01/12/2008 - 11:47h ”Chave do crescimento é a indústria”

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Economista do Banco Mundial defende política industrial como melhor alternativa para assegurar o crescimento

Fernando Dantas – O Estado SP

As políticas industriais são fundamentais para o desenvolvimento econômico, mas não as que foram adotadas na América Latina a partir dos anos 50. A análise é do chinês Justin Lin, economista-chefe do Banco Mundial. Participante do encontro conjunto da seção latino-americana da Sociedade Econométrica e da Associação Latino-americana e Caribenha de Economia (Lames-Lacea), no Rio, no fim de semana passado, Lin fez uma palestra sobre a sua original visão das premissas do desenvolvimento, que se afastam tanto das recomendações liberais do Consenso de Washington quanto da visão tradicional na América Latina a favor do intervencionismo estatal.

“Muitos países fizeram reformas a partir dos anos 80, mas quase só a China atingiu taxas miraculosas de crescimento por um longo período; acho que todos os países em desenvolvimento podem ter essas taxas, desde que suas políticas econômicas levem em conta que a principal força motriz do desenvolvimento é a melhoria contínua da estrutura industrial e tecnológica”, disse Lin, ao Estado, em entrevista durante o encontro Lames-Lacea.

No seu trabalho acadêmico, Lin distingue dois tipos de política industrial: as que confrontam as vantagens comparativas (CAD, em inglês) e as que seguem as vantagens comparativas (CAF).

A América Latina, os países do bloco socialista, a Índia e a própria China, numa primeira fase, praticaram políticas industriais do tipo CAD a partir dos anos 50, todas com resultados muito ruins, segundo Lin. Depois de rápidos surtos iniciais de crescimento, aqueles países acabaram atolados em longos períodos de crise e estagnação. Em vários deles a distribuição de renda piorou – tudo por conta, na visão do economista chinês, da escolha equivocada de política industrial.

Basicamente, Lin defende que os países busquem desenvolver inicialmente os setores nos quais têm vantagens comparativas, o que para ele foi seguido por países como China e, mais recentemente, Vietnã. Aquela estratégia geralmente significa, para países não ricos, investir em indústrias intensivas em mão-de-obra e menos exigentes em termos de capital, como manufaturas leves (calçados, tecidos, brinquedos). Com essa escolha, as indústrias tornam-se competitivas nos mercados nacionais e internacionais e demandam níveis muito pequenos de proteção ou subsídio. A alta lucratividade nesses setores maximiza a rentabilidade do capital e incentiva o crescimento da poupança.

Num segundo momento, à medida que o país vai melhorando as indústrias e a tecnologia, a economia vai transitando gradativamente dos setores intensivos em mão de obra para os intensivos em capital. O fato de vir de trás significa que o país pode adotar e adaptar soluções tecnológicas desenvolvidas nos países ricos, que dependem do custoso e lento processo de invenção para avançar. É por isso que os países emergentes podem se desenvolver muito mais rapidamente do que os ricos.

O governo tem uma série de funções nesta estratégia, na visão de Lin: coletar, processar e distribuir informações sobre indústrias, produtos e tecnologia; coordenar empresas em diferentes setores para o processo de melhoria industrial e tecnológica, garantindo que a arquitetura institucional de sistema financeiro, arranjos comerciais, sistemas de distribuição, marketing e proteção à propriedade intelectual seja a mais adequada possível; e proteger de forma passageira as empresas que primeiro “testam” a política industrial estabelecida.

A opção pela política do tipo CAD basicamente procurava introduzir indústrias pesadas e altamente intensivas em capital, em países subdesenvolvidos. Numa interessante conferência em 2007, na Universidade de Pequim, Lin mostrou como diversos grandes líderes socialistas e nacionalistas do século 20, como o soviético Lenin, o chinês Mao Tsé-tung e o indiano Jawaharlal Nehru, pregaram a necessidade de desenvolver a indústria pesada.

O problema, porém, é que esses setores não tinham condição de se tornar competitivos em países com escassez de capital. Além do custo fiscal e das distorções provocadas pela necessidade de subsidiar e proteger aqueles setores, a indústria pesada absorvia uma parte desproporcional dos recursos de investimento da economia, numa tentativa vã de manter-se na corrida tecnológica com os países ricos. Assim, os setores intensivos em trabalho, que poderiam ser competitivos e deslanchar o desenvolvimento sustentável, ficavam à míngua de capital e não de desenvolviam adequadamente.

“Na minha experiência, o governo inteligente parece ser sempre um governo pragmático, que entende quais são as restrições e quais são as oportunidades e também tem a habilidade de construir um consenso social sobre como atingir aquela meta de política”, diz Lin. Para ele, este tipo de governo pode existir tanto em países democráticos como ditatoriais.

23/11/2008 - 09:23h Economistas vêem parada súbita não só do crédito, mas da economia global

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Fernando Dantas – O Estado SP

O mundo está passando por uma “parada súbita da economia”, um fenômeno pior do que a parada súbita do crédito já identificada desde o início da pior fase da crise financeira global em setembro. Esta foi uma das muitas visões sombrias sobre a economia global que dominaram os três primeiros dias da reunião conjunta da sessão latino-americana da Sociedade Econométrica Internacional e da Associação Latino-Americana (Lames-Lacea), no Rio.

Durante o congresso, do qual participam quatro prêmios Nobel de Economia, diversos acadêmicos de renome internacional e muitos dos melhores economistas brasileiros, o único consolo foi a visão majoritária de que o Brasil está numa situação relativamente melhor do que a média dos emergentes. O encontro começou na quinta e se encerra hoje.

Charles Calomiris, da Universidade de Colúmbia, previu que o consumo americano deve cair a uma taxa anualizada de 10% nos próximos trimestres. “Será a maior queda desde a Grande Depressão”, ele disse.

Já Alberto Ramos, vice-presidente do Goldman Sachs, disse que a projeção do seu banco para o PIB americano no quarto trimestre é de queda anualizada de 5%. “Acho que nunca ocorreu antes, ou talvez só na Grande Depressão”, disse Ramos, acrescentando que, mais do que uma parada súbita do crédito, o que se está ocorrendo globalmente hoje é uma inédita “parada súbita da economia”.

Para Calomiris, o crescimento da China será muito menor do que o ritmo acima de 11% dos últimos anos. Esta queda pode derrubar ainda mais o preço das commodities, e colocar pressão nas contas externas dos países latino-americanos, dependentes da exportação de matérias-primas.

Mauricio Cárdenas, economista da Brookings Institution, previu que o crescimento da América Latina pode ficar entre 1% e 2% em 2009, caso a recessão americana seja muito forte. No caso do Brasil, ele projeta crescimento de 2,5% a 3%.

O economista Michael Dooley, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, mostrou-se otimista em relação ao Brasil: “O Brasil está em melhor condição para atravessar isto tudo do que muitos outros mercados emergentes”, disse, citando o acúmulo de reservas internacionais e a credibilidade da política monetária. Quanto à queda do real, Dooley avaliou que é causada pela saída dos investidores de posições em ativos considerados de risco, como os brasileiros. “A melhor defesa é deixar o real se desvalorizar”, disse.