06/09/2009 - 16:48h As faces de Barenboim

Seis DVDs e um volume de ensaios que discute a relação entre arte e sociedade ajudam a compreender a importância múltipla do maestro e pianista argentino

 

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João Marcos Coelho – O Estado SP

 


Quando comemorou com um recital no Teatro Colón, em Buenos Aires, nove anos atrás, seus 50 anos de carreira, Daniel Barenboim foi objeto de um belo documentário chamado Múltiplas Identidades. Essas são as mais adequadas palavras para se definir este artista de gênio. Embora restrito ao universo do intérprete, seu talento é tão precoce e marcante quanto o de Mozart ou Korngold, duas das maiores crianças prodígios da história da música. Excede tanto ao piano quanto na regência sinfônica e de ópera. Mas também é magnífico e empenhado na execução de música contemporânea. Em dezembro do ano passado, numa série de concertos comemorativos da passagem dos 100 anos de Elliott Carter no Carnegie Hall, em Nova York, ele regeu obras do norte-americano com o compositor centenário na plateia.

Aos 67 anos, Barenboim de fato parece um dínamo, capaz de tocar a Orquestra Staakskapelle de Berlim e a West-Eastern Divan e continuar fazendo recitais solos e música de câmara. E, ainda por cima, encontra tempo para leituras filosóficas e para se engajar nas principais questões políticas de seu tempo. E mais: escreve livros interessantes e consistentes, como A Música Desperta o Tempo, que a Martins lança agora no Brasil (leia abaixo).

O volume e o ritmo dos lançamentos podem levar um desavisado a supor que deve haver ao menos uns três ou quatro Barenboins. O mais importante é a manutenção de um nível altíssimo de qualidade em tudo o que ele faz. Por isso, é maravilhoso podermos ter em lançamentos nacionais uma penca de vídeos que fornecem um retrato aproximado do seu incrível talento: a Music Brokers acaba de distribuir seis DVDs simultaneamente no mercado brasileiro.

É um retrato completo. Proponho um roteiro para ordenar sua entrada neste universo musical tão magnífico. Comecemos com Beethoven. Em dois DVDs, você pode assistir à integral dos cinco concertos para piano. Ele pilota o piano e rege a sua Staatskapelle. Outros pianistas já fizeram isso, só que nos concertos de Mozart. Em Beethoven o desafio é muito maior, e não enfrentado até agora por ninguém. Exceto Daniel. Ele é preciso: expressivo, perfeito ao instrumento. Com a cabeça, dá simplesmente todas as entradas e comunica com expressões faciais as exigências de dinâmica e fraseado. Impressionante.

Agora siga para o segundo DVD, onde ele rege sua originalíssima West-Eastern Orchestra, formada pouco mais de dez anos atrás em parceria com o grande intelectual Edward Said. Projeto visionário, congrega jovens músicos de todo o Oriente Médio: judeus e egípcios, palestinos e jordanianos, iranianos e sírios dividem estantes, numa prefiguração filosófico musical da solução que Barenboim-Said preconizam como única saída para o conflito no Oriente Médio – seus povos precisam assumir que integram todos uma mesma cultura, uma civilização. O concerto foi realizado numa paisagem de sonho, o palácio de Alhambra, ao ar livre, em Granada, na Espanha, em abril de 2006. Empenhadas interpretações dos jovens da West-Eastern Divan em repertórios tradicionais como Beethoven (abertura Leonora nº 3) e a primeira sinfonia de Brahms.

Também gravado em 2006, mas no mês de dezembro, no Mann Auditorium em Tel-Aviv,o DVD do concerto de comemoração dos 70 anos da Filarmônica de Israel traz o pianista Daniel Barenboim como sua atração máxima, numa vigorosa leitura do primeiro concerto para piano de Brahms. Na regência, Zubin Mehta.

Deixei para o final, de propósito, o DVD que mostra de modo mais cristalino os notáveis atributos do Daniel regente, um concerto em 2000, quando ele ainda era titular da Sinfônica de Chicago, na Trienal de Música Contemporânea de Colônia, na Alemanha. A orquestra norte-americana e a Filarmônica de Berlim encomendaram a Pierre Boulez a versão sinfônica das Notations I-IV. O ciclo das Notations foi iniciado em 1945. As primeiras quatro partes foram originalmente escritas para piano-solo, mas são ouvidas aqui em sua posterior versão orquestral. Barenboim rege de cor e consegue nos fazer gostar da música arisca de Boulez. As duas peças seguintes constituem motivo para interpretações de referência: La Mer, de Debussy, e El Sombrero de Três Picos, do espanhol Manuel de Falla. Pena que a interessantíssima conversa entre Barenboim e Boulez não tenha legendas em português (o áudio é em inglês). Porque ela vale a pena. Boulez, orgulhoso, diz que “hoje parte da obra de Schoenberg já é aceita, o que não acontecia 40 anos atrás” – argumento válido quando o intérprete é alguém da estatura de Barenboim.

Sua raiz portenha surge inteira num festivo concerto gravado ao vivo no Colón de Buenos Aires em 31 de dezembro de 2006. O DVD Tango Argentina traz de tudo, de Gardel a Piazzolla, com a Orquestra Filarmônica de Buenos Aires, a orquestra típica de Leopoldo Federico, os bailarinos Mora Godoy & Junior Cervila, e a regência de Daniel.

O maior problema que este pacote de DVDs Barenboim pode provocar por aqui é a vontade desesperada de ouvir e assistir a mais performances deste músico de múltiplas e geniais habilidades. Prepare, então, seu bolso. A EMI Classics lançou em 2007 uma caixa com seis DVDs – em quatro, a integral das 32 sonatas de Beethoven em recitais realizados em Berlim no ano anterior; nos restantes, seis master classes do músico com jovens pianistas que nos ajudam a compreender de modo novo este que é, sem dúvida, um dos maiores monumentos pianísticos de todos os tempos.

E, por fim, foi lançado na semana passada o DVD Sommernachtskonzert Schönbrunn 2009. Trata-se do tradicional concerto de verão da Filarmônica de Viena, realizado em 4 de junho, ao ar livre, nos jardins do Palácio de Schönbrunn. No repertório anunciado, a célebre Pequena Serenata Noturna, de Mozart, Noites nos Jardins da Espanha, de De Falla, e hits populares de Mussorgsky e dos Strauss, naturalmente. Aos 66 anos, Barenboim parece não ter a menor vontade de ralentar esse ritmo alucinante. Melhor para nós.

O que as notas podem ensinar sobre questões políticas e sociais

Em A Música Desperta o Tempo, intérprete deixa clara a sua crença na capacidade artística de transformação da realidade

João Luiz Sampaio


Há duas vertentes na produção intelectual de Daniel Barenboim que dialogam entre si e ao mesmo tempo reivindicam vida própria. Em seu site, o artista escreve longos ensaios nos quais se coloca perante questões que vão desde a filosofia de Espinoza até os conflitos no Oriente Médio e a defesa da criação de um Estado palestino. Já em seus livros, o que lemos é uma tentativa de estabelecer uma relação simbiótica entre música e sociedade, sem, contudo, atribuir a ela, diz o maestro e pianista, qualquer conotação política.Assista trechos de dois dos DVDs

É esse o caso de A Música Desperta o Tempo, que a Martins lança no Brasil (tradução de Eni Rodrigues e Irene Aron, 168 págs., R$ 34,90). No primeiro ensaio, Barenboim nos conduz ao longo de uma série de conceitos musicais e o modo como podem nos ensinar sobre a vida. “A música não é separada do mundo; ela pode nos ajudar a esquecer e, ao mesmo tempo, a compreender nós mesmos. (…) Os jovens que experimentam o sentimento da paixão pela primeira vez e perdem todo o senso de disciplina podem observar, por intermédio da música, como paixão e disciplina podem coexistir (…). Afinal, o que talvez seja a lição mais difícil para o ser humano – aprender a viver com disciplina ainda que com paixão – transparece (…) em cada frase musical.”

Não há em passagens como essa conotação política óbvia. Adiante, porém, quando discute conceitos de interpretação musical e tenta aplicá-los à realidade geopolítica, a questão se embaralha. Força e intensidade, por exemplo, serviriam tanto à busca por uma versão aprofundada de uma obra musical quanto para as negociações – como entre israelenses e palestinos. Força é tocar alto; é agressão. Intensidade é descobrir relações; é dialogar. Essas ideias ganham mais significado quando levamos em consideração o projeto, dele com o intelectual palestino Edward W. Said, da criação de uma orquestra (tema de outro ensaio) com músicos de origem judaica e árabe para apresentações, seminários e grupos de estudo. Segundo Barenboim, a proposta é mostrar a possibilidade de convivência. Mas há, claro, uma conotação política em passagens assim.

De qualquer forma, podemos encontrar um meio-termo. Muitos comentaristas veem em colocações como essa ingenuidade ou, no pior dos casos, um quê panfletário. Talvez não seja necessário ir tão longe. Barenboim em seu livro mostra isso claramente: acredita no poder intrínseco, estético, da arte. Ao mesmo tempo, vê a interpretação musical como a discussão de uma ideia. Toda ideia é política? Para Barenboim, ideias são simplesmente necessárias.

28/07/2009 - 16:57h Lançamento e convite

Olá, gostaria de convidar a todos debatedores do Blog para o lançamento do
meu novo livro de economia para leigos, com orelha do Mailson e prefacio do Herodoto
abraços

“Nemo mortalium omnibus horis sapit”
Prof.Dr.Carlos Eduardo Soares Gonçalves
Depto de Economia – FEA/USP

http://mail.mailig.ig.com.br/mail/?ui=2&ik=059ef31cd9&view=att&th=1229e284e3dbd60b&attid=0.2&disp=inline&realattid=f_fxeufzdh1&zw

16/06/2009 - 15:08h Dasartes número 4


13/06/2009 - 16:58h O registro de uma era de excessos

http://www.livrariacultura.com.br/imagem/capas1/489/2788489.jpg

Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, tem protagonista amoral e fala de racismo, vaidade, mesquinhez e crueldade emocional

 

 

http://ego.globo.com/Portal/entretenimento/especiais/flip/img/foto_reinaldo.jpgUbiratan Brasil – O Estado SP

Há algo de réptil em Zeca, principal personagem de Pornopopéia (Objetiva, 480 páginas, R$ 59,90), livro que marca o retorno de Reinaldo Moraes ao romance depois de 14 anos ( o último foi Abacaxi). É um vilão da cabeça aos pés – ex-cineasta marginal, ele é obrigado a filmar um vídeo promocional sobre embutidos de frango para ganhar alguns trocados. Mas, sem saber ao certo por onde começar, Zeca acaba entrando em uma espiral de sexo, bebida e drogas.

“Trata-se de um homem cafajeste, sexista, machista, politicamente incorreto, que criei sem enfrentar nenhuma censura (pessoal ou de terceiros)”, confessa Moraes, 59 anos, que conversa com o Estado em um de seus pontos de encontro mais queridos, a Mercearia São Pedro, na Vila Madalena. Será ali a festa de lançamento, no dia 29.

Um evento para festejar algo marcante. Escrevendo em sua própria voz, Moraes não se sente mais constrangido a fazer as vontades do leitor. Ele retorna a seu velho modo de escrever como se o leitor fosse um hóspede não convidado, chegando na noite errada em casa escura. Pornopopéia traz uma jornada desregrada, de proporções quase épicas e narrada com texto fluido, inquieto – como o personagem.

Zeca é a união de tipos que povoam a sociedade atual, com seu individualismo atroz e a insaciável busca pelo prazer imediato. Pornopopéia é um livro de excessos típico de uma era de excessos, algo como um potente e cuidadoso coquetel servido gelado. Afinal, fala sobre racismo, aversão a mulheres, vaidade, mesquinhez e (mais desolador) retrata a crueldade emocional que ele dirige aos semelhantes.

Apesar de amoral, ele, no entanto, desperta a piedade do leitor, uma vez que revela todas as contradições sofridas pelo homem. “Todo mundo tem ao menos um dos defeitos do Zeca, ou praticou atos ilícitos como ele”, conta Moraes, ex-economista que se tornou cultuado em 1981, com o lançamento de Tanto Faz, logo tornado bíblia de um momento literário contracultural e intimista. Fora de catálogo durante vários anos, a obra voltou às livrarias em 2003, pela Azougue Editorial, mas, cumprindo sua função de maldito, novamente só é encontrada em sebos.

Em meio às suas obsessões (gosta tanto de reescrever que, brincam os amigos, é capaz de corrigir o livro em vez de autografá-lo), Reinaldo Moraes entabulou uma animada conversa com o Estado na terça-feira. A seguir, os principais pontos.

INDIVIDUALISMO EXACERBADO

“O romance era para ser mais cômico, picaresco. Com o tempo, percebi que o personagem começou a ganhar densidade – afinal, eu não estava contando uma piada de 100 páginas. Foi quando entraram minhas experiências com casamento, amigos. Zeca, assim, ganhou contornos perigosos: tornou-se um personagem amoral. Até então, ele se recusava a pactuar com o mundo administrado, com o trabalho, mas era um cara ético, que valorizava a amizade e o amor. Resultou em um personagem canalha, autor de atos deploráveis como, por exemplo, roubar uma prostituta. Comecei a pensar em uma contradição lógica mas civilizatória: para ser socialmente livre, é preciso livrar-se do passado, das ligações afetivas (até com mulher e filhos) e fazer uma tábula rasa dos valores que recebeu: uma deflação total dos sentimentos e uma anulação dos valores. Isso criou um monstro moral. Mas é a única forma de ser essencialmente livre. O destino, no entanto, muda a vida desse cara: amoral, ele fica sem tapete. Por isso, paga o preço até por atos que não comete.”

ESPANTO COM A CRIAÇÃO

“Tive terríveis embates, especialmente à noite: estou criando um monstro! Que encara o sexo como fliperama! O herói moderno tem vários defeitos e uma qualidade. Já o vilão moderno tem um monte de qualidades e um defeito. É o caso do Zeca, que ajuda a salvar uma criança, mesmo que nem se importe com isso. Ele é acusado de assassinato e de ser traficante sem, de fato, isso ser verdade. Mas Zeca é tão inescrupuloso, tão facilmente acusável de egoísmo que é como se fosse culpado. Isso cria uma situação ambígua: ele é acusado injustamente mas merece ser punido.”

NARRATIVA EM PRIMEIRA PESSOA

“O maior desafio é criar situações que contradizem o narrador. Também é preciso não parecer chata para o leitor aquela situação que o personagem não suporta. Zeca participa de uma orgia que ele considera um porre, mas não posso, como autor, deixar isso transparecer. A solução é criar contextos que contradizem o narrador.”

INFLUÊNCIA DA REALIDADE

“Tem o fator idade: completo 60 anos em 2010 e sinto não ter tido uma carreira sólida. Fiz ciências sociais, estudei na Fundação Getúlio Vargas, quase virei tecnoburocrata. Até ir para a França, onde consegui escrever Tanto Faz. Na volta, ajudei a escrever novelas (Helena, O Campeão, Bang Bang) e seriados (Ô, Coitado!), que me transformaram em freelancer. Essa ideia de não pertinência acabou prevalecendo. Assim, sou obrigado a enobrecer os sintomas, como disse, em tom de brincadeira, meu amigo poeta Armando Freitas. Isso explica um pouco essa área eticamente pantanosa de Zeca – ele também faz o que pode, só se preocupa com os próximos 15 minutos.”

BEAT PAULISTA

“Essa fama sempre me incomodou. Fiz uma única experiência com essa linguagem, em um livro sobre Burroughs, que hoje renego, pois é recheado de maneirismo que não tem nada a ver comigo. Li Kerouac muito tempo depois de virar hit, nos anos 1980. Adorei On the Road, mas preferia Charles Bukowski, que não era beat. Eu vibrava com sua obra, marcada por personagens que reapareciam, uma narrativa sem o fluxo tradicional. Também não tinha aquele toque poético preparado – a poesia se formava à sua revelia, enquanto admirava a lua vomitando. Era a não-literatura que eu buscava. Um mar revolto em que tudo pode acontecer.”

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Tanto Faz pregava ócio como meta, e não alvo

Tínhamos sede de encrenca e o livro foi nosso mau exemplo

Jotabê Medeiros – O Estado SP

Tanto Faz foi o On the Road da minha geração. Portanto, Reinaldo Moraes foi o Kerouac que nós fizemos por merecer. Em junho de 1982, éramos majoritariamente monoglotas e estávamos começando a vida exatamente no ponto em que o Brasil saía de uma ditadura. Em Londrina, naquela época, ainda havia uns malucos que patrulhavam quem usava camiseta com símbolos imperialistas (um logotipo da Coca-Cola, uma etiqueta importada, uma Levi?s 501) – tinha até um sujeito que andava com uma tesoura pela universidade para cortar as etiquetas à força.

Os melhores livros desbundados estavam fora de catálogo, e a gente os lia em cópias xerox que passavam de mão em mão: Paranóia, do Roberto Piva; Panamérica, do José Agrippino de Paula; Alegria Alegria, do Caetano Veloso; e Deus da Chuva e da Morte, de Jorge Mautner. Não tínhamos Salinger como baliza.

Nova York, Paris e São Francisco eram tão factíveis para a gente quanto o passeio de Yuri Gagarin pela órbita do planeta. São Paulo era nosso maior sonho contracultural (e São Paulo, hoje sabemos, é uma cidade careta; “Nos anos 70 era pior”, lembrou o Reinaldo Moraes). Foi no final dessa década que ele escreveu Tanto Faz, o livro que, publicado em 1981, nos faria eleger o ócio como uma meta, quando não um alvo.

Tanto Faz foi o nosso bom mau exemplo (tinha quem preferisse Feliz Ano Velho, do Paiva, ou Morangos Mofados, do Caio F.), mas nós tínhamos sede de encrenca, não de lirismo ou memorialismo. Jogávamos sinuca a tarde toda e, em dia de assembléia do movimento estudantil, a gente marcava jogo de futebol no câmpus. Chegamos a acampar na universidade. Quando a TV baixou ali para saber qual era a pauta de reivindicações, o Careca disse: “Uma soneca depois do almoço.” Combatíamos o professor de Semiótica e ironizávamos a juventude “revolucionária” de Ulysses Guimarães.

O livro virou raridade, coisa de sebo. Foi reeditado pela Azougue há alguns anos, mas foram só mil exemplares. Ainda assim, virou uma bíblia. Todos sabemos de cor a história: um funcionário público paulistano de nome comum, Ricardo de Mello, ganha uma bolsa para fazer mestrado em Paris. Chegando lá, ele manda o mestrado para as cucuias e passa a vadiar, biritar, fumar e correr atrás de todo rabo-de-saia que vê pela frente.

O Reinaldo disse que seu personagem era o resultado “de uma fratura no sistema”. Um garoto que simplesmente se insurge contra a peremptoriedade da sociedade produtiva. Farrear é sua meta. Não era tão nobre para se tornar um punk, nem tão sem princípios a ponto de fazer carreira na política.

O livro ajudou a destravar uma geração que chegava traumatizada pelo cinto de castidade aplicado às consciências durante a ditadura. Ao mesmo tempo, uma lição de anarquia formal, antimanual literário, um relato amoral, apolítico, agnóstico, anárquico e que não tinha a pretensão de levar ninguém a lugar algum. Ok, tanto faz, porque nós o levamos conosco.

10/06/2009 - 16:44h Uma paixão que vem da infância

Coletânea de 28 textos comprova: é de menino que se aprende a amar futebol
 

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Antero Greco – O Estado SP

 


Quer ver um marmanjo abrir a guarda e voltar a ser moleque? Faça-o falar de futebol. Provoque o debate em torno da bola e verá como a sisudez cai por terra com mais velocidade do que atacante habilidoso atropelado por zagueiro botinudo. Quer ler tentativas de resgatar a infância? Convide jornalistas, poetas, médicos, historiadores, psicanalistas, advogados, sociólogos a discorrerem sobre esporte tão fascinante e desdenhado, contraditório e único. A maioria vai despir a casaca para mergulhar no passado.

A prova de que a criança está sempre à espreita para ressurgir no adulto se espalha pelas 164 páginas de A Cabeça do Futebol (Editora Casa das Musas). Carlos Magno Araújo, Samarone Lima e Gustavo de Castro, organizadores (e coautores), convocaram colaboradores de formação variada para escreverem sobre futebol. Tema popular, que aos poucos rompe preconceitos e que nos últimos anos passou a frequentar com destaque estantes de livrarias.

Muitos dos 28 textos são intimistas, embora fujam à ficção, e dão tom nostálgico ao livro. Menos do que lugar-comum, a referência à infância confirma o óbvio: é de menino que se aprende a amar o futebol, uma das raras paixões duradouras na vida. Nada mais natural, portanto, que seja tema recorrente – e associado a um jogo especial, àquele momento determinante que fixa a opção clubística.

A partida inesquecível em geral não é final de Copa do Mundo, mas vale tanto quanto. Ou mais. Pode ser um Ceub X América-RN disputado em 1975, em Brasília (No Tempo de Jacaré e Pablito Calvo, de Carlos Magno Araújo), ou Santos X Ponte, na despedida de Pelé (O Dia em Que Virei Santista, de José Roberto Torero). Quem sabe um tradicionalíssimo Fla-Flu (O Jogo, de Moacy Cirne), ou um duelo com a carga dramática de Fla X Vasco (Ele Sempre Será, de Rubens Lemos Filho).

O cenário pouco importa, porque o encantamento aos olhos do menino sempre é intenso. Forte, também, é a figura paterna. Afinal, reza a lenda que a primeira experiência em um estádio de futebol costuma ser conduzida pelas mãos do pai. Pai que pode também ir ao campo só para proteger o filho da mira de esbirros do autoritarismo (”A ditadura não é mais forte do que o amor de um pai”, de Juca Kfouri).

A paixão que vem da época das calças curtas é ponto de partida de análises minuciosas de Luiz Zanin Oricchio e Daniel Piza, polivalentes que flutuam pelo Caderno 2, o Cultura e, de quebra, são Boleiros no caderno de Esportes do Estado. Em Bola de Meia, Piza mergulha, dentre outros aspectos, em mudanças táticas, de preparação física e financeiras pelas quais passou o futebol, que no fundo se exprime mesmo com força “naquela bolinha de meia que um menino gosta de ficar rolando e chutando sem parar, marcando golaços imaginários”. Zanin constata, em Futebol, que deve ao Santos dos anos 60 “uma certa noção de elegância e beleza” que norteia sua vida. Nesse jogo, ganha quem os lê.

Serviço
A Cabeça do Futebol. Vários autores. 166 págs. R$ 25. Livraria Cultura Shopping Villa-Lobos. Av. Nações Unidas, 4.777, 3024-3599. Lançamento hoje, às 19h30

História do Lance! joga luz inteligente sobre a prática do jornalismo esportivo

 

Antero Greco – O Estado SP

 

A imprensa esportiva leva bordoada a torto e a direito. Há ocasiões em que até faz por merecer, mas muitas vezes o olhar enviesado que recebe carrega preconceito e paixão clubística. O alvo preferido costuma ser a televisão, por sua influência, alcance e estilo. A mídia impressa fica em segundo plano, no que existe de bom e ruim nessa relação acalorada. Merece menos atenção, mesmo como objeto de estudos acadêmicos.

Maurício Stycer rompe esse círculo com História do Lance!, Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo (Editora Alameda, 2009, R$ 46,00). Ele se vale da prática profissional (participou do elenco fundador do diário na segunda metade dos anos 90) e do olhar do sociólogo para esmiuçar, entender e explicar o que representa a “crônica esportiva” no País. Consegue entender o papel de área considerada menos nobre no jornalismo, porém envolvente, nervosa, cativante.

A gestação do Lance!, o nascimento de edições “gêmeas” no Rio e em São Paulo, os primeiros passos do jornal que viria a desbancar A Gazeta Esportiva e o Jornal dos Sports são componentes importantes do livro. No entanto, funcionam como pano de fundo para um panorama amplo das transformações por que passaram esporte (entenda-se futebol) e imprensa no Brasil no fim do século 20.

Conhecer bastidores de uma publicação que se firmou, apesar de prognósticos céticos, é interessante – e não apenas para quem é do ramo. História do Lance! se mostra leitura agradável porque não enxerga o tabloide como reinventor da roda no esporte. Além disso, porque viaja pela história da imprensa nacional, resgata a memória de personagens fundamentais, como Cásper Líbero, Thomas Mazzoni, Mário Filho, e lança luz inteligente sobre a prática do jornalismo esportivo.

22/03/2009 - 18:03h Por uma história crítica da mídia


Ética, Jornalismo e Nova Mídia, de Caio Túlio Costa, debate impasses da imprensa no mundo atual

 

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Marco Chiaretti – O Estado SP

 


Um grande filósofo do século 19 escreveu que ler jornal era essencial para um bom café da manhã (não havia web). Era uma época otimista: as Luzes fariam do mundo um lugar melhor e os jornais eram um dos suportes desta iluminação, formadores da opinião pública, imparciais, objetivos, independentes. O século 20 cuidou de acabar com o mito de uma Razão invencível e o novo milênio parece também não ter começado muito bem. Fantasmas rondam este mundo: crise, novas tecnologias, novos modelos, menos leitores, mais crise. Nisso tudo, há lugar para o jornalismo? Se sim, qual é o papel do jornalista? A web mudou tudo? Esta necessidade de jornais e jornalismo, ela vem do quê? Pra que jornalismo, afinal?

Vá lá saber, mas como as bruxas da anedota, o jornalismo existe, está aí, é mecanismo essencial do nosso modo de vida, e não há como subestimá-lo, até porque jornalismo implica em re-presentar, em falar sobre, e o mundo moderno é um mundo de re-presentações. Não só isso: o jornalismo é um discurso que pretende sempre ser verdadeiro, qualquer que seja a definição de verdade. Jornalistas não se veem do lado do mal e do engano (e nem são vistos assim), abominam o erro e justificam seu trabalho como um bem social. Nesse sentido, jornais, jornalistas, o jornalismo, estão indissoluvelmente ligados à noção de ética, ao conhecimento do bem e a praticá-lo. Não são só necessários, são “bons”. Será?

Essa é aquela pergunta chata, que talvez fosse de bom tom não fazer, mas ninguém que leve o jornalismo e o ofício do jornalista a sério pode deixar de fazê-la. Ética, Jornalismo e Nova Mídia – Uma Moral Provisória leva o ofício a sério. Seu autor, o jornalista e professor Caio Túlio Costa, foi um dos “jovens turcos” que no início dos 80 participaram do chamado “Projeto Folha”; mais do que isso, foi um dos líderes do processo – e o primeiro ombudsman do jornal. No fim dos 90, ele se recriou como um dos “pais fundadores” da web no Brasil. Tem uma carreira importante, marcada por sucesso e polêmicas. Pode-se desgostar do que diz e faz, mas é difícil não reconhecer seu senso de oportunidade. O livro é mais uma prova disso. A Crise de 2008 e o mundo em rede nos obrigam a pensar no tema da relatividade moral do jornalismo. De novo. E de forma diferente do que havia sido feito em outras situações.

Costa pensa difícil. Para complicar ainda mais a vida do leitor, escolheu o caminho da história do pensamento e da arte para expor seus argumentos, percurso interessante, sem dúvida, mas árduo e cheio de obstáculos. O livro trata das relações entre ética e jornalismo, indo de Sócrates a Stiglitz, de Epicuro a Kant, de Descartes a Sartre (e mais algumas dezenas de autores e personagens). Há que se ter tempo (e leitura) para atravessar o mar de citações e referências, “momentos em que a questão moral encontrou definições capazes de iluminar condutas”, que servem para montar uma história (hiper) crítica da mídia como um lugar de meias verdades, omissões e mentiras úteis, às quais se sujeitam jornalistas no desejo de acertar, metidos em um mar de erros crassos, provocados pela pressa ou pela ignorância.

Não bastasse isso, há a relatividade (a culpa é sempre de Einstein). No capítulo 9, Costa faz o elenco de algumas das aporias com as quais se defronta a Velha Mídia quando ela se vê diante do Oceano Azul da Nova Mídia. Por exemplo, o pobre jornalista, o que acontece com ele? Descolado de seu centro, o jornalista-Sol corre o risco de se apagar, subjugado por um leitor que ele não controla mais. E a famosa distinção igreja-Estado (invenção americana dos anos 20, sobre a qual se escreveram vários livros de ética e jornalismo), como fica? Para Costa, a dissolução dos limites entre atividade editorial e atividade comercial arrisca apagar a fronteira que garante a independência do negócio enquanto garante o negócio (de fato, arrisca, mas é fato que em bons jornais, o limite é sempre nítido). E o demônio do marketing? A possibilidade de ações de marketing ligadas a determinados conteúdos, se efetivada, deixa um sabor amargo de dúvida no leitor (vale para os marqueteiros o que vale para os publicitários). Isso para não falar da cultura, em geral: a redução progressiva do conhecimento por parte dos novos criadores de conteúdo cria uma geléia geral onde imprecisão e incerteza viram qualidades e não defeitos. No fim, o leitor pode se perguntar, irritado com o jornal que agora lhe estraga definitivamente o café, o que quer Caio Túlio?

Quer desmontar a pretensão à objetividade da imprensa, que desde sempre afirma que são objetivas (e verdadeiras) suas representações. Quer arrasar o que vê como a arrogância pedante dos jornais e dos jornalistas. Não existe isso, diz ele. Nunca existiu, e menos ainda existe agora, o território do jornalismo estraçalhado pela nova mídia e sua abertura ao leitor-criador.

Ok, mas esta é a parte fácil. Há a parte difícil.

Um, como ele mesmo nos lembra, jornalismo é “parte determinante da engrenagem que faz o mundo parecer o que parece ser”. Não há como prescindir dele. Dois, códigos morais temporários são encrenca. Parecem resolver o problema, mas sempre haverá uma noite em que as duas moças se encontrarão com o filósofo sedutor, ao mesmo tempo e não sucessivamente. Três, a Nova Mídia também precisa ser alvo de crítica, ou não? Soluções? O livro deixa mais perguntas do que respostas.

Enfim, precisam de jornalismo (e precisamos dele…), azar. Não durmam no ponto. Não acreditem no senso comum e cuidado com móveis encerados e jornalistas sinceros. À guisa de solução, se há uma, só a busca contínua do conhecimento e a desconfiança persistente em relação ao “estado atual das coisas”. A autoironia está no sangue ou não há jornalismo. Pena que não haja muita gente com senso de humor. Faltam caixeiros.

Ética, Jornalismo e Nova Mídia será lançado no dia 30, às 19 horas, na Livraria
Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2.073)

Ética, Jornalismo e Nova Mídia
Caio Túlio Costa

Jorge Zahar
287 págs., R$ 39,90

03/02/2009 - 16:57h Financiamento imobiliário resiste à crise no 4º tri, diz Abecip. Vendas e concessão de crédito batem recorde

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Média no período foi de R$ 2,5 bi, em linha com o resto do ano; vendas e concessão de crédito batem recorde

Chiara Quintão, da Agência Estado

SÃO PAULO – O presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Luiz Antonio França, disse nesta terça-feira, 3, apesar da piora do ambiente macroeconômico, a média mensal de financiamento imobiliário no último trimestre de 2008 foi de R$ 2,5 bilhões, em linha com a média do ano.

Segundo França, essa continuidade demonstra que a decisão de compra do imóvel foi mantida e que os bancos não ficaram mais rigorosos na concessão de crédito imobiliário.

Os números de janeiro ainda não estão fechados, mas França disse acreditar que o mês “deva ser bom”, ainda que sazonalmente o período seja mais fraco.

Recorde em 2008

A Abecip divulgou hoje os resultados da a venda de imóveis financiados com recursos da poupança em 2008. Ao todo, foram vendidas 299,746 mil unidades, com um montante financiado de R$ 30,05 bilhões. Para 2009, no entanto, França optou por não fazer previsões.

“É muito difícil fazer uma previsão nos dias de hoje. Se tivessem me perguntado em outubro sobre o quarto trimestre, talvez eu não seria tão otimista quanto os resultados foram”, disse o presidente da Abecip.

Em 2008, dos R$ 30,05 bilhões em operações financiadas, R$ 16,22 bilhões foram contratos fechados com empresas e R$ 13,83 bilhões com pessoas físicas. O item pessoas físicas abrange a parte dos repasses dos financiamentos para os bancos após a entrega das chaves que supera o que foi negociado com as incorporadoras, além de crédito para imóveis usados.

Durante entrevista coletiva, França destacou que o mercado esperava, no início de 2008, que os financiamentos imobiliários chegassem a R$ 25 bilhões no ano passado, mas que a Abecip já vinha sinalizando que o número poderia ficar próximo de R$ 30 bilhões.

O presidente da Abecip ressaltou também que foi um grande passo para o setor ter batido o recorde de 1981, quando foram financiadas 267 mil unidades, ainda que a população brasileira e a demanda por moradias tenham crescido.

O presidente da Abecip afirmou que os agentes financeiros estão preparados para atender a todas as demandas de crédito imobiliário de pessoas físicas e das empresas de construção e defendeu que os bancos continuem “operando com os mesmos padrões de segurança”.

Esperança para 2009

França disse esperar que o ritmo de vendas dos lançamentos, reduzido com a cautela maior dos consumidores, seja retomado. “Estamos em um período atípico para análise, em função da grande turbulência no mercado mundial. Tanto pessoas mais graduadas quanto mais simples estão olhando o que acontece na Bolsa do Japão”, afirmou.

Ele citou também que a velocidade de vendas caiu mais em imóveis de quatro dormitórios do que em unidades menores e que as incorporadoras estão buscando os nichos mais adequados e fazendo lançamentos somente onde têm certeza de que terão bom índice de vendas. “O mais importante é que haja demanda para os lançamentos. As instituições financeiras têm de financiar projetos que têm demanda.”

28/09/2008 - 09:39h Duas garrafas de rum

Best-sellers quando foram lançados, “Uma História dos Piratas”, de Daniel Defoe, e “Os Tigres de Mompracem”, de Emilio Salgari, revivem o imaginário sobre o tema

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CRISTOVÃO TEZZA ESPECIAL PARA A FOLHA

A figura clássica do pirata ocupa um lugar ambíguo no imaginário do Ocidente. Num aspecto, é a barbárie -alguém que abdica das regras dos Estados constituídos e rompe seu eixo moral, assumindo o direito de matar, saquear e violentar ao sabor do arbítrio.

Mas, em outro aspecto, que poderíamos chamar de literário, o pirata é uma figura fascinante que se confunde com o justiceiro vingador, aquele que não se submete a viver com o rebanho e afirma a sua individualidade sobre todas as coisas.

Nessa representação romântica, explorada pela ficção popular e pelo cinema, ele é no fundo um bom sujeito, que, por força das vicissitudes e crueldades da vida, se viu obrigado a viver solitário, à margem da sociedade. E o navio, o habitat do pirata, será o símbolo da liberdade, da aventura e do desconhecido que emergiu a partir do século 15 para desenhar o mapa de um mundo novo a ser conquistado.

Dois livros revisitam o tema, na ficção e na não-ficção -e é interessante observar como essa fronteira, ao falar em piratas, é difusa.

“Uma História dos Piratas”, de Daniel Defoe (1660-1731), apresenta-se como uma historiografia, ainda que o autor nos advirta em um momento de seu relato: “Os estranhos acidentes das suas vidas errantes são tais que muitos ficarão tentados a achar que toda essa história nada mais é que uma novela ou um romance”.

Literatura de massa

E “Os Piratas de Mompracem”, de Emilio Salgari (1862-1911), é a cristalização do mito do pirata em sua forma mais folhetinesca, realizando plenamente, na entrada do século 20, o que de certa forma obras como “Robinson Crusoe”, do próprio Defoe, já anunciavam dois séculos antes -uma literatura de massa para abastecer um novo público leitor, ávido de aventuras laicas, que começava a se criar nos grandes centros urbanos europeus.

O livro de Defoe -ficamos sabendo pela apresentação de Luciano Figueiredo, professor da Universidade Federal Fluminense que fez a seleção dos textos, com abundantes notas informativas- foi à época um grande sucesso.

Originalmente assinado por um fictício capitão Charles Johnson, para reforçar a idéia de que o autor era do ramo, se estrutura mais ou menos como informação jornalística.

Sempre atento à presumida veracidade do fatos, o livro procura mostrar fidelidade aos dados concretos para abastecer a curiosidade dos leitores, revelando fontes, assinalando dúvidas e transcrevendo aqui e ali documentos de época.

Situação ambígua

O grande interesse pelo tema se explica porque a própria Inglaterra viveu uma situação ambígua com a atividade corsária. Figuras históricas relevantes, como sir Francis Drake (1545-1596), por exemplo, praticaram pirataria a serviço da coroa, mas então os tempos eram outros. Os heróis de antanho que ajudaram a firmar o poder naval do país passavam a ser “o terror da atividade comercial do mundo”, uma área que os ingleses começavam a dominar e que viam ameaçada pelos corsários.

Essa passagem traumática de um tempo para outro é visível em vários momentos e personagens do livro, como o pirata Stede Bonnet, que, antes de se aventurar na vida criminosa, era um “senhor de uma imensa fortuna”, conhecendo “todas as vantagens de uma educação liberal”; ou William Kidd, oficialmente contratado para combater os piratas e que acabou enforcado por se tornar um deles.

Num momento, o Brasil aparece com otimismo, como sempre (”o ouro dali é considerado o melhor”), sem faltar o detalhe picante que vem nos celebrizando: “As mulheres são loucas por estrangeiros. Não só as cortesãs (…), mas também as mulheres casadas, que se mostram muito gratas quando alguém lhes brinda com um encontro secreto”.

Aliás, duas piratas mulheres que se passavam por homens, Mary Read e Anne Bonny, são outro capítulo curioso do inventário de Defoe.
Dois séculos depois, nas obras do italiano Emilio Salgari, um escritor imensamente popular no seu tempo, a figura do pirata já não tem mais lugar no mundo real e se refugia na fantasia.

http://img.photobucket.com/albums/v298/welcometoelsinore/sando.jpgEm “Os Tigres de Mompracem”, de 1900 -obra reeditada agora numa edição que reproduz as ilustrações originais-, acompanhamos as aventuras extraordinárias de Sandokan, um terrível pirata que tem seu “covil” na ilha de Mompracem, na Malásia, de onde sai com sua inesgotável tripulação de foras-da-lei, sempre prontos a morrer por ele a um estalar de dedos, para raptar a amada Marianna, a “Pérola de Labian”.

Orientalismo

Arrancando-a das mãos implacáveis do tio, lorde James, que a havia prometido ao baronete William, o herói Sandokan dispõe-se a abandonar a vida de pirata para dedicar-se a sua rainha, dura decisão que lhe dá a sombra de um destino trágico.

As mais mirabolantes e inverossímeis aventuras tiram o fôlego do leitor, que nada precisa temer; seguindo a fórmula consagrada, as páginas avançam sempre com a garantia de um final feliz.

Sandokan sintetiza a imagem exótica do orientalismo romântico alimentado pela Europa do século 19 e, ao mesmo tempo, marca o imperialismo inglês como vilão, que será sua grande novidade e o seu tempero libertário multicultural.

CRISTOVÃO TEZZA é escritor, autor de “O Filho Eterno” (ed. Record), pelo qual ganhou, na semana passada, o Jabuti de melhor romance.

UMA HISTÓRIA DOS PIRATAS

Autor: Daniel Defoe
Tradução: Roberto Franco Valente
Editora: Jorge Zahar (tel. 0/xx/21/ 2108-0808)
Quanto: R$ 34 (264 págs.)

OS TIGRES DE MOMPRACEM
Autor: Emilio Salgari
Tradução: Maiza Rocha
Editora: Iluminuras (tel. 0/xx/11/ 3031-6161).
Quanto: R$ 44 (336 págs.)

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Kabir Bedi, Sandokan na TV