29/09/2008 - 16:44h Mundo financeiro passa da embriaguez à ressaca moral

ENTREVISTA - EDUARDO GIANNETTI

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Economista aponta “colapso da confiança” e prevê período de forte regulamentação

O economista Eduardo Giannetti vê uma ressaca moral nos mercados, que segue a embriaguez que estimulou a tomada de risco sem precedentes pelos investidores. Diz que há um problema ético na “arrumação da casa” porque a euforia trouxe lucros privados para poucos, mas a conta será socializada para todos. Ele não acredita que, mais pobres, as pessoas fiquem menos felizes e afirma que a “angústia” maior é não saber o tamanho dos prejuízos e das privações que virão.

 TONI SCIARRETTA - FOLHA SP

Giannetti diz que o mundo financeiro ganhou uma “musculatura irreal” na economia e passa hoje por um “colapso da confiança”. Ele prevê um período de forte regulamentação, até que, mais uma vez, a criatividade do mercado crie novos produtos, que traga riscos maiores e desconhecidos. Leia trechos de entrevista.
Economista aponta “colapso da confiança” e prevê período de forte regulamentação

O economista Eduardo Giannetti vê uma ressaca moral nos mercados, que segue a embriaguez que estimulou a tomada de risco sem precedentes pelos investidores. Diz que há um problema ético na “arrumação da casa” porque a euforia trouxe lucros privados para poucos, mas a conta será socializada para todos. Ele não acredita que, mais pobres, as pessoas fiquem menos felizes e afirma que a “angústia” maior é não saber o tamanho dos prejuízos e das privações que virão.

TONI SCIARRETTA
DA REPORTAGEM LOCAL

Giannetti diz que o mundo financeiro ganhou uma “musculatura irreal” na economia e passa hoje por um “colapso da confiança”. Ele prevê um período de forte regulamentação, até que, mais uma vez, a criatividade do mercado crie novos produtos, que traga riscos maiores e desconhecidos. Leia trechos de entrevista.
FOLHA - Os bancos perderam a confiança e pararam de emprestar entre si. A confiança é muito tênue?
EDUARDO GIANNETTI -
Todo o sistema financeiro do mundo hoje está baseado em crenças e confiança. A nota de real que eu e você temos no bolso não passa de uma promessa sem lastro. Se a gente perder a confiança nesse papel, ele desaparece. Tudo está baseado em crenças, promessas e expectativas. A confiança custa para ser construída, mas é muito rápida de ser destruída, principalmente quando se vê o colapso sucessivo de bancos.

FOLHA - Os bancos e os investidores tinham consciência dos riscos que estavam correndo?
GIANNETTI - Às vezes, você está em uma situação perigosa sem saber o risco que está correndo. No momento em que as pessoas se tornam cientes, elas entram em pânico. Avicena [filósofo islâmico], lá no século 11, já descreveu essa experiência. Disse que o homem não sente dificuldade em caminhar por uma tábua enquanto acredita que ela está apoiada no chão, mas vacila e depois despenca ao se dar conta de que estava suspensa sobre um abismo.

FOLHA - Como o mundo sai tão rápido do excesso de segurança para uma crise de confiança?
GIANNETTI -
O que aconteceu no mundo foi um coquetel muito perigoso. Tivemos um período muito longo de juros baixos, uma expansão enorme da liquidez, um crescimento econômico sem pressão inflacionária, uma criatividade espantosa para inventar novos produtos financeiros, e a tecnologia da informação acelerou o ritmo de acontecimento das coisas. Com a desregulamentação do mercado, gerou uma situação de complexidade e de interdependência que ninguém compreende bem sua dinâmica.

FOLHA - As pessoas se iludiram?
GIANNETTI -
Quando tudo está indo bem, o apetite pelo risco aumenta. As pessoas vão ficando mais confiantes e fazendo apostas maiores. Tinha uma falácia de que esses novos produtos financeiros permitiam precificar e distribuir melhor o risco no sistema -coisa que se mostrou complemente furada; era exatamente o contrário. Quando se começa a ter os indícios de que a rentabilidade não ocorrerá e surge um problema como foi no mercado de crédito de alto risco nos EUA, você tem uma percepção de que foi longe demais, que as perdas vão ocorrer e serão grandes. Aí a psicologia gira na direção contrária e acontece uma terrível aversão ao risco. Você vê risco em tudo.

FOLHA - O modelo de banco de investimento está condenado?
GIANNETTI -
O Goldman Sachs tinha US$ 25 aplicados para cada US$ 1 de caixa. Houve uma hipertrofia das finanças. No início da década de 80, o lucro dos bancos representava 10% do lucro total da economia americana. Agora, é 40%. É muito difícil imaginar que haja valor criado por traz dessa lucratividade. É uma coisa artificial. É muita gente tentando ganhar manipulando dinheiro.

FOLHA - Mas isso estourou…
GIANNETTI -
Sim, foi algo que resultou de um certo delírio coletivo, ganhou vida própria e se abateu sobre as pessoas. Não é novidade. Desde a febre das tulipas, no século 16, vem se repetindo indefinidamente. O que muda agora é o grau de complexidade e de interdependência.

FOLHA - O que vem depois? Um período de forte regulação?
GIANNETTI -
Sim. O [Henry] Paulson [secretário do Tesouro] foi chamado para fazer um movimento de liberalização. Ele está implementando uma das ações mais intervencionistas do Estado. Não é a primeira vez, o Nixon chamou os economistas de Chicago, Milton Friedman entre eles. Quando a coisa apertou, implantou um controle de preços e salários. E ainda declarou: Somos todos keynesianos agora.

FOLHA - Por que a maioria dos economistas errou suas previsões?
GIANNETTI -
No momento de incertezas, o espectro dos prognósticos se expande. A dispersão de previsões e de opiniões se torna muito maior do que no período de normalidade, em que as previsões convergem. Como trabalhar isso? Há dois limites: o otimista e o pessimista. Nós estamos vivendo uma coisa parecida com 2001, no estouro da bolha da internet, que foi a menor recessão nos EUA. Foi [em forma de] um “V”. A coisa caiu, teve uma certa vertigem e depois voltou. No limite de pessimismo, vem o “L”. Cai e se arrasta, como na Depressão de 1929 e na recessão no Japão, nos anos 90. O cenário intermediário é o “U”, que não é tão simples como foi em 2001, mas não é tão crônico quanto o “L”.

FOLHA - E qual o cenário desta vez?
GIANNETTI -
Estamos passando por algo bem mais sério que o “V”, mas também duvido que se transforme num “L”. Nos anos 30, no momento em que deveria expandir a liquidez, o Fed contraiu e gerou uma forte desconfiança que levou a uma depressão crônica. No Japão, duas coisas aconteceram que não tendem a se repetir. Primeiro, a política monetária ficou impotente porque houve deflação. O cidadão guardava o dinheiro debaixo do colchão e, quando ia gastar, valia mais porque os preços caíram. E o governo, em conluio com os bancos, em vez de explicitar as perdas, jogou para baixo do tapete. Em vez da dor curta e aguda, preferiram uma dor crônica suave, mas que se arrastou por anos. Nesse aspecto, os americanos são corajosos. Quando quebram, fazem dispensas, tomam medida drástica e limpam rapidamente o passado. É uma cultura quase filosófica dos americanos com o desassombro do recomeço, que não tem na cultura oriental.

FOLHA - Essa crise ameaça a hegemonia americana?
GIANNETTI -
Tem muita gente torcendo para isso. Não vejo os EUA em processo de declínio, mas o mundo é dinâmico e está mudando. Os EUA continuam sendo a maior economia do mundo e a força mais inovadora em termos de patentes, tecnologia e criatividade.

FOLHA - O mundo sai pobre dessa crise. As pessoas estão mais tristes?
GIANNETTI -
Não acho. A gente se desfaz de muitas ilusões. Havia quase uma embriaguez de enriquecimento sem trabalho. E isso tira muitos talentos para a especulação. Uma coisa é a crise financeira e outra são as seqüelas no mundo real: desemprego, fome, pobreza. O tamanho das seqüelas dessa crise ainda está em aberto. Nessas horas, ajuda muito pensar no pior cenário. Pode ser que tenhamos uma recessão de dois ou três anos. E daí? Será que o mundo não estava precisando de uma pausa para respirar? Será que não vivemos um frenesi de consumo de recursos naturais e não podemos ter uma trégua para repensar um pouco o lugar do econômico na vida humana? Será que faz tanto sentido concentrar tanto da nossa atenção no sucesso financeiro? Será que não está na hora de isso ocupar um segundo plano?

FOLHA - É justo o socorro aos bancos com dinheiro do contribuinte?
GIANNETTI -
Quando os banqueiros estavam ganhando bilhões de dólares, tudo era privado e particular. No momento em que esses banqueiros e esses grandes aplicadores perdem bilhões, vem o governo e socializa jogando a conta para as gerações futuras. Tem alguma coisa profundamente errada do ponto de vista ético nesse sistema. É uma assimetria inaceitável de tratamento de ganhos e perdas.

FOLHA - O Brasil soube aproveitar essa euforia no mundo financeiro?
GIANNETTI -
O país fez um ajuste muito importante e isso deu uma condição robusta para assimilar o impacto dessa crise. O Brasil tinha um quadro de hipersensibilidade ao mercado internacional. Bastava uma gripe lá fora para virar uma pneumonia aqui. Desta vez, a casa estava arrumada.

12/06/2008 - 11:50h Novo Consenso de Washington?

Por Dani Rodrik - VALOR

Há dois anos e meio, altos integrantes do Banco Mundial abordaram o prêmio Nobel Michael Spence para pedir-lhe que encabeçasse uma comissão de notáveis sobre a questão do crescimento econômico. A dúvida em questão não poderia ser mais importante. O Consenso de Washington - a infame lista que apontava a autoridades monetárias de países em desenvolvimento o que fazer e o que não fazer - havia se dilapidado em grande parte. Então, o que o substituiria?

Spence não tinha certeza se era a pessoa ideal para o trabalho. Afinal, sua pesquisa era focada em questões teóricas em economias avançadas, havia sido reitor de uma faculdade de administração e não tinha muita experiência em desenvolvimento econômico. No entanto, ficou fascinado com a tarefa. E foi encorajado pela resposta entusiasta e positiva que recebeu dos possíveis membros da comissão. Nascia, então, a Comissão Spence de Crescimento e Desenvolvimento, um grupo de estrategistas políticos recheado de estrelas - incluía outro Nobel - cujo relatório definitivo foi lançado no fim de maio.

O relatório Spence representa um divisor de águas para as políticas de desenvolvimento, tanto pelo que apresenta como pelo que exclui. Ficaram de fora as asseverações confiantes sobre as virtudes da liberalização, desregulamentação, privatização e livres mercados. Também desapareceram as recomendações homogêneas, independente das diferenças de contexto. Em vez disso, o informe de Spence adota uma abordagem que reconhece os limites de nossos conhecimentos, enfatiza o pragmatismo e gradualismo e encoraja os governos a serem experimentais.

Sim, economias bem-sucedidas possuem muitas coisas em comum: todas estão inseridas na economia global, mantêm estabilidade macroeconômica, estimulam a poupança e o investimento, oferecem incentivos voltados ao mercado e são razoavelmente bem governadas. É útil ficar de olho nesses pontos em comum, porque compõem a conduta de políticas econômicas apropriadas. Dizer que o contexto importa não significa que vale tudo. Não há, contudo, um livro de regras universal: países diferentes atingem esses fins de formas diferentes.

O relatório Spence reflete uma mudança intelectual mais ampla entre os que trabalham na questão do desenvolvimento, uma mudança que abrange não apenas as estratégias de crescimento, mas também a saúde, educação e outras políticas sociais. A estrutura política tradicional que o novo raciocínio substitui gradualmente é de suposição, em vez de diagnóstica.

Começa com fortes pressuposições sobre a natureza do problema: regulamentação excessiva (ou insuficiente), governança muito fraca, investimentos públicos baixos demais em saúde e educação e assim por diante. Além disso, suas recomendações assumem a forma de uma lista de lavanderia, enumerando instruções item a item, e enfatizam sua natureza complementar - a necessidade de serem adotadas simultaneamente, sem ordenar e atribuir prioridades. A estrutura também se inclina a receitas universais - o “modelo” de disposição institucional, “boas práticas”, princípios básicos e assim por diante.

Ficaram de fora as afirmações confiantes sobre as virtudes da desregulamentação,
da liberalização, privatização e livres mercados, sem contexto.

Em contraste, a mentalidade da nova política começa com certo agnosticismo sobre o que pode funcionar ou não. Sua hipótese é a de que há grandes doses de “descuido” nos países pobres, portanto mudanças simples podem trazer grande diferença. Como resultado, é explicitamente diagnóstica e foca-se nos gargalos e limitações econômicas mais significativas. Em vez de uma reforma abrangente, enfatiza a experimentação política e iniciativas de alcance relativamente estreito, de forma a descobrir soluções locais. Também prega a monitoração e avaliação para que se aprenda quais experimentos funcionam bem.

A nova abordagem desconfia de antídotos universais. Em vez disso, busca inovações políticas que tragam atalhos contornando a economia local ou complicações políticas. A tática é influenciada fortemente pelo gradualismo experimental da China, em prática desde 1978 - o episódio mais espetacular de crescimento econômico e redução da pobreza já visto pelo mundo.

O relatório Spence é um documento consensual e, portanto, alvo fácil para ataques gratuitos. Não traz “grandes idéias” próprias e, às vezes, tenta demasiadamente agradar a todos e cobrir todos os ângulos possíveis. Mas, como Spence coloca ao comentar a própria questão da reforma econômica, são necessários pequenos passos para fazer uma grande diferença no longo prazo. É um feito e tanto ter alcançado o grau de consenso que ele conseguiu em torno a um conjunto de idéias que se desvia tão marcadamente da abordagem tradicional.

É de creditar-se a Spence o fato de o informe conseguir evitar tanto o fundamentalismo de mercado como o fundamentalismo institucional. Em vez de oferecer respostas fáceis, como “apenas deixe os mercados funcionarem” ou “simplesmente corrija a governança”, destaca acertadamente que cada país precisa elaborar seu próprio conjunto de soluções. Economistas estrangeiros e agências de auxílio financeiro podem fornecer alguns dos ingredientes, mas apenas o próprio país pode dar a receita.

Se há um novo Consenso de Washington, é que o livro de regras precisa ser escrito em casa, não em Washington. E isso é um verdadeiro progresso.

Dani Rodrik é professor de Economia Política da Escola de Governo John F. Kennedy na Universidade Harvard, foi o primeiro agraciado com o Prêmio Albert O. Hirschman do Conselho de Pesquisa de Ciências Sociais. Seu mais recente livro é “One Economics, Many Recipes: Globalization, Institutions, and Economic Growth”. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org

19/09/2007 - 14:08h Europa: Protecionismo para fora e liberalismo para dentro

Europa: La Comisión limita el acceso de las empresas extranjeras al sector energético

El País

Separación patrimonial de las actividades de producción y de transmisión y fórmulas de defensa frente a los grandes grupos extracomunitarios. Éstas son las dos propuestas más llamativas del tercer paquete de medidas para la liberalización de los mercados de la energía presentado hoy por la Comisión Europea (CE). El objetivo es doble. Por un lado, evitar que las empresas de fuera de la Unión Europea se aprovechen de la apertura del sector energético y, por otro, recordar la conveniencia de que los grandes grupos del gas y la electricidad no controlen las redes de transporte. En el paquete se incluye, además, el refuerzo de los poderes de los reguladores energéticos nacionales y la creación de una agencia para la cooperación entre estos organismos a escala europea.

“Se trata de proteger la competencia leal entre todos los actores, y eso es algo diferente al proteccionismo”, puntualizó en rueda de prensa el presidente de la CE, José Manuel Durao Barroso, que insistió en que éstas nos son “acciones políticas”.

En concreto, el texto adoptado por el Ejecutivo comunitario incluye una “cláusula internacional” por la que sólo se permitirá a las empresas energéticas extranjeras hacerse con el control de redes de transporte de energía en la Unión Europea (UE), si respetan las mismas reglas que sus competidores comunitarios. Para asegurar esto, la CE propone que únicamente las empresas energéticas de aquellos países que firmen acuerdos en este ámbito con la UE podrán operar los gasoductos y las redes eléctricas.

Estas medidas impedirían a empresas como la rusa Gazprom, principal suministrador de gas de la UE, hacerse con el control de las redes europeas de transporte de energía, un escenario temido en varios Estados miembros.

Las “duras condiciones” -en palabras de Barroso- que se impondrán a las empresas extranjeras pretenden evitar que éstas se aprovechen de las nuevas normas que tendrán que cumplir los grupos energéticos europeos.

Separación de funciones

Porque de aprobarse la propuesta presentada hoy por la CE, los gigantes europeos del gas y de la electricidad tendrán que deshacerse de sus redes de transporte si quieren seguir produciendo y comercializando energía, en un intento por parte de la CE de impulsar la competencia en el sector e incentivar la inversión.

La fuerte oposición a esta medida por parte de gigantes como la alemana E.ON y las francesas EDF y Gaz de France, y de varios países miembros, con Alemania y Francia a la cabeza, ha llevado a la CE a ofrecer una alternativa, que permitiría a las empresas mantener la propiedad de las redes de transporte, pero gestionadas por entidades totalmente independientes.

En cualquier caso, se mantiene una gran división entre los países que, como España, defienden la separación patrimonial -que sigue siendo la opción preferida de Bruselas-, y los que se oponen.

El comisario de Energía, Andris Piebalgs, expresó en la misma rueda de prensa su confianza en que la negociación pueda concluir en el segundo semestre de 2008, pese a que en ese momento presidirá la Unión Francia, uno de los países más reacios a la iniciativa de Bruselas.

Oposición de la patronal

En este sentido, la patronal europea BusinessEurope consideró hoy que la propuesta de la UE para la liberalización del sector energético supone “un buen paso adelante”, pero puso en duda que sea necesario forzar la desmembración de los grandes grupos para garantizar el correcto funcionamiento de las redes de transporte.

En un comunicado, la asociación que agrupa a los empresarios de la UE recalcó que la separación de las actividades de transmisión es “esencial” para asegurar la igualdad en el acceso a las infraestructuras de transporte e incentivar las inversiones. Pero se preguntó si la mejor manera para conseguirlo es obligar a los grupos que controlan todas las actividades (desde la generación, al transporte y la comercialización) a deshacerse de las redes o establecer un operador independiente, o si basta con aplicar correctamente la legislación vigente.