Letícia Palmeira – Germina Literatura
Gênero Lírico
Homens mentem. Mulheres também. Homens amam como mulheres que mentem. Mulheres amam como seres que se despem. Mulheres despidas de vergonhas e tudo é romântico em nuance de luz e sombra. Uma fatia fina da vida e nos amamos. Completas citações e não há volta. Só distúrbio. Mulheres compreendem e perdão só na segunda-feira. Depois dos ritos e da contemplação. E ciclos mudam e continuamos amando o que nos causa morte. Amo você como quem morre era a primeira voz. A segunda, seguida de contornos, apenas ouvia. Uma voz calada. Tímida. Um piano fechado. E era você por trás de tudo. Uma névoa no dia e era fevereiro e depois março e logo era o abraço e logo era o corpo sendo revelado e logo o orgasmo e logo o susto e depois a vontade. Homem de membros fortes reanima em fantasias e é sexo e não disperso castiga e penetra a fonte crua e nua das sensações. Tremor. Homem de vime, homem de pêlos e edifícios. A mulher salta em edifício de homem que é sexo e suga a água que é vinda do sexo que se faz do homem que transtorna. Faz abrir clareiras e vinga à face turva, orgasmo de quem só enxerga ninfa e penetra a vítima que é fêmea de homem forte solto em pernas e pulso e peso sobre a fragilidade. O corpo se curva em outro corpo e palavra não é mais som. Tudo inaudível. Penetra a fêmea e, entre dois, escapulário e fé. Beija a boca da voz que dizia medo e se afoga no imenso desejo contraído. Sejamos santos. Somos espanto e nossa nudez é santa. Devora a fêmea que é a prova da derrota do tempo. Você vence. Eu venço. Contorce o corpo e beija o verbo descoberto dos seios em sua boca de versos.


Lírica Subversiva
Escrevo um poema ao desabotoar minhas intrigas que são meninas bem vestidas, ingênuas e falantes. Elas suspiram barrocas, encantam sentimentais e decoram o escárnio de toda a história de meus ancestrais políticos, polidos e falhos de memória. O poema versado ameaçado de crítica agride a métrica e a rima e silencia o grito destas ilhas esquecidas dos sentimentos que vivi. Diluída a minha essência em palavras que zombem de mim e que sejam certeiras de arco e flecha me fazendo crer que não e que sim. E será de bruto efeito o poema que começa ensaiado e termina quebrado por falta de espaço. Mas não sou poeta. Nem gracejo palavras. Não me atrevo a inovar versos em sílabas ou flautas e redondilhas. A palavra toma de assalto o meu ato trágico e perco a voz no palco. E agora sou ator. Um espalhafato. Evoco a inspiração e trago a vertiginosa fumaça lírica do texto que reproduzi. Compasso em falso e escapa de mim a deixa que não fazia parte de meu papel e me embaralho no escuro de um trampolim. Sou trapezista então. Mas a corda bamba me enlaçou e caio em público. Estúpido, sem coroa, sem trono ou cortesã e me arde a fornalha do pensamento apavorado que fala de trás pra frente e escorrega na decente ortografia e sou livre de correntes e me entrego ao improviso da arte indecente. Todo inconsequente. Sou humano e ainda procuro versos de prosa de um livro que nunca fora escrito. Sou tudo e outro qualquer imaginário. Um calendário do passado que reflete um futuro prosaico. A mentira de criança e o paraíso perverso do equívoco.

(imagens ©ballyscanlon)
Letícia Palmeira é graduada em Letras com Licenciatura em Língua Inglesa e suas Literaturas pela Universidade Federal da Paraíba. Nasceu na cidade de São Paulo onde passou boa parte de sua infância e agora reside em João Pessoa, cidade em que leciona Língua Inglesa na rede privada de ensino. Terá seu primeiro livro publicado em 2009 pela Editora Universitária da UFPB. Letícia Palmeira é cronista, contista e trabalha com prosa poética. Escreve o blogue Afeto Literário.