27/12/2008 - 15:21h Roosevelt mostra caminho a Obama

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PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

krugman_paul.jpgOS TEMPOS mudaram.

Em 1996, o presidente Bill Clinton, sob ataque da direita, declarou que “a era do governo grande acabou”.

Mas o presidente eleito Barack Obama, propelido por uma onda de repulsa àquilo que o conservadorismo causou, diz que deseja “fazer do governo uma vez mais algo de positivo”.

Antes que Obama possa tornar o governo positivo, porém, ele terá de torná-lo bom. De fato, ele terá de ser um goo-goo.
“Goo-goo”, se vocês não sabem o que quer dizer o termo, é uma expressão secular que designa os proponentes de um bom governo (”good government”), reformistas que combatiam a corrupção e o compadrio. O presidente Franklin Roosevelt foi um dos grandes goo-goo, e tornou o governo a um só tempo muito maior e muito mais limpo. Obama terá de fazer a mesma coisa.

Seria desnecessário dizer que o governo Bush representa um exemplo extremo de “anti-goo-goo”. Mas os adeptos de Bush jamais tiveram de se preocupar com governar bem e de maneira honesta. Mesmo que fracassassem em seus postos (como o fizeram tantas vezes), podiam alegar os fracassos mesmos como confirmação da validade de sua ideologia de antagonismo à idéia de governo, e como demonstração de que o setor público não é capaz de fazer coisa alguma direito.

O governo Obama por outro lado, se verá em posição semelhante à que o “New Deal” enfrentava nos anos 1930.

Como no caso do New Deal, a administração que está chegando terá de expandir vigorosamente o papel do governo no resgate à economia debilitada.

Mas também como na era do “New Deal”, a equipe de Obama enfrenta oponentes políticos que aproveitarão quaisquer sinais de corrupção ou abuso, ou os inventarão, se necessário, para tentar desacreditar o programa da nova administração.

Roosevelt conseguiu navegar em segurança por essas águas políticas traiçoeiras e melhorou fortemente a reputação do governo enquanto o expandia imensamente. Como define um recente estudo do Serviço Nacional de Pesquisa Econômica, “antes de 1932, a administração da assistência pública era vista por todos como politicamente corrupta”, e os imensos programas de assistência do New Deal “ofereciam uma oportunidade de corrupção única na história do país”. No entanto, “por volta de 1940 as acusações de corrupção e manipulação política haviam diminuído consideravelmente”.

Como Roosevelt conseguiu expandir o governo e mantê-lo limpo?

Uma grande parte da resposta está na fiscalização incorporada desde o início aos programas do New Deal. A Administração de Progresso de Obras (WPA), em particular, tinha uma poderosa divisão independente de “investigação de progresso”, cuja função era investigar queixas de fraude. A divisão era tão diligente que, em 1940, quando um subcomitê do Congresso estudou a Administração de Progresso de Obras, não conseguiu encontrar nem ao menos uma irregularidade séria que a divisão não tivesse detectado.

Roosevelt também garantiu que o Congresso não enxertasse medidas politiqueiras nos projetos de lei de estímulo; não havia verbas reservadas a fins políticos nas leis que criaram a WPA e nas demais medidas de emergência.

Por fim, mas não menos importante, Roosevelt criou um elo emocional com os americanos da classe trabalhadora, que ajudou a sustentar seu governo em meio aos revezes e fracassos em seus esforços para resolver os problemas econômicos.

Que lições a equipe de Obama tem a extrair disso?

Primeiro, a administração do plano de recuperação econômica precisa ser muito limpa.

Considerações puramente econômicas poderiam sugerir certos expedientes sorrateiros com o objetivo de promover uma adoção rápida das medidas de estímulo, mas o aspecto político da situação requer grande cuidado para determinar como o dinheiro poderá ser gasto. A fiscalização é crucial: os inspetores gerais terão de ser fortes e independentes, e os responsáveis por denúncias terão de ser premiados, e não punidos como o foram nos anos Bush.

Segundo, o plano tem de estar completamente livre de gastos motivados por considerações políticas. O vice-presidente eleito Joseph Biden recentemente prometeu que o plano “não se tornará uma árvore de Natal” -o novo governo terá de cumprir essa promessa.

Por fim, a administração Obama e os democratas em geral precisam fazer tudo o que puderem para promover a formação de um elo com o público semelhante àquele de que Roosevelt desfrutava. Pouco importam os resultados favoráveis de Obama nas pesquisas atuais, baseados na esperança de sucesso. Ele necessitará de uma base forte de apoio que continue ao seu lado mesmo quando as coisas não estiverem indo tão bem.

E preciso dizer que os democratas começaram mal quanto a isso. A tentativa de coroar Caroline Kennedy como senadora parece confirmar 40 anos de propaganda conservadora de denúncia às “elites liberais”. E tenho certeza de que não fui a última pessoa a fazer careta ante as reportagens sobre a casa de luxo que os Obama alugaram para férias na praia. Não porque haja algo de errado em a família do presidente eleito tirar férias agradáveis, mas por que o simbolismo importa, e aquelas não eram as imagens que deveríamos estar contemplando em um momento no qual milhões de norte-americanos estão aterrorizados quanto às suas finanças.

Está bem, a história mal começou. Mas é exatamente esse o ponto. Reparar os problemas econômicos requererá tempo, e a equipe de Obama precisa começar a pensar já, enquanto as esperanças ainda são fortes, sobre como acumular e preservar capital político suficiente para realizar o trabalho até o fim.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

11/12/2008 - 15:29h World Bank’s ‘Wrong Advice’ Left Silos Empty in Poor Countries

By Alison Fitzgerald and Helen Murphy


 

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Dec. 10 (Bloomberg) — Inside and out, the rusted towers of El Salvador’s biggest grain silo show how the World Bank helped push developing countries into the global food crisis.Inside, the silo, which once held thousands of tons of beans and cereals, is now empty. It was abandoned in 1991, after the bank told Salvadoran leaders to privatize grain storage, import staples such as corn and rice, and export crops including cocoa, coffee and palm oil.

Outside, where Rosa Maria Chavez’s food stand is propped against a tower wall, price increases for basic grains this year whittled business down to 16 customers a day from 80.

“It’s a monument to the mess we are in now,” says Chavez, 63.

About 40 million people joined the ranks of the undernourished this year, bringing the estimate of the world’s hungry to 963 million of its 6.8 billion people, the Rome-based United Nations Food and Agriculture Organization said yesterday. The growth didn’t come just from natural causes. A manmade recipe for famine included corrupt governments and companies that profited on misery. Another ingredient: The World Bank’s free- market policies, which over almost three decades brought poor nations like El Salvador into global grain markets, where prices surged.

“The World Bank made one basic blunder, which is to think that markets would solve problems of such severe circumstances,” said Jeffrey Sachs, director of the Earth Institute at Columbia University and a special adviser to UN Secretary-General Ban Ki- moon. “But history has shown you need to help people to get above the survival threshold before the markets can start functioning.”


‘The Washington Consensus’

Created in 1944, the Washington-based World Bank Group spent much of its first 35 years dispensing low-interest loans, grants and development advice to poor countries with an eye toward promoting self-reliance. In 1980, the bank’s executives began attaching conditions to loans that required “structural adjustments” in the recipients’ national economies. The mandates were designed to have poor countries cut import tariffs, reduce government’s role in enterprises such as agriculture and promote cultivation of export crops to attract foreign currency.

The philosophy, which came to be known as “The Washington Consensus,” was based in part on assumptions that importing basic grains would be inexpensive and that farmers in developing nations could earn more producing exports. Food prices had fallen for years and few economists thought that would change, said Mark Cackler, manager of the bank’s Agriculture and Rural Development Department in Washington.


Exporter to Importer

In 2007 and the first half of 2008, an index of more than 60 food commodity prices compiled by the FAO rose 82 percent. While costs have since eased, they were 20 percent higher on Nov. 1 than at the end of 2006.

The increases hit hard in countries such as El Salvador, which had adopted the principles of the Washington Consensus in return for loans. El Salvador’s Central Reserve Bank said the total amount of the lending was “not available.” The Agriculture Ministry did provide this measure of their effects: The country was a net exporter of rice 20 years ago; now it imports 75 to 80 percent of what it consumes.

The World Bank has “given consistently wrong advice,” said Jose Ramos-Horta, the president of East Timor in Asia and the 1996 Nobel Peace Prize winner.

“It is their advice — that buying externally is cheaper than producing — that has resulted in this,” he said.

‘More Than Underinvestment’

Current and former World Bank officials say small countries hurt their own agriculture industries by suppressing prices, taxing farms, inflating exchange rates and favoring urban development. They reject the assertion that structural adjustment loans hurt developing nations’ self-sufficiency.

“The premise that this crisis was caused by these policies is something that we don’t agree with,” said World Bank spokeswoman Geetanjali Chopra. “This crisis was caused by much more than underinvestment in agriculture.”

Still, in nations such as Honduras and Ghana, imports of basic grains climbed after governments eliminated agricultural subsidies, sold off grain stores or decreased tariffs to get World Bank loans in the 1990s, according to data from the UN’s FAO.

In Honduras, 23,000 rice farmers went out of business, and employment from rice fell to 11,200 people from 150,000 after the government trimmed import duties, according to the human rights group Oxfam International. Honduran farms now supply 17 percent of the domestic demand for rice, down from 90 percent before the tariffs changed.


McNamara’s Shift

In Ghana, the World Bank required a tariff reduction on rice to 20 percent from 100 percent. Imports tripled, said Raj Patel, a scholar at the Center for African Studies at the University of California at Berkeley.

The free-market policies were a sharp turn from the bank’s earlier efforts — led by former bank President Robert McNamara – - to develop poor countries’ domestic agriculture and self- reliance, said Uma Lele, a World Bank economist from 1971 to 1991 and 1995 to 2005.

McNamara, who oversaw the escalation of the U.S. war in Vietnam as defense secretary under presidents John F. Kennedy and Lyndon Johnson before joining the bank in 1968, shifted his views. He introduced the structural adjustment concept in 1979, in a speech in Manila urging rich nations to open their markets to imports from poor countries.

“Developing countries will need to carry out structural adjustments favoring their export sector,” he said in the speech. McNamara, 92, declined to comment for this story.

Free Market Principles

World Bank officials were frustrated that their investment in agriculture through the 1970s wasn’t paying off, especially in Africa, said Pierre Landell-Mills, a bank economist at the time.

“There were state marketing organizations that were a complete nightmare of mismanagement and corruption,” said Landell-Mills, 69, now a principal at the Policy Practice, a public policy consulting group in Brighton, England, in a June interview. “There were unsustainable subsidies.”
The “preferred solution,” he said, was to dismantle the marketing boards, shrink governments and remove barriers to entrepreneurship.

McNamara in 1980 approved the first three structural adjustment loans. By 1985, they made up more than 25 percent of the World Bank’s total lending, according to Kyle Peters, its country services director.

Free-market principles were on the rise in the U.S. and the U.K., the bank’s major funders. Margaret Thatcher had become British prime minister in 1979 with promises of privatizing state-owned enterprises. Ronald Reagan was elected U.S. president in 1980, pledging to cut taxes and government programs.


New Ideas, New Staff

Reagan appointed Alden “Tom” Clausen, a former chief executive officer of Bank America Corp., to succeed McNamara in 1981. The new bank president was convinced “that you could fight poverty better and more efficiently and more quickly if you get the policies of a country right,”

Clausen said in an interview.

“I loved structural adjustment loans, and I made a lot of them,” he said.

As the bank’s philosophy evolved, so did its staff. Clausen hired Anne Krueger, an economist known for her advocacy of “getting prices right” by removing government controls, as vice president for economics and research in 1982. She “reshuffled the central economics staff,” wrote Devesh Kapur, in the bank’s official history, “The World Bank: Its First Half Century.”

“Of course the direction of research had changed,” Krueger, 74, said in an interview on Aug. 25. She acknowledged that some economists left because they didn’t agree with the bank’s focus. “Research moved away from big planning models with unreasonable incentives and swung toward things that were much more conducive to agriculture.”

‘Dysfunctional Systems’

Krueger led a five-volume study that concluded developing countries were hurting their own agriculture with tax and exchange rate policies. She said the bank’s free-trade principles boosted output and growth.

“These were largely dysfunctional systems,” she said. “It made sense to reduce tariffs so that countries could produce the goods that they were most efficient at.”

After leaving the bank in 1986, Krueger became first deputy managing director of the International Monetary Fund, which makes loans to help countries correct balance of payment problems and promotes economic policies.

As structural adjustment loans grew, the portion of the World Bank’s lending devoted to agriculture fell, to about 8 percent in 2000 from 30 percent in 1980. Last year, farm-related loans made up 12 percent of the bank’s $24.7 billion portfolio.


‘A Human Face’

“One of the reasons we have problems today is because of the cuts in agriculture,” said Montague Yudelman, 86, who was director of the World Bank’s agriculture department under McNamara. “If they’d made a continuously high level of investment, we’d have been in much better shape.”
By the late 1980s critics began saying the bank, along with the IMF, was fostering poverty and dependence. UNICEF, the United Nations Children’s Fund, in 1987 published a two-volume study titled, “Adjustment With a Human Face.” It concluded that some of the bank’s programs led to increases in malnutrition and disease in poor nations and urged new strategies to protect the most vulnerable people.

In 1995, just 30 days into his tenure as bank president, James Wolfensohn promised changes.

During a meeting with representatives of 12 non-profit organizations, Wolfensohn heard their argument that 15 years of adjustment lending had wiped out small farmers in countries from Africa, Latin America and Asia, damaging their ability to feed people. Some called for the bank to be disbanded.

‘A Different Way’

“What I’m looking for is a different way of doing business in the future,” Wolfensohn, a former Australian Olympic fencer and New York banker, told them. Wolfensohn, 75, who left the World Bank in 2005, declined to be interviewed for this story.

The bank’s commitment to free-market principles didn’t waver.

In 2000, as a condition for a $6.8 million agriculture loan in East Timor, the bank demanded that publicly funded agricultural service centers be privatized and rejected money for a public grain silo and slaughterhouse, according to Tim Anderson, a political economy lecturer at the University of Sydney. He has written several papers on East Timor’s development.

It also turned down proposals for the government to provide research and advice to farmers and to supply seeds and fertilizer because, “such public sector involvement has not proved successful elsewhere,” according to a World Bank mission report that year.


Small Farms Ignored

At the time, there was already evidence that private entrepreneurs weren’t serving so-called smallholders, who the bank says make up 60 percent of the world’s 2.5 billion farm households.

A 1998 study by Michael L. Morris, then a senior economist and project coordinator with the International Maize and Wheat Improvement Center in El Batan, Mexico, found that private seed companies in Africa focused on supplying large commercial operations and “often ignored small-scale, subsistence-oriented farmers located in remote areas.” Morris, 53, is now the World Bank’s lead agriculture economist for the Africa region.

In its 2008 World Development Report, the bank acknowledged that limiting governments’ participation in agriculture had hurt small farmers — citing Morris’s 10-year-old study as part of the evidence.

“The expectation was that removing the state would free the market for private actors to take over these functions — reducing their costs, improving their quality, and eliminating their regressive bias. Too often, that didn’t happen,” the bank said in the report.

No ‘Evil Force’

In 2000, Wolfensohn defended the bank to critics. During a meeting at Prague Castle that year, he told an invited crowd of 300 activists, bankers and government officials: “You should not regard us as a black and evil force. Maybe we’ve gotten things wrong. I’m sure we have in many cases.”
The next year, several non-profit groups that had worked with the bank to study its loan conditions released a report saying that the policies “have undermined the viability of small farms, weakened food security and damaged the natural environment.”

In response to the criticism from the Structural Adjustment Participatory Review International Network, the bank issued its own analysis that listed successes as well as missteps. It concluded that the required changes in agriculture were too much, too soon.


Lessons Learned

“The lessons for future policies are that agricultural adjustments are complex and require a sequence of modest steps,” the bank said in the report.
In August 2004, James Adams, the World Bank’s head of operations policy, declared the end of structural adjustments.

“We have abandoned the prescriptive character of the old policy,” Adams said in a statement. At the same time, he said, the underpinnings of the Washington Consensus “remain important themes of economic policy.”

The next year, the bank demanded that Niger privatize its irrigation systems, according to a 2007 report by Eurodad, a Brussels-based coalition of 56 non-profit groups. The requirement “has seriously damaging effects on poor farmers’ access to a precious and scarce resource,” said the report, based on an analysis of the bank’s databases. In all, the group found economic policy conditions were attached to 71 percent of loans and grants.
The World Bank in May pledged $1.2 billion for a Global Food Response Program that’s designed to speed money to the neediest countries without the usual red tape. As of last month the Bank approved $364 million for 25 countries and $541 million more is designated for 10 others.

Trade Talks Stalled

Current Bank President Robert Zoellick, a former U.S. trade representative, has promised to double agriculture spending while touting free trade as a solution to rising food prices. Zoellick, 55, declined to be interviewed.

Poor countries remained skeptical of open markets during the latest round of World Trade talks in Geneva, in July. They insisted that they be allowed to raise tariffs to protect domestic agriculture, stalling the negotiations.

El Salvador, meanwhile, has invested about $240 million in agriculture since 2004. It now gives farmers a $30 bag of the seed of their choice and a $30 sack of fertilizer.

“The World Bank had a very short-term vision; it couldn’t have been more wrong,” said Mario Salaverria, El Salvador’s agriculture minister, as he inspected corn in Sonsonate province, about 50 kilometers (31 miles) west of San Salvador.

His country must regain self-sufficiency, he said. “We can stop using our cars because of price increases, but we can’t stop eating.”

21/11/2008 - 11:29h Promissória?

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análise

Negócio entre bancos atende a Lula e a Serra

KENNEDY ALENCAR – FOLHA SP
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Em mais um gesto de boa vizinhança administrativa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador de São Paulo, José Serra, fecharam um negócio bom para os dois. A compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil atende aos interesses econômicos e políticos de Lula e Serra.
Contrariado com os grandes bancos privados, que têm segurado a concessão de crédito na crise financeira, Lula estimulou o Banco do Brasil a não deixar brecha para o Bradesco tentar comprar a Nossa Caixa.
A MP (medida provisória) 443, que abria a possibilidade de o BB e a Caixa Econômica Federal comprarem instituições financeiras total ou parcialmente, facilitou a negociação, porque o Bradesco queria um leilão para a venda do banco do governo paulista.
A MP 443 permitiu a compra direta da Nossa Caixa, fundamental para o BB tentar voltar a ser o primeiro no ranking nacional de bancos.
Essa, aliás, é uma meta de Lula: deixar o Palácio do Planalto em 2010 com o Banco do Brasil de novo na primeira posição, perdida após a fusão do Itaú com o Unibanco.
Já Serra ganhará uma bolada para financiar projetos nos seus dois últimos anos de governo.
O tucano pretende ser candidato à Presidência em 2010 e está na dianteira na briga interna no PSDB contra o governador de Minas, Aécio Neves. Serra cobra da equipe agilidade nos projetos para o dinheiro que entrará com a venda. Corre contra o tempo.
Do ponto de vista político, a operação pode ser resumida assim: um mandatário que caminha para os seus dois últimos anos de governo faz um negócio de pai para filho com o pré-candidato a presidente mais forte nas pesquisas. Na linguagem do mercado financeiro, seria uma espécie de hedge lulista.
Na transição dos governos FHC para Lula, um acordo político foi cumprido à risca: o petista não investigaria atos da gestão do antecessor tucano.
Não deixa de ser irônica coincidência o anúncio do negócio entre BB e Nossa Caixa acontecer no mesmo dia em que Lula autoriza, por decreto presidencial, a compra da Brasil Telecom pela Oi. Tudo indica que Serra, se eleito, agirá em relação a Lula como o petista atuou com FHC na rubrica “decisões de Estado com alguma margem para controvérsia”.
Por último, Lula aposta as fichas na candidatura presidencial da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), mas não vê mal em ter boa relação com Serra e Aécio. O petista pode sonhar em concorrer ao Palácio do Planalto em 2014.

16/11/2008 - 14:12h Soluções para clima e economia andam juntas

Investir na substituição de tecnologias energéticas antiquadas ajudaria na criação de empregos

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Al Gore* – O Estado SP

A inspiradora e transformadora escolha feita pelo povo americano ao eleger Barack Obama como nosso 44º presidente estabelece os fundamentos para outra escolha decisiva que ele – e nós – teremos de fazer em janeiro para dar início a um resgate da civilização humana, em caráter emergencial, da iminente e cada vez maior ameaça representada pela mudança climática.

A eletrizante redenção da revolucionária declaração feita pelos EUA afirmando que todos os seres humanos nascem iguais prepara o palco para a renovação da liderança americana num mundo que precisa desesperadamente proteger seu dote primário: a integridade e as condições de vida do planeta.

A autoridade mundial sobre a crise climática, o Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC), depois de 20 anos de estudos detalhados e da publicação de quatro relatórios unânimes, diz agora que as provas são “inequívocas”. Para aqueles que ainda se sentem tentados a ignorar os alarmes cada vez mais urgentes emitidos pelos cientistas de todo o mundo, a fechar os olhos para o derretimento da calota de gelo sobre o pólo norte e para todas as outras advertências apocalípticas feitas pelo próprio planeta, e para aqueles que dão mostras de tédio à menor menção desta ameaça existencial ao futuro da espécie humana, por favor, acordem. Nossos filhos e netos precisam que vocês nos dêem ouvidos e reconheçam a verdadeira natureza da nossa situação, antes que seja tarde demais.

Eis as boas notícias: os ousados passos necessários para resolver a crise climática são os mesmos que precisam ser tomados para resolver a crise econômica e a crise de segurança energética.

Os economistas de todas as orientações – incluindo Martin Feldstein e Lawrence Summers – concordam que investimentos rápidos e de grande valor numa iniciativa de infra-estrutura capaz de criar muitos empregos são a melhor maneira de reanimar nossa economia de maneira ágil e sustentável. Muitos também concordam que nossa economia enfrentará dificuldades se continuarmos a gastar centenas de bilhões de dólares todos os anos com petróleo importado. Além disso, especialistas em segurança nacional de ambos os partidos concordam que enfrentaremos uma perigosa vulnerabilidade estratégica caso o mundo perca subitamente o acesso ao petróleo do Oriente Médio.

Conforme disse Abraham Lincoln no momento mais sombrio pelo qual a América já passou, “a ocasião nos apresenta uma montanha de dificuldades, e precisamos corresponder à ocasião. Por ser novo o nosso problema, nós também precisamos inovar nas nossas idéias, e agir de maneira inovadora”. No nosso caso atual, pensar de maneira inovadora exige rejeitar uma definição superada e fatalmente equivocada do problema que enfrentamos.

Há 35 anos, o presidente Richard Nixon criou o Projeto Independência, estabelecendo uma meta nacional que esperava, no prazo de sete anos, desenvolver nos EUA “o potencial para satisfazer nossas próprias necessidades energéticas sem depender de fontes estrangeiras de energia”. Essa declaração foi feita três semanas após o embargo árabe ao petróleo ter provocado uma aguda elevação nos preços e obrigado a América a acordar para os perigos da dependência em relação ao petróleo estrangeiro. E – não é coincidência – isso ocorreu apenas três anos depois de a produção de petróleo dos EUA ter atingido o seu ápice.

Na época, os EUA importavam de outros países menos de um terço do total de petróleo consumido. E hoje, depois de todos os seis sucessores de Nixon terem repetido alguma versão dessa meta, nossa dependência dobrou, chegando a importação de quase dois terços do petróleo que consumimos – e muitos crêem que a produção mundial de petróleo esteja no seu ápice, ou muito próxima disso.

Alguns ainda enxergam isso como um problema de produção doméstica. Se ao menos conseguíssemos aumentar nossa produção de petróleo e carvão, argumentam eles, assim não teríamos de depender de importações do Oriente Médio. Outros inventaram maneiras ainda mais sujas e caras de obter os mesmos velhos combustíveis, como o carvão líquido, o petróleo de xisto, a areia alcatroada e a tecnologia do “carvão limpo”. Mas em cada um desses casos, os recursos em questão são caros demais ou poluentes demais.

Eis o que podemos fazer agora: um investimento elevado e imediato para empregar as pessoas na substituição das tecnologias energéticas do século 19, que dependem de combustíveis perigosos e caros de matriz carbônica, pelas tecnologias do século 21, que utilizam combustível gratuito e abundante: o sol, o vento e o calor natural da terra. Segue-se um plano de cinco partes para restaurar o poder energético da América com o compromisso de produzir 100% da nossa energia a partir de fontes livres do carbono em um prazo de dez anos. É um plano que nos aproximaria de soluções para a crise climática e econômica – e criaria milhões de novos empregos que não poderiam ser terceirizados.

Em primeiro lugar, Obama e o novo congresso deveriam oferecer incentivos de larga escala ao investimento na construção de instalações solares e térmicas concentradas nos desertos do sudoeste, instalações eólicas no corredor que vai do Texas até as Dakotas e instalações avançadas em pontos de grande geração de calor geotérmico capazes de produzir boa quantidade de eletricidade.

Em segundo lugar, devemos começar o planejamento e construção de uma rede nacional inteligente e unificada para o transporte da energia renovável, desde as zonas rurais onde ela é gerada na sua maior parte até as zonas urbanas onde ela é consumida. Nova fiação subterrânea de alta voltagem e grande eficiência pode ser projetada com recursos “inteligentes” , eliminando o desperdício. O custo dessa rede moderna – US$ 400 bilhões ao longo de dez anos – não se compara à perda anual das empresas americanas (cerca de US$ 120 bilhões) provocada pelo efeito cascata de falhas que são endêmicas à nossa rede elétrica.

Em terceiro lugar, devemos ajudar a indústria automobilística americana (não apenas as três grandes, mas também as novas empresas, mais inovadoras) na rápida conversão para modelos híbridos capazes de funcionar alimentados com a energia renovável que estará disponível conforme este plano amadurecer.

Em quarto lugar, devemos embarcar num esforço nacional pela adaptação de melhores sistemas de isolamento e janelas e sistemas de iluminação de maior eficiência energética. Aproximadamente 40% das emissões de dióxido de carbono nos EUA vêm dos prédios – e combater esta poluição economiza o dinheiro dos proprietários de apartamentos e de estabelecimentos comerciais. Esta iniciativa deve ser acompanhada no Congresso por uma proposta de ajuda aos americanos prejudicados pelas hipotecas cujo valor excede o de seus lares.

Em quinto lugar, os EUA devem mostrar o caminho adotando um preço doméstico para o carbono, e liderando, no ano que vem, o esforço mundial em Copenhague pela substituição do Tratado de Kyoto por um pacto mais eficaz, que limite as emissões globais de dióxido de carbono e encoraje os países a investir juntos, de maneira eficiente, na rápida redução da poluição responsável pelo aquecimento global, e na redução do desmatamento.

É claro que a melhor maneira – na verdade a única maneira – de garantir um acordo global para proteger nosso futuro é por meio do restabelecimento dos EUA como um país detentor da autoridade moral e política para liderar o mundo na direção de uma solução.

Olhando para o futuro, tenho grande esperança de que teremos a coragem de abraçar as mudanças necessárias para salvar nossa economia, nosso planeta e, afinal, a nós mesmos.

Numa era anterior de transformação na história americana, o presidente John F. Kennedy desafiou nosso país a colocar um homem na lua dentro de dez anos. Oito anos e dois meses mais tarde, Neil Armstrong pôs os pés na superfície lunar. A média de idade entre os engenheiros de sistemas que comemoraram o sucesso da missão da Apollo 11 na sala de controle de Houston naquele dia era de 26 anos, o que significa que sua média de idade quando o presidente Kennedy anunciou o desafio era de 18 anos.

Este ano viu igualmente a ascensão dos jovens americanos, cujo entusiasmo eletrizou a campanha de Barack Obama. Não há muita dúvida de que este mesmo grupo de jovens desempenhará um papel essencial neste projeto para garantir o futuro do nosso país, novamente transformando metas aparentemente impossíveis em sucessos inspiradores.

*Al Gore escreveu o artigo para The New York Times

10/11/2008 - 19:01h Duas visões da vitória de Obama

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por Luiz Weis – Verbo Solto

Deu nos jornais. Há poucas semanas, a deputada republicana Michele Bachmann, de Minnesota, disse na televisão que estava “muito preocupada” com a possibilidade de Obama ter “idéias anti-americanas”. No dia seguinte à eleição, ela se declarou “extremamente grata por termos um presidente afro-americano”. A vitória de Obama, exultou, “foi um tremendo sinal que nós mandamos.”

Se fosse mais uma das incontáveis cenas explícitas de adesismo que os políticos se permitem o tempo todo em toda parte (Mangabeira Unger e Eduardo Paes em relação a Lula, por exemplo, guardadas as devidas), o episódio não serviria de gancho para espetar nele um comentário – ou uma provocação – sobre o que parece a este blogueiro um dos aspectos mais interessantes da eleição americana de que a imprensa mundial se ocupou, com pencas de fatos e argumentos, mas, salvo engano, sem parar para discuti-los.

A deputada, a rigor, não aderiu a Obama. O que ela queria, segundo uma interpretação, era “não ficar no lado errado da história”. Isso deve ser verdade também para aqueles americanos que, a julgar por suas manifestações dos últimos dias, sonhavam desde criancinha com a eleição de um negro para a Casa Branca – e com os quais não se devem confundir os milhões de pessoas, dentro e fora dos Estados Unidos, que torciam ardentemente por ele e acham que o mundo ficou melhor depois da maior das terças-feiras da história da América.

Mas não é nem disso que se trata exatamente. O ponto – que remete aos tais fatos e argumentos que inundaram a mídia, sem que ela os tivesse posto em debate – está no fecho da fala da senhora Bachmann.

Repetindo: “Foi um tremendo sinal que nós enviamos”.

Então lá vai: “Nós” quem, cara-pálida?

”Nós”, evidentemente, seriam os Estados Unidos da América – os seus valores de berço com os quais o país, sem distinções, se reencontrou elegendo Obama. Não foi ele próprio quem disse, no discurso de vitória, que a América “é o lugar onde tudo é possível”?

Ou, no título do editorial da edição do último domingo do Observer, de Londres: “A América restaurou a fé mundial nos seus ideais”.

Aceitar esses enunciados pelo seu valor de face implica, primeiro, passar batido pelo fato de que esses ideais – “democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança”, Obama, no mesmo discurso – conviveram durante 76 anos (de 1787, quando foi promulgada a Consitutição de Filadélfia, a 1863, quando acabou a Guerra Civil) com a escravidão legal e, depois, durante mais de um século com a segregação racial, aberta ou disfarçada, em muitas partes da América.

É fato histórico que, entre abolir a escravidão e garantir a unidade das 13 colônias que viriam a formar os Estados Unidos, os “pais fundadores” escolheram a unidade.

É fato histórico ainda que eles adotaram um sistema político – o do voto majoritário, ou distrital, para a eleição do Congresso, combinado com a escolha em última análise indireta do presidente da República – concebido para barrar a ascensão ao poder das minorias, quaisquer que fossem. E adotaram um sistema eleitoral feito para desestimular os mais pobres a votar [“O voto americano visto do Brasil”, neste blog].

Mas é fato histórico também que, em matéria de liberdades individuais, a começar da mais essencial delas, a de expressão, nenhum país iguala os Estados Unidos.

O país, escreveu na semana passada o historiador holandês Ian Buruma, “representa o que o combalido mundo ocidental tem de melhor e de pior”. Pura verdade.

Em segundo lugar e mais prosaicamente, aceitar o enunciado de que “a América” elegeu Obama faria sentido se ele devesse a sua vitória a uma maioria homogênea, ou quase isso, de eleitores. Não foi assim: quem deu a Obama 65,4 milhões de votos (ante 57,4 milhões para McCain) foi uma determinada América – a coalisão de negros, jovens, mulheres e hispânicos das grandes cidades.

As pesquisas de boca-de-urna (depois da votação) revelaram que votaram em Obama 95% dos negros, 70% dos moradores das metrópoles, 66% dos jovens de 18 a 29 anos – o grande exército mobilizador de recursos e eleitores, via internet –, 66% também dos hispânicos e 56% das mulheres.

A propósito, dos eleitores de primeira viagem, 7 em 10 votaram em Obama.

Se dependesse apenas do voto masculino, não se sabe no que daria a eleição. Foram 49% para Obama, 48% para McCain. Se dependesse apenas do voto branco, daria McCain por 55% a 43%. Embora, proporcionalmente, mais homens brancos votaram em Obama do que em qualquer outro candidato democrata desde Jimmy Carter (1974), Bill Clinton incluído.

Além disso, Obama ganhou no Nordeste, no Meio-Oeste e no Oeste. Perdeu no Sul (Arkansas, Oklahoma, Louisiana, Tennessee, Missisippi, Alabama, Georgia e Carolina do Sul), embora tivesse obtido uma vitória histórica – com perdão pelo adjetivo – na Carolina do Norte.

A coalisão pró-Obama foi também uma coalisão de motivações – o que a ênfase no “voto da América” que percorre a mídia torna mais difícil discernir.

Os negros votaram em Obama, antes de tudo, porque era o primeiro deles escolhido candidato por um dos dois grandes partidos nacionais, portanto o primeiro a ter chances reais de chegar lá.

O mestiço Obama, no Brasil, seria mulato. Nos Estados Unidos de duas cores, negro. E, como tal, os negros o encamparam. Perguntado, depois da vitória, se preferia se referir a Obama como meio-branco e meio-negro, ou simplesmente negro, um barman de Washington respondeu: “Negro. Porque significa mais.”

Não menos revelador – e neste caso também por relativizar a teoria de que “a América” elegeu Obama – foi um comentário recolhido pelo correspondente do Globo em Washington, José Meirelles Passos, em Birmingham, Alabama.

“Sempre houve, no fundo, a sensação de que os negros não podiam ser parte do povo americano, e muito menos do sonho americano”, disse-lhe Jacqueline Wood, diretora-assistente do Programa de Estudos Afro-Americanos da Universidade do Alabama. “Nós estávamos sentados na cozinha. Agora passamos para a sala de visitas.”

Os jovens votaram em Obama principalmente por se identificar com o mais inspirador (“Yes, we can”) dos políticos americanos desde John Kennedy e decerto o mais singular deles: pelas origens, trajetória, personalidade, estampa – e coolness.

Também junto às mulheres funcionaram as suas “armas de atração em massa”. Com uma particularidade que, de novo salvo engano, só foi destacada na imprensa graças a um artigo no New York Times da sexta-feira, 7, pelo sociólogo jamaicano Orlando Patterson, da Universidade Harvard.

”Essa campanha, de maneira notável, foi uma reencenação da inteira e entrelaçada luta de negros e mulheres pela inclusão política”, observou. “A primeira vez que rejeitaram o seu confinamento ao papel de virtuosa maternidade na esfera privada no início da República foi ao liderar o combate muito público pela abolição da escravatura.”

As conquistas negras sempre pressagiaram os avanços femininos, lembra Patterson, “embora não sempre pelos motivos mais nobres”. Ou seja, o movimento pela emancipação das mulheres se nutria da seguinte rationale: afinal, se os negros podem votar, podem encontrar na lei proteção contra a discriminação e disputar cargos eletivos, por que não nós, mulheres?

A partir dos anos 1980, pela primeira vez desde que passaram a ter direito ao voto, as mulheres passaram a votar proporcionalmente mais do que os homens e em candidatos comparativamente mais progressistas.

”Em termos demográficos crus, o mais importante fator da vitória de Obama foi a margem de 13 pontos a seu favor no eleitorado feminino”, assinala o sociólogo.

De fato, a vantagem de Obama foi relativamente maior entre os mais jovens. Mas estes são apenas 18% do eleitorado. Vale para os hispânicos: como os jovens, 2 em cada 3 deles votaram em Obama; mas representam somente 8% do eleitorado. Já as mulheres (56% pró-Obama) pesaram mais porque são 53% do eleitorado.

E os trabalhadores brancos, aqueles a quem, nas prévias do Partido Democrata, e no seu pior momento, Hillary Clinton pediu o voto com uma mensagem que se curvava ao seu preconceito (”Hard-working Americans; White hard-working Americans…”)? O que levou sabe-se lá quantos deles a votar em Obama?

A resposta, numa palavra, parece ter sido a crise. Como se tivessem posto num dos pratos da balança o medo de ter um presidente negro, no outro o medo de ter um presidente branco incapaz de salvá-los do naufrágio econômico.

O New York Times ouviu um deles, no subúrbio de Levittown, Pensilvânia (Estado em que McCain investiu pesadamente, em vão, na reta final da campanha). O técnico em ar-condicionado Joe Sinitski disse ao repórter Michael Sokolove:

”Durante muito tempo eu não podia ignorar o fato de que Obama é negro, se é que me entende. Não me orgulho disso, mas fui criado a pensar que não há negros bons. Eu podia ver que ele é muito inteligente, e isso conta para mim, mas meu instinto ainda era o de fechar com o branco. Mas, quando ele escolheu [a governadora do Alasca] Sandra Palin para vice, com todos os problemas que a gente tem, isso não mostrou inteligência da parte de McCain. Não dizia coisa boa dele em geral.”

O interesse próprio prevaleceu sobre o racismo, em suma.

O que vai acontecer com o racismo americano não se pode prever. O lugar-comum que se encontra numa página dos jornais e na outra também é que o próprio triunfo de Obama – e a sua repercussão mundial sem paralelo – funciona por si só como um breve contra o preconceito.

Tomara. Afinal, o homem tem uma capacidade única de fazer com que as pessoas ponham para fora o que têm de melhor. A euforia dos europeus, por exemplo, é o reverso da medalha da hostilidade européia aos imigrantes, principalmente de pele escura.

Mas, nos Estados Unidos, há apenas quatro meses uma pesquisa nacional mostrou que apenas 30% dos eleitores brancos diziam ter uma opinião favorável de Obama. E mais: cerca de 60% dos entrevistados negros – e não mais de 34% dos brancos – achavam que as relações raciais no país são em geral ruins.

A pesquisa revelou que muitos padrões raciais na sociedade americana permanecem intocados nos anos recentes. Muito pouco mudou no componente racial da vida cotidiana no país desde 2000, quando o New York Times publicou uma série de reportagens intitulada “Como a raça é vivida na América”.

Exemplo: mais de 40% por cento dos negros americanos acham que foram parados pela polícia por causa da cor de sua pele, a mesmo índice de respostas da pesquisa de oito anos atrás.

”Devagar com o andor pós-racial”, escreveu na Folha o correspondente Sérgio Dávila. “Os Estados Unidos mudaram, os novos eleitores e os eleitores novos ajudaram a eleger Barack Obama – mas foi preciso uma crise econômica sem precedentes e o equivalente ao gênio negro na política concorrendo para que isso acontecesse.”

Toda eleição, obviamente, tem a sua circunstância. A desta, nos Estados Unidos, se chamou George W. Bush, atolando americanos em duas guerras, nos maiores índices de pobreza e desigualdade desde os impropriamente chamados Anos Dourados (a década de 1920), e, enfim, no colapso financeiro e na recessão.

Foi o que decidiu a parada em favor de Obama. Antes do derretimento de Wall Street, não custa lembrar, ele e McCain estavam cabeça a cabeça nas pesquisas.

Então, uma coisa é dizer que Obama encarna o que a América tem de melhor ou que a América ficou melhor com a sua vitória. Outra coisa é dizer que o resultado eleitoral comprova a excepcionalidade dos Estados Unidos, o poderio incomparável de seus valores.

A imprensa ficou devendo um debate sobre essas duas visões – um debate, em suma, sobre a democracia na América.

09/11/2008 - 10:49h Pivôs

VERISSIMO – O GLOBO

verissimo.jpgO golfe, o tênis e as corridas de Fórmula-1 eram atividades típicas de brancos. Até pouco tempo não se concebia um negro num country club a não ser como carregador de tacos ou, com raras exceções (como Arthur Ashe há alguns anos), numa quadra de tênis a não ser como gandula, ou que nome tenha aquela garotada que junta as bolas. E um negro chegar a campeão de Fórmula-1 era tão inimaginável como um dia um negro chegar a presidente dos Estados Unidos. Hoje, Tiger Woods é o melhor golfista do mundo e, dizem alguns, de todos os tempos, as irmãs Venus e Serena arrasam nas quadras de tênis e Lewis Hamilton acaba de ganhar o campeonato de Fórmula-1 do ano. Quer dizer — estava claro que ia dar Obama.

Já se disse que as eleições presidenciais americanas são tão importantes que todo o mundo deveria votar nelas. Alguns foram mais longe e, depois da reeleição de Bush, disseram que todo o mundo deveria votar nas eleições presidenciais americanas, menos os americanos. Mas a eleição de Obama os redimiu. Ele certamente vai entrar na lista dos presidentes “pivotais” que nos últimos 80 anos redirecionaram a História dos Estados Unidos, nem sempre para o lado certo, pelas suas personalidades ou pelas suas ações. A começar por Franklin Roosevelt, cuja situação, ao tomar posse na Presidência do país mergulhado numa crise econômica cujo epicentro também era Wall Street, mais se parece com a de Obama, hoje, e que também inspirou a nação a mudar para se salvar. Outro “pivô” histórico foi Kennedy, que tem em comum com Obama o fato de se destacar mais pelo impalpável — carisma, fotogenia etc. — do que por competência provada, e por também ter vencido um preconceito supostamente irreversível contra uma minoria, no caso os católicos, para chegar aonde chegou. De Kennedy hoje se diz que teve mais fulgor do que substância, ou que lhe faltou tempo para ser um presidente que correspondesse à sua imagem de juventude e novidade. Mas, durante o pouco tempo que teve, a imagem eletrizou o país. Do mesmo jeito, a importância simbólica da eleição de Obama talvez seja a sua única importância, mas já é o suficiente para fazer história.

Outro “pivotal” foi Ronald Reagan, que se elegeu dizendo que o governo não era a solução, era parte do problema, a frase que inaugurou a era de desregulação e permissividade que deu na crise de agora, e que, com todo o mundo financeiro dependendo da ação de governos para solucionar seus problemas, ganhou uma ironia amarga. Com este pivô o Obama não tem nada a ver

06/11/2008 - 15:35h O triunfo de uma nação

http://www.huffingtonpost.com/huff-wires/20081008/obama/images/49da8fa4-8ee2-467f-b24e-1075616b153d.jpg

Dorrit Harazim – O Globo

Na noite em que Franklin D. Roosevelt obteve colossal vitória sobre o adversário republicano Herbert Hoover, em meio à Grande Depressão que engolia os Estados Unidos em 1932, o 32º presidente eleito fez uma confidência rara ao mais velho de seus 6 filhos: — Ao longo da minha vida, eu tive medo de apenas uma coisa, Jimmy: de incêndio.

(Roosevelt tinha os membros inferiores paralisados e vivia numa cadeira de rodas). Mas hoje acho que sinto medo de algo mais.

— De quê, pai? — Medo de talvez não ter a força necessária para dar conta da tarefa.

Como se sabe, Roosevelt deu conta, e o país se reencontrou como nação para encarar a Segunda Guerra mundial.

Na madrugada de anteontem, perante uma América de todas as raças que se sentia dona de sua própria História, o 44º presidente eleito Barack Hussein Obama festejou: — Esta vitória em si não basta para trazer a mudança que buscamos — ela é apenas o meio… Talvez leve um ano, talvez mais do que um só mandato….

Mas nunca me senti mais esperançoso do que esta noite de que chegaremos lá.

Surpreendentemente, seu tom não era exultante. Era sóbrio e comedido.

Já para a multidão que acompanhava o discurso no Grant Park de Chicago com expressão de alumbramento, tudo, por um instante, pareceu possível — inclusive Obama sair dali caminhando sobre as águas.

Nessa jornada dos Estados Unidos ao encontro de sua História, o país escolheu ser conduzido por um homem cujo sobrenome (Obama), como já foi apontado, lembra o de um terrorista do Oriente Médio; e o nome do meio (Hussein) evoca o do ditador derrubado; e cujo prenome (Barack) rima com Iraque. Difícil inventar algo mais esdrúxulo para o paladar americano.

Mas é esse filho de mãe sulista branca e pai negro queniano, criado no Havaí por avó materna e deslocado para a Indonésia islâmica na juventude — tudo isso antes de procurar sua negritude na periferia de Chicago e se formar em Direito por Harvard — que acaba de receber do rapper Jay-Z a saudação definitiva: — Rosa Parks tomou assento para que Martin Luther King pudesse marchar. Martin Luther King marchou para que Obama pudesse correr. E Obama correu para que pudéssemos voar. O novo presidente é um brother.

A eleição de Obama vem tão carregada de simbolismos que cada um pendura nela o que quiser. Ela tem um efeito cascata que ultrapassa o universo do negro e sua “liberdade de voar”. Também o menino hispânico, a imigrante asiática, ou qualquer cidadão que não nasceu anglo-saxão mas tem na América o chão em que pisa todos os dias haverá de lembrar-se do dia em que Barack Obama foi eleito.

Obama expandiu a noção de pátria

A força por trás da vitória do candidato democrata pouco tem a ver com suas propostas políticas, posições ideológicas ou qualificação específica para o cargo de comandante-emchefe da nação mais poderosa do mundo. O que ele tem a oferecer, por enquanto, é o poder da imagem, o impacto de sua figura como retrato oficial dos Estados Unidos da América.

Para os povos que viveram as últimas décadas com motivos para demonizar o colosso americano, a troca do olhar furtivo de George W. Bush pelos traços mais universais de Barack Obama é tudo, menos cosmética. Ao contrário de seus antecessores, cujo lugar na História dependeu dos rumos que imprimiram a seus mandatos, Obama já garantiu sua cadeira cativa antes mesmo de ser empossado: pelo simples fato de ter sido eleito, ele já redefiniu o que é ser americano. Expandiu a noção de pertencimento, de cidadania, de pátria e de nação. Ou melhor, foram os eleitores que viram nele a possibilidade de redesenhar essas fronteiras.

De resto, a persona política do senador do Illinois continua engenhosamente indecifrável, e, portanto, sem arestas definidas, como lhe convém.

Para a geração que se perdeu entre a Guerra do Vietnã e o colapso de Wall Street essa indefinição vem a calhar, pois permite comparar o fenômeno eleitoral Barack Obama ao rastilho de voluntariado nacional desencadeado por John F. Kennedy em 1960.

Semelhanças com Kennedy

À primeira vista, nada a ver, pois o jovem senador de Massachusetts (40 anos incompletos, quando disputou a Casa Branca) já nascera milionário, caucasiano, era filho de patriarca em cujas veias corria poder. Mas ambos não passavam de calouros na política e disputaram a indicação partidária com senadores escaldados — Lyndon Johnson e Hubert Humphrey, no caso de Kennedy; Hillary Clinton no caso de Obama. Ambos, formados por Harvard, irromperam no cenário nacional de forma inesperada, tomando a palavra numa convenção partidária.

E Kennedy nascera católico, o que, para a América de 50 anos atrás, parecia impedimento político semelhante, senão maior, do que ser negro na América de hoje (à época, a hipótese de algum dia vir a existir um candidato negro sequer era aventada).

Nenhum dos dois se notabilizou por oferecer ao eleitor um plano de governo detalhado nem posições claras sobre questões pontuais de época.

Mas ambos perseguiram com teimosia uma visão de esperança na vida e confiança na capacidade de julgamento do eleitor. Ted Sorensen, conselheiro e braço-direito de JFK por 11 anos, conta que Lyndon Johnson ficou tão desconcertado com as adesões que Kennedy arrebanhava por onde passava que instruiu um assessor a espionar a campanha do adversário: “Descubra qual é o segredo dele, sua estratégia, suas fraquezas”.

Não adiantou. Só Kennedy tinha intuído que a nação americana aspirava por mudança.

Era um desejo vago, difícil de ser computado, uma vez que o presidente em exercício , Dwight Eisenhower, era um dos mais populares desde Franklin D. Roosevelt. Mas a intuição era certa.

Na eleição de 2008, a aspiração de mudança esteve escancarada o tempo todo, ao alcance de qualquer candidato.

Apenas um, Barack Hussein Obama, teve a audácia de convidar a nação a derrubar a sua fronteira mais enraizada. Pode ser uma jornada rumo ao desconhecido.

Mas ela não tem volta. A isso pode se chamar fazer História.

26/08/2008 - 17:33h Qualquer semelhança não é mera coincidência

Blog Images & Visions

© Foto de Stanley Tretick/Look

© Foto de Alexi Lubomirski.

 

A edição de setembro da revista Harper’s Bazaar, traz um ensaio com a modelo Tyra Banks posando de Michelle Obama. A famosa foto de autoria de Stanley Tretick mostrando a família Kennedy no salão oval da Casablanca inspirou o fotógrafo Alexi Lubomirski a reproduzir uma imagem semelhante.

Fonte: http://www.picturapixel.com/blog/