Fischer-Dieskau: Mahler, Ich atmet einen linden Duft
Ich atmet’einen linden Duft
Ich atmet’einen linden Duft!
Im Zimmer stand
Ein Zweig der Linde,
Ein Angebinde
Von lieber Hand.
Wie lieblich war der Lindenduft!
Wie lieblich ist der Lindenduft!
Das Lindenreis
Brachst du gelinde!
Ich atme leis
Im Duft der Linde
Der Liebe linden Duft.
Tradução para Português:
Eu respirei um suave perfume
Eu respirei um suave perfume!
No meu quarto havia
Um ramo da tília,
Um presente
De uma mão amiga.
Que delicioso era o perfume da tília!
Que delicioso é o perfume da tília!
O rebento da tília
Tu cortaste suavemente!
Eu respiro docemente
No perfume da tília
A agradável fragrância do amor!
traducción en español:
Yo respiré un dulce perfume.
En el cuarto había
una rama de tilo,
un agasajo
de una mano querida.
¡Que agradable era el perfume del tilo!
¡Qué agradable es el perfume del tilo!
La rama del tilo
suavemente tu arrancaste;
respiro levemente
en el perfume del tilo
el dulce perfume del amor.
Prestem atenção ao INTERMEZZO desta semana (a direita na barra vermelha, na parte superior). Quando começam seus primeiros acordes, quase como um reflexo as lágrimas espiam meu coração, pelo canto do olho. Gostaria que esse sentimento, essa alegria misturada com tristeza e introspecção, pudesse ser compartilhado com vocês.
A versão que escolhi é marcante, com a voz de Ian Bostridge e Julius Drake, ao piano. Existem outras versões, como a de Fischer-Diskau, para mim um dos melhores, se não o melhor interprete dos lieders de Schubert, que me deu de assistir precisamente no recital da viagem de inverno. (ver no final do post).
O texto a seguir, do blog A Rendição da Luz, permite de situar a obra de Schubert e os poemas de Müller que compõem os cantos. LF
Es ist eine alte Geschichte,
Doch bleibt sie immer neu;
Und wem sie just passieret,
Dem bricht das Herz entzwei.
É uma história antiga
Que permanece uma novidade;
E o coração da pessoa a quem
sucede parte-se em dois.
Heinrich Heine - Ein Jüngling liebt ein Mädchen
Naquele quarto a meia-luz, Gerald Moore está ao piano e Hans Hotter aproxima-se silenciosamente para nos cantar a viagem de Inverno. Durante esse tempo, Hotter vestirá os andrajos do oprimido Viajante, tropeçando pela neve com a penúria e gravidade de uma voz que se afunda com o desgosto de cada verso. Meu amor, o começo de um verso é como um pequeno tesouro. Escuta como o Viajante deixa as notas pairar na condensação do ar invernil, incapaz de terminar o pensamento, a rima. A voz fraqueja, os joelhos tremem-lhe. O final do verso encontra-o enfim derrotado, lúgubre, afogado na imensidão de um corpo mais vasto.
A história começa antes do primeiro verso. O Viajante abandona a casa da sua amada, impelido por um rasgo de emoção mais teatral e sofredor do que dignamente poético. Com olhos húmidos e dedos trementes, inscreve as palavras “Boa Noite” no portão da sua amada, caminhando pelos corredores da casa de forma a “não perturbar a sua paz“. Lança-se então ao Inverno, um rasto de pegadas a desvanecer-se atrás de si.
O mote está dado. Os 24 poemas de Wilhelm Müller têm o simples nome de Winterreise, ou a Viagem de Inverno, e enformam, a passos incertos e dolorosos, um percurso de exaltação em que um homúnculo de insustentáveis mágoas transitórias supera a pequenez do seu sofrimento. O seu Viajante é um amoroso, partindo da mais cruel das volatilidades humanas para atingir uma iluminação de serenidade. Não significa isso que o desfecho seja feliz. Raramente, de resto, estas coisas o são. Ele, que ama sem ser amado, faz parte daqueles que têm o infortúnio adicional de serem veículos de toda a mágoa glacial da humanidade. Que sentido para uma vida!
Mais tarde, durante a composição deste ciclo de fantasmagóricas melodias, os consortes de Schubert notaram a extraordinária mudança na aparência do seu querido amigo, alimentando a crença – desde então reconfirmada através das eras – de que seria impossível tocar na Winterreise sem pelo menos sofrer fisicamente alguns dos seus sentimentos. Se parece razoável assumir que Müller jamais teria conseguido criar um trabalho de beleza tão singela sem ter atravessado algumas das sensações do seu viajante, já a melancolia Schubertiana parece ser, como um seu companheiro certeiramente colocou a questão, um caso de desespero feliz ou exaltação funesta do artista que toma as rédeas de uma melancolia destruídora para urdir um lied de insustentável beleza.
Globalmente considerada, a Winterreise não contém qualquer defesa laudatória do seu constante negrume e opressão. Cada poema é um memorial do Inverno, do amor, e da solidão, ideias repetidas vinte e três vezes ao longo do ciclo e que à primeira vista poderiam afigurar-se como exageradas, barrocas, e indiscutivelmente germânicas. Será esta língua adequada aos leves sentimentos do espírito? Müller demonstra que sê-lo-á pelo menos quanto às consequências da passagem de um sentimento de graça numa alma sensível. A demonstração disto reside nas imagens simples e duradoiras que o poeta debrua em cada estrofe - parcas em metáfora, ricas em simbolismo - até um dos corações envolvidos no recital de mágoas – pianista, cantor, ouvinte ou leitor – se condoer com uma materialidade muito inquietante. Mergulhados no ciclo de lieder, não há escapatória possível que não contenha estilhaços de gelo; a canção não é sobre o amor mas sobre as suas sequelas, o que a aproxima de uma reflexão universal de uma dor comungada a várias causas.
O irreversível huis-clos porventura atinge o seu expoente mais expressivo com o lindíssimo Der Lindenbaum (A Tília):
Und seine Zweige rauschten, E os seus galhos sussuraram Als riefen sie mir zu: Como se me chamassem: Komm her zu mir, Geselle, Amigo, vem até mim, Hier find’st du deine Ruh’! Aqui encontrarás a tua paz!
Die kalten Winde bliesen Gélidos ventos sopraram Mir grad’ ins Angesicht; então contra o meu rosto; Der Hut flog mir vom Kopfe, O chapéu voou da minha cabeça, Ich wendete mich nicht. E eu não olhei para trás.
Em que até a mais bela recordação de idílios passados (a tília onde o Viajante tantas vezes descansara e “gravara muitas palavras de amor“) se torna num suave convite ao suícídio e sono eterno — por seu turno um espelho dos “numerosos sonhos doces” que à sua sombra tinham outrora sido sonhados. Este poema é reluzente e traiçoeiro como uma escultura de cristal num límpido dia de Inverno, e retribui ao Viajante, numa capa de desespero silencioso e subversivo, tudo aquilo que ele lhe tinha entregue em alegria.
Mas a Winterreise é também um ciclo profundamente masculino. Insultuosamente masculino. É um universo de um homem que não foi amado e que se isola no decurso de uma viagem espiritual. O Viajante é – evidentemente — um cavalheiro afável que teve mesmo o cuidado de abandonar a sua amada com o maior dos silêncios e delicadeza. Mas a premissa está lá, alimentada por tudo aquilo que no-lo torna tão querido: é que ele deveria ter sido amado. É indispensável ter pena dele: que injustiça a sua amada não lhe desferiu! E toda a compaixão que por ele sentimos é por conseguinte uma censura implícita à Mädchen que o rejeitou. Trata-se de um egoísmo inaceitável, e odeio o Viajante por ter escrito as educadas palavras de amor no portão da casa, privando a sua amada de razões para o ressentir. Deseja ele que ela se sinta culpada por não o amar? Sim, é isso mesmo, deseja. Que odioso, por não ter sabido partir em coragem e rotura completa com a pequena vida imaginara partilhar.
Mas, claro, se tivesse feito isso, não haveria poesia.
Ainda assim, repito: detesto-o. Porque aquele egoísmo é demasiado parecido ao meu, mesquinho e natural, instintivo. É o porquê que dilacera o Viajante, é o porque não que o arruína. Tanta desilusão, somente porque persistimos no erro de nos arrogarmos o direito de ser amados?
É mais fácil aceitar e superar o perene desgosto que trespassa o Viajante a cada verso. A Winterreise não é exagerada ou supérflua, não é sequer ridícula, e nem se lhe pode opor uma medição de mágoas que descure o profundo estado de ascese espiritual do seu réprobo protagonista. A revelação final é portanto esta: a viagem é um catalisador de si mesma, desempenhando o papel de um instrumento de interpretação e elevação pessoal num mundo hostil, vasto, infindável. Paisagem e espírito, florestas e alma, neve e mágoa unem-se para exprimir aquilo que isoladamente lhes estaria vedado, no canto dessa alte geschichte que para sempre acompanhará a humanidade como uma sombra ao luar. Acredito mesmo que, a dada altura durante a Winterreise, a sua amada deixe de ser a causa e símbolo completo da sua tristeza.
Então o Viajante encontra-se apenas sozinho, no meio do Inverno, e a neve apaga-o como o faria às notas de um violino numa tempestade.
Dietrich Fischer Dieskau Der Lindenbaum, Die Winterreise
Margaret Price – “Liebst du um Schönheit” do Rückert lieder, de Mahler
If you love for beauty, oh, do not love me!
Love the sun, she has golden hair!
If you love for youth, oh, do not love me!
Love the spring, it is young every year!
If you love for treasure, oh, do not love me!
Love the mermaid, she has many shimmering pearls!
If you love for love, oh yes, do love me!
Love me ever, Ill love you evermore!
Liebst du um Schönheit, o nicht mich liebe!
Liebe die Sonne, sie trägt ein goldnes Haar!
Liebst du um Jugend, o nicht mich liebe!
Liebe den Frühling, der jung ist jedes Jahr!
Liebst du um Schätze, o nicht mich liebe!
Liebe die Meerfrau, sie hat viel Perlen klar!
Liebst du um Liebe, o ja mich liebe!
Dich lieb’ ich immer dar! 4 meses atr
Gustav Mahler (1860-1911)
Lieder eines fahrenden Gesellen (Songs of a Wayfarer)
Lieder cycle for voice and orchestra
Dietrich Fischer-Dieskau, baritono
NHK Symphony Orchestra
Paul Kletzki, regente
(Salle Pleyel, Paris, 1960 ao vivo)
m a h l e r
(1860-1911)
Gustav Mahler nasceu em Kalist (Boêmia) a 7 de junho de 1860. De modesta família judaica, freqüentou durante alguns anos a escola secundária e iniciou em 1875, no Conservatório de Viena, o estudo da música. Em 1880 escreveu a obra coral A canção triste, que tornou conhecido o seu nome.
Foi regente em teatros de pequenas cidades de província e, em 1887, em Leipzig, onde terminou a composição de sua primeira sinfonia. Em 1888 foi nomeado diretor da ópera de Budapeste e em 1891 regente da ópera de Hamburgo, onde suas encenações tiveram muito sucesso.
Em 1897, depois de ter se convertido ao catolicismo, foi nomeado diretor da Ópera Imperial em Viena e eleito regente dos concertos filarmônicos. Os anos seguintes foram um período de sucessos muito grandes, mas também de intrigas contra ele, inclusive da parte da orquestra, que não suportava os inúmeros ensaios a que o regente a submeteu.
Em 1907, Mahler foi forçado a demitir-se. Contratado pela Ópera Metropolitana em Nova Iorque, também foi muito aplaudido. Gravemente doente, do coração e dos nervos, voltou para Viena só para morrer, fato que ocorreu em 18 de maio de 1911.
Mahler foi regente de orquestra da mais alta categoria. Alguns consideram-no o maior regente de todos os tempos, pela dedicação fanática ao trabalho de ensaios e pela fidelidade, no entanto intensamente pessoal, da interpretação das obras. Ajudado por um elenco de grandes cantores e por excelentes cenógrafos, conseguiu representações de perfeição inédita das obras de Mozart e Wagner. As óperas de mestres menores foram apresentadas de tal maneira que pareciam novas obras-primas.
A fama de Mahler como regente eclipsou de longe, durante sua vida, a fama de suas próprias obras sinfônicas. Foram executadas com freqüência, mas sem muito sucesso, rejeitadas pelos conservadores. No entanto, é como compositor que Mahler atingiu a categoria de grande artista.
Em 1885 escreveu Mahler, para textos em estilo popular que ele próprio tinha redigido, as Canções de um caminhante, para uma voz e orquestra, de romantismo intenso quase mórbido. A Sinfonia n.º 1 em ré menor é denominada Titânica, não por ser ‘titânica’, mas conforme o título de um romance de Jean Paul. Ainda é muito romântica, wagneriana e bruckneriana, mas o conteúdo emocional já é outro, obra de um músico intelectualizado e angustiado.
As Canções da cornucópia de um garoto (1888-1899) têm, como textos, canções populares da coleção de Arnin e Brentano. É característica a síntese de melodias que parecem folclóricas, e de um acompanhamento orquestral requintado. Obra-prima é, enfim, a Sinfonia n.º 2 em dó menor (1894), com coro, que manifesta a profunda angústia religiosa do compositor. O ouvinte moderno pensaria em Unamuno.
Seguiram-se, como se fosse alcançada a redenção, a Sinfonia n.º 3 e n.º 4 em sol maior (1900), esta última com um solo com texto de canção popular infantil sobre o céu. Mas são, outra vez, terrivelmente sombrios as Canções sobre a morte da criança (1905), em que Mahler parece ter pressentido a morte, um ano depois, do seu filhinho.
A série das últimas obras começa com a Sinfonia n.º 6 em lá menor (1906), tecnicamente a mais complexa das obras orquestrais do mestre. Enfim, a Sinfonia n.º 8 em mi bemol maior (1907) não é a maior, mas a mais impressionante das obras de Mahler. Foi denominada ‘a sinfonia dos mil’, por que a execução exige várias orquestras e coros, mais de mil figuras. Não é propriamente uma sinfonia, mas antes uma gigantesca cantata. Servem como textos o hino Veni creator spiritus e o coro final da segunda parte do Fausto de Goethe. Nem todos acham que o resultado justifica os colossais recursos exigidos.
A grande obra-prima de Mahler é a Canção da terra (1908), cantata sinfônica sobre textos de Li T’ai Po e outros poetas chineses, na tradução alemã de Hans Bethge. Mahler foi homem de grande cultura literária e filosófica, e de uma intensa predileção pela música autenticamente popular, folclórica. Em sua alma lutaram uma permanente angústia religiosa e dúvidas torturante de intelectual. Tudo isso se manifesta na Canção da terra, que termina com uma comovente canção de despedida para sempre.
Mahler ainda escreveu, depois, a Sinfonia n.º 9 (1910) e a Sinfonia n.º 10 que ficou incompleta, obras de crise em que o compositor se aproxima das fronteiras do sistema tonal.
A grandeza de Mahler como compositor só foi reconhecida depois de sua morte, graças aos esforços de dois regentes que impuseram ao público suas obras: seu discípulo Bruno Walter e o holandês Willem Mengelberg. Seguiu-se curto período de eclipse, quando os nazistas proibiram a execução das obras do mestre de origem judaica. Hoje é Mahler incluído entre os grandes da música, no mundo inteiro.
No Intermezzo desta semana (na barra lateral vermelha a direita na parte superior do blog) a Serenata de Schubert cantada pelo tenor Giuseppe di Stefano. Trata-se de uma adaptação em espanhol, em um filme mexicano de 1953.
As palavras em espanhol são:
“Al claror de triste luna, faro de pesar
el rigor de mi fortuna quiero aumentar.
Todo en paz con blando sueño duerme en derredor
Solo yo, mi dulce dueña, velo con dolor.
Bardo soy que busca errante lauros para ti
pues quedé tu esclavo amante, luego que te vi.
Tu quizá gentil señora, mientras peno yo,
soñaras que fiel te adora, quien infiel nació
Mas te ví por la ventana, ya piedad logré
tu que fuiste ayer tirana premias hoy mi fé…”
Aqui a mesma Serenata na sua versão original em alemão, na voz do tenor Richard Tauber, depois numa versão de Nana Mouskouri e por último na voz da soprano Hei-Kyung Hong.
Luis Favre or Luiz Favre is the nom-de-guerre of Felipe Belisario Wermus (born 1949 Buenos Aires, Argentina). He was, as a young man, an Argentine union militant and member of Politica Obrera. Later he moved to France and became a leading member of the Internationalist Communist Organisation (OCI), a Trotskyist party in France, working especially in its international department. He moved to live in Brazil and is now a member of the PT.He is known to a broader public as the second husband of Marta Suplicy, ex-mayor of São Paulo and now a PT minister. Leia mais em Wikipedia.org http://en.wikipedia.org/wiki/Luis_Favre