08/05/2012 - 18:33h Canção em trezenas

Letícia Palmeira – Escritoras Suicidas

Dispa-me no escuro. Em disparate do absurdo. Sangra em minha boca de amor e fé. No escuro nada vejo, mas sinto em lampejos o que posso alcançar. Mapeio em linhas transversais seu corpo que me quer. Corpo do homem cuja fera é tão cega que a ausência de luz não faz corar. E eu me alegro tenra de temor por não ver e por querer tão completamente sem razão sua mão sobre a minha em toda escuridão. Roubaram-me a visão e o dia é escuro e é triste e quase negro de pavor. Eu amo tanto e choro em pranto e tateio em busca da criatura que me rodeia e me faz abrir a vida em flor. Que será dor? Que será cura? Que será luz para a mulher que enfim enxerga o nocivo efeito de um homem sem amor?

Letícia Palmeira é graduada em Letras com Licenciatura em Língua Inglesa e suas Literaturas pela Universidade Federal da Paraíba. Nasceu na cidade de São Paulo, onde passou boa parte de sua infância e agora reside em João Pessoa, cidade em que leciona Língua Inglesa na rede privada de ensino. Cronista e contista, trabalha com prosa poética. Escreve os blogues Afeto Literário e Lírica Subversiva. Publicou Artesã de Ilusórios (EDUFPB – 2009).

09/01/2011 - 17:42h Adormecidos

Letícia Palmeira – Escritoras Suicidas

Engraçado como tem gente que sente falta de si mesmo. Saudade vazia que nem mesmo o espelho do banheiro consegue acalmar. É uma sensação de ausência. Essa gente vive a procurar sinais que provem a existência, o violento transformar da alegria em tristeza, o acordar do tempo e a natureza que se faz assumida trem da vida e leva todos nós. É como se sentir anestesiado. O corpo existe, mas falha a voz e a verdade não passa de um contratempo. Como provar que ainda se está ali? Na sala de estar, no quarto do filho, na casa de amigos? Como voltar a se sentir vivo? Tonalizar fios brancos, enfeitar a casa para um bando e fazer digno o realçar das incertezas? Não há nada mais triste do que a busca de si mesmo e ver que tudo se foi. Já se partiu, corpo ausente e agora o ser que habita a gente não passa de uma obra decadente que o tempo esqueceu de enterrar. Melhor viver logo o dia de aniversário e se deixar envelhecer. A perda maior é o esquecer de si mesmo. A gente se esquece no rosto de alguém, vivendo outra vida, lavando calçadas ou apagando marcas, cauterizando outras dores enquanto há fome de tanto e por tudo que se sente. A gente precisa viver. À tortura ou à plena felicidade absurda. É bem melhor que se viva. Antes mesmo que o cenário mude e a saudade se torne moribunda. Não há saudade maior do que essa que a gente sente de si mesmo. A gente, de repente, se torna o produto com prazo vencido.

06/12/2009 - 16:54h Gênero Lírico e Subversivo

Letícia Palmeira – Germina Literatura

Gênero Lírico

Homens mentem. Mulheres também. Homens amam como mulheres que mentem. Mulheres amam como seres que se despem. Mulheres despidas de vergonhas e tudo é romântico em nuance de luz e sombra. Uma fatia fina da vida e nos amamos. Completas citações e não há volta. Só distúrbio. Mulheres compreendem e perdão só na segunda-feira. Depois dos ritos e da contemplação. E ciclos mudam e continuamos amando o que nos causa morte. Amo você como quem morre era a primeira voz. A segunda, seguida de contornos, apenas ouvia. Uma voz calada. Tímida. Um piano fechado. E era você por trás de tudo. Uma névoa no dia e era fevereiro e depois março e logo era o abraço e logo era o corpo sendo revelado e logo o orgasmo e logo o susto e depois a vontade. Homem de membros fortes reanima em fantasias e é sexo e não disperso castiga e penetra a fonte crua e nua das sensações. Tremor. Homem de vime, homem de pêlos e edifícios. A mulher salta em edifício de homem que é sexo e suga a água que é vinda do sexo que se faz do homem que transtorna. Faz abrir clareiras e vinga à face turva, orgasmo de quem só enxerga ninfa e penetra a vítima que é fêmea de homem forte solto em pernas e pulso e peso sobre a fragilidade. O corpo se curva em outro corpo e palavra não é mais som. Tudo inaudível. Penetra a fêmea e, entre dois, escapulário e fé. Beija a boca da voz que dizia medo e se afoga no imenso desejo contraído. Sejamos santos. Somos espanto e nossa nudez é santa. Devora a fêmea que é a prova da derrota do tempo. Você vence. Eu venço. Contorce o corpo e beija o verbo descoberto dos seios em sua boca de versos.

Lírica Subversiva

Escrevo um poema ao desabotoar minhas intrigas que são meninas bem vestidas, ingênuas e falantes. Elas suspiram barrocas, encantam sentimentais e decoram o escárnio de toda a história de meus ancestrais políticos, polidos e falhos de memória. O poema versado ameaçado de crítica agride a métrica e a rima e silencia o grito destas ilhas esquecidas dos sentimentos que vivi. Diluída a minha essência em palavras que zombem de mim e que sejam certeiras de arco e flecha me fazendo crer que não e que sim. E será de bruto efeito o poema que começa ensaiado e termina quebrado por falta de espaço. Mas não sou poeta. Nem gracejo palavras. Não me atrevo a inovar versos em sílabas ou flautas e redondilhas. A palavra toma de assalto o meu ato trágico e perco a voz no palco. E agora sou ator. Um espalhafato. Evoco a inspiração e trago a vertiginosa fumaça lírica do texto que reproduzi. Compasso em falso e escapa de mim a deixa que não fazia parte de meu papel e me embaralho no escuro de um trampolim. Sou trapezista então. Mas a corda bamba me enlaçou e caio em público. Estúpido, sem coroa, sem trono ou cortesã e me arde a fornalha do pensamento apavorado que fala de trás pra frente e escorrega na decente ortografia e sou livre de correntes e me entrego ao improviso da arte indecente. Todo inconsequente. Sou humano e ainda procuro versos de prosa de um livro que nunca fora escrito. Sou tudo e outro qualquer imaginário. Um calendário do passado que reflete um futuro prosaico. A mentira de criança e o paraíso perverso do equívoco.

(imagens ©ballyscanlon)

Letícia Palmeira é graduada em Letras com Licenciatura em Língua Inglesa e suas Literaturas pela Universidade Federal da Paraíba. Nasceu na cidade de São Paulo onde passou boa parte de sua infância e agora reside em João Pessoa, cidade em que leciona Língua Inglesa na rede privada de ensino. Terá seu primeiro livro publicado em 2009 pela Editora Universitária da UFPB. Letícia Palmeira é cronista, contista e trabalha com prosa poética. Escreve o blogue Afeto Literário.