Desde 2008, fundo e atendimento congelaram; entidades protestam

Filipe Vilicic – O Estado SP
As contas do Instituto Rogacionista Santo Aníbal, que tem quatro convênios com a Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS) de São Paulo e atende cerca de 600 pessoas em abrigos e centros para crianças e adolescentes, estão fechando no vermelho. Para cortar os gastos, a organização demitiu cinco funcionários, trocou 30 por trabalhadores com salários mais baixos e cancelou duas oficinas para cerca de 100 jovens. Um dos diretores chegou a utilizar a herança familiar para cobrir parte das dívidas da instituição (que, mesmo assim, alcançam R$ 25 mil). “O problema é que as despesas aumentaram nos últimos anos, mas o repasse da Prefeitura não cresceu no mesmo tom”, aponta a assistente social Dulcinéa Pastrello. “Não conseguimos acompanhar os dissídios impostos pelo sindicato do setor. E passamos a comprar produtos, como alimentos, de pior qualidade.”
As queixas do instituto retratam a atual situação da assistência social na cidade de São Paulo. De acordo com o Fórum da Assistência Social (FAS), que representa 500 organizações paulistanas, o problema é comum a todas as 360 entidades conveniadas com a SAS, que administram serviços como abrigos, centros de convivência para crianças e núcleos para pessoas com deficiências. “Nos últimos dois anos, houve uma estagnação na verba destinada à pasta, o que impossibilitou os reajustes e prejudicou os centros”, afirma o coordenador da associação, William Lisboa.
Desde 2008, o orçamento do Fundo da Assistência Social (FMAS), que também conta com repasses federais e estaduais, é praticamente o mesmo. O que contrasta com a política que vinha sendo adotada para o setor. Entre 2005 e 2008, o aumento do valor foi de cerca de 120%. A capacidade de atendimento da rede também congelou, em 165 mil pessoas assistidas – o crescimento de 2005 para 2008 foi de quase 50%.
Pelo FAS, reajustes anuais são necessários para acompanhar a inflação dos produtos e os dissídios impostos pelo sindicato dos trabalhadores. Em 2007, foi estipulado aumento de 10% aos 30 mil funcionários do setor. Os valores dos repasses cresceram 5%. No ano seguinte, o dissídio foi firmado em 8% e a Prefeitura negou reajustes. Para 2010, o sindicato propõe 6% e não se sabe se haverá mudanças nos convênios. “Ao todo, os gastos inflaram ao menos 19% e as instituições tiveram de arcar sozinhas com esses aumentos”, diz Lisboa.
A falta de verba resultou em demissões. “Dispensam os funcionários com salários altos para contratar outros mais baratos”, relata Maria Gusmão, presidente do sindicato dos trabalhadores do setor. “Para piorar, como os centros estão ruins de caixa, não pagam nem as verbas rescisórias.” Segundo o sindicato, desde 2008 foram registradas 4.877 demissões na rede. “Outra consequência é que não conseguimos aumentar o número de assistidos”, afirma William Lisboa. “Hoje, calculamos que há ao menos 100 mil indivíduos que esperam por atendimento nas conveniadas.”
Para a próxima sexta, o FAS planeja uma manifestação com cerca de mil pessoas na frente da Prefeitura, no centro. Reivindicarão os reajustes, uma 13ª parcela nos convênios firmados e reclamarão de recentes atrasos nos pagamentos. O fórum também faz lobby na Câmara para aumentar a verba para a assistência social em 2010. A soma dos caixas da SAS e do FMAS deve ser de R$ 704 milhões. Para regularizar serviços, as entidades demandam o dobro desse valor.

Entidades cancelam convênios
Secretaria diz que contratos foram assumidos por outros parceiros; fórum prepara ação para exigir reajustes
Filipe Vilicic – O Estado SP
O congelamento dos repasses da Secretaria de Assistência Social fez entidades desistirem de convênios e demitirem funcionários. A Associação Evangélica Beneficente, que tem nove trabalhos com a pasta, deixou um abrigo que mantinha em Santana para mais de 20 crianças abandonadas. “Não tínhamos recursos para manter o serviço”, diz um integrante da associação, que pediu para não ser identificado. “As despesas aumentaram, mas os repasses não. E a situação nos pegou despreparados, sem condições para continuar o trabalho.”
De acordo com o Fórum da Assistência Social, ao menos outras duas entidades paulistanas desistiram de serviços prestados por problemas financeiros. “Há ainda dezenas que pretendem cancelar contratos no ano que vem, se os reajustes não forem feitos”, declara o coordenador da associação, William Lisboa. Segundo Lisboa, o fórum prepara uma ação judicial para exigir da Prefeitura ajustes nos convênios. “Essa situação não pode continuar”, diz. “Se o governo persistir em desprezar as necessidades do setor, os serviços logo serão sucateados e aumentará o número de pessoas carentes, como mendigos e crianças abandonadas, nas ruas.”
A assistente social Paula Lusa Soares, gerente da Promove Ação Sócio Cultural, que possui três contratos com a secretaria, receia perder o emprego com a crise. “Sem as mudanças necessárias nos repasses, pode ser que me troquem por alguém com um salário menor, mas com menos experiência”, diz Paula, que tem um soldo superior aos cerca de R$ 2 mil estipulados pela Prefeitura para seu cargo. “Os aumentos vieram principalmente com os dissídios da categoria.”
Paula se formou em Serviço Social em 1982 e administra há oito anos o centro de desenvolvimento social e produtivo para adolescentes em Vila Albertina. Ela relata que há uma demanda reprimida na região: cerca de 500 jovens estariam esperando por assistência. E, para Paula, se o orçamento municipal destinado à área não aumentar esse grupo permanecerá sem atendimento.
Mesmo entidades saudáveis financeiramente protestam. “Felizmente, temos uma boa poupança e muitos doadores, o que nos faz depender menos da boa vontade do governo”, afirma Carlos Nambu, representante da Rede Salesiana, instituição com cinco convênios. “Mas se não tivéssemos esse respaldo, estaríamos sofrendo.”
A assistente social Neiri Bruno, integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Seguridade e Assistência Social da PUC-SP, analisa que demissões e dificuldades financeiras prejudicam a qualidade dos trabalhos. “Relações entre o Estado e organizações filantrópicas deveriam ser mais benéficas, já que essas entidades ajudam com um serviço público que é de responsabilidade do governo”, diz. “Conflitos entre a Prefeitura e as entidades têm como consequência a estagnação do setor e o aumento da demanda reprimida.”
Para o vereador Ítalo Cardoso (PT), criador da Frente Parlamentar em Defesa da Política de Assistência Social, há descaso da atual gestão com o tema. “Os mais prejudicados são os assistidos e a população, que sofre, por exemplo, com o agravo dos problemas sociais”, defende.
OUTRO LADO
Segundo a secretaria municipal, 12 organizações encerraram convênios neste ano. “Por irregularidades na documentação apresentada ou porque não tinham interesse em continuar o serviço”, alega a chefe de gabinete, Maria Luiza Gomes de Azevedo. “Não tenho ciência de centros que deixaram a parceria por problemas financeiros.” A Prefeitura ainda diz que os contratos cancelados foram imediatamente assumidos por outras entidades e os serviços não foram descontinuados.
Secretaria cobra contrapartida das entidades
A Secretaria de Assistência Social admite que o repasse dado às conveniadas não é suficiente, por si só, para manter a qualidade dos serviços. “É necessária uma contrapartida financeira das organizações”, diz a chefe de gabinete da pasta, Maria Luiza Gomes de Azevedo.
“Quando firmamos um convênio, não existe previsão para readequação de valores. As organizações precisam se programar para cobrir dissídios sindicais e outros gastos.” Ela aponta, ainda, que os contratos destinam parte do dinheiro enviado pela Prefeitura para esses imprevistos.
Maria Luiza acrescenta que o último orçamento não previa o montante suficiente para atender às demandas das entidades, como os reajustes nos repasses. “Nossa boa vontade é limitada pelas nossas restrições financeiras”, afirma.
Frente à estagnação da capacidade de atendimento das conveniadas, a chefe de gabinete diz que não foi possível atender a uma demanda maior neste ano. “Pela situação econômica, focamos em ao menos manter os trabalhos que fazemos”, justifica.
A secretaria planeja publicar um novo modelo de convênio ainda neste ano. “Estudamos o que será possível fazer com o Orçamento de 2010″, diz Maria Luiza. “Esperamos atender a alguns dos pedidos das entidades.”
Entre as mudanças estudadas, a pasta quer aumentar a verba destinada aos salários dos funcionários e incluir uma 13.ª parcela nos convênios. “E evitaremos os atrasos nos repasses, como ocorreu neste ano por causa de problemas burocráticos e de irregularidades de algumas das parceiras”, conta Maria Luiza.