06/09/2009 - 16:48h As faces de Barenboim

João Marcos Coelho – O Estado SP
Quando comemorou com um recital no Teatro Colón, em Buenos Aires, nove anos atrás, seus 50 anos de carreira, Daniel Barenboim foi objeto de um belo documentário chamado Múltiplas Identidades. Essas são as mais adequadas palavras para se definir este artista de gênio. Embora restrito ao universo do intérprete, seu talento é tão precoce e marcante quanto o de Mozart ou Korngold, duas das maiores crianças prodígios da história da música. Excede tanto ao piano quanto na regência sinfônica e de ópera. Mas também é magnífico e empenhado na execução de música contemporânea. Em dezembro do ano passado, numa série de concertos comemorativos da passagem dos 100 anos de Elliott Carter no Carnegie Hall, em Nova York, ele regeu obras do norte-americano com o compositor centenário na plateia.
Aos 67 anos, Barenboim de fato parece um dínamo, capaz de tocar a Orquestra Staakskapelle de Berlim e a West-Eastern Divan e continuar fazendo recitais solos e música de câmara. E, ainda por cima, encontra tempo para leituras filosóficas e para se engajar nas principais questões políticas de seu tempo. E mais: escreve livros interessantes e consistentes, como A Música Desperta o Tempo, que a Martins lança agora no Brasil (leia abaixo).
O volume e o ritmo dos lançamentos podem levar um desavisado a supor que deve haver ao menos uns três ou quatro Barenboins. O mais importante é a manutenção de um nível altíssimo de qualidade em tudo o que ele faz. Por isso, é maravilhoso podermos ter em lançamentos nacionais uma penca de vídeos que fornecem um retrato aproximado do seu incrível talento: a Music Brokers acaba de distribuir seis DVDs simultaneamente no mercado brasileiro.
É um retrato completo. Proponho um roteiro para ordenar sua entrada neste universo musical tão magnífico. Comecemos com Beethoven. Em dois DVDs, você pode assistir à integral dos cinco concertos para piano. Ele pilota o piano e rege a sua Staatskapelle. Outros pianistas já fizeram isso, só que nos concertos de Mozart. Em Beethoven o desafio é muito maior, e não enfrentado até agora por ninguém. Exceto Daniel. Ele é preciso: expressivo, perfeito ao instrumento. Com a cabeça, dá simplesmente todas as entradas e comunica com expressões faciais as exigências de dinâmica e fraseado. Impressionante.
Agora siga para o segundo DVD, onde ele rege sua originalíssima West-Eastern Orchestra, formada pouco mais de dez anos atrás em parceria com o grande intelectual Edward Said. Projeto visionário, congrega jovens músicos de todo o Oriente Médio: judeus e egípcios, palestinos e jordanianos, iranianos e sírios dividem estantes, numa prefiguração filosófico musical da solução que Barenboim-Said preconizam como única saída para o conflito no Oriente Médio – seus povos precisam assumir que integram todos uma mesma cultura, uma civilização. O concerto foi realizado numa paisagem de sonho, o palácio de Alhambra, ao ar livre, em Granada, na Espanha, em abril de 2006. Empenhadas interpretações dos jovens da West-Eastern Divan em repertórios tradicionais como Beethoven (abertura Leonora nº 3) e a primeira sinfonia de Brahms.
Também gravado em 2006, mas no mês de dezembro, no Mann Auditorium em Tel-Aviv,o DVD do concerto de comemoração dos 70 anos da Filarmônica de Israel traz o pianista Daniel Barenboim como sua atração máxima, numa vigorosa leitura do primeiro concerto para piano de Brahms. Na regência, Zubin Mehta.
Deixei para o final, de propósito, o DVD que mostra de modo mais cristalino os notáveis atributos do Daniel regente, um concerto em 2000, quando ele ainda era titular da Sinfônica de Chicago, na Trienal de Música Contemporânea de Colônia, na Alemanha. A orquestra norte-americana e a Filarmônica de Berlim encomendaram a Pierre Boulez a versão sinfônica das Notations I-IV. O ciclo das Notations foi iniciado em 1945. As primeiras quatro partes foram originalmente escritas para piano-solo, mas são ouvidas aqui em sua posterior versão orquestral. Barenboim rege de cor e consegue nos fazer gostar da música arisca de Boulez. As duas peças seguintes constituem motivo para interpretações de referência: La Mer, de Debussy, e El Sombrero de Três Picos, do espanhol Manuel de Falla. Pena que a interessantíssima conversa entre Barenboim e Boulez não tenha legendas em português (o áudio é em inglês). Porque ela vale a pena. Boulez, orgulhoso, diz que “hoje parte da obra de Schoenberg já é aceita, o que não acontecia 40 anos atrás” – argumento válido quando o intérprete é alguém da estatura de Barenboim.
Sua raiz portenha surge inteira num festivo concerto gravado ao vivo no Colón de Buenos Aires em 31 de dezembro de 2006. O DVD Tango Argentina traz de tudo, de Gardel a Piazzolla, com a Orquestra Filarmônica de Buenos Aires, a orquestra típica de Leopoldo Federico, os bailarinos Mora Godoy & Junior Cervila, e a regência de Daniel.
O maior problema que este pacote de DVDs Barenboim pode provocar por aqui é a vontade desesperada de ouvir e assistir a mais performances deste músico de múltiplas e geniais habilidades. Prepare, então, seu bolso. A EMI Classics lançou em 2007 uma caixa com seis DVDs – em quatro, a integral das 32 sonatas de Beethoven em recitais realizados em Berlim no ano anterior; nos restantes, seis master classes do músico com jovens pianistas que nos ajudam a compreender de modo novo este que é, sem dúvida, um dos maiores monumentos pianísticos de todos os tempos.
E, por fim, foi lançado na semana passada o DVD Sommernachtskonzert Schönbrunn 2009. Trata-se do tradicional concerto de verão da Filarmônica de Viena, realizado em 4 de junho, ao ar livre, nos jardins do Palácio de Schönbrunn. No repertório anunciado, a célebre Pequena Serenata Noturna, de Mozart, Noites nos Jardins da Espanha, de De Falla, e hits populares de Mussorgsky e dos Strauss, naturalmente. Aos 66 anos, Barenboim parece não ter a menor vontade de ralentar esse ritmo alucinante. Melhor para nós.
O que as notas podem ensinar sobre questões políticas e sociais
Em A Música Desperta o Tempo, intérprete deixa clara a sua crença na capacidade artística de transformação da realidade
João Luiz Sampaio
Há duas vertentes na produção intelectual de Daniel Barenboim que dialogam entre si e ao mesmo tempo reivindicam vida própria. Em seu site, o artista escreve longos ensaios nos quais se coloca perante questões que vão desde a filosofia de Espinoza até os conflitos no Oriente Médio e a defesa da criação de um Estado palestino. Já em seus livros, o que lemos é uma tentativa de estabelecer uma relação simbiótica entre música e sociedade, sem, contudo, atribuir a ela, diz o maestro e pianista, qualquer conotação política.Assista trechos de dois dos DVDs
É esse o caso de A Música Desperta o Tempo, que a Martins lança no Brasil (tradução de Eni Rodrigues e Irene Aron, 168 págs., R$ 34,90). No primeiro ensaio, Barenboim nos conduz ao longo de uma série de conceitos musicais e o modo como podem nos ensinar sobre a vida. “A música não é separada do mundo; ela pode nos ajudar a esquecer e, ao mesmo tempo, a compreender nós mesmos. (…) Os jovens que experimentam o sentimento da paixão pela primeira vez e perdem todo o senso de disciplina podem observar, por intermédio da música, como paixão e disciplina podem coexistir (…). Afinal, o que talvez seja a lição mais difícil para o ser humano – aprender a viver com disciplina ainda que com paixão – transparece (…) em cada frase musical.”
Não há em passagens como essa conotação política óbvia. Adiante, porém, quando discute conceitos de interpretação musical e tenta aplicá-los à realidade geopolítica, a questão se embaralha. Força e intensidade, por exemplo, serviriam tanto à busca por uma versão aprofundada de uma obra musical quanto para as negociações – como entre israelenses e palestinos. Força é tocar alto; é agressão. Intensidade é descobrir relações; é dialogar. Essas ideias ganham mais significado quando levamos em consideração o projeto, dele com o intelectual palestino Edward W. Said, da criação de uma orquestra (tema de outro ensaio) com músicos de origem judaica e árabe para apresentações, seminários e grupos de estudo. Segundo Barenboim, a proposta é mostrar a possibilidade de convivência. Mas há, claro, uma conotação política em passagens assim.
De qualquer forma, podemos encontrar um meio-termo. Muitos comentaristas veem em colocações como essa ingenuidade ou, no pior dos casos, um quê panfletário. Talvez não seja necessário ir tão longe. Barenboim em seu livro mostra isso claramente: acredita no poder intrínseco, estético, da arte. Ao mesmo tempo, vê a interpretação musical como a discussão de uma ideia. Toda ideia é política? Para Barenboim, ideias são simplesmente necessárias.


Ubiratan Brasil – O Estado SP





Em “Os Tigres de Mompracem”, de 1900 -obra reeditada agora numa edição que reproduz as ilustrações originais-, acompanhamos as aventuras extraordinárias de Sandokan, um terrível pirata que tem seu “covil” na ilha de Mompracem, na Malásia, de onde sai com sua inesgotável tripulação de foras-da-lei, sempre prontos a morrer por ele a um estalar de dedos, para raptar a amada Marianna, a “Pérola de Labian”.