30/08/2012 - 09:57h Indústria pede socorro ao Brasil urbano

Luiz Ushirobira/Valor / Luiz Ushirobira/Valor Luiz Ushirobira/Valor – Para a CNI, mobilidade caótica afeta o desenvolvimento do país, ao restringir fluxo de pessoas, bens e ideias e reduzir a produtividade, inovação e qualidade de vida

Por Marli Olmos | VALOR

De São Paulo

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) acaba de concluir um extenso estudo sobre os efeitos provocados pelos problemas de mobilidade na produtividade do país. O setor está preocupado com o tempo que seus funcionários perdem para chegar nas fábricas e escritórios, os atrasos nas entregas nas mercadorias e o prejuízos à atividade intelectual, quase sempre concentrada nos centros urbanos. Trata-se, conclui a entidade, de uma perda na qualidade de vida para os 45% da população que vivem em 10 metrópoles brasileiras.

A direção da CNI acredita ter como fortes aliados dois importantes acontecimentos no país – a criação do PAC da Mobilidade, para o qual o governo federal reservou R$ 7 bilhões, e as eleições municipais. Seus dirigentes imaginam que essas duas forças ajudarão na mobilização que a entidade pretende comandar para suscitar um debate nacional.

O documento, que acaba de ser elaborado com a ajuda de dados da Associação Nacional dos Transporte Públicos (ANTP), arquitetos e urbanistas, será encaminhado à presidente Dilma Rousseff. Posteriormente, a ideia é envolver prefeitos, governadores, candidatos e outros agentes municipais, estaduais e federais no centro do debate público nacional.

O diretor de políticas e estratégia da CNI, José Augusto Coelho Fernandes, lembra que se por um lado as empresas se esmeram em desenvolver modernos sistemas de manufatura enxuta, como o chamado “just in time” (por meio do qual as peças de um determinado item chegam à fábrica no exato instante da sua produção), por outro ficam à mercê do que acontece nas ruas congestionadas, na tentativa de adivinhar o horário que sua mercadoria chegará ao destino final.

“Temos percebido que essa questão está fora dos centros de debates no país”, afirma. “As dificuldades de mobilidade deixaram de ser problemas que envolvem somente São Paulo e Rio de Janeiro. Em cidades como Salvador, Recife e Manaus, que vivem situações do mesmo tipo, ninguém consegue marcar compromissos”, completa.

Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Belém, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre e Recife abrigam 45% da população urbana brasileira. Nas duas maiores, São Paulo e Rio de Janeiro, estão 20% dos que habitam o Brasil.

Segundo o estudo preparado pela CNI, cada morador dessas 12 metrópoles gasta, em média, uma hora e quatro minutos para fazer seus deslocamentos diários. Os problemas de locomoção têm se agravado, no entanto, nos municípios com mais de 500 mil habitantes. O trabalho da entidade que representa a indústria mostra que o tempo médio gasto em mobilidade nas regiões aumentou 20% entre 2003 e 2010, em função, principalmente, da expansão das cidades e do aumento das distâncias.

O documento sugere que ” sob o prisma do desenvolvimento sustentado”, é melhor crescer para dentro da metrópole e não mais expandi-la. “Reciclar o território é mais inteligente do que substituí-lo”, destaca o estudo.

A análise sobre a qual os dirigentes da indústria passam a se concentrar servirá também para reorientar os investimentos do setor no país. “Os dados servirão também como fonte de teoria da qualidade das cidades”, afirma Fernandes. Segundo ele, os atrativos de um município passarão a incluir o grau de desenvolvimento de um sistema de transporte, por exemplo.

Nessa linha, o trabalho que a CNI quer levar aos debates políticos enfatiza a necessidade de privilegiar projetos voltados ao transporte público, em redes de ligação de vários modais.

Para reforçar a defesa dos investimentos em transporte coletivo, o estudo da CNI cita que o morador de uma grande cidade gasta 2,93 minutos para percorrer 1 quilômetro em transporte coletivo. Um automóvel gasta 2,67 minutos para percorrer a mesma distância. Essa diferença, de segundos revela, segundo a entidade, que o ganho do transporte individual deixou de ser significativo em uma metrópole.

Desde a década de 1940, o Brasil urbano multiplicou sua população em 14 vezes, o que significa que 85% dos habitantes do país está nas cidades. Mas desde os anos 1960, a mobilidade nas grandes cidades brasileiras tem se baseado no modo rodoviário. A partir da década de 70, todos os sistemas de bondes começaram a ser desativados, o que deu lugar à hegemonia do transporte sobre rodas.

A proposta que a CNI destaca em sua pesquisa é a utilização do transporte coletivo de alto rendimento para os deslocamentos rotineiros. A integração de diversos modais, inclusive as viagens a pé é, segundo a entidade, uma forma de garantir a expansão econômica.

Dessa forma, a entidade que representa a indústria considera que o automóvel, que ganhou projeção “pela mágica do deslocamento imprevisível”, revela-se agora como inadequado como “meio hegemônico de transporte motorizado nas cidades”. “Na grande cidade contemporânea, os automóveis não podem mais ser protagonistas. Precisam ser coadjuvantes”, destaca o estudo.

A CNI reconhece, no entanto, que “não será simples implantar ou mesmo propor uma alternativa ao atual modelo”. Entre 2003 e 2010, o crescimento demográfico no Brasil alcançou de 13% enquanto o aumento da frota de veículos foi de 66%.

Fernandes lembra como cidades como Tóquio têm conseguido povoar o entorno de estações de trem e metrô com moradias, escritórios, shopping centers e demais estruturas necessárias para manter os habitantes próximos dos pontos de deslocamento. No Brasil do passado, por exemplo, a proximidade às estações de trem foi decisiva para a implantação de equipamentos comerciais e de serviços.

Para Fernandes, é urgente, por isso, que o país coloque na agenda de discussão política a necessidade de criar um sistema com multiplicidade de uso de modais e ampliação e facilidade de conexões. Este pode também ser um caminho, segundo a CNI, para cumprir os compromissos de sustentabilidade.

Fernandes lembra que muitas empresas têm enfrentado dificuldades na contratação de profissionais por conta da dificuldade na locomoção em determinada região. Isso acaba por prejudicar o desenvolvimento dos centros de pesquisa e a intelectualidade. “As megacidades serão o cenário concentrador da inovação nas próximas décadas”, prevê o estudo da CNI. Segundo a entidade, ao contrário do que se pregava no passado, “os ganhos econômicos da metropolização são maiores do que os da descentralização urbana”.

Com a concentração do uso do meio rodoviário, com foco no automóvel, os espaços urbanos para moradias se espalharam. A distância do local de trabalho que muitos passaram a enfrentar trouxe graves consequências a partir dos congestionamentos e falta de opções de transporte. Para o brasileiro das classes mais altas, que dirige o próprio automóvel, o tempo de deslocamento é cada vez maior e mais desconfortável. Quem pega ônibus enfrenta ainda mais problemas. Mas são as classes mais pobres que mais sofrem e que fizeram surgir o que a CNI chama de “cidade informal dos loteamentos e favelas”. São as pessoas que preferem morar mal perto do trabalho do que ter de enfrentar a angústia diária do deslocamento.


São Paulo exporta bilhete único, nova bandeira política

Por Raphael di Cunto e Sérgio Ruck Bueno | VALOR

De São Paulo e Porto Alegre

Se a distância acabou por se transformar num dos maiores impedimentos no deslocamento de quem mora distante das regiões centrais das cidades, o bilhete único surgiu como uma solução e, para alguns, a única maneira de sustentar o custo do transporte até o local de trabalho ou escola.

O bilhete único foi criado em maio de 2004 pela ex-prefeita Marta Suplicy (PT). Os sistema permite que, com apenas uma tarifa, de R$ 3,00, o usuário pegue quatro ônibus em um período de três horas, ou três ônibus mais uma integração com metrô ou trem pela metade do preço (R$ 1,50), também num período de três horas. Isso permitiu que os moradores da periferia, mais carentes, gastassem menos para ir ao emprego, concentrado no centro expandido da cidade.

Apesar de elogiado pelos candidatos, o bilhete único é criticado pelo ex-presidente da Dersa e consultor na área de transportes Luiz Célio Bottura. Para ele, o bilhete único não é uma política de transporte, “é política social”, e acaba por sobrecarregar o sistema. “Se as pessoas tivessem que pagar o transporte, pensariam onde vão morar. Como não pagam, não pensam nisso”, afirma.

Entre os candidatos a prefeito em São Paulo, no entanto, todos elogiam o bilhete único, que tem forte apelo e aceitação popular. Celso Russomano (PRB) diz que já ouviu reclamações de que o período de integração deveria ser de mais de duas horas, mas ainda não fez estudos para saber o impacto disso. Ele promete, porém, permitir a recarga do bilhete dentro do próprio ônibus, com os cobradores – hoje, a recarga só é feita nas estações.

Gabriel Chalita (PMDB) diz que fará estudos técnicos e negociará com empresas de ônibus, CPTM e Metrô (estas duas sob responsabilidade estadual) para expandir o tempo de uso e formas de integração com outras cidades da região metropolitana, “já que parte dos usuários do sistema é composta por trabalhadores de outras cidades que precisam vir diariamente para São Paulo”.

Há poucos dias, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad, candidato do PT, prometeu criar um “bilhete único mensal”, que permitiria aos usuários de transporte público utilizar de forma ilimitada os ônibus da capital por um mês com uma tarifa de R$ 150,00. Nesse sistema, haveria também versões mensais e semanais do bilhete único. Metrô e trem, geridos pelo governo do Estado, teriam tarifa diferenciada. Haddad defende, no entanto, a integração com os ônibus de prefeituras da região metropolitana e promete associar o cartão a futura rede de bicicletas públicas.

José Serra (PSDB) lembra que foi em sua gestão como prefeito que o bilhete único foi integrado ao metrô e CPTM, o que “permitiu enorme economia para quem usa transporte público na cidade”. Ele destaca ainda o aumento no período de integração, feito por seu aliado, o prefeito Gilberto Kassab (PSD), em 2008. “O mais importante agora é investirmos na integração entre os diferentes modais (ônibus, metrô e trens), criando mais oportunidades da integração tarifária”, diz.

Soninha Francine (PPS) diz que fará a integração com outros modais. Ele prevê a construção de garagens para automóveis nas estações de metrô fora do centro da cidade e a associação do bilhete a uma rede de bicicletas compartilhadas. “O Haddad falou primeiro, mas eu já tinha pensado nisso”, brinca. Ela afirma que também quer integrar o sistema de transporte com outras cidades da região metropolitana, mas que a “prefeitura, sozinha, não tem poder sobre isso”.

Porto Alegre implantou o sistema de bilhetagem eletrônica em 2008 e desde julho do ano passado adota o modelo de integração com segunda passagem gratuita. O benefício vale para usuários do chamado cartão “Tri”, inclusive os que usam passe escolar e vale-transporte, que tomam o segundo ônibus até 30 minutos depois de desembarcar do primeiro.

É um dos trunfos do prefeito José Fortunati (PDT), que concorre à reeleição. Segundo ele, no primeiro ano de integração mais de 30 milhões de passagens, que custam R$ 2,85 cada, deixaram de ser cobradas. De 2008 para 2009, o volume de passageiros na cidade caiu ligeiramente, mas em 2011 voltou a subir.

A bilhetagem dos ônibus urbanos também funciona integrada ao sistema de cartões da Trensurb, estatal federal que opera o trem que liga Porto Alegre a cinco municípios da região metropolitana, com desconto de 10% em cada uma das tarifas.

A candidata do PCdoB, Manuela D’Ávila, diz que o sistema de integração precisa ser “repensado”. Para ela, um dos problemas é a perda da passagem gratuita, quando o passageiro demora mais de meia hora para pegar o segundo coletivo. Para o candidato do PT, Adão Villaverde, a solução é aumentar o limite de 30 minutos entre uma viagem e outra para garantir a isenção da segunda tarifa. Ele também propõe uma “política concertada” com outras prefeituras num sistema de integração entre os sistemas de transporte dos municípios da região metropolitana.

O candidato do PSOL, Roberto Robaina, considera “adequado” o sistema atual. “Alguma coisa foi feita”, diz. Já os candidatos do PSDB, Wambert Di Lorenzo, e do PSTU, Érico Corrêa, revelam uma afinidade incomum e propõem um modelo que permita o pagamento de uma única passagem por dia, sem limite de utilização.

Esta é a quarta reportagem do jornal VALOR da série “Mobilidade nas Eleições”

28/08/2012 - 08:54h Kassab ainda tem R$ 8,7 bi em caixa. ‘A ineficiência é a principal conclusão dos dados’

É mais que o total previsto para novas obras neste ano; tirando verbas carimbadas, superávit a 126 dias do fim da gestão é de R$ 5,5 bi

28 de agosto de 2012

ADRIANA FERRAZ , DIEGO ZANCHETTA – O Estado de S.Paulo

A quatro meses do fim da gestão Gilberto Kassab (PSD), a Prefeitura tem em caixa R$ 8,7 bilhões. Descontados compromissos assumidos com fornecedores e terceiros, o superávit é de R$ 5.542.978.133,96. O acúmulo em aplicações financeiras representa 24% do Orçamento 2012 (R$ 35 bilhões) e mais do que o montante previsto para novas obras neste ano (cerca de R$ 8 bilhões). Reflete ainda demora no desenvolvimento e execução de projetos, seja por impedimento jurídico ou decisões políticas. A paralisia no empenho dos recursos prejudica diretamente algumas das principais metas da administração, como a entrega de três hospitais e a revitalização da cracolândia.

O montante poupado pelo governo equivale ao orçamento atual de Belo Horizonte, a sexta maior cidade do País. Situação muito diferente da encontrada no fim da gestão de Marta Suplicy (PT), em 2004. Na época, a ex-prefeita deixou disponíveis em caixa R$ 16 mil, descontados os “restos a pagar”. A conta rendeu duras críticas de seu sucessor, José Serra (PSDB), que acusou a petista de deixar o caixa da Prefeitura vazio.

Passados oito anos, a situação econômica da administração é inversa. Além das verbas que não foram gastas em função do atraso na execução de obras, a capital paulista viu crescer em 14% a arrecadação do IPTU nos últimos dois anos, o que explica, segundo especialistas, parte do extra no cofre. Em 2010, o valor do tributo teve acréscimo de até 45% para residências e até 60% para comerciantes. Repasses relacionados ao Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) e Imposto Sobre Serviços (ISS) também engordaram a conta.

Mesmo com dinheiro em caixa, os principais projetos de Kassab não devem sair do papel, pelo menos em sua gestão. E a lista não é pequena. Inclui pacotes de obras antienchente, a construção de três hospitais e a reforma de outros nove e a criação de um túnel de 2,4 km para ligar a Marginal do Pinheiros à Rodovia dos Imigrantes – com direito ao prolongamento da Avenida Doutor Chucri Zaidan e a construção de duas pontes sobre o Rio Pinheiros, na altura do Panamby.

Até as obras que contam com dinheiro demarcado das operações urbanas atrasaram. É o caso das obras antienchente da Pompeia, na zona oeste, que deveriam ter começado no início do ano. A troca das galerias pluviais do bairro, estimada em R$ 89 milhões, ainda não tem licença ambiental e não deve começar antes de 2013.

Outra vitrine da segunda gestão kassabista, o Projeto Nova Luz nem teve o edital para sua licitação de R$ 1,1 bilhão publicado. As obras para desapropriações na cracolândia dificilmente devem começar antes de dezembro. Nos últimos três anos, a revitalização da região enfrentou liminares da Justiça e protestos de lojistas da Rua Santa Ifigênia, contrários à proposta.

Para gastar o dinheiro em caixa, porém, Kassab só tem 126 dias. A legislação orçamentária não define regras nem limites para uso do saldo bruto de R$ 8,7 bilhões, mas, segundo especialista em administração pública, é preciso haver uma relação equilibrada entre receita e despesa.

“O ideal é que não exista nem déficit nem superávit. Esse valor extra, porém, pode ser sintoma de uma grave doença: ou se está cobrando mais imposto que o necessário ou o Município não teve capacidade de se programar para utilizar os recursos em prol da população”, diz Márcio Cammarosano, professor de Direito Administrativo da PUC-SP.

Política. Para o advogado Rubens Naves, especialista em Direito Público, deixar verbas para a próxima gestão pode representar uma escolha política. “Essa não é uma tradição brasileira. Normalmente, gasta-se até mais do que o previsto. Por isso, é difícil acreditar que esse valor vá se manter até o fim, ainda mais quando o administrador em questão não pode se reeleger. Se acontecer, pode ser uma medida política, para favorecer um sucessor aliado”, diz. “Mesmo assim, fazer isso sem cumprir as próprias metas não é ação fácil de entender.”

Em junho, o Tribunal de Contas do Município comparou as economias de São Paulo e Rio, cuja administração deve deixar a prefeitura com pouco mais de R$ 550 milhões em caixa. A conclusão é de que a saúde da gestão não depende de superávit e a recomendação é de investimento e maior empenho de recursos. / COLABOROU RODRIGO BURGARELLI

‘A ineficiência é a principal conclusão dos dados’

28 de agosto de 2012

Análise: Gustavo Andrey Fernandes, PROFESSOR DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS – O Estado de S.Paulo

A análise das disponibilidades financeiras da Prefeitura revela dados impactantes. Os valores livres em caixa, já descontados os compromissos com fornecedores e créditos a serem pagos a terceiros, somam impressionantes R$ 5.542.978.133,96. Trata-se de um volume de recursos inédito. Para se ter uma ideia, basta ver que a Secretaria da Saúde gastou no ano passado R$ 4.934.761.524,93, enquanto a Educação despendeu R$ 6.826.925.274,72.

O art. 42 da Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe gastos nos dois últimos quadrimestres do mandato apenas quando não existam recursos disponíveis para honrá-los. A situação da Prefeitura, portanto, permite volume de gastos para este ano eleitoral.

Sinal de boa gestão? A resposta não é simples. A avaliação da administração pública é diferente da feita para uma empresa privada. Não raramente, um déficit orçamentário pode ser um resultado desejado – se compensado por superávits em outros anos. Nesse sentido, é preciso verificar quais são os objetivos. Em agosto, por exemplo, foram divulgados os dados do Índice Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica para 2011. Tanto nos anos iniciais do ensino fundamental quanto nos finais, a rede municipal não atingiu as metas. Diante desse quadro é difícil justificar um volume de recursos tão grande.

Ao contrário do setor privado, na esfera pública a provisão adequada de serviços e de bens públicos, em trajetória equilibrada, é o principal ditame. Uma montanha de recursos no caixa é criticável, pois revela ou a ausência de metas em sintonia com o interesse da população ou, se elas existem, uma enorme incapacidade em executá-las. A ineficiência, não importa a hipótese, é a principal conclusão dos dados.

Prefeitura diz que há R$ 7,5 bi empenhados, mas não diz no quê

28 de agosto de 2012

O Estado de S.Paulo

A Prefeitura diz que R$ 7,5 bilhões, do saldo bruto de R$ 8,72 bilhões, já estão reservados para compromissos assumidos. “Assim, atualmente há saldo líquido de R$ 1,2 bilhão para cobrir novos compromissos, como folha de pessoal para os meses restantes do exercício”, ressaltou, em nota. Não detalhou, porém, quais os compromissos assumidos e por que projetos importantes, como o Nova Luz, estão parados.

A gestão Gilberto Kassab diz que “parcela expressiva do saldo” se refere a operações urbanas recentes, cuja arrecadação só pode ser usada na região contemplada. “Zelando pela responsabilidade no trato das finanças, novos compromissos só são assumidos com realização de receitas previstas e efetivo ingresso de recursos no caixa municipal.”

27/08/2012 - 08:36h Procuram-se candidatos para sair do caos urbano

Ana Paula Paiva/Valor / Ana Paula Paiva/Valor
Lentidão em São Paulo: Crise no deslocamento urbano indica a necessidade de os prefeitos mudarem conceitos antigos, baseados no trânsito do automóvel


Por Marli Olmos | VALOR

De São Paulo

Os governantes habituaram-se a tratar de maneira isolada as peças que compõem o complexo mapa da movimentação de pessoas em uma cidade. Por isso, quase sempre criaram-se estruturas separadas para cuidar de trânsito, transporte coletivo, infraestrutura viária ou manutenção de calçadas. O conceito de mobilidade, que organiza todas as formas de deslocamento urbano, parece novidade. Mas a lei federal que obriga municípios com mais de 500 mil habitantes a inserir nos planos diretores programas de transporte urbano integrado é de julho de 2001.

A onda de promessas para melhorar a locomoção diária transformou-se numa das principais bandeiras nas próximas eleições municipais. Mas apesar dos discursos inovadores, são poucos os indícios de avanço nos próximos quatro anos nos programas de governo até agora apresentados, A expectativa é que apenas os moradores de cidades-sedes da Copa do Mundo, em especial o Rio de Janeiro, comprometida também com a Olimpíada, sejam beneficiados.

A reorientação do modelo de urbanização e circulação municipal começou há mais de uma década, no governo de Fernando Henrique Cardoso. A obrigatoriedade de as cidades com mais de 500 mil habitantes inserirem um plano de transporte urbano no plano diretor surgiu no Estatuto das Cidades e foi regulamentado na lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001.

Mais tarde, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006, o Ministério das Cidades criou a Secretaria Nacional de Transporte e da Mobilidade Urbana. Foi, então, elaborado o plano de mobilidade urbana, um documento de 140 páginas, para orientar os prefeitos a absorver o novo conceito. Cerca de 80% da população brasileira vive em áreas urbanas e sofre diretamente com o problema.

Apesar de a lei federal obrigar apenas os maiores municípios a inserir a mobilidade nos planos diretores, o documento considerou a nova diretriz como “fundamental” para cidades com mais de 100 mil habitantes e “importantíssimo” para todos os municípios brasileiros”. Segundo o parecer da secretaria, nas cidades com mais de 100 mil habitantes, que, juntas, agregam mais da metade da população do país, “ainda é possível reorientar os modelos de urbanização e de circulação de maneira preventiva”.

Há pouco mais de um mês, o governo federal anunciou a liberação de R$ 7 bilhões em financiamento para mobilidade para 75 cidades de médio porte. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) levará a municípios com 250 mil a 700 mil habitantes obras como o veículo leve sobre trilhos e corredores de ônibus.

O presidente da Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP), Ailton Brasiliense, sugere que a liberação de recursos seja gradual, condicionada ao andamento das obras. “Caso contrário, as coisas não vão mudar porque construir viaduto ainda é visto como a uma forma de ganhar votos”, destaca.

A reorganização do deslocamento urbano evidencia a necessidade de rever políticas que até agora privilegiaram o transporte individual. “A cidade não pode ser pensada como se um dia todas as pessoas fossem ter um automóvel”, destaca o plano do Ministério das Cidades.

Segundo pesquisa do Sindicato da Indústria de Componentes Automotivos (Sindipeças), nos últimos cinco anos a frota brasileira cresceu 43,7%, para 34,8 milhões de veículos. São 10,6 milhões a mais do que havia em 2006, segundo ano da gestão que antecedeu os atuais prefeitos. O volume adicional corresponde à atual frota da Argentina.

O formato que as cidades brasileiras adquiriu ao longo dos anos começou quando a indústria automobilística instalou-se no país na década de 1950. Mas, se no passado o automóvel, um meio rápido de vencer distâncias, ajudou a estabelecer relações entre as regiões e espalhar a atividade econômica, hoje é justamente ele que trava o mesmo processo.

Brasiliense, da ANTP, propõe usar como referência “a São Paulo de 1900″. Naquela época, moradia, trabalho e serviços públicos se concentravam no entorno de onde circulava o transporte – ferrovias e bondes. “São Paulo já foi planejada”, diz. Para ele, mesmo já construídas, as cidades podem ser melhor ocupadas, em vazios urbanos, encontrados, por exemplo, no entorno das ferrovias. Isso diminuiria a necessidade de viagens motorizadas. Nesse cenário, o carro serviria para viagens e o transporte público, no deslocamento diário.

A necessidade de mudar conceitos passou a ser uma discussão mundial. “Não temos espaço, nem tempo e nem dinheiro para desenvolver modos de transporte e infraestruturas concorrentes”, afirma Ulrich Homburg, diretor do grupo Deutsche Bahn (DB), que domina o transporte ferroviário na Alemanha.

A mudança de paradigma exige, no entanto, que os futuros prefeitos percebam que programas dessa natureza não se esgotam em um único mandato. O Ministério das Cidades estima de 10 a 20 anos o tempo de construção da mobilidade funcional. Mas não restam mais alternativas. Como Homburg diz, “o colapso na mobilidade traz o colapso do sistema econômico e social”. “Seria como abandonar uma sociedade, deixar que ela deixasse de funcionar”.

Carro, sim, mas sem taxa de inspeção

Por Raphael di Cunto, Sérgio Ruck Bueno e Murillo Camarotto | VALOR

De São Paulo, Porto Alegre e Recife

A última edição de pesquisa realizada anualmente pela Rede Nossa São Paulo, uma organização não governamental, revelou que o percentual de paulistanos que usam automóvel “quase todos os dias” cresceu de 15% em 2007 para 23% em 2011. Sufocada pelos congestionamentos, São Paulo foi a primeira cidade do país a implantar a inspeção veicular. O apelo da causa ambiental faz com que a medida seja copiada por outros municípios. Mas os candidatos a prefeito divergem sobre a cobrança da taxa.

O atual contrato da inspeção veicular paulistana foi assinado pelo ex-prefeito e hoje deputado federal Paulo Maluf (PP) em 1996, mas passou dez anos na gaveta. O serviço começou a funcionar em 2007, pelas mãos do prefeito Gilberto Kassab (PSD). A taxa paulistana, de R$ 44,36, é a principal crítica dos candidatos de oposição a Kassab. O licenciamento do carro só pode ser feito após a realização da inspeção e o não cumprimento implica em multa de R$ 550. No Rio de Janeiro, a inspeção obedece a lei estadual e inclui a verificação de itens de segurança.

O candidato José Serra (PSDB) diz que é favorável à inspeção por melhorar a qualidade do ar. Aliado de Kassab, ele afirma que manterá a taxa. “Se não existisse, todos pagariam pelo serviço, mesmo os que não têm carro.” A inspeção paulistana não prevê averiguação dos itens de segurança e Serra já antecipa que não há previsão no contrato para realizá-la.

Já Gabriel Chalita (PMDB) lembra que há um projeto no Congresso Nacional para regulamentar a verificação dos itens de segurança. “Como é uma lei federal, caso seja aprovada, deverá ser cumprida em território municipal.” Para o candidato, a inspeção em São Paulo é cara. Se eleito, pretende acabar com o monopólio da empresa Controlar sobre o serviço.

Celso Russomano (PRB) concorda com a inspeção, mas diz que extinguirá a taxa. “Não pode ser cobrado do dono do veículo por esse monopólio; tudo na mão de uma única empresa.” Ele pretende usar o IPVA para custear o serviço, incluindo a inspeção dos itens de segurança. “Temos uma quantidade enorme de acidentes de trânsito por problemas com luzes freios e amortecedores”, afirma.

Fernando Haddad (PT) defende a inspeção ambiental, mas discorda da forma como é feita. “Cobra-se uma taxa abusiva para uma inspeção sumária e que não atende a parâmetros de combate a poluição e redução de riscos de acidente”, diz. Ele promete acabar com a taxa e custear o serviço com a arrecadação de IPVA e rever os prazos para vistoria, para que os carros recém-saídos das fábricas não sejam obrigados a passar por inspeção.

Também favorável, Soninha Francine (PPS) defende mais rigor com carros que já estão “fora da lei”. Para ela, embora a prefeitura possa rever o valor da taxa, não seria justo extingui-la. “O custo seria dos cofres públicos e até o aposentado sem carro ou o trabalhador desempregado pagariam”, diz.

Com uma frota de 731,9 mil veículos, Porto Alegre não se enquadra na lei federal 20.203/01, que autoriza os municípios com frota de 3 milhões ou mais de veículos a estabelecer programas e normas de controle de emissões. O governo do Estado, porém, enviou no ano passado à Assembleia Legislativa projeto de lei que institui a inspeção veicular ambiental anual no Rio Grande do Sul, a começar pelas cidades da região metropolitana da capital, amparado na resolução 418/2009 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

O projeto admite parcerias com as secretarias municipais de saúde para avaliar danos causados pelas emissões e prevê cobrança de uma taxa de R$ 54,83. Parte dos recursos arrecadados seria repassada aos municípios, mas a proposta sofre críticas até dos partidos da base do governo. Os candidatos se dividem ante a possibilidade de abraçar uma causa impopular.

“[A inspeção] representa segurança, mas o custo tem que ser adequado”, diz o prefeito José Fortunati (PDT), que concorre à reeleição. Para ele, a taxa proposta pelo Estado supera os gastos com o serviço. Segundo conta, a prefeitura implantou um sistema próprio de inspeção de emissões e itens de segurança, mas os testes não são obrigatórios.

“Estamos fora, porque o projeto só serve para elevar arrecadação e pegar só carros velhos”, diz o candidato do PSOL, Roberto Robaina. “É um projeto meramente arrecadatório”, reforça o candidato do PSTU, Érico Corrêa. Já o deputado estadual Adão Villaverde, que concorre pelo PT, mesmo partido do governador Tarso Genro, admite parceria com o Estado desde que a contrapartida ao município seja adequada. “Sempre que se propõe uma taxa há rejeição, mas as pessoas precisam enxergar que algumas coisas são positivas e devem ser feitas”, diz. Embora reconheça que o projeto é “antipático”, o candidato do PSDB, Wambert Di Lorenzo, também aceitaria parceria com o Estado. “Mas poderíamos pensar em um modelo menos oneroso, incluindo a taxa no IPVA”, destaca.

A necessidade de mudar o conceito de locomoção urbana e fiscalizar a qualidade dos transportes já começa a atrair forças da comunidade e também do setor produtivo A Confederação Nacional da Indústria (CNI) preparou um estudo para ser encaminhado à presidente Dilma Rousseff que trata sobre a queda de produtividade na indústria como consequência do tempo que o trabalhador perde no deslocamento.

“A indústria está preocupada porque a baixa produtividade provoca redução na atividade econômica”, disse recentemente o vice-presidente da CNI, José Mascarenhas. Segundo a Rede Nossa São Paulo o tempo médio gasto diariamente pelo paulistano em locomoção pela cidade está em uma hora e 42 minutos, mas 19% da população gasta mais de quatro horas nos deslocamentos diários.

Em Recife, um grupo criado nas redes sociais, batizado de “Direitos Urbanos”, recentemente convocou um movimento de ocupação da Avenida Agamenon Magalhães, um dos principais corredores da capital pernambucana, contra a construção de dois grandes viadutos perpendiculares à avenida, projeto em análise pelo governo estadual, mas que encontra resistência entre os que acreditam que a obra irá representar uma tragédia urbanística.

A frota do Recife cresceu acima da média nacional nos últimos dois anos. Os crescentes congestionamentos apresentaram aos recifenses experiências já conhecidas dos paulistanos. Trechos curtos, de menos de cinco quilômetros, podem levar mais de uma hora para serem vencidos. Em alguns locais do centro não há vagas na rua e os estacionamentos privados são escassos. Para piorar o quadro, a prefeitura dispõe de apenas dois guinchos para atender toda a cidade.

Esta é a primeira reportagem do jornal VALOR, da série “Mobilidade nas Eleições”

21/08/2012 - 08:27h Kassab preocupa mais a campanha de Serra do que Russomano

Por Vandson Lima | VALOR

De São Paulo

No grupo que coordena a campanha de José Serra (PSDB) a prefeito de São Paulo, o empate na liderança das intenções de voto com Celso Russomanno (PRB) é ainda visto como um problema menor. Preocupa sobremaneira os tucanos o que tem sido chamado de “efeito Kassab”. A relação direta feita pelo eleitor entre a gestão do atual prefeito Gilberto Kassab (PSD), considerada ruim ou péssima por 43% do eleitorado – segundo pesquisa do Ibope – e a candidatura de Serra tem segurado os índices em um patamar abaixo do que a campanha esperava às vésperas da propaganda televisiva.

Segundo um dos integrantes da campanha, o eleitor sequer recorda que Kassab venceu a eleição de 2008. “Para a maioria, foi o Serra que deixou o mandato em 2006 e botou o Kassab na cadeira de prefeito. As pessoas nem lembram que ele venceu uma eleição por conta própria. Logo, atribuem a administração mal avaliada ao Serra”, conta.

A fala do tucano coaduna com a sondagem do Ibope. Entre os 18% de eleitores que aprovam Kassab, Serra obtém 42% das intenções de voto. Já entre os 43% que a desaprovam, apenas 15% pretendem votar no tucano.

Para outro integrante da campanha, que considera a rejeição à gestão Kassab desproporcional às suas realizações, Serra tem sido leal ao prefeito ao não renegar que o governo atual é uma extensão daquele iniciado em 2005. Em entrevistas, Serra de fato avalia que três modelos de gestão passaram pela cidade: o de Paulo Maluf (PP) e Celso Pitta, a administração “petista” – com Luiza Erundina (PSB) em 1989 e Marta Suplicy (PT) em 2000 – e a tucana, com Serra e Kassab. E considera este último o melhor período para a cidade.

Para destravar a possível subida de Serra nas sondagens, foi marcado para a noite de ontem um jantar na casa do presidente municipal do PSDB, Júlio Semeghini. A previsão era de que além de deputados federais, estaduais e vereadores do partido, estariam presentes Kassab e o governador Geraldo Alckmin (PSDB), aprovado por 41% dos paulistanos de acordo com a mesma pesquisa e visto como cabo eleitoral crucial para as pretensões de Serra.

Além de traçar a estratégia junto aos parlamentares para uma participação mais vistosa na campanha, o convescote mirava dissipar a resistência do secretário estadual de Energia, José Aníbal, derrotado na prévia partidária, em registrar apoio ao candidato tucano. Esperado para o jantar, Aníbal é influente junto à base do partido, que tem se mostrado em alguns casos arredia. Na quinta-feira, o presidente do diretório do PSDB no Jabaquara (zona sul da capital), Milton Kamiya, e seu vice, Romualdo Moraes, anunciaram adesão à candidatura do concorrente Gabriel Chalita (PMDB).

Em relação a Russomanno, ainda impera a leitura de que ele é desprovido de apoios do Executivo e de tempo de propaganda na TV, portanto perderá fôlego. O eleitor que hoje lhe dá bons índices, acreditam tucanos, migrará para Fernando Haddad (PT), que irá ao segundo turno com Serra.

Integrantes de PSDB e PSD ouvidos pelo Valor concordam, inclusive, na data para se ter uma sondagem mais realista do cenário paulistano: início de setembro, quando a propaganda televisiva entrará em sua terceira semana.

Um tucano prevenido ressalva: “Agora, se bater o feriado [sete de setembro, um mês antes da eleição] e o Russomanno continuar lá em cima, fura toda a estratégia”.

17/08/2012 - 09:37h Ibope SP: Gestão Kassab é ruim ou péssima para 43% dos moradores da cidade


Presidente Dilma Rousseff e governador Geraldo Alckmin têm avaliação positiva de 55% e 41%, respectivamente, segundo pesquisa Ibope

17 de agosto de 2012

Daniel Bramatti, de O Estado de S.Paulo

O Ibope também perguntou aos entrevistados como avaliam as administrações do prefeito Gilberto Kassab (PSD), do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e da presidente da República, Dilma Rousseff (PT). A gestão de Kassab é considerada boa ou ótima por 18% e ruim ou péssima por 43%. Em relação à pesquisa anterior, feita há duas semanas, o saldo negativo passou de 22 para 25 pontos porcentuais.

O governador Alckmin é aprovado por 41% dos paulistanos, enquanto apenas 16% veem sua administração como ruim ou péssima – o saldo positivo é de 25 pontos, o mesmo resultado obtido no início deste mês.

Já Dilma tem 55% de ótimo e bom e 11% de ruim e péssimo. Seu saldo positivo é de 44 pontos porcentuais, e também não variou desde a última pesquisa.

Entre os que aprovam a administração de Kassab, Serra – candidato apoiado pelo prefeito – tem 42% das intenções de voto. Esse índice cai para 15% entre os que consideram a gestão ruim ou péssima.

Entre os que consideram a administração Dilma boa ou ótima, é Celso Russomanno (PRB) quem lidera, com 31%. Serra vem a seguir, com 26%, o dobro do índice obtido pelo petista Fernando Haddad, correligionário da presidente.

Dilma tem afirmado que vai se manter distante da campanha em São Paulo, ao menos no segundo turno, já que entre os concorrentes há outros candidatos de partidos de sua base.

01/08/2012 - 08:37h São Paulo: Prefeitura cita pedágio urbano em edital oficial


Carro pagaria R$ 1 para entrar no centro; atual gestão diz que não adotará restrição

01 de agosto de 2012

CAIO DO VALLE / JORNAL DA TARDE – O Estado de S.Paulo

A Prefeitura de São Paulo voltou a citar o pedágio urbano em um documento oficial como solução para melhorar o tráfego. Embora a atual gestão tenha por várias vezes reiterado que não iniciará a prática, edital lançado pela Secretaria Municipal de Transportes no sábado menciona a restrição como uma das “iniciativas relacionadas à gestão do trânsito” que futuramente podem ser adotadas.

De acordo com a proposta, a medida abrangeria uma área de 233 quilômetros quadrados no centro expandido. A tarifa custaria R$ 1 – menos do que o valor previsto em um projeto de lei que tramita na Câmara Municipal e define a taxa em R$ 4. O texto foi aprovado pela Comissão de Constituição, Justiça e Legislação Participativa (CCJ) da Casa em abril, mas ainda não passou por votação.

O documento oficial da pasta de Transportes revela ainda que o investimento para implementação do pedágio urbano chega a R$ 15 milhões. As informações podem ser vistas na página 8 do 4.º anexo da concorrência aberta para construção e operação de três garagens subterrâneas no centro. Os estacionamentos também compõem um pacote de ações para “lidar com problemas relacionados à mobilidade da população”.

Tanto as garagens quanto o pedágio fazem parte do Plano Integrado de Transportes Urbano (Pitu), projeto integrado de Município e Estado, com investimentos previstos até 2020.

Sem consenso. Entretanto, a adoção do pedágio como instrumento eficaz para diminuir os congestionamentos paulistanos segue sem consenso entre os especialistas. O consultor Horácio Augusto Figueira, mestre em Transportes pela Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, diz que o mecanismo não surtirá efeito se a taxa for pequena, de até R$ 4, por exemplo. “Quem tem carro já paga garagem, inspeção. Todos vão incorporar o pedágio como mais um custo. E a lentidão viária continuaria igual.”

Por outro lado, caso a tarifa custe muito, como em Londres, onde ultrapassa R$ 25, os motoristas mais pobres seriam prejudicados. Para o professor de Engenharia Civil da Fundação Educacional Inaciana (FEI) Creso de Franco Peixoto, a melhor solução seria aplicar o pedágio urbano só como uma complementação de outras políticas. “Ou seja, com mais linhas de metrô e trens expressos, além de ônibus rápidos, em um sistema alimentador, como em Curitiba.” A cobrança, para ele, pode valer somente a partir do momento em que as pessoas tiverem mais e melhores alternativas de transporte público.

Nas ruas. Quem costuma dirigir pelas ruas da cidade também mostra opiniões diversas sobre o pedágio urbano. O empresário Carlos Pinffi, de 57 anos, por exemplo, acha “coerente” a ideia da taxação. “É justificável por causa do estágio que chegou a falta de infraestrutura na cidade. Acaba sendo necessário, porque a Prefeitura não investiu em transporte público.”

Para a vendedora Ângela Quina, de 44 anos, a solução seria um completo absurdo. “A Prefeitura não investe e quer nos sacrificar?”

A reportagem procurou o governo para comentar o assunto. Em nota oficial, a Prefeitura reiterou apenas que “não planeja a adoção do pedágio urbano”.

02/07/2012 - 08:59h ‘Serra será a parte fácil’, afirma petista

Coordenador da campanha petista à prefeitura de São Paulo, vereador Antônio Donato, disse ao Valor que o enfrentamento com o adversário José Serra (PSDB) “será a parte fácil” da primeira disputa eleitoral da vida de Haddad e que o maior desafio é tornar o ex-ministro da Educação mais conhecido pela população paulistana

Por Luciano Máximo | VALOR

De São Paulo

Depois da formalização da candidatura de Fernando Haddad pelo PT no fim de semana, o coordenador da campanha petista à prefeitura de São Paulo, vereador Antônio Donato, disse ao Valor que o enfrentamento com o adversário José Serra (PSDB) “será a parte fácil” da primeira disputa eleitoral da vida de Haddad e que o maior desafio é tornar o ex-ministro da Educação mais conhecido pela população paulistana. Donato argumentou que o tucano tem índice de rejeição alto, de 35%, e atingiu “um teto” nas intenções de voto de 30%”.

“Na eleição presidencial de 2010, o Serra ganhou da presidenta Dilma Rousseff na capital paulista com mais de 40% de votos. Nos últimos seis meses, desde as primeiras pesquisas para a prefeitura, ele não consegue passar o teto de 30% dos votos. Enfrentar Serra vai ser a parte fácil da nossa campanha, ele tem alta rejeição, é um personagem totalmente desgastado”, afirmou Donato, durante a convenção que homologou a candidatura de Haddad, no sábado.

O vereador acrescentou que a imagem do tucano também é bastante associada à do prefeito Gilberto Kassab (PSD). “Oitenta por cento da população querem mudança na cidade, avaliam mal a gestão de Kassab. É aí que Serra tem mais a perder e é aí que vamos trabalhar, com o desafio de tornar o Haddad mais conhecido. Pesquisas mostram que ele é desconhecido por 49% dos paulistanos e do total de pessoas que o conhecem, apenas 9% o conhece muito bem.”

O maior perigo poderia ser então Celso Russomanno (PRB), que tem subido nas pesquisas e ocupa o segundo lugar com 24% das intenções de voto. Mas Donato também minimizou as chances do apresentador de TV, mesmo depois de o PRB ter fechado aliança com o PTB na reta final. A legenda era disputada por tucanos e petistas e a adesão vai elevar o tempo de propaganda da coligação de Russomanno a mais de dois minutos. O vice da chapa será o petebista Luiz Flávio D’Urso, que desistiu de candidatura própria.

O coordenador petista acredita que a campanha de Russomano deva se desidratar. “A explicação é que ele deixará de ter a mesma exposição que vinha tendo nos programas populares na televisão aberta”, disse Donato.

A coligação de Russomanno conta com seis siglas (PRB-PTdoB-PTN-PHS-PRP-PTB), mas a maioria delas tem pouco peso eleitoral. A aliança de José Serra (PSDB-PSD-DEM-PR-PV) terá o maior tempo de TV, 7min42s, graças à vitória no PSD, na quinta-feira, no Supremo Tribunal Eleitoral. A sigla criada pelo prefeito Gilberto Kassab terá direito ao tempo no rádio e TV proporcional ao tamanho da bancada de 52 deputados federais que a fundaram. O critério vigente é a bancada eleita na última eleição (2010) quando o PSD não existia, mas sete dos 11 ministros foram favoráveis à causa. Com o segundo maior tempo de TV da coligação, Kassab se cacifou para indicar um nome de sua confiança para vice, o ex-secretário municipal de Educação Alexandre Schneider (PSD). O tempo de Haddad (PT-PCdoB-PSB-PP) será um pouco menor e está estimado em 7min30s.

02/07/2012 - 08:46h “O PSD é o cupim do PSDB em São Paulo”

Escolha de vice deflagra embate no PSDB

02 de julho de 2012

O Estado SP

A escolha do ex-secretário municipal de Educação Alexandre Schneider (PSD) como candidato a vice-prefeito de José Serra (PSDB) deflagrou um embate entre tucanos ligados ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o grupo serrista. Um dia após o anúncio da vice, alckmistas fustigaram a escolha de Schneider e voltaram a atacar a chapa única para eleição de vereadores, apelidada de “chapão”.

O grupo que apoia o governador esperava ser contemplado com a indicação da vice, depois de ter perdido o embate que decidiu que o PSDB formaria aliança com outros partidos na chapa proporcional. Os alckmistas defendiam voo solo por avaliar que, coligado em uma chapa tão grande, o PSDB tende a perder cadeiras na Câmara Municipal.

O assessor especial de Alckmin Fábio Lepique atacou pelo Twitter o líder do PSDB na Câmara, vereador Floriano Pesaro, e membros da Executiva do partido, pelas decisões anunciadas. “O @Floriano45 e os membros do diretório que votaram a favor do ‘chapão’ prestaram um desserviço ao PSDB. E nem a vice levamos!”. Ao Estado, desabafou: “Perdemos tudo.”

José Aníbal, secretário estadual de Energia, protestou contra a indicação de Schneider. “Vai na direção contrária ao que queria a militância da capital”.

Pesaro, um dos principais articuladores de Serra no processo eleitoral, afirmou haver “uma estratégia de desestabilizar a campanha do Serra”, e tentou desqualificar as críticas. “Essa questão do Fábio (Lepique) é de uma falsidade moral sem precedentes. E a palavra do José Aníbal é a de alguém que foi derrotado nas prévias e age de forma isolada.”

Passado. A escolha de Schneider reavivou ressentimentos oriundos da eleição de 2008, quando Serra apoiou a reeleição do prefeito Gilberto Kassab (PSD) e Alckmin se lançou candidato, estabelecendo um racha no partido. À época, tucanos que integravam a gestão Kassab, como Andrea Matarazzo, optaram pela neutralidade. Schneider, contudo, apoiou o prefeito.

Desde então, este recebe sinais de Kassab de que poderia ser seu sucessor. Em 2011, ele trocou o PSDB pelo PSD. Sua entrada na vice desperta o os ciúmes de tucanos que alimentam desejo de suceder Serra e Alckmin na capital e creem que Schneider “furou a fila” da sucessão.

A desconfiança do grupo alckmista em relação ao vice de Serra se estende também a Kassab, que coligou seu PSD ao PT em diversas cidades do Estado e, nacionalmente, sinaliza um alinhamento com o governo federal. Ele é visto como potencial adversário de Alckmin em 2014.

Chapão. O “chapão” na proporcional fez o presidente do PSDB da Mooca, Eduardo Odloak, desistir de concorrer a vereador. Em texto, Odloak afirmou que a coligação “diminuiu as chances de renovação”. Segundo ele, o PSDB deve eleger apenas metade dos 13 vereadores de 2008. “Um mau negócio”, diz Lepique. Pesaro defendeu a decisão: “É importante para eleger o Serra.”

Como o sr. avalia a indicação de Schneider para vice de Serra? Vai na direção contrária do que queria a militância da capital. Essa aliança preferencial (com o PSD) não foi objeto de discussão partidária. É uma iniciativa exclusiva do candidato.

O PSDB está cedendo demais?

O PSD é o cupim do PSDB na capital, eles se alimentam do PSDB. Não é possível acolher sistematicamente o que deseja o atual prefeito. O PSDB corre sério risco de virar figurante.

Qual é o impacto do ‘chapão’ para a eleição dos vereadores?

É uma medida conservadora, com o propósito de não renovar a Câmara.

28/06/2012 - 09:42h Vice de Serra explicita disputa entre Kassab e Alckmin

Por Vandson Lima e Raphael Di Cunto | VALOR

De São Paulo

A briga pela indicação do candidato a vice na coligação que terá José Serra (PSDB) como postulante à Prefeitura de São Paulo ganhou novos contornos ontem. De um lado, a executiva do PSDB aprovou um manifesto em que reivindica a chapa pura. De outro, o PR comunicou à chapa, por nota, que só abdica do posto se o vice for indicado pelo PSD, partido do prefeito Gilberto Kassab.

Nas entranhas dessa batalha entre aliados se avoluma a disputa entre o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e Kassab, ambos com olhos postos em 2014 e ciosos em ceder espaço para o outro na composição da chapa serrista.

A executiva do PSDB na capital paulista aprovou na terça-feira, por unanimidade, a defesa de que o vice de Serra seja também um nome da sigla – o ex-secretário estadual de Cultura Andrea Matarazzo, próximo de Serra, e o deputado federal Edson Aparecido, aliado de Alckmin, figuram como favoritos.

A leitura no tucanato é de que o PSDB já cedeu o suficiente aos aliados ao aceitar a formação de uma mesma chapa de vereadores, o que em tese prejudicaria o desempenho do partido na eleição proporcional. Veem ainda na manifestação do PR as digitais de Kassab, principal articulador da adesão do partido à aliança.

Principal líder do PR na cidade de São Paulo, o vereador Antonio Carlos Rodrigues disse não considerar uma ameaça o fato de seu partido reivindicar a vice. “De maneira nenhuma. Só queremos sentar e conversar, não podemos saber as coisas apenas pelos jornais”, afirmou. “Quando combinamos a aliança, houve acordo para que o partido com a maior bancada ficasse de vice. Se mudou, queremos postular a vaga”, avisou.

O vereador diz que não ter conversado com o prefeito Gilberto Kassab antes de redigir a nota. O prefeito deseja indicar o vice e ofereceu o ex-secretário municipal de Educação Alexandre Schneider para a vaga. O DEM, antigo partido de Kassab, quer que o escolhido seja o deputado federal Rodrigo Garcia (DEM). O PV também pleiteia a vice, com o ex-secretário municipal de Meio Ambiente Eduardo Jorge.

Durante a convenção tucana que oficializou a candidatura Serra, no domingo, o presidente do PV, José Luiz Penna, chegou a dizer que haveria um “processo de queimação” nas denúncias de que seu correligionário teria recebido propina enquanto estava no cargo. Para Penna, isso ocorreria justamente por Jorge ser um dos nomes considerados para a vice de Serra. Questionado se a “queimação” viria de partidos aliados, se limitou a dizer “Aí eu não sei”. Hoje, a coordenação de campanha de Serra se reúne com os aliados.

Ontem, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) multou Serra em R$ 5 mil por propaganda eleitoral antecipada, em decisão do juiz Henrique Harris Junior. É a terceira multa do candidato do PSDB a prefeito da capital paulista neste ano. As punições totalizam até o momento R$ 20 mil. O PT acusou Serra, em representação ao TRE, de divulgar sua candidatura no site www.joseserra.com.br, por meio de comentários dos leitores. O parecer do Ministério Público Eleitoral (MPE) é favorável à multa, sob a alegação de que os comentários são moderados pelo proprietário, que “não pode alegar ignorância ou desconhecimento acerca do seu conteúdo”.

05/06/2012 - 08:03h Os moradores de rua

05 de junho de 2012

Editorial O Estado de S.Paulo

Os centros de acolhida instalados na cidade de São Paulo para atender a população de rua têm 2.402 leitos vagos. O Complexo Prates, destinado ao tratamento e assistência aos dependentes químicos da Cracolândia, atende 180 pessoas por dia, embora tenha capacidade para 1.200. Entre 2009 e 2011, a população de rua aumentou 6%, passando de 13.666 para 14.478 pessoas. Dessas, apenas 7.713 usam os abrigos. As outras 6.765 preferem dormir, comer e se banhar nas ruas, praças e baixos de viadutos.

Na Cracolândia, onde ocorre o maior número de ações na área de assistência social da Prefeitura, uma operação, iniciada há cinco meses e propagandeada como definitiva, apenas empurrou os dependentes para ruas próximas àquelas em que se encontravam. Em dezembro, censo realizado pela Prefeitura apontou a existência de 743 usuários de drogas na Rua Helvétia e na Alameda Dino Bueno, o coração da Cracolândia. Hoje, eles ocupam a Rua dos Gusmões e se negam a aceitar o auxílio oferecido pela administração municipal.

O Ministério Público Estadual ameaça ir à Justiça para contestar a operação, uma vez que, apesar da presença da polícia, o tráfico continua a dominar a área. Os promotores também pretendem determinar a razão pela qual os leitos dos albergues permanecem ociosos. Investigar as técnicas de abordagem e os serviços oferecidos a essa população é importante para definir custo e eficiência dessa rede de atendimento.

Em entrevista ao Estado, o representante do Movimento Estadual da População em Situação de Rua, Robson Mendonça, afirma que as iniciativas da Prefeitura em nada têm ajudado os moradores de rua a sair dessa condição. Segundo ele, “a atual gestão está preocupada em fazer centro de formação de vagabundo”. Mendonça se refere à tentativa da Prefeitura de atrair os moradores de rua aos abrigos oferecendo tendas onde eles podem tomar banho e se divertir. Para ele, o Município deve é oferecer a esses homens, mulheres e crianças encaminhamento para emprego e moradia.

Entre a população que vive nas ruas, 40,9% trabalham como catadores de materiais recicláveis, flanelinha ou chapa e, segundo um estudo realizado pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, entre janeiro e março, o ganho médio diário foi de R$ 20,64. O que ganham é gasto com comida (30,3%), bebida (16,3%), cigarros (15,9%) e drogas ilícitas (11%).

População de rua e dependentes químicos são questões a serem tratadas de maneira integrada. Mais do que caso de polícia ou de assistência social, a população de rua precisa de uma política multidisciplinar e duradoura, desenvolvida com a colaboração do governo e da sociedade, com um conjunto de iniciativas capazes de assegurar educação, saúde, assistência social, trabalho e todas as outras formas de atendimento necessárias para recuperar quem se encontra nessa condição. Entre a população que perambula pelas calçadas, o censo da Prefeitura registrou a presença de 221 adolescentes e 212 crianças.

A fragmentação das iniciativas tem frustrado todas as tentativas de acabar com a população de rua. No início deste ano, ao anunciar a Operação Centro Legal para resolver de vez o problema da Cracolândia, a Prefeitura assegurou que havia condições para realizar mais do que uma simples ação policial. Assistência social e atendimento médico seriam assegurados, graças à rede de atendimento aos usuários de drogas, instalada nos últimos anos pelo Estado e Prefeitura, com clínicas de reabilitação para atendimento de longo prazo.

Até agora, no entanto, a intervenção policial é a única parte da operação reconhecida pela população de rua. Conforme a pesquisa da Fundação Escola de Sociologia e Política, a iniciativa em nada mudou a vida de 72,3% dos moradores de rua. Muitos deles só mudaram de lugar. Outros 17,2% acreditam que a situação piorou, uma vez que passaram a conviver com a agressividade dos agentes de segurança, mais numerosos.

Está na hora de reavaliar a operação, admitir os erros e buscar outros caminhos.

12/03/2012 - 09:40h Em SP, restrição de caminhões sob escrutínio

Eleitor de Kassab e Dilma prefere Chalita a Serra: restrição de caminhões é correta, só faltou planejamento


Por Vandson Lima e Raphael Di Cunto | VALOR

Em SP, uma medida sob escrutínio

Ganho eleitoral para o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), caso consiga reduzir o trânsito, a restrição ao tráfego de caminhões pesados em 25 importantes vias da cidade é vista por seus eleitores como uma medida correta, mas desprovida de planejamento.

O Valor abordou em um posto de abastecimento seis eleitores de Kassab que utilizam diariamente a Marginal Tietê, uma das vias mais congestionadas da capital, na qual a restrição foi iniciada no dia 5. A maioria afirmou que o congestionamento diminuiu em horários de pico, mas criticaram a maneira como foi implantada a proibição.

Para o prestador de serviços elétricos Ricardo Teles, Kassab agiu corretamente e os caminhoneiros devem se adaptar à restrição. “Passo pela Marginal várias vezes por dia para atender clientes. Sem dúvida o tráfego melhorou”. Teles considera a administração atual “a melhor em muitos anos”, diz que votaria em Kassab para governador em 2014, mas não votará em José Serra (PSDB) na sucessão municipal, mesmo sendo o candidato do prefeito. “O Serra usou a máquina da prefeitura para concorrer ao governo. Depois, usou o governo para se candidatar a presidente. Ele larga todos os cargos para tentar algo maior. Não confio nele”, alega. Para a eleição deste ano, diz que apostará no deputado federal Gabriel Chalita (PMDB). “Ninguém conhece o [Fernando] Haddad [pré-candidato do PT]. E olha que eu votei na Dilma [Rousseff] para presidente. Gosto desse lado técnico dela”.

Outro eleitor de Dilma e Kassab, Tiago da Cruz, de 27 anos, acha que “a melhora foi enorme” no horário de pico, mas ressalva: “Precisa planejar melhor. Depois das 22h, quando liberam os caminhões, fica um inferno, para cada três carros você encontra 20 caminhões na Marginal”, observa.

O consultor de equipamentos industriais Eduardo Costa acredita que o governo deve criar condições antes de impor a mudança. “Melhora para quem usa carro, mas acho que só deveria mudar depois que os Rodoaneis fossem entregues. Os caminhoneiros ficaram sem opção”, alega. Costa está entre os eleitores que não veem problema em Serra ter deixado a prefeitura, em 2006. “O que importa é o plano de trabalho. O Kassab assumiu o cargo e governou bem. Votaria no Serra de novo”.

O analista de redes Ricardo Alexandre Ribeiro, 36 anos, diz que faria o mesmo que Serra se estivesse em seu lugar. “Se eu recebo uma proposta para buscar um cargo melhor, aceito. Não condeno o Serra”, diz. A criação de faixas para a circulação de motocicletas é vista por Ribeiro como uma boa medida, mas ele concorda que a restrição de caminhões foi feita sem o devido cuidado. “Toda tentativa vale, mas poderiam distribuir melhor a circulação. Do jeito que está, os caminhoneiros saem ao mesmo tempo e congestiona também. Só muda o horário”, avalia.

Para a auxiliar de cobrança Elisama Talita, “poderiam achar um meio termo, liberar os caminhões um dia por semana”. Já para o paraibano Willian Santos, consultor jurídico, “se existe rodízio para carro, qual o problema de restringir caminhão? O Kassab está certo”. Eleitor do PSDB e de Kassab, ele ri quando perguntado sobre seu grau de confiança no ex-governador, que prometeu se eleito cumprir o mandato. “Ah, o Serra sempre dá para trás, né? Mas vou votar nele mesmo assim”.

A restrição, que já atingia vias como a avenida dos Bandeirantes, a Marginal Pinheiros e todo o centro expandido da cidade, foi estendida para a Marginal Tietê e outras desde o dia 5. Os caminhões são proibidos de circular nesses trechos entre as 5h às 9h e das 16h às 22h, de segunda à sexta, e das 10h às 14h aos sábados.

A expansão nas restrições para os caminhões causaram uma paralisação na entrega de combustível da capital e região metropolitana de São Paulo, como forma de pressionar o prefeito a revogar a restrição que, por enquanto, ainda não multa os motoristas infratores – penalidade que só acontecerá a partir do dia 31, depois do período de adaptação.

Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a média diária de congestionamento na cidade e na Marginal Tietê foi reduzida nos horários de pico da manhã e, principalmente, à tarde. Na segunda-feira, primeiro dia da restrição, a Marginal Tietê registrava 1,43 km parado às 17h, contra a média de 8,5 km em março de 2011. Entretanto, no intervalo entre os dois picos, quando fica suspensa a restrição, o congestionamento mais do que dobrou em São Paulo. O trânsito, que teve média de 11 km às 10h em março de 2011 na Marginal Tietê, foi de 20 km no mesmo horário na sexta-feira.

O líder do PT na Câmara Municipal, Chico Macena, acredita que faltou planejamento. “A prefeitura represou os caminhões e todos entraram na cidade ao mesmo tempo, congestionando as ruas coletoras e principais. Nunca a cidade teve tanto trânsito às 10h”. O petista avalia que o trânsito voltará em no máximo um ano. “A frota de carros continuará a crescer e as empresas já estão se preparando para trocar um caminhão por três VUCs [Veículo Urbano de Carga], que tem permissão para circular nas vias restritas”.

O líder do PSDB, vereador Floriano Pesaro, reconhece que o efeito é de curto prazo. “Especialistas dizem que a medida é paliativa, mas é a soma dessas ações, como restrições no trânsito, obras de expansão das linhas de metrô e trem e, no futuro, o pedágio urbano, que vão amenizar o problema”. Para ele, a proibição é uma mudança de cultura. “Quase todas as capitais de Estados americanos e principais metrópoles do mundo restringem o tráfego de caminhões, que só podem circular à noite”, argumenta.

07/03/2012 - 09:22h Kassab pede estudos antienchente de R$ 30 milhões


Valor vale apenas para pacote de análises de seis sub-bacias, mas não vai incluir execução de nenhuma obra

07 de março de 2012

FELIPE FRAZÃO, TIAGO DANTAS – O Estado de S.Paulo

A Prefeitura de São Paulo lançou ontem para consulta pública a minuta de contratação, por R$ 30 milhões, de um pacotão de estudos sobre drenagem urbana, que deve nortear obras até 2040. Já a realização das obras indicadas, ainda sem custo estimado, vai depender da vontade dos próximos prefeitos.

Seis sub-bacias de córregos e afluentes que deságuam nos Rios Tietê, Tamanduateí e Pinheiros serão analisadas. Os relatórios devem ficar prontos um ano após serem contratados.

Serão analisadas as sub-bacias dos Córregos Ipiranga, Cordeiro e Morro do S, na zona sul, Cabuçu de Baixo, na zona norte, Aricanduva, na zona leste, e Verde, na zona oeste. Os estudos devem dar conta de desvendar como as águas pluviais escoam nas regiões das sub-bacias, de acordo com a pancada de chuva que as atingir. Segundo o secretário de Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalem, essas informações poderão subsidiar novas leis de zoneamento.

As empresas que vencerem a licitação poderão assumir os estudos para identificar as intervenções necessárias em no máximo duas sub-bacias cada. Elas deverão entregar anteprojetos de obras que fiquem prontas em prazo curto (até 5 anos), médio (15 anos) e longo (30 anos). A ideia é que as mais complexas e maiores ofereçam à cidade proteção até mesmo contra chuvas fortes que, segundo especialistas, acontecem a cada 100 anos.

A partir da experiência nas seis primeiras sub-bacias, a Prefeitura deve aplicar o modelo de estudos às outras 72 sub-bacias da cidade.

Mais projetos. A contratação de projetos de combate a enchentes, programas de urbanismo e para as áreas de Saúde e Transportes é alvo de um inquérito civil aberto no fim de janeiro pelo Ministério Público. A Promotoria do Patrimônio Público e Social pediu à Prefeitura justificativas para a contração, nos últimos seis anos, de cerca de R$ 350 milhões em trabalhos prestados por empresas de consultoria.

O Ministério Público questionou a necessidade da realização das contratações “diante da existência de funcionários qualificados” dentro da administração.

O prefeito Gilberto Kassab (PSD) costuma defender a contratação de projetos para ajudar na tomada de decisões. Em um compromisso oficial no primeiro semestre do ano passado, disse que a Prefeitura precisa de uma “prateleira de projetos” para escolher o mais adequado.

01/03/2012 - 10:57h Baião de dois

Para petistas, Serra esteve por trás das ações de Kassab, da criação do PSD à aproximação com PT, hoje considerada um erro

Por Raquel Ulhôa – VALOR

Vai levar um tempo para o PT de São Paulo sair das cordas, depois do golpe do prefeito Gilberto Kassab. Golpe que, de resultados tão bons para José Serra, parece fruto de estratégia montada lá atrás, pelos dois, para trazer o ex-governador tucano de volta à cena política como dono da situação.

A articulação de Kassab encurralou o PT, mas teve também efeito interno, no PSDB. Deu a Serra posição privilegiada na relação com o governador Geraldo Alckmin e com o comando do partido. A demora no anúncio da candidatura e a aproximação de Kassab com o PT conseguiram angustiar o governador e o partido. A reeleição de Alckmin em 2014 e a sobrevivência do PSDB estão em jogo.

Um lançamento antecipado de Serra, num ambiente sem ameaça de Kassab apoiar o petista Fernando Haddad, talvez deixasse o tucano à mercê do empenho de Alckmin na campanha. Mas, ao se apresentar quando o jogo era considerado quase perdido, Serra apareceu como espécie de salvador do PSDB. E uma candidatura competitiva em São Paulo tem repercussão nacional.

Com Serra, pessimismo ronda campanha de Haddad

“Serra e Kassab são almas grudadas”, diz um petista de São Paulo, inconformado com o fato de o partido não ter previsto a intenção do prefeito e presidente do PSD, ao se aproximar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Era óbvio demais. Kassab e o PSD não seriam nada sem São Paulo. E Serra não poderia prescindir de concorrer à Prefeitura de São Paulo. Antes, ele tinha apenas o Twitter. Agora está a cavaleiro”, avalia.

Justiça seja feita, os recentes lances da disputa eleitoral em São Paulo confirmam teses defendidas pela senadora Marta Suplicy (PT-SP) desde o início de 2011, contrariando os cenários de então. Num momento em que Serra negava de pé junto a intenção de concorrer, ela afirmava que ele acabaria saindo candidato. E, quando o prefeito deixava um partido de oposição (DEM) para criar outro com tendências governistas, ela avisava: ele está a serviço do Serra.

Foi apostando nesse quadro que ela lançou a pré-candidatura, acreditando ser, com a experiência de ex-prefeita, o nome mais competitivo do PT para enfrentar Serra e confrontar a administração de Kassab. Lula e o PT não deram crédito. Lula escolheu Haddad, nunca testado nas urnas, e o PT aceitou. O passo seguinte do ex-presidente foi a aproximação com Kassab.

O prefeito tão combatido pela militância petista foi recebido na convenção do partido, em Brasília. Recebeu vaias de uma parte dos presentes, é verdade, mas também gestos simpáticos da presidente Dilma Rousseff. As vaias não o abalaram. Haddad, com apoio de Kassab e até então sem adversário forte do PSDB, despontava como favoritismo.

O tempo fechou para o PT quando Serra decidiu disputar. Sem constrangimento, Kassab anunciou mudança de planos. Ficaria ao lado do tucano – como, aliás, desde o início tinha avisado que faria, se ele fosse candidato. Mas ele garantia a Lula que Serra era categórico ao rejeitar a ideia. “Acreditamos no Kassab”, diz um petista revoltado.

O presidente do PSD deu um nó na campanha do PT. Como avaliou o senador Aécio Neves, deixou Haddad sem condições de fazer oposição ao prefeito na campanha. Como é que o PT vai justificar que Kassab servia como aliado, mas como adversário só tem defeito?

A aposta na parceria com o prefeito paralisou o PT. Ele perdeu tempo na busca de outras alianças. Com isso, a cotação dos indecisos aumentou no mercado. Agora, Dilma está sendo acionada a atender partidos da base, como o PR, que quer retomar o Ministério dos Transportes.

Ao aproximar-se de Lula, Kassab conseguiu outro feito: mascarar a avaliação negativa de sua gestão (42% dos paulistanos consideram a administração ruim ou péssima, segundo pesquisa). Um petista pergunta: “Quem vai falar mal dele, de braço dado com Lula?”

Pelo conjunto da obra, o prefeito está sendo considerado um mestre da política, mesmo deixando insatisfeita muita gente no PSD, que queria entrar logo no governo Dilma. A jogada de Kassab levanta dúvidas sobre a propalada habilidade de articulação de Lula.

O pessimismo começa a rondar o PT. O líder do partido na Câmara, Jilmar Tatto, defendeu aliança com o PMDB, ainda que seja à custa da cabeça de chapa. Irritou o partido. A própria Marta, que teve suas teses confirmadas pelos fatos e foi preterida por Haddad, em conversas com interlocutores, defende outra postura: admitir o erro (como ela fez em sua página no Twitter), se reagrupar e seguir em frente.

Mas não é considerada fácil. Serra tem a seu lado as máquinas municipal e estadual, ferramentas para atrair aliados, o que significa mais tempo de televisão. Haddad tem o governo federal, mas Dilma havia sinalizado, anteriormente, que não permitiria o uso da máquina a favor de candidaturas. A conferir. Haddad tem o apoio de Dilma, mas ela terá dificuldade de subir em seu palanque, ao menos no primeiro turno, já que o vice-presidente, Michel Temer, é o principal padrinho de Chalita.

Há dúvidas quanto ao discurso de Haddad, neófito em campanha eleitoral, como oposição à prefeitura. Depois do flerte de Lula com Kassab, apenas Marta não teria constrangimento em bater no prefeito. Afinal, ela deixou claro desde o início que era contra essa aliança.

Segundo dirigentes do PT, ao ungir Haddad, Lula está trabalhando na renovação do partido. Mesmo perdendo, o ex-ministro da Educação faria parte de uma nova geração de petistas em ascensão. Boa parte dos fundadores do PT está fora de combate, a maioria por envolvimento – ou suspeita de envolvimento – em casos de irregularidades.

Aposta arriscada, que pode atrasar o projeto do PT de recuperar a prefeitura, mas dar resultado futuro. O momento favorece Serra. Um dos riscos, para ele, é não convencer o eleitorado da disposição de cumprir o mandato na prefeitura. Por isso, já começou a campanha. Ontem, disse que o projeto presidencial está adormecido até 2016.

Raquel Ulhôa é repórter de Política em Brasília. Escreve mensalmente às quinta-feiras

E-mail raquel.ulhoa@valor.com.br

22/02/2012 - 08:35h Kassab deflagra no PT disputa por controle da pré-campanha de Haddad

Suspenso à espera da decisão de José Serra, que cogita disputar a Prefeitura pelo PSDB, o movimento do prefeito em direção à candidatura do ex-ministro da Educação já provoca embate

21 de fevereiro de 2012

Fernando Gallo – O Estado SP

O movimento de aproximação feito pelo prefeito Gilberto Kassab (PSD) em direção ao PT, por ora suspenso enquanto o ex-governador José Serra (PSDB) decide se entra na campanha eleitoral, deflagrou um embate entre setores petistas e o grupo que hoje circunda o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em jogo ainda latente está a disputa pelo controle dos rumos que deve tomar a pré-candidatura à Prefeitura de São Paulo do ex-ministro da Educação Fernando Haddad.

Márcio Fernandes/AE
PT pró-Kassab está temeroso com a entrada de José Serra - Márcio Fernandes/AE
PT pró-Kassab está temeroso com a entrada de José Serra

Oficialmente, quem decide o destino do barco haddadista é o conselho político da pré-candidatura, que conta com 27 integrantes e tem feito reuniões mensais – a quarta ocorrerá no próximo sábado – para avaliar cenários e delinear estratégias. O PT até o momento avalia que, no estágio estadual, ainda não é necessário uma coordenação de pré-campanha menor, com um núcleo bem definido.

Na prática, porém, uma batalha surda vem sendo travada entre o grupo petista que vinha se colocando prontamente favorável e o que se manifestava contrário à aliança com o PSD.

Conforme o Estado mostrou em sua edição de sábado, o grupo que quer o acordo, e que até o recuo do prefeito contava cada vez mais com ele na chapa, já revê a estratégia que tinha em mente para não apenas desorganizar o campo tucano, mas também atrair os setores médios e conservadores que tradicionalmente rejeitam o PT na capital.

Grupos econômicos. De orientação mais pragmática, os petistas-kassabistas avaliam que, sem o prefeito, a campanha terá de montar uma agenda específica voltada para a atração do empresariado e de grupos religiosos.

O PT pró-Kassab está temeroso de que a entrada de Serra unirá na órbita tucana parte importante dos grupos econômicos em disputa, além dos líderes evangélicos com mais capacidade de mobilização de eleitores.

Nos bastidores, esse grupo classifica como “ingênuos” os setores petistas contrários ao alinhamento com Kassab e avalia que o PT que torce o nariz para o prefeito “não tem ideia” da força dos setores conservadores que vão se mobilizar na disputa.

De outro lado, os segmentos petistas que esperam com cada dia mais vigor que Serra entre na disputa para que leve Kassab junto com ele – a órbita haddadista na ponta de lança – se espantou com a aproximação do prefeito e torce para que ele se distancie definitivamente. Integrantes desse time lembram que a tese de revisão da estratégia ora defendida pela cúpula petista, tendo a órbita lulista à frente, foi derrotada em reunião do conselho político.

Periferia. Na ocasião prevaleceu a tese de que a pré-candidatura seria inicialmente direcionada à periferia e aos pequenos empresários das regiões mais afastadas. A partir desta semana, sempre nas sextas e segundas-feiras, Haddad irá participar de plenárias em diversos bairros. O cronograma começa no M’Boi Mirim, na zona sul, e em Brasilândia, zona norte, ambas regiões periféricas da capital.

Esse grupo analisa que a entrada de Kassab na chapa tira não apenas de Haddad o discurso de oposição, mas de todos os candidatos a vereador. Além disso, dizem, será mais difícil mudar os rumos da administração municipal, mal avaliada em diversas pesquisas, caso o PT vença com Kassab na chapa.

De resto, o grupo antikassabista avalia que uma derrota de Serra, um dos quadros mais importantes do PSDB, seria mais acachapante para os tucanos e comprometeria mais o projeto do governador Geraldo Alckmin para 2014 do que a derrota de um dos quatro pré-candidatos que estão hoje colocados na disputa – Andrea Matarazzo, Bruno Covas, José Aníbal e Ricardo Trípoli.

Quando parecia que a entrada de Kassab no barco petista era cada vez mais iminente, petistas antikassabistas reclamavam reservadamente do “grupo do Lula” e a intenção de “empurrar o Kassab goela abaixo”.

No comando do PT, porém, a avaliação predominante é que a articulação a favor de um acordo com o prefeito volta com força total caso Serra decida não entrar na disputa.

O pré-candidato, por sua vez, já disse a aliados que prefere Serra na disputa porque “coloca as coisas em seus lugares”. Quem dialoga com frequência com Haddad traduz da seguinte forma: pessoalmente, não quer Kassab na chapa, daí porque manifesta a preferência por Serra. Mas o ex-ministro sabe que, embora tenha voz nas decisões, não tem força política própria no partido, e não vai optar pelo choque com Lula, o homem que o fez candidato.

17/02/2012 - 09:21h PSD teme Lula como adversário

Por Raquel Ulhôa | VALOR

De Brasília

Parlamentares do PSD de outros Estados estão preocupados com a possibilidade de o ex-governador José Serra (PSDB) decidir pela disputa à Prefeitura de São Paulo e com o risco de o prefeito Gilberto Kassab recuar das negociações com o PT. A avaliação é que Kassab, presidente da nova legenda, avançou demais na direção da aliança com Fernando Haddad (PT) e uma eventual mudança de posição agora deixaria a relação do PSD com o governo federal muito ruim em todo o país e “arrebentaria” o partido.

Depois de propor ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a aliança em torno de Haddad e de comparecer ao evento em comemoração aos 32 anos do PT, recebendo vaias da militância e afagos da presidente Dilma Rousseff, Kassab perderia a credibilidade se recuasse, na opinião de integrantes da cúpula do seu partido que não querem ficar na oposição ao governo federal.

Como até agora ele tem mostrado muita habilidade política, a expectativa de seus aliados é que mantenha a disposição de aliança com o PT – a não ser que os petistas rejeitem. A avaliação é que Kassab tem argumentos de sobra para dizer a Serra que não tem mais condições políticas de voltar atrás, já que o tucano negou de forma categórica que disputaria.

O prefeito já está recebendo mensagens de dirigentes do PSD com manifestações de preocupação. Lembram que, pela histórica ligação política com Serra, Kassab tinha carta branca para apoiá-lo na disputa à Prefeitura de São Paulo em 2012 e fez todos os gestos nesse sentido. Liberado por Serra, ficou livre para articular a candidatura própria do vice-governador, Guilherme Afif Domingos, ou a aliança com Haddad.

Voltar atrás seria um “absurdo”, para um dirigente do PSD, Estaria transformando Lula num “adversário forte demais” e colocando todo o poder federal contra a nova legenda, que nasceu para ser “independente” e para viabilizar um projeto de futuro para políticos que, abrigados no Democratas ou em outros partidos, estavam sem perspectiva. Seria atrair “artilharia pesada” contra o PSD.

Se Kassab caminhar para Serra agora, estaria “amarrando” seu projeto para 2014 ao PSDB. Entre os integrantes do partido, há ressentimento com a forma com que o PSDB “massacrou” o DEM, seu aliado, e com o tratamento dado ao próprio PSD.

Um motivo de irritação é o fato de o PSDB, mesmo sem nome forte para disputar a prefeitura, não ter disposição de apoiar um candidato do PSD agora, nem mesmo em troca do apoio de Kassab à candidatura à reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB) em 2014. Para parlamentares da nova legenda, isso é uma “humilhação”.

Essas avaliações são feitas por dirigentes do PSD de outros Estados. Em São Paulo, a cautela é maior. O líder do PSD na Câmara dos Deputados, deputado federal Guilherme Campos (SP), diz que “a relação de Serra com Kassab transcende a questão de compromissos. Existe uma relação construída ao longo do tempo”. Ele lembra que, por enquanto, existe apenas uma “promessa de posicionamento” com o PT.

Segundo ele, os sentimentos da bancada federal do partido em relação à aliança com o PT estão divididos. “O PSDB foi o primeiro partido que institucionalmente foi procurado pelo nosso presidente no sentido de fazer uma composição. E houve todo um processo de morosidade e falta de definição do PSDB”, diz Campos.

Ele admite que a sinalização de que Serra pode mudar de posição tornou as conversas “mais intensas de todos os lados” e “aumentou a confusão e o clima de suspense” nas negociações em São Paulo. “É mais fácil acertar na Mega-Sena do que no que o Serra está pensando.”

17/02/2012 - 08:51h Na zona leste, prefeito faz discurso recheado de elogios a Serra

Por Raphael Di Cunto | VALOR

De São Paulo

Com a movimentação cada vez mais intensa do ex-governador José Serra (PSDB) para concorrer à Prefeitura de São Paulo, o atual prefeito, Gilberto Kassab (PSD), afirmou ontem que seria “incompreensível” não apoiar o tucano, a despeito das articulações para indicar o vice do PT se ele não concorrer. Kassab manteve o discurso, porém, de que, apesar de falar todos os dias com Serra, “com quem tem uma relação de amigo”, não acha que ele será candidato e por isso não gostaria de falar desta possibilidade.

O ex-governador, entretanto, esteve em quase todas as falas do prefeito – até no discurso de inauguração de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) na zona leste da cidade, quando Kassab, ao listar os avanços de sua gestão, disse que aprendeu com Serra que, em saúde, “o importante não é perguntar se está bom, mas saber se está sempre melhorando”.

Kassab, que era vice e herdou o cargo de Serra em 2006, quando ele renunciou para concorrer ao governo paulista, ainda destacou e elogiou, durante o discurso, dois dos principais programas da prefeitura iniciados pelo tucano, o Remédio em Casa e o Mãe Paulistana, que acompanha as gestantes inscritas desde a gravidez até o primeiro ano do bebê.

Para a imprensa, o prefeito respondeu de novo sobre a candidatura do ex-governador. Voltou a dizer que não gostaria de falar sobre isto, porque Serra tem dito que não quer concorrer, e depois elogiou por quase dois minutos o “extraordinário prefeito” que foi o ex-governador, uma pessoa “muito qualificada, séria e preparada”.

“[O Serra] ajudou a transformar a cidade de São Paulo com uma gestão em que ele estabeleceu as premissas, os objetivos. Cumpri, como prefeito, o seu plano de governo, que depois foi sendo aperfeiçoado”, afirmou Kassab. “A cidade poderia passar por novos momentos de progresso, transformação e avanço [se ele fosse prefeito de novo], porque ele tem condições de apresentar isso para São Paulo”, completou.

O prefeito disse, ainda, que foi mal interpretado quando disse que não havia a hipótese de Serra se candidatar de última hora porque uma “definição tardia sempre é uma definição derrotada”. “Respondi a uma pergunta que foi feita, e às vezes as pessoas pegam só a resposta”, argumentou.

Segundo Kassab, o tucano poderia demorar mais para tomar uma decisão – Serra lidera as pesquisas de intenção de voto, com cerca de 20%, embora tenha rejeição de aproximadamente 30% dos eleitores. “Existem candidatos que precisam de visibilidade, precisam conhecer a cidade, e por isso têm que começar antes. O governador Serra conhece como poucos a cidade de São Paulo, então tem um prazo diferente”, disse.

Kassab não quis, porém, dar uma data para seu próprio partido. “No PSD não trabalhamos com prazo, já temos nossas posições, que são muito claras. Priorizamos a candidatura própria, do vice-governador Guilherme Afif Domingos, e deixamos claro que, se o Serra concorrer, terá o nosso apoio”, pontua. “Não acontecendo essas duas premissas, consultamos o PT para saber se haveria disposição para uma aliança. Eles estão discutindo internamente e agora vamos esperar.”

16/02/2012 - 09:11h Kassab deu um baile político no PT e no PSDB, diz senador petista

Para Jorge Viana, prefeito de São Paulo conseguiu deixar siglas em ‘crise existencial’ e tirou DEM do mapa

16 de fevereiro de 2012


Ed Ferreira/AE

Senador Jorge Viana avalia atuação de Kassab no jogo político - Ed Ferreira/AE

Senador Jorge Viana avalia atuação de Kassab no jogo político


Vera Rosa, de O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA – Amigo do ex-presidente Lula, o senador Jorge Viana (PT-AC) diz que o prefeito Gilberto Kassab (PSD) jogou os petistas numa “crise existencial” por causa da oferta de apoio à candidatura de Fernando Haddad. “Kassab nos deixou numa sinuca. Esse prefeito está dando um baile de política tanto no PT como no PSDB.” Ex-governador do Acre, eleito pela primeira vez graças a uma aliança com o PSDB, Viana sempre comprou briga com o PT por seu pragmatismo. Agora, porém, não tira a razão da senadora Marta Suplicy (PT-SP), para quem a parceria com Kassab – que esteve ontem com a presidente Dilma Rousseff – virou um pesadelo.

Kassab foi vaiado na comemoração de 32 anos do PT. Não é contraditório Fernando Haddad aliar-se ao PSD de Kassab?
Não vejo problema nas vaias, que são parte da democracia interna. Agora, Kassab está se configurando como um dos maiores jogadores da política. Nunca tinha visto alguém terminando um mal governo com tanta força. Esse prefeito está dando um baile de política tanto no PT como no PSDB. Faz os dois viverem crises existenciais, além de tirar o DEM do mapa.

É um erro o PT aliar-se a ele?
A maior prioridade nossa, hoje, é ganhar São Paulo. Como o PT, que está no terceiro mandato no governo federal, fica fora das administrações de São Paulo, Belo Horizonte e Rio? O problema é que, se a aliança com o PSD ocorrer, será em cima de um pragmatismo que não é bom para a história do PT nem para a política. Boa parte da base que sustenta o prefeito não nos apoiará. Kassab nos deixou numa sinuca. Pode ser que ele não seja a melhor alternativa.

O sr. compartilha da opinião da senadora Marta Suplicy (PT-SP), para quem seria um pesadelo acordar de mãos dadas com Kassab no palanque?
A Marta fez um dos gestos mais interessantes, ao abrir mão da candidatura para apoiar Haddad. Ela já deu uma contribuição importante e tem autoridade para fazer qualquer comentário. Nesse ambiente político em que a gente vive temos de passar noites maldormidas.

A aliança entre o PT e o PMDB vive momentos difíceis por causa da briga por cargos. Essa parceria deve prosseguir?
Deve, claro. Fizemos um casamento de papel passado com o PMDB e temos de assumir. O PT tem se sacrificado e eu concordo com isso. Acho que, depois de um ano, esse casamento está indo melhor do que muitos que eu conheço por aí.

O PT mudou o discurso e agora aplaude os leilões de concessão dos aeroportos. O partido errou quando criticava as privatizações do governo Fernando Henrique?
Em setores estratégicos temos de manter o controle público, mas não vejo sentido em deixarmos determinadas áreas nas mãos do Estado. O que o PT faz hoje é uma privatização seletiva. Há grande diferença com aquilo que foi feito quando FHC era presidente. O PSDB meteu os pés pelas mãos.

O julgamento dos réus do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, num ano eleitoral, não constrange os candidatos do PT?
Está passando da hora de nós, do PT, enfrentarmos esse problema. Acredito que os juízes terão de se manifestar com base em provas. O julgamento feito até aqui foi injusto com o PT, foi parcial. Essa crise nos deixou cicatrizes muito grandes. São marcas que nunca vão sair.

Qual é, hoje, o maior desafio do partido?
O PT tem de se cuidar para não virar refém do poder que conquistou. Isso vale para a esfera federal, estadual e municipal. O Acre, por exemplo, é o governo mais longevo do PT, que administra o Estado há 14 anos. Aprender a lidar com o poder é lembrar que temos dia e hora para sair e ceder o lugar a outro.

O senhor, então, é contra a reeleição da presidente Dilma?
Sou a favorável à reeleição. Podemos ter 20 anos no poder, mas não podemos ter cegueira situacional.

16/02/2012 - 09:04h José Serra não será candidato. De si mesmo

Por Cristian Klein – VALOR

De toda a barafunda e complexos cálculos políticos nos quais se enredou a disputa pela Prefeitura de São Paulo, um dos aspectos mais subestimados é como a dinâmica eleitoral desencandeou um processo no qual os nomes contam menos do que a formação de coligações. O que está em questão é a preservação e a expansão de grupos políticos.

Todas as atenções estão voltadas para a importante informação sobre se o ex-governador tucano José Serra, tal como uma “prima donna”, entrará ou não no jogo. A participação de Serra, para o campo conservador, é vista como a redenção. O governador Geraldo Alckmin, seu adversário interno no PSDB paulista, já fez de tudo para rebaixá-lo. Agora, o procura de braços abertos e espera pelo seu sim.

Mas a presença de Serra pode ser menos determinante ou providencial do que se imagina. O arranjo se dá mais pela movimentação dos grandes blocos políticos do que pela vontade pessoal dos concorrentes.

Os nomes importam menos do que as alianças partidárias

Não faz muito tempo, o PT estava isolado, sem a adesão das legendas que lhe dão apoio no governo federal. Bastou que o PSD do prefeito Gilberto Kassab insinuasse uma coligação que o ex-ministro da Educação Fernando Haddad passasse à condição de favorito.

Não contam apenas os atores principais – as máquinas municipal (PSD), estadual (PSDB) e federal (PT). Um conjunto de siglas médias, como PSB, PDT, PTB, PCdoB e PR, ajudam a levar o pêndulo ora para um lado, ora para outro. Não é o ex-presidente Lula, com toda a sua popularidade, que muda o rumo dos ventos. É a estratégia, a política de alianças, de quem consegue agregar mais.

Os nomes importam menos do que as alianças partidárias. Os grupos sobrepõem-se aos indivíduos. Caso aceite participar, José Serra será talvez o exemplo mais cabal – ainda que às avessas – da velha máxima de que “ninguém é candidato de si mesmo”. A expressão geralmente é utilizada por pretensos candidatos em busca de aval de seu grupo político para entrar numa disputa. Reflete a necessidade de uma rede de apoios, da qual o político, qualquer que seja, depende. O caso Serra reforça a lógica de maneira inversa. É impelido de todas as maneiras para que assuma uma candidatura que não deseja. Nada menos personalista. Ontem, 20 dos 22 deputados da bancada tucana na Assembleia Legislativa lançaram uma nota em que pediam o fim das prévias e o anúncio do ex-governador como candidato do partido.

Serra, como se sabe, gostaria de concorrer, pela terceira vez, à Presidência da República, em 2014. É uma meta cada vez mais distante. A bola da vez – e, de novo, são seus correligionários, entre eles o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que mandam avisar – é o senador mineiro Aécio Neves. Resta-lhe contentar-se em ser uma espécie de salvador do PSDB em São Paulo, uma vez que o partido não tem candidatos de grande densidade eleitoral. Será um instrumento regional a serviço dos planos de Alckmin e de preservação nacional dos tucanos. Serra tornou-se uma peça pequena mas importante para a sustentação do PSDB e da oposição. Caso a capital caia nas mãos do PT, a reeleição de Alckmin está ameaçada. E se os petistas controlarem o maior Estado do país, além do governo federal, a partir de 2014, os tucanos e a oposição estarão de vez encurralados.

A candidatura Serra pode impedir que o prefeito Gilberto Kassab bandeie-se para o lado dos petistas. Kassab tem laços estreitos com Serra, de quem foi vice em 2004 e assumiu a prefeitura em 2006. É um impeditivo de ordem moral, mas não política. O comportamento do prefeito já mostrou sua inclinação a mudar de lado, num comportamento tão errático quanto maleável. Abandonou o DEM, fundou o PSD e foi o guia de um rebanho na travessia da oposição para o governismo federal e estadual.

Há uma lógica nacional da aproximação de Kassab com o PT. Aqueles que o acompanharam para o PSD o fizeram na intenção de fugir do estigma de oposicionistas. Desde 2002, ninguém encarna melhor o antipetismo do que José Serra. E, por isso, o ex-governador é muito inconveniente para Kassab.

Mas há uma lógica estadual, na qual os tucanos têm o controle do território, há quase 20 anos. O governismo em São Paulo chama-se PSDB. Que constrangimento Kassab teria em desagradar o PT, dada a reputação camaleônica que construiu, e se siglas da base federal, como PSB e PDT, já gravitam em torno da administração Geraldo Alckmin?

Entre uma lógica e outra, ambas governistas, Kassab tenta se equilibrar. O que mais importa para o prefeito é não perder a eleição, seja com quem for. É o sinal de vitória que precisa emitir para os que aderiram ao partido recém-formado, em sua primeira disputa eleitoral, e para manter a imagem de hábil articulador político.

O PSD já tem feito ou está aberto a alianças com o PT em várias capitais do país – em cerca de dois terços delas. Em São Paulo a aproximação carrega um simbolismo maior, pelo histórico de rivalidade entre as partes e a repercussão do acordo para o cenário nacional. Por intermédio de Lula, tão empenhado que está em eleger Haddad, Kassab tem a oportunidade única de quebrar as resistências do núcleo de militantes mais ideológicos do PT. Será que vai desperdiçar?

A expansão de seu grupo político no Estado depende de uma aliança com o PT ou com o PSDB. Serra também pode lhe ser útil, na medida em que o aproxima de Alckmin. Como seu desafeto, o governador criou sérios obstáculos para a criação do PSD em São Paulo, especialmente na conquista de prefeituras. Hoje, porém, passada a temporada de assédio de Kassab a prefeitos e outros quadros tucanos, Alckmin sabe que não pode continuar na mesma estratégia. Seu objetivo maior é a manutenção do espaço conquistado. Enquanto isso, PT e PSD têm a mesma meta: avançar sobre seus domínios. Facilitar essa união não é nada inteligente. Nem que para isso o governador reabilite José Serra.

Cristian Klein é repórter de Política. Escreve mensalmente às quintas-feiras

E-mail cristian.klein@valor.com.br

16/02/2012 - 08:46h PT já busca alternativa à aliança com Kassab

Por Cristiane Agostine, Vandson Lima e Carmen Munari | VALOR

De São Paulo

O PT mudou a estratégia na disputa pela Prefeitura de São Paulo e já trabalha com a possibilidade de ir às urnas sem o apoio do PSD do prefeito Gilberto Kassab. A sinalização de que o ex-governador José Serra (PSDB) pode concorrer ao governo municipal e que o PSD o seguiria colocou em alerta a cúpula petista, que passou a desconfiar da fidelidade prometida pelo PSD ao governo da presidente Dilma Rousseff.

A direção do PT dá como certa a candidatura de Serra e o consequente apoio de Kassab ao tucano, apesar de líderes do PSD garantirem nos bastidores que o prefeito paulistano “não voltará atrás” em relação à aliança em torno do pré-candidato petista Fernando Haddad.

Para minimizar os atritos, Kassab reuniu-se ontem com a presidente Dilma, em Brasília, em um encontro marcado em cima da hora (ver reportagem nesta página). Na segunda e na terça-feira, o prefeito procurou a direção do PT paulista e disse não acreditar na candidatura de Serra, pois o tucano não teria lhe contactado.

A cúpula petista, no entanto, não acreditou no argumento do prefeito e começou a articular uma nova estratégia para a campanha de Haddad. Ontem, o assunto foi discutido em reunião da Executiva estadual da sigla.

O PT mostra-se preocupado com a possibilidade de o tucano vencer a disputa municipal, fato que levaria o PSD da base governista para a oposição ao governo federal. O partido tem uma das maiores bancadas da Câmara, com 47 deputados federais e, junto com o PSDB, com 52 deputados, e o DEM, com 27 parlamentares, formaria um bloco de oposição com 126 deputados, um quarto da Casa. “Mudaria tudo no Brasil”, comentou um líder petista.

O PT classifica a relação de Kassab com Serra como “umbilical”. O prefeito foi vice do tucano na disputa pela capital, em 2004, e assumiu a prefeitura em 2006, quando Serra deixou o cargo para disputar o Estado. Kassab chama sua gestão de “Serra-Kassab”.

Dentro da legenda, o PT se dividiu em duas frentes que tentam influenciar os rumos do partido na capital e mesmo a opinião de Haddad sobre a conveniência de uma aliança com o PSD. De um lado, os favoráveis à parceria com Kassab alegam que a parceria seria estratégica, pois desarticularia a oposição e abriria caminho para a vitória na disputa estadual em 2014 – o PSDB governa o Estado desde 1995. Defendem essa tese o prefeito de São Bernardo do Campo e ex-ministro do Trabalho, Luiz Marinho, o presidente estadual do partido Edinho Silva e os deputados federais Cândido Vaccarezza e Vicente Cândido.

Já o grupo contrário à aliança – que conta com os deputados federais Carlos Zarattini, Paulo Teixeira, Ricardo Berzoini, o deputado estadual e presidente nacional Rui Falcão e boa parte do diretório municipal – enumera uma série de motivos pelos quais a aproximação com Kassab seria prejudicial ao partido.

Oposição ao governo Kassab durante toda sua gestão, esses petistas alegam que o partido ficaria sem um discurso consistente para oferecer à população na eleição, pois teriam de defender um governo que sempre criticou e está mal avaliado. Como a disputa municipal é uma eleição de contato mais próximo com os eleitores, a militância precisaria atuar com disposição nos bairros, ainda mais para vender um candidato desconhecido do grande público, e só faria isso se concordasse com o projeto. No mais, Haddad é visto no PT como um bom nome para conquistar um público mais conservador e de classe média, mas precisaria do apoio firme da senadora Marta Suplicy para adentrar as classes mais baixas. E Marta já declarou não querer “acordar de mãos dadas com Kassab”.

Outro aspecto temido por vereadores petistas é que uma eventual coligação se estenda às candidaturas proporcionais. O PSD tem pelo menos 14 bons nomes para a vereança e poderia atrapalhar o plano dos petistas, que pretendem eleger algo como 15 vereadores. Se os dois partidos estivessem na mesma chapa, a conta ficaria prejudicada e o número de petistas eleitos seria menor.

Na manhã de ontem, Haddad esteve no sindicato dos Comerciários de São Paulo. Apesar de estar na companhia do presidente da central União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah, – filiado ao PSD – Haddad seguiu a linha de raciocínio dos petistas contrários à aliança e afirmou que já trabalhava com essa hipótese. “Desde sempre colocávamos esse como o cenário mais provável. Kassab tinha hierarquizado suas prioridades e colocou Serra como sua primeira opção”, disse.

Ao comentar a apresentação de propostas para a cidade durante a campanha, Haddad aproveitou para alfinetar Serra, referindo-se à campanha presidencial de 2010. “Tivemos algumas eleições recentes que deixaram uma marca ruim na política. Quem não consegue fazer uma campanha positiva não deveria nem entrar [na disputa]. Nós não faremos isso, preservaremos a biografia dos nossos concorrentes”, afirmou.

Terminado o evento, Haddad seguiu para uma reunião com o publicitário João Santana, cotado para fazer sua campanha.

15/02/2012 - 09:55h O que seu mestre mandar

Por Rosângela Bittar – VALOR

O PT tem, hoje, uma só ideologia, uma só direção e uma só concepção política: é o que Lula mandar. O ex-presidente é o senhor do voto, da força de arrecadação, da linguagem e do discurso das campanhas e das vitórias. Portanto, ele manda e o PT obedece. Mesmo que às vezes um ou outra reajam a imposições que os prejudicam. Depois de um tempo, dedicado a convencê-lo do contrário, encaminham-se dóceis para a aceitação.

Retrato esse que, apesar da grande nitidez no momento, não impede que cabeças mais preparadas e dadas à formulação política, no PT, continuem raciocinando com autonomia. O que lhes permite ver risco no exagero e acreditar que se torna imprescindível uma reação mais efetiva por parte de políticos petistas que porventura contem com o respeito do ex-presidente. Esses amigos tentariam convencê-lo a não radicalizar tanto o pragmatismo que, na avaliação de Lula, foi o que passou a dar vitórias eleitorais sucessivas a ele e ao partido.

A política de alianças é o cerne dessa questão, nem está mais na berlinda, chegou ao PT para ficar e os demais partidos, inclusive adversários, que a praticavam antes de Lula, tentam retomar o modelo para reconquistar o horizonte da vitória.

Pragmatismo radical implica riscos

O que preocupa boa parte do PT, no momento, mesmo aprovando as alianças e precisando de Lula mais que tudo, é o óbvio: a formação de aliança com o PSD de Gilberto Kassab para melhorar as condições eleitorais do candidato Fernando Haddad em São Paulo.

Lula decidiu que o melhor para o PT seria embarcar em um amplo processo de renovação de imagem das candidaturas petistas, rifando os desgastados e jogando biografias zeradas à arena. Seu projeto-piloto foi, em gesto ousado que lhe é peculiar, a presidência da República, e deu certo, com Dilma Rousseff. Decidiu então promover nomes menos batidos em todo o Brasil, a começar por São Paulo, em um plano de tomar as rédeas da política estadual e municipal, há anos em mãos do PSDB. Mas o plano só funcionaria imobilizando adversários possíveis já no primeiro turno.

Ofereceu Haddad às eleições municipais e tem no forno o projeto estadual, com o prefeito Luiz Marinho. Aluizio Mercadante, natural candidato a comandar o governo paulista, não sofreu rasteira como a aplicada a Marta Suplicy, ainda, e foi engajado oficialmente no projeto de eleição do prefeito petista recebendo o instrumento fabuloso do Ministério da Educação, de onde saiu o candidato a prefeito e seu portfólio de campanha, que não pode ser conspurcado por um sucessor mais distraído.

Marta Suplicy esperneou contra a invenção de Lula, vende caro seu apoio ao candidato, e agora manifesta-se refratária às negociações entre o PT e o PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, para a composição da chapa que disputará a prefeitura. Ou seja, não engoliu o projeto Lula em nenhum de seus aspectos, mas sabe que o partido precisa dele e se ainda não se rendeu integralmente é porque ainda tem tempo.

Não é só dela, ou de seu agora reduzido grupo, porém, que partem os alertas sobre o mal que o comportamento do ex-presidente pode fazer ao partido, a médio prazo. “Lula está abusando do seu prestígio. Metade do PT já acha que, em vez de solução, Lula está criando problemas desnecessários”. É que o ex-presidente, autosuficiente, namora o risco.

Pelo menos três fatos consolidaram em Lula o sentimento da onipotência. Ter vencido a reeleição em plena crise do mensalão foi o primeiro deles; a vitória com Dilma, que nunca havia disputado uma eleição, foi outro feito que o maravilhou; e o terceiro foi ter saído do governo com cem porcento de aprovação popular. “Ele fala o que quer e o PT faz o que ele quer”.

O exagero, ou transposição de uma linha imaginária de limite, teria sido, primeiro, a escolha de Haddad, que o PT não reconhece como sendo do ramo. Mas aceitou como havia acatado a decisão da escolha de Dilma. Agora, a corda da política de alianças esticou-se ao máximo com o convite à união com Gilberto Kassab.

O risco do método Lula, da ocasião, tem um nome, Afif Domingos. Para os protagonistas dessas reflexões no interior do PT, o partido está de dedos cruzados: “Deus queira que o candidato seja o Henrique Meirelles, porque o PT poderá ter um discurso. O Meirelles não é do PT mas trabalhou oito anos no governo Lula e foi muito bem. E se o PSD indicar o Afif? Vai ser uma tragédia”.

Na hipótese de formalização dessa aliança o PSD indicaria o vice do PT, e o partido perderia todo o combativo discurso de campanha contra a administração da cidade, de que tanto Marta quanto Mercadante já usaram e abusaram em suas campanhas.

A tarefa principal do PT agora é direcionar as conversas, pressionar, levar o ex-presidente a abraçar a causa Meirelles. O PT não aceitará Afif ou qualquer outro nome identificado mais com o PSDB. Pelo menos até o momento em que Lula empurrar goela abaixo do partido aquilo que preferir. É ele quem segue mandando.

Não por acaso foi o político hoje mais próximo do ex-presidente, o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), que serviu de porta-voz autorizado de Lula na reunião de aniversário de 32 anos do PT, em Brasília. Marinho considerou “muito positiva” uma eventual composição PT-PSD na disputa pela sucessão municipal em São Paulo.

Ouvidos moucos à divergência, Marinho carimbou o projeto: “Creio que o prefeito Kassab pode colaborar muito para o resultado eleitoral”. E sacou da justificativa para a aliança dos até ontem contrários com a cara de pau com que o partido abordou as suas privatizações: “A oposição feita pelo PT à gestão do prefeito paulistano Gilberto Kassab se deu enquanto ele mantinha ligações com o PSDB. Agora, o convencimento da militância sobre a necessidade dessa aproximação se dará por meio de “discussões” fortalecidas por um “alinhamento de propostas” para a cidade”.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

E-mail rosangela.bittar@valor.com.br

15/02/2012 - 09:26h Petistas ‘kassabistas’ querem agilizar aliança com prefeito

Grupos ligados a Haddad, porém, acham grande a chance de Serra entrar na briga e se mantêm fiéis à ‘lógica da polarização’

15 de fevereiro de 2012

FERNANDO GALLO – O Estado de S.Paulo

O PT se divide sobre a necessidade de aguardar uma definição de José Serra (PSDB) sobre a disputa para só então avaliar o comportamento do prefeito Gilberto Kassab (PSD)ou antecipar uma aliança com o PSD para neutralizar os movimentos dos tucanos na capital.

No PT “kassabista” cresce a pressão para que o encontro do PT paulistano, que antecipa as decisões da convenção, seja marcado o mais rápido possível. A ideia, nascida no entorno do ex-presidente Lula, é justamente evitar a entrada de Serra na disputa. Se Kassab fechar a aliança com o PT, fica mais improvável a entrada do tucano. Apesar dos altos índices de rejeição nas pesquisas, ele ainda é, na avaliação petista, o mais forte candidato do PSDB.

“Arrastar essa história só interessa ao Serra. Não interessa ao PT”, afirma o vereador Francisco Chagas, favorável ao acordo com Kassab. A mesma posição é defendida por interlocutores próximos de Lula, como o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho. Segundo ele, as notícias sobre a avaliação dessa estratégia pelo PT fizeram aumentar ainda mais o assédio tucano sobre o ex-governador. “A sugestão de antecipar a convenção precipitou essa pressão”, sustentou.

No entorno do pré-candidato petista Fernando Haddad, uma maioria – que internamente vê com muitas reservas a aliança com o prefeito Gilberto Kassab – avalia que é grande a chance de Serra concorrer à Prefeitura. A hipótese nunca foi descartada mesmo com toda a movimentação de Kassab em direção ao PT. “Nós nos preparamos desde o começo para disputar a eleição dentro da lógica da polarização”, diz o presidente municipal do PT, vereador Antonio Donato.

Também contrário à aliança, o presidente nacional do partido, Rui Falcão, disse que Kassab mantém a decisão de apoiar Serra se ele for candidato. “Então, temos que procurar os partidos que não têm candidato e têm tradição de aliança conosco”. Embora saiba que o alinhamento Serra-Kassab volta a organizar o campo adversário, a ala petista contrária ao acordo vê com bons olhos a possibilidade de fazer na eleição um discurso de oposição, o que seria impossível com Kassab na chapa. “O Serra na campanha é bom pra todo mundo porque volta a colocar as coisas em seu devido lugar”, disse um dirigente. / COLABOROU MARCELO PORTELA

15/02/2012 - 09:11h Fator Serra eleva cacife de PSD e PSB e preocupa PT

Kassab na reunião do Conselho de Desenvolvimento Metropolitano: “Todos sabem que o PT e o PSD têm alianças em diversas cidades do país para as eleições”


Por Cristiane Agostine, Vandson Lima e Raphael Di Cunto | VALOR

De São Paulo

A possível entrada do ex-governador José Serra (PSDB) na disputa pela Prefeitura de São Paulo embaralhou os planos do PT e aumentou o cacife do PSD e PSB na negociação em torno de alianças eleitorais. A cúpula petista vê com preocupação a pré-candidatura do tucano, com receio de perder a aliança não só com o PSD mas também com o PSB. Sem os dois aliados, o projeto político de o PT ganhar em 2014 o governo estadual de São Paulo, comandado há cinco gestões pelo PSDB, ficaria em risco.

A eventual pré-candidatura de Serra atrapalha os planos do PT, que sonha com a vitória do ex-ministro Fernando Haddad no primeiro turno. O partido conta com a aliança com o PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e estava acertando os últimos detalhes para fechar um acordo com o PSB, em articulação feita por Kassab.

A aliança com o PSD é defendida pelo comando petista desde meados de 2011, com vistas à construção de um grupo político que enfrente o PSDB não só em 2012, mas também em 2014, na disputa estadual. O possível lançamento de Serra, avalia o PT, fará com que Kassab componha com o tucano e leve consigo o PSB. O prefeito é ligado politicamente a Serra, de quem foi vice na disputa municipal em 2004 e de quem herdou a prefeitura da capital em 2006, quando o tucano deixou o cargo para concorrer ao Estado.

A cúpula do PT vê a aliança com Kassab como “essencial” para ganhar a prefeitura. A principal vantagem do acordo com o prefeito é ter a máquina pública para fortalecer a candidatura de Haddad. A capilaridade das subprefeituras e o caixa municipal turbinariam o petista. O apoio do prefeito ajudaria a quebrar a resistência da classe média e a abrir diálogo com o eleitorado conservador, que não votou no PT em outras eleições. O partido avalia que se ficar concentrado só no eleitorado tradicional petista, na periferia, não ganhará. A possível indicação do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles como vice de Haddad facilitaria no contato com empresários e na captação de recursos.

O PT também está de olho no tempo de televisão do PSD. Se o partido de Kassab conseguir no Tribunal Superior Eleitoral tempo de televisão e recursos do fundo partidário, oferecerá ao aliado mais três minutos no horário eleitoral. Dessa forma, Haddad, que ainda é pouco conhecido, ficaria com quase metade do tempo da propaganda eleitoral.

Enquanto o PT observa com atenção a movimentação de Serra, o PSD comemora por ser cortejado tanto por petistas quanto por tucanos. Na análise de dirigentes da sigla, ainda que Serra não dispute a prefeitura, os rumores da pré-candidatura pressionarão o PT a oficializar o acordo com o PSD o quanto antes para evitar a aliança com o tucano.

A possível entrada de Serra na disputa paulistana divide o PSD. Nos bastidores, um grupo de dirigentes duvida dessa pré-candidatura e avalia que ela atrapalhará alianças do partido com o PT em todo o país. Além disso, criará atritos com o governo federal, já que o tucano tornou-se uma das principais vozes da oposição à presidente Dilma Rousseff, enquanto Kassab buscou estreitar a relação com a presidente. Para esses dirigentes, sem o acordo com o PT, o ideal seria lançar a candidatura própria, com o vice-governador Guilherme Afif Domingos.

Outro grupo do PSD analisa que candidatura de Serra colocaria as coisas em seu devido lugar, pois haveria a defesa concreta da gestão que Kassab e Serra compartilharam. Para estes, a costura levaria o PSB para a chapa e a vice ficaria com Alexandre Schneider (PSD), secretário municipal de Educação, ex-tucano próximo de Serra e do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB).

Kassab, fundador do PSD, evitou falar sobre a possível alteração na disputa municipal. “É até desrespeitoso da minha parte falar em relação a uma eventual candidatura [de Serra] porque ele já me afirmou que não será candidato”, disse. “Cabe ao Serra definir seu futuro. Prefiro manter o silêncio”.

O PSB, a exemplo do PSD, comemora o aumento do assédio do PT e PSDB. Com um cenário “incerto”, nas palavras do governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos, o partido ainda não decidiu quem irá apoiar. Partido que apoia tanto o PT, no governo federal, quanto o PSDB, no Estado, e o PSD, na prefeitura, o PSB ganha peso na disputa com essa indecisão sobre o rumo de Kassab.

A legenda é um dos alvos do PT, ao lado de PR, PDT, PCdoB e PMDB, mas tende a apoiar os tucanos, segundo o secretário de Turismo do Estado e presidente estadual do PSB, Márcio França, em gratidão ao gesto do PSDB, que desistiu de concorrer em cidades importantes do interior, como Campinas e São José do Rio Preto, para apoiar o PSB.

“Em política, nada é impossível, até porque não temos qualquer tipo de inimizade no PT. Mas hoje as condições são mais próximas do PSDB e, se possível, em aliança com o PSD”, afirmou França. “Se confirmada a candidatura do Serra, muda todo o cenário e se torna ainda mais fácil essa aliança”, comentou. Essa “ponte” foi sondada como forma de tornar a aliança de Kassab com o PT mais aceitável para os petistas contrários a compor com o prefeito. O PSB indicaria um vice alinhado a Kassab para Haddad e facilitaria a composição.

Serra, se for candidato, terá chance de agregar outros partidos à sua candidatura. O PDT, que tem como pré-candidato o deputado federal e presidente da Força Sindical Paulo Pereira da Silva, poderia indicar Paulinho como vice do tucano. O PPS, da pré-candidata Soninha Francine, também sofreria desistir. O DEM, que negocia apoiar o PMDB, é outro provável aliado de Serra.

No PSDB, a possibilidade da entrada de Serra na disputa municipal dividiu os pré-candidatos tucanos sobre a manutenção da prévia partidária para definir o candidato. O secretário estadual José Aníbal e o deputado Ricardo Tripoli defenderam a manutenção das prévias para a escolha do candidato, enquanto os secretários Andrea Matarazzo e Bruno Covas demonstraram disposição de sair da disputa em favor de Serra.

Ontem foi o último dia para inscrição dos pré-candidatos na disputa interna do PSDB. Os quatro postulantes se inscreveram, mas Serra não, segundo o presidente do diretório municipal, Julio Semeghini. A prévia está prevista para o dia 04 de março.

O presidente estadual do PSDB, deputado Pedro Tobias, defendeu a realização de prévia, mesmo se Serra quiser se candidatar. “Não concordo que atropelem algo que empolgou a militância por qualquer motivo que seja”, disse.

O governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB), mostrou-se cauteloso e disse que ainda é preciso “aguardar” a decisão de Serra.

Embora defenda a prévia, a bancada de oito vereadores do PSDB vê com bons olhos a possível candidatura de Serra, que puxaria votos para a legenda e ajudaria na reeleição dos parlamentares. “Em 2008, mesmo com o [governador] Geraldo Alckmin ficando em terceiro, elegemos a maior bancada da Câmara, com 13 vereadores”, disse o líder da bancada, Floriano Pesaro. Para o tucano, o importante é a candidato próprio.

14/02/2012 - 09:46h PT e PSB articulam aliança com aval de Kassab para chapa de Haddad em SP

14 de fevereiro de 2012

MALU DELGADO – O Estado de S.Paulo

Uma operação política em curso nos bastidores da sucessão da Prefeitura de São Paulo pode provocar uma reviravolta no jogo eleitoral e arrefecer a resistência do PT a uma composição com o prefeito Gilberto Kassab, criador e presidente do PSD. A ideia, já debatida entre três grandes articuladores políticos – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos, e Kassab – é atrelar o PSB paulistano à candidatura do ex-ministro Fernando Haddad, com a indicação de um vice do partido que tenha a concordância e aval de Kassab.

Oficialmente, nenhum dos lados admite abertamente a negociação. Dirigentes do PSB nacional afirmam que a costura de alianças na capital ainda está em processo e que passa por conversas com o presidente estadual da sigla, Márcio França – secretário estadual de Turismo do governo do tucano Geraldo Alckmin. No PT o assunto já circula entre a cúpula. No PSD, Kassab, por ora, insistirá na indicação de um vice numa aliança com o PT.

A saída política geraria dividendos políticos a todos os lados. Kassab conseguiria fechar a aliança com o PT sem exposição direta do PSD e sem ouvir os gritos da militância petista. Mas, em troca, teria de assegurar uma vaga na chapa petista por um cargo majoritário em 2014 – ou vice-governador de São Paulo ou senador -, isso sem contar a possibilidade de uma vaga futura no ministério da presidente Dilma Rousseff para ele próprio ou um expoente do PSD.

Para Eduardo Campos, a saída política na capital abriria portas ao projeto nacional do governador, que quer se aproximar cada vez mais do PT e se cacifar como uma possibilidade para vice de Dilma Rousseff em 2014 ou para tentar um voo solo em 2018. Segundo petistas envolvidos nas discussões, “vale lembrar que o PMDB de Michel Temer vai lançar candidatura própria na capital paulista com Gabriel Chalita (ex-tucano) e, num eventual segundo turno, o partido pode cair no colo de Geraldo Alckmin”.

Sob o ponto de vista do PT, uma aliança com o PSB seria extremamente lucrativa, sobretudo porque mina alianças do partido com os tucanos no Estado de São Paulo. Além disso, os petistas amarrariam o apoio de Kassab a Haddad sem provocar traumas na militância, que resiste fortemente à união com o PSD.

Vice. Uma eventual aliança com o PSB começou a ser traçada no dia 23 de janeiro, quando Eduardo Campos visitou Lula em São Paulo. O petista faz tratamento contra o câncer de laringe no hospital Sírio-Libanês. O Estado apurou que a proposta foi feita pelo governador ao ex-presidente e que estaria vinculada, obviamente, à anuência de Kassab. Eduardo Campos aproximou-se do prefeito de São Paulo na ocasião da criação do PSD. Num primeiro momento, ambos chegaram inclusive a cogitar uma fusão das duas siglas.

O governador teria já começado a debater o assunto da aliança na capital com Kassab, ainda que seja prematuro qualquer passo neste momento.

Se fechar uma aliança com o PT, Kassab terá dificuldades para indicar um nome da legenda para vice de Haddad. O vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, só aceita uma composição com o PSDB. O ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, mais palatável ao PT, recusa-se terminantemente a aceitar a missão.

O nome cogitado por Kassab até o momento é o de Alexandre Schneider, secretário municipal de Educação. A militância do PT, porém, não aceita a indicação.

‘Pouco provável’. Questionado pelo Estado sobre as conversas em curso, o secretário estadual do PSB, Márcio França, afirmou que tal cenário é “muito pouco provável”. “O diretório estadual do PSB tem forte relação com o PSDB. Qualquer negociação tem que ser conduzida pelo Eduardo Campos. Não vejo empecilho (para uma aliança com o PT na capital), mas é pouco provável. Acabamos de fechar com o PSDB em Campinas”, pondera. França admite, porém, que “Kassab é um parceiro para o futuro do Eduardo Campos e do PSB”.

Segundo o presidente municipal do PT, vereador Antonio Donato, “as conversas com o PR e com o PSB têm sido muito promissoras”.

14/02/2012 - 09:26h ‘Definição tardia é definição derrotada’, diz Kassab

Questionado sobre eventual entrada de José Serra no processo eleitoral de São Paulo, prefeito diz ser ‘até um desrespeito trabalhar com essa hipótese’

14 de fevereiro de 2012

O Estado de S.Paulo

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), disse ontem que uma candidatura “tardia” do ex-governador José Serra (PSDB) à Prefeitura é uma “definição derrotada”.

“Não existe essa hipótese porque definição tardia sempre é definição derrotada, então não tem sentido”, disse o prefeito ao ser questionado sobre a possibilidade de Serra resolver se candidatar na última hora. “E ele tem dito que não é candidato. Seria até um desrespeito trabalhar com essa alternativa. Cabe a ele essa questão”, afirmou, após cerimônia no Tribunal de Justiça.

Tucanos ainda pressionam o ex-governador a entrar na disputa, apesar de ele ter dito a aliados, há cerca de um mês, que não quer entrar na eleição. O governador Geraldo Alckmin trabalha para que ele reverta a decisão, mas, assim como Kassab, acha ruim que Serra entre na disputa na véspera da convenção, em junho.

Apesar de dizer que se Serra resolver se candidatar o PSD o apoiará, o prefeito trabalha agora por uma aliança com o candidato petista, Fernando Haddad. Para ele, as vaias recebidas durante a festa de aniversário do PT, na sexta-feira, são “um fato normal de uma democracia”.

“O que existe na cidade de São Paulo, por conta dessa peculiaridade – que nas últimas eleições fomos adversários – é uma polêmica maior: as pessoas se manifestam com mais paixão, os que são a favor aplaudem, os contra vaiam. Isso é normal de uma democracia”, disse o prefeito, que completou: “Mas vamos registrar que não somos inimigos”.

O prefeito afirmou ser “compreensível” que o PT consulte as bases sobre a aliança com o PSD “para a eventualidade de os partidos quererem avançar”.

Indagado sobre a ação pró-aliança, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disse: “O presidente Lula sabe como ninguém, por conta do seu espírito, a importância de as decisões serem amadurecidas no partido”.

O presidente estadual do PT, Edinho Silva, também comentou ontem a aproximação com Kassab. “Ele está muito a fim de fazer aliança conosco; não é jogo de cena.” Kassab disse não descartar a candidatura própria com o vice-governador Guilherme Afif Domingos, embora afirme que esse é um cenário “cada vez mais difícil”. / NATALY COSTA, GUSTAVO PORTO e JULIA DUAILIBI

13/02/2012 - 09:15h PT dividido não vence, diz Haddad a Kassab


Ex-ministro defende unidade partidária um dia após prefeito ser vaiado em Brasília e ouve protestos em São Paulo contra a aliança com o PSD

13 de fevereiro de 2012

FERNANDO GALLO – O Estado de S.Paulo

Um dia após as vaias ao prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), na festa de 32 anos do PT em Brasília, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT) afirmou ter dito ao potencial aliado que o maior trunfo de que dispõe na eleição é a união de seu partido. Minutos depois da declaração, o pré-candidato ouviu de cerca de 600 militantes do PT paulistano o coro de “Ei, Haddad, não queremos o Kassab”.

“Eu disse a ele, na conversa que tive com ele, que o patrimônio que tenho para disputar essa eleição é o PT unido e com vontade de ganhar as eleições”, sustentou Haddad em outra festa de 32 anos do partido, na noite de sábado, organizada pelo diretório paulistano. “Qual a força que o PT tem na cidade? A sua unidade. Se não a preservarmos não temos chance de vitória.”

Haddad avaliou que a ida de Kassab a Brasília “não foi bem compreendida”, uma vez que, segundo o ex-ministro, o prefeito mantém o PT em terceiro lugar na sua ordem de preferência da composição de chapas. Ele disse ter ouvido de Kassab que “não lhe interessa o PT desunido”.

O ex-ministro ainda minimizou as vaias recebidas pelo prefeito em Brasília. “Depois de 11 anos de vida pública, já vi muito aplauso e muita vaia. É próprio da democracia as pessoas se manifestarem. Já passei por isso, vi pessoas que passaram por isso e depois foram celebradas. Como já vi o oposto também”.

Kassab, não. Minutos após as declarações, subiu ao palco e fez um breve discurso para a militância petista. Ao final, ouviu quase todo o salão de festas do Clube Tramontano – cerca de 600 pessoas, segundo os organizadores -, protestarem seguidas vezes contra a aliança com Kassab.

Desconcertado, o presidente do PT-SP, vereador Antonio Donato, puxou um grito petista e depois um Parabéns a Você, no que foi acompanhado pelo salão. Ao fim, no entanto, a grita antikassabista soou novamente.

Em seu primeiro ato de pré-campanha desde que deixou o Ministério da Educação, Haddad viu, além do coro da militância, outras manifestações contra a aliança com o prefeito. Ouviu de eleitores que lhe cumprimentaram que um acordo com Kassab era uma traição à história do PT e chegou a tirar fotos com militantes que ostentavam em suas roupas um adesivo que dizia “Haddad sim, PSD não”, acompanhada de uma imagem de veto ao atual prefeito.

Um líder petista disse que a manifestação contra Kassab na festa de São Paulo era mais importante do que a vaia de Brasília, porque ali a maioria dos presentes era composta por membros de diretórios zonais que, em sua maior parte, são também delegados no encontro municipal que ocorrerá em 2 de junho e decidirá sobre temas como as alianças.

No discurso para a militância, Donato manifestou o desconforto de parte dos petistas da capital com o movimento pró-aliança, afirmando que as decisões serão tomadas pela militância. “Não vai ser uma imposição de cima pra baixo. É a garantia que a direção pode dar”, afirmou.

Marta, sim. Instado a comentar a ausência da senadora Marta Suplicy (SP) na festa do PT em Brasília, o pré-candidato assegurou com veemência a presença dela em sua campanha. “Sou capaz de te garantir com 120% de certeza que a senadora Marta Suplicy vai, como todas as vezes, se engajar nessa campanha. Mesmo quando a Marta perdeu prévias, ela se engajou na campanha daquele que venceu”.