14/03/2009 - 16:49h ”Meu testemunho é impreciso”

Em Coração Andarilho, Nélida Piñon não se preocupa com fatos para criar suas memórias afetivas

Ubiratan Brasil – O Estado SP

 

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A palavra sempre teve um peso valioso para a escritora Nélida Piñon – nenhum livro seu sai da gráfica sem um cuidadoso preparo. “Já cheguei a fazer nove versões de uma mesma história”, comenta Nélida, que utilizou o mesmo procedimento para Coração Andarilho, seu primeiro livro de memórias lançado agora pela Record (352 páginas, R$ 38).

Filha de uma brasileira e de um pai nascido na Galícia, ela descobriu o mundo (real e literário) quando viajou pela primeira vez para a Europa, aos 12 anos. “Isso me deu uma condição de dupla cultura, de ser mestiça, e me ajudou a enxergar o mundo”, conta Nélida, que estreou na literatura em 1961, com Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo. E, embora tenha colecionado amigos ilustres (Mario Vargas Llosa, Toni Morrison, entre outros) e prêmios (foi a primeira autora de língua portuguesa a vencer o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras), Nélida dedica-se, em Coração Andarilho, às memórias de sua primeira infância, como o fato de ter nascido em casa e não em um hospital, onde a mãe temia não reconhecer a própria filha. E também dos avós galegos, que lhe ajudaram a expandir a visão de mundo. Memórias afetivas, despreocupadas com os fatos, como comenta na seguinte entrevista, realizada por telefone.

O que a levou a escrever essas memórias?

Eu sempre soube que chegaria o momento das memórias. Fui uma menina que muito cedo despertou para a literatura, uma vocação estranha, enigmática, uma paixão por algo aparentemente sem contorno. Convivendo com essa literatura, descobri os motivos de ela fazer parte da minha vida. Existe uma harmonia profunda entre quem sou e por que ela me tocou. Assim, eu queria esclarecer minha gênese e minha formação.

Mas por que esse desejo se manifestou agora?

Não, já faz muito tempo que penso nisso mas nos últimos dois anos ficou mais forte. Eu sabia que viria mas não sabia quando. De repente, larguei um romance ainda em produção (já escrevi 60 páginas de uma história forte, contundente) porque as lembranças foram chegando. Tenho material para até três livros de memória. Resta saber se vou querer publicá-los. E, nesses dois anos, sobretudo no último, o livro nasceu com uma força, com evocações muito extremadas.

Seus livros sempre recebem muitas versões. E com esse de memórias?

Também, porque o livro não nasce pronto: surge com um grande arcabouço, mas a linguagem que vai ser seu semblante vem com o trabalho. Só é preciso se preocupar com o afã, pois pode asfixiar a emoção do texto. Sempre digo que o crítico não mata um escritor, mas ele próprio se suicida ao esterilizar o texto, torná-lo artificial, liquidar o mínimo de melodramático que é fundamental para o campo da emoção. E nas memórias fiz muita revisão – a linguagem, que julgo bem elaborada, revela a emoção. Mas meu testemunho é impreciso, nascido dos meus desacertos.

O livro permitiu descobertas?

Sim, muitas. Uma delas foi descobrir a figura de meu pai, Lino. Eu não falava publicamente sobre ele enquanto vivo, apenas entre familiares. Mas o livro revela minha dor de perdê-lo. A cena do enterro é muito simbólica, pois representou uma espécie de carta de alforria. Eu tirei o privilégio dos homens da família de escolher o caixão do meu pai. Foi muito duro. A partir dali, com minha mãe abaladíssima, tive de assumir todas responsabilidades. Tanto que ela estranhou o fato de eu não ter chorado durante os dois primeiros anos após a morte dele. Até o dia em que escrevi uma grande carta para o meu pai, explicando minhas razões a ela. Eu precisava ser forte – afinal, não é fácil ser escritora, ser brasileira, sobreviver com dignidade e de acordo com aspirações maiores.

Como a experiência de ter quatro avós galegos enriqueceu sua vida?

Foi fundamental. Eu me tornei uma mulher cosmopolita, múltipla, arcaica (digo isso pois tenho 5 mil anos de história nas costas) depois da minha primeira viagem à Europa. Eu lia muito, mas meus limites eram o Rio de Janeiro e São Lourenço, pátrias da minha imaginação. Quando quebro esse paradigma geográfico, com minha mãe explicando que a Espanha não era um bairro do Rio, começo a ver que minha fatalidade histórica era atravessar o Atlântico e fazer o caminho contrário dos imigrantes. Com isso, a geografia se tornou fundamental na minha vida. Nenhuma paisagem é vazia para mim, mas impregnada de mitos, conceitos, história, transações, pecados, transtornos, crise. Assim, quando admiro alguma paisagem, sei que não estou vendo apenas uma imagem mas sabendo que há muito mais por detrás dessa visão. Toda analogia é possível e isso é importante para a poética do texto, assegurando uma liberdade criativa. A metáfora do cotidiano está ao meu alcance.

As viagens foram importante para sua aprendizagem de vida?

Sim, demais. Continuo viajando muito, mas hoje advogo a grandeza do cotidiano, da casa. Tenho convívio íntimo com os objetos, com a comida, com a sucessão dos fatos corriqueiros. Admiro o trivial da vida. Com isso, consigo ao menos administrar a vaidade. A literatura tem coerência com minha vida. Espero ter forças para continuar a criar sem medo.

Você carrega seus personagens para a vida real?

Não, separo os momentos. Meu cordão umbilical com a casa e com a vida não está cortado. Claro que prefiro escrever sozinha, mas não sou uma escritora augusta, aquela em que a vida tem de parar por estar impregnada pela grandeza da criação. Eu aceito as pausas da vida.

12/03/2009 - 17:02h Na mira

Suíça radicada no Brasil, Mira Schendel (1919-1988), artista que “reinventou a arte a partir da língua”, ganha retrospectiva no MoMA, individuais em Londres e SP e vira tema de três novos livros

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Obra sem título da série “Objetos Gráficos” (1967), de Mira Schendel, que está na mostra do MoMA

 

  SILAS MARTÍ – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Uma frase solta, inconclusa, resume o retorno. Num dos quadros que abrem sua megarretrospectiva no Museu de Arte Moderna de Nova York, Mira Schendel escreveu discreta: “Agora que estou de volta”.
Era uma alusão ao retorno de Aquiles da batalha que travou. Mas, exposta na primeira sala da mostra que o MoMA abre no dia 5 de abril, serve de prelúdio à volta de uma artista que morreu sem atingir o reconhecimento internacional que está prestes a ganhar. Embora tenha participado de nove edições da Bienal de São Paulo, sendo eleita até parte da “santíssima trindade” da arte brasileira, Schendel nunca foi tão valorizada pelo mercado.
Além de “Tangled Alphabets”, mostra que reúne 200 obras para refazer os passos da artista e do argentino León Ferrari, em Nova York, a galeria Millan abre, na próxima quarta, em São Paulo, individual com 20 de suas monotipias, as gravuras que fazia em papel japonês. Em maio, a galeria Stephen Friedman, de Londres, também abre espaço para uma individual da artista.
No embalo das exposições, o mercado editorial se prepara para lançar farto material sobre o legado da artista que passou a vida tentando “imortalizar o fugidio” e “congelar o instante”, como dizia em seus diários.
Nascida na Suíça, em 1919, Schendel se mudou para o Brasil quando já tinha 30 anos, formada em Zurique e numa escola preparatória da Itália.

Orgias de letras

Nômade, falava mal quase todas as línguas que usava para se expressar, as mesmas que apareciam em seus desenhos-poemas -chegou a fazer cerca de 5.000 deles para amigos e conhecidos, passando ao largo do mercado, que a valorizou só depois da morte, em 1988.
Se em vida suas monotipias eram distribuídas ao acaso, vendidas às vezes por US$ 100, ela hoje é uma das artistas mais disputadas da cena brasileira, com trabalhos arrematados por mais de US$ 1 milhão.
“Só nos últimos anos conseguimos pôr a obra da Mira nas melhores coleções do mundo”, diz André Millan, 48, galerista que cuida do espólio da artista.
Depois da explosão conceitual e das formas geométricas dos concretos paulistas e cariocas, Schendel foi uma das primeiras no país a injetar forte carga subjetiva em suas obras, deixando ver suas obsessões na folha transparente de papel.
“Ela reinventa a arte, com base na língua”, resume Luis Pérez-Oramas, 48, curador da mostra no MoMA, em entrevista à Folha. “É a língua não como instrumento, mas como encarnação material da voz.”
Suas “pequenas orgias de letras flutuando no espaço”, como descreve Pérez-Oramas, tentam refletir o turbilhão de ideias que estudou à exaustão.
“A vida imediata é só minha, incomunicável, sem significado ou propósito; o mundo dos símbolos é antivida, vazio de emoção e de sofrimento”, escreveu Schendel. “Se pudesse juntar os dois, teria a riqueza da experiência com a permanência relativa do símbolo.”
Tentando mostrar esses dois lados, Schendel recorria às folhas transparentes, criando uma espécie de porta de entrada para os próprios pensamentos, já que a palavra tinha de mostrar “o maior número de faces para ser ela mesma”.
Talvez por essa obsessão, as obras também vão perdendo o peso da tinta e ganhando a leveza dos vazios, de palavras e letras soltas. Depois das naturezas-mortas dos anos 50, ela partiu para as monotipias, obras em acrílico e instalações.
No MoMA, Pérez-Oramas separa as pinturas mais tradicionais das instalações que vêm depois, como “Trenzinho”, uma série de folhas penduradas em sucessão, as “Droguinhas”, retalhos trançados de papel japonês, e “Ondas Paradas de Probabilidade”, rede de fios translúcidos juntos de uma citação da Bíblia.
Quanto mais abstrata a obra, mais presente parece estar a artista. “Há uma clara consciência da arte como corpo”, diz Pérez-Oramas. “É um encontro de corpos, uma forma de romper com a hierarquia, talvez uma metáfora para a voz impossível de Deus.”

23/02/2009 - 15:50h Todos os talentos de Jacques Prévert

A exposição Paris la Belle, na França, e o lançamento em DVD, no Brasil, de Trágico Amanhecer resgatam um artista de gênio

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Luiz Carlos Merten – O Estado SP

Cidade-luz, Paris é a Meca e a Medina dos cinéfilos, que nela encontram, permanentemente, ciclos de filmes e autores que não podem ser rastreados com tanta facilidade em nenhum outro lugar do mundo. Mas Paris não é só uma festa de cinema. Se você quer saber o que ocorre no mundo do design e das artes visuais deve seguir de olho na capital francesa. O Centro Charles Pompidou, o Beaubourg, dedica uma grande mostra – até março – ao arquiteto e designer Ron Arad. Só para ver os móveis que ele cria – verdadeiras obras de arte, mas fica a dúvida se são também confortáveis – já valeria a pena ir à França, mas Paris, encerrada a grande retrospectiva Picasso et les Maitres, no Grand Palais, agora sedia, até dia 28, no Hôtel de Ville, a mais completa exposição sobre Jacques Prévert feita na França.

Paris la Belle. O título vem de um curta que Jacques realizou em parceria com o irmão Pierrre, em 1928, Paris Express, e que foi rebatizado como Paris la Belle, ao ser resgatado, em 1960. Houve outras grandes exposições sobre o artista, antes, mas elas privilegiavam partes de sua obra – as colagens, as fotografias. N.T. Binh, crítico e historiador – autor de uma acurada análise da obra de Joseph L. Mankiewicz na coleção Cahiers du Cinéma – e Eugénie Bachelot-Prévert, neta de Jacques, coassinam a curadoria do evento que revela a multiplicidade dos talentos do grande artista. Se há um artista multimídia, é ele. Homem de teatro, cinema, poeta, autor infantil, pintor, compositor, deixou uma notável contribuição em cada uma dessas mídias. Eugénie sonhava com essa exposição há dois anos, quando se completaram 30 anos da morte de seu avô, em 1977. A falta de patrocínio, na época, inviabilizou o projeto, mas ela teve a sorte de encontrar N.T. Binh, que organizara em 2006, no Hôtel de Ville – a Prefeitura de Paris -, o evento Paris no Cinema e tinha cacife para propor outra grande mostra. Binh propôs Prévert. Por quê? No catálogo da exposição, ele explica singelamente – “Porque Prévert foi sempre um artista identificado com os parisienses…”

O próprio prefeito de Paris, Betrand Deanoë, escreve, na abertura do catálogo, que, durante toda a sua vida, Jacques Prévert estabeleceu (e manteve…) uma excepcional cumplicidade com a capital francesa. Conhecedor das passagens mais secretas dos Grands Boulevards, amigo dos operários, dos pintores de Montmartre e dos escritores de Saint-Germain-des-Près, Prévert cravou a essência de sua poesia no coração de Paris e de seus habitantes. A questão é que não existe um Prévert, mas vários, compondo o itinerário de um artista que foi engajado – e libertário – como poucos. N. T. Binh sustenta que, durante toda a sua vida, Prévert não fez outra coisa senão tentar reencontrar a Paris de sua infância. A exposição estabelece etapas do percurso – a infância, próxima dos Jardins de Luxemburgo; a juventude, quando ele se liga aos surrealistas, integrando a república ‘boullionnante’ da Rua Chateu (Castelo).

Após o rompimento com os surrealistas, Prévert produz para o teatro, escrevendo textos engajados para o grupo Outubro. Os anos 30 foram de muita agitação social na França. Prévert, que visitou a Rússia em 1933, voltou militante de causas radicais. Os operários da Citröen preparavam uma greve para hoje à tarde e lhe pediam um texto – ele o produzia num piscar de olhos. O Prévert dramaturgo vira roteirista de cinema, associando-se a Marcel Carné numa memorável série de filmes que instala a tendência do chamado ‘realismo poético’. O maior desses filmes, O Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis, de 1945) foi considerado numa pesquisa, há cerca de dez anos, como a obra-prima de toda a história do cinema francês, mas a parceria Carné-Prévert inclui outros filmes, como Trágico Amanhecer (Le Jour Se Lève, de 1939), com a dupla clássica Jean Gabin/Arlétty, que acaba de sair em DVD.

Como as coisas ocorrem por ciclos na obra de Prévert, em 1946, ele começa a se afastar do cinema, orientando-se para a poesia (com Paroles) e a canção. É muito interessante assistir aos trechos de filmes e aos clipes que mapeiam o Prévert roteirista e letrista. Ele produziu letras para Edith Piaf, Yves Montand, Juliette Gréco e Nat King Cole. Os três últimos apresentam suas diferentes versões de Feuilles Mortes. Para o espectador brasileiro, é um choque ver a musa do existencialismo cantar Folhas Mortas. Juliette Gréco foi o modelo de Maysa. Existem ainda o Prévert autor infantil, o pintor das colagens e o retratista. Amigo de Juan Miró, Pablo Picasso e Alexander Calder, Jacques brincava com Picasso e dizia que ele era um grande cineasta, embora não soubesse filmar. Picasso retrucava que ele era um grande pintor, mesmo sem saber pintar (nem desenhar). Suas colagens são de uma riqueza – e uma criatividade e um humor – extraordinários. O legado da exposição é que Prévert não se fixou em rótulos nem dogmas. Foi libertário de si mesmo. Criou-se, por isso, um verbo. O diretor Jean-Pierre Jeunet conta que, enquanto escrevia O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, ao dar-se conta de que algumas coisas simplesmente não iriam funcionar, ele pedia à sua roteirista, Guillaume Laurant – “Aqui, nós precisamos prévertizar.”

Juliette Greco

Yves Montand – Les feuilles mortes