções estão virando regra – e para encarecer os fluxos de capitais. Não é obrigando o consumidor brasileiro a pagar mais caro que o governo fortalecerá a indústria. Esta precisa de custos (tributários, trabalhistas e de capital) menores para produzir e competir.

O anacronismo dos preços altos cobrados no Brasil está refletido numa prática que se dissemina rapidamente – a das viagens aos Estados Unidos para a compra do enxoval de casamento ou do filho que vai nascer. O que antes era um hábito de gente endinheirada e esnobe, hoje é prática comum. A taxa de câmbio apreciada, que barateia as viagens ao exterior, é uma das explicações, mas não a principal. O verdadeiro estímulo está no diferencial de preços e de qualidade dos produtos.

É legítimo as autoridades se preocuparem com a indústria, as medidas de desoneração da folha vêm em boa hora, mas o ideal seria o governo trabalhar num conjunto mais amplo de reformas que induzam o aumento da produtividade. Desse rol não podem faltar medidas para ampliar a infraestrutura, qualificar a mão de obra, reduzir e racionalizar a carga tributária e estimular a inovação tecnológica.

Na ânsia de taxar capitais, o governo deve ter o cuidado de não espantar investidores e provocar o efeito contrário. É sabido que muitas empresas exportadoras recorrem a modalidades baratas de financiamento externo para compensar o câmbio apreciado. Sem elas, ficam apenas com o efeito negativo do câmbio. O governo sabe também que há uma tendência de longo prazo de apreciação da moeda brasileira. Contra isso não há muito o que fazer.

Na seara dos juros, parece claro que o Banco Central quer tirar proveito do ambiente menos inflacionário para mudar a taxa Selic de patamar. Esse movimento, como indica a piora das expectativas de inflação para 2013, tem limites. Sem o aumento dos níveis de poupança interna, processo que, por sua vez, depende da criação de poupança no setor público, dificilmente o BC conseguirá convergir os juros brasileiros a níveis internacionais. Não há mágica.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail cristiano.romero@valor.com.br


Preocupação faz governo desonerar mais 5 setores

Ministro da Fazenda, Guido Mantega, em depoimento no Senado: “Não podemos fazer papel de bobo e nos deixar levar pela manipulação cambial”


Por João Villaverde e Edna Simão | VALOR

De Brasília

O governo decidiu estender a desoneração da folha de pagamento para mais cinco setores da economia brasileira. A ação, em conjunto com o “arsenal” de medidas para conter a valorização do câmbio, deve contribuir, no entendimento da área econômica, para a melhora da competitividade da indústria nacional.

Segundo apurou o Valor, a desoneração da folha deve beneficiar os fabricantes das indústrias têxtil, móveis, de plásticos, autopeças e máquinas e equipamentos elétricos. Estes segmentos, tal como ocorre hoje com as empresas de calçados, confecções, além de call center e software, deixarão de recolher os 20% ao INSS que incidem sobre a folha de pagamentos e passarão a pagar uma alíquota sobre o faturamento bruto.

A alíquota de contribuição – fixada em 1,5% do valor do faturamento para os setores de confecção, calçados e call center – deve cair para algo entre 0,8% e 1%. Além disso, o segmento de software e tecnologia da informação (TI), deve ter sua alíquota, hoje em 2,5% sobre o faturamento, reduzida em cerca de meio ponto percentual.

Segundo afirmou ontem no Senado o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o objetivo da medida é dar mais competitividade para a indústria brasileira, que vem sofrendo fortemente os efeitos da crise econômica mundial. “Vamos mexer na alíquota de forma mais adequada e ampliar [o número de setores beneficiados]“, afirmou Mantega, que deve se reunir com representantes de todos os setores (os cinco que serão adicionados e os quatro já inseridos nas medidas de desoneração da folha) ainda nesta semana.

Na segunda-feira, o ministro Fernando Pimentel, de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), ouviu dos empresários da indústria eletroeletrônica que o déficit comercial do segmento atingiu US$ 31,5 bilhões em 2011. As medidas de desoneração serão definidas pelo Ministério da Fazenda, mas devem incluir metas de investimento em tecnologia e ampliação da fatia de exportações – o que coloca nas discussões o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), além do MDIC.

Mantega fez questão de ressaltar que o governo vai promover a desoneração da folha de pagamento das empresas para reduzir custos da indústria nacional. Nas economias avançadas, ressaltou, o que está sendo feito é uma redução de salários e benefícios do trabalhador. Na avaliação do ministro, esse tipo de medida impede que a economia mundial se recupere mais rapidamente. “A expectativa é de que a economia internacional vai se desacelerar”, disse.

Para ele, contudo, a situação no país será diferente. Com as medidas para conter a valorização cambial e de proteção à indústria nacional, Mantega aposta num crescimento econômico de 4,5% neste ano. Em 2011, a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 2,7% e só não foi maior por causa da deterioração da crise que pegou em cheio a indústria.

Em audiência pública da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), o ministro da Fazenda afirmou ainda que quer fixar em 4% a alíquota interestadual do Imposto sobre Comercialização de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) sobre importados para acabar com a guerra fiscal entre os Estados. Atualmente, o benefício por alguns Estados com o ICMS de importação dá um subsídio de 10% para quem importa e não para quem produz no país. “Isso não tem nada a ver com câmbio, disse.

Mantega disse ainda aos senadores da CAE que o governo não abandonará o setor da indústria e adotará mais medidas para impedir a entrada de capital especulativo no país e de incentivos fiscais. Se não tivessem sido adotadas medidas pelo governo na área cambial, a cotação do dólar estaria abaixo de R$ 1,40 e “toda a indústria estaria quebrada”. De acordo com o ministro, o câmbio na casa dos R$ 1,80 é um pouco melhor para indústria, mas não o suficiente.

O Brasil está recebendo uma enxurrada de dólares porque as economias avançadas estão adotando uma política fiscal expansionista e de baixas taxas de juros. Com isso, os investidores vêm para o país, que tem uma taxa básica de juros (Selic) elevada (hoje em 9,75% ao ano), para ganhar uma rentabilidade mais alta. “Não podemos fazer papel de bobo e nos deixar levar pela manipulação cambial de países avançados”, ressaltou o ministro.

Fora dos microfones, Mantega afirmou ao senador Lindberg Farias (PT-RJ), que a Selic, no entanto, “vai convergir para a TJLP”, em referência à Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), que baliza os empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – atualmente, a TJLP é de 6% ao ano. O ministro não se comprometeu com prazos. Atualmente a tendência sugerida pela comunicação do BC é de queda da Selic.


Ministro assume defesa da indústria nacional

Por Denise Neumann | VALOR

De São Paulo

A fala do ministro Guido Mantega, ontem, no Senado, marcou uma mudança contundente no discurso do governo: ali ele assumiu que considera necessário proteger a indústria brasileira e garantir sua competitividade. Antes, não estava claro que as medidas cambiais adotadas para controlar o excesso de valorização do real também tinham como objetivo devolver competitividade à produção local. Parecia que essa tarefa era só das medidas tributárias, que agora também serão reforçadas.

As medidas cambiais eram sempre relacionadas à preocupação com o “tsunami” de dólares que poderia vir para o país como consequência da forte ampliação de liquidez praticada pelos países ricos para debelar a crise econômica. Implicitamente sabia-se que o dólar barato ajudava as importações e atrapalhava as exportações, mas era como se houvesse vergonha de assumir que desvalorizar o real fazia parte de uma estratégia de defesa comercial.

“Falamos da sobrevivência da indústria”, afirmou Mantega, sem deixar dúvidas do que está na mente da equipe econômica. “Se não tivéssemos tomado as medidas de defesa cambial, o dólar hoje estaria em R$ 1,40, e toda a indústria brasileira estaria quebrada”, acrescentou. Nem quando saíram os dados do Produto Interno Bruto (PIB) de 2011, indicando que a indústria de transformação não havia crescido nada e, por isso, sua participação caiu para 14,6% do PIB, a manifestação oficial foi tão contundente.

A apresentação do ministro trazia uma dado que justifica todo o temor: nas projeções da área econômica o déficit comercial de bens manufaturados chegará a US$ 94 bilhões em 2012.

13/03/2012 - 10:34h Desafio do Brasil é livrar-se da força do real, diz O’Neill

13 de março de 2012

O Estado de S.Paulo

“O maior desafio cíclico do Brasil é livrar-se da força do real.” O diagnóstico é do economista Jim O’Neill, do banco Goldman Sachs. Foi ele quem criou, em 2001, a sigla Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – passando a destacar o que considerou ser os principais países emergentes. A afirmação foi veiculada pela agência Bloomberg.

O’Neill calcula que a moeda brasileira precisa recuar 20% para ficar em um “nível sustentável”. Isso significa que o dólar deveria passar do atual R$ 1,80 para R$ 2,13.

O economista disse, ainda, que a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros em 0,75 ponto porcentual, para 9,75% ao ano, foi “boa”.

As declarações de O’Neill vêm justamente no momento em que o governo voltou a acusar os países ricos de promover uma guerra cambial e ameaça usar suas munições para defender o real de uma apreciação forte.

Nos dois primeiros meses do ano, o real foi uma das moedas que mais subiram no mundo. Nas últimas semanas, o governo voltou a atuar para impedir que isso continue ocorrendo. De um lado, o Banco Central comprava dólares à vista e no mercado futuro; de outro, o Ministério da Fazenda mexeu no IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para desestimular a entrada de capital especulativo. / SILVIO GUEDES CRESPO

09/03/2012 - 08:58h Vale tudo para animar e proteger a economia

Por Claudia Safatle – VALOR

Tal como o genial Tim Maia comandava os músicos durante seus shows – “Mais grave! Mais agudo! Mais percussão!” – o governo reuniu sua orquestra e deu as ordens: Mais crédito nos bancos públicos! Mais dinheiro para o BNDES! Mais desoneração de impostos e câmbio para a indústria! Mais queda dos juros.

A indústria desafinou. A queda de 2,1% da produção industrial em janeiro, em relação a dezembro, conforme divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na manhã da quarta feira, foi inesperada e exerceu forte influência na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom).

O argumento de que a recuperação da economia já estava em curso, depois do modesto crescimento de 2,7% em 2011, não se confirmou e apenas dois diretores do Banco Central não se sensibilizaram e votaram contra a aceleração da queda da Selic.

Desaceleração da economia é mais intensa que o esperado

O corte de 0,75 ponto percentual na taxa de juros é parte de uma sequência de medidas que o governo promete para conter a valorização do câmbio e levantar a produção. Ele reduz os ganhos de arbitragem, que atraem os capitais externos, apreciam o real e corroem a competitividade da indústria local, e diminui o custo do carregamento das reservas cambiais.

A presidente Dilma Rousseff embarcou para a Alemanha no fim de semana falando em “tsunami monetário” e, depois do encontro com a primeira-ministra Angela Merkel, voltou para o Brasil ciente de que as injeções de capital nos bancos europeus, pelo BCE, vão continuar e, portanto, a pressão sobre a taxa de câmbio no país não terá trégua. Tema que leva à inexorável discussão de novas medidas de controle do movimento de capitais no país.

Além do texto que apresentou em um encontro em Comandatuba, no mês passado, outro trabalho de Luiz Awazu Pereira, diretor do Banco Central, chamou a atenção dos analistas e operadores do mercado.

Intitulado “Sudden Floods, Macroprudention Regulation and Stability in an Open Economy”, e escrito em parceria com os economistas Pierre-Richard Agénor e K. Alper, o texto trata exatamente do impacto dos fluxos repentinos de capitais como fonte de instabilidade macroeconômica nos países estudados e como lidar com esse problema.

Tal instabilidade decorreria da rápida expansão do crédito, da sobrevalorização da moeda local, da pressão sobre preços de ativos, além do aumento do déficit em contas correntes, dentre outros efeitos.

Ações para aumentar o investimento e ampliar a oferta também estão a caminho. Dentre elas, uma redução geral nas taxas de juros dos financiamentos do BNDES para o Programa de Sustentação do Investimento (PSI). O tamanho do corte vai determinar o valor do empréstimo do Tesouro Nacional para o banco, estimado em algo como R$ 30 bilhões.

Para dar alguma competitividade à indústria de transformação, o Ministério da Fazenda pretende ampliar a desoneração da folha de salários e reduzir as alíquotas sobre o faturamento.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, convocou os ministros envolvidos com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) a gastar. “Todos os recursos para o PAC estão disponíveis. São mais de R$ 40 bilhões para serem utilizados pelos ministérios. E as empresas estatais, como Petrobras e Eletrobras, têm a responsabilidade de fazer investimento de mais de R$ 100 bilhões em 2012″, disse ele durante balanço do programa. A meta do governo é aumentar em 10% os investimentos deste ano, levando-os a superar 20% do Produto Interno Bruto (PIB).

A desaceleração da economia desde meados do ano passado é muito mais intensa do que esperava o governo, a inflação está em queda e o Banco Central não vê pressão à frente, os juros neutros no país caíram e continuarão caindo, há um espetacular excesso de liquidez no mundo e uma parte dela vem para cá.

O ano passado foi o ano de cuidar da inflação, avaliam fontes muito próximas da presidente. O índice está sob controle e converge para o centro da meta de 4,5% ainda este ano, asseguram. Este ano é tempo de aproveitar a oportunidade que o mundo em desinflação está dando para o Brasil resolver a distorção da taxa de juros e retomar o crescimento.

O Banco Central avisou que, em linha com o que está sendo debatido nos fóruns internacionais, usará de todo o arsenal disponível – juros, medidas microprudenciais e macroprudenciais – para buscar a estabilidade de preços e a estabilidade financeira.

Uma fonte qualificada do governo, sobre isso, disse: “As pessoas no mercado que estão desconfiadas de que a inflação vai subir no segundo semestre deste ano, ou no início do ano que vem, deveriam estar mais atentas às mensagens do BC. O Banco Central está determinado a trazer a inflação para o centro da meta e tem, para isso, uma caixa de ferramentas poderosa, já usada, e que tem grande capacidade para lidar justamente com a enxurrada de capitais externos que está por vir”.

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

E-mail claudia.safatle@valor.com.br

17/02/2012 - 13:06h Inflação aponta para baixo e autoriza visão de Selic menor

Por Eduardo Campos | VALOR

De São Paulo

O mercado de juros futuros já trabalha com Selic pouco abaixo de 9,25%. São dois cortes de meio ponto percentual nas reuniões de março e abril do Comitê de Política Monetária (Copom) e um terceiro corte superior a 0,25 ponto no encontro de maio. Atualmente o juro básico está fixado em 10,5% ao ano.

Entre os vetores que dão suporte à formação dessas apostas de juros cadentes no mercado futuro está o comportamento da inflação corrente e a visão de que os preços não devem surpreender para cima no curto prazo.

Hoje, sai o Índice de Preços ao Consumidor Amplo -15 (IPCA-15) de fevereiro e a prévia da inflação oficial deve ficar entre 0,50% e 0,55%, contra 0,65% registrado em janeiro.

O sócio da Platina Investimentos, Marco Franklin, trabalha com variação menor, de 0,48%. E para o IPCA fechado do mês, a visão é de inflação em 0,35%. Se tal previsão for confirmada, a inflação oficial no acumulado em 12 meses sai dos atuais 6,22% para cerca de 5,7% a 5,8%.

De acordo com o especialista, o mercado pode ser surpreendido com uma inflação caindo mais forte e por mais tempo do que o estimado. “Devemos ver preços em baixa até agosto”, diz.

Pelas estimativas de Franklin, uma série de fatores deve levar o IPCA acumulado em 12 meses para algo entorno de 4,5% a 5%, no começo do segundo semestre. “O famoso 4,7% do modelo do Banco Central”, lembra.

No Relatório de Inflação do quarto trimestre, divulgado no fim de dezembro, o BC afirma que o cenário de referência (câmbio em R$ 1,80 e taxa Selic em 11,00%) projeta inflação de 6,5% em 2011 – como se confirmou -, e variação de 4,7% em 2012 e 2013.

Vejamos qual a dinâmica considerada por Franklin. Primeiro, se divide o ano em três quadrimestres. Os primeiros quatro meses de 2011 mostraram inflação média de 0,80%. No período, alimentação, energia elétrica e etanol subiram com força.

Agora, esses itens estão mais comportados e é possível estimar inflação média para os mesmos quatro meses ao redor de 0,50%.

Um ponto destacado por Franklin é a possibilidade de reajuste zero ou mesmo negativo nas tarifas de energia agora em 2012.

Umas das primeiras negociações, da Coelce, parte de queda de 10% no preço da energia. “Se isso for um bom indicador do que poderá acontecer em outras capitais, podemos ter surpresa positiva no lado da inflação”, diz.

Passando para o segundo quadrimestre (maio a agosto), sazonalmente a inflação já é menor. Não há concentração de reajustes de tarifas, nem pressão de entressafra de carne pesando sobre o grupo alimentação.

No ano passado, a inflação acumulada nesse período foi de 1,15%. E dada a dinâmica melhor desse ano é possível estimar variação entre 0,75% e 0,80%.

“Esses efeitos combinados devem levar a inflação em 12 meses para 4,5% a 5% em agosto”, diz Franklin, indicando que o cenário do BC pode se mostrar correto.

Avaliando, agora, o último quadrimestre do ano, Franklin não vê fatores com força suficiente para colocar o IPCA muito acima ou abaixo desses 4,5% a 5%.

Os condicionantes da análise são a continuidade de uma dinâmica favorável para o preço das commodities agrícolas (evento de elevada probabilidade) e a suposição de que a inflação de serviços não vai piorar ainda mais.