23/01/2009 - 20:27h Os dois povos devem viver juntos

http://jlhuss.blog.lemonde.fr/files/2008/05/kadafi1.1211574634.jpg

Muamar Kadafi*, The New York Times – O Estado de São Paulo


A chocante intensidade da última onda de violência entre israelenses e palestinos nos impele a considerar a extrema urgência de uma solução final para a crise do Oriente Médio. É vital não apenas romper este ciclo de destruição e injustiça, mas também negar aos radicais religiosos que se alimentam do conflito uma desculpa para promover suas próprias causas.

Mas para onde quer que olhemos, entre os discursos e as iniciativas da diplomacia, não há um caminho concreto para um avanço. Uma paz justa e duradoura entre Israel e palestinos é possível, mas deve ser procurada na história do povo dessa terra em constante conflito, e não na desgastada retórica das soluções que apontam para a criação de dois Estados.

Embora seja difícil de perceber, depois dos horrores que acabamos de testemunhar, entre judeus e palestinos nem sempre existiu um estado de guerra. Na realidade, muitas das rupturas ocorridas entre os dois povos são recentes. O próprio nome “Palestina” era usado comumente para definir toda a região, até mesmo pelos judeus que viviam ali, até 1948, quando começou a ser usado o nome “Israel”.

Judeus e muçulmanos são primos e descendem de Abraão. Ao longo dos séculos, ambos sofreram cruéis perseguições e, muitas vezes, se ajudaram mutuamente. Os árabes ofereceram guarida aos judeus e os protegeram quando estes sofriam sob o governo de Roma e quando foram expulsos da Espanha, na Idade Média.

A história da região é marcada por governos transmitidos entre tribos, nações e grupos étnicos, que resistiram a muitas guerras e a ondas migratórias de povos vindos de todas as direções. É por isso que a questão se torna tão complicada quando uma das partes reivindica o direito de ser dona dessa terra.

O cerne do moderno Estado de Israel é a inegável perseguição ao povo judeu, que foi escravizado, massacrado, perseguido por egípcios, romanos, ingleses, babilônios, cananeus e, mais recentemente, pelos nazistas. O povo judeu merece uma pátria, mas os palestinos também têm uma história de perseguições e consideram as cidades de Haifa, Acra, Jafa como a terra de seus ancestrais, transmitida de geração em geração, até pouco tempo atrás.

Portanto, os palestinos acreditam que o que agora se chama Israel é parte de sua nação, mesmo que fiquem com Cisjordânia e Gaza. E os judeus acreditam que a Cisjordânia é a Samaria e a Judeia, parte da sua pátria, mesmo que ali venha a estabelecer-se um Estado palestino.

Com o cessar-fogo em Gaza ressurgiram os apelos para uma solução de dois Estados, que nunca funcionará. Essa solução criará uma ameaça para a segurança de Israel. Um Estado árabe armado na Cisjordânia daria a Israel menos de 16 quilômetros de profundidade estratégica em seu ponto mais estreito. Além disso, um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza não solucionaria o problema dos refugiados. Qualquer situação que mantenha a maioria dos palestinos em campos de refugiados e não ofereça uma solução dentro de suas fronteiras históricas não é uma solução.

Pelas mesmas razões, a divisão da Cisjordânia em áreas judaicas e árabes, com zonas-tampão entre elas, não funcionará. As áreas palestinas não teriam condições de abrigar todos os refugiados e as zonas-tampão simbolizariam a exclusão e alimentariam tensões.

Em termos absolutos, os dois movimentos terão de permanecer em um perpétuo conflito ou chegar a um compromisso: o da criação de um Estado único para todos, uma “Isratina”, que permita que as pessoas de cada lado sintam que podem viver em toda a região.

Um requisito fundamental da paz é o direito dos palestinos refugiados de regressarem para as casas que suas famílias deixaram, em 1948. É uma injustiça que os judeus que não viviam originalmente na Palestina, nem seus antepassados, venham do exterior para se estabelecer ali, enquanto essa permissão é negada aos palestinos que foram obrigados a fugir dali há relativamente pouco tempo.

É um fato incontestável que, até recentemente, os palestinos viviam nessa terra, eram donos de fazendas e casas, mas tiveram de sair com medo da violência dos judeus após 1948. Por isso, somente o território total da Isratina poderá abrigar todos os refugiados e favorecer a justiça, que é o elemento fundamental da paz.

A assimilação é um fato concreto da vida em Israel. Mais de 1 milhão de árabes muçulmanos vivem no país. Eles têm nacionalidade israelense, participam da vida política e constituem partidos. Por outro lado, há assentamentos israelenses na Cisjordânia. As fábricas israelenses dependem da mão-de-obra palestina e há intercâmbio de produtos e serviços. Essa assimilação, por seu sucesso, pode ser um modelo para Isratina.

Se a atual interdependência e o fato histórico da coexistência de judeus e palestinos servirem de orientação a seus líderes, e se, na busca de uma solução de longo prazo, eles olharem além da violência recente e da sede de vingança, perceberão que a coexistência debaixo de um único teto é a única opção para uma paz duradoura.

*Muamar Kadafi é presidente da Líbia

03/08/2007 - 10:34h As armas e mentiras de Nicolas Sarkozy

O Estado de São Paulo

Gilles Lapouge*

Resgatadas das prisões e dos carrascos de Muamar Kadafi, as cinco enfermeiras búlgaras e o médico palestino estão em casa, longe do terror. O mundo inteiro saudou sua libertação – obtida no fim de julho, depois de oito anos de prisão -, graças a um longo trabalho dos diplomatas europeus e, no fim, ao ativismo fulgurante do presidente francês, Nicolas Sarkozy, e sua doce mulher, Cécilia.

“Tudo está bem quando acaba bem.” O problema é que nada acabou, pois essa brilhante operação logo se transformou num caso obscuro, inquietante. Esse “ato de amor” do Estado começou a cheirar a armas, resgate e geopolítica.

Após o triunfo da sua mediação, Sarkozy declarou ter sido conduzido somente pelas preocupações humanitárias. Certo, a França fornecerá uma central nuclear à Líbia, mas apenas para a criação de usinas de “dessalinização da água do mar”, o que é ecológico, mas cientificamente absurdo. A opinião pública não insistiu. Não quis estragar a festa.

Infelizmente, o filho de Kadafi, Saif al-Islam, pisou na bola. E declarou ao jornal Le Monde que a libertação das enfermeiras foi muito bem paga: entregas volumosas de mísseis antitanque, exercícios militares conjuntos e até um projeto para fabricar armas. Sendo assim, o ex-terrorista Kadafi vai se tornar novamente uma pessoa socialmente aceitável, mesmo num terreno perigoso, o da guerra e das armas.

As revelações do filho de Kadafi causaram estupor. Os deputados exigiram explicações do chanceler Bernard Kouchner. Que foi vago. Na verdade, não sabia de nada. Então, a pergunta foi dirigida ao próprio Sarkozy: “Houve um contrato de armas?” Sua resposta foi: “Não.” “Houve alguma contrapartida?” Ele respondeu: “Nenhuma.”

Quem é o mentiroso? Sarkozy? O filho de Kadafi? Uma pista: ontem o governo líbio anunciou a assinatura, com empresas francesas, de contratos para a compra de mísseis e equipamentos de comunicação (ler ao lado), totalizando mais de US$ 400 milhões…

O mais grave não é o fato de a França vender armas à Líbia, mas a amplitude dessa cooperação militar. E sobretudo o fato de tudo ter sido tramado em silêncio e em segredo. Somente um homem, Sarkozy, conduziu todo o processo, nas barbas de seu próprio chanceler, que não sabia de nada.

Uma outra revelação terrível: Kadafi obrigou as enfermeiras búlgaras e o médico palestino a assinarem, na presença de personalidades européias (entre elas, Cécilia Sarkozy), um documento comprometendo-se a renunciar a qualquer recurso judicial e a não contar que foram torturados. Eles foram. “O pior era a máquina de tortura elétrica”, contou o palestino. “Às vezes eu era torturado na mesma sala que as enfermeiras. Eu estava nu. Elas, metade nuas. Tenho vergonha de dizer o que fizeram com essas mulheres.”

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris